Viva o povo brasileiro



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Encontro10.10.2018
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─ Estou com quentura ─ anunciou. ─ Não está fresco? Pois eu tenho é quentura!

Curvou o tronco para o lado, virou a cabeça parecendo que ia esconder o rosto e, a princípio quase imperceptivelmente, depois como se estivesse num terremoto, começou a sacudir o corpo enorme, oscilando no ritmo de uma gargalhada sem som. Os lábios, antes apertados, explodiram e ela dobrou-se para a frente esticou os babados da bata, revirou os olhos, riu perdidamente, a cabeça enfiada na massa convulsa dos peitos, braços e colo. Ui-ui, fez ela, enxugando as lágrimas, e rebentou em nova cachoeira de risadas, desta vez sonoras, ás e és e ós modulados de todas as formas, a cabeça se movendo em contraponto com o resto do corpo. Logo deixou de haver espaço para qualquer coisa além daquele riso e então os presentes, negros que não estavam de castigo e podiam folgar no domingo, as visitas que tinham caminhado da Armação do Bom Jesus até ali para ver a sempre encantada grande gangana do mundo, os que, sempre que podiam, vinham estar com ela como diante de uma montanha velha e testemunha de tudo o que jamais aconteceu na Terra, a sala inteira, dos velhos aos meninos de braço, todos se abriram em risadaria, sapateando, estapeando as coxas e escondendo as bocas abertas com as mãos espalmadas. Ninguém sperava o grito que Dadinha deu.

─ Quessassim? ─ disparou ela. ─ Quessassim?

Sem que nem mesmo os parentes de sangue e os que lhe eram mais chegados notassem qualquer transição ou movimento, ela não estava mais curvada e rindo, estava comprida como quem engoliu um coqueiro, empertigada e franzindo a cara com uma força tão completa que agora só se viam os olhos e a boca. O riso estacou igual a um atabaque comandado, o queixo desenhou dois sulcos na direção dos cantos da boca, o rosto emagreceu.

─ Ora, ora ─ falou. ─ O cem anos é meu, quem vai morrer é eu, quer dizer que só quem pode achar a graça é eu, que é eu que sei, ninguém mais aqui sabe. Cada qual que faça por onde poder chegar no seu cem anos e poder achar graça na hora de morrer, só pode quem tem direito. Depois que eu morrer, tem que chorar um pouco, o certo é esse, porém eu posso rir. Agora mesmo, que estava fresco, eu quis quentar o vento e quentei, por isso que me queixei da quentura e dei risada. Mas não é só isso que é engraçado, embora por aí a pessoa que sabe possa tirar tudo, porém só sabendo. Quem vai morrer é eu, só quem pode rir é eu. Pregueou mais a boca, pôs as mãos nas coxas e os cotovelos para fora, fechou os olhos.

Muitos, quando ela dissera que ia morrer nesse dia com a mesma naturalidade de quem comenta que não vai chover, haviam pensado que mais uma vez ela queria pregar uma partida inocente, pois nunca se sabia quando estava sendo oracular ou quando estava brincando como uma mocinha. Mas o rosto afilado numa máscara aquilina desmentia que houvesse brincadeira naquilo. Ao começar a fala, via-se que era ela mesma, séria e ao mesmo tempo irônica, de uma gravidade aérea e de tantas aparências fugazes como as coisas vistas em sonhos. Não eram entidades, pelo menos no início, quando sua voz cheia de curvas e picos rompeu o silêncio.

─ Eu vou ter de contar isso que já contei a um, já contei a outro, um pedaço aqui, outro acolá ─ disse ela, respirando fundo e abrindo os olhos. ─ Por isso mesmo, para não ser tudo musturado e ninguém se lembrar coisa com coisa logo depois que eu morrer, que eu vou contar o importante, respondo pregunta, digo preceito.

Compreenderam então que Dadinha ia mesmo morrer e se ajeitaram para aprender tudo o que pudessem e não envergonhá-la na hora da despedida, tendo ela feito o seguinte discurso, voz dó maior, por vezes lá menor, arpeios longos, acordes dissonantes, harmonias escrupulosas, compassos múltiplos, ataques surpreendentes, andamento expressionista, diálogos certeiros: "Rrrreis! Nachi na senzala da Armação do Bom Jesus, neta de Vu mais o caboco alemão Sinique, Vu essa filha do caboco Capiroba ─ rrreis! Prochantan, prochantan, prochotan, prrr-pprrrr, sai-se diqui, pipoco e zombeira no miolo! Arrum, prochantan, prochotan, sai-se daqui, desgrachado de estralo ni juízo, palavra de sangue com pecado no tinote! Sai-se di qui, có qui mioleira do cáboco non goenta! Sai-se di qui, zornbeira e assobeio, lia, vôte!"

─ Recebeu, gangana véia-véia?

─ "Não, anchente. Capiroba caboco grande ─ rrreis! ─ faz mais de quinze anos que não vem, deve de ter entrado em cavalo novo nachendo, ficando sem querer. É um recebimento geral aqui, coisa diquele tempo, vem e volta, não é bem assim, nem bem assim não é."

─ Caboco Capiroba salva os condenados?



─ "Rrrreis! Caboco esse que fica nessa porta, com sua coita de prata pendurada e seus dois irmãos cabocos, Sinique mais Aquimã, que da luta nunca falta, vivendo hoje e amanhã. Crem-deus-haja, vissantíssima, val de lágrimas. Nachida no 21, começo do setechentos, meu pai eu não conheci, morreu no meu nachimento, antes do meu nachimento, minha mãe também não vi, mãe esta que foi vendida antes de me desmamar, partindo por Serigi para nunca mais voltar. Que quando eu fui nacher, naquela hora tinha dezoito almas doídas em Amoreiras e todas elas vierani para ne mim encamar, tendo o cura porém dito que eu não ia me criar. Encarnou a minha alma por uma grande disputa, disputa que até hoje haja gente que discuta, fazendo com que visite, que nem a casa da puta, meu corpo mais de cem almas, por vezes em grande luta. Meu pai era negro baleneiro, tinha os olhos craros. Meu irmão mais véio-véio morreu de noite no trabalho do óleo da baleia, o tacho derramou ni cima dele, morreu queimado do óleo, morreu ligeiro, porém os negros do trabalho do óleo da baleia quase todos tinha a pele às vezes carne-viva às vezes bolhas e cascãos e muitos ficava cegos do azeite que espirrava e dos tachos que derramava, quando as trempes despencava. Como mais ou menos até hoje é. Minha avó Vu não falava língua, falava gritos. Que quando levaram ela nessa casa para trabalhar fazendo todo serviço, gritou e atacou a cozinha, quanto mais eles marrando no tronco e chibateando muito bem chibateada com todos os zorragues, o bacalhau, muito chambrié de corte, vergueiro e pingalim, troncos de pé, sentada de croca e de cabeça para baixo, mais ela atacando sem receio. Vestiram no sambenito, apertaram os peitos dela com o aziá dos bois, prenderam os dedos nos anjinhos, botaram para dormir de canga em cima do milho catado, ferraram em brasa espalhado pelo corpo, meaçaram tudo e qualquer coisa, quanto mais isso mais ela atacava. Então, por força daquela brabeza e todos pensando que o cão de satanás habitava ela, esperaram ela parir para aproveitar a cria e resolveram de enterrar viva de cabeça para baixo, cavando cova bem funda para muito bem enterrar, vindo o padre depois do enterramento para tudo abençoar muito bem abençoado, deitando água benta à vala, para Vu não sair de lá e novamente atacar. Caboca Vu muito braba, não deche, encarna na bananeira braba, quando muito. A pesca da baleia tem o cacharréo, que é o macho, o madrijo, que é a fêmea, o baleote, que é cria mamona, o seguilote, que vai junto da mãe mas já mistura a mama com comida, e o meio-peixe, que é o peixe novo que ainda ia crescer antes da arpoação. Canta-se mesmo como hoje, aruê-pã-pã, aruê-pão, eu queria pegar ela na barba do meu arpao, mas se canta mais ligeiro ─ aruê-pão-pão-pão-pão. Isso no desmancho da baleia, na pesca tem outras. O padre vem todo revestido benzer as lanchas que vão pescar a baleia, três lanchas sempre, poucas vezes quatro, não era chalupas, que essas chalupas hoje é como vaso de guerra. O padre benze as lanchas, que vão bem, bem, bem armadas, que estão todas baleias parindo neste mês por aqui tudo. O madrijo não deixa do baleote, não deixa do seguilote, então, quando o baleote vai forgando, forgando, forgando pela cima da água, todos sabendo que o madrijo ali nada ao pé, o baleote vai brincando e dando sartos e sartos e sartos pela ribança das ôndias igual como um boto, porém de pequeno juízo pela idade, quando então a lancha vai até nele, que espia eles como se fosse palestrar, e então eles só faz enfiar nele o arpéu, que eles despedem de perto porque o baleote nada sabe e não tem medo deles. E nisso matam o baleote com esse arpéu, que é o mesmo arpão, porém menor e com mais esgalhas e barbilhas para a finalidade de doer para o baleote chorar bastante, matam ele e amarram no costado e então chega a mãe, que ouviu os gritos e choros e também já vem chorando, e então eles metem, nela o arpão grande, saindo ela correndo léguas e léguas caçada pelas três lanchas, e botam no meio a lancha que traz o filho atilhado, porque ela, malferida e malcansada, assim mesmo volta para ver a cria, e dão novas,corridas e então novos arpãos e mais as coisas e as meias-luas e as foices de baleia e muitos ferros, então ela chora muito como uma pessoa e bota sangue esguichando numa poeira d'água encarnada, ficando o mar todo também encarnado e então morre essa baleia e seu baleote e vão arrastando eles em fileira para a Armação, com as queixadas e as bocas amarradas de boas cordas para a água não entrar por eles adentro, bem como os peixes que gostam de entrar pela boca da baleia e os bichos que bebem o sangue dela."

─ Que bicho é bom não comer, estando nas regras?

─ “Veneno, não comer. Peçonha, não comer nem beber. Quizila, não comer. Peixe niquim não tocar, peixe beatriz não pisar. Água de tofo, velenho com memendro, coco, tramonha, trovisco, baiacu, tudo, tudo, minha filha. Rosargar... Coidado! Não comer na má companhia, tento nisso! Não comer comida feita por amigo que foi inimigo, muita atenção! Ah! Ali! Ali! Tuí-tuí-tuí! Santo Calendê evém aí, meu povo, é no dia 23, esse menino, faz o edê do homem, esse menino, lobara Exu Lonan, vem cá, vem cá, Aloriê!"

─ Recebeu, gangana véia-véia?

"Danguibé, cobra do mato! Hiu-hê, ssssiu! São Lourenço é o tempo, é daqui! Obessém no céu, muito do enfeitado! Avriquiti, ui, ui, ui, uil Vamos com Dão Pedro debaixo do pau de loco, tocando no amelê e nosso batá-cotó, viva o reis da Bissínia, bom caboco Salimão Darissa, da terra da Abobra!"

─ Tá vendo tudo aí?

─ "Caje-caje. Mas qué-quié-quié-quié, menino? Mmmmm! Mecreia muntcho, é como lhe digo: emô-jubá, ebô-coxé, tudo musturado aqui, uma pintura verdadeira! Oi os doze pá de França, criatura, mas que rebrilhosidão! No fardamento da rainha de Xabá, do sino de Solomão, da batalha de David, marvia grande aqui, coisa de premeira, êi patuscada valente! Venha de lá, princesa da Guiné, festejando a festejar! Comidas, então, todas especes! Menino! Aqui, nem lhe conto!"

─ Coisa da mariposa Curuquerê aí?

─ "Nada disso. Essa veio na cabeça dos padres e do que benzeu a testa do valeroso caboco Capiroba ─ rrreis! Rrrrreis, rrrreis, ai? Na hora de descabeçar ele e garguelar, ai! Hum-hum, haaan!"

─ Recebeu, mãe gangana, chegou ele?

─ "No setechento, no setenta ou no oitenta, quando nem sombra de nada disso tinha aqui, só as baleias e as mesmas gentes, assim ou não assim, chegou Darissa da Bissínia, que era maluco, maluco, muitíssimo variado. A cidade da Bissínia é Diz-Abobra, ele porém não trazendo abobra, trazendo religião antiga, que aqui não pôde combater. O povo dele é Galinha, porém também não trouxe galinha, nem fazia cococó. Foi antes que botaram os padres regular zizuítas para fora, le conto, hum-hum. Tinha o grande reis Zuzé, que ficava no reino, no pombá do Marquês, que me chegou lá assim e disse: não quero mais saber, me comprenda uma coisa, não quero mais saber de zizuíta em minhas terras, foi zizuíta aqui, zizuíta fora, he-he-he-he! Rebanharam tudo, levaram bem, bem longe, botaram na jiquitaia, he-he-hei Zizuita descarado, juntaram, botaram em ferro, Coronel Gonçalo levou para no reino castigar, o navio carregando para bem mais de centos padres, hi-hi-hi-hi! O Bispo Zuzé Boteio, muito sem graça com isso, se despediu sem receio de seu lugar de alcebispo, indo morar de permeio cas freiras de Itapagipe, he-he-he-he-he! Não foi esse o Padre Roma, que com seus filhos mataram, padre Roma esse sendo muito dispois na história, foi por fazer sedição que lhe deram o cadafarso. Disso botaram um pasquim comprido na porta da igreja, sendo sacrilejo mas sendo perdoado, por ser padre filheíro e além do mais sediceiro, na uma, nas duas, nas três eu não fico, ca sua saia de renda de bico, ponha a laranja no chão tico-tico, he-he-he-he-he, tem cachimbim aí, cachimbim?"

─ Raiz de dandá é bom?



─ "Dandá é. Pestenção nas santidades: todos os santos, muntcho bem, muntcho bem, Santo Antônio, a Santa da Conceição, muntcho bem, mas se valha mais do santo de sua cor, lembrando que negro escravo cativo não usa nem baeta de holanda nem cordão de ouro, tenção nas coisas, é só ver. São Solomão lutador, a reza vai, bata parma aí, bata Parma, hum, fecha-te corpo, guarda-te irmão, na santa arca de Solomão, aprendeu? São Elesbão, São Benedito Urumilá, Santa Figênia, vá lembrando mais, tchobém. Olho grande, a pessoa joga água fria, reza com pinhão roxo ou vassourinha mofina, faz cruz, faz cruz, vai fazendo cruz: Deus te fez, Deus te criou, Deus te livre das vista que mal te olhou, com dois te botaram, com três eu tiro, com os poderes de Deus, da Vilge Maria e de Zezus de Najaré, seu filho concebido sem mágoa e sem pecado. Se foi na cabeça, São João Batista, se foi nos olhos, Santa Luzia, se foi nos dentes, Santa Polônia, se foi no corpo, as três pessoas da Santíssima Trindade, Padre, Filho, Espírito Santo, se foi por ambição ou por despeito, se foi por ódio ou por vingança, tudo desparecerá no abismo do mar sagrado ou no confim da Terra onde não se ouve nem galo cantar nem boi berrar, com os poderes de Deus e da Santíssima trindade. Um padenosso, uma vemaria. Banho de cheiro, ariaxé, bote nele arruda, bote marvarrosa, mangiricão, vassourinha, bote alecrim, toque fogo na páia, faça incenso, defume bastante, pronto. Dor de cabeça, o seguinte: São Fravião pregunta a São Lorião ─ aonde vais, Lorião? Ao que le responde Lorião ─ vou ao rio do Jordão, por onde andou São João, buscar água da bem fria pra curar dor de cabeça, anxaqueca e nervagia, com os poderes de Deus e da Vilge Maria. Borrifa água fria, três pade-nossos, três avesmarias. Pontada, se pegue com São José. Mordida de cobra, São Domingos, também negócios com cachorros. Porrada na cabeça, Santo Esteves. Bostas presas, urinas presas, São Tolentino, bem como assim mulher ou besta entalada de parto. Impossives, Santa Rita; viajando, São Cristovo; pedrada, São Pulinaro; esfolamento, São Bartolomeu; creca e pereba, São Lazo; frechada e chuchada, São Bastião; tocando musga, Santa Cicilha; perdido no mar, São Quelemente; pescando de rede, São Pedro; pescando de vara, São Zenão; corte de foice, São Simão; curtindo couro, São Crispim e São Crispiniano; ferida pustemada, Santa Catarina; caçando, São Jorge; criando filho, São Gonzaga; coisa roubada, Santo Antonho; cabeça oca, Santo Inaço; sangue escorrendo, São Pintalião; doido lunátio, São Herme; dando tiro de canhão ou alcabuz, Santa Barbra, bem como assim no trovão e em todo estrondo; dor nos ovos, São Nereu, bem como assim criando galo capão; fazendo graça, São Filipe; mal do peito, São Cassemiro! Quando nenhum santo quiser acudir, chame São Juda Tadeu! São Tuda Tadeu, não sabe, não é o Juda judeus, é o outro, porém se pensa que é o mesmo e então ele fica todo sastifeito quando se chama ele e nunca deixa de vim, lembre isso. O ensalmo da azia é com Santa Iria, repetindo três vez: Santa Iria tem três filha, uma fia, outra cose, outra cura o mal de azia. Bicheira de boi, reze pelas cinco chagas de Nosso Senhor, começando: mal que comeis a Deus não louvais! E nesta bicheira não mais comerais! Asma, moa buzo peguari, ou senão cavalinho-do-mar torrado bem moidinho, tome com água, passa tosse e pio do peito! Samambaia do brejo, cravo-da-índia e mel de abeia, bom, bom, bom! Garrafada e emprasto de erva-santa! Arueira! Mulungu! Pau de leite! Leve aguiri debaixo do subaco quando for à luta, aperpare bem aperpárado! Reze reza ê-tutu! Se cubra, não aceite polseira nem cordão de prenda, nem nada que amarre, não deixe ninguém passar a mão na vossa cabeça, tou avisano, laralá-lerelé! Cê que se vire de costa pra janela e guinorando a porta, cê que aceite qualquer de comer, cê que vá confiando, cê que vá contando o seu particular, cê que vai ver o que cê vai ser, he-he-he, ai meu Deus, nem sei... Coidjado com sapo-eururu, hum-hum! Num impreste sal na sexta, não batize, não corte nem unha nem cabelo na sexta. Primeira segunda-feira do mês de agosto, nada de pescar, nada de ir na fonte! Nada de contar os peixes que se vai pescando, os siris que se vai botando no cofo, nem os mariscos que se vai catando! Casando no dia de Santana, a mulé morre de parto! Desafastano do ferro e do metá, na hora que a trovoada vai roncá! Matar aranha atrasa, guardar aranha enrica. Para fazer nacher depressa, queime arueira, defume bem, reze o seguinte: vai fumacha para que meu filho nacha. Não molar faca na Sexta Santa! Mulé que toca sino não pare mais! Pestenção em Dona Catiti, lua nova, pestenção! Dona Catiti em mês de outubro, que acontece? Trovejou! Se nos nove continua, é chovida toda lua! Vento norte até meidia, temporá no outro dia! Mostre o cu do filho logo que puder a Dona Catiti! Peça dinheiro a Dona Catiti! Lua nova, he-he. Porém só plante na lua cheia."

─ Muita gente vai ganhar furria, gangana véia?



─ "Furria só se for que nem a minha, que fui furriada de promessa e as pernas já não andava, depois de criar no peito quase que toda a família, do bisavô no bisneto, na Armação e no Engenho. Boa furria essa, me deram quatro patacas e me botaram aqui debaixo da páia e inda quase que não fazem o favor de deixar os meninos vir aqui trabalhar no domingo para fazer as paredes. E, se eu não soubesse fazer minha renda de birro e não tivesse ajutório, que fome passasse, que eu não como só de domingo ni domingo, quando chega o povo aqui. Antigamente, eles musturavam veneno amargoso e borra preta no azeite da lamparina para os pretos não lamber. Porém fome não passei, sempre se pega qualquer coisa nos matos ou no mangue e me acostumei de comer resto, gosto mais de resto do que tudo, verdade sincera. 0 bissínio, quando chegou, chegou com muito alardeio no meio de uns outros, ele sendo o mais alto. Não teve jeito com ele, marraram logo de corda no primeiro dia, ele roeu as cordas, fugiu para os matos, acho que recebeu o caboco Capiroba ─ rrreis! ─, então, num sá, fez quilombo, num sá? Rastou gente, rastou mulher, fez quilombão. Vieram a gente de armas, caçaram ele. Ele porém não quis ser caçado e, quando viu que ia ser cercado, invadiu aqui, passou horas e horas lutando, só morreu porque os cachorros comeu. Conheci ele, comprado por vinte e cinco mil-réis numa viagem, se achava melhor do que o branco, era doido do juizo, variado, variado. Disse que, se dessem furria a ele, não aceitava furria, ele que ia dar furria ao senhor, maluco da idéia compreto, destabocado mesmo. Nozinho Pirilo Ambrósio vai dar furria quando for senhor? Mais fácil o peixe aramaçã falar de novo com Nossa Senhora. Eu mesmo criei ele, eu mesmo tenho medo dele, e lá também toda gente tem medo dele, que possui o mau esprito. Agora, uma coisa: se hoje tem comida, manhã não vai ter, vai acabar tudo, tudo, he-he-he! Meu pai não tinha mais força na baleeira, botaram ele para carregar barrica de bosta. Barrica pingava bosta pelos lados, vez por outra rebentava, cobria ele de bosta. Porém não foi do peso que ele morreu, que de fato era pesado e ele era velho e todo cortado da luta com a baleia, foi da vergonha. Os negros continua carregando bosta, mas muitos não morre, he-he-he. E é com furria e é sem furria, hi-hi! Bissfnio doidjo chamava Darissa, conheci. Caboco Capiroba ─ rreis! ─ comia muito landês, era um, era dois, era três, verde, maduro e de vez, he-he-he-hel Vosmecês, quem daí come landês? Mentira sua, tem muito landês aí, nunca que vai acabar a espece deles. Quero mecês muitos dos bonitinhos, feitadinhos, cheirosinhos. Na hora de chorar, chorar. Pelo seguinte, que as lágrimas é como mijo urina, suól ou bosta ─ é coisas que o corpo tem que se livrar, me compreenderam uma coisa? Mas não esquecer de nada, prochantá, prochantan, prochotá, ui, ai, segura cabeça, hum, prochantan, prochantan, rrreeeeis! Nunsquecer de nada, me compreenda uma coisa, he-he! A mariposa Curuquerê chegou na testa do padre, chega na testa de muita gente, tenção! Cigano falou!"

─ Cigano falou bonito, gangana?

─ Falou, porém não se percebe tudo, é fala pior do que de cabocos de fora ou de muito antigamente, quem quiser que comprenda: preches, leches, inongogreches, cacheches e Ia Santa Quisici6n, el granofício de Ia mu-crte e Ia santidá de Ia desgrácia. E disse mais que coidjado com quem ensina a certeza, foi o que ele disse, antes de ter a ordenação para todos que quem falasse com cigano ia para a forca e de ter a corrida que correram com quase eles todos daqui pra fora, esse porém, por muito falar, sendo matado e queimado. Se eles soubesse que eu tinha tanto escutado ele muito bem escutado, eles tinha cortado minha língua, quiçás despejado azeite quente no zuvido, tinha sim, he-he-he. Não cortaram, muntcho bem, porém eu conversei com esse cigano e não fiquei nem mais nem menas hereja, foi mais uma coisa nessa vida que eu aprendi sem aprender mesmo. O cigano disse: ouve lá, mucama, morra o Reis de Espanha, que o inferno é certo e o céu né perto; eu não peço nada, a vida é roubada, quem pede e não toma nunca chega a Roma; vai faltar comida, vai faltar a vida, só não vai faltar é pra quem tomar. E preches, leches, mongogreches, isso levando dias e dias, quem avisa amigo é, se bem não entendo muitas coisas. O destino é o seguinte: não tem jeito. E, se tiver, é porque foi o destino, tem muitos que o destino é se queixar do destino, vão rindo aí mecês. Opa! Quessassim? Minino, veje! Pescou sarnambiquara muita, que está me dizendo? Pescadinha amarela, coisa boa. Agúia nuitona, isso coisa de Turíbio Cafubá, não me crê? Essa menina. acho que já vou indo. Rrrrreis!"

─ Vai amuntada, gangana véia?

─ "Sentadinha. Vamo ver se sai umas boas incelenças, vamos ver Víssantíssima, que canaviá! Chegou carregamento de cana deAngola, muita, muita, de navio, negraiada ia plantar tudo, só vendo. E planta cana, corta cana, mói a cana e se rela todo nas canas, se corta todo, se enfarpa todo, hi-hi! E todo dia chegando mais preto cativo e moça soreana para casar, que o reis mandava sob comando, cada lindo reis que tem, cada qual mais importante. Premeiro morreu Dão João, cravejado de prata e pedraria, comendo queijo de ouro em pó e se refastelando na riqueza e do povo todo sentindo muito dó. Depois desse reis Dão João, se seguiu o reis Zuzé, havendo em toda a nação uma grande alteração, porém cá não havendo nada, ou pra não dizer que nada, havendo cana e mulé sorcana. Assim não é que adispois o que vem é a rainha, a qual chamada de Dona Maria trouxe pra todos grande alegria e aqui mandava grandes caravanas pra buscar cana e trazer moça soreana, e cada reis e rainha que vai nachendo é uma grande esperança de quem veve padecendo, he-he-he-he, Caboco Capiroba ─ rrreis! Come reis, caboquinho, hum, come rainha? Hum, cruz, nojeira, ti-ti-ti, ti-ti-ti!"

─ Vortou ele aí, gangana, vê-se?

─ "Xente, ques pergunta! Bigorrio, reis, bigorreis, todo reis é bigorrio? Assunte, quer ver, fique esperando aí, assuntando bem: esse outro Dão João de agora, que estava num reino e agora foi para outro, não foi mês passado? Não foi, caje-caje? Então, mês passado ele foi embora dum reino para outro reino e agora eu estou aqui morrendo de desgosto - he-he-he-he! ha-ha-ha! ho-ho-ho! ai-ai! Me deixe, esse menino, estou vendo aqui é os reis, cada reis... Tudo cobertinho de ouro, cobertinho, cobertinho, he-he! Ora, ora, vai-te... Tá certo, tá certo ... É o reis que dá! Boa vida ao pobre! Quem me deu foi ele! A páia que me cobre! Ha-ha-ha-ha! Ui!"

─ Foi dorzinha aí, ganganinha?

─ "Nadinha. Poquente não, esse daí, agora perdi meu reisado por sua causa. Passou, tenho preguiça de mandar buscar de volta. Tocosi as vespras? Eu só quero ir no toque das vespras, como cheguei. Muntcho bem, tudo certo? Tenção no filho da minha neta mais menina, olhe o sangue! Vou, mas fico um pouco em Amoreira! Não deixem matar Nozinho Pirilo Ambrósio. Esqueceu nada não, Nezinha, ói lá! Apois, esqueça nada, hum? Consertou a calha, pagou o peixe de Crispim Ladrão? An-bem, eu apareço. Esqueceu nada não, Nezinha, veje bem! Tão com essa cara, quere saber mais alguma coisa? Que quantas presepadas!"



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