Walter lippmann



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DA LIBERDADE AO ESTEREÓTIPO: A PRÁTICA JORNALÍSTICA E A CONFIGURAÇÃO DEMOCRÁTICA NAS PROPOSIÇÕES DE

WALTER LIPPMANN

Felipe Simão Pontes


Com base nos livros Liberty and the News (1920) e Public Opinion (1922), propõe-se expor aqui algumas das contribuições do jornalista estadunidense Walter Lippmann para as teorias sobre o jornalismo em sua intersecção com a democracia. Principalmente, como o jornalismo participa do processo de constituição da opinião pública, o que, necessariamente, não significa mais democracia ou liberdade de atuação política, mas revela muitos dos jogos de interesses que transbordam para a atuação autocrática de governos, grupos políticos e econômicos no interior da sociedade (em específico no contexto do autor, a estadunidense). Assim, expõe o paradoxo da prática jornalística, visto que esta trabalha na tênue linha entre a defesa da liberdade de atuação política dos cidadãos e o uso retórico da auto-atribuição dessa defesa para expropriar o público de sua liberdade.

Por outro lado, a exposição de conceitos de Lippmann como liberdade, opinião pública e estereótipo permitem descrever o momento de transformações do jornalismo dos Estados Unidos e do mundo diante da experiência propagandística da I Guerra Mundial, do aumento das assessorias de comunicação e profissionalização do processo eleitoral. A discussão permite contextualizar as transformações nas práticas deontológicas dos jornalistas do período, como a defesa da objetividade (e sua consequente atribuição como meta diante dos desafios dos interesses envolvidos na produção das notícias), da busca pela verdade, da checagem das fontes, etc (SCHUDSON, 2010). Isso é possível diante da posição paradigmática que Lippmann assume em suas análises sobre a política e a imprensa estadunidense.

No início do livro Public Opinion, Walter Lippmann (2008) conta uma anedota que permite o rápido vislumbre da situação do público diante da informação. Em uma determinada ilha isolada, no ano de 1914, viviam pacificamente alemães, ingleses e franceses. Eles passam seis semanas depois de deflagrada a I Guerra Mundial sem saber que já não poderiam participar da mesma comunidade, compartilhar visões de mundo, viverem pacificamente. A ilha estava em guerra depois que a informação chegou.

A anedota parece ultrapassada quando se atualiza a história. A proliferação de meios de comunicação e a circulação instantânea das informações possibilitada pela internet, rádio e TV potencializam o acesso aos acontecimentos em instantes. No entanto, a anedota volta a tomar corpo quando o assunto diz respeito à possibilidade dos meios de informação, em específico em seu tratamento jornalístico, de exporem as estruturas intrínsecas do processo político e evidenciarem as possibilidades de transformação e melhoria do aparato político. Lippmann indica com a anedota não a pouca possibilidade de informação em seus déficits de instrumentos físicos (cabos, antenas, aparelhos, papel jornal), mas quanto a pouca possibilidade política de participação ativa dos cidadãos na gestão do Estado e o baixo papel de fiscalizador do poder defendido pelos jornais.

A grande quantidade de informações que circulam atualmente pode não significar necessariamente mais democracia (ainda que possam ser índice para tal potencialização). O texto de Lippmann parece sugerir que a quantidade de informação que não busca inserir as pessoas no círculo político serve para empanar a capacidade de reação, como um manto que isola grupos sociais das instâncias de poder e torna a democracia uma falácia. Isso é corroborado pelo uso do termo democracia para justificar práticas tutelares do corpo político sobre os seus membros, servindo de embuste para fundamentar intervenções autocráticas, lobby econômico no interior da burocracia estatal e a naturalização de regimes de exceção.

Nesse sentido, a vida dos sujeitos em sua esfera de sociabilidade mais próxima revela estereótipos que determinam a tomada de posição em detrimento dos acontecimentos e práticas decisórias na sociedade. As pessoas de um modo geral tomam posição sem terem contato direto com o acontecido, assumindo posições que não são as suas. Ficaria, assim, sob a tutela de uma minoria esclarecida a capacidade de expansão dessa esfera primária de sociabilidade e, por conseguinte, de tomada de posição. Essa minoria trabalha para o controle da informação e, de certa forma, constrói os estereótipos que compõem esse processo. O jornalismo é a instituição por excelência da possibilidade de rompimento com os estereótipos e, na posição do autor, também de construção e manutenção dos mesmos.

Conforme Zask (2008, p. 143), isso é complexificado pelos interesses econômicos e políticos dos donos de jornais, na dependência dos jornalistas frente aos assessores de imprensa e na mudança de consideração acerca dos leitores – de público e cidadãos, eles passam a consumidores. “De repente, o público muda de função: daquele ideal participativo, ativo e responsável, ele passa a consumidor e passivo”. O público torna-se um ”fantasma”, apropriando-se aqui do título da obra de Lippmann publicada em 1926: The Phantom Public. E o jornalismo, ao invés de apresentar os dados que permitiriam desestabilizar os estereótipos, passa a mais um veículo de propaganda.

Essa situação vai ao encontro do desenvolvimento das técnicas de propaganda e de construção da verdade por intermédio do jornalismo, utilizando a exposição de dados e fatos como prerrogativa para mascarar interesses políticos. Isso fica evidenciado em momentos-chave dos processos políticos democráticos, como na corrida eleitoral ou na tomada de importantes decisões por parte do Estado. Torna possível ainda compreender a entrada da ciência como dispositivo para mapeamento e estudo dos potenciais eleitorais, da transformação dos modos de fazer política e de construção da imagem de mandatários. Diante dessas condições, as teorizações sobre o jornalismo são subsumidas às proposições da Sociologia da Comunicação e da disciplina de Comunicação que incluem o jornalismo como fenômeno da agenda propagandística do contexto eleitoral e militar.

Isso, porém, toma parte do processo como todo, e lança o jornalismo simplesmente na esfera das relações públicas, sem atinar para as transformações que o próprio jornalismo dos anos 1920 e 1930 se impõe para combater o realismo ingênuo e a posição não especializada dos jornalistas. As discussões promovidas por Lippmann permitem complexificar o modo de compreensão acerca do jornalismo indicando os desafios para essa prática profissional diante dessa conjuntura que abrange toda a democracia. O desenvolvimento de técnicas para checagem das fontes, a busca pela objetividade e a valorização do código deontológico servem como um processo contínuo de defesa da especialização e formação do jornalista para o seu trabalho no cotidiano. Isso não significa a mudança estrutural do jornalismo, mas a defesa de um processo de especialização contínuo, que inclui a capacidade de compreender a posição dos jornalistas frente à própria estrutura empresarial do jornalismo, das assessorias de comunicação e dos estratos políticos e econômicos. Isso possibilita, inclusive, atinar para posição crescente da defesa da especialização, formação e qualificação dos profissionais e são os motes para o desenvolvimento de teorias deontológicas e filosóficas acerca do jornalismo.

Nesse aspecto, a análise proposta coloca os textos de Lippmann como dispositivos para discutir o jornalismo na agenda política e democrática, o que ressoa nas características contemporâneas dessa prática profissional e acadêmica. Por outro lado, permite também que sejam feitas críticas a algumas das posições do autor, levando em conta inclusive as considerações que atestam marcas de conservadorismo e de preconceito acerca do senso comum (BADIA; CLÚA, 2008).


REFERÊNCIAS
BADIA, L; CLÚA, A. Utopias Frageis: imprensa livre e democracia segundo Walter Lippmann. In: BERGER, C; MAROCCO, M. A Era Glacial do Jornalismo: teorias sociais da imprensa. Vol 2. Porto Alegre: Sulina, 2008.
LIPPMANN, W. (1920) Liberty and the News. Princeton: Princeton University, 2008.
. (1922) A Opinião Pública. Petrópolis: Vozes, 2008.
SCHUDSON, M. Descobrindo a Notícia: uma história social dos jornais nos Estados Unidos. Petrópolis: Vozes, 2010.
ZASK, J. Lippmann: jornalista ou filósofo? In: BERGER, C; MAROCCO, M. A Era Glacial do Jornalismo: teorias sociais da imprensa. Vol 2. Porto Alegre: Sulina, 2008.



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