W. B. Yeats e a Tradição Romântica do Poema Reflexivo



Baixar 123,8 Kb.
Encontro19.07.2018
Tamanho123,8 Kb.

W. B. Yeats e a Tradição Romântica do Poema Reflexivo(^

Jorge Miguel Bastos da Silva

Resumo

É intenção deste artigo estabelecer uma relação entre certas características da poesia de Yeats e a tradição romântica do poema reflexivo, nas suas estrutura geral e temática, bem como em alguns aspectos da sua simbólica típica. Os poemas "A Prayer for My Daughter", de Yeats, e "Frost at Midnight", de Coleridge, são tomados como exemplos desta relação. Em consequência, são focados temas como a demanda introspectiva da faculdade poética e da própria identidade do sujeito, a mortalidade e a criança como promessa de consumação da demanda.

Abstract


This paper is intended to establish a relationship between certain traits of the poetry of Yeats and the Romantic tradition of reflexive poetry, in its overall structure and matter as well as in some aspects of its characteristic symbolism. Yeats's "A Prayer for My Daughter" and Coleridge's "Frost at Midnight" are taken as instances of this relationship. As a result, a major focus is placed on the subject's introspective quest for the poetic faculty and identity itself, on mortality, and on the child as a being capable of carrying on the quest success-fully.

No livro que dedicou ao estudo da obra de William Butler Yeats, o eminente crítico norte-americano Harold Bloom, para quem o poeta é o herdeiro consciente dos românticos ingleses, defende que" [...] Yeats's immediate tradi­tion could be described as the internalization of quest romance, and Yeats's most characteristic kind of põem could be called the dramatic lyric of internal-ized quest, the genre of Sailing to Byzantium, Vacillation, and many of the Supernatural Songs, and indeed of most of Yeats's major works" (Bloom 1972: 4-5). Esta afirmação tem por pano de fundo um outro estudo do mesmo autor, intitulado "The Internalization of Quest Romance" (Bloom 1988:17-42), ensaio que postula a centralidade, para o entendimento do texto romântico, do

^ O presente estudo foi realizado em Julho de 1993 no âmbito do mestrado em Estudos Anglo-Americanos da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, frequentado pelo autor na qualidade de bolseiro da Junta Nacional de Investigação Científica e Tecnológica. Agradece-se ao Professor Doutor Gualter Cunha o acompanhamento crítico dispensado à elaboração do trabalho.

77

paradigma da demanda interiorizada, entendido este como um padrão narrativo, procedente da subjectivização das estruturas do romance medieval de demanda, segundo o qual o sujeito se vê na necessidade de ultrapassar as próprias inibições imaginativas na senda dos seus plenos poderes visionários. Nas palavras de Wordsworth, o poema romântico de demanda dramatiza o processo pelo qual



the mind of man becomes A thousand times more beautiful than the earth On which he dwells, above this frame of things [...] In beauty exalted, as it is itself Of substance and of fabric more divine.

(Wordsworth 1979: 482)



Ora, por uma tendência pela qual o próprio Harold Bloom não pode isentar-se de responsabilidades, o paradigma da demanda tem servido, tanto quanto nos podemos aperceber, para explorar a obra de um Blake, um Wordsworth ou um Shelley, enquanto, sob esta perspectiva, a leitura da obra de Coleridge -para a qual nos veremos remetidos na presente circunstância - tem sido comparativamente descurada. Perante tal omissão e partindo do pretexto bloomiano acima enunciado, teremos por objectivo primordial, no decurso deste estudo, sustentar que algumas das modulações determinantes da criação poética de Yeats entroncam na tradição romântica do poema reflexivo, designadamente na sua vertente coleridgeana, e examinar as formas que assume essa genealogia. Um segundo objectivo, a cumprir de passagem, consistirá em sugerir que, pelas suas incidências temáticas e manifestações estruturais, o poema reflexivo coleridgeano, inscrevendo-se na incompletude de uma identidade potencial que é instrumental à narrativa da demanda, participa exemplarmente do arquétipo proposto por Bloom - embora o faça, como é óbvio, de uma forma diferente, e de resto mais subtil e mais original, do que aquela que se encontra, digamos, no Alastor de Shelley.

Com tais objectivos em vista, a nossa reflexão processar-se-á, em importante medida, por meio do estabelecimento do que é, para nós, um diálogo privilegiado, aquele que associa "A Prayer for my Daughter" de Yeats ao poema de Coleridge "Frost at Midnight" (seria igualmente viável um estudo que tomasse por objectos "This Lime-Tree Bower My Prison" e "Coole Park, 1929"). Comecemos, em busca do poema reflexivo romântico, pelo texto de Coleridge.



"Frost at Midnight" apresenta-nos a imagem do sujeito lírico meditando junto ao berço no qual dorme uma criança, o seu filho. O poema começa por referir a paisagem circundante, mas depressa a contemplação de uma película que vibra ao vento faz recordar uma superstição antiga e esta uma cena da infância enclausurada do sujeito, que, por contraste, vem a formular a esperança de que o seu filho cresça num ambiente em que lhe seja dado realizar na íntegra as suas potencialidades:

78

For I was reared



In the great city, pent 'mid cloisters dim, And saw nought lovely but the sky and stars. But thou, my babe! shalt wander like a breeze By lakes and sandy shores, beneath the crags Of ancient mountain, and beneath the clouds, Which image in their bulk both lakes and shores And mountain crags: só shalt thou see and hear The lovely shapes and sounds intelligible Of that eternal language, which thy God Utters, who from eternity doth teach Himself in ali, and ali things in himself. Great universal Teacher! he shall mould Thy spirit, and by giving make it ask.

(Coleridge 1986: 242)



O texto termina com a visão de uma vida serena para além das vicissitudes e das contingências naturais.

A esperança, que o sujeito assim projecta na figura do seu filho, de comunhão com a natureza enquanto emanação de Deus é evidentemente devedora da concepção wordsworthiana que encontra expressão marcante em Tintem Ab-bey e nos momentos mais extáticos de The Prelude. Essa esperança de comunhão natural e mística é uma consubstanciação da necessidade de resistência a (para citarmos de novo este último poema)

The tendency, too potent in itself, Of habit to enslave the mind - I mean Oppress it by the laws of vulgar sense, And substitute a universe of death, The falsest of ali worlds, in place of that Which is divine and true.

(Wordsworthl979:466)W

Harold Bloom diz de "Frost at Midnight" que" [...] it shares with Tintem Abbey the distinction of inaugurating the major Wordsworthian myth of the memory as salvation. Indeed, Coleridge precedes Wordsworth" (Bloom 1971: 202). É curioso verificar - tanto mais que a ensaística de Bloom é grandemente influenciada pela psicanálise freudiana - que o desenvolvimento do poema de Coleridge é paralelo à estrutura do devaneio tal como a expõe Sigmund Freud em "Der Dichter und das Phantasierèn": "Das Verhaltnis der Phantasie zur Zeit ist uberhaupt sehr bedeutsam. Man darf sagen: eine Phantasie schwebt gleichsam zwischen drei Zeíten, den drei Zeitmomenten unseres Vorstellens, Die seelische Arbeit knupft an einen aktuelíen Eindruck, einen Anlafi in der Gegenwart an, der imstande war, einen der grofien Wúnsche der Person zu wecken, greift von da aus auf die Erinnerung eines fruheren, meist infantilen, Erlebnisses zuríick, in dem j ener Wunsch eríullt war, und schafft nun eine auf die Zukunít bezogene Situation, welche sích ais die Erfullung jenes Wunsches darstellt, eben den Tagtraum oder die Phantasie, die nun die Spuren ihrer Herkunft vom Anlasse und von der Erinnerung an sich tràgt. Aíso Vergangenes, Gegenwàrtiges, Zukunftiges wie an der Schnur dês durchlaufendes Wunschesaneinandergereiht" (Freud 1972:217-8).

79

Por outro lado, "Frost at Midnight", ao mesmo tempo que recupera a oposição existencial - uma vez mais, de cunho eminentemente wordsworthiano neste contexto, ainda que dependa também da tradição pastoral, de Rousseau, etc. -do espaço rural ao espaço urbano, concilia o ideal da união do indivíduo com a natureza com a doutrina coleridgeana, enunciada no Capítulo XIII de Biographía Literária (Coleridge 1983: 304), da relação imaginativa com o mundo como via para o "infinite I AM", esse apocalipse do divino no indivíduo que o sujeito poético ambiciona - já não para si próprio, pois se vê obrigado a reconhecer a sua inaptidão, agora para o seu filho.



Deste modo, o discurso assume a função de passagem de um testemunho: colocado perante a impotência própria, o sujeito lega ao descendente a sua missão, a senda romântica da comunhão com Deus pela natureza, na expectativa de que ele seja capaz de a consumar. Em tudo isto manifesta-se um narcisismo biface: por um lado, o poema surge como instrumento de realização de um processo autoritário e unilateral de geminação do sujeito poético com o seu filho ao investir este do sentido da existência daquele; por outro, e num movimento que depende do anterior, o poema traduz uma ânsia de mitigação da morte, de perpetuação do eu para além dos limites naturais da existência.

Se é um facto, pois, que em "Frost at Midnight" transparece um narcisismo bifronte, não é menos verdade que no âmago mesmo desse narcisismo reside a sua negação. Ao optar por transferir o seu desejo para o filho, o sujeito reconhece implicitamente os seus limites, assim fazendo uma tentativa precária para apaziguar a angústia ocasionada por esse reconhecimento. A fórmula da exortação à continuidade, da passagem do testemunho, aliás, torna concomitantes a consciência da finitude individual e a aspiração à perenidade. É a própria semente da ironia que leva à constituição do discurso, deste modo animado pela negação daquilo mesmo que procura exprimir. Pelo discurso o sujeito encara a morte como um destino; por ele aspira a uma vida de eleição.

Realizando uma série de movimentos no eixo da cronologia e evoluindo de situação para situação com uma liberdade notável, o poema efectua uma subversão do tempo linear. Tal subversão implica, inversamente, o reconhecimento da irreversibilidade do tempo no mundo exterior ao poema. Este é, portanto, uma ficção, e o que é ficcionado é uma existência subtraída à morte, a sacerdotisa do tempo. O poema surge como território de desejo, o desejo desumano, ou sobre-humano, de imortalidade. Simultaneamente, espaço de desolação sublimada, ei-lo povoado de uma ironia subtil, pois que lhe subjaz a consciência da condição mortal, de uma fronteira inexcedível, de um silêncio sem remissão.

Oscilando entre tempos diversos, "Frost at Midnight" oscila entre a privação e o êxtase, a reminiscência e a sensação, a ansiedade e a plenitude, e oscila, sobretudo, entre o tempo e o sem-tempo no acto de falar que a todos convoca, celebração ritual do indistinto. O poema reflexivo, na sua versão coleridgeana,

80

parte geralmente de uma experiência ou de uma circunstância concreta (com frequência evocada logo no título: "Reflections on Having Left a Place of Re-tirement", "This Lime-Tree Bower my Prison", etc.) que, no plano do desenvolvimento do texto, desencadeia e configura o voo imaginativo do sujeito poético. Por outras palavras, tende à conciliação, na própria estrutura que lhe é característica, dos deícticos indicativos do aqui e agora com a sugestão, a evocação, a simbolização, o desejo do atemporal. Nos termos coleridgeanos, o poema reflexivo é organicamente esemplástico. Nos termos de Yeats, como distinguir da dança a dançarina?



Feita uma leitura, algo sumária decerto, de "Frost at Midnight", teremos seguidamente oportunidade de verificar que o poema de Coleridge fornece um padrão de ressonâncias de extrema utilidade para a compreensão de "A Prayer for my Daughter". Logo à primeira vista, de facto, as semelhanças são flagrantes. Agora com a participação de uma filha (embora seja de notar o emprego de termos ambivalentes, como são "infant" e "babe", em "Frost at Midnight", vimos subentendendo sempre, por várias ordens de razões, o sexo masculino da criança), a cena repete-se: o sujeito, desgastado pelo tempo, contempla, junto ao berço, o seu próprio ideal de existência na instância regeneradora do discurso poético. Uma vez mais, o texto começa por localizar o discurso, alicerçando-o numa situação concreta composta por elementos coincidentes com os encontrados em Coleridge: o monte, a floresta, o vento, o mar. Não podem deixar de ser notadas, entretanto, as modulações a que são submetidos, neste poema face ao acima comentado, os elementos da paisagem, em particular os dois últimos apontados. O vento associa-se aqui ao mar, do qual provém e de cuja ameaça, portanto, participa - bem ao contrário do que sucede no texto de Coleridge, como procuraremos estabelecer quando nos debruçarmos sobre a estrutura antitética do poema reflexivo. Por seu turno, o mar, merecedor em "Frost at Midnight" de uma referência não mais que passageira, é alegorizado: o sujeito lírico yeatsiano pondera o susto da chegada dos dias futuros "Out of the murderous innocence of thesea" (Yeats 1990: 212). Face à tradição romântica, isto corresponde, na verdade, a uma inversão do valor habitual daquele elemento. Na conhecida ode "Intimations of Immortality from Recollections of Early Childhood", Wordsworth escreve:

Hence in a season of calm weather



Though inland far we be, Our Souls have sight of that immortal sea

Which brought us hither, Can in a moment travei thither, And see the Children sport upon the shore, And hear the mighty waters rolling evermore.

(Wordsworth 1990: 462)



81

A imagem da infância como uma condição litoral bem-aventurada, um estado de transição ou de conciliação entre o mar e a terra, é recorrente na ode. O mar representa a imensidão ideal da pré-existência, a unidade matricial que o nascimento vem quebrar e da qual o passar dos anos afasta progressivamente o indivíduo. Já não o oceano da plenitude, o de Yeats é o oceano da morte.

A metamorfose da paisagem natural procede da própria estrutura do poema reflexivo romântico, caracterizado, como vimos, por uma errância constante entre o interior e o exterior, o presente e o ausente, o tido e o desejado, numa linguagem que ora presentifica o real, ora sugere ser ela própria (o) real, problematizando incessantemente a fronteira entre os dois processos. Segundo Paul de Man, "An abundant imagery coinciding with an equally abundant quan-tity of natural objects, the theme of imagination linked closely to the theme of nature [...] is the fundamental ambiguity that characterizes the poetics of ro-manticism. The tension between the two polarities never ceases to be problem-atic" (De Man 1984: 2).

Nesta perspectiva, a melancolia que percorre o poema de Yeats encontra o seu correlato, no plano do próprio exercício do discurso, numa certa intranquilidade manifestada no que concerne às potencialidades da linguagem. Vale a pena reparar que, enquanto o sujeito lírico de "Frost at Midnight" se dirige directamente ao seu filho, a voz de "A Prayer for my Daughter" fala da sua filha - ela é o assumo do discurso, não o seu destinatário. Dito de outra maneira, o discurso de Coleridge, inscrevendo, ou inscrevendo-se entre, um eu e um tu em relação directa, como que realiza, pela sua própria existência, a comunhão do sujeito com o seu filho; no texto de Yeats, pelo contrário, há uma permanência incerta no limiar da comunicabilidade.

Tal não impede, em todo o caso, o sujeito de, num tom mais de eloquência do que de confidência íntima, expor em modo experimental (isto é, numa linguagem que a cada instante se parece testar a si própria) o ideal de vida que reserva à descendente e que se explicita, em larga medida, por via dos obstáculos a transpor e dos enganos a evitar. Em resumo, as forças antagónicas desta aprendizagem são a beleza excessiva, que obvia à edificação da intimidade, o ódio desenfreado e, em especial, a "opinião", ou seja, o envolvimento nas questões mesquinhas do momento histórico em que se vive (um tópico retomado de "Michael Robartes and the Dancer"). Por outro lado, a cortesia surge como virtude cardinal, acompanhada da cerimónia, da inocência, da tradição, vocábulos que convergem na ideia de uma herança cultural cuja preservação urge assegurar. Com efeito, a importância do gesto, que "A Prayer for my Daughter" sublinha, de uma certa heroicidade estilizada, de uma cortesia aristocrática ou aristocratizante recuperável na lenda, é sensível na globalidade da obra de Yeats.

Em articulação com a proposta de um ideal aristocrático, ocupa lugar de destaque, no universo poético yeatsiano, a imagem da espiral, seja a cornucópia de "A Prayer for my Daughter", o redemoinho de "Coole Park and Ballylee,

82

1931", o búzio de "The Song of the Happy Shepherd" ou a escada em caracol de "Blood and the Moon", que suscita a proclamação:

I declare this tower is my symbol; I declare

This winding, gyring, spiring treadmill of a stair is my ancestral stair;

That Goldsmith and the Dean, Berkeley and Burke have travelled

there.


(Yeats 1990: 268)

Associado à torre, o movimento elíptico torna-se figura de uma continuidade ascética, de uma tradição que se depura, ao mesmo tempo que poemas como "The Gyres" ou "The Second Corning" registam a crise mais ampla de uma certa visão idealizada do mundo.

Por outro lado, o texto recorre à imagem da árvore, para a qual é possível traçar uma ascendência marcadamente romântica: "O may she live like some green laurel / Rooted in one dear perpetuai place" [Yeats 1990: 213). Conotando o processo imaginativo e subjazendo à própria concepção do poema enquanto estrutura discursiva, a metáfora orgânica da árvore é corrente na poesia e na reflexão crítica românticas (cf.Abrams 1976:166-77,184-225), podendo evocar-se, a título exemplificativo, um célebre passo da correspondência de John Keats. Declara o poeta que um dos seus axiomas é que "[...] if Poetry comes not as naturally as the Leaves to a tree it had better not come at ali" (Keats 1948: 108). Ainda na epistolografia keatsiana, encontramos a convicção do carácter e do efeito revelacionais da poesia formulada nos seguintes termos: "Man should not dispute or assert but whisper results to his neighbour and thus by every germ of spirit sucking the sap from mould ethereal every human might become great, and Humanity instead of being a wide heath of Furze and Briars with here and there a remote Oak or Pine, would become a grand democracy of Forest Treesl" (Keats 1948: 103-4) Como escreve Yeats no final de "Among School Children":

O chestnut-tree, great-rooted blossomer, Are you the leaf, the blossom or the bole? O body swayed to music, O brightening glance, How can we know the dancer from the dance?

(Yeats 1990: 245)

Tanto a árvore como a dançarina constituem, no âmbito da obra de Yeats e da tradição poética,' de cunho romântico e simbolista, em que ela se integra, imagens emblemáticas da consumação artística^).

(2> Um estudo decisivo sobre estas matérias fica a dever-se a Frank Kermode (Kermode 1957:49-103 e passim). Para muitas das imagens empregues por Yeats em "A Prayer for my Daughter" e outros textos é possível identificar precedentes coleridgeanos (cf. Coburn 1970: 415-37).

83

Finalmente, na penúltima estrofe, tendo evocado imagens de fecundação como a árvore e a cornucopia e exposto os perigos e tentações que se opõem à prossecução da demanda proposta, o sujeito poético de "A Prayer for my Daugh-ter" revela, em versos que recordam o espírito "[...] every where / Echo or mirror seeking of itself" (Coleridge 1986: 241) de "Frost at Midnight" (e considere-se também a doutrina de fundo de "Dejection: An Ode"), a sua percepção solipsística da alma humana em estado de beatitude:

Considering that, ali hatred driven hence,

The soul recovers radical innocence

And learns at last that it is self-delighting,

S elf-appeasing, self-afFrighting,

And that its own sweet will is Heaven's will;

She can, though every face should scowl

And every windy quarter howl

Or every bellows burst, be happy still.

(Yeats 1990: 213-4)

Celebrando, deste modo, os rituais distantes de uma serenidade a ser atingida por emersão do turbilhão do tempo histórico, o poema regressa, a concluir, aos sintagmas do ideal que transmite para uma derradeira definição:

How but in custom and in ceremony Are innocence and beauty born? Ceremony's a name for the rich horn, And custom for the spreading laurel tree.

(Yeats 1990: 214)



Estes versos representam a etapa final do esforço que transparece no texto - e que de algum modo o domina e constitui - de cristalizar o discurso em termos imaginativamente coincidentes com o ideal a que se aspira. Dito de outra maneira, estamos perante um discurso originado e orientado como que em busca de uma expressão simbólica que, em síntese, sobressaia, pela sua qualidade definitiva, da sucessão tumultuosa das palavras vulgares. É assim que surgem, nesta luta contra o vazio da linguagem, a imperturbabilidade aristocrática da árvore, a fertilidade generosa da cornucopia.

Tais símbolos - e a respectiva formação, a que se assiste no texto - têm, pois, uma função muito clara: a de designar o objecto da demanda e o seu decorrer, o triunfo tanto quanto o processo. Em "Frost at Midnight", o poeta opera com uma dialéctica que desempenha uma função precisamente idêntica e cujos termos são, de forma discreta embora, enunciados logo nos versos de abertura: "The Frost performs its secret ministry, / Unhelped by any wind." (Coleridge 1986: 240) O vento, importa notar, não participa na acção da geada

84

- não porque não haja vento (a ele se deve o abanar da película suspensa da cerca) mas porque ele se opõe funcionalmente à imagem da geada. Ora, como foi já assinalado pela crítica (cf. Abrams 1977a: 37-54), a imagem do vento é, na escrita romântica, concomitante à visão imaginativa e à faculdade do discurso poético^. Esclarecem-se assim as implicações do desejo, expresso pelo sujeito de "Frost at Midnight", de o seu filho vir a vaguear "como uma brisa" (cf. v. 54) em comunhão com a natureza e o Criador, bem como a referência, que se lhe encontra associada, ao domínio da linguagem. O sujeito lírico coleridgeano manifesta, pois, a esperança de que a criança se torne uma verdadeira encarnação do espírito poético.

A oposição do vento à geada forma um padrão metafórico que se repete, com alguma frequência, na poesia de Coleridge e Wordsworth. Este último descreve, em The Prelude, a efusão imaginativa do seguinte modo:

[...] if I may trust myself, this hour Hath brought a gift that consecrates my joy; For I, methought, while the sweet breath of heaven Was blowing on my body, felt within A corresponding mild creative breeze, A vital breeze which travelled gently on O'er things which it had made, and is become A tempest, a redundant energy, Vexing its own creation. Tis a power That does not come unrecognised, a storm Which, breaking up a long-continued frost, Brings with it vernal promises, the hope Of active days, of dignity and thought, Of prowess in an honorable field, Puré passions, virtue, knowledge, and delight, The holy life of music and of verse.

(Wordsworth 1979: 30)



A imagética do degelo - no âmbito da qual o sol substitui, por vezes, o vento -vem, compreensivelmente, a revestir-se de alguma importância nesta época em que os poetas começam a reflectir com crescente insistência sobre as condições do seu próprio discurso.

Neste sentido, parece-nos lícito afirmar que "A Prayer for my Daughter" participa daquela angústia da significação que percorre a obra poética - e não



(3) Ao qualificarmos negativamente a geada por oposição ao vento diferimos da leitura de Tim Fulford (Fulford 1991:46-54), que insere "Frost at Midnight" no contexto da tradição esotérica. Em nosso entender, a estrutura metafórica subjacente à imagética do degelo é idêntica àquela que subjaz ao motivo do vento fecundador face à aridez natural e imaginativa cujo correlato cosmológico reside no çjclo das estações.

85

apenas a obra poética - de Coleridge e que se traduz, por um lado, numa auto-reflexividade extrema do discurso e, por outro, naquilo que com justeza se descreve como uma hesitação constante entre as virtualidades do silêncio e da alegoria. O poema inscreve-se, assim, no limite do discurso, na iminência da vertigem, e vê-se obrigado a fazer e refazer os próprios passos. "A Prayer for my Daughter", de facto, revê ciclicamente os seus motivos e imagens (o vento, o mar, a árvore, a cornucópia, a beleza, a inocência, a cerimónia), redescobre-os em novas redes relacionais, ao mesmo tempo que re-escreve, por idêntico processo, "The Second Corning", o texto que imediatamente o precede no volume Michael Robartes and lhe Dancer.



"The Second Corning" traduz a consciência historicamente localizada (o contexto triangularmente formado pela problemática anglo-irlandesa, a primeira guerra mundial e a revolução bolchevique russa constituirá decerto uma referência fundamental) da desordem patente no mundo:

Turning and turning in the widening gyre

The falcon cannot hear the falconer;

Things fali apart; the centre cannot hold;

Mere anarchy is loosed upon the world,

The blood-dimmed tide is loosed, and everywhere

The ceremony of innocence is drowned;

The best lack ali conviction, while the worst

Are full of passionate intensity.

(Yeats 1990: 210-1)



À constatação do caos sucede a visão apocalíptica que "A Prayer for my Daugh­ter", com uma certa ironia de permeio, retomará:

[...] somewhere in sands of the desert A shape with lion body and the head of a man, A gaze blank and pitiless as the sun, Is moving its slow thighs, while ali about it Reel shadows of the indignant desert birds. The darkness drops again; but now I know That twenty centuries of stony sleep Were vexed to nightmare by a rocking cradle, And what rough beast, its hour come round at last, Slouches towards Bethlehem to be born?

(Yeats 1990: 211)

Em última análise, este díptico de Yeats reproduz um padrão que não é estranho à tradição romântica: em certo sentido, "Frost at Midnight" está para "Religious Musings" como "A Prayer for my Daughter" está para "The Second

86

Coming"(4). À semelhança do que se verifica na justaposição destes últimos, ."Frost at Midnight" projecta no futuro hipotético de um descendente o desejo de harmonização do espírito humano com o mundo, de regeneração pessoal e cósmica, de recuperação de um sentido de unidade entre os elementos constituintes do universo, desejo para o qual "Religious Musings" fornece um enquadramento mítico-histórico que lhe vem sublinhar a urgência'5'. Em Coleridge como em Yeats, então, evolui-se, a serem, admitidos estes trajectos de leitura, da consciência de uma incompletude individual e humana para uma reconciliação encontrada na precariedade do desejo. Reconciliação cómica, se quisermos, porque de fundo social: o sujeito constrói, no discurso da esperança e da anunciação, um território de partilha que o salva do isolamento trágico da finitude.



"Frost at Midnight" e* "A Prayer for my Daughter" são preces, afinal, no mesmo sentido do termo e dirigem-se a um mesmo Deus: aquele que se espera se consubstancie no rumo, por ora incerto, da vida da criança depositada no berço; não aquele que está nas Escrituras mas o que se invoca na solidão angustiada da escrita; não um Deus afastado da anarquia que reina no mundo mas um Deus que, seja na ordem sacramental da natureza, seja na tradição cerimoniosa dos costumes, se revele na medida humana da criança que o aguarda.

Não se pretende, bem entendido, olvidar as diferenças, sem dúvida importantes, que se fazem notar entre "Frost at Midnight" e "A Prayer for my Daughter" - diferenças de grau, sobretudo. A consciência agónica do tempo e da sua irreversibilidade, vimo-lo já, é algo que marca profundamente estes poemas, bem como a consciência do desregramento espiritual e cósmico. Não pode deixar de ser referido, em todo "o caso, o contraste entre o silêncio que enquadra o discurso do sujeito coleridgeano e a tempestade que se abate sobre o sujeito de Yeats, entre o canto das aves e o bramido dos elementos em fúria. Há, incontestavelmente, um agudizar, em "A Prayer for my Daughter", do sobressalto do sujeito poético, da angústia face ao terror da morte. Assistimos a um processo que vem a culminar, bem no cerne do Modernismo, com o poema "Ecce Puer" de Joycé (Joyce 1991: 67), em que, ironia suprema, a

(4) Merece também referência a associação, complementar desta, de "The Second Corning" a "Coole Park, 1929" e "Coole Park and Ballylee, 1931" feita por Harold Bloom (Bloom 1972:380-1).

^ Atente-se, em especial, nos w. 126-58 do poema. Embora, sob pena de nos alongarmos em demasia com esta questão, somente nos seja possível mencionar aqui de passagem estes dados, cumpre anotar que se reconhecem ainda, na poesia de Alfred Tennyson como na de Dylan Thomas, relações até certo ponto análogas às apontadas. Assim, e no que diz respeito à obra de Tennyson, identifica-sè em "Locksley Hall" uma série de imagens coincidentes com as de "The Second Corning", concentradas nos versos que transcrevemos: "Eye, to which ali order festers, ali things here are out of joint: / Science moves, but síowly slowly, creeping on from point to point: // Slowíy comes a hungry people, as a lion creeping nigher, / Glares at one that nods and winks behind a slowly-dying fire. // Yet I doubt not thro' the ages one increasing purpose runs, / And the thoughts of men are widen'd with the process of the suns" (Tennyson 1983:94-5.0 trecho alude à imagem bíblica que apresenta o povo judaico como um leão, em Ezequiel 19: l -9 e Números 23:24 e 24:9). "Locksley Hall Sixty Years After", o poema que corresponde a este, realiza a transmissão do legado aristocrático ao descendente (um neto, neste caso) num contexto, uma vez mais, de marcada decadência. Quanto a Thomas, tenha-se em conta os movimentos complementares do díptico "Vision and Prayer" (Thomas 1993:114-25).

87

regeneração (pelo filho) é correlativa ao esvaimento (do pai). Na medida em que surge como impossível a compresença de pai e filho, o nascimento deste implica o aniquilamento daquele. Presença irredutível da finitude, a passagem do testemunho equivale à morte. Em "Ecce Puer", o filho substitui, mais do que prolonga, o pai, e a dádiva que este lhe faz não é já a da demanda, é somente a do perdão.



Ao fim e ao cabo, "Frost at Midnight" e "A Prayer for my Daughter" são textos que convergem numa profunda preocupação humanista em momentos de descentramento pessoal e colectivo. A turbulência do mundo circundante ao acto da escrita encontra também lugar de nomeação nas obras dos dois autores: "Frost at Midnight" e "A Prayer for my Daughter" são poemas de problemática existencial que coexistem com poemas que reflectem preocupações de ordem política desencadeadas por circunstâncias e acontecimentos historicamente identificáveis. A esta categoria pertencem textos como "France: An Ode" e "Fears in Solitude" de Coleridge, e "Easter 1916", "Nineteen Hun-dred and Nineteen" e "Meditations in Time of Civil War" de Yeats - textos que não deixam de reflectir, ainda que por vezes obliquamente, sobre o papel da poesia e a natureza do discurso.

Poemas como "A Prayer for my Daughter" e "Easter 1916" representam, de facto, os extremos opostos de um mesmo espectro, aquele que congrega as modalidades sociais da representação: se o segundo convoca o acontecimento histórico, a referência tida por pertinente para toda uma comunidade, em "A Prayer for my Daughter" assiste-se a uma máxima contracção do horizonte comunicativo do discurso à exclusão do solipsismo. E talvez nem este limite seja, em rigor, observado, já que, como a alusão a Vénus (cf. v. 28) sugere por contraste, a filha do sujeito lírico, submetida à estrutura discursiva do monólogo e, portanto, vítima de uma estratégia de imposição, é retoricamente instrumentalizada, é feita receptáculo dos anseios e angústias daquele que fala, daquele que subjectivamente a constrói pelo acto de falar.

Escreve L. C. Knights - para quem, sob aspectos importantes, Yeats sempre permaneceu um poeta romântico - que o Romantismo é "[...] the expression of a sensibility deliberately limited, both as regards its objects of interest and the modes of consciousness that it employs", acrescentando que "To romanti-cize any element in a given situation is to admit an inability to deal with it completely and with a full awareness of ali that is involved [...]" (Knights 1963: 175-6). Não cremos que o Romantismo implique, em boa verdade, esta admissão de impotência ou esta fuga à complexidade do real. É nossa convicção, ao invés, que a poesia romântica se constitui numa tensão, dinâmica e inesgotável, entre uma tendência para a simplificação ideálizante do real percebido e a resistência que, na sua diversidade, este lhe oferece. E é por participar intensamente dessa tensão que, a nosso ver, a poesia de Yeats se encontra mais próxima da dos românticos do que, por exemplo, do Modernismo de um Eliot

ou de um Pound, poetas que, à sua maneira, também não ensaiaram a idealização nem a dissimulação da complexidade, como comprova a aposta na descontinuidade discursiva realizada nos Cantos e em The Waste Lana.

Referências bibliográficas

ABRAMS, M. H. 1976. The Mirror and the Lamp: Romantic Theory and the Criticai Tradition. London: Oxford University Press.

ABRAMS, M. H. 1977a. "The Correspondent Breeze: A Romantic Metaphor" in M. H. Abrams (ed.).

ABRAMS, M. H. (ed.). 1977b. English Romantic Poets: Modern Essays in Criti-cism. London: Oxford University Press.

BLOOM, H. 1971. The Visionary Company: A Reading of English Romantic Poetry. Ithaca: Cornell University Press.

BLOOM, H. 1972. Yeats. London: Oxford University Press.

BLOOM, H. 1988. Poetics oflnfluence: New and Selected Criticism.New Ha-ven: Henry R. Schwab.

COBURN, K. 1970. "Reflections in a Coleridge Mirror: Some Images in his Poems" in F. W Hilles e H. Bloom (eds.).

COLERIDGE, S. T. 1983. Biographia Literária; or, Biographical Sketches of my Literary Life and Opinions. Ed. J. Engell, W J. Bate. Vol. I. London: Routledge & Kegan Paul / Princeton University Press.

COLERIDGE, S. T. 1986. Poetícal Works. Ed. E. H. Coleridge. Oxford: Ox­ford University Press.

DE MAN, P. 1984. The Rhetoric ofRomanticism. New York: Columbia Univer­sity Press.

FREUD, S. 1972. Gesammelte Werke chronologisch geordnet. Bd. VII. Frank-furt/M: S. Fischer Verlag.

FULFORD, T. 1991. Coleridge's FigurativeLanguage. Hampshire: Macmillan.

HILLES, F. W. e H. BLOOM (eds.). 1970. From Sensibility to Romanticism: Essays Presented to FrederickA. Pottle. London: Oxford University Press.

89

JOYCE, J. 1991. Poems and Shorter Writings. Ed. R. Ellmann, A. W Litz, J. Whittier-Ferguson. London: Faber.



KEATS, J. 1948. The Letters ofJohn Keats. Ed. M. B. Forman. London: Ox­ford University Press.

KERMODE, F. 1957. Romantic Image. London: Routledge & Kegan Paul.

KNIGHTS, L. C. 1963. Explorations: Essays in Criticism mainly on the Lit-erature ofthe Seventeenth Century. London: Chatto & Windus.



TENNYSON, A. 1983. Poems and Plays. Ed. T. H. Warren. Rev. F. Page. Oxford: Oxford University Press.

THOMAS, D. 1993. Collected Poems. Ed. W Davies, R. Maud. London: Dent.

WORDSWORTH, W. 1979. The Prelude, 1799, 1805, 1850: Authorítative Texts, Context and Reception, Receni Criticai Essays. Ed. J. Wordsworth, M. H. Abrams, S. Gill. New York: Norton.

WORDSWORTH, W. 1990. Poetical Works urith Introductions and Notes. Ed. T. Hutchinson. Rev. Ernest de Selincourt. Oxford: Oxford University Press.

YEATS, W. B. 1990. Collected Poems. London: Picador.

90



©livred.info 2017
enviar mensagem

    Página principal