Viva o povo brasileiro



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Cheirou a mão, sentiu o fedor das águas do parto, baixou outra vez a mão e tocou na cabeça de Vevé, que começava a aflorar como se alguém a estivesse empurrando lá de dentro. Sem dar por isso, não soltou a acha de lenha que tinha na mão esquerda, tentou sair correndo e segurando a cabeça da menina, mas conseguiu somente dar alguns passos com as pernas esquadradas e caiu sentada logo depois da soleira, a filha lhe escorrendo pelos baixios. Encostou-se na parede, dobrou um joelho para cima e quase não precisou puxar a menina, porque ela vinha para fora coleando e já queria começar a chorar.

Dadinha chegou logo depois e ainda ajudou as outras a amarrar o umbigo e enterrar as secundinas conforme todos os preceitos e disse que estava muitíssimo satisfeita com tudo aquilo. Em primeiro lugar, a menina tinha nascido num domingo como ela, era uma coisa ótima. Em segundo lugar, apresentava um sinal igual ao do pai, era o primeiro dos filhos de seu filho Turíbio que nascera com aquele sinal. E num domingo, bom, muito bom, muito bom. A mancha na testa, um pouco mais clara do que a pele, já se podia ver bem na criança, assim mais ou menos em riba do olho direito, quase como no pai. Sinal esse, contou Dadinha mais uma vez, que vinha da caboca Vu e que era um sinal que nela muitas vezes se acendia, quando ela lutava. Mas nunca se acendeu em Turíbio Cafubá, ih-ih-ih, riu-se ela. Cuspiu um pouco do tabaco em pó com que estava areando os dentes, escrutinou a cusparada com atenção. Mas sim, mas sim, continuou misteriosamente, essa minha neta vai dar coisa, hum-hum. Com esse sinal: quer dizer, tudo continua e é por ela que vai continuar. Quando lhe perguntaram se podiam ter isto na conta de verdade escrita, revelada pelas entidades ou desenhada nas conchas e contas, respondeu que mais bem era uma coisa que ela queria, não bem uma e ela sabia. Mas acabava dando no mesmo, estava com de explicar.

O nome que vão botar nela eu não sei, quando é mulher eles não escolhem muito, nem marcam a ferro, nem nada ─ disse Dadinha pondo as mãos nos quartos, como anunciava sempre seus discursos. ─ É até uma coisa para dizer, porém sabendo eu que é como as outras, que entra por um ouvido, sai pelo outro porém eu digo: quando disserem "Nhô Felisbérto Góes farinha é senhor muito bondoso", vocês digam: "é, é". E quando disserem: "Nhá Ambrosina Góes Farinha é senhora muito bondosa", vocês digam "é, é". Agora, sem dizer nada, se lembrem que eles são bondosos porque não ferram à brasa as negras, só ferram os negros. Ha-ha! Acho muita graça em mecês, muita graça, acho muita graça em quase tudo. Bom, certo. Bom, não sei o nome branco dela, o daqui eu já sei qual é. Vou dizer: é Daê. Daê. Também pode ser Naê. E vai se criar, se vê, se vê bem. Isto mesmo contaram a Turíbio Cafubá, que começou a dançar assim que ouviu a notícia, antes até de pular para fora da canoa onde trazia um cesto de caranhas, pampos, sambulhos e peixe miúdo, fisgados e tarrafeados desde as três horas da manhã.

─ Daê-ê! ─ gritou, saudando a filha como se ela fosse as nuvens que passavam por cima da praia. ─ E tem a marca na testa, apois?

Desembarcou com o balaio equilibrado na cabeça, fez uns passos dentro da água que lhe chegava aos joelhos. Pariu ao vento, foi? Tá muito certo! Homem de boa fortuna, não? Era para ser capado, permaneceu inteiro, sempre quase-quase pela última horinha. Era para ser vendido, terminou ficando no engenho da família cuja marca lhe ferraram no peito, gente bondosa e de caridade, que tratava bem o negro bom e castigava com leveza. Era para não poder mais com mulher, 60 anos com quase toda a certeza, mas enfiava um por ano somente em Roxinha, que tinha e não agüentava com ele, e mais uns quinze tinha enfiado em outras, deve estar tudo criado por aí, hum-hum, que é que me diz, hem? Homem de boa fortuna, sim senhor, ali estava peixe de primeira, era todo seu, o senhor não deixava? Nhô não deixava, quando não tinha trabalho na caieira ou outro serviço, Nhô não deixava que ele fosse pescar e nunca que queria o peixe?

Ha-ha-ha! Aqui é Turíbio Cafubá, meu filho, assim chamado porque de preto quase que fica branco do pó e da queima do cal, quase fica cego, quase fica todo cortado por dentro, mas não ficou, homem de boa fortuna! E Daê não nasceu no domingo, para ele poder dançar o dia todo, com o espírito que veio da terra do Daomé, ou senão do Maomé? Daê-Naê-ê! O peixe, só levava uns para fazer um caldo de resguardo para Roxinha, para fazer frito, fazer escaldado com pirão de copioba e quiabo, maxixe, abóbora e bananinha-da-terra ─ sim senhor! ─, fazer de comer para todos! Que vão pegando logo o peixe, que vão tomando, que vão levando!

Na senzala, Turíbio entrou depois de muitos meneios e idas e vindas, risadas debochadas, mesuras aos presentes, algumas cantigas cujas palavras não mais entendia, mas repetia com a expressão copiada dos velhos que as ensinaram. Cafubá-ê! Então? Como é, então? Quer dizer que é isso, bem, que me diz mecezinho? Viu tu, menina, agora se apreste aí, que também faço uma em você, é pam-pam-pam! Mais mulher aí querendo cria? Olerê, deixe comigo! Aqui é assim, sem trastejo, sem errada, sem resvalada ─ zup! ─, tome-lhe filho!

Dadinha, sentada num tamborete com as pernas escarrapachadas e sacudindo o corpo de riso, disse que deviam ter dado miolo de boto a ele em pequeno para ter ficado maluco assim, já velho e ainda sem nenhum juízo. Mas ele não. ligou, deu dois saltos e caiu com um joelho no chão diante da menina, que estava quieta e enrolada em cima de uma esteira. ─ Naê-ê! ─ gritou. ─ Raínhazinha de Aiocá! E o sinal!

─ E dizendo bobagem ─ reclamou Dadinha.

Mas ele de novo não ligou e, como se houvesse muito mais música ali do que o som de seus calcanhares batendo no chão, das palmas que repenicavam em mil compassos e do que lhe saía da boca em estalidos de língua e beiços e melodias de garganta assemelhadas a solos graves de flauta, esticou os músculos, agora retinindo de tensão e suor, e dançou. Muitos ali dançavam e eram admirados quando, nas festas em que podiam fazer música, reviravam os olhos e saltavam loucamente pelo barro batido, flutuavam no ar, faziam com que seus corpos fossem muitas coisas ao mesmo tempo, traziam fogo aos corações dos outros e, nessas horas, eram divindades. Mas nunca se viu tal dança como a de Turíbio Cafubá celebrando sua filha, pois ele ficou transparente logo muito preto e logo estava em toda parte, às vezes parando e vibrando como uma asa de cigarra, às vezes se dissolvendo em tantas formas que as pessoas não sabiam em que acreditar, e então todos os ritmos que brotavam de sua figura eram ritmos de alguma coisa acontecendo dentro de cada um, sangue pulsando, dedos se abrindo, fôlegos tomados, tudo o que pode ocorrer no corpo, tudo a que o espírito se entrega. Ninguém soube quanto tempo durou a dança de Turíbio, nem mesmo ele, cujo rosto agora singrava muito à frente do corpo da mesma forma que a carranca de uma canoa de guerra, enquanto, curvado e empunhando a araçanga, ─ porrete com que matava os peixes grandes na borda da embarcação, ele vinha com uma perna independente da outra, cada qual marcando o próprio ritmo e andando da própria maneira, na grande dança de combate de sua nação. Os olhos esbugalhados, o queixo esticado, parou um instante, mas no mesmo instante todos ouviram os tambores desabalados da orquestra de batalha e ele, ninguém jamais podendo esquecer aquela visão, dançou em homenagem à filha como os guerreiros mais orgulhosos de que se tinha notícia, esse orgulho espelhado em todo gesto, toda martelada de pé, todo olhar levantado, todo ombro erguido, todo passo à frente, todo agitar de braços e mãos, tudo com que se pode exibir altivez.

─ Aaaah! ─ gritou outra vez, parando os tambores invisíveis diante da menina, a boca muito aberta, o braço direito levantado e encompridado pela araçanga. ─ Ara umbó! Ará umbó, vejam quem chegou! Viva! Então, minha menina de pesca, quando vais pescar com o pai?



Dadinha perdeu quase todo o ar de riso e disse a ele que estava bem, que dançasse e festejasse, mas que não ficasse tendo fantasias, que fantasias a nada levavam. Dos filhos dele, mais de vinte, mais de sabe-se lá quantos, nunca, assim ou assado, tinha ficado um por ali. Mesmo ficando, não era dele, era do senhor, largasse ele de não dizer coisa com coisa e fosse levar aqueles peixes para alguém tratar lá dentro e deixasse a menina e Roxinha descansar. Ele, entretanto, não se conformou e, como se fosse de noite e o tempo não existisse, contou uma história de trancoso.

Era uma vez, disse, um negro cativo fumbambento de cal que fez para mais de vinte filhos, porém não conhecendo nenhum, que todos levaram embora logo cedo. Um belo domingo, está esse negro cativo fumbambento de cal puxando suas linhas, rolando sua tarrafa, ajuntando suas tralhas de pesca, quando que chegam na praia e falam que nasceu essa filha de estrela na testa, com um nome que Dadinha vó-gangana logo descobriu ser Daê, podendo também ser Naê. Esse negro fumbambento chega assim e, quando que olha nos ares, está o grande espírito das danças que veio da terra do Daomé, podendo ser Maomé, espírito esse que garra esse negro fumbambento e, entre uma dançada e outra, lhe cochicha a seguinte outra história: ah, não sabe mecê, negro velho fumbambento de cal e pescador de peixe, essa menina você assunte bem, não sabe? Muito bem, a menina nasce, aprende a andar e todos os dias vai com o pai para o trabalho na caieira e aprende todos os trabalhos da caieira. E, como o senhor é muito bom, também vai mais o pai pescar, e o pai, com muita paciência de pai, ensina a ela a paciência do pescador em todos os seus segredos, que são muitos e um vai abrindo para outro, que vai abrindo para outro, que vai abrindo para outro, de maneira que o pescador nunca acaba de aprender, mas aprende mais do que quem não pesca. Muitas coisas sabe quem pesca, coisas que não se pode contar, só pescando. Muito bem, esse pai negro fumbambento dá a mão à filha e conversam longas prosas, em que o pai se mostra mais sabido e mais qualquer coisa boa que os outros, sendo isto necessário para todo pai e muito mais para o pai que é escravo e, portanto, precisa de todo pedaço de orgulho que possa catar. O que esperar da vida esse pai não ensina, porque não sabe, porém ensina todos os cipós de tecer redes e cestas, todas as dentadas especiais dos muitos peixes do mar, todas as marcações da água e as qualidades dos ventos, todas as coisas que aprendeu sozinho, palestrando com a maré. No dia de São Francisco Xavier, esse pai negro velho fumbambento vai pedir permissão para ir na pesca do xaréu. O mestre do mar lhe responde: pois que sim, pois que então fiquem ele e filha junto com as mutucas da rede, que são os pretos que ajudam quando a rede arriba à praia com seus peixes puladores, mutucas porque de longe aparentam moscas no pescado. Mas a menina não se importa, nem o pai velho, de ser mutuca da rede, mas tanto aprende essa pesca que de mutuca vai a atadora, de atadora vai a mestre de terra, ou senão moça embarcada. E então esse pai mais essa filha, porque sempre existe um outro tempo dentro do tempo, vão viver felizes para sempre, é o que estou lhe dizendo. Ali estão, de mãos dadas, na beira do mar, o pai só falando, falando, falando e ela, como todas as filhas, gostando do pai assim mesmo, não admitindo que se diga mal do pai e tendo paciência com o pai e amolecendo a comidinha para quando ele ficar sem dentes, segurando a mão para quando ficar sem pernas de andar, descrevendo as coisas quando ficar sem vistas de ver, prestando atençao quando ninguém mais prestar, gostando do pai assim mesmo, assim mesmo, é isso mesmo, é isso mesmo, quem não apreciou a história é porque não tem uma filha, estrelada ou sem estrela.

Dadinha nunca chorava e por essa razão não chorou, mas lhe veio um aperto no meio dos peitos. Talvez sentisse uma pequena felicidade, porque o pai via na menina um futuro e ela também via, embora diferentes e embora não pudesse haver dois futuros e portanto um deles estava errado. Olhou o filho, que parecia enfeitado de miçangas pelas gotas de suor, teve pena dele e teve orgulho, achou que era bonito em sua insensatez e seu delírio de línguas e santos misturados, conseguiu somente suspirar. E isso até porque já sabia, mas não tinha falado a ninguém por não querer ser uma velha agourenta, que logo viriam dois ou três agregados a mando de Nhô Felisberto, buscar Turibio para chicotear e deixar dormir no tronco em pé, porque ele tinha dado o peixe antes de falar com Nhá ou com Nhô. Não era por nada, era para não permitir o mau exemplo, isso acontecia sempre, tão certo quanto o amanhecer dos dias.

Como realmente se deu logo depois e Turibio só gemeu, na hora em que lhe baixaram o bacalhau, para evitar que chibateassem mais, estava um pouco cansado. Queria dormir logo, já sabia como fazer para não cansar demais, com os pulsos presos acima da cabeça e sem poder amolecer as pernas durante o sono para não acordar quase com as mãos arrancadas. Castigo leve, não lhe tomaram o privilégio de pescar, são bons cristãos, boas pessoas que sabem do que ninguém mais sabe ou imagina era só porque ele devia ter pedido consentimento para distribuir o peixe, pois saber que ele ia ser dado não dispensava o pedido, essas coisas não se pode deixar passar, se fosse assim onde se ia parar? De fato, pensou Turíbio, percebendo que lhe corria algum sangue pelas costas cortadas e sacudindo a cabeça molhada depois que lhe atiraram dois baldes de água do mar, é isso mesmo. E ficou até satisfeito, enquanto se preparava para dormir do jeito que tinha aprendido com a prática, porque achou que havia previsto bem tudo o que ia acontecer e adormeceu sonhando com esses acontecimentos.

Dadinha, de olhos abertos no escuro, pensou que certamente não veria nada do que ia suceder com a menina, pois que morreria aos cem anos, sempre soubera. Mas aquela filha mais nova de seu filho mais novo e temporão tinha um destino forte, isto se podendo pressentir na treva pesada da senzala, pertinho do barracão onde Turibio Cafubá, amarrado e com as costas ardendo, deu um sorriso e, mesmo dormindo, concordou consigo que era um homem de boa fortuna.

Armação do Bom Jesus, 11 de junho de 1827.
─ Timonê!

Amleto Ferreira teve um sobressalto. Sabia que devia haver gente começando a guarnecer as chalupas àquela hora, pois ia amanhecer e existia quem, mesmo assim quase sem luz, já pudesse distinguir ao longe os tufos de nevoeiro feitos pelos esguichos quentes das baleias, pouco antes de o sol se alastrar sobre as águas da grande baía. Era hora de trabalhar, as guarnições se aprestavam para sair ao largo. Mas se assustou de qualquer forma, talvez porque o vento tivesse mudado a direção de repente, ou talvez ele estivesse distraído, apequenado entre as embarcações esteadas em terra adernando nas estroncas, as ripas expostas feito costelas de bichos semidevorados, as cracas dos cascos uma massa esbranquiçada salpicada de pupilas, os espeques armas fincadas na areia, o vento esgueirado pelos rombos do madeirame um arauto de fantasmas.

─ Cafuletê!

Pelo meio das traves descarnadas da lancha Nossa Senhora da Penha, outrora gloriosa e engalanada nas procissões marítimas e agora somente um esqueleto povoado por baratinhas-d'água e aratus, viu na curva da praia a silhueta do mestre de terra arrebanhando a guarnição. O cafuleteiro, um negro muito magro que corria como se tivesse dificuldade em levantar os pés, saiu dos matos pela trilha dos cajueiros, carregando dois panelões de ferro e uma braçada de lenha. Pôs tudo no chão ao chegar junto do mestre, enfiou o molho de lenha numa das panelas e se retesou quase em posição de sentido. Dez ou doze figuras, os seis moços de embarcação com seus gorros de serapilheira azul, o timoneiro, o moço das armas, o mergulhador, o cafuleteiro e o mestre de terra, parado como uma estátua.

─ Balê balê balê ajô balê! ─ pareceu dizer o mestre ao timoneiro, levantando o braço. ─ Poadô! Alpuadô!

O timoneiro correu para o telheiro de ver o peixe, sumiu na escuridão lá de dentro e voltou acompanhado de mais dois negros, um homem e uma mulher. Pelo chapéu de palha de abas arriadas e pela estatura, Amleto reconheceu o negro Custódio Arpoador, mas não reconheceu a negra. O mestre de terra fez mais um aceno, falou outras coisas na língua dos pretos. Amleto sentiu uma irritação repentina.

─ Ora, diabo! ─ resmungou, dando o primeiro passo para atravessar o bojo devassado da Nossa Senhora da Penha, em vez de rodeá-lo como sempre fazia. ─ Eu já disse, eu não já disse? Eu já disse! Essa negralhada nunca ouve o bastante, nunca ouve o bastante!

Teve gosto em debandar as baratinhas, os gorés, os grauçás e os outros bichinhos que à sua passagem transformaram a madeira travejada e defunta numa coisa enxameadamente viva, entrando e saindo de buracos e locas e dando a tudo uma nova consistência a cada instante. Estava ali às quatro da manhã somente por precaução, porque queria fazer uma última visita a todos os pontos a que levariam os convidados, pois seria ele quem, a um gesto imperioso e enfastiado do barão, teria de explicar todo o funcionamento da Armação, do Engenho, das plantações e de tudo mais de que quisesse informar-se o Cônego Visitador ou qualquer dos outros hóspedes. Ensaiara pequenos ditos e observações e esperava rememorar com a facilidade habitual coisas aprendidas nos livros de boa Gramática e Retórica, nos cartapácios bolorentos que se obrigara, tantas e tantas noites a fio, a ler com a testa perolada de suor e a mente tresvariada, nas conversas e discursos a que prestara atenção tão esforçada, os brocardos latinos vindos depois de capitulares repolhudas, decorados em imitação da pronúncia do cura de Santo Antônio Além do Carmo.

Faria uns torneios hábeis, usaria boas palavras, daquelas que coletava com avidez para escrever num livrinho de notas e passar o dia repetindo em voz alta. Nada mais era esta gleba, Senhor Monsenhor, que uma arrotéia agreste e inculta, antes que nela se assinalara o arrojo do Senhor Barão de Pirapuama, cum dilectione hominum et odio vitiorum, nas palavras inspiradas daquele que terá sido quiçá o mais augusto entre os Santos Doutores Latinos. Ora, pois, à jusante deste córrego ... E agora, não compreendia bem por quê, no momento em que imaginava sentenças floridas e judiciosas que bem demonstrariam sua capacidade, apagando o desastre acontecido na viagem e justificando sua condição social antes já quase indiscutível, a fala daqueles negros baleeiros, o som daquelas palavras que mais pareciam ruídos dos matos e dos bichos, o jeito desempenado do arpoador, os movimentos bailarinos dos outros pretos, tudo isso fazia com que ele, abrindo à sua frente um leque derramado de caranguejinhos, sentisse o rosto frio, o coração batendo e a garganta estreitada de raiva, enquanto pisava forte a areia mole em direção ao grupo.

Então que era isso, que estava acontecendo aqui?

O mestre, que como todos os outros tinha parado de falar assim que a presença de Amleto foi sentida, fez uma expressão perplexa.

Providenciavam o embarque, estavam guarnecendo a chalupa, era a última a sair, as outras já haviam zarpado ─ sim, que estava acontecendo?

─ Não admito! ─ gritou Amleto. ─ Não admito!

Tinha as veias do pescoço inchadas, falava levantando-se nas pontas dos pés e baixando outra vez a cada grito, sacudia um dedo em riste apontado para os pretos. O cafuleteiro, nariz muito aberto, olhos papocados e dentes falhados arremetidos para a frente, grugulejou igual a um peru, mudou a perna de apoio com um requebro exagerado, revirou os olhos e fungou ruidosamente.

Amleto correu na direção dele, parou quase dançando e, embora tivesse de virar o pescoço para cima por causa da altura do preto, cravou os olhos nele com autoridade. O preto o fitou algumas vezes, desviando o rosto e em seguida voltando a olhar para ele, fez uma cara de choro e, quando parecia que ia desmanchar-se em pranto por todas as pregas da cara, grugulejou de novo, exibiu e recolheu sonoramente a língua e se perfilou.

─ Hem? Hem? ─ gritou Amleto para o mestre. ─ O que é isso? Hem?

─ Ele é variado da idéia ─ explicou o mestre, e o cafuleteiro sorriu abanando a cabeça.

─ Não sabe que posso mandá-lo à chibata por se comportar pior do que um animal?

─ Ele se chibateia ele mesmo. Ele gosta.

O cafuleteiro ouviu isso como uma deixa, ficou num pé só, curvou-se feito um pernalta para a panela onde guardara a lenha, apanhou uma acha fina e, dando uns ui-uis chupados e terminados em assovios, começou a bater em si mesmo, a princípio caoticamente, depois num ritmo sincopado, que completava com pulinhos.

─ Pára! ─ gritou Amleto, mas o cafuleteiro, as íris parecendo apenas pontinhos pretos no branco dos olhos saltados, sorriu cerimoniosamente, fez uma curvatura funda varrendo o chão com as pontas dos dedos e bateu a vara nas costas com tanta força que, quando trouxe o braço de volta, um chuvisco de sangue fez um arco no ar, algumas gotinhas caíram no pince-nez que Amleto segurava trêmulo à frente do rosto. ─ Pára, pára!

─ Ele não entende direito a língua dos brancos ─ explicou o mestre, enquanto o cafuleteiro, numa dança de longas pausas, se fustigava por todo aquele pedaço de praia, dando uis e ais e repartindo as bordoadas com um companheiro invisível.

─ Quantas vezes tem-se que dizer para usar a língua cristã, nunca essa palra de bichos que não se percebe e não se pode permitir?

─ Sim, mas ele não entende.

─ Ele não nasceu aqui?

─ Nasceu, nasceu. Mas quase não entende a fala, não entende nada, é variado.

O cafuleteiro parou de pular e de se vergastar tão subitamente quanto tinha começado, ficou em pé com os braços amolecidos e, sem que mais nada em seu corpo demonstrasse o que estava acontecendo, explodiu em soluços e choro, interrompidos por sorrisos breves e pelas lambidas com que recebia as lágrimas que lhe chegavam à boca. E, apesar de imóvel, não deixou de fitar obstinadamente o vulto pequeno de Amieto para onde quer que ele fosse.

─ Então? Ele parou! ─ disse Amieto. ─ Então?

─ Não foi porque vossemecê mandou. Ele é variado, ele ...começou a explicar outra vez o mestre, mas o cafuleteiro emitiu novo glu-glu, ainda mais alto do que os primeiros.

─ Ele pensa que é peru?

─ Ninguém sabe, ele não diz. Ele...

─ Não quero mais saber. Diz-lhe que pare com isso. Como é que se leva um tarouco destes num serviço de responsabilidade?

─ Ele é bom cafuleteiro, ajuda em todo serviço, faz boa comida. E, se não for cafuleteiro, ele não faz mais nada, não tem quem obrigue, ele só faz cafuletar.

O preto agora o olhava como se o estivesse vendo pela primeira vez, mudando volta e meia de postura no jeito de quem avalia alguma coisa, fechando um olho, inclinando a cabeça, estalando a língua.

─ Bem, que está esperando? Não já te disse que o fizesse parar? Anda lá com teu serviço, já está amanhecendo, isto vai muito atrasado!

O mestre hesitou. Não havia o doutor chegado ali esbaforido e tremendo de raiva, quando o ouvira falar língua de preto? Então? O cafuleteiro só entendia língua de preto, não existia outro meio de conversar com ele. Amleto, mãos nas ilhargas com os cotovelos para trás, não sabia que aparência assumir, terminou rodopiando e fazendo um gesto de cabeça.

─ Muito bem, fale com ele nessa língua de animais. Andem, aprestem-se, este serviço está muito mal, muito mal, assim vai mal!

O mestre cantou as sílabas estranhas que faziam Amleto querer tapar os ouvidos e quase gritar para não escutá-las, o negro imediatamente reuniu seus panelões, sua lenha e seus apetrechos e correu para o molhe, onle a chalupa atracada afrouxava e retesava os cabos no balanço da maré. Os outros permaneceram como estavam, atentos a Amleto.

─ Anda, anda! Mas que bando de moleirões, que gente parva e preguiçosa, anda!

Seguiu os negros, que agora se apinhavam no molhe antes de pularem para a chalupa, mediu o passo para não torná-lo nem muito apressado nem muito lento. Caminhou sobre as pranchas do pontão sem olhar pelas bordas, indo tanto pelo centro quanto não denunciasse em demasia o medo de cair na água. Lá dentro da chalupa, um barco esbelto e longo de quarenta pés e duas caras, pois que seu trabalho requer que popa e proa tenham a mesma construção externa, a guarnição tomava seus lugares e de cima se via um bailado preciso e calmo. Como se estivesse em terra firme e não pisando aquele casco sem quilha que às vezes parecia não emborcar apenas porque preso aos cabos, um negro amarrou um pedaço de estopa a cada chumaceira, equilibrando-se para fora num pé só. No banco de arvorar, o mestre de mar seguia os movimentos dos outros e alisava os cabos, o gurutil da vela ainda baixada e as costuras da verga de biriba que logo ia subir mastro acima, acompanhava a contagem e arrumação dos arpões nos guarda-lanças, aprovava com as vistas a rotina do cafuleteiro preparando a areia da caixa que servia de fogão para arrumar-lhe em cima a lenha, limpando a cuia de medir farinha, ajeitando as panelas e os anzóis que trouxera para pescar de arrasto. O arpoador sentara no banco da volta, quase na popa, batendo a mão na madeira empretecida de calor por onde se enrolava o cabo do arpão. E logo, todos prontos, um moço pulou de volta ao molhe, para soltar as amarras e cair de novo na embarcação.



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