Xógun James Clavel Vol. 2 Capitulo 38



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Xógun
James Clavel

Vol. 2


CAPITULO 38
Acompanhado de Naga, Blackthorne arrastava-se desconsoladamente colina abaixo, na direção das duas figuras sentadas sobre futons no centro do anel de guardas. Para além dos guardas estavam os contrafortes das montanhas que se elevavam para um céu coberto de nuvens. O dia estava sufocante. Sua cabeça doía devido à tristeza dos últimos dias, devido à preocupação com Mariko, e devido a fazer muito tempo que só podia conversar em japonês. Agora a reconhecia e parte da sua infelicidade desapareceu.

Fora muitas vezes à casa de Omi ver Mariko ou se informar sobre ela. Os samurais o fizeram sempre dar meia-volta, polida, mas firmemente. Omi lhe dissera como tomodachi, amigo, que ela estava bem.

— Não se preocupe, Anjin-san. Compreende?

— Sim — dissera ele, compreendendo apenas que não podia vê-la.

Então fora chamado por Toranaga e quisera lhe dizer muita coisa, mas por causa da sua falta de palavras falhara em fazer outra coisa que não irritá-lo. Fujiko fora ver Mariko várias vezes. Quando voltava sempre dizia que Mariko estava bem, acrescentando o inevitável "Shinpai suruna, Anjin-san. Wakarimasu? Não se preocupe, compreende?"

Com Buntaro fora como se nada houvesse jamais acontecido. Esboçavam saudações corteses quando se encontravam durante o dia. Além de usar ocasionalmente a casa de banho, Buntaro era como qualquer outro samurai em Anjiro, nem amistoso, nem inamistoso.

Do amanhecer ao pôr-do-sol Blackthorne fora acossado pelo treinamento acelerado. Tivera que eliminar a própria frustração enquanto tentava ensinar e se esforçava por aprender a língua. Ao crepúsculo estava sempre extenuado. Acalorado, transpirando e encharcado de chuva. E sozinho. Nunca se sentira tão só, tão consciente de não pertencer àquele mundo estranho.

Então houvera o horror que começara três dias atrás. Fora um longo dia úmido. Ao pôr-do-sol ele cavalgara exausto para casa e imediatamente sentira que havia algum problema permeando pela casa. Fujiko o saudara nervosamente.

— Nan desu ka?

Ela respondera em voz baixa, longamente, de olhos baixos.

— Wakarimasen. Nan desu ka? — perguntou ele de novo, impaciente, a fadiga deixando-o irritável.

Ela o chamara com um gesto para o jardim. Apontou para os beirais do telhado, mas a armação lhe pareceu sólida o bastante. Mais palavras e sinais, e finalmente lhe ficara claro que ela estava apontando para o local onde ele pendurara o faisão.

— Oh, esqueci disso! Watashi... — Mas não conseguiu se lembrar de como dizer, então se limitou a dar de ombros, exausto. — Wakarimasu. Nan desu kiji ka? Compreendo. Que tal o faisão?

Os criados o espiavam de portas e janelas, visivelmente petrificados. Ela falou de novo. Ele se concentrou, mas as suas palavras não fizeram sentido algum.

— Wakarimasen, Fujiko-san. Não compreendo.

Ela tomou fôlego profundamente, depois, trêmula, imitou alguém removendo o faisão, levando-o embora e enterrando-o.

— Ahhhh! Wakarimasu, Fujiko-san. Wakarimasu! Estava ficando estragado? — perguntou. Como não sabia as palavras em japonês, apertou o nariz e fez como se estivesse sentindo mau cheiro.

— Hai, hai, Anjin-san. Dozo gomen nasal, gomen nasai. — Ela emitiu o som de moscas e, com as mãos, pintou o quadro de uma nuvem zumbindo.

— Ah so desu! Wakarimasu. — Em outra ocasião ele se teria desculpado e, se conhecesse as palavras, teria dito: sinto muito pelo inconveniente. Em vez disso sacudiu os ombros, aliviou a dor nas costas, e resmungou: — Shikata ga nai — querendo apenas mergulhar no êxtase do banho e da massagem, a única alegria que tornava a vida possível. — Que vá para o inferno — disse em inglês, voltando-se. — Se eu tivesse estado aqui durante o dia, teria notado isso. Que vá para o inferno!

— Dozo, Anjin-san?

— Shikata ga nai — repetiu mais alto.

— Ah so desu, arigato goziemashita.

— Dare toru desu ka? Quem o pegou?

— Ueki-ya.

— Oh, aquele velho sodomita! — Ueki-ya, o jardineiro, o velho gentil e sem dentes que cuidava das plantas com as mãos amorosas e embelezava o jardim.

— Yoi. Motte kuru Ueki-ya. Ótimo, vá buscá-lo.

Fujiko meneou a cabeça. Seu rosto se tornara branco como giz.

— Ueki-ya shinda desu, shinda desu! — sussurrou ela.

— Ueki-ya ga shindato? Donoyoni? Doshité? Doshité shindanoda? Como? Por quê? Como ele morreu?

A mão dela apontou para o lugar onde o faisão estivera e falou muitas palavras gentis e incompreensíveis. Depois imitou o corte de uma espada.

— Jesus Cristo! Deus! Você condenou aquele velho à morte por causa de um maldito faisão fedorento?

Imediatamente todos os criados se precipitaram para o jardim e caíram de joelhos. Colocaram a cabeça no pó e se imobilizaram, até os filhos do cozinheiro.

— Que diabos está acontecendo? — Blackthorne estava quase encolerizado.

Fujiko esperou estoicamente até que estivessem todos lá, então também se ajoelhou e se curvou, como samurai, não como camponesa. — Gomen nasai, doto gomen na...

— Sífilis nos seus gomen nasai! Que direito tinha você de fazer isso? Hein? — e começou a cobri-la de impropérios, odiosamente. — Por que, em nome de Cristo, não me perguntou antes? Hein?

Ele lutou para recobrar o controle, cônscio de que todos os seus criados sabiam que legalmente ele podia retalhar Fujiko e todos eles em pedaços ali no jardim por terem lhe causado tanto dissabor, ou por nenhuma razão em absoluto, e que nem o próprio Toranaga poderia interferir no modo como ele conduzia a sua casa.

Viu que uma das crianças tremia de terror e pânico.

— Jesus Cristo do paraíso, dê-me forças... — Agarrou-se a um dos pilares para se firmar. — A culpa não é sua — exclamou, a voz estrangulada, sem perceber que não estava falando japonês. — É dela! É você! Sua cadela assassina!

Fujiko levantou os olhos lentamente. Viu o dedo acusador e o ódio no rosto dele. Sussurrou uma ordem à criada, Nigatsu.

Nigatsu balançou a cabeça e começou a suplicar.

— Ima!

A criada saiu correndo. Voltou com a espada mortífera, lágrimas escorrendo-lhe pela face. Fujiko pegou a espada e estendeu-a a Blackthorne com as duas mãos. Falou e, embora ele não conhecesse todas as palavras, sabia o que ela estava dizendo. — Sou responsável, por favor, tire-me a vida porque eu o desagradei.



— IYÉ! — Ele agarrou a espada e atirou-a longe. — Acha que isso vai trazer Ueki-ya de volta à vida?

Então, de repente, percebeu o que tinha feito e o que estava fazendo agora. — Oh, Jesus...

Foi embora. Em desespero dirigiu-se para o penhasco acima da aldeia, perto do santuário que ficava ao lado do velho cipreste, chorou.

Chorou porque um homem morrera desnecessariamente e porque sabia agora que fora ele quem o assassinara. — Senhor Deus, perdoe-me. Sou o responsável, não Fujiko. Eu o matei. Ordenei que ninguém tocasse no faisão além de mim. Perguntei-lhe se todos haviam compreendido e ela disse que sim. Dei a ordem com seriedade zombeteira, mas isso não importa agora. Eu dei as ordens, conhecendo a lei deles e sabendo qual era o costume. O velho desrespeitou a minha ordem estúpida, então o que mais Fujiko-san podia fazer? Sou eu quem deve ser acusado.

Com o tempo as lágrimas foram se esgotando. Era noite alta quando ele retornou à casa.

Fujiko o esperava como sempre, mas sozinha. A espada estava atravessada no colo dela. Ofereceu-a a ele.

— Dozo... dozo, Anjin-san.

— Iyé — disse ele, pegando a espada do modo como se devia pegar uma espada. — Iyé, Fujiko-san. Shikata ga nai, neh? Karma, neh? — Tocou-a com a mão como desculpas. Sabia que ela tivera que suportar o pior pela estupidez dele.

As lágrimas dela jorraram.

— Arigato, arigato go-gozaimashita, Anjin-san — disse ela entrecortadamente. — Gomen nasai...

O coração dele enterneceu-se.

Sim, pensou Blackthorne com grande tristeza, sim, mas isso não o desculpa nem elimina a humilhação dela, ou traz Ueki-ya de volta à vida. Você deve ser acusado. Devia ter pensado melhor...

— Anjin-san! — disse Naga.

— Sim? Sim, Naga-san? — Ele se arrancou do seu remorso, olhou para o jovem que caminhava ao seu lado. — Desculpe, que disse?

— Eu disse que esperava ser seu amigo.

— Ah, obrigado.

— Sim, e talvez o senhor... — Houve uma confusão de palavras que Blackthorne não compreendeu.

— Por favor?

— Ensinar, neh? Compreende "ensinar"? Ensinar sobre o mundo?

— Ah, sim, desculpe. Ensinar o quê, por favor?

— Sobre terras estrangeiras... terras lá de fora. O mundo, neh?

— Ah, compreendo agora. Sim, tentar.

Estavam perto dos guardas agora.

— Começar amanhã, Anjin-san. Amigos, neh?

— Sim, Naga-san. Tentar.

— Ótimo. — Muito satisfeito, Naga assentiu. Quando chegaram junto aos samurais, Naga ordenou-lhes que saíssem do caminho, fazendo sinal a Blackthorne que prosseguisse sozinho. Ele obedeceu, sentindo-se muito só no círculo de homens.

— Ohayo, Toranaga-sama.

— Ohayo, Mariko-san — disse, juntando-se a eles.

— Ohayo, Anjin-san. Dozo suwatte. Bom dia, Anjin-san, por favor, sente-se.

Mariko sorriu-lhe.

— Ohayo, Anjin-san. Ikaga desu ka?

— Yoi, domo. — Blackthorne retribuiu-lhe o olhar, muito contente de que ela estivesse ali. — A sua presença enche-me de alegria, de grande alegria — disse em latim.

— E a sua a mim... é muito bom vê-lo. Mas há uma sombra no senhor. Por quê?

— Nan ja? — perguntou Toranaga.

Ela lhe contou o que fora dito. Toranaga grunhiu, depois falou.

— Meu amo diz que o senhor parece preocupado, Anjin-san. Devo concordar com ele. Ele pergunta o que o está perturbando.

— Não é nada. Domo, Toranaga-sama. Nani-mo. Não é nada.

— Nan ja? — perguntou Toranaga diretamente. — Nan ja?

Obedientemente Blackthorne respondeu de imediato:

— Ueki-ya — disse. — Hai, Ueki-ya.

— Ah so desu! — Toranaga falou longamente a Mariko.

— Meu amo diz que não há necessidade de se preocupar com o Velho Jardineiro. Ele me pede que lhe diga que oficialmente está tudo resolvido. O Velho Jardineiro compreendeu perfeitamente o que estava fazendo.

— Eu não compreendo.

— Sim, seria muito difícil para o senhor, mas, veja, Anjin-san, o faisão estava apodrecendo ao sol. As moscas estavam enxameando terrivelmente. A sua saúde, a saúde da sua consorte e a de toda a sua casa estavam sendo ameaçadas. Além disso, sinto muito, tinha havido algumas queixas muito cautelosas e particulares do criado-chefe de Omi-san, e de outros. Uma das nossas regras mais importantes é que o indivíduo não pode nunca perturbar a wa, a harmonia, do grupo, lembra-se? Por isso alguma coisa tinha que ser feita. Veja, a decomposição, o mau cheiro da decomposição, é revoltante para nós. É o pior odor do mundo para nós, sinto muito. Tentei lhe dizer, mas... bem, é uma das coisas que nos deixam a todos um pouco malucos. O seu criado chefe...

— Por que alguém não me procurou imediatamente? Por que alguém simplesmente não me disse? — perguntou Blackthorne. — O faisão não tinha importância alguma para mim.

— O que havia a dizer? O senhor tinha dado ordens. É o cabeça da sua casa. Eles não conheciam os seus costumes nem o que fazer, senão isso, procure entender o dilema de acordo com os nossos costumes. — Ela falou um instante a Toranaga, explicando o que Blackthorne dissera, depois voltou-se para ele de novo. — Isso o está afligindo? Quer que eu continue?

— Sim, por favor, Mariko-san.

— Tem certeza?

— Sim.

— Bem, então, o seu criado-chefe, o Pequeno Cozinheiro Dentuço, convocou uma reunião dos seus criados, Anjin-san. Mura, o chefe da aldeia, foi convidado a participar oficialmente. Decidiu-se que os etas da aldeia não podiam ser solicitados a levá-lo embora. Tratava-se apenas de um problema doméstico. Um dos criados tinha que pegá-lo e enterrá-lo, apesar de o senhor ter dado ordens absolutas de não mexerem no faisão. Obviamente a sua consorte era forçada pelo dever a providenciar que suas ordens fossem obedecidas. O Velho Jardineiro pediu para ter permissão de levá-lo embora. Ultimamente ele vinha vivendo e dormindo com grande sofrimento por causa do abdome, e achava muito fatigante ajoelhar-se, carpir e plantar, e não conseguia fazer esse trabalho de modo satisfatório para si mesmo. O Terceiro Cozinheiro Assistente também se ofereceu, dizendo que era muito jovem e estúpido, e que tinha certeza de que a vida não contava nada diante de um assunto tão grave. Finalmente, e o Velho Jardineiro recebeu a honra. Realmente foi uma grande honra, Anjin-san. Com grande solenidade, todos se curvaram para ele, que retribuiu a reverência, e alegremente levou a coisa embora e enterrou-a para grande alívio de todos.



"Quando voltou, dirigiu-se diretamente a Fujiko-san e disse-lhe o que fizera, que desobedecera à sua lei, neh? Ela lhe agradeceu por remover o perigo, depois disse-lhe que esperasse. Procurou-me para pedir conselho e perguntou-me o que devia fazer. O assunto fora resolvido formalmente, portanto teria que ser tratado formalmente. Eu lhe disse que não sabia, Anjin-san. Perguntei a Buntaro-san, mas ele também não sabia. Era complicado, por sua causa. Então ele perguntou ao Senhor Toranaga. O Senhor Toranaga viu a sua consorte pessoalmente."

Mariko voltou-se para Toranaga e contou-lhe em que ponto da história se encontrava, conforme ele solicitara. Toranaga falou rapidamente. Blackthorne observava-os, a mulher tão pequena, amável e atenta, o homem compacto, pétreo, o sash apertado em torno da grande cintura. Toranaga não falava com as mãos como muitos faziam, mas mantinha-as imóveis, a esquerda apoiada na coxa, a outra sempre no punho da espada.

— Hai, Toranaga-sarna. Hai. — Mariko olhou para Blackthorne e continuou. — Nosso amo pede-me que lhe explique, sinto muito, que se o senhor fosse japonês não teria havido dificuldade, Anjin-san. O Velho Jardineiro simplesmente teria se dirigido ao cemitério para receber sua libertação. Mas, por favor, perdoe-me, o senhor é um estrangeiro, embora o Senhor Toranaga o tenha feito hatamoto, um dos seus vassalos pessoais, e era uma questão de decidir se o senhor era legalmente samurai ou não. Fico honrada em lhe dizer que ele estabeleceu que o senhor é samurai e tem direitos de samurai. Portanto foi tudo resolvido imediatamente e simplificado. Um crime tinha sido cometido. Suas ordens tinham sido deliberadamente desobedecidas. A lei é clara. Não há opção. — Ela estava séria agora. — Mas o Senhor Toranaga conhece a sua suscetibilidade a matanças, então, para poupar-lhe o sofrimento, ordenou pessoalmente a um de seus samurais que enviasse o Velho Jardineiro para o Vazio.

— Por que alguém não me perguntou antes? Aquele faisão não significava nada para mim.

— O faisão não tem nada a ver, Anjin-san — explicou ela. — O senhor é o cabeça da casa. A lei diz que nenhum membro da sua casa pode desobedecer-lhe. O Velho Jardineiro deliberadamente infringiu a lei. O mundo todo cairia em pedaços se as pessoas fossem autorizadas a desconsiderar a lei. O seu...

Toranaga interrompeu e falou com ela. Ela ouviu, respondeu a algumas perguntas, depois ele lhe fez sinal que continuasse.

— Hai. O Senhor Toranaga quer que eu lhe assegure que providenciou pessoalmente para que o Velho Jardineiro tivesse a morte rápida, indolor e honrada que merecia. Até emprestou ao samurai a sua própria espada, que é muito afiada. E devo dizer-lhe que o Velho Jardineiro ficou muito orgulhoso de, em seus dias de outono, ser capaz de ajudar a sua casa, Anjin-san, orgulhoso por ter ajudado a estabelecer o seu status de samurai diante de todos. Acima de tudo ficou orgulhoso com a honra que lhe foi prestada. Os executores públicos não foram utilizados, Anjin-san. O Senhor Toranaga quer que eu deixe isso bem claro para o senhor.

— Obrigado, Mariko-san. Obrigado por deixar claro. — Blackthorne voltou-se para Toranaga, curvou-se muito corretamente. — Domo, Toranaga-sama, domo arigato. Wakarimasu. Domo.

Toranaga retribuiu a mesura adequadamente.

— Yoi, Anjin-san. Shinpai suru mono wa nai, neh? Shikata ga nai, neh? Ótimo. Agora não se preocupe, hein? O que poderia fazer, hein?

— Nannimo. Nada.

Blackthorne respondeu às perguntas que Toranaga lhe fez sobre o treinamento dos mosquetes, mas nada do que disseram o atingiu. Sua mente vacilava sob o impacto do que lhe haviam informado. Ele insultara Fujiko diante de todos os criados e ofendera a confiança da criadagem, quando Fujiko fizera apenas o que era certo e o mesmo fizeram os criados.

Fujiko era irrepreensível. São todos irrepreensíveis. Menos eu.

Não posso desfazer o que foi feito. Nem a Ueki-ya nem a ela. Ou a eles.

Como posso viver com essa vergonha?

Sentou-se de pernas cruzadas diante de Toranaga, a leve brisa do mar batendo-lhe no quimono, espadas ao sash. Entorpecido, ouvia e respondia e nada tinha importância. A guerra se aproxima, dizia ela. Quando? Perguntava ele. Muito em breve, dizia ela, portanto o senhor deve partir comigo imediatamente, deve acompanhar-me parte do trajeto, Anjin-san, porque vou para Osaka, mas o senhor vai seguir para Yedo, por terra, a fim de preparar o seu navio para a guerra.

Repentinamente o silêncio foi colossal. Então a terra começou a tremer.

Blackthorne sentiu os pulmões prestes a explodir, e cada fibra do seu ser gritando em pânico. Tentou se levantar, mas não conseguiu, e viu que todos os guardas estavam igualmente indefesos. Toranaga e Mariko desesperadamente se agarravam ao chão com as mãos e pés. O estrondo retumbante, catastrófico, vinha da terra e do céu. Rodeou-os, crescendo sempre mais, até seus tímpanos estarem prestes a se fender. Eles se tornaram parte do delírio. Por um instante o troar cessou, o abalo continuando.

Ele sentiu o vômito elevando-se, sua mente incrédula guinchando que aquilo era terra, onde era firme e seguro, não o mar, onde o mundo balançava a cada momento. Cuspiu para limpar o gosto repugnante na boca, agarrando-se à terra trêmula, com ânsias de vômitos cada vez mais fortes.

Uma avalanche de rocha começou a despencar da montanha ao norte, inundando o vale com o estrondo e aumentando o tumulto. Parte do acampamento dos samurais desapareceu. Blackthorne tateou o chão com as mãos e joelhos, Toranaga e Mariko fazendo o mesmo. Ouviu a si mesmo gritando, mas nenhum som pareceu sair dos seus lábios ou dos deles.

O tremor parou.

A terra estava firme de novo, firme como sempre estivera, firme como sempre deveria estar. As mãos e joelhos dele, e o corpo, tremiam descontroladamente. Ele tentou imobilizá-los e recuperar o fôlego.

Então novamente a terra se pôs a rugir. O segundo abalo começou. Foi mais violento. A terra rasgou-se na extremidade do altiplano. A fenda escancarou-se na direção deles a uma velocidade inacreditável, passou a cinco passos de distância, e seguiu em frente. Os olhos incrédulos de Blackthorne viram Toranaga e Mariko cambaleando à beira da fissura onde deveria haver chão sólido. Como que num pesadelo, ele viu Toranaga, mais próximo da goela, começar a perder o equilíbrio. Saiu do seu estupor, deu um pulo para a frente. Sua mão direita agarrou o sash de Toranaga, a terra tremendo como uma folha ao vento.

A fenda tinha vinte passos de profundidade e dez de largura, tresandava a morte. Lama e rochas se precipitavam para o fundo, arrastando Toranaga e ele consigo. Blackthorne lutou para se agarrar com pés e mãos, aflito por ajudar Toranaga, quase puxado para baixo, para o abismo. Ainda parcialmente atordoado, Toranaga cravou os artelhos na face da parede e, meio arrastado meio carregado por Blackthorne, arrancou-se para fora. Ambos caíram deitados ofegantes, em segurança.

Nesse momento houve outro abalo.

A terra fendeu-se de novo. Mariko gritou. Tentou se arrastar para fora do caminho, mas essa nova racha engoliu-a. Desesperado Blackthorne rastejou até a borda, os abalos subseqüentes fazendo-o perder o equilíbrio. Na beirada, olhou para baixo. Ela tiritava sobre uma saliência alguns pés abaixo enquanto o chão balançava o céu parecia vir abaixo. O abismo tinha trinta pés de profundidade, dez de largura. A borda desintegrou-se sob os pés dele.

Ele se deixou deslizar, lama e pedras quase o cegando, e agarrou Mariko, puxando-a para a segurança de outra saliência. Juntos lutaram para se equilibrar. Um novo choque. A saliência cedeu quase totalmente e eles se viram perdidos. Então a mão de ferro de Toranaga agarrou-o pelo sash, detendo-lhes o escorregão para o inferno.

— Pelo amor de Cristo... — gritou Blackthorne, os braços quase arrancados das articulações enquanto segurava Mariko e lutava com os pés e a mão livre à procura de pontos de apoio. Toranaga o manteve firme até se encontrarem numa estreita saliência de novo, depois o sash se rompeu. A pausa de um momento no tremor deu tempo a Blackthorne de trazer Mariko para a saliência, detritos chovendo sobre eles. Toranaga saltou para a segurança, gritando-lhe que se apressasse. O abismo soltou um lamento e começou a se fechar, Blackthorne e Mariko ainda no fundo de sua goela. Toranaga já não podia ajudar. O terror de Blackthorne emprestou-lhe uma força inumana e de algum modo ele conseguiu arrancar Mariko do túmulo e empurrá-la para cima. Toranaga agarrou-a pelo pulso e içou-a para a borda. Blackthorne arrastou-se atrás dela, mas cambaleou para trás quando parte de sua parede desabou. A parede oposta rangia aproximando-se. Lama e pedras despencavam dela. Por um instante ele pensou estar liquidado, mas conseguiu rastejar às apalpadelas para fora da sua sepultura. Deitou-se na borda que estremecia, os pulmões tragando ar, incapaz de rastejar para fora, as pernas dentro da fenda. A brecha estava se fechando. E parou - com uma boca de seis passos e oito de profundidade.

O ribombar cessou totalmente. A terra firmou-se. Fez-se silêncio.

De quatro, indefesos, eles esperaram que o horror recomeçasse. Blackthorne começou a se levantar, o suor pingando.

— Iyé — Toranaga fez-lhe sinal que ficasse no chão, seu rosto uma sujeira só, um corte cruel na têmpora, no ponto onde sua cabeça se chocara com uma rocha.

Estavam todos resfolegando, o peito arfando, bile na boca. Os guardas estavam se recobrando. Alguns começaram a correr na direção de Toranaga.

— Iyé! — gritou ele. — Maté! Esperem!

Obedeceram e se puseram de quatro novamente. A espera pareceu se prolongar para sempre. Então um pássaro piou numa árvore e lançou-se ao ar, guinchando. Outro pássaro o seguiu. Blackthorne sacudiu a cabeça para limpar o suor dos olhos. Viu suas unhas quebradas, as pontas dos dedos sangrando, agarrando os tufos de grama. Então, na grama, uma formiga se moveu. E outra e outra. Começaram a cata de alimento.

Ainda assustado, ele se sentou sobre os calcanhares. Quando estará seguro?

Mariko não respondeu. Estava hipnotizada pela fenda no chão. Ele se arrastou para junto dela.

— Está se sentindo bem?

— Sim... sim — disse ela, sem fôlego. Tinha o rosto borrado de lama. O quimono estava rasgado e imundo. Perdera as duas sandálias e um tabi. E a sombrinha. Ele a ajudou a se afastar da borda, ainda aturdida.

Depois olhou para Toranaga.

— Ikaga desu ka?

Toranaga não tinha condições de falar, o peito opresso, os braços e as pernas cobertos de escoriações. Apontou. A fenda que quase o engolira agora não era mais que uma vala no solo. Ao norte a vala abria-se numa ribanceira novamente, mas não tão larga quanto fora, nem tão profunda. Blackthorne sacudiu os ombros.

— Karma.


Toranaga arrotou sonoramente, depois pigarreou, cuspiu e arrotou de novo. Isso ajudou a voz a sair e uma torrente de insultos derramou-se por sobre a vala, seus dedos ásperos apontando para ela. Embora Blackthorne não conseguisse compreender todas as palavras, Toranaga estava claramente dizendo conforme um japonês o faria:

— A sífilis no karma, a sífilis no terremoto, a sífilis na vala! Perdi as minhas espadas e a sífilis nisso!

Blackthorne explodiu numa gargalhada, consumido pelo alívio de estar vivo e pela estupidez de tudo aquilo. Um instante, e Toranaga riu também, e sua hilaridade contagiou Mariko.

Toranaga pôs-se de pé. Cautelosamente. Depois, aquecido pela alegria de viver, começou a fazer micagens para a vala, ridicularizando a si mesmo e ao abalo. Parou, fez sinal a Blackthorne que se juntasse a ele e se pôs de pernas abertas sobre a vala; abriu a tanga e, ainda dominado pelo riso, disse a Blackthorne que fizesse o mesmo. Blackthorne obedeceu e os dois homens tentaram urinar na vala. Mas não saiu nada, nem uma gota. Tentaram intensamente, o que lhes aumentou o riso e os bloqueou ainda mais. Finalmente tiveram êxito e Blackthorne sentou-se para recobrar forças, reclinando-se e apoiando-se nas mãos. Quando se recuperou um pouco, voltou-se para Mariko.

— O terremoto terminou definitivamente, Mariko-san?

— Até o próximo abalo, sim. — Ela continuou a limpar a lama das mãos e do quimono.

— É sempre assim?

— Não. Às vezes é bem leve. Às vezes há uma série de abalos após um bastão de tempo ou um dia, ou meio bastão ou meio dia. Às vezes há apenas um abalo — nunca se sabe, Anjin-san. Terminou até que comece de novo. Karma, neh?

Os guardas os observaram sem se mover, esperando pela ordem de Toranaga. Ao norte havia incêndio assolando a rústica coberta do acampamento. Samurais combatiam o fogo e escavavam as rochas da avalanche para encontrar os soterrados. Ao leste, Yabu, Omi e Buntaro encontravam-se com outros guardas ao lado da extremidade oposta da fenda, intactos com exceção de algumas contusões, também à espera de serem chamados. Igurashi desaparecera. A terra o tragara.

Blackthorne deixou-se devanear. Seu auto-desdém desaparecera e ele se sentiu totalmente sereno e inteiro. Agora sua mente demorava-se orgulhosamente no fato de ele ser samurai, e em ir para Yedo, no seu navio, na guerra, no Navio Negro, e de novo na sua condição de samurai. Deu uma olhada em Toranaga e teria gostado de lhe fazer muitas perguntas, mas notou que o daimio estava perdido em seus próprios pensamentos, e sabia que seria descortês perturbá-lo. Há muito tempo, pensou ele contente, e olhou para Mariko. Estava arrumando o cabelo e o rosto, por isso ele desviou o olhar. Deitou-se de comprido e olhou para o céu, sentindo a terra cálida às costas, esperando pacientemente.

Toranaga falou, sério agora.

— Domo, Anjin-san, neh? Domo.

— Dozo, Toranaga-sama. Nani-mo. Hombun, neh? Por favor, Toranaga-sama, não foi nada. Dever.

Então, sem saber muitas palavras e querendo ser preciso, disse:

Mariko-san, quer explicar por mim? Acho que compreendo agora o que a senhora e o Senhor Toranaga querem dizer com karma e a estupidez de se preocupar com o que é. Muita coisa parece mais clara. Não sei porquê, talvez seja porque nunca me senti tão aterrorizado, talvez isso me tenha limpado a cabeça, mas parece que estou pensando mais claro. É... bem, como o Velho Jardineiro. Sim, a culpa foi toda minha e sinto muitíssimo, realmente, mas aquilo foi um engano, não foi uma escolha deliberada de minha parte. É. Portanto nada pode ser feito a respeito. Há um momento atrás estávamos todos quase perdidos. Portanto toda aquela preocupação e mágoa foi um desperdício, não foi? Karma. Sim, sei o que é karma agora. Compreende?

— Sim. — E traduziu para Toranaga. — Ele disse: "Ótimo, Anjin-san. Karma é o começo do conhecimento. Depois é a paciência. A paciência é muito importante. Os fortes são os pacientes, Anjin-san. Paciência quer dizer conter a própria inclinação para as sete emoções: ódio, adoração, alegria, ansiedade, cólera, pesar, medo. Se você não dá passagem aos sete, você é paciente, depois você logo compreenderá todo tipo de coisas e estará em harmonia com a Eternidade".

— Acredita nisso, Mariko-san?

— Sim. Muitíssimo. Tento, também, ser paciente, mas é difícil.

— Concordo. Isso também é wa, harmonia, a sua "tranqüilidade", neh?

— Sim.


— Diga a ele que lhe agradeço realmente pelo que fez ao Velho Jardineiro. Antes eu não agradeci, não de coração. Diga-lhe isso.

— Não é preciso, Anjin-san. Ele já sabia que o senhor ia apenas ser polido.

— Como sabia?

— Eu lhe disse que ele é o homem mais sábio do mundo.

Ele sorriu.

— Aí está — disse ela — a sua idade desapareceu de novo. — E acrescentou em latim: — O senhor é o senhor mesmo de novo, e melhor do que antes!

— Mas a senhora é linda, como sempre.

Os olhos dela animaram-se e ela os desviou de Toranaga. Blackthorne viu isso e notou-lhe a cautela. Pôs-se de pé e olhou dentro da fenda recortada. Cuidadosamente saltou dentro dela e desapareceu.

Mariko levantou-se com dificuldade, momentaneamente temerosa, mas Blackthorne logo voltou à superfície. Nas mãos trazia a espada de Fujiko. Estava embainhada, embora coberta de lama e arranhada. A espada curta desaparecera.

Ajoelhou-se diante de Toranaga e ofereceu a espada do modo como uma espada devia ser oferecida.

— Dozo, Toranaga-sama — disse simplesmente. — Samurai kara samurai he, neh? Por favor, Senhor Toranaga, de um samurai para o outro, hein?

— Domo, Anjin-san. — O senhor do Kwanto aceitou a espada e enfiou-a no sash. Depois sorriu, inclinou-se para a frente, e deu um tapinha no ombro de Blackthorne. — Tomo, neh? Amigo, hein?

— Domo. — Blackthorne olhou a distância. Seu sorriso extinguiu-se. Uma nuvem de fumaça erguia-se por sobre a elevação, acima de onde a aldeia devia estar. Imediatamente perguntou a Toranaga se podia partir, para se certificar de que Fujiko estava bem.

— Ele diz que sim, Anjin-san. E devemos vê-lo ao pôr-do-sol na fortaleza, para a refeição noturna. Há algumas coisas que ele deseja discutir com o senhor.

Blackthorne voltou à aldeia. Estava devastada, o curso da estrada estava irreconhecível, a superfície despedaçada. Mas os botes estavam ilesos. Muitos incêndios ainda ardiam. Aldeãos carregavam baldes de areia e de água. Ele dobrou a esquina. A casa de Omi oscilava como bêbada no seu lado da colina. A sua era uma ruína fumegante.

CAPITULO 39
Fujiko se ferira. Nigatsu, a criada, estava morta. O primeiro abalo fizera desabar os pilares centrais da casa, espalhando as brasas do fogo da cozinha, Fujiko e Nigatsu tinham sido atingidas por uma das vigas caídas e as chamas transformaram Nigatsu numa tocha. Fujiko fora arrancada de sob a trave. Um dos filhos do cozinheiro também fora morto, mas o resto dos criados sofrera apenas escoriações e alguns membros torcidos. Ficaram todos exultantes ao descobrir que Blackthorne estava vivo e incólume.

Fujiko estava deitada sobre um futon poupado às chamas, perto da cerca do jardim intacta, semi-consciente. Quando também ela viu que Blackthorne estava incólume, quase chorou.

— Agradeço a Buda que o senhor não esteja ferido, Anjin-san — disse debilmente. Ainda parcialmente em choque, tentou se levantar, mas ele ordenou que não se movesse. As pernas e a base das costas dela estavam com sérias queimaduras. Um médico já a estava tratando, enrolando bandagens embebidas de chá e outras ervas em torno dos membros para aliviá-los. Blackthorne dissimulou a preocupação e esperou até que o médico tivesse acabado, então, em particular, disse: — Fujiko-san, yoi ka? A Senhora Fujiko ficará bem?

O doutor encolheu os ombros.

— Hai. — Seus lábios repuxaram-se em cima dos dentes protuberantes de novo. — Karma, neh?

— Hai. — Blackthorne vira morrer marujos queimados em quantidade suficiente para saber que qualquer queimadura séria era perigosa, a ferida aberta quase sempre arruinando em poucos dias e nada podendo impedir a infecção de se alastrar. — Não quero que ela morra.

— Dozo?

Repetiu em japonês e o médico meneou a cabeça e disse, que a senhora certamente ficaria bem. Era jovem e forte.



— Shikata ga nai — disse o médico, e ordenou às criadas que mantivessem as bandagens úmidas, deu a Blackthorne ervas para as suas próprias esfoladuras, disse que voltaria logo, depois subiu às pressas a colina em direção à casa danificada de Omi lá em cima.

Blackthorne manteve-se ao portão principal da sua casa, que permanecera intacto. As setas de Buntaro ainda estavam cravadas no batente esquerdo. Distraidamente, tocou uma delas. Karma que ela tenha se queimado, pensou tristemente.

Voltou para junto de Fujiko e ordenou a uma criada que trouxesse chá. Ajudou-a a beber e segurou-lhe a mão até que adormecesse, ou parecesse dormir. Os criados estavam salvando tudo o que podiam, trabalhando rapidamente, ajudados por alguns aldeãos. Sabiam que as chuvas logo chegariam. Quatro homens tentavam erguer um abrigo provisório.

— Dozo, Anjin-san. — O cozinheiro lhe oferecia chá fresco, tentando não demonstrar o sofrimento. A garotinha era a sua filha favorita.

— Domo — retrucou Blackthorne. — Sumimasen. Sinto muito.

— Arigato, Anjin-san. Karma, neh?

Blackthorne assentiu, aceitou o chá e fingiu não notar o pesar do cozinheiro, para não envergonhá-lo. Mais tarde um samurai subiu a colina trazendo um recado de Toranaga de que Blackthorne e Fujiko deviam dormir na fortaleza até a casa ser reconstruída. Chegaram dois palanquins. Blackthorne ergueu-a suavemente, colocou-a num deles e enviou-a com algumas criadas. Dispensou o seu palanquim, dizendo a ela que a seguiria logo.

A chuva começou, mas ele não prestou atenção. Sentou-se sobre uma pedra do jardim que lhe dera tanto prazer. Agora era um campo devastado. A pequena ponte estava quebrada, o lago destruído e o riacho desaparecera.

— Não tem importância — disse ele a ninguém. — As rochas não estão mortas.

Ueki-ya lhe dissera que um jardim deve ser formado em torno das suas rochas, que sem elas um jardim está vazio, meramente um lugar de crescimento.

Uma das pedras era denteada e comum, mas Ueki-ya a plantara de modo tal que se se olhasse longa e intensamente para ela, ao crepúsculo, o brilho avermelhado, o reflexo dos veios e do cristal enterrado nela, podia-se ver toda uma cadeia de montanhas com vales indolentes, lagos profundos e, à distância, um horizonte verdejante, a noite formando-se lá.

Blackthorne tocou a rocha.

— Dou-lhe o nome de Ueki-yasama — disse ele. Isso o deixou satisfeito e ele sabia que se o velho estivesse vivo, também teria ficado muito contente. Embora esteja morto, talvez ele saiba, disse-se Blackthorne, talvez o seu kami se encontre aqui agora. Os xintoístas acreditam que quando morrem tornam-se um kami...

— O que é um kami, Mariko-san?

— Kami é inexplicável, Anjin-san. É como um espírito, mas não é, é como uma alma, mas não é. Talvez seja a parte insubstancial de uma coisa ou de uma pessoa... o senhor deve saber que um ser humano se torna um kami após a morte, mas uma árvore, uma rocha ou uma planta, ou uma pintura, são kamis igualmente. Os kamis são venerados, nunca idolatrados. Existem entre o céu e a terra e visitam esta Terra dos Deuses ou a deixam, tudo ao mesmo tempo.

— E Xintó? O que é Xintó?

— Ah, isso também é inexplicável, sinto muito. É como uma religião, mas não é. No começo não tinha nem nome. Simplesmente chamávamos de Xintó, o Caminho do Kami, mil anos atrás, para distingui-lo do Butsudo, o Caminho de Buda. Mas embora indefinível, o Xintó é a essência do Japão e dos japoneses, e embora não possua nem teologia nem divindade, fé ou sistema ético, é a nossa justificação para a existência. O Xintó é um culto natural de mitos e lendas nas quais ninguém acredita sinceramente, embora todo mundo venere totalmente. Uma pessoa é xintoísta do mesmo modo como nasceu japonesa.

— A senhora também é xintoísta... assim como cristã? — Oh, sim, muito, naturalmente...

Blackthorne tocou a pedra de novo.

— Por favor, kami de Ueki-ya, por favor, fique no meu jardim.

Depois, sem se importar com a chuva, deixou os olhos levarem-no pela pedra, passando pelos vales viçosos, o lago sereno e o horizonte verdejante, a escuridão formando-se lá.

Seus ouvidos lhe disseram que voltasse. Levantou os olhos. Omi o observava, pacientemente acocorado. Ainda chovia e Omi estava usando uma capa de palha de arroz, e um largo chapéu cônico de bambu. O cabelo fora lavado recentemente.

— Karma, Anjin-san — disse ele, apontando para as ruínas fumegantes.

— Hai. Ikaga desu ka? — Blackthorne enxugou a chuva do rosto.

— Yoi. — Omi apontou para a sua casa. — Watakushi no yuya wa hakaisarete imasen ostukai ni narimasen-ka? Minha casa de banho não foi danificada. Importa-se em usá-la?

— Ah so desu! Domo, Omi-san, hai, domo. — Agradecido, Blackthorne acompanhou Omi pelo caminho sinuoso, dirigindo-se para o pátio da casa dele. Os criados e alguns artesãos da aldeia, sob a supervisão de Mura, já estavam martelando e serrando e reparando. Os pilares centrais já tinham sido recolocados no lugar e o telhado estava quase reparado.

Por meio de sinais e palavras simples, e muita paciência, Omi explicou que seus criados haviam conseguido extinguir as chamas em tempo. Dentro de um ou dois dias, disse ele a Blackthorne, a casa estaria em pé novamente, tão boa como antes, portanto não havia nada com que se preocupar. A sua levará mais tempo, uma semana, Anjin-san. Não se preocupe, Fujiko-san é uma excelente administradora. Combinará todos os custos com Mura e sua casa ficará melhor do que nunca. Ela se queimou, ouvi dizer. Bem, isso acontece às vezes, mas não se preocupe, nossos médicos são bons especialistas em queimaduras, têm que ser, neh? Sim, Anjin-san, foi um terremoto sério, mas não muito. Os campos de arroz quase não foram tocados e o sistema de irrigação, tão essencial, permaneceu incólume. E os barcos não se danificaram, e isso é muito importante também. Apenas cento e cinqüenta e quatro samurais foram mortos pela avalanche, o que não é muito, neh? Quanto à aldeia, uma semana e o senhor mal saberá que houve um abalo. Cinco camponeses foram mortos e algumas crianças — nada! Anjiro teve muita sorte, neh? Ouvi dizer que o senhor arrancou Toranaga-sama da morte. Somos-lhe todos gratos, Anjin-san. Muito. Se o perdêssemos... o Senhor Toranaga disse que aceitava a sua espada — o senhor tem sorte, isso é uma grande honra. Sim. O seu karma é forte, muito rico. Sim, agradeço-lhe muitíssimo. Ouça, conversaremos mais depois que o senhor tiver tomado banho. Estou contente por ser seu amigo.

Omi chamou as criadas de banho.

— Isogi! Rápido!

As criadas escoltaram Blackthorne até a casa de banho, que se erguia dentro de um minúsculo bosque de bordos e se unia à casa principal por um caminho sinuoso, em condições normais coberto por um telhado. Era muito mais suntuosa do que a sua. Uma parede estava seriamente rachada, mas já havia aldeãos a rebocá-la. O telhado estava firme, embora faltassem algumas telhas e a chuva vazasse aqui e ali, mas isso não tinha importância.

Blackthorne despiu-se e se sentou no minúsculo assento. As criadas o esfregaram e o ensaboaram à chuva. Quando estava limpo, entrou na casa e mergulhou no banho fumegante. Todos os seus problemas se dissiparam.

Fujiko vai ficar boa. Sou um homem de sorte. Foi sorte eu estar lá para puxar Toranaga, sorte ter salvado Mariko, e sorte que ele estivesse lá para nos puxar para fora.

A mágica de Suwo revigorou-o como de hábito. Mais tarde ele deixou-o cuidar-lhe das escoriações e cortes, e vestiu a tanga limpa e o quimono e os tabis que tinham sido trazidos para ele, e saiu. A chuva parara.

Um abrigo provisório fora erguido num canto do jardim. Tinha um caprichoso soalho elevado e estava mobiliado com futons limpos e um pequeno vaso com um arranjo de flores. Omi o esperava com uma velha sem dentes, de rosto duro.

— Por favor, sente-se, Anjin-san — disse Omi.

— Obrigado, e obrigado pela roupa — respondeu ele em japonês vacilante.

— Por favor, esqueça isso. Aceitaria chá? Ou saque?

— Chá — decidiu Blackthorne, pensando que era melhor conservar as idéias claras para a entrevista com Toranaga. — Obrigado.

— Esta é minha mãe — disse Omi com formalidade, claramente a idolatrando.

Blackthorne curvou-se. A velha sorriu com afetação.

— A honra é minha, Anjin-san — disse ela.

— Obrigado, mas sou eu quem fica honrado. — Blackthorne repetiu automaticamente a sucessão de cortesias formais que Mariko lhe ensinara.

— Anjin-san, sentimos muito ver sua casa em chamas.

— O que se poderia fazer? Foi karma, neh?

— Sim, karma. — A velha desviou o olhar e carregou o sobrolho. — Depressa! O Anjin-san deseja o seu chá quente!

A garota em pé ao lado da criada que carregava a bandeja deixou Blackthorne sem fôlego. Então se lembrou dela. Não fora aquela garota que vira com Omi, na primeira vez, quando atravessava a praça da aldeia a caminho da galera?

— Esta é minha esposa — disse Omi sucintamente.

— Estou honrado — disse Blackthorne, enquanto ela tomava seu lugar, ajoelhava-se e se curvava.

— O senhor deve perdoar-lhe a lentidão — disse a mãe de Omi. — O chá está quente o suficiente para o senhor?

— Obrigado, está muito bom. — Blackthorne notara que a velha não usara o nome da esposa conforme devia. Mas não se surpreendeu, porque Mariko já lhe falara sobre a posição dominante da sogra de uma garota na sociedade japonesa.

— Graças a Deus que o mesmo não acontece na Europa — dissera-lhe ele.

— A sogra de uma esposa não erra. Afinal de contas, Anjin-san, os pais escolhem a esposa em primeiro lugar, e que pai escolheria sem antes consultar a própria esposa? Claro, a nora tem que obedecer, e o filho sempre faz o que a mãe e o pai desejam.

— Sempre?

— Sempre.

— Que acontece se o filho se recusa?

— Isso não é possível. Todo mundo tem que obedecer ao cabeça da casa. O primeiro dever de um filho é para com os pais. Naturalmente. Os filhos recebem tudo das mães: vida, alimento, ternura, proteção. Ela os socorre a vida toda. Portanto, é claro que um filho deva atender aos desejos de sua mãe. A nora... tem que obedecer. É dever dela.

— Conosco não acontece o mesmo.

— É difícil ser uma boa nora, muito difícil. Tem-se apenas que esperar viver o bastante para se ter filhos e se tornar uma a gente mesma.

— E a sua sogra?

— Ah, morreu, Anjin-san. Morreu há muitos anos. Nunca a conheci. O Senhor Hiromatsu, na sua sabedoria, nunca tomou outra esposa.

— Buntaro-san é o único filho?

— Sim. Meu marido tem cinco irmãs vivas, mas não tem irmãos. — Ela brincara. — De certo modo somos aparentados agora, Anjin-san. Fujiko é sobrinha do meu marido. O que há?

— Estou surpreso de que a senhora nunca me tenha dito, é tudo.

— Bem, é complicado, Anjin-san. — Então Mariko explicara que Fujiko na realidade era uma filha adotiva de Numara Akinori, que se casara com a irmã mais nova de Buntaro, e que o verdadeiro pai de Fujiko era um neto do ditador Goroda pela sua oitava consorte, que Fujiko fora adotada por Numata ainda recém-nascida a unia ordem do táicum, porque o táicum desejava laços mais estreitos entre os descendentes de Hiromatsu e Goroda...

— O quê?

Mariko rira, dizendo-lhe que sim, os relacionamentos de família no Japão eram muito complicados porque a adoção era normal, os casais trocavam-se filhos e filhas com freqüência, e se divorciavam, casavam-se de novo, casavam-se entre si o tempo todo. Com tantas consortes legais e a facilidade do divórcio — particularmente se por uma ordem de um suserano — todas as famílias logo se tornavam inacreditavelmente entrelaçadas.

— Deslindar com precisão os elos de família do Senhor Toranaga levaria dias, Anjin-san. Pense apenas na complicação: atualmente ele tem sete consortes oficiais vivas, que lhe deram cinco filhos e três filhas. Algumas consortes eram viúvas ou já tinham sido casadas, com outros filhos e filhas — alguns desses Toranaga adotou, outros não. No Japão não se pergunta se uma pessoa é adotada ou natural. Na verdade, o que importa? A herança depende sempre do cabeça da casa, portanto, adotado ou não, dá na mesma, neh? Até a mãe de Toranaga era divorciada. Mais tarde tornou a se casar e teve três filhos e duas filhas do segundo marido, todos, agora, casados! O filho mais velho do segundo casamento é Zakati, senhor de Shinano.

Blackthorne ponderara sobre isso. Depois dissera:

— O divórcio não é possível para nós. Não é possível.

— Assim nos dizem os santos padres. Sinto muito, mas isso não é muito sensato, Anjin-san. Os enganos acontecem, as pessoas mudam, isso é karrna, neh? Por que um homem deveria suportar uma esposa abominável, ou uma esposa um homem abominável? É tolice ficar amarrado para sempre, homem ou mulher, neh?

— Sim.

— Nisso somos muito sábios e os santos padres não. Essa foi uma das duas grandes razões pelas quais o táicum não abraçou o cristianismo, essa tolice sobre o divórcio. E o sexto mandamento, "Não matarás". O padre-inspetor foi até Roma solicitar dispensa para o Japão com relação ao divórcio. Mas Sua Santidade, o Papa, na sua sabedoria, negou. Se Sua Santidade tivesse consentido, acredito que o táicum se teria convertido, os daimios estariam seguindo a verdadeira fé agora, e o país seria cristão. O aspecto de "matar" não teria tido importância, porque na realidade ninguém presta atenção alguma a isso, os cristãos menos que todos. Uma concessão tão pequena portanto, neh?



— Sim — dissera Blackthorne. Como o divórcio parecia razoável! Por que era um pecado mortal lá em casa, atacado por cada padre da cristandade, católico ou protestante, em nome de Deus?

— Como era a esposa de Toranaga? — perguntara, querendo fazê-la continuar falando. A maior parte do tempo ela evitara o tema de Toranaga e a história de sua família, e era importante para Blackthorne saber tudo.

Uma sombra atravessara o rosto de Mariko. — Morreu. Era a segunda esposa dele e morreu há uns dez ou onze anos. Era filha do padrasto do táicum. O Senhor Toranaga nunca teve êxito com as esposas, Anjin-san.

— Por quê?

— Oh, a segunda era velha, cansada, avarenta, idolatrando o ouro, embora fingisse o contrário, como o irmão, o próprio táicum. Estúpida e de mau temperamento. Foi um casamento político, naturalmente. Tive que ser uma das suas damas de companhia durante um tempo. Nada lhe agradava, e nenhum dos jovens ou homens conseguia desatar o nó no seu Pavilhão Dourado.

— O quê?


— O seu Portão de Jade, Anjin-san. Com a Cabeça de Tartaruga — a Seta Aquecida. Não compreende? A... coisa dela.

— Oh! Compreendo. Sim.

— Ninguém conseguia desatar-lhe o nó... satisfazê-la.

— Nem Toranaga?

— Ele nunca "travesseirou" com ela, Anjin-san — dissera ela, completamente chocada. — Claro, depois do casamento ele não tinha mais nada que ver com ela, além de dar-lhe um castelo, assistentes e as chaves da sua casa do tesouro. Por que deveria ter? Ela era muito velha, fora casada duas vezes antes, mas o irmão, o táicum, dissolvera os casamentos. Uma mulher muito desagradável. Todos ficaram muito aliviados quando ela foi para o Grande Vazio, até o táicum, e todas as suas noras e todas as consortes de Toranaga secretamente queimaram incenso com grande alegria.

— E a primeira esposa de Toranaga?

— Ah, a Senhora Tachibana. Esse foi outro casamento político. O Senhor Toranaga tinha dezoito anos, ela quinze. Cresceu para ser uma mulher terrível. Há vinte anos Toranaga condenou-a à morte porque descobriu que ela estava secretamente tramando o assassinato do suserano deles, o ditador Goroda, a quem ela odiava. Meu pai sempre me dizia que achava que todos eles tiveram sorte em conservar a cabeça — ele, Toranaga, Nakamura, e todos os generais —, porque Goroda era inclemente, implacável, e particularmente desconfiado dos que lhe eram mais chegados. Aquela mulher poderia tê-los arruinado a todos, por mais inocentes que fossem. Devido à sua conspiração contra o Senhor Goroda, o seu único filho, Nobunaga, também foi condenado à morte, Anjin-san. Ela matou o próprio filho. Pense nisso, tão triste, tão terrível. Pobre Nobunaga, era o filho favorito de Toranaga e seu herdeiro oficial, bravo, um general totalmente leal. Era inocente, mas ela o envolveu na trama. Tinha só dezenove anos quando Toranaga lhe ordenou que cometesse seppuku.

— Toranaga matou o próprio filho? E a esposa?

— Sim, ordenou-lhes que fizessem isso, mas não teve escolha, Anjin-san. Se não tivesse feito isso, o Senhor Goroda, acertadamente, teria presumido que Toranaga fazia parte da conspiração e lhe teria ordenado instantaneamente que cortasse o ventre. Oh, sim, Toranaga teve sorte de escapar à cólera de Goroda e foi sábio em mandá-la matar-se rapidamente. Quando ela morreu, sua nora e todas as consortes de Toranaga ficaram em êxtase. O filho dela tivera que mandar a primeira esposa de volta para casa, em desgraça, por ordem dela, devido a algum descuido imaginário — depois de lhe gerar dois filhos. A garota cometeu seppuku — eu lhe disse, Anjin-san, que as senhoras cometem seppuku cortando a garganta e não o estômago, como os homens? —, mas morreu agradecida, contente por se libertar de uma vida de lágrimas, exatamente como a próxima esposa orava pela morte, já que sua vida foi tornada igualmente miserável pela sogra...

Agora, olhando para a sogra de Midori, o chá escorrendo-lhe pelo queixo, Blackthorne sabia que aquela velha bruxa tinha poder de vida ou morte, divórcio ou degradação sobre Midori, desde que o marido, o cabeça da casa, concordasse. E, decidissem eles o que decidissem, Omi obedeceria. Que terrível, disse-se ele.

Midori tinha toda a graça e juventude que a velha não tinha, o rosto oval, o cabelo abundante. Era mais bonita do que Mariko, mas sem o ardor e a força da outra, flexível como uma samambaia e frágil como uma teia de aranha.

— Onde está a comida? Naturalmente o Anjin-san deve estar com fome — disse a velha.

— Oh, sinto muito — replicou Midori imediatamente. — Vá buscar — disse ela à criada. — Depressa! Sinto muito, Anjin-san!

— Sinto muito, Anjin-san — disse a velha.

— Por favor, não se desculpe — disse Blackthorne a Midori, e imediatamente percebeu que isso fora um erro. As boas maneiras decretavam que ele devia dirigir-se apenas à sogra, particularmente se ela tivesse uma má reputação. — Sinto muito — disse ele. — Eu não fome. Esta noite eu comer devo com o Senhor Toranaga.

— Ah so desu! Ouvimos dizer que o senhor lhe salvou a vida. O senhor deve saber como lhe estamos gratos, nós, todos os seus vassalos! — disse a velha.

— Foi dever. Não fiz nada.

— O senhor fez tudo, Anjin-san. Omi-san e o Senhor Yabu apreciam o seu ato tanto quanto todos nós.

Blackthorne viu a velha olhar de relance para o filho. Gostaria de poder sondá-la, sua cadela velha, pensou ele. Será que você é tão má quanto a outra, Tachibana?

— Mãe — disse Omi, — sou feliz por ter o Anjin-san como amigo.

— Todos nós somos felizes — disse ela.

— Não, sou eu quem se sente feliz — replicou Blackthorne. — Eu afortunado ter amigos como família de Kasigi Omi-san. — Estamos todos mentindo, pensou Blackthorne, mas não sei por que vocês mentem. Eu minto por auto-proteção e porque é hábito. Mas nunca me esqueci... espere um instante. Com toda a honestidade, isso não foi karma? Você não teria feito o que Omi fez? Isso foi há muito tempo, numa vida anterior, neh? Não tem mais sentido agora.

Um grupo de cavaleiros subiu a colina com estrépito, Naga à frente. Desmontou e avançou pelo jardim. Todos os aldeãos pararam de trabalhar e puseram-se de joelhos. Ele lhes fez sinal que continuassem.

— Sinto muito perturbá-lo, Omi-san, mas o Senhor Toranaga me mandou.

— Por favor, não está me incomodando. Por favor, junte-se a nós — disse Omi. Imediatamente Midori cedeu a sua almofada, curvando-se profundamente. — Aceita chá, ou saquê, Naga-sama?

Naga sentou-se.

— Nada, obrigado. Não estou com sede.

Omi insistiu polidamente, passando pelo interminável e necessário ritual, embora fosse óbvio que Naga estava com pressa.

— Como está o Senhor Toranaga?

— Muito bem. Anjin-san, o senhor nos prestou um grande serviço. Sim. Agradeço-lhe pessoalmente.

— Foi dever, Naga-san. Mas fiz pouco. O Senhor Toranaga puxou-me da... puxou-me da terra também.

— Sim. Mas isso foi depois. Agradeço-lhe muitíssimo.

— Naga-san, há algo que eu possa fazer pelo Senhor Toranaga? — perguntou Omi, já que a etiqueta finalmente lhe autorizava ir ao ponto.

— Ele gostaria de vê-lo após a refeição noturna. Haverá uma reunião de todos os oficiais.

— Ficarei honrado.

— Anjin-san, deve vir comigo agora, se lhe aprouver. — Naturalmente. A honra é minha.

Mais mesuras e saudações e depois Blackthorne estava sobre um cavalo, descendo a colina a trote. Quando a falange de samurais atingiu a praça, Naga puxou as rédeas.

— Anjin-san!

— Hai?

— Agradeço-lhe de todo o coração por haver salvado o Senhor Toranaga. Permita-me ser seu amigo... — e algumas palavras que Blackthorne não assimilou.



— Desculpe, não compreendo. "Karite iru"?

— Ah, desculpe, "Karite iru": um homem karite iru coisas a outro, como "dívida". O senhor entende "dívida"?

"Dever" surgiu na cabeça de Blackthorne.

— Ah so desu! Wakarimasu.

— Ótimo. Disse apenas que lhe devo uma vida.

— Era o meu dever, neh?

— Sim. Ainda assim, devo-lhe uma vida.
— Toranaga-sama diz que toda a pólvora de canhão e a munição foram postos de volta no seu navio, Anjin-san, aqui em Anjiro, antes de partir para Yedo. Ele pergunta quanto tempo o senhor levaria para se preparar para zarpar.

— Isso depende do estado do navio, se os homens o querenaram e cuidaram dele, se o mastro foi substituído, e assim por diante. O Senhor Toranaga sabe como se encontra o navio?

— O navio parece em ordem, diz ele, mas não é um marujo, por isso não poderia ter certeza. Não subiu a bordo desde que o navio foi rebocado para a enseada de Yedo, quando deu instruções para que cuidassem dele. Presumindo-se que o navio esteja em condições, neh, ele pergunta quanto tempo o senhor levaria para se preparar para a guerra.

O coração de Blackthorne perdeu uma batida.

— Contra quem combatemos, Mariko-san?

— Ele pergunta contra quem o senhor gostaria de combater.

— Contra o Navio Negro deste ano — respondeu Blackthorne imediatamente, tomando uma decisão repentina, esperando desesperadamente que aquele fosse o momento correto para expor diante de Toranaga o plano que elaborara secretamente ao longo dos dias. Estava especulando com o fato de que ter salvo a vida de Toranaga naquela manhã talvez lhe desse um privilégio especial que o ajudaria a superar os obstáculos.

Mariko foi dominada pela surpresa.

— O quê?

— O Navio Negro. Diga ao Senhor Toranaga que tudo o que ele tem a fazer é dar-me as suas cartas de corso. Farei o resto. Com o meu navio e uma ajudazinha... dividimos a carga, toda a seda e o dinheiro.

Ela riu. Toranaga não.

— Meu amo... diz que isso seria um imperdoável ato de guerra contra uma nação amiga. Os portugueses são essenciais para o Japão.

— Sim, são... no momento. Mas acredito que sejam inimigos dele tanto quanto meus, e seja qual for o serviço que ofereçam, podemos fazer melhor. A um custo menor.

— Ele diz que talvez. Mas não acredita que a China faça comércio com o senhor. Nem os ingleses nem os neerlandeses estão maciçamente na Ásia ainda, e necessitamos das sedas agora e de um fornecimento contínuo.

— Ele tem razão, claro. Mas num ou dois anos isso mudará e ele terá a prova. Por isso, eis outra sugestão. Já estou em guerra com os portugueses. Além do limite de três milhas, as águas são internacionais. Legalmente, com as minhas atuais cartas de corso, posso tomar o navio e, na qualidade de presa, posso levá-lo para qualquer porto e vendê-lo, assim como a carga. Com o meu navio e uma tripulação, será fácil. Em poucas semanas ou meses, eu poderia entregar o Navio Negro e tudo o que contém em Yedo. Eu poderia vendê-lo em Yedo. Metade do valor será o seu... a taxa de porto.

— Ele diz que o que acontece no mar entre o senhor e os seus inimigos é de pouco interesse para ele. O mar pertence a todos. Mas esta terra é nossa, e aqui nossas leis governam e não podem ser infringidas.

— Sim — Blackthorne sabia que seu curso era perigoso, mas sua intuição lhe dizia que o momento era perfeito e que Toranaga morderia a isca. E Mariko. — Foi só uma sugestão. Ele me perguntou contra quem eu gostaria de combater. Por favor, desculpe-me, mas às vezes é bom planejar para qualquer eventualidade. Nisso acredito que os interesses do Senhor Toranaga são os meus.

Mariko traduziu. Toranaga grunhiu e falou brevemente.

— O Senhor Toranaga dá valor a sugestões sensatas, Anjin-san, como a sua idéia sobre a marinha, mas isto é ridículo. Ainda que os interesses de ambos fossem os mesmos, coisa que não são, como o senhor poderia, com nove homens, atacar um vaso tão imenso com quase mil pessoas a bordo?

— Eu não faria isso. Preciso de uma nova tripulação, Mariko-san. Oitenta ou noventa homens, marujos e atiradores treinados. Encontro-os em Nagasaki, em navios portugueses. — Blackthorne fingiu não notar que ela tomou fôlego, nem o modo como o leque parou. — Deve haver alguns franceses, um inglês ou dois se eu tiver sorte, alguns alemães e holandeses, serão renegados na maioria, ou gente que foi levada à força para bordo. Eu necessitaria de um salvo-conduto para Nagasaki, alguma proteção, e um pouco de prata ou ouro. Há sempre marinheiros em frotas inimigas que se engajarão por dinheiro vivo e uma parte do dinheiro da presa.

— Meu amo diz que qualquer comandante que confie em tal imundície num ataque seria louco.

— Concordo — Blackthorne —, mas preciso de uma tripulação para zarpar.

— Ele pergunta se seria possível treinar samurais e nossos marujos para serem atiradores e marinheiros.

— Facilmente. Com tempo. Mas isso poderia levar meses. Com certeza estariam prontos no próximo ano. Não haveria chance de ir contra o Navio Negro este ano.

— O Senhor Toranaga diz: "Não planejo atacar o Navio Negro dos portugueses, neste ano ou no próximo. Não são meus inimigos e não estou em guerra com eles".

— Eu sei. Mas eu estou em guerra com eles. Por favor, desculpe-me. Naturalmente isto é apenas uma discussão, mas precisarei ter alguns homens para zarpar, para estar ao serviço do Senhor Toranaga se ele desejar.

Estavam sentados nos aposentos privados de Toranaga, que davam para o jardim. A fortaleza mal fora tocada pelo terremoto. A noite estava úmida e sem ar, e a fumaça que vinha das espirais de incenso subia preguiçosamente para expulsar os mosquitos.

— Meu amo quer saber — estava dizendo Mariko — se o senhor, caso tivesse o seu navio agora, e os poucos membros da tripulação que chegaram com o senhor, iria a Nagasaki para encontrar esses homens suplementares que solicita.

— Não. Isso seria perigoso demais. Eu estaria tão insuficientemente tripulado, que os portugueses me capturariam. Seria muito melhor conseguir os homens primeiro, trazê-los para águas domésticas, para Yedo, neh? Uma vez que eu esteja com a tripulação completa, o inimigo não tem nada nestes mares com que consiga me tocar.

— Ele não acha que o senhor e noventa homens pudessem tomar o Navio Negro.

— Posso velejar melhor que ele e afundá-lo com o Erasmus. Naturalmente, Mariko-san, sei que tudo isso são conjecturas; mas se eu fosse autorizado a atacar o meu inimigo, no momento em que tivesse uma tripulação, navegaria imediatamente para Nagasaki. Se o Navio Negro já estivesse atracado, eu mostraria as minhas bandeiras de guerra e o bloquearia no mar. Eu o deixaria terminar o comércio e aí, quando o vento estivesse propício para a viagem para casa, fingiria precisar de suprimentos e o deixaria sair do porto. Depois o capturaria a algumas léguas, porque temos mais velocidade e meus canhões fariam o resto. Uma vez que ele tenha arriado suas bandeiras, eu ponho uma tripulação a bordo e trago-o para Yedo. Ele deve ter mais de trezentas, quase quatrocentas toneladas de ouro a bordo.

— Mas por que o capitão do Navio Negro não afundaria o navio uma vez que o senhor o tivesse derrotado, se o derrotar, antes que o senhor possa ir a bordo?

— Geralmente... — Blackthorne ia dizer: "Geralmente a tripulação se amotina se o capitão é um fanático, mas nunca conheci nenhum tão louco. Na maioria das vezes faz-se um acordo com o capitão: poupa-se a vida dele, dá-se-lhe uma pequena parte da carga e transporte até o porto mais próximo. Mas desta vez terei que lidar com Rodrigues e eu o conheço e sei o que ele fará". Mas pensou melhor nisso e decidiu não revelar todo o plano. É melhor deixar os métodos bárbaros aos bárbaros, disse a si mesmo. — Geralmente o navio derrotado capitula, Mariko-san. É uni costume, um dos nossos costumes de guerra no mar, poupar a perda desnecessária de vidas.

— O Senhor Toranaga diz, sinto muito, Anjin-san, que isso é um costume repulsivo. Se ele tivesse navios, não haveria rendição. — Mariko tomou um gole de chá, depois continuou: — E se o navio não estiver no porto?

— Aí eu corro as rotas marítimas para capturá-lo a algumas léguas, em águas internacionais. Será mais fácil pegá-lo pesado de carga e chafurdando, mas mais difícil de trazer para Yedo. Quando se espera que atraque?

— Meu amo não sabe. Talvez dentro de trinta dias, diz ele. O navio virá mais cedo este ano.

Blackthorne sabia que estava muito perto da presa, muito perto. — Então é bloqueá-lo e torná-lo no fim da estação. — Ela traduziu e Blackthorne pensou ver um desapontamento momentâneo perpassar o rosto de Toranaga. Fez uma pausa, como se estivesse considerando alternativas, e disse: — Se estivéssemos na Europa, haveria outro modo. Poderíamos navegar à noite e torná-lo a força. Um ataque de surpresa.

Toranaga apertou com força o punho da espada.

— Ele pergunta se o senhor ousaria atacar os seus inimigos na nossa terra.

Os lábios de Blackthorne estavam secos. — Não. Claro que isto ainda é uma suposição, mas se existisse um estado de guerra entre ele e os portugueses, e o Senhor Toranaga os quisesse prejudicar, seria esse o modo de fazê-lo. Se eu tivesse duzentos ou trezentos combatentes bem disciplinados, uma boa tripulação e o Erasmus, seria fácil emparelhar com o Navio Negro e abordá-lo, arrastá-lo para o largo. Ele poderia escolher a época do ataque de surpresa... se estivéssemos na Europa.

Houve um longo silêncio.

— O Senhor Toranaga diz que isto não é a Europa e que não existe, nem jamais existirá, um estado de guerra entre ele e os portugueses.

— Claro. Um último ponto, Mariko-san: Nagasaki não está sob controle do Senhor Toranaga, está?

— Não, Anjin-san. O Senhor Harima é dono do porto e de toda a região.

— Mas na prática não são os jesuítas que controlam o porto e todo o comércio? — Blackthorne reparou na relutância dela em traduzir, mas pressionou-a mais ainda. — Não é essa a honto, Mariko-san? E o Senhor Harima não é católico? A maior parte de Kyushu não é católica? E por conseguinte os jesuítas, em certa medida, não controlam a ilha toda?

— O cristianismo é uma religião. Os daimios controlam suas terras, Anjin-san — disse Mariko por si mesma.

— Mas fui informado de que Nagasaki na realidade é solo português. Fui informado de que eles agem como se o fosse. O pai do Senhor Harima não vendeu a terra aos jesuítas?

A voz de Mariko excitou-se.

— Sim. Mas o táicum tomou-a de volta. Nenhum estrangeiro tem autorização para possuir terra aqui, agora.

— Mas o táicum não permitiu que seus editos caducassem, de modo que hoje nada acontece lá sem a aprovação dos jesuítas? Os jesuítas não controlam toda a navegação em Nagasaki, e todo o comércio? Não negociam todo o comércio para vocês e não agem como intermediários?

— O senhor está muito bem informado sobre Nagasaki, Anjin-san — disse ela enfaticamente.

— Talvez o Senhor Toranaga devesse tomar do inimigo o controle do porto. Talvez...

— Eles são seus inimigos, Anjin-san, não nossos — disse ela, mordendo a isca finalmente. — Os jesuítas são...

— Nan ja?

Ela se voltou para Toranaga desculpando-se, e explicou o que fora dito entre eles. Quando terminou ele falou severamente, uma reprimenda evidente.

— Hai — disse ela várias vezes, e curvou-se, disciplinada.

— O Senhor Toranaga me lembra — disse ela — de que as minhas opiniões não têm valor e que um intérprete deve apenas interpretar, neh? Por favor, desculpe-me.

Em outra oportunidade Blackthorne se teria desculpado por ter-lhe armado uma cilada. Agora isso não lhe ocorreu. Mas como atingira o alvo, riu e disse:

— Hai, kawaii Tsukkuko-sama! Sim, linda Senhora Intérprete!

Mariko sorriu atravessado, furiosa consigo mesma por ter caído na armadilha, a mente em conflito com suas lealdades divididas.

— Yoi, Anjin-san — disse Toranaga, mais uma vez cordial.

— Mariko-san kawaii desu yori! Tsukku-san anamsu ka nori masen, neh? E Mariko-san é muito mais bonita do que o velho Sr. Tsukku, não é, e também muito mais perfumada?

Toranaga riu.

— Hai.


Mariko corou e serviu chá, um pouco abrandada. Depois Toranaga falou. Seriamente.

— Nosso amo pergunta por que o senhor está fazendo tantas perguntas — ou tantas afirmações — sobre o Senhor Harima e Nagasaki.

— Só para mostrar que o porto de Nagasaki de fato é controlado por estrangeiros. Pelos portugueses. E pela minha lei, tenho o direito legal de atacar o inimigo em qualquer lugar.

— Mas isto não é "qualquer lugar", diz ele. Esta é a Terra dos Deuses e tal ataque é impensável.

— Concordo inteiramente. Mas se o Senhor Harima se tornasse hostil, ou os jesuítas que comandam os portugueses se tornassem hostis, seria esse o modo de atingi-los.

— O Senhor Toranaga diz que nem ele, nem qualquer daimio jamais permitiria um ataque de qualquer nação estrangeira contra outra em solo japonês, ou que elas matassem qualquer um dos nossos. Contra inimigos do imperador, o caso é diferente. Quanto a conseguir combatentes e uma tripulação, seria fácil um homem conseguir qualquer quantidade desde que falasse japonês. Há muitos wakos em Kyushu.

— Wakos, Mariko-san?

— Oh, desculpe. Chamamos os corsários de "wakos", Anjin-san. Costumavam ter muitos covis em torno de Kyushu, mas foram destruídos, na maioria, pelo táicum. Infelizmente ainda se podem encontrar sobreviventes. Os wakos aterrorizaram as costas da China durante séculos. Foi por causa deles que a China fechou seus portos para nós. — Explicou a Toranaga o que fora dito. Ele falou de novo, mais enfaticamente. — Ele diz que nunca permitirá, planejará ou lhe permitirá realizar um ataque por terra, embora fosse correto que o senhor pilhasse o inimigo da sua rainha em alto-mar. Ele repete que isto não é qualquer lugar. Esta é a Terra dos Deuses. O senhor deve ser paciente, conforme ele lhe disse.

— Sim. Pretendo tentar ser paciente à maneira dele. Só quero atingir o inimigo porque eles são o inimigo. Acredito de todo o coração que são inimigos dele também.

— O Senhor Toranaga diz que os portugueses lhe dizem que o senhor é o inimigo dele, e Tsukku-san e o padre-inspetor têm certeza absoluta disso.

— Se eu fosse capaz de capturar o Navio Negro no mar e trazê-lo como presa legal para Yedo, sob a bandeira da Inglaterra, teria autorização para vende-lo e tudo o que contém, em Yedo, de acordo com o nosso costume?

— O Senhor Toranaga diz que isso depende.

— Se a guerra vier, posso ser autorizado a atacar o inimigo, o inimigo do Senhor Toranaga, da melhor maneira que eu puder?

— Ele diz que esse é o dever de um hatamoto. Um hatamoto, naturalmente, está sob as ordens pessoais dele o tempo todo. Meu amo deseja que eu deixe claro que as coisas no Japão nunca serão resolvidas por outro método que não seja o japonês.

— Sim. Compreendo perfeitamente. Com a devida humildade, eu gostaria de assinalar que quanto mais eu souber sobre os problemas dele, mais eu poderei ajudar.

— Ele diz que o dever de um hatamoto é sempre ajudar seu senhor, Anjin-san. Diz que devo responder a quaisquer perguntas razoáveis que o senhor queira me fazer mais tarde.

— Obrigado. Posso perguntar-lhe se ele gostaria de ter uma marinha? Conforme sugeri na galera?

— Ele já disse que gostaria de ter uma marinha, uma marinha moderna, Anjin-san, manejada pelos seus próprios homens. Que daimio não gostaria?

— Então consideremos isto: se eu tivesse sorte o bastante para tomar o navio inimigo, eu o levaria a Yedo para ser reparado e para avaliar a presa. Depois baldearia a minha metade do butim para o Erasmus e venderia o Navio Negro aos portugueses, ou o ofereceria a Toranaga-sama como presente, ou o queimaria, o que ele desejasse. Aí eu voltaria para casa. Dentro de um ano retornaria e traria quatro belonaves, como um presente da rainha da Inglaterra ao Senhor Toranaga.

— Ele pergunta onde estaria o seu lucro nisso.

— A honto é que sobraria muito para mim, Mariko-san, depois que os navios fossem pagos, dado por Sua Majestade. Depois eu gostaria de levar um dos conselheiros dele mais dignos de confiança, como embaixador junto à minha rainha. Um tratado de amizade entre os nossos países poderia ser do interesse dele.

— O Senhor Toranaga diz que isso seria muita generosidade da sua rainha. Ele pergunta, porém, no caso de tal coisa miraculosamente acontecer e o senhor voltar com os novos navios, quem treinaria os marinheiros, os samurais e os capitães para equipá-los.

— Inicialmente eu mesmo, se isso lhe aprouvesse. Eu ficaria honrado, depois outros poderiam se seguir.

— Ele pergunta o que é "inicialmente".

— Dois anos.

Toranaga sorriu fugazmente.

— Nosso amo diz que dois anos não seria "inicialmente" suficiente. Entretanto, acrescenta, é tudo uma ilusão. Ele não está em guerra com os portugueses nem com o Senhor Hirama de Nagasaki. Repete que o que o senhor fizer fora de águas japonesas, no seu próprio navio, com a sua própria tripulação, é o seu karma. — Mariko parecia perturbada. — Fora das nossas águas o senhor é estrangeiro, diz ele. Mas aqui é samurai.

— Sim. Sei da honra que ele me concedeu. Posso perguntar como um samurai consegue dinheiro emprestado, Mariko-san?

— De um prestamista, Anjin-san. Onde mais? De um imundo mercador prestamista. — Traduziu para Toranaga. — Por que o senhor precisaria de dinheiro?

— Existem prestamistas em Yedo?

— Oh, sim. Os prestamistas estão por toda parte, neh? Não ocorre o mesmo no seu país? Pergunte à sua consorte, Anjin-san, talvez ela possa ajudá-lo. Isso faz parte do dever dela.

— A senhora disse que partimos para Yedo amanhã?

— Sim, amanhã.

— Infelizmente Fujiko-san não será capaz de viajar amanhã. Mariko conversou com Toranaga.

— O Senhor Toranaga diz que a mandará de galera, quando o navio partir. Ele pergunta por que o senhor precisa de dinheiro emprestado.

— Terei que arrumar uma nova tripulação, Mariko-san, para zarpar a qualquer parte, a fim de servir o Senhor Toranaga, caso ele o deseje. Isso é permitido?

— Uma tripulação de Nagasaki?

— Sim.


— Ele lhe dará uma resposta quando o senhor chegar a Yedo.

— Domo, Toranaga-sama. Mariko-san, quando eu chegar a Yedo, para onde vou? Haverá alguém para me orientar?

— Oh, o senhor não deve jamais se preocupar com coisas assim, Anjin-san. É um hatamoto do Senhor Toranaga. Houve uma batida na porta interna.

— Entre.


Naga abriu a shoji e curvou-se.

— Desculpe-me, Pai, mas o senhor queria ser avisado do momento cm que todos os oficiais estivessem presentes.

— Obrigado, estarei lá dentro em pouco. — Toranaga pensou um instante, depois fez sinal a Blackthorne, amistosamente. — Anjin-san, vá com Naga-san. Ele lhe mostrará o seu lugar. Obrigado pelas suas opiniões.

— Sim, senhor. Obrigado por ter escutado. Obrigado pelas suas palavras. Sim. Tento arduamente ser paciente e perfeito.

— Obrigado, Anjin-san. — Toranaga observou-o se curvar e se afastar. Quando ficaram a sós, voltou-se para Mariko: — Bem, o que pensa?

— Duas coisas, senhor. Primeiro, o ódio dele pelos jesuítas é incomensurável, superando até a aversão que tem pelos portugueses, portanto ele é um flagelo que o senhor pode usar contra qualquer um deles ou contra ambos, se o desejar. Sabemos que ele é corajoso, portanto rechaçaria arrojadamente qualquer ataque vindo do mar. Segundo, o objetivo dele ainda é dinheiro. Em sua defesa, pelo que aprendi, devo dizer que o dinheiro é o único meio real de que os bárbaros dispõem para tornar duradouro o poder. Compram terras e posição — até a rainha é uma mercadora, que "vende" terra aos seus lordes, e compra navios e terras, provavelmente. Eles não são muito diferentes de nós, senhor, exceto nisso. E também no fato de não compreenderem o poder, nem que a guerra é a vida e a vida é a morte.

— Os jesuítas são meus inimigos?

— Não acredito nisso.

— Os portugueses?

— Acredito que estejam interessados apenas em lucros, terra e a difusão da palavra de Deus.

— Os cristãos são meus inimigos?

— Não, senhor. Embora alguns dos seus inimigos possam ser cristãos — católicos ou protestantes.

— Ah, acha que o Anjin-san é meu inimigo?

— Não, senhor. Não. Acredito que ele o honra e, com o tempo, se tornará um vassalo autêntico.

— Quanto aos nossos cristãos? Quem é inimigo?

— Os senhores Harima, Kiyama, Onoshi, e qualquer outro samurai que se volte contra o senhor.

Toranaga riu.

— Sim, mas os padres os controlam, conforme Anjin-san insinua?

— Não creio.

— Esses três vão se colocar contra mim?

— Não sei, senhor. No passado foram tanto hostis quanto amistosos em relação ao senhor. Mas se se puserem do lado de Ishido, será muito mau.

— Concordo. Sim. Você é uma conselheira de valor. É difícil para você, sendo cristã católica, ser amiga de um inimigo, ouvir idéias inimigas.

— Sim, senhor.

— Ele a pegou numa armadilha, neh?

— Sim. Mas na verdade ele tinha o direito. Eu não estava fazendo o que o senhor ordenara. Estava me colocando entre os pensamentos dele e o senhor. Por favor, aceite as minhas desculpas.

— Continuará a ser difícil. Talvez até mais.

— Sim, senhor. Mas é melhor conhecer os dois lados da moeda. Muito do que ele disse comprovou-se verdadeiro. Por exemplo, sobre o mundo sendo dividido por espanhóis e portugueses, sobre os padres contrabandeando armas, por mais impossível de crer que seja. Não deve nunca recear pela minha lealdade, senhor. Por mais grave que se torne a situação, sempre cumprirei o meu dever para com o senhor.

— Obrigado. Bem, foi muito interessante o que o Anjin-san disse, neh? Interessante, mas absurdo. Sim, obrigado, Mariko-san, você é uma conselheira valiosa. Devo ordenar que você se divorcie de Buntaro?

— Senhor?

— Bem?


Oh, ser livre, cantou o espírito dela. Oh, minha Nossa Senhora, ser livre!

Lembre-se de quem você é, Mariko, lembre-se do que é. E lembre-se de que "amor" é uma palavra bárbara.

Toranaga a observava em meio ao grande silêncio. Mosquitos vindos de fora vagavam até as espirais de incenso para disparar imediatamente para a segurança. Sim, ponderou ele, ela é um falcão. Mas contra que presa eu a lanço?

— Não, senhor — disse Mariko, finalmente. — Obrigada, senhor, mas não.

— O Anjin-san é um homem estranho, neh? Tem a cabeça cheia de sonhos. Ridículo considerar a idéia de atacar os nossos amigos portugueses, ou o Navio Negro deles. Absurdo acreditar no que ele fala sobre quatro navios, ou vinte.

Mariko hesitou.

— Se ele diz que uma marinha é possível, senhor, então acredito que seja.

— Não concordo — disse Toranaga enfaticamente. — Mas você tem razão em que ele serve de equilíbrio contra os outros, ele e o seu navio de combate. Que curioso — mas que esclarecedor! É como disse Omi no momento necessitamos dos bárbaros, para aprender com eles. E ainda há muito o que aprender, particularmente com ele, neh?

— Sim.

— É tempo de abrir o império, Mariko-san. Ishido o fechará tão apertado quanto uma ostra. Se eu fosse presidente dos regentes novamente, faria tratados com qualquer nação, desde que amistosa. Enviaria homens para aprender com as outras nações, sim, e enviaria embaixadores. A rainha deste homem seria um bom começo. Para uma rainha talvez eu devesse enviar uma embaixadora, se ela fosse inteligente o bastante.



— Ela teria que ser muito inteligente e muito forte, senhor.

— Sim. Seria uma viagem perigosa.

— Todas as viagens são perigosas, senhor — disse Mariko.

— Sim. — Novamente Toranaga se desviou sem avisar.

— Se o Anjin-san partisse com o seu navio carregado será que retornaria? Ele mesmo?

Após um longo tempo, ela disse:

— Não sei.

Toranaga resolveu não pressioná-la agora.

— Obrigado, Mariko-san — disse numa dispensa cordial. — Quero que esteja presente à reunião, para traduzir ao Anjin-san o que eu disser.

— Tudo, senhor?

— Sim. E esta noite, quando for à casa de chá para comprar o contrato de Kiku, leve o Anjin-san com você. Diga à consorte dele que tome as providências. Ele necessita de uma recompensa, neh?

— Hai.


Quando ela se encontrava junto à shoji, Toranaga disse:

— Uma vez que a questão entre mim e Ishido esteja resolvida, ordenarei que você se divorcie.

A mão dela se crispou sobre a tela. Assentiu ligeiramente em agradecimento. Mas não olhou para trás. A porta fechou-se. Toranaga observou a fumaça um instante, depois se levantou, encaminhou-se para o jardim, até a latrina, e se acocorou. Quando terminou e usou o papel, ouviu um criado puxar o recipiente de sob o buraco para substituí-lo por outro limpo. Os mosquitos zumbiam e ele os afastou distraidamente. Estava pensando em falcões e gaviões, sabendo que até os maiores falcões cometem erros, como Ishido, e Kiri, e Mariko, e Omi, e até o Anjin-san.
Os cento e cinqüenta oficiais estavam alinhados em fileiras, Yabu, Omi e Buntaro à frente. Mariko estava ajoelhada perto de Blackthorne, ao lado. Toranaga marchou sala adentro com a sua de ouro, guarda pessoal, e sentou-se sobre a almofada solitária, encarando-os.

Agradeceu-lhes a mesura, depois informou-os resumidamente sobre a essência do despacho e expôs diante deles, pela primeira vez publicamente, seu plano de batalha definitivo. Novamente omitiu a parte que se relacionava com as secretas e cuidadosamente planejadas insurreições, e também o fato de que o ataque tomaria a estrada nordeste e não a estrada costeira de sudeste. E, para aclamação geral — pois todos os seus guerreiros ficaram contentes de que finalmente a incerteza chegasse ao fim —, disse-lhes que quando as chuvas cessassem, ele pronunciaria as palavras em código "Céu Carmesim", o que os lançaria ao ataque. — Nesse meio tempo, espero que Ishido ilegalmente reúna um novo conselho de regentes. Espero ser falsamente impedido. Espero que a guerra seja declarada contra mim, contra a lei. — Inclinou-se para a frente, o punho esquerdo caracteristicamente apoiado na coxa, o outro apertado à espada.

— Ouçam. Eu apóio o testamento do táicum e reconheço meu sobrinho Yaemon como kwampaku e herdeiro do táicum. Não desejo outras honras. Mas se for atacado por traidores, devo me defender. Se traidores iludirem Sua Alteza Imperial e tentarem assumir o poder, é meu dever defender o imperador e banir o mal. Neh?

Um troar de aprovação saudou o comentário. Gritos de batalha de "Kasigi" e "Toranaga" se derramaram pela sala, para ecoarem por toda a fortaleza.

— O regimento de ataque será preparado para embarcar dentro de cinco dias em galeras com destino a Yedo, Toda Buntaro-san comandando, Kasigi Omi-san como segundo em comando. O Senhor Kasigi Yabu, por favor, mobilizará Izu e ordenará que seis mil homens se postem nas passagens da fronteira, para o caso de o traidor Ikawa Jikkyu atacar o sul para cortar as nossas linhas de comunicação. Quando as chuvas cessarem, Ishido atacará o Kwanto...

Omi, Yabu e Buntaro silenciosamente concordaram com a sabedoria de Toranaga em omitir a informação sobre a decisão daquela tarde de deslanchar o ataque na estação chuvosa, imediatamente.

Isso causará um impacto, disse-se Omi, os intestinos se contorcendo ante o pensamento de combater sob a chuva através das montanhas de Shinano.

— Nossos atiradores romperão caminho à força — dissera Yabu entusiasticamente àquela tarde.

— Sim — concordara Omi, não confiando no plano, mas não tendo alternativa para oferecer. É loucura, disse a si mesmo, embora estivesse encantado com a promoção a segundo em comando. Não compreendo como Toranaga pode conceber que haja qualquer chance de êxito na estrada nordeste.

Não há chance alguma, disse-se ele novamente, e semicerrou os ouvidos à estimulante exortação de Toranaga, a fim de se permitir concentrar-se mais uma vez no problema da sua vingança. Certamente o ataque em Shinano dará a você dezenas de oportunidades para manipular Yabu na linha de frente, sem risco para você mesmo. Guerra, qualquer guerra lhe será vantajosa, desde que não seja perdida...

Então ouviu Toranaga dizer:

— Hoje quase fui morto. Hoje o Anjin-san arrancou-me da terra. Esta é a segunda vez, talvez até a terceira, que ele me salva a vida. Minha vida não é nada em relação ao futuro do meu clã, e quem pode dizer se eu teria vivido ou morrido sem a ajuda dele? Mas, embora seja bushido que vassalos nunca devem esperar recompensa por qualquer serviço, é dever de um suserano conceder favores de tempos em tempos.

Entre a aclamação geral, Toranaga disse:

— Anjin-san, sente-se aqui! Mariko-san, você também.

Ciumentamente Omi observou o homem altaneiro se erguer e se ajoelhar no ponto que Toranaga indicara, ao seu lado, e não houve um homem na sala que não desejasse ter tido ele próprio a boa fortuna de fazer o que o bárbaro fizera.

— Ao Anjin-san é concedido um feudo próximo à aldeia pesqueira de Yokohama, ao sul de Yedo, no valor de dois mil kokus anuais, e direito de recrutar duzentos assistentes samurais, direitos absolutos de samurai e hatamoto da casa de Yoshi Toranaga-noh-Chikitada-Minowara. Além disso, receberá dez cavalos, vinte quimonos, junto com equipamento de batalha completo para os seus vassalos. E o posto de almirante-chefe e piloto do Kwanto. — Toranaga esperou até que Mariko tivesse traduzido, depois chamou: — Naga-san!

Obedientemente Naga trouxe a Toranaga o pacote embrulhado em seda. Toranaga atirou longe o envoltório. Havia duas espadas, uma curta, a outra, a espada mortífera.

— Notando que a terra engolira as minhas espadas e que eu estava desarmado, o Anjin-san desceu novamente ao abismo para buscar as suas e me dar. Anjin-san, dou-lhe estas em troca. Foram feitas pelo mestre artesão, Yori-ya. Lembre-se, a espada é a alma do samurai. Se ele a esquece, ou a perde, nunca será perdoado.

Para aclamação ainda maior, e inveja individual igualmente maior, Blackthorne pegou as espadas, curvou-se corretamente, e colocou-as no sash, curvando-se novamente em seguida.

— Obrigado, Toranaga-sama. Concede-me muita honra. Obrigado.

Começou a se afastar, mas Toranaga mandou-o ficar.

— Não, sente-se aqui, ao meu lado, Anjin-san. — Toranaga olhou de novo para o rosto militante e fanático dos seus oficiais.

Imbecis! Tinha ele vontade de gritar. Não compreendem que a guerra, tanto agora como depois das chuvas, só seria desastrosa? Qualquer guerra com Ishido-Ochiba-Yaemon e seus atuais aliados terminaria em massacre de todos os meus aliados, todos vocês, e aniquilação de mim e de toda a minha linhagem? Não compreendem que não tenho chance senão aguardando, e esperando que Ishido se estrangule?

Mas, em vez disso, incitou-os ainda mais, pois era essencial desconcertar o inimigo.

— Ouçam, samurais: logo serão capazes de provar o seu valor, homem a homem, como os nossos antepassados fizeram. Destruirei Ishido e todos os seus traidores, e o primeiro será Ikawa Jikkyu. Por isso dôo todas as terras dele, as duas províncias de Suruga e Totomi, no valor de trezentos mil kokus, ao meu fiel vassalo Kasigi Yabu, e, em Izu, confirmo-o, e à sua descendência, como governantes.

Uma estrondosa aclamação. Yabu ficou rubro de júbilo.

Omi martelava o chão, gritando de modo igualmente exultante. Agora a sua presa era ilimitada, pois por costume o herdeiro de Yabu herdaria todas as suas terras.

Então seus olhos se fixaram no Anjin-san, que aplaudia vigorosamente. Por que não deixar o Anjin-san fazê-lo por você, perguntou-se ele, e riu alto ante o pensamento imbecil. Buntaro inclinou-se para ele e deu-lhe um tapinha no ombro, amavelmente interpretando mal a risada como felicidade por Yabu.

— Logo você terá o feudo que merece, neh? — gritou por sobre o tumulto. — Você também merece reconhecimento. Suas idéias e conselhos são valiosos.

— Obrigado, Buntaro-san.

— Não se preocupe. Podemos atravessar quaisquer montanhas.

— Sim. — Buntaro era um feroz general de batalha e Omi sabia que estavam bem combinados: Omi, o audacioso estrategista, Buntaro, o destemido líder de ataque.

Se há alguém que pode nos fazer atravessar as montanhas, é ele.

Houve uma outra explosão de alegria quando Toranaga ordenou que trouxessem saquê, encerrando a reunião formal.

Omi tomou seu saquê e observou Blackthorne esvaziar outro cálice, seu quimono em ordem, as espadas corretas, Mariko ainda falando. Você mudou muitíssimo, Anjin-san, desde aquele primeiro dia, pensou ele satisfeito. Ainda tem muitas das suas idéias estranhas, mas está quase se tornando civilizado...

— O que há, Omi-san?

— Nada... nada, Buntaro-san...

— Você está com o ar que teria se um eta lhe tivesse esfregado as nádegas no rosto!

— Não é nada disso... em absoluto! Iiiiiih, é exatamente o oposto. Tive o começo de uma idéia. Beba! Ei, Flor de Pêssego, traga mais saquê, o meu Senhor Buntaro está com o cálice vazio!



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