Viva o povo brasileiro



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Se não indicasse a experiência que a guarda e engorda de gente era empresa de resultados duvidosos, teria de muito começado um pequeno criatório, no apicum cercado de mangue fechado onde agora residia praticamente todo o tempo. De qualquer sorte, na noite que começava a trazer uma escuridão retinta e o ar pegajoso antecedente às trovoadas, o caboco Capiroba, carregando oito braças de corda de piaçaba fina enroladas num ombro, uma coita de ferro tirada de um mateiro comido, uma rede de malha forte e o cacete de matar gente, contava agafanhar dois ou três holandeses vivos ou mais ou menos vivos, levá-los de volta e criá-los para corte algum tempo. Achava que estava ficando velho, só lhe nasciam filhas com todas as mulheres, a vida se tornava cada vez mais difícil e então queria passar uns dias descansando, sem o trabalho pesado da caça. Deu um suspiro fundo e começou a atravessar o baixio, tendo cuidado para não molhar a rede e a corda.

Pouco antes de a rede do caboco Capiroba lhes despencar sobre as cabeças como dezenas de cobras enroscadas e Nikolaas Eijkman tomar uma porretada na nuca que o deixaria torto pelo resto da existência, ele e seu companheiro Heike Zernike estavam conversando sobre religião. Haviam passado a tarde inteira debruçados à beira de um riozinho com um trinchete em punho, sem conseguir espetar nenhum dos quatro ou cinco peixes maiores que viram perto das capineiras das margens. Zemike, tendo medo dos trovões que pressentia e mais fome do que Eijkman, opinou ser inútil confiar na Providência. Não estavam eles ali, dois bons cristãos tementes a Deus e fiéis servidores de valorosos príncipes e capitães, abandonados pelos seus, padecendo fome, pavores e as próprias penas infernais, entre insetos da envergadura de pardais, bichos nunca testemunhados e plantas de folhas hostis? Ali, já sem esperança, sem armas, sem amigos, sem alimento, sem horizonte?

─ Maldita Companhia! ─ vociferou Zernike, enfiando o trinchete na terra fofa com violência. ─ Maldita Companhia, maldito Schkopp, comandante dos infernos, maldito Banckert, almirante de bosta, malditos todos eles e tudo o que representam e malditas mil vezes suas palavras e crenças mentirosas e tudo mais que nos trouxeram, em desgraças sobre desgraças! E esta noite já cai de repente, como de hábito mesmo neste verão pestilento e ao contrário, e já se vê que outra vez não comemos ─ como se antes, pensando bem, houvesse de fato comida nesta terra de peras venenosas e raízes malévolas e carnes que fazem cagar sangue, malditos, malditos, mais de mil vezes malditos sejam todos eles! E que, se não naufragarem a caminho do Paranambuco ou onde quer a que vão nesta costa amaldiçoada, naufraguem em qualquer outra parte e que este temporal que nos vem atormentar os alcance e não deixe juntas duas tábuas no madeirame daquela frota de víboras, esquadra de lacraias, malditos, malditos sejam por toda a Eternidade!

─ Melhor seria que não blasfemasses e não dissesses tais coisas dos nossos comandantes ─ respondeu Eijkman. ─ Afinal, ainda estamos a serviço de Schkopp e ainda somos flamengos. Pouco mudou, nesta semana em que estamos aqui perdidos.

─ Pouco mudou? Achas então que pouco mudou, quando só temos feito fugir dos bugres e desses espanhóis que nos querem matar decepando-nos as cabeças e atirando o resto aos cães, quando não vemos vivalma e morremos à míngua?

─ Não são espanhóis, são portugueses, parece-me que a maior parte é de portugueses agora.

─ Para mim são todos a mesma coisa, os mesmos porcos sanguinários. Como dizes tu que não mudou nada, se nós mesmos assistimos, escondidos no matagal e tremendo como enguias, à degola de Zeeman, de Willem Stoffels, do pobre Einthoven, que viveria em paz em qualquer lugar e sob qualquer senhor ou religião, Pieter Onnes, gentil camarada, coitado do infeliz...

─ Van der Waals...

─ Van der Waals! Um velhote fraco e quase sem forças nos braços e nas pernas, um homem de boa estirpe, um patriarca respeitado em todo o Randstadt, e eles ... e eles o puseram de joelhos e o decapitaram com aqueles facalhões horrendos e aquelas bisarmas do demônio! Beernaert, Beernaert eles trucidaram, trucidaram como tu viste, com a testa fendida ao meio, deixado junto à água para que os caranguejos o retalhassem! Tu dizes que nada mudou? Enlouqueceste, é isto, perdeste a razão debaixo deste sol inaceitável e comendo estas peras mortíferas, é isto.

─ Não, digo-te somente que quanto a nós pouco mudou. Continuamos flamengos, servindo à Companhia e engajados nesta expedição, é isto o que quero dizer.

─ Como engajados, se fomos abandonados aqui à nossa sorte. O Banckert zarpou com todos os seus navios? Engajados em quê, em guarnecer esta nesga do inferno para a Companhia?

─ Não fomos os únicos deixados aqui. Muitos outros estão aqui também, certamente virão reforços para combater a esquadra ibérica que despacham contra nós.

─ Sim, sim! Sim. Reforços? Bah! Reforços! Sim, outros foram deixados aqui, como Beernaert, que agora engorda os caranguejos, como o velho van der Waals, como Einthoven e todos os outros cujos pescoços os espanhóis cortaram ou esganaram do alto dessas árvores malignas e imundas.

─ Não, estou seguro de que vamos encontrar um contingente nosso, estou seguro.

─ Só se ele vier até nós, porque não há esperança de podermos sair desta posição, pois de um lado teremos em nosso encalço esses selvagens nus, agora piorados com as bruxarias que lhes ensinaram os jesuítas, e do outro encontraremos as patrulhas espanholas. . .

─ Portuguesas.

─ Espanholas ou portuguesas ou qualquer desses bárbaros cujos sacerdotes grelham as pessoas como patos de assar e despejam-lhes óleo fervente pelos ouvidos adentro, essa raça vil de pele engraxada e fala como a de cães e porcos!

─ Estás assim porque tens fome e não conseguiste arpoar o peixe com a tua sovela. Ouve o que te digo, come uma destas frutas a que chamas peras, elas te farão bem, são boas.

─ Ardem-me na bocal Queimam-me os beiços e as gengivas, crispam-me a língua e os dentes, dão-me cólicas, dão-me urinas cáusticas, maldito pedaço do inferno, mil vezes maldito! E não tentei fisgar o peixe com uma sovela, isto é um trinchete, um trinchete, ouviste bem? Um trinchete! Quem pensas que és para desfazeres de um instrumento que muito bem te serve, como serve a todos os que não calçam ferraduras em lugar de sapatos, melhor seria que não ostentasses esta tua arrogância de rico!

─ Vamos, vamos, não te disse que estás transtornado? Não é uma sovela, é um trinchete, pronto, não quis ofender-te.

─ Filho de remendão sou, sim, e herdei o ofício de meu pai. Não tinha um palácio em Leyden como teu pai, nem andava em coches de quatro hacanéias como tu, pois os moleiros como teu pai enriquecem da farinha que ninguém pode deixar de comprar e os remendões e sapateiros são gente humilde. Mas tanto um quanto outro estamos aqui em igualdade, igualmente parvos em haver posto fé em que aqui encontraríamos riquezas, fortunas, imensas searas, montanhas de ouro e especiarias, felicidade perpétua e paz de espírito, quando o que nos acontece é este buraco verdebile e fétido, povoado de selvagens repulsivos, lama, mosquitos, ratazanas e febres espantosas, esta terra onde tudo é uma ameaça e nunca se tem sossego da Natureza ou do homem. Teu palacete em Leyden de pouco te vale agora. Gostarias de estar em tua cama macia, com teu caldo quente de beterrabas e cebola, teu barrete e tua lamparina, mas estás aqui e, se queres sopa de peixe, tens de rezar para que o trinchete de um remendão consiga fazer a pesca.

─ Sim, caldo quente... . És casado?

─ Não.

─ Tampouco eu. Existe porém uma senhora ... Uma menina, melhor dizendo, quase menina. Conheces as casas à beira do rio, as casas altas? Pois bem, ela mora numa delas, onde há um braço estreito do rio e um pontão que leva à casa. Chama-se Geertge, via-a na festa da colheita, cheguei a conversar com seu pai.



─ E te engajaste para esquecê-la?

─ Não, não, claro que não. Engajei-me não sei por quê, não precisava. Talvez quisesse alguma coisa que não fosse dada por meu pai, talvez fosse o destino não sei. Lembrei Leyden, não lembreiGeertge, lembrei das beterrabas. Foste tu quem me fizeste lembrar. Comias pastelão de miúdos de carneiro? Lembras-te dos fogões altos de onde saíam os pastelões, cheirando a ervas nobres e a boa massa de farinha honesta?

─ Não me fales, torturas-me. Que espécie de peixes há cá? Não pode haver bons peixes em águas tão quentes, nada aqui é apropriado, nada daqui pode ser vivido aqui. Há coisas que podem ser tiradas daqui e levadas para bom uso cristão, mas o homem não pode viver aqui, é mundo para as raças serviçais e embrutecidas.

─ Come das peras amarelas ─ disse Eijkrnan, um pouco arrependido de ter cultivado assunto incômodo e inútil àquela hora, e já se preparava para levantar-se e colher um caju, quando o caboco Capiroba pulou de trás da capoeira e, rodando o cacete na horizontal com a força de um catavento, destroncou-lhe a cerviz de uma pancada só, após o que jogou a rede em cima dos dois, puxou o laço corredio que a fechava, amarrou-a no cajueiro e ficou esperando que uma das presas aquietasse e desistisse de bacorejar, para não ter que dar-lhe também uma porretada, correndo o risco de estragar os dois e esperdiçar comida.


Maloca do caboco Capiroba, 26 de dezembro de 1647.
O holandês Sinique concordou em comer um pedacinho do holandês Aquimã depois de resistir uns dias esbravejando dentro do cercadinho, sacudindo os mourões de tal maneira que o caboco Capiroba foi obrigado, bem a contragosto porque tinha fumado erva de cabeça e queria ficar quieto espiando as árvores, a quebrar um dedo de cada mão dele. Evitava também assim que Sinique, cujos modos agitados e algaravia incessante já começavam a irritá-lo, cavasse um buraco para desalojar os mourões, como chegara a tentar. Podia deixá-lo amarrado, mas sabia não ser bom para a criação mantê-la atada, era definhamento certo. Tentou convencê-lo com bons modos, não gostava de maltratar o bicho sem necessidade. Mas ele se comportava como um caititu demente, insistindo em mostrar os dentes e coinchar seus sons incompreensíveis, e o caboco não teve jeito senão trespassar-lhe um arganel pelo focinho para melhor movimentação e aplicar-lhe umas bordoadas, embora não tão fortes quanto a única cacetada que tinha desfechado no holandês Aquirnã. Este acordara o suficiente para andar de trambolhada todo o caminho do ribeirão à maloca, mas não conseguiu mais sustentar o tronco ereto e um dos braços não parava de tremer. As mulheres e as meninas o beliscaram, avaliaram a carne, acharam melhor fazer o abate logo, antes que o peso caísse demais, estava se vendo que era um animal doente. Foi assim que aprenderam os nomes deles, porque o holandês que permaneceu no cercado parecia mais desconsolado em ver o outro ser puxado pelas mulheres para o cepo do que uma baleia quando lhe sangram o filhote, e então gritava "Aquimã, Aquimã!" e esmurrava os mourões. O caboco achou interessante aquele canto tão repetido, ficou curioso, parou a pouca distância do cercado e sorriu para o holandês preso.

─ Aquimã? ─ perguntou-lhe, apontando divertido para o holandês que estava arrastando.

O rosto do preso se iluminou. Seria aquele selvagem um entre os muitos que Schkopp tinha aliado aos flamengos? Certamente seria, havia reconhecido o nome de seu companheiro.

─ Eijkman, Okeman ─ falou, quase sorrindo também e tentando imitar a pronúncia do caboco.

Encantado com a novidade, o caboco apontou desta vez para o preso: Aquimã?

O preso respondeu que não, abanando as mãos abertas.

─ Zernike, Zernike! ─ falou, cutucando o peito com o indicador. ─ Zernike!

Ah, então eram coisas diferentes, como se dava isto?

O caboco comparou os dois com um olhar experiente. Mesmo tamanho, mesmos cabelos, mesma roupa, mesmos sons animalescos, provavelmente o mesmo gosto. Não se podia dizer que um fosse um aquiamã e outro fosse um sinique, não havia diferença que justificasse duas palavras. Seriam nomes então, eles tinham nomes. O caboco se orgulhou de sua inteligência. Apontou para o que ia ser abatido.

─ Sinique? ─ perguntou, rindo muito.

O holandês abanou as mãos outra vez, meteu o dedo no peito: Zernike, Zernike!

─ Aquimã, Sinique! ─ falou o caboco, triunfante, depois de uma pausa para pensar.

O holandês aprovou, baixando e levantando a cabeça com toda a força. O caboco riu mais aberto e passou a indicar um e outro ritmadamente. Aquimã, Sinique, Aquimã, Sinique, Aquimã- Aquimã, Sinique-Sinique. O holandês também riu, as mulheres e as meninas riram, quase cantaram uma cantiga: Aquimã, Sinique ─ hum-hum ─ Sinique, Aquimã ─ hum-hum, aquimansinique! Ai, fez o caboco, enxugando uma lágrima de riso no canto do olho, ai-ai. Quase começava de novo a toada, tinha até imaginado algumas variações e o clima de festa lhe agradava, mas já estava ficando tarde e este mundo não é só para a diversão. Ficou sério e disse "quietaí, vá deitchá" ao preso, embora sem muita convicção, porque sabia que, como os outros de sua espécie, era um bicho bronco, que não entendia as ordens mais simples. Virou-lhe as costas resignado com a barulheira que recomeçara, levou Aquimã ao cepo, pôs-lhe o pé na cara com firmeza mas sem brutalidade e o sangrou pelo pescoço numa cuia de cabaceira com caldinho de limão da terra dentro, havendo preferido isto a achatar a cabeça, para não estragar muito a mioleira.

Vu, a filha mais velha do caboco, ficou contente quando Sinique comeu um pedacinho de Aquimã, aliás não só um pedacinho, mas quase uma gamela cheia de carninha moqueada muito bem moqueadinha, com pirão de aipim. Ela tinha gostado do holandês e duas vezes o caboco a viu querendo fazer com ele o que o caboco fazia com as mulheres. O caboco sabia que aquilo estava errado, que era o holandês quem tinha de fazer como ele fazia, pondo a mulher de quatro, segurando a gordura do alto das coxas, passando cuspe e se despachando com ligeireza, mas teve preguiça de ensinar. Achou que Vu, do jeito que andava, se esfregando nos pés de pau de tronco liso e saindo para se esconder pelos matos horas seguidas, com certeza inventaria um jeito e de qualquer forma isto não era problema dele, que já tinha bastante com que se preocupar.

E realmente ela descobriu um jeito, porque, depois que o caboco quebrou os dois dedos do holandês e lhe botou a argola no nariz, ele não conseguia mais empurrá-la e espernear assim que ela se agarrava às suas bragas, puxando-as para baixo. Quando ela finalmente o pôs nu da cintura para baixo, ele estava imóvel, pois, tão logo esboçou a reação costumeira, ela lhe apertou os dedos quebrados e amarrou a argola do nariz numa corda curta.

E foi com grande sofreguidão que, não logrando vencer a engenharia das bragas, fraldas, culotes, laços e todo aquele tumulto de panos que cobria os quartos do holandês, cortou o que pôde com uma faca e o resto rasgou com os dentes. Ao vê-lo enfim exposto, as pontas dos pentelhos ruivos cintilando ao sol que passava em fatias por entre os mourões, Vu levantou o tronco ainda ajoelhada e, os lábios trêmulos, as mãos vibrando, o fôlego convulso, o sangue incandescente, o coração turbulento, quase sai voando por a princípio não saber como levar seu corpo todo, que parte dele levar, que partes dela encostar e apertar no holandês deitado e nu que ela agora mirava outra vez com um prazer quase insuportável, como se tivesse brotado uma cordilheira de arrepios, músculos e pele eriçada desde o meio dos peitos até abaixo do umbigo. Mas sabia, porque uma ondulação espasmódica e cada vez mais premente lhe chegava de todos os pontos ao meio de suas coxas e então, depois de acariciar o holandês com as mãos em concha, juntando-as de leve e movendo-as para cima e para baixo como quem brinca de fazer água escorregar entre os dedos, sentou-se em cima dele com um movimento só, deu um gritinho e desatou a maior risada que jamais pensara poder dar. Passou então a volta-e-meia entrar no cercado, virar o holandês de barriga para cima e sentar nele com muitos sinais de felicidade, às vezes demorando-se de olhos fechados e oscilando levemente o tronco e os quadris, às vezes quase saltando como quem monta a galope, às vezes simplesmente enfiada e instalada, cuidando de um afazer ou outro e conversando.

Por causa dessas idas e vindas ao cercado e de tudo o que ela fazia com o holandês, o caboco Capiroba pensou, ao vê-la prorromper luminosa lá de dentro, saltando de uma perna para outra e estalando a língua como gostava de fazer quando contente, que havia acontecido com ela o que de quando em vez sucedia com suas mulheres, as quais, principalmente uma delas, podiam comportar-se esquisitamente enquanto eram fodidas, tendo estremeções e fazendo barulhos de prazer. Se isto ocasionalmente aborrecia o caboco, forçando-o a mandar a mulher ficar quieta e a dar-lhe alguns cachações para que não tivesse um comportamento impróprio e incomodativo, também lhe trazia uma satisfação misteriosa, tanto assim que às vezes perguntava à mulher, logo após: teve coisa? Tive coisa, respondia ela, e ele ria satisfeito - carrá- carrá-carrá! - e dava um tapa na bunda dela.

─ Teve coisa? ─ perguntou o caboco a Vu. ─ Tu teve coisa hoje? Tou veno que teve coisa hoje, bom, muito bom.

Mas ela simplesmente mostrou a ele a cuia vazia, cujo conteúdo Sinique havia comido. Ali, bem, isso. Sim, bom, o animal tinha finalmente resolvido comer o que lhe davam, pois antes insistia em não aceitar nada, quando a carne de Aquimã, preparada na forma de tantas iguarias, estava ali à disposição. O caboco cumprimentou a filha pela persistência, cansara de vê-la teimar com o holandês para que comesse, se alimentasse, não ficasse assim tão definhado, deixasse de recusar tudo, entornar as cuias no chão e grunhir tão lastimosamente. Agora pelo menos pegaria um pouco da encorpadura que já tinha perdido desde que chegara, evitaria que o caboco tivesse o trabalho de sair e matar outro tão cedo, muito bem.

Vu passou a tarde alegre e, no dia seguinte, ensinou ao holandês uma nova arte, que era comer lambiscos da passarinha, da lingüiça e da carne-de-sol de Aquimã, que ela lhe dava na boca em petisquinhos apaixonados, enquanto, já em minuciosos cuidados para não machucá-lo, certificando-se de que sentara na posição certa e com tudo dele que podia alojar aconchegado em suas partes, subia e descia vendo com ternura aquilo entrar e quase sair, entrar e quase sair, entrar e quase sair, até que, já tudo em torno das virilhas molhado e chocalhante, tudo induzindo a gritos e sentimentos indefiníveis, tudo tresandando a maresias enlouquecedoras, revirava os olhos, prendia a respiração e mordia o beiço, grudando muito em si as coisas do holandês, as quais lhe vibravam debilmente dentro das vísceras, um passarinho moribundo e arquejante, deixando lá, misturado com o seu, um caldo morno que depois escorria e que ela, sem saber por quê e sem mesmo notar, aparava dos riachinhos leitosos que lhe desciam as coxas e espalhava sobre a pele.



Contou ao pai o que pôde sobre todos esses assuntos e o caboco gostou, embora não em demasia, de ouvir que tinha um holandês ensinado em sua criação. Pensou vagamente em possuir muitos holandeses amestrados, servindo-lhe fielmente em seu pedaço de terra, até o dia em que a idade e a pouca produção aconselhassem o abate. Mas eram apenas sonhos, coisas que se conversam em tardes sonolentas, planos sem futuro. Tanto assim que, antes de a noite baixar, os portugueses, agora muito senhores da ilha outra depois que os flamengos fugiram à notícia da vinda da esquadra de João IV, entraram facilmente no apicum, aproveitando a maré alta e passando em catraias de fundo chato por cima da água rasa que cobria a lama. O caboco se acostumara à segurança de seu apicum, esquecera das marés e dos barcos e não avaliava ainda o que significavam os cachorros mateiros que agora vinham juntos com os portugueses, bichos barulhentos e sem pelagem certa, de dentes como os de uma onça, a qual tinha medo deles. Também não conhecia outras modernizações, como o pequeno arcabuz que um português sacou da cinta para derrubar com um tiro no meio das costas a menina Rô, que saíra correndo em direção ao matagal. Não desejava tomar um tiro também, não deu combate, ficou ali de pé, olhando as mãos e os pulsos como freqüentemente fazia se não tinha o que fazer, não disse nada quando os portugueses lhe aferrolharam uma coleira presa a correntes, puseram-no em fila amarrado às mulheres e meninas e os despejaram às pressas nas catraias, para aproveitar a maré. Chegados a Vera Cruz, com o povo ajuntado para ver o grande caboco comedor de gente, gigante degolador, bebedor de sangue, pactuado com Satanás, opinaram todos que deviam ser mortos na fogueira, tanto ele quanto as mulheres e filhas. No entanto, a escassez de mão-de-obra engendrada por tantos combates e conflitos, as viúvas sem arrimo, os homens bons desvalidos de recursos para amanhar suas terras, tudo isso fez com que as mulheres e filhas do caboco fossem perdoadas e acolhidas caridosamente como escravas, inclusive Vu, grávida do holandês. O caboco foi enforcado de madrugada, olhando as mãos e pulsos amarrados, num jeito igual ao do Alferes Brandão Galvão contemplando seus punhos agaloados e suas mãos que matariam o inimigo a fisgadas. Mandaram-lhe um padre, ele não objetou, ouvindo sem expressão as palavras em língua mágica pronunciadas com o braço direito levantado e ecoadas por alguns, na grande platéia que se formou para vê-lo estrebuchar. Seu último pensamento foi que talvez comesse aquele padre, se não tivesse jeito e a necessidade comandasse, mas sabia que a carne dele, a carne daquele povo todo ali, não se comparava à dos holandeses. E, enquanto lhe passavam o laço no pescoço, chegou a imaginar como teria sido bom se, em vez daquela carne de segunda ali congregada, tivessem vindo para cá desde o começo, e aqui ficado, holandeses superiores. Tão superiores que Sinique, assim que chegou, foi levado ao ferreiro, que lhe limou o arganel do nariz; ao barbeiro, que lhe fez curativos e lhe pensou os pequenos ferimentos que são naturais aos bichos brabos de cercado; à casa de uma família, onde lhe deram água esquentada, comida cristã e cama limpa forrada; ao conselho de guerra, que o condenou a ser decentemente fuzilado; a um poste, onde foi manietado, disse umas últimas palavras que ninguém entendeu, recebeu muitos balaços mal colocados e demorou um pouco a morrer. Quando sua almazinha disparou por cima da Ponta de Nossa Senhora em direção ao Poleiro, a do caboco Capiroba, aliviada embora ainda temerosa, já estava lá, querendo nunca mais voltar àquele lugar tão louco onde vivera, mas inquietíssima por apenas saber que devia haver outros lugares e nunca ter aprendido onde ficavam eles.

Salvador da Bahia, 9 de junho de 1827.


O escaler pareceu mergulhar e, durante um momento breve, só os chapéus-de-sol das mulheres quedaram visíveis acima das marolas. Perilo Ambrósio especulou que, com todos aqueles vestidos, anáguas, saiões, mantéus, justilhos e mais tantas construções de pano e barbatanas, dificilmente, se o barco afundasse, os dois marinheiros poderiam salvá-las, inclusive Antônia Vitória, como sempre a mais enfarpelada de penduricalhos e atavios absurdos.

Mas naturalmente que o escaler não afundara nem afundaria, e não gostava disto, não gostava de ter de fazer a execrável travessia para a armação de baleias em dia de mar picado, não gostava daquele farrancho todo que Antônia Vitória, também como sempre, havia arregimentado, não gostava do mormaço que o deixava em banho-maria dentro do casaco de gabardina, não gostava de navegar na barca a vapor com sua caldeira de cheiro enjoativo e seus negros barulhentos, não gostava de ter que conversar com todos os convidados ilustres que com ele aguardavam o regresso do escaler à praia da Conceição, detestava a idéia de fingir interesse pelos festejos de Santo Antônio no engenho de frigir, detestava repetir explicações tediosas sobre a armação das baleias, as plantações e os escravos, detestava ser obrigado a conviver com as normas, regras e restrições que Antônia Vitória impunha nas grandes ocasiões como esta, detestava tudo o que aconteceria nos próximos dias, odiava Antônia Vitória, domingos na ilha com a família, enteados mansos e desagradáveis, parentes abomináveis, comidas e maneiras finas, animais de aparência asquerosa, discussões sobre a lavoura e os preços, perguntas sobre se vaza ou enche a maré ─ tinha vontade de matar alguma coisa. Pensara em acordar sofrendo da gota outra vez, contorcendo-se em dores e urrando se alguém lhe tocasse os pés, mas, mesmo que Antônia Vitória fosse sozinha para a ilha com seu séquito para cumprir as promessas desmioladas que todos os anos fazia ao santo de sua maior devoção, não se livraria dela. Pelo contrário, o que se poderia esperar seria a presença diuturna de algum boticário enfiando-lhe arrobes e tisanas e do cirurgião Justino José com suas lancetas sinistras, suas sanguessugas repulsivas, seu cheirar de urinas e remexer de fezes, seu aspecto carontiano, suas advertências lúgubres, seu riso vampiresco. E mais a espionagem feita pelos negros e negras da casa do Bângala, que não ousavam desobedecer-lhe as ordens para que servissem todas as comidas e bebidas interditas e despejassem nos penicos aquelas triagas fedidas que jamais beberia, mas, assim que Antônia Vitória voltava, contavam-lhe tudo o que sucedera, apesar das ameaças e dos ataques de fúria contra a negralhada que o acometiam. Antônia Vitória, com sua capacidade infinita de falar a mesma coisa durante dias, semanas, meses ou anos, o forçaria a entocar-se em qualquer lugar onde a voz dela não o alcançasse, para não tresloucar de uma vez. E também faria queixas ao pai. Perilo Ambrósio lembrou amargamente que casara com aquela viúva branca como alvaiade, quase tão gorda quanto ele, de olhos muito diretos, nariz agressivo e voz.metálica, orgulhosa dos dentes esculpidos em marfim que lhe recompunham de maneira ofensiva parte da arcada superior, porque assim entraria para o ramo comercial através do Empório e Trapiche Soares de Almeida, do português brasileiro Afonso Soares Matinho de Almeida, pai dela. Mas o sogro se mantinha distante e suspeitoso, o que de início mortificava Perilo Ambrósio e agora apenas o incomodava, porque o velho cada vez mais afundava na doença e na debilidade e, se Antônia Vitória tinha alguma boa qualidade, esta era ser filha única de pai viúvo velho.

0 escaler bordejou a mancha escura dos arrecifes submersos, anéis e fincou de novo a proa, ressurgiu quase feérico entre os vestidos multicores da companhia feminina, embicou para a barca fundeada ao largo, os negros se levantaram para manejar o cordame e acostar. Perilo Ambrósio, adivinhando com enfado as palavras que Antônia Vitória estava dizendo aos moços da embarcação enquanto arrepanhava as saias e pela outra mão era puxada a bordo, desviou a vista e sorriu para o Cônego Visitador D. Francisco Manoel de Araújo Marques. O cônego respondeu de forma curiosa: fez uma espécie de bico e curvou a cabeça bruscamente. Perilo Ambrósio não soube o que falar, não tinha realmente desejo de conversar e não lhe ocorria coisa alguma.



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