Viva o povo brasileiro



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Mas as vésperas começaram a tocar nos sinos da capela e Dadinha se interrompeu como alguém cujo interesse é despertado por um assunto novo. Cruzou os braços muito composta, fechou os olhos e, com a expressão de quem vai assistir a alguma coisa fascinante, morreu exatamente como havia escolhido.


Armação do Bom Jesus, 9 de junho de 1827.

A queda de Santa Bona e São Lúcio aconteceu bem no instante em que Antônia Vitória abria a boca para mandar a recontadeira Justina Bojuda interromper a história que os meninos e a negra Honorata estavam escutando. A mucaminha Martina ia subir no escabelo para passar o pano nos santos do oratório, enganchou a chinela, o escabelo virou, ela no tombo derrubou o sagrado casal, que veio ao chão depois de uma cambalhota.

Não se quebraram as imagens, mesmo porque a negrinha, ao ver os santos mergulhando de cabeça para o lajedo, ajoujados e contritos como sempre estiveram à frente do oratório, amorteceu-lhes a queda com os braços estendidos em desespero. Apenas partiu-se, numa linha curva e caprichosa, a peanha que unia as imagens, separando os dois pela primeira vez desde o tempo que ninguém lembra. Muito azul, a boquinha redonda e carmezim, São Lúcio virou e ficou de barriga para cima, com o olhar, que antes fitava com perene enlevo a santa companheira e esposa agora voltado para o lado oposto àquele aonde ela rolara e se aninhava de cara para o encontro da parede com o chão, bem junto ao catiapé em que Justina Bojuda estava arrematando o seguinte reconto:

Num lugar que ninguém sabe, pela praia ou pelo mato, pela ilha ou pela terra, era uma vez um vigário. Era uma vez a freguesia desse vigário, era uma vez sua igreja, era uma vez o povo que nesse sítio morava, onde havia muitas beatas e muita gente misseira e benigna. O vigário, antes da missa, não podia descansar, porque vinham as beatas se confessar. Depois da missa, não podia descansar, porque vinham as beatas se confessar, e então o padre não fazia outra coisa que cuidar das desobrigas daquele povo carola. Aí o padre pensou, pensou, pensou e chegou num resultado, que foi fazer por escrito um ror de coisas, ror esse que preparou para ler na missa. Quando chegou a missa, o padre pegou do ror e leu da seguinte maneira: minhas prezadas devotas, povo desta freguesia, já estou ficando velho e cansado e não tenho mais tempo e sustança para tanta confissão todo dia. Por isso que doravante vamos obedecer à seguinte disposição, que eu mesmo pensei muito bem pensado e escrevi muito bem escrito, estando tudo muito bem ajuizado: no domingo, eu confesso as preguiçosas e as que não têm asseio; na segunda, as que furtam e as que mentem; na terça, as que bebem; na quarta, as que enganam o marido ou pecam ao contubérnio; na quinta, as crocas e as maldizentes; na sexta, as feiticeiras, as mandingueiras e as treiteiras; no sábado, as comilonas e as invejosas. Que quando o vigário terminou de dizer isso, ninguém disse nada na hora, mas toda a gente se olhou assim, e daquele dia em diante não teve mais beata que quisesse confissão naquela freguesia e o vigário descansou à larga com seu bom vinho de missa, pé de pato mangalô três vez.



─ Sá Justina, caluda, nem mais uma palavra! ─ trombeteou da porta Antônia Vitória e, assim que se preparou para outra vez discursar com as mãos para cima como tinha feito pela casa toda desde que desembarcaram, a mucaminha gritou, as imagens rodopiaram no espaço, Justina arregalou os olhos e Bona e Lúcio trambolharam pelo chão. ─ Jesus, Nossa Senhora, grande Santa Rita dos Impossíveis, meu divino padrinho Santo Antônio, ai que desce sobre nós a mais minaz das desgraças! Ai meu santinho São Lúcio, minha santa Santa Bona, que me deram às bodas os meus pais, ai que fizeste, infeliz, aí estão meus santinhos em estilhas, ai, vê como tombaram à distância e se lhes partiu o supedâneo em cem taliscas e em mais de cem te faço eu, negrinha ruim e travessa, coisa mais que ordinária, pedaço de mão de finado, urubu, negra albadeira estúpida a fazer tudo às canhas e aos trompaços, ai perdoaí-me o Cristo porque houvera eu de ter deixado espanar o pó à edíctila tima moleca parva que não serve para lavar um vaso de barro, perdoai-me, sim, se não te retalho em tiras, e não ponhas as mãos neles! Tira os teus cascos de besta daquilo que já arruinaste e sabe-se lá o que mais deitaste a perder com o teu desatino! Ai meu Deus, espero que não chovam desditas sobre esta casa e nossa fazenda, pois, se foi o Inimigo Infernal que animou as mãos desastradas desta negra imprestável, não foram nossas tais mãos! Pois muito bem, pois se queres chorar com muito mais gosto e razão, dou-te motivo. Vai lá dentro à cozinha e explica a tua mãe que o escravo que prometi a Santo Antônio alforriar e pagar-lhe um tanto como se o houvera comprado e não alforriado e dar-lhe terreno, madeira e palha, escravo este que era de ser ela, diz pois a ela que já não penso da mesma forma, que já não pode ser ela, não por falta sua dela, que não as tem a não ser o bodum que por força da raça exala, diz pois a ela que já não é ela que depois das trezenas libertarei, não por falta dela, mas porque a negrinha safadinha que pôs no mundo houve por bem esmigalhar os santos esposos que sempre velaram sobre a felicidade desta casa ─ diz a ela pois, infeliz, que não é mais ela que liberto por devoção, mas, sim, outra, ou outro, que escolherei. E não te esqueças de dizer também de tua culpa em que assim eu haja de proceder, pois é contra a minha vontade que castigo tua mãe, só que não posso deixar passar em brancas nuvens ato tão sacrílego quanto esse, presságio tão mau quanto o que derramas agora sobre esta casa! Ezzz diz lá também que, se não te mando agora mesmo ao azorrague e não te corto em postas como devia fazer, é porque és filha dela e na sua tenção é que faço isso. Vai lá, anda, vai lá contar-lhe tudo, anda, vai, mexe-te, vai e não te esqueças de uma só palavra, negrinha amaldiçoada, pois que logo vou perguntar à tua mãe se disseste a ela tudo conforme te ordenei dizer, vai! E não passes ao pé de mim, que não quero imundar as mãos na tua cara nojosa, ai meu Deus, Santa Catarina, Santa Margarida, Santa Águeda, meu São José Calasans da eterna resignação, valei-me neste transe em que a cabeça me pesa e o desgosto me abate! Vai-te! Matas-me, irritas-me é o que fazes! E me aflige o ... Vai! Vai, antes que te esgane, vai! E tu, negra Honorata, a consentir que essa mulher recadeira, que aqui vem ficar a troco de boa comida e ainda os vinténs que toma à economia e às algibeiras dadivosas do Senhor Barãao, para contar-nos histórias sem pé e sem cabeça e para que os pequenos oiçam as imundícies e ofensas que saem de sua boca! Já te disse que não quero que contes tais histórias! Já te disse que não te aproveitasses da indulgência desta casa para encher as orelhas dos pequenos com anedotas de baixa moral e alta vileza! Que coisa de contubérnio é esta de que trata a tal narrativa? Não me digas, hei de meter um ovo quente à boca do que primeiro repetir tal palavra ou esse conto sujo que estavas a tartamudear aos pequenos! Chut! Ai, Senhor dos Desvalidos, sei que havemos de dever-Vos, como pecadores, penitências a Vossa Misericórdia, mas existe tanto padecimento para os que saem da Europa e vêm habitar aqui, em sítio tão bruto, malsão e ingrato, em tantos esforços e trabalhos sem nota ou fama, sofrendo tanta privação e angústia, metidos com gente tão rude como nunca um cristão pôde conceber, sei bem como padeceram os santos homens católicos entre os mouros, mas, ai de mim, vida tão cheia de vilanias não tenho a força dos santos para suportar! Sabias que eras tu, Honorata, a quem eu ia dar a mesma alforria que já estava quase a conceder à negra Constantina, mãe daquela M. . ., daquela cujo apelido não posso fazer sair de minha boca, sabias que eras tu? Bem sei que és desmiolada e mais tonta que uma mosca e te falta qualquer caráter, irias mesmo assim te perdoava estes maus traços, só não posso perdoar a desobediência! A desobediência! A desobediência! Será que terei de bradar aos céus pela Eternidade que, pela comida que damos, pelo teto que emprestamos, pelas tribulações e vexações que amargamos por conta de tua laia imprestável, por tudo isso só cobro em troco a obediência? A obediência! Não é muito pedi-la a cães e alimárias, mas parece necessitar de compreensão em demasia para a ausência de tino e sentimento dessa raça! Obediência! Obediência que não te passou pela cabeça cheia de borra, quando, com a insolência mais intolerável, a bestialidade mais desagradável, deixaste que essa megera parda contasse essa história blasfema, castigando-nos então o céu por meus santinhos partidos, ai meus santinhos, ai que fraqueza me vem, quantos padecimentos poderei ainda sofrer, Santa Luzia, não deixeis que se apague ainda o lume de meus olhos antes que arranje a reparação de tantos pecados que, se não foram de minha feitura, pois bem sabe Deus da vida pia que levo, são de meus cuidados remediar. Ai Santo Antônio de Lisboa, meu santo padrinho, não soubestes perdoar que não vos tenha vindo a todas as trezenas como faço cada ano, mas sabeis que de minha vida não resolvo eu, senão o barão meu senhor marido, que só agora consentiu nesta vinda para cá, assim mesmo à custa de muito implorar, vós o sabeis, pois que a tudo assististes, meu santo padrinho! Pois, negra ingrata, que de Honorata calha bem pouco o apelido, tira da tua cabeça vires a ser libertada, porque a tanto jamais chegará o esquecimento da tua desobediência e do mal que fazes aos pequenos que tanto te querem bem, coitaditos. Minha Mãe Santíssima, mater dolorosa, socorrei-me nesta hora transida, dolorosa mãe amantíssima! Não te mexas, não te mexas, negra, fica onde estás, pois não sei se há de tocar-se nos santinhos antes que chegue cá um sacerdote, que será de mim agora, onde está Frei Hilário, sinto que desfaleço, ai Deus, não tenho mais forças, ai tanta pena. . .

Quando Frei Hilário finalmente chegou, depois de ter sido encontrado cochilando e sonhando com ovelhas fartas, um fio de baba escorrendo até onde a barriga lhe encontrava o queixo pendido, um ronco ancho marcando o andamento da dormida ─ e chegou tão ligeiro quanto podiam seus passinhos curtos, rechinando as alpercatas no soalho por todos aqueles corredores treliçados, assombrados por nichos, aparadores, tripés de bacia, guarda-pratas e tantas outras coisas ─, Antônia Vitória já estava reclinada na camilha aimofadada, esticando o rosto para o leque com que Teolina a abanava. O frade passou os olhos miúdos pelo salão, olhou as duas imagens caídas, viu as negras petrificadas à beira do portal da varanda, as crianças sentadas no canapé com as costas espigadas.

─ Ah, meu bom padre conselheiro e diretor! ─ suspirou a baronesa, levantando debilmente o tronco para depois tombar de volta no almofadão, os olhos fechados e o peito palpitante.

─ Deram-lhe um vinagrito a cheirar? ─ perguntou o padre e, quando lhe disseram que sim e que também lhe haviam posto um grão de sal sob a língua e que já estavam quentinhas as mãos antes tão tremelicosas de frio, fez sinal para que se afastassem, deixassem-no a sós com a baronesa até que alguém as chamasse. ─ Pronto, pronto, já está,, já está, já tudo passou.

Antônia Vitória abriu os olhos custosamente. Voltou-se para o frade, agora sentado no escabelo que caíra e que ele pusera junto à camilha. Ah, não sabia o bom frei quanto ela sofria e mais sofria e sofria, não se abrandando nunca a sina tão gravosa que os fados pareciam ter gosto em abater sobre ela? Pois não estivera, ainda agorinha, quase às portas da morte, depois de entrar ali para continuar a trabalheira incessante daquela casa tão cheia de visitas ilustres a requerer almoço fino, ceia finíssima, atenção como a que se espera da nobreza, quando lhe acontecera aquela desgraça? Não lhe bastava que o almoço, saindo atrasado, quase ao meio-dia, lhe tivesse dado tanta ânsia, pois que não tocou o Senhor Cônego na caldeirada, nem pareceu gostar dos vinhos? Não lhe era suficiente que o barão, seu senhor marido, lhe houvesse dito com aspereza e à frente de todos que aquela malassada não estava muito diferente da comida dos negros, embora a tivesse devorado quase inteira? Casamento de São João das Vinhas, isto era o que era aquele casamento, embora só ao frade conselheiro, amigo e diretor, pudesse fazer tão terrível confidência, que mal lhe saía da boca abrasada e lhe dava vertigens. Não foram seus paizinhos, não foram seus filhinhos, a quem tratava o barão com tanta indiferença, não fora o bom frade, talvez já não tivesse mais ânimo para seguir vivendo. E agora, agora não podia ele ver ali mesmo, lançados ao chão em posição tão desairosa, os dois santos de cujas bênçãos dependia a paz de casa e casamento? Os dois santinhos estilhaçados?

─ Mas não estão estilhaçados, partiu-se-lhes somente a peanha e pode-se perfeitamente grudar as duas partes. Manda-se fazer uma gomazinha de farinha do. reino com clara de ovo, que fica mais rija que antes de partir-se.

─ Crê Vossa Reverência? E não crê que desça um castigo sobre a casa?

─ Creio que os santos ficarão como novos e que não teremos castigo algum.

─ Benze Vossa Reverência a goma, benze-a?

─ Benzo-a, benzo-a, não se aflija a Senhora Baronesa.

─ Ah, como sou grata a Vossa Reverência! Mas não crê que houve castigo porque aquela recontadeira, perdão pela palavra, aquela recontadeira suja estava a narrar uma história aos pequenos de fazer corar as pedras, além de blasfema, pois que contra um sacerdote?

─ Não, castigo não creio, talvez advertência, talvez.

─ Advertência! Aviso! Para que cessem tais coisas! Para que seja posta à prova a nossa piedade! Portanto, devo castigá-la eu! Diante de tantas afrontas, nada mais providenciei como castigo do que revogar a promessa pela boa saúde de meu paizinho, de alforriar a negra Constantina.

─ Revogar a promessa?

─ Não, por Jesus Cristo Crucificado, mil vezes não! Apenas alforrio outra em seu lugar, pois é preciso castigar sua filha, a negrinha espevitada que me fez isto lá aos santos.

─ Está bem castigada.

─ Não está? Mas se castigasse diretamente a negrinha por me fazer tanta revolta e a negra Honorata e também esta moura torta medonha que conta histórias?

─ A Bojuda?

─ Sim, que nome tremendo, bem que o merece.

─ Mas é liberta, não é?

─ Pois que venham cá todas as milícias do Império, a gente de todas as armas, todos os vedores e ouvidores da Coroa, que à Baronesa de Pirapuama não haverão de tirar seja uma parda velha, seja o que for!

─ Lá isto não haverão.

─ Pois então não posso eu castigá-la como bem me aprouver? Não me ofendeu ela, não ofendeu tão monstruosamente um homem de Deus, não abusou da inocência dos pequenos e da estupidez de Honorata, em troca da comida que busca à cozinha todo o tempo e dos vinténs que nunca lhe regateei?

─ A bem dizer, talvez não encontre apoio na doutrina.

─ Não encontro apoio, Senhor meu? Quem me desaprova?

─ Hum ... São Jerônimo, São Jerônimo. Sum cuique tribuere... É. Sum cuique tribuere, ibis, redibis, qui. . . quod.

─ Diz isto o santo doutor, em tão precioso latim, que minhas poucas luzes não percebem? E se ajustam esses preceitos a tais casos?

─ Se bem me recordo.

─ Ai, sempre recorda bem, sacerdote abençoado, não é dos homens a sabedoria de Vossa Reverência e ouvindo-a todos os caminhos me parecem claros e todas as coisas certas. Que indica a boa doutrina nestes casos?

─ Uma penitência. Uma penitência que lhes ensinasse o mal cometido e mostrasse arrependimento aos olhos do Senhor.

─ A isto aconselha São Jerônimo?

─ E Santo Anselmo. Santo Anselmo ...

─ Santo Anselmo! Pois lhes darei penitência! Ai, meu bom sacerdote, enviado da Providência ... Darei penitência aos pequenos também?

─ Talvez não Felicidade Maria, que está mais pequetita, mal sabe repetir meia oração.

─ Os pequenos, isto veremos, pelo menos às raparigas não lhes ficariam mal uns dois ou três rosários de joelhos e um pouco de abstinência. É pela sua própria virtude, jamais outra vez as deixarei aos cuidados de Honorata. Honorata! E todos, enfim, menos Constantina, de quem já tirei a alforria e não quero que pague pelos pecados da filha. já me vem alento, por que não penso eu mesmo as coisas que, ditas por Vossa Reverência, parecem tão fáceis? Vossa Reverência benzerá mesmo a cola a meus santinhos? Ajudará a dispor as penitências? Que mortificações se fazem os frades penitentes?

Urinando sonorosamente num penico de porcelana, Perilo Ambrósio sentiu grande prazer. Só não fechou os olhos para ouvir-se esvaziando porque queria também apreciar a espuma, que começava a refletir a luz da lamparina em cintilações brancas e douradas. E lá embaixo, o pescoço virado para cima em posição forçada, Antônia Vitória não conseguia, apesar de estorcer-se para todos os lados, evitar que os jatos implacáveis sonora mijada sem fim lhe acertassem o rosto. E não só em Antônia Vitória mijava ele, mijava em tudo, sentia que podia mijar em tudo o que quisesse, podia fazer qualquer coisa que quisesse. O enorme penico, com suas bordas de abas caprichosamente recurvadas como as pétalas de uma açucena gigante, suas orladuras filigranadas e aparência quase alada, suas cenas ribeirinhas lhe cobrindo os lados e o fundo em traços sutis e cores evocativas, vibrou como um sol em que chovesse, e Perilo Ambrósio não queria mais terminar de mijar. Mas terminou e passou muito tempo com os braços derribados ao longo do corpo, o queixo encostado no peito, a espinha derreada, espremendo mais uma gota, mais outra gota, uma última gota, uma gota que se apingenta como uma estalactite e hesita brevemente antes de cair.

Assim como estava, exposto e pingando, caminhou até a janela. Não se viam os sapos, não se viam nem mesmo o mar e as árvores, tudo estando encoberto por uma caligem espessa. Muitas vezes tivera medo de escuridões iguais a essa, mas agora não tinha medo algum. Encostando a barriga no portal da janela, baixou ambas as mãos para apalpar-se e logo sentiu que tudo embaixo se avolumava. Agora não ficava tão duro como antes, quando somente de pensar em alguns dos negros e negras da casa o fazia querer explodir, retesado e doendo como se fosse destacar-se do corpo. As vezes, nem mesmo ficava completamente duro, mas se orgulhou da massa grossa e rombuda em que passava a mão com delicadeza. Sopesou os ovos, esboçou um meio sorriso e, fazendo uma expressão que sabia que jamais faria diante de qualquer pessoa, nem mesmo diante do espelho, começou a masturbar-se à janela, mal podendo conter a vontade de gritar e urrar, pois que se masturbava por tudo aquilo que era infinitamente seu, os negros, as negras, as outras pessoas, o mundo, o navio a vapor, as árvores, a escuridão, os animais e o próprio chão da fazenda. Sim, podia sair por ali nu como estava, a glande como a cabeça de um aríete irresistível, e podia fazer com que todos a olhassem e a reverenciassem e ansiassem pela mercê de poder tocá-la e beijá-la. Imaginou-se suavemente prepotente, chamando ao colo e às virilhas as cabeças dos que o cercavam, com isso distribuindo bênçãos e felicidade. E finalmente pegando a negrinha Vevé e, sem dizer uma palavra, atirá-la à cama, abrir-lhe as pernas, deixar claro que não queria que se mexesse e, passando cuspe por aquela cabeça de carne inchada e embrutecida, deflorá-la de um só golpe, aguardando um estremeção de dor para impedir seus movimentos com um abraço paralisante, sentir qualquer estalo de pele ou cartilagem se rompendo, pressentir que ela era rasa ou estreita e, empurrando-lhe os joelhos para cima, enfiar-lhe tudo com um golpe rude que quase a lançasse contra a cabeceira, confirmando esse golpe, depois de penetrá-la até encostar os ossos dela em suas banhas, com mais estocadas curtas, como quem trespassa, como quem empala, como quem gostaria de que a mulher fosse inteiramente atravessada e morresse com as vísceras destroçadas, morresse bem no instante em que, quase sem precisar fazer mais um gesto sequer, gozasse dentro dela, senhor completo, senhor completo, levantando-se e limpando sangue e gosma na camisola da negrinha. Ainda não tinha acontecido, mas ia acontecer, já havia ordenado que dispusessem tudo para ele ter a negrinha Vevé. Só não permitiu que dissessem a ela, porque sempre havia o perigo de que Antônia Vitória viesse a saber e, principalmente, porque não podia dispensar o prazer de aparecer de repente diante da negrinha e começar a tirar a roupa sem falar nada, desfrutando do medo ou espanto no rosto dela, ao ver brotarem das dobras dos calções os instrumentos de sua submissão.

Ela quase correra antes, quando pusera nele seus olhos de uma cor estranhamente clara para uma negra, arregalados e fugidios.

Chamara o feitor Almério, perguntara quem era. Neta de Dadinha. Sim, muito bem, quero fodê-la, é donzela? É donzela, vai pedir permissão para casar com Custódio Arpoador, estão esperando o dia de Santo Antônio para falar com a baronesa. Melhor, melhor assim, quero mais ainda fodê-la depois de saber disto. Sabes como fazer, não sabes, não me aprontes asnices. Quer que vá buscar a negrinha hoje, agora? Não, falo-te depois.

Falo-te depois, falo-te depois, repetiu Perilo Ambrósio de olhos fechados e pincelando a parede. Somente agora, as nuvens da noite cerrada deixavam aparecer algumas estrelas. Lá do lado norte do céu, por trás da famosa constelação por uns chamada de Cisne e por outros vista como uma congregação de reis, a almazinha do alferes lembrou de novo a luz de sua terra e de novo estremeceu de orgulho. E, como as alminhas desencarnadas não vivem no tempo, tudo para elas podendo ser presente, passado e futuro, esteve no mesmo instante sobre as ondinas que nessa hora conduziam os trabalhos noturnos da maré, farfalhando pela praia da Armação do Bom Jesus. Massas noturnas e de formas diversas das que teriam sob a claridade do sol, as casas e as árvores exibiam só um pequeno olho brilhante, na janela onde Perilo Ambrósio começava a borrifar esperma na parede, em arrancos que lhe faziam dobrar os joelhos a intervalos curtos. A almazinha percebeu aquilo e tudo mais da noite com o já costumeiro amor e, sem saber por quê, teve certeza de que seria ela quem um dia animaria a criatura de Perilo Ambrósio, Barão de Pirapuama, herói da Independência, construtor da nação mais bela e forte do mundo, fonte de benquerença, fartura e paz. Pois era o seu destino de glória, iniciado quando habitara o corpo valente do Alferes Brandão Galvão, abatido na defesa da terra e da liberdade, na brisa sem par da Ponta das Baleias. E comemorou como fazem as almazinhas nessas epifanias, riscando o ar de traços e centelhas pelas beiras do Zodíaco, sumindo à distância entre uma estrela e outra e voltando para brilhar tão ligeiro que ninguém vê, ora na testa da constelação do cavalo de asas, ora serpenteando entre as muitas coroas celestiais que aqui adornam o firmamento, a cada tempo do ano recompondo seus arranjos faiscantes e dando razão para crer que tudo muda porém permanece, tudo permanecendo porém mudando, como é necessário para a vida. Regozijou-se muito a almazinha, virada numa fagulha feliz e alheia a tudo que não fosse aquela alegria, e assim, bom para ela, não viu que, curvado e sem fôlego junto à janela, Perilo Ambrósio mergulhava a cabeça na escuridão de fora e, sem nada que lhe ocupasse a mente, tinha no rosto tanta maldade indiferente, tanta crueza e tanta ausência de bom sentimento que sua baba, se caísse, poderia matar as plantas rasteiras e sua vontade era apenas a vontade de que tudo existisse para si, a vontade que não se pode bem distinguir da morte. Ninguém viu essa cara tão má, nem podia ver, ninguém pensou nela, nem podia pensar ─ e Perilo Ambrósio limpou o suor nas fraldas da camisa, lembrando com satisfação que tampouco gostava de ninguém.

Engenho do Jaburu, 26 de fevereiro de 1809.
Quando Vevé vinha nascendo, Roxinha pensou que estava suando demais no meio das pernas. Era natural que suasse, porque o calor que saía do fogão onde ela enfiava achas de lenha e equilibrava gamelões de barro convertia tudo numa fornalha. E também não soprava nem um arzinho pelas copas das caramboleiras e dos cajueiros, nem mesmo os cabelinhos da cana moça se moviam e, nos matos, tudo quieto, soando só um tiziu de quando em vez, uma fogo-pagou, um zumbido de asas de besouros, uns estalos de gravetos, capulhos pipocando sementes, a síbilância surda própria do silêncio nessas horas. E, debaixo dessa manta pegajosa e morna que tudo encapava, ela, tão gorda, pejada e tendo de parar a cada instante para respirar mais fundo, já esperava que lhe corressem rios de suor pelo corpo, mas assim mesmo passou a mão entre as coxas, para ver o que estava acontecendo. Sabia que o menino devia nascer a qualquer momento, mas não podia deixar de fazer serviço de cozinha mesmo no domingo e, além disso, havendo já parido seis e tido três abortos, todos os seis vendidos logo depois de desmamados e os fetos jogados na maré junto com o lixo, se aborrecia um pouco por ter de parir, ficava impaciente em pensar que haveria de novo um menino pendurado nos peitos, um menino que, como sempre, não seria dela.



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