Viva o povo brasileiro



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Encontro10.10.2018
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─ Dentro em pouco já lá estaremos ─ disse finalmente. ─ já se acomodam as senhoras na barca, logo vem de volta à praia o escaler.

─ Sim, sim, vejo que sim ─ retrucou o cônego.

Bateu a cabeça de novo, lembrando um frango a examinar à distância algo ciscado inesperadamente. O chapéu, preto e lustroso, de abas larguíssimas e ornado de borlas felpudas, agitou-se como se fosse levantar vôo, mas estava preso embaixo do queixo por uma trança de couro preto terminada em engastes dourados. O cônego ajeitou o chapéu com gravidade e a expressão de quem considerava aquilo uma tarefa complexa. Atarrachou-o na cabeça, apertou o passemanes no queixo, verificou o nó com o polegar, espanou as abas de volta a seus contornos de cogumelo e, depois de passar um instante com o olhar vazio de quem se concentra para constatar se está tudo em ordem, mirou Perilo Ambrósio como a esperar aprovação ou admiração. Descia uma viração fresca, o movimento das cinco horas da manhã já ficava intenso, saveiros e canoas encostavam cheios de peixes e frutas, uma multidão pequena se apinhava junto aos outros dignitários, embaixo das mangueiras distantes da praia. Queriam ver a barca a vapor, pois esta era diferente da primeira que atravessara a baía, havia muitos anos. Era menor, não era tanto quanto a primeira uma aparição do outro mundo, mas, agora que suas pás em roda refletiam o sol saindo de trás das nuvens, sua comprida chaminé encimada por uma coroa de ferro soltava tufos de fumaça parda e seus flancos, em esguichos sibilantes, bufavam turbilhões de vapor e gotas d'água que a luz fazia rebrilhar dando aela uma moldura irisada, ninguém pôde conter a admiração. Ainda mais que, para levar sua esposa, a Baronesa Dona Antônia Vitória, sua comitiva e seus convidados à festa de Santo Antônio, o Barão de Pirapuama, ali de pé com simplicidade em companhia de Sua Reverendíssima, supervisando as providências, havia fretado a barca à custa de generosa despesa e muitos esforços ─ não era coisa para todo dia e para o alcance de qualquer um. E o povo também queria ver os conselheiros, os lentes de gramática latina, o juiz de órfãos e outros que lá se encontravam debaixo do pálio ornamentado com um brasão, que o Barão fizera seus negros trazer de casa para desdobrar sobre as cabeças dos hóspedes, enquanto eles aguardassem o embarque.

O cônego virou-se na direção das mangueiras, apontou para o grupo com a mão aberta.

─ Não será de bom alvitre dizer-lhes que se aprestem? falou com alguma impaciência, repetindo o gesto de cabeça que já começava a enervar Perilo Ambrósio. ─ Ainda temos mais uma viagem de escaler além daquela que nos transportar, pois há tantas bagagens e arcas e baús para que esses negros as levem a bordo que receio chegar-nos este temporal que nos ameaça antes de conseguirmos livrar a barra. Se não importuno o Senhor Barão, é claro, não desejo absolutamente ser importuno.

─ Vossa Reverendíssima não importuna, nem pode importunar. Vou tratar de chamá-los, naturalmente, mas apenas peço vênia para dizer a Vossa Reverendíssima que não existe motivo para temer que nos venha um temporal e, como vê, já baixam estes alísios aqui vulgares nesta época, sai o sol, não faz medo este tipo de mar que temos e tampouco vamos precisar livrar a barra, como pensa Vossa Reverendíssima. Vamos a costear a ilha, bem dentro deste golfo cujos contornos vê Vossa Reverendíssima, em mar muito protegido. E nem mesmo necessitaremos ceder aos caprichos do vento, que por vezes nos obriga a andar à banda, a cambar, como se diz cá, isto porque a barca vence a distância pela força das máquinas e caldeiras.

O cônego fez novo bico, deu a impressão de que não pararia de bater a cabeça até que o pescoço estalasse.

─ Sim, sei-o perfeitamente ─ falou. ─ Mas, se me perdoa a franqueza, talvez mesmo a rudeza com que digo isto ao Senhor Barão, esta é bem a razão por que pareço açodado. É que essas máquinas a vapor... Sabe que explodem, não sabe, que lhes estouram as caldeiras e reduzem tudo em volta a estilhaços e farrapos com tremenda força, não sabe o Senhor Barão? Imagino que, se encontramos correntes contrárias, as quais lhe forcem os mecanismos e engenhos de propulsão, em boa nos haveremos de meter.

─ Aii, mas não conhece Vossa Reverendíssima os aperfeiçoamentos que esta máquina moderníssima já apresenta, talvez não seja como as que há visto Vossa Reverendíssima.

─ Hei visto de todas as feições e todas as concepções ─ disse o cônego, com desdém mal disfarçado. Assumiu uma postura professoral, articulando as palavras quase sílaba por sílaba e pontuando a fala com o polegar e o indicador da mão direita fechados em círculo. ─ Existem desses engenhos em Inglaterra e em França, em toda a Europa, a bem dizer. Portanto, conheço-os muito de perto, visto que, mesmo antes de ter Sua Santidade agraciado este servidor com a conezia que procuro humildemente honrar, já me concedera a Providência a dita de percorrer não só esses Estados e reinos como muitos outros. E em verdade digo-vos, Senhor Barão, mesmo nessas civilizações avançadas, onde o espírito do homem não é pervertido por urna natureza luxuriosa e corrutora, onde a mestiçagem não estiola o sangue e o temperamento, onde, enfim, é possível existir o que aqui jamais será, ou seja, uma cultura e vida dignas de homens superiores, mesmo nessas nações estas máquinas não deixam de oferecer perigo. Estou certo de que a marinhagem de vossa embarcação é mesmo de primeira ordem e que seremos conduzidos com todos os escrúpulos, mas há de convir que melhor seria assegurarmo-nos de zarpar com o bom tempo que faz do que nos arriscarmos a enfrentar qualquer borrasca, com tantos pretos a equipar o barco.

Perilo Ambrósio pensou em responder qualquer coisa, chegou a abrir a boca, mas logo concluiu que não valia a pena e deu com a mão para um preto jovem a poucos metros de distância.

Que fosse lá aos senhores conselheiros e demais figuras gradas e, depois de pedir licença sem gritar ou falar alto, desse o recado de que se chegassem à praia, pois deviam embarcar sem demora.

O cônego rodopiou como quem caricatura uma meia-volta militar e acompanhou o negro com o olhar.

─ O elemento servil é indispensável para que se mantenha o país e a sociedade ─ comentou, cruzando as mãos às costas. ─ Nisto concordo, sem ele os custos tornar-se-iam proibitivos e não se poderia aspirar a transformar esta nação no celeiro do mundo civilizado e no fornecedor de algumas das principais riquezas de que depende a civilização. Mas há limites para o que se pode suportar da convivência com essas criaturas simiescas e obtusas, que estão neste mundo para que louvemos a Deus pelo nosso destino de homens normais e para que ponhamos à prova nossa caridade.

─ Sim, a mim também me causam espécie os negros. Tenho-os em quantidade porque o serviço do engenho, das fazendas e da armação requer muitos braços. Mas são tantos os cuidados que me dão, tantas as despesas e desgostos, que às vezes pergunto-me se não estava melhor sem eles.

─ Não, não estava. Mas que lá é duro ter de aturá-los, lá isto sei que é, é o preço que pagamos sobre tudo mais o que suportamos neste vale de lágrimas, temos pois que tornar este fardo pesado tão ameno quanto possível. Dives placet ubique, pauper ubique jacet, já diziam os antigos, não? Eis que vêm de lá, finalmente. Mas que cortejo formidando, não há guarda para conter aquela malta que os cerca corno sabujos às raposas?

Depois de um bailado louco à beira d'água, o escaler trapejando, os negros como formigas tontas, fardos, remos, baús, trouxas, exclamações, risadas e confusão em toda parte, D. Araújo Marques se recusou a embarcar como todos os outros, nos braços de um escravo para não molhar os pés, e assim tiveram que sentá-lo numa cadeira tomada emprestada à casa da paróquia e carregá-lo para dentro do escaler como um santo no andor.

a bordo do vapor, Perilo Ambrósio notou com satisfação que as mulheres estavam acomodadas no tombadilho à popa, sentadas em suas poltronas de vime e fazendo as negrinhas correrem para lá e para cá, ocupando-se de tarefas inúteis. Muito bem, assim é que deve ser, que lá fiquem, que lá ninguém as irá incomodar, nem cá venham elas incomodar. Logo que chegara ao tombadilho, esfalfado apesar de todas as mãos que o ajudaram escadote acima, percebeu que o comandante, cuja voz de entonações esquisitas e anasaladas reconheceria a qualquer distância, acomodava cerimoniosamente o cônego e os outros convidados, ajudado por Amleto Ferreira, o guarda-livros. Perilo Ambrósio, como sempre acontecia diante de visitas importantes, não gostava muito de que se patenteasse, embora fosse inevitável, sua dependência em relação àquele mulato sarará, magro e um pouco melhor falante do que seria conveniente, que agora fazia um rapapé ao cônego e se retirava, quase andando de costas. Espero que o comandante não venha declamar seus discursos e exposições, desejou Perilo Ambrósio.

Na popa, os três enteados, Vasco Miguel, Florbela Maria e Felicidade Maria, jogavam sortes com as negras, Antônia Vitória fazia exortações de conteúdo moral e exemplar a todos, Teolina, mulher de Amleto, vigiava as crianças que brincavam com as negras.

Ele marchou pesadamente para a cadeira junto ao cônego e ao juiz de órfãos, segurando-se em tudo porque tinha medo de escorregar com a leve oscilação da barca, e sentou-se com um suspiro.

Eis finalmente a alegre navegação, as rodas se movendo a princípio tão devagar que mal se notavam, ouvindo-se somente o barulho da casa de máquinas, as sinetas do comando e os gritos dos negros maquinistas e foguistas. Mas em seguida ficaram um pouco menos lentas, logo apressadas como patas de marrecos espadanando água, um apito rouco enxotou as gaivotas da manta de peixes que perseguiam ao largo, a proa apontou para os costados da ilha, subindo e descendo com suavidade.

D. Araújo Marques bateu a cabeça duas ou três vezes, aparentou sorrir.

─ Navega bem ─ disse. ─ Creio que as caldeiras vão ajustadas a apuro. Apesar da umidade permanente das atmosferas desta região, é forçoso admitir que o calor facilita a introdução do elemento flogístico na lenha a queimar.

Com duas palmas entusiasmadas e um riso talvez alto demais, Amleto Ferreira aplaudiu o cônego.

─ Amleto Ferreira, meu guarda-livros ─ interferiu Perilo Ambrósio apressadamente. ─ Pessoa muito querida da casa, meu braço direito.

O cônego pareceu não ouvi-lo. Sua cabeça agora, em lugar de bater para baixo, subia por estágios, em pequenos pulinhos que finalmente lhe inclinaram agudamente a linha do olhar em relação ao pescoço muito ereto e davam a impressão de que, mesmo sendo baixo, ele tratava com todos por cima.

─ Achou facécia no que eu disse? ─ perguntou, apontando o nariz para o lado e as pupilas para o guarda-livros.

─ Sim, pois. Tem Vossa Reverendíssima muito espírito, sim. Sim, pois, não perceberam todos?

A cabeça do cônego, agora tornada menor pela ausência do chapéu, imobilizou-se.

─ Perceberam que coisa, se me faz favor?

─ Perceberam que Vossa Reverendíssima lançava uni chiste, procurava fazer ironia com a perícia dos maquinistas.

─ Não fiz ironia alguma.

─ Ali, sim, permita-me Vossa Reverendíssima, não foi uma ronia, quando referiu-se ao flogístico?

─ Naturalmente que não. Disse uma coisa perfeitamente sensata, que qualquer parvo sabe, e esta coisa é que o flogístico se impregna nos materiais combustíveis com mais facilidade quando a atmosfera é morna como esta.

─ Ah, desculpe-me então Vossa Reverendíssima. Pensava eu ue, referindo-se ao flogístico... Perdão, Excelência, um erro de julgamento.

─ Mas que coisa pensava?

─ Não, não pensava nada, compreendi mal.

─ Que coisa pensava? Anda, homem, perdeste a língua?

O cônego, começando a silabar as palavras da mesma maneira que antes na praia, olhou em torno, mãos erguidas para cima à altura dos ombros, como nas estampas do Sagrado Coração.

─ O flogístico, sim, explica-me o flogístico ─ entoou. ─ Com certeza pensavas que eu inventava palavras, que fazia uma pequeria chacota. Mas não, meu caro, não inventei esta palavra. O Senhor Barão mesmo a conhece, conhecem-na todos os que freqüentaram as boas escolas e liceus.

─ Também eu a conheço, Excelência.

─ Chame-me de monsenhor, prefiro. É uma adaptação razoável do termo francês monseigneur e, afinal, é um título preferível a excelência, pois não o concede Sua Santidade, o Sumo Pontífice, a qualquer um. Disse-me isto mesmo pessoalmente Sua Santidade, em uma das nossas muitas audiências em Roma. Excelência são todos, até mesmo Vossa Excelência...

Falou continuando a olhar em redor, marcando pausas, fixando às vezes o rosto de um circunstante, às vezes cerrando as pálpebras e se deleitando com as próprias palavras. Ao dizer a última frase, encostou e separou as pontas dos dedos estendidos, cacarejou um riso cujo eco imediatamente comandou dos presentes com o olhar e foi obedecido. Amleto, pálido como um ex-voto, empertigou-se sentado à beira do banco.

─ Mas, sim ─ continuou o cônego. ─ Eu mesmo desvio o assunto. Estava Vossa Excelência a dizer que conhece o que vem a ser o elemento flogístico e, não obstante, julgava galhofeira uma observação perfeitamente comezinha a respeito dele. Portanto, cetera desiderantur. Há que esclarecer algo neste fenômeno singular quanto antes. Periculum in mora, ha-ha! Anda, pois, deslinda-nos o mistério.

─ Pensava eu que Vossa Reverendíssima, Monsenhor, ao mencionar o elemento flogístico, queria referir-se chistosamente a um conceito que, segundo posso apurar das poucas fontes de leitura e informação que estão a meu alcance, já é tido como da filosofia natural antiga, sabendo-se que hoje a moderna ciência dos corpos inanimados tem o fogo na conta do resultado da combustão de gases, tanto assim que...

─ Como disseste que te chamas?

─ Amleto Ferreira, para servir ao Monsenhor.

─ É nome cristão? Amleto, nunca ouvi.

─ Tem origem numa lenda inglesa, segundo sei, num poema ou tragédia inglesa.

─ Numa tragédia inglesa, num poema? Temos aqui coisa, então, temos coisa! A Inglaterra é excessivamente benévola para com os poetas e as artes frívolas. Se também tivesse músicos, estaria perdida. Então teus pais são leitores de livros profanos ingleses, é assim? Que livros são esses?

─ Não sei bem, Monsenhor, o meu pai é inglês.

─ O teu pai é inglês? Mas temos coisa, temos mesmo coisa! Mas és pardo, não és? Não mais vigoram as ordenações que vedavam aos pardos as funções públicas, podes falar sem susto, que, depois de bem servires ao Senhor Barão, poderá arrumar-te ele um bom cargo de meirinho ou, quem sabe, almocreve da freguesia, para que passes a velhice à farta e sem nada fazer, ha-ha! E onde está esse teu pai inglês, que faz ele?

─ Vive na Inglaterra, não temos notícias há muitos anos.

─ Na companhia da senhora tua mãe, naturalmente. Diz-me lá.

─ Não, Monsenhor, minha mãe vive cá na Bahia, com a graça de Deus, e é professora das primeiras letras.

─ Sem dúvida. É liberta. Pois. E o senhor teu pai inglês?

─ Era embarcado, aportou à Bahia embarcado.

─ Corsário? E não o enforcaram os soldados de EI-rei? Ha-ha!

─ Não, Monsenhor, era embarcado num vaso mercante.

─ E criou-te alguma Ordem Terceira de pardos? Hão de ter-te criado bem, já se vê que és versado e no falar não cometes solecismos abusivos, como os que aqui tanto se escutam. Saberá contas bem, igualmente, do contrário não estarias como guarda-livros do Senhor Barão.

─ Criou-me a minha mãe, com a ajuda de Deus. Há aulas públicas na cidade onde nasci, pude estudar ...

─ Sim, bem vejo. Bem vejo que tens algo no bestunto e a esperteza natural dos mestiços, que pode ser-te muito útil, de muita valia na vida. Isto se conseguires vencer esta tua tola arrogância, comum em quem subiu da lama, mas, sem embargo, prejudicial o suficiente para que te metas em assuntos de que não entendes.

─ Mas, Monsenhor, dizia eu ...

─ Caluda! lá tive paciência em demasia contigo e agora não faço mais chistes como estive a fazer, falo sério. Mostro-te a verdade à maneira socrática. Sei que não entendes de filosofia e, se ouves falar em Sócrates, imaginas que falam de algum outro inglês que haja visitado a casa de tua mãe. Mas não tem importância, faço-te um par de perguntas e já te demonstro a falsidade de tuas razões pueris. Senhor guarda-livros ... Como é mesmo o tal apelido anglicano?

─ Amleto, Amleto Ferreira.

─ Curioso apelido para um brasileiro, curioso nome para um inglês, devo lembrar isto para contar na corte em França, terá lá seu gozo. Pois muito bem, Senhor Amulete. Pergunto-lhe, e por favor responda com tão poucas palavras quanto lhe seja possível: e por que não se opera esta famosa combustão de gases, se não chegam lume à lenha ou se não lhe dão com as faíscas de um isqueiro?

─ Falta o impulso inicial da combustão, a reação...

─ Que impulso é esse?

─ O impulso dado pela chama já em combustão.

─ E que contém essa chama?

─ Material combustível e gases em combustão.

─ Muito bem, para essa chama arder foi necessário que lhe encostassem outra que a acendesse e outra que acendesse esta e outra que acendesse est'outra e assim ad infinitum. E a primeira de todas as chamas, como teria sido feita?

─ Por vários métodos, imagino.

─ Encostando-lhe uma chama ou outra espécie de lume qualquer? Como, se não havia chama, se pergunto sobre a primeira, a primeira das primeiras?

Abriu os braços já de pé, rodou vagarosamente, encarando a cada ponto um setor da platéia silenciosa, alguns concordando gravemente com as cabeças e cochichando a respeito da petulância do sarará, em querer levantar-se à altura da sabedoria imensa que, com seus vestidos e mantos pretos, agora quase pairava sobre eles.

─ Como, se não havia chama, se pergunto pela primeira, a primeira entre as primeiras? ─ repetiu o cônego.

Amleto Ferreira, sentado na mesma posição, engoliu em seco. Sentia-se tonto, tinha certeza de que as palavras não sairiam mais da garganta, não sabia para onde olhar, mas ainda quis falar. Não passou, contudo, de uma sílaba, porque já a assembléia murmurava em êxtase a respeito do triunfo de D. Araújo Marques e já ele dava a estocada final.

─ Querem os naturalistas ímpios ─ disse muito alto ─ fazer revogar a existência do elemento flogístico, como querem revogar a própria existência divina, é uma analogia inevitável para eles. Mas não, senhor guarda-livros, a mera lógica, sem o recurso à fé, desmoraliza-os. A mera lógica...

Agora mais próximos da costa da ilha, podiam ver algumas praias, casinholas, plantações, longas e recurvas cercas de ossos de baleia, uma ou outra canoa encalhadas na maré baixa. O dia não estava bonito, mas o mormaço quase se fora, o sol enfrentava apenas umas poucas nuvens transparentes, a popa abria uma onda contínua, que prosseguia até perder-se de vista.

Um cardume de peixes-voadores pulou fora d'água como pedrinhas cintilantes, os meninos gritaram. Perilo Ambrósio levantou-se, pegou o braço do cônego, foram até a amurada.

─ Na verdade ─ disse Perilo Ambrósio com a mão estendida para fora ─, estas terras cá já são das minhas, embora aqui só as ocupe com cana-de-açúcar, como pode divisar daqui, pois aquelas manchas mais claras são das espigas de cana. Na Armação do Bom Jesus, em Amoreiras, aonde estamos indo, possuo mais ou menos três mil, três mil e poucas braças de costa a contracosta e uma testada, segundo creio, de mais de meia légua. Temos lá um estabelecimento importante, porém modesto. Procuramos cercar-nos de algum conforto, embora sem excessos, como verá Vossa Reverendíssima, mesmo porque as baleias não nos têm rendido boas safras nos últimos anos, julgo eu que por força de más lunações. No ano passado, não capturamos mais que quarenta ou cinqüenta madrijos e uns poucos baleotes. Os impostos e as contribuições, entretanto, continuam pesadíssimos, exigem-se sacrifícios sobre sacrifícios.

─ Quantas barricas de óleo extraem-se de uma baleia? ─ perguntou o cônego, a opulência desenrolada diante dele fazendo-o pestanejar repetidamente.

─ Bem ─ respondeu Perilo Ambrósio ─, isto vai por conta do tamanho que tenham. Mas, de modo geral, uns trinta ou quarenta tonéis e mais carne barata, que se moqueia e se vende a quaisquer dez réis o arrátel, umas vintenas de toneladas de carne, muita dela imprestável a não ser para os negros. E em tudo isto temos os trabalhos e despesas que nos trazem os negros, as baleeiras e os armazéns de indústria, que estão sempre a precisar de reparos, pois que são tão torpes essas criaturas africanas que tratam das coisas do trabalho como se pertencessem a inimigos seus e não a seus próprios amos, que lhes dão sustento. Não sei se perfilhará Vossa Reverendíssima minha opinião, mas acredito que, a prosseguir a fraquíssima autoridade e o nenhum rigor com que hoje em dia se trata o elemento servil, a continuarem os cruzamentos entre pretos das piores cabildas de onde os arrebanham mercadores sem escrúpulos, e nos dias que correm o são quase todos, já não sei o que será da riqueza e da produção mercantil do país.

─ Não somente perfilho tal opinião, mas aprofundo-a o instituto da escravidão, que do sublime Estagirita já houvera merecido a mais sábia, judiciosa, perspicaz e irrebatível defesa, pois que se arraiga na natural diferença de índole e propensão entre as raças e povos, não é, não foi, não pode ser, jamais será estrangeiro à Igreja! Sê-lo-á, antes, este conceito pervertido da servitude que hoje se vê praticado por cultores de um falso, perigoso e principalmente herético humanismo. Tanto assim é que não há um só livre-pensador que se não ponha ao lado do saduceísmo que claramente constitui a teia de tais razões. Tenho grande medo de tudo isto, Senhor Barão. 0 tempora! Spes et fortuna, valete! A decadência da autoridade pública, a flacidez do espírito de honra e de decência, o pactuar com a insolência das classes servis, o abandono dos mais elementares princípios da hierarquia social, a confusão de valores e critérios, até mesmo a falta de uma verdadeira guerra, que eduque a grande massa do povo e lhe tempere a fibra, tudo isto, estimado Barão, é-me causa de grande receio e pena por terra com esta, que, em mãos firmes e cônscias das verdades fundamentais, muito teria a dar à civilização européia que aqui os bons mourejam por plantar e os maus por deitar abaixo. Abyssus abyssum invocat, Senhor Barão, não sei verdadeiramente onde vamos parar.

O sudeste bateu mais forte, o chapéu do cônego afiou as abas como um grande morcego. E ele, os olhos muito abertos e os cotovelos no balaústre, continuou a discursar com veemência, enquanto a barca, mexendo suas rodas em compassos diferentes, aprumava para Amoreiras.
Porto Santo da Ilha, 10 de junho de 1821.
Primeiramente, Dadinha falou em pormenores sobre como o dia estava fresco, devendo ter sido a mesma coisa havia exatamente cem anos, quando ela nascera. Não sabia se também tinha sido um domingo, não lhe disseram ou, se lhe disseram, esquecera. Abanou a mão junto à orelha direita, como fazia sempre que se aborrecia por haver esquecido alguma coisa. Finalmente, afirmou que sem dúvida tinha sido um domingo, não só porque ouvira falar que, de cem em cem anos, todas as datas caem certo com os dias da semana, mas também porque a mãe dela, cujo nome nunca lhe revelaram, tinha contado a alguém que fazia muito fresco naquele dia em que ela nascera. Como os domingos são sempre mais frescos, explicou, deve ter sido mesmo um domingo, bem na hora do toque das vésperas. Divergiram dela, opinaram que o domingo era tão quente ou fresco quanto qualquer outro dia, apenas não se trabalhava muito, então o corpo não esquentava tanto. Apois, respondeu ela, apois não é a mesma coisa? Assim fresquinho, a viração entrando pela janela e panejando as fraldas da bata de madrasto que lhe descia do pescoço como os flancos de uma pirâmide. Fazia tempo que não andava mais, pois para levantar-se tinha de arregimentar a ajuda de muitos e para permanecer de pé era necessário que a escorassem. Mas não parecia ter cem anos, não parecia ter idade nenhuma, remoçando e envelhecendo para lá e para cá várias vezes durante o dia, ou no decorrer de urna simples conversa. E era muito majestosa, sentada entre almofadas de retalhos coloridos, xales de madapolão desfiado, contas e conchas de todos os matizes no pescoço, o rosto roliço emoldurado por um torso azul-esverdeado, à sua volta o cheiro leve das folhas de pitanga que ela fazia macerar no chão. Ao contrário das pernas, os braços e as mãos se mexiam com agilidade, enfeitando-lhe a conversa entre meneios de ombros e jogos sinuosos de cotovelos.



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