Viva o povo brasileiro



Baixar 5,2 Mb.
Página9/63
Encontro10.10.2018
Tamanho5,2 Mb.
1   ...   5   6   7   8   9   10   11   12   ...   63

Mas parou diante de Amleto, olhou para ele e para o mestre, que, lá embaixo, parecia não saber o que fazer. Amleto, experimentando pela primeira vez a visão próxima da saída de uma chalupa guarnecida e equipada para matar os grandes bichos que com uma rabanada demoliriam uma casa, se admirou em sofrer inveja daqueles pretos que para ele agora, muito a seu contragosto, se transformavam em guerreiros expedicionários, escravos mas com poderes que ele não tinha, e achou no último instante que devia falar qualquer coisa, dar alguma ordem, passar alguma instrução imprescindível, mostrar-lhes o que realmente eram. O moço fez menção de curvar-se para soltar a laçada da amarra, parou a meio caminho, empertigou-se olhando para ele.

─ Atenção ─ bradou ele, e todos os pretos da guarnição obedeceram, ─ Atenção!

Porque Amieto estava contra o sol que já vinha aparecendo pela frente do Recôncavo, o mestre pôs a mão espalmada na testa e esperou. Esperou muito tempo, a celagem da manhã se desdobrando, a água se tornando vermelha e dourada, as nuvens esfiapadas se desmanchando, os passarinhos principiando toda sorte de atividade, a maré chapinhando como um relógio. Amleto inspirou fundo. Que entenderiam eles do que lhes podia dizer, que sabiam além daquilo que faziam?

─ Muito bem ─ disse finalmente. ─ Podem ir!

Mas, de alguma maneira, percebeu que não era nem podia ser necessário ali, que não havia acontecido nada que pudesse contar sem mentir, que o ar ficava um pouco musical quando, os remos recolhidos como as pernas de um peguari, a chalupa baleeira Liberdade, já livrando a pequena barra alegre feito um cabrito, içou sua vela quadrada e pardacenta, cambou a bombordo, endireitou e fez rota para o bojo da baía, onde já se viam com facilidade os contornos das baleias parecendo vulcõezinhos móveis fraldejando a costa.

Falarei desta partida durante a visitação, resolveu Amleto, pensando se não haveria uns versos de Virgílio, sobre heróis a fazer vela, anotados em seu caderno. Poderia decorá-los antes das sete horas, quando sairia a excursão? Sim, mas já se lembrava deles vagamente, pois pedira ao pároco para anotá-los depois de um sermão na missa do Senhor dos Navegantes. Sim, lembrava-se bem: achei tanta evocação na força desses versos, Reverendo Padre, que lhe peço vênia de copiá-los para minha elevação. Stabant orantes primi transmittere cursum, tendeban ... como era mesmo?

E qm francês, nada em francês? Não, nunca ouvira ninguém falar francês, tinha somente uma idéia nebulosa de como pronunciar as palavras. Não, latim. O latim, afinal ... Stabant orantes! E caminhou tão entretido em seu exercício, que já tinha percorrido de volta metade da extensão do molhe, quando levantou a cabeça e viu, chegando à praia, a negra que saíra da casa do peixe em companhia do arpoador. Devia ser jovem, tinha a cintura esguia, os quadris largos e bem-feitos, as pernas compridas ─ como seriam os peitos? Amleto sentiu um estremeção, a boca salgada, as virilhas quase estalando, queria olhar os peitos dela, podia vê-los, pegá-los, fazer com eles o que quisesse!

─ Siu! ─ chamou, e passou a trotar pelo molhe sem se dar conta. ─ Siu! Tu aí!

A primeira coisa que notou, quando ela se voltou, foram os cabelos. Eram diferentes dos cabelos da maioria dos negros, não eram pixains nem lisos, desciam em torno do pescoço e para os lados como um xale felpudo. O rosto, sim, o rosto era muito bonito, os olhos grandes e pestanudos, o nariz de asas esculpidas, a boca e o queixo fortes mas não hostis, um sinal estranho na testa. E os peitos, de que Amleto não conseguia desviar o olhar, levantavam a bata de tecido cru, eram bichos vivos debaixo do pano.

─ Quem és, como te chamas?

─ Venância.

─ Ah, sei, já te vi por aqui faz muito tempo, pescando com aquele preto abobalhado, como se chamava ele?

─ Turibo, Turibo Cafubá, meu pai.

─ Teu pai? Que é feito dele?

─ Morreu faz anos.

─ Tua mãe, tens mãe?

─ Minha mãe deram como cozinheira.

Embora ela tivesse o rosto severo e mirasse em frente quase com dureza, Amleto ficou ainda mais excitado pela voz grave e feminina, as calças estourando da vontade de tocá-la, e chegou muito perto dela, que não se mexeu nem alterou o semblante.

─ Quero ver teus peitos.

Ela não disse nada, continuou como estava. Com uma ansiedade insuportável, ele levantou a bata, viu trêmulo a barriga e o umbigo aparecerem primeiro, quase arrebenta quando, primeiro o esquerdo, depois o direito, os peitos bambalearam um pouco por causa da puxada para cima e se aprumaram em curvas delicadas, os bicos apontando com leveza para cima, o rego entre eles coberto de uma penugem secreta. Amleto ofegou, quis gritar por tê-los assim tão perto, tão visíveis, tão tocáveis ─ como dizer o que se sente?

─ Vou pegar neles ─ disse, e ela não respondeu.

Devagar inicialmente, depois como se quisesse transformá-los em massa de pão ou fundir com eles os dedos, apertou os peitos de olhos fechados, curvou-se e chupou um e outro com toda a força, enchendo a boca tanto quanto podia.

─ Não sente nada? ─ perguntou, afogueado e enlouquecido, beliscando entre os polegares e os indicadores cada um dos mamilos.

Afastou-a segurando-a pelos ombros, as dobras da bata se multiplicando sobre os peitos expostos. Sentindo que estava pálido e vermelho ao mesmo tempo, suando muito no rosto e nas pernas, estendeu uma mão espalmada e mostrou a ela a braguilha intumescida. Ela acompanhou o gesto com os olhos, sem mudar de expressão.

─ Vês? Vês? Vês como fico por ti?

Mais uma vez ela não disse nada e, puxando-lhe a mão inerme para esfregá-la por cima da braguilha, ele ia ordenar: “aperte, aperte!", quando um estertor invencível lhe constrangeu o escroto e, sem poder abafar os gemidos, escorregou as mãos pelos braços dela abaixo e terminou de gozar sentado no chão, quase deitado, as pernas somente aos poucos deixando de estertorar.

─ Posso ir? ─ perguntou ela, com a voz tão indiferente quanto o rosto.

Ele não acertou a responder, teve vergonha de olhar para cima, fez um aceno apressado antes de levantar-se e ajeitar-se. Ela baixou a bata por cima dos peitos, deu-lhe um puxão leve para cobrir a barriga, virou as costas e foi andando sem pressa, em direção à trilha dos cajueiros.

Enfiando afobadamente um lenço por dentro das calças, Amleto inspecionou-se e achou que tinha tempo de sobra para voltar à casa e mudar de ceroulas.

Muitas coisas neste mundo não podem ser descritas, como sabem os que vivem da pena, azafamados entre vocabulários e livros alheios, na perseguição da palavra acertada, da frase mais eloqüente, que lhes possam render páginas extras de prosa à custa de alguma maravilha ou portento que julguem do interesse dos leitores, assim aumentando sua produção e o pouco que lhes pagam. Recorrem a comparações, fazem metáforas, fabricam adjetivos, mas tudo acaba por soar pálido e murcho, aquela maravilha ou portento esmaerendo, perdendo a vida e a grandeza, pela falta que o bom verbo por mais bom não pode suprir, qual seja a de não se estar presente ao indescritível. Nas minudências da intriga e do enredo, amores dificultados, maldades contra inocentes, dilemas dilacerantes, azares do Destino, coincidências engenhosas, surpresas bem urdidas, arroubos de paixão e tudo o mais que constitui justa matéria dos romances e novelas, nisto sai-se ele menos mal, conforme sua destreza no ofício, sendo esses enredos e intrigas os mesmos desde que o mundo é mundo. Como, porém, descrever um cheiro? Um cheiro não, este vapor fatal, este miasma fabricado nos infernos, este fartum de coisa putrescente, de coisas rançosas, coisas gangrenadas, coisas azedas e repulsivas, coisas insuportáveis de imaginar, agora que o vento se encana por onde a carcaça da última baleia congrega nuvens de urubus e as caldeiras de fazer óleo baforam lufadas encardidas de uma fumaça impossivelmente fedentinosa. Os dois mais setenta fedores bem definidos, que afligiram o poeta na cidade de Colônia? O cheiro do famoso ovo de duzentos anos? O cheiro das cocheiras de Áugeas no sol a pino?

Certamente tudo isso, mais a inhaca de seiscentos demônios, começa agora a envolver o cortejo sóbrio e compassado que lá vem dobrando o fim da longa senda que desce da casa-grande e tomando o caminho de terra paralelo à praia. Na frente, em cadeirinhas de arruar iguais, rústicas como convém aos utensílios do campo, mas nem por isso menos confortáveis tanto para passageiros quanto para negros carregadores, vêm o Cônego Visitador e o Barão de Pirapuama. Antigamente essas cadeirinhas tinham apenas quatro braços, fazendo com que se usassem somente dois negros, ou quatro ocupando cada só um braço, tanto uma hipótese quanto outra bastante incômodas para todos, principalmente em marchas mais longas e acidentadas. Por isso o barão encomendou a seu mestre carpina que lhe fizesse de boa madeira essas cadeirinhas cujos braços, à frente e atrás, se bifurcam em tal disposiçao que quatro negros, sem atropelo ou desconforto, podem transportá-las usando suas oito mãos. E assim mesmo vêm o cônego e o barão balançando no compasso de suas parelhas, circundados pelo séquito dos convidados, que caminha a pé, com Amleto destacado, explicando todo o percurso em estilo e gestos de orador. Já os pretos das caldeiras os vêem chegando ao longe, quando o cônego levanta os braços e o cortejo pára.

─ Baixem, baixem! ─ ordenou o barão, assim que os pretos se detiveram. ─ O monsenhor sente-se mal?

Não, não se sentia mal o monsenhor. Mas, pensando bem, talvez sim. Que cheiro tremendo era aquele, cada vez mais forte e avassalador, que vinha entremeado por bulcões de fumaça ocre, igualmente mefítica? Ouvira e lera relatos sobre os padecimentos dos capelães obrigados por dever sacerdotal a encomendar as almas dos defuntos de guerra e muitas vezes tivera pesadelos em que se horrorizara com a fetidez inimaginável dos campos de batalha, mas nada do que pudesse haver sonhado e muito menos sentido podia ombrear-se àquele bafo diabólico. Compreendia agora por que o Senhor Barão havia tanto gabado a situação da casa-grande, colocada vento acima e a distância segura da fonte desse cheiro inenarrável. Era sempre assim, neste estabelecimento?

─ Bem ─ respondeu o barão ─, estão tratando de terminar o desmancho de um madrijo, que não quis que acabassem ontem, por ser domingo e tempo de Santo Antônio e estar a visitar-nos Vossa Reverendíssiina. Por mais que se tome cautela, esses animais são montanhas e o descamamento nunca fica completo. Mas não podemos deixar de aproveitar a gordura, as safras andam pequenas e a produção de azeite tem estado muito abaixo da que esperávamos. Não deseja Vossa Reverendíssima assistir ao desmancho de uma baleia em nossa indústria? Testemunharia quantos cuidados, despesas e trabalho nos custa a produção do azeite sem o que não se poderia viver com alguma decência nestas paragens e em muitas outras. E veria, se me permite Vossa Reverendíssima, algo que não se vê em Roma.

─ Urna dessas baleias? In acto moriendi?

─ Não, já morta e bem morta. já nos chegam mortas, atadas aos costados das lanchas.

─ Menos mal. Mas, se me perdoa o Senhor Barão, como fazer para suportar o cheiro, que daqui já se faz sentir com tanta potência?

─ Depois de algum tempo o nariz se habitua, como que se amortece, já não se afeta.

─ E a fumaça?

─ Esta, à medida que nos aproximarmos, deixará de atingir-nos, o vento a leva para cima, naquela direção. Infelizmente, não evo ordenar-lhes que parem, pois assim se estragaria toda a carne e a gordura que estão agora a derreter. Toma às vezes mais de um dia e uma noite para que se funda toda uma baleia, se é graúda. Temos trinta e duas caldeiras, uma capacidade de cerca de quinze tonéis, mas na safra muitas vezes não damos vencimento a todo o trabalho, mesmo com os negros parando somente à hora do almoço e virando a noite.

─ Quantos negros há lá trabalhando?

Perilo Ambr6sio olhou para Amleto, que saltou com animação para falar. Não havia um número certo, explicou, isto dependia da quantidade de trabalho e da pressa que tivesse alguma encomenda, como, por exemplo, a que fosse ditada pela necessidade de carregar um vaso mercante atracado no porto da Bahia, com azeite vendido para a Europa. Nessas ocasiões, dobravam ou tri- plicavam os negros do desmancho, o que não era fácil, pois a tarefa requeria aptidão e prática. De qualquer forma, tinham vários mestres e oficiais retalhadores que faziam os cortes principais, enquanto outros aprontavam a banha, coisa não tão difícil, bastava que preparassem tijolos de mais ou menos duas libras, para serem levados à fundição. Este também era trabalho simples, embora complicado pela fumaça, o calor e a falta de cuidado com que os negros às vezes se deixavam queimar por esguichos da banha fervente, principalmente os meninos e meninas, que constituíam a maioria dos trabalhadores da fundição, no serviço de transportar gordura e jogá-la nas caldeiras. O Senhor Barão, tão imerso nos altos pensamentos e negócios em que o interesse da Pátria lhe tirava o sono, houvera cometido uma pequena distração, porque por ordem dele mesmo as caldeiras foram aumentadas de trinta e duas para quarenta, já havia quase dois anos. Restava providenciar alguns reparos no conjunto de canos e tubos que levavam à chaminé, cuja capacidade havia que ser ampliada para dar vazão à fumaça de todas as caldeiras, razão por que, desculpasse Sua Reverendíssima, ela agora volta e meia descia sobre eles, em vez de ser espalhada no alto pela chaminé, como deveria. Existiam, contudo, vantagens na fumaceira, por paradoxal que pudesse isto parecer à primeira vista. Tinha ela o efeito de reduzir os enxames copiosos de moscas e riloscardos, aqui chamados pelo vulgo de mutucas, insetos de insuperável impertinência, freqüentemente aparecendo em números tão vastos que, mesmo com a fumaça, dão aos negros cortadores e frigidores a aparência dos lampiões que no inverno se vêem rodeados por multidões de mariposas e formigas de asa. Tampouco aos urubus favorecia a fumaça, embora esses abutres repulsivos demonstrassem invenção, inteligência e ousadia, eis que, em vôos baixos sob ela, aproximavam-se das instalações por suas entradas naturais e, até caminhando pela lama, chegavam a atacar alguns negros pela posse de nacos da carne e gordura das baleias. Mas não desejava o monsenhor pôr ao nariz um lenço perfumado, para que ele e o barão pudessem chegar mais perto da fábrica sem ofender-se?

─ Se fosse possível...

Amleto dirigiu-se aos dois negros que estavam à frente da cadeirinha do cônego, escolheu o gordo e baixo, mandou que fosse correndo à casa-grande, buscar lenços perfumados. O negro saiu bem mais rapidamente do que seu peso faria prever, e o cônego riu.

─ Curioso critério, este. Se queriam que corresse até lá, não era mais certo que escolhessem o magro?

─ O negro Sabino é gordo assim, mas é dos mais despachados

que temos, imagino que vem de uma parte d'África onde os ne-

gros são corredores e mateiros. E este cá não fala.

- Ah, é mudo?

Amleto começou a responder, demorou muito em articular

qualquer coisa, olhou aflito para o barão. Mas o barão com o

punho cerrado em torno do suporte do sobrecéu da caáeirinha,

não se perturbou. Pelo contrário, falou mais alto e com mais

veemência do que tencionara, como se estivesse fazendo uma pro-

clamação indignada, libertando-se de algo que lhe obstruía o

peito.


- Não é mudo! - disse, olhando o preto fixamente. - É

desleal! Era preto de grande confiança da casa de meu pai e meu

próprio, esteve mesmo comigo nos combates de Pirajá e em outras

frentes em que combati na guerra da Independência. Ao contrá-

rio do outro negro que me acompanhava e que morreu lutando

112


e

-11


bravamente - não quero repetir uma história que já todos co-

nhecem e que nao me traz mérito, pois que apenas cumpri o meu

dever de patriota -, ao contrário do outro, este se mostrou um

poltrão acobardado. Mas levaria esse comportamento na conta

dos defeitos de sua raça, como sempre levo, não fosse que, ao

chegar de volta à nossa casa, passou a contar tais e tão desonro-

sas mentiras que, fora eu um senhor menos benevolente, ele não

mais estaria vivo, tamanha a sua desfaçatez, sua vileza, sua tor-

peza mesmo. Mas, guiado como de costume pela compaixão, cas-

tiguei-o apenas na medida de sua falta, a principal entre muitas,

da qual o livrei para sempre. Não mentirá mais, deste pecado

poderá ser absolvido, à custa embora de me hpver obrigado a ven-

cer a natural repulsa que tenho aos castigos, só os aplicando por-

que não me deixam outra escolha, não me deixam outra escolha!

- Que castigo lhe foi dado?

- Fiz-lhe cortar a língua, simplesmente, o suficiente para que

possa continuar a comer a comida que nao merece que lhe dê

e para que não se entendam as patranhas que, tenho certeza, ainda

contaria se pudesse.

0 cônego olhou para o negro Feliciano com interesse.

- Cortou-lhe a língua, hem?

- Audi, vide, tace - disse Amleto.

- Sim, sem dúvida. É uso comum aqui, há muitos deles assim?

- Não - explicou o barão. - Ouço dizer que, nas terras

interiores da Província, onde a vida é mais rude e o trato enér-

gico é mais necessário, até mesmo em alguns engenhos da orla

deste golfo, há senhores muito rigorosos com os pretos. Aqui não,

aqui só temos a disciplina indispensável. Como fugir destas ter-

ras é muito difícil, nenhum se atreve a tanto, não encontrando

Vossa Reverendíssima qualquer negro aqui com o pé decepado,

que é como se exemplam os fujões reincidentes. Também poucos

capões há, somente uns dois ou três dos mais velhos.

- Nas fazendas de meu irmão, que cria algum gado, ele faz

castrar os negros do trabalho da casa e de serviços mais delica-

dos. E diz-me que assim obtém bons resultados, eles ficam mais

calmos e pacíficos, prestam-se melhor a suas tarefas.

Não duvido que assim seja, pois as conveniências variam.

Aqui já não os castramos, mesmo porque...

113

- Ora, Senhor Barão, pode falar, sei o que quer dizer. Como



o trabalho dos moleques aqui é muito útil, há que fazer com que

os negros se reproduzam. É a mesma coisa nas minas, pois sem-

pre existem galerias e escavações onde as rochas não permitem

a passagem de um corpo crescido.

_ Perfeitamente. E não é só por isso, achamos mesmo que

é trabalho desnecessário. Alguns até morrem se os castramos à

faca, e com a maça muitas vezes criamos dores de cabeça ainda

maiores. Pode-se inutilizar o negro para o trabalho desta forma,

os riscos de prejuízos são grandes, muito embora ainda tenhamos

bons castradores de porcos com alguma experiência na capação

de negros. Tampouco os ferro mais, como se fazia no tempo de

meu pai, que ferrava os machos e as mucamas do serviço de

minha finada avó, estas com o monograma que ela mesma dese-

nhara para seus pertences. Hoje é prática inútil, pois os negros

não têm para onde ir e, desvalidos de nossa assistência, morre~,

riam por aí à míngua, como acontece com tantos libertos vadios

e nocivos.

- Sim, já não se pode sair à rua nas cidades sem que haja

uma malta deles a importunar os passantes e a empestear tudo

em volta.

- Pois então! Mas onde está a autoridade do governo, onde

está o discernimento do bem geral, que não se pode nem falar

em meter essa gentalha ociosa a trabalhar forçada nas obras pú.

blicas e em tantas outras onde teria serventia, sem que se levan-

tem esses que julgam poder fazer prosperar um Império com

luvas.de pelica e obras de caridade? Hoje o que se vê é que paga

mais a pena ser vadio e sem ocupação que indivíduo prestante,

e ainda lá dizem mal, sem nada conhecerem do que se passa, dos

homens como eu, que no ostracismo carregam a Nação às costas!

Que fariam sem produção? Viveriam de almoçar discursos e be-

ber as lágrimas que derramam pelos desocupados e inúteis? Estes,

sim, os primeiros a apunhalá-los por trás, assim que chegue a seu

ápice, como está a chegar, a anarquia e o esquecimento dos mo-

dos austeros de conduta! Sou sincero com Vossa Reverend' 'ma

'ss'

quando digo que, como brasileiro, patriota e temente a Deus, naão



posso deixar de abrigar esperanças, embora não as justifique senão

114


1

1

pela fé. De resto, Monsenhor, temo, temo, temo pelo futuro do



Brasil.

0 cônego fez o bico costumeiro, balançou a cabeça aprovando

tudo aquilo, suspirou como quem já desesperou de tentar fazer

ouvir a razão. Comentou distraidamente a solução encontrada

pela América do Norte, país pouco civilizado mas de gente deci-

dida e de caráter, para limpar-se de seus pretos e mestiços liber-

tos - pois lá não se faz como aqui, onde se permite aos pardos

e cafusos a vida em comum com a gente branca até como se bran-

cos fossem -, solução esta que consistiu em estabelecer para eles

seu próprio Estado em algum lugar da Costa da Pimenta, para

as bandas da Guiné, no qual podem continuar seu viver de ani-

mais sem a ninguém incomodar. Nisto, aliás, seguiram os ameri-

canos o exemplo de seus ancestrais ingleses, que desde muito já

haviam feito o mesmo na Serra da Leoa - acrescentou, suspi-

rando mais uma vez e vaticinando o brilhante futuro da América

do Norte, se comparado ao do Brasil, embora não se saiba se são

adiantados os de fala inglesa por praticarem tais idéias ou se pra-

ticam tais idéias por serem adiantados, uma coisa, afinal, não se

podendo, em última análise, distinguir da outra. Parvis compo-

nere magna? - indagou dando de ombros, enquanto o negro Sã-

bino voltava com dois lenções brancos e um frasco de óleo de

vetiver da índia, que a Senhora Baronesa muito recomendava para

tais propósitos de abafar maus odores. 0 barão umedeceu um

lenço com o óleo, agitou-o um pouco para que a fragrância exces-

siva não o deixasse tonto, amarrou-o no rosto cobrindo boca e

nariz, disse ao cônego que o imitasse. Também muitos da comi-

tiva aceitaram a oferta da essência para salpicar seus próprios

lenços, os pretos levantaram as cadeirinhas, o cortejo, agora mas-

carado e aromado, prosseguiu pela trilha junto à praia. Logo de-

frontaram o barracão sem paredes vomitando fumaça por todos

os seus buracos, onde alguns meninos e duas ou três meninas en-

travam e saíam, no trabalho da fundição. Mais adiante, abrolhan-

do por trás do telheiro como obeliscos entortados, as costelas da

baleia em meio às levas de urubus. Do lado oposto ao mar, ondu-

lando por cima dos morrotes suaves que socalcam as costas da

ilha, o canavial dobrado na viração, empenando e desempenando

alternadamente, não se sabendo se o cicio que modulava o ar

115


11

vinha do vento peneirado pelos colmos ainda fininhos ou se vinha

das asas jamais detidas dos urubus e das moscas.

- Nada era esta gleba, Senhor Monsenhor, senão uma arro-

téia agreste e inculta, alqueivada apenas pela obra natural do

Criador e nunca barbechada pela mão do civilizado. . . - come-

çou a discursar Amleto, levantando o lenço da boca para que

todas as belas palavras pudessem voejar desimpedidas.

Belas palavras essas que, debaixo do grande caramanchão en-

trelaçado de mimos-do-céu e maracujazeiros machos farfalhando

e ostentando uma flor lilás aqui e ali, entre cantos de passari-

nhos e marulhos das águas, eram a mesma coisa que as frutas,



1   ...   5   6   7   8   9   10   11   12   ...   63


©livred.info 2017
enviar mensagem

    Página principal