Viva o povo brasileiro



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tinha direito, em troca de concordarem que o baú era seu. Os

outros desconfiaram a princípio, examinaram o baú, sacudiram-

no para tentar adivinhar-lhe o conteúdo, mas, como sabiam que

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NonB era meio amalucado e certamente estava querendo o baú

por simples capricho, não porque já soubesse o que havia dentro

dele, terminaram por assentir.

- Por que não joga essa peste no muro para arrebentar logo

e ver o que tem dentro? - perguntou Sororoca.

- Não, não senhor, nada de quebrar, esse baú tem valor.

- Que diabo de valor vai ter uma arca velha dessas, pesada

que nem a necessidade, toda esquisita, quem é que vai cluerer

um negócio desses, sinda mais que ninguém acerta a abrir? Cadé

a fechadura?

- Não tem fechadura, já espiei tudo. S6 tem essas fendazi-

nhas aqui e essas alças. Isso deve ser um segredo, deve ter um

segredo para abrir, isso com calma a pessoa descobre. Tem que

ter calma.

- Pois então vá tendo sua calma, eu vou é comer o frango

assado que a gente apanhou na casa daquela branca.

- Vá, vá, basta deixar um pedacinho para mim, eu já vou,

num instante eu resolvo isso aqui.

- Quem é burm pede a Deus que o mate e o diabo que car-

regue. Então fique vock af com seu baú, que nós vamos comer.

E já tinham até terminado de comer, Batata começava a ador-

mecer e Sororoca pitava um charuto roubado, quando Non8 deu

um grito lá do canto, onde, deitado de barriga para baixo de-

fronte da canastra, parecia estar com a cabeça colada a ela.

- Venham cá, venham cá! Ligeiro, venham cá!

- Por que é que vocé está falando assim?

- 8 que eu estou aqui prendendo uma lingüetinha com o

dente e, se eu soltar, acho que não acerto mais a abrir ela! E

dura como a desgraça e parece que tem uma mola! Menino! Me-

nino! Menino!

- Menino o qué, infeliz, que diabo você está vendo aí? Você

está vendo alguma coisa af? Tem um buraco aí?

- Tem, bem em riba de meu olho direito, bem em riba, tem

um negócio piscando lá dentro! Menino!

- Tem um negócio piscando?

- Tem. Nãol Parou de piscar! Menino! Virsantfssima! Nossa

Senhora do Perpessocorrol Tudo alumiado! Menino!

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- Deixe de ser colhudeiro, Non8, você não está vendo nada

af, está vendo coisa nenhuma! Saia daf para eu ver também.


- Não, não saio, se eu largar, essa desgraça fecha e não tem

esse santo que abra de novo, eu abri foi de cagada. Menino!

Mas que coisa, si meu olhinho, Santa Mãe de Deus!

- Deixe de ser mentiroso, rapaz, vock não está vendo nada aí..

- Pela luz do alto, por tudo que é sagrado, juro a vocé! Quer

que eu lhe diga o que eu estou vendo?

- Diga, diga.

- Eu estou vendo o futuro!

- Vendo o futuro? O futuro como?

- Não sei, só sei que é o futuro, é uma coisa que tem aqui

que mostra que é o futuro.

- Que coisa é essa?

- Não sei dizer, é uma coisa.

- Ora, deixe de querer fazer os outros de besta, você não

está vendo futuro nenhum, não está vendo é nada.

- Estou, estou, estou!

= Então diga que bicho vai dar amanhã, que bicho vai dar?

- Não é esse tipo de futuro que eu estou vendo. É como se

tivesse aqui uma voz me cochichando para exp!icar o que tem

lá dentro, mas não tem voz nenhuma, porém tem. Menino!

- Que é que você está vendo agora?

- Ladrão como um corno! Ladrão pra dar de pau, ladrão

e mentiroso por tudo quanto é lado!

- Muito ladrão aíT

- Chi! Chüü! Nem me fale! E tudo muito bem trajado, uma

finura!


- Trajado como, de terno, de duque, de colete e gravata?

- De duque de diagonal, terno de gabardine, gravata de seda,

alfinetes de brilhantes, botuaduras de péurulas, sapato de corco-

dilo, água de cheiro no subaco de vintes contos a gota! Isso

quando é paisano.

- Tem ladrão fardado?

- Niminfales! Jesus Cristo, ói cuma tem! Menino!

- Tudo entrando nas casas e metendo a mão em tudo dos

outros?

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- Que nada! Eles nem toca no dinheiro, tudo tem uns car-

tãozinho, o dinheiro não tem nome de dinheiro.

- Que nome tem o dinheiro?

- Todo tipo de nome. E verba, é dotação, é uma certa quan-

tia, é age, é desagC, é numerário, é honorário, é remoneração, é

recursos alocado, é propriação de reculso, é comissão, é fis, é

contisprestação, é desembolso, é crédio, é transferência, é vesti-

mento, é tanto nome que se eu fosse dizer nunca que acabava

hoje e tem mais coisa para ver. Dinheiro mesmo é que ninguém

fala, todo mundo tem vergonha de falar que quer dinheiro.

- Vergonha de dinheiro sí?

- Grande vergonha! Todo mundo manda o dinheiro para fora

e tem tanto acanhamento que, quando alguém conta que e!es

msndaram o dinheiro para fora, eles ficam acanhados e mandam

prender esse dito certo alguém e, se esse dito certo alguém con-

tinuar falando no dinheiro que eles malocaram, eles mandam

matar esse dito certo alguém!

- Muita gente morta aí?

- Chüi! Tem umg bomba que não deixa a alma do vivente

nem sair, torta a alma também. Tá escrito aqui: nada non sufer-

fife a uma prosão telmonucreá, nem as arminhas, as alminhas!

- Botaram a bomba af?

- Botaram não, tão querendo botar, que é para garantir a

paz. Se ninguém se comportar, morre todo mundo, morre até as

a!minhas no telmonucreá!

- Mas então ninguém morreu ainda, pode morrer mas não

morreu.

- Morreu, sim! Tá morrendo! Tem um menino aqui de oito



anos que está carregando a irmã de dois anos que um americano

deu um tiro sem querer, depois que outros americanos jogaram

uma bomba na casa do pai dele sem querer, na hora que os ame-

ricanos entraram para invadir a terra dele para salvar ele, só

que não sobrou ninguéra, ficou tudo salvo. Tem gente morrendo

também de todo jeito, morrendo muito de fome, cada menino


magro que parece uma tsquara, tudo os aribus vindo para comer.

Muito aribu gordo!

- Não tem comída af, não?

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- Não, comida tem, tem até demais. Tem um pessoal louro

musturando leite em pó no macadame da avenida, para ficar

mais macio. Tem gente tocando fogo em pinto e afogando pinto

que faz gosto, tem gente matando ganso só para tirar o figo,

tem gente pagando para o homem não plantar que é para não

ter comida demais e o preço não descer, tem gente querendo capar

os outros para os outros não fazer filhos que possam comer a

comida que se joga fora, tem coisa que Deus duvida aqui! Tem

subola e alho jogado no rio, veja você, subola e alho! Depois

que eles joga no rio, eles compra outra vez, só que no estrangeiro,

que é para o estrangeiro respeitar ele.

- Muito estrangeiro aí?

- Poucos, mas tudo mandando, uma coisa por demais. O

sujeito gosta de uma coisa, ele vem e diz que o sujeito não gosta

e manda o sujeito gostar de outra, porém com arte. O estrangeiro

manda, porém não é o estrangeiro, é o dinheiro. O dinheiro

manda.

- Muito dinheiro sobrando aí?



- Chüü! Mas tudo na mão deles!

- E para que serve esse dinheiro todo?

- Pra tudo! Você não sabe o que eles faz!

- Oue é que eles fazem assim, menino?

- Ah, eles mata, eles furta, eles rouba, eles mente, eles manda

e desmanda, eles pinta o caráio e nada acontece com eles. Pense

aí numa coisa, que eu lhe digo se tem aqui. Pense numa coisa

bem ruim aí.

- Estão matando pai de família?

- Nem lhe conto! Chüü! Ave Maria! Chüü! E tem ninguém

podendo sair na rua, menino? Tudo saindo, tudo morto à bala!

- Criança aí, estão matando?

- Mas que é uma liquidação, esse menino! Parece mosca no

vinagre! Eta, que desgraça, que desgraça, ai meus olhinhos!

- Que foi aí, Nonô?

- Ai meus olhinhos, não posso crer, ai meus olhinhos, mi-

nha Nossa Senhora, minha Virgem Santíssima, perdoe os meus

pecados, meu Deus do céu, ai meus olhinhos, ai meu olhinho!

Ouanta desgraça!

- Tem jeito não, Nonô?

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- Ai meu olhinho, eu não quero ver mais, ai meu olhinho



Lá vem cacete, eu não quero ver mais, lá vem cacete!

- Largue não, espie mais!

- Tem que ter coragem, tem que ter coragem.

- Tenha coragem, rapaz, espie mais! Conte maís, que é qm

você está vendo mais?

Mas Nonô não pôde continuar a olhar para dentro da canas

tra, porque um ronco surdo, como se um animal imenso estivess

soterrado ali e quisesse levantar o chão para sair, começou a agi

tar tudo em torno, um ronco de elefante, de baleia, de onça, un

arfar penoso que de repente tomou conta do mundo, não er,

mais um bicho embaixo da terra, era a própria terra como s

estivesse em dor de parir, como se fosse morder, como se foss

revirar-se sobre si mesma.

- Está tudo vivo, minha Nossa Senhora, meu Jesus Cristc

tudo é vivo! - gritou Sororoca. - Ai, minha mãe!

Os outros, mesmo que quisessem responder, não poderiaxr

porque, com um grito que jamais pensara poder dar, Batat

puxou a mão da parede em que a encostara, ao sentir escorre

sobre ela um caldo espesso e quente, um caldo vermelho e a

dente, um caldo semelhante a sangue, sangue porejando lenta

mente das paredes das ruínas da casa de farinha, derramando-s

em borbotôes vagarosos sobre os blocos de argamassa, saindo d

todos os pontos da parede, uma cachoeira viscosa e silenciosa

sangue brotando de cada rachadura, cada ponto escuro do cimer

to antigo, cada esconderijo de aranhas e lacraias, cada grão d

areia ali juntado, cada pedrinha. A casa da farinha entrou er


compasso com a terra por baixo dela, o sangue passou a jorra

como se bombeado por aqueles grandes suspiros, os jegues arrt

panharam as cabeças e quebraram os cabrestos para fugir, o

três ladrões, sem falar nada, desembestaram pelo meio das brf

nhas, procurando o mar pelo cheiro. No céu de Amoreiras nad

se via, a não ser as constelações de janeiro em seu passeio int

xorável. Mais acima desse céu de Amoreiras, onde tudo exist

e nada é inacreditável, o Poleiro das Almas, vibrando de tanta

asas agitadas e tantos sonhos brandidos ao vento indiferente d

Universo, quase despenca da agitação que o avassalou, enquant

a terra latejava lá embaixo e as alminhas faziam força para dea

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cer, descer, descer, descer, descer, descer, porque queriam brigar.

Por que queriam brigar? Não se sabe, nada se sabe, tudo se esco-

lhe. Tudo se escolhe, como sabem as alminhas agora tiritando

no frio infinito do cosmos, que as balança como as arraias em-

pinadas pelos meninos de que têm saudades. Almas brasileiri-

nhas, tão pequetitinhas que faziam pena, tão bobas que davam

dó, mas decididas a voltar para lutar. Alminhas que tinham

aprendido tão pouco e queriam aprender mais, como é da natu-

reza das alminhas, e tremeram outra vez quando lá embaixo

três ladrões correram da velha canastra, a qual foi soterrada pelo

sangue, pelo sangue, pelo sangue, pela argamassa que é a mesma

coisa, pelo suor que é a mesma coisa, pelas .lágrimas que são a

mesma coisa, pelo leite do peito que é a mesma coisa. Isso lá

em cima, Deus sorrindo ou não, porque embaixo, muito embaixo

sob os ares de Amoreiras, tudo acontecia ou estava sempre po-

dendo acontecer. O sudeste bateu, juntou as nuvens, começou a

chover em bagas grossas e ritmadas, todos os que ainda estavam

acordados levantaram-se para fechar suas janelas e aparar a

água que viria das calhas. Ninguém olhou para cima e assim

ninguém viu, no meio do temporal, o Espírito do Homem, erra-

dio mas cheio de esperança, vagando sobre as águas sem luz

da grande bafa.

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Lá v


vocí

tra,


sot

tar


arf

mf

est



tu
FIM DO LIVRO





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