Viva o povo brasileiro



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Sim, era, pensou Perilo Ambrósio. Eu sou um barão, disse mentalmente. Não precisava mais repetir isto do jeito obsessivo de antigamente, querendo convencer-se de uma coisa absurda a que sua própria cabeça resistia, nos primeiros dias depois da confirmação do baronato. Eu sou o Barão de Pirapuama, sou eu.

Pirapuama queria dizer baleia, na língua dos bugres. Isto não se pôde confirmar com a certeza que ele desejara, porque os índios praticamente não existiam mais e os poucos que havia ou se escondiam nos cafund6s das matas ou passavam o tempo furtando e mendigando para beber, cair pelas calçadas e exibir as doenças feias que sua natureza lhes trazia. Mas todos no Recôncavo e fora dele sabiam que pirapuama era baleia e, se não fosse, seria, pois afinal estava ali o Barão das Baleias, aquele que, na esteira de incontáveis sofrimentos e tribulações, lutando pela Pátria, enfrentando ódio e incompreensão, obrigado a combater a própria família, era hoje o maior entre os senhores da pesca dos grandes bichos marinhos que todo mês de junho vinham galhardear os corpanzis no meio das ondas verdes da baía de Todos os Santos.

Pirapuama, nome que afirmava a singularidade nacional, que proclamava orgulhoso sua origem austral, atada àquelas terras e a seus habitantes originais, os nobres selvagens de antanho.

Quanta luta, quanto sacrifício, pensou Perilo Ambrósio, novamente enxugando o suor com o farto lenço de brocado cujas rugosidades e farpilhas amaldiçoava, mas cuja exibição estudadamente casual aos olhares dos passantes lhe fazia vir a compulsão irrefreável de mais uma vez esfregá-lo lentamente pelas enxúndias da papada e, concluído o enxugamento, tirar do bolso um flaconete de cristal, para, com o dedo indicador sobre a boca da garrafinha, derramar no pano gotas de um perfume que aromava tudo em tomo, maravilhando os moleques com aquelas essências que, saídas de uma pedra reluzente, invadiam o universo. Muito bem, de fato a Revolução premiara seus heróis. E de fato tinha sido muito mais fácil do que imaginara antes, tomar de sua família todas as propriedades. Até mesmo quando, com o pai já capturado, preso e acusado de traição, encontrou o ouro em pó que se dizia estar enterrado ilegalmente nos fundos da casa-grande do engenho, guardou a maior parte do que achou em segredo e levou um punhado às autoridades, como triste evidência de que sua família era efetivamente tudo de mau que se dizia dela e até um pouco mais. Chorara ao entregar aquele ouro, não de pena, mas por reconhecer que, por mais que seu coração de filho se rebelasse, não podia, em nome da Pátria e do povo que fizera a Revolução, esconder a conduta inimiga do pai, da mãe, das irmãs, de todos os que viviam naquela casa de onde se vira expulso por ser o único brasileiro. Desprendimento tinha, podia guardar tudo para si e passar o resto de seus dias na paz, obscuridade e conforto simples de quem, cumprido o dever para com a Nação, não abriga razões para celebrar além da satisfação da consciência, tamanha a adversidade que por todos os lados o vitimou. Mas nada quis, nada pediu. Exaurido e exangue em Pirajá, mal haviam suas feridas deixado de segregar linfa vital, estivera sempre na linha de frente, aconselhando, ministrando, orientando, servindo de mil maneiras, até o momento glorioso em que, escorraçado por entre as sombras da noite e a borrasca que lhe enviaram os deuses do Novo Mundo, o General Madeira zarpou fugido, de volta a Portugal.



Sim, a Revolução premiou seus heróis, pensou outra vez Perilo Ambrósio, sopesando a frase, que achou elegante e expressiva. A alguns ela pagara em merecido dinheiro, como aconteceu, mandado do próprio Lorde Cochrane, em Itaparica. Lá, antes mesmo da fuga de Madeira, um certo Capitão Tristão Pio dos Santos foi portador, como se contava, de uns tais mil pesos duros para dividir entre os comandantes do 25 de junho, do Dona Januária e do Vila de São Francisco, por tantas e tão bravosas façanhas cometidas no mar da Bahia. Que vinham a ser mil pesos duros, quantia de som tão forte, a evocar dilúvios de patacas e cruzados? Ninguém do povo da ilha e do Recôncavo sabia, mas se sabia desses e de outros, muitos outros, grandes prêmios, tanto assim que, se agora havia engenhos, moendas, fazendas, fábricas de óleo de baleia, barões, condes, viscondes, nobres da terra, pessoas miliardárias de que o povo podia orgulhar-se, era isto muito porque a Pátria soubera recompensar os que por ela deram tudo, os grandes comandantes, capitães e pilotos de tropas, os que suportaram, nos ombros infatigáveis, o fardo de conduzir e inspirar o povo à vitória pela liberdade e pela felicidade. Retinem ali, naquele frontispício, as armas de Dão Pedro, por ele mesmo desenhadas. Naquele mesmo lugar, ele já vira a esfera armilar de Dão Manuel ser trocada pelo escudo de Portugal, Brasil e Algarve, que, por sua vez, no dia 3 de julho, fora escaqueirado a talhadeira e coberto pela argamassa que fixaria pelos séculos o símbolo da nova era. Símbolo abençoado e benfazejo, arauto da explosão de prêmios e recompensas, a própria Natureza parecendo fazer desmoronar dos céus patrimônios e fazendas ricas, medalhas e pensões, títulos e concessões, comendas e cargos vitalícios, benesses mais fartas e generosas que a própria terra bendita sobre a qual se desdobrava agora o manto da liberdade. Esses mesmos homens que tinham comandado na guerra comandariam agora na paz ─ e Perflo Ambrósio lembrou com um arrepio de orgulho sua admirada máquina a vapor, sua abundante produção de açúcar, melaço e aguardente, suas extensas propriedades, as apólices que comprara tão generosamente e que tanto o ressaltaram no apreço da Junta da Fazenda e do Conselho Provisório, sem cujo apoio talvez o baronato não viesse. O progresso está aí, no trabalho de homens como ele. Através dele mesmo, os escravos, pretos rudes e praticamente irracionais, encontravam no serviço humilde o caminho da salvação cristã que do contrário nunca lhes seria aberto, faziam suas tarefas e recebiam comida, agasalho, teto e remédios, mais do que a maioria deles merecia, pelo muito de dissabores e cuidados que infligiam a seus donos e pela ingratidão embrutecida, natural em negros e gentios igualmente. O povo em geral, este tinha muitas fazendas a que agregar-se, muitos ofícios a praticar, podia vender e comer o que pescasse nas águas agora libertadas, podia, enfim, levar a mesma vida que levava antes, com a diferença sublime de que não mais sob o jugo opressor dos portugueses, mas servindo a brasileiros, à riqueza que ficava em sua própria terra, nas mãos de quem sabia fazê-la frutificar.

Vou beber um refresco, resolveu Perilo Ambrósio, mas, antes de poder chegar ao quiosque armado para a festa que nunca mais queria terminar, já o rodeavam em rapapés e já os moleques o admiravam à distância, desviando o olhar quando ele os encarava. Muitos bons dias, Senhor Barão, como passou o Senhor Barão? Tinha chegado a uma conclusão sobre como portar-se diante do populacho e dos pequenos funcionários e comerciantes que o cercavam, pescoços espichados, faces solenes, para ouvir suas opiniões sobre o mundo e os acontecimentos. Sempre falara com desenvoltura, isto não era problema, mas calhava bem fazer algumas pausas, alguns gestos expressivos, mostrar a profundeza de espírito de onde retirava suas observações. Sacou o lenço da algibeira, cheirou-o com discrição.

Era certo que Sua Majestade Imperial estava muito propenso a aceitar a petição cachoeirese para passar de vila a cidade, com o invencível nome de Petrópolis? Sim, era certo, Sua Majestade lhe tinha manifestado essa intenção pessoalmente, quando estivera com ele em Itaparica, logo antes da visita a Cachoeira. Na ocasião, aliás, tinha tido a oportunidade de discorrer a Sua Majestade Imperial a respeito do quadro pintado por mestre Almerindo Conceição, mostrando a peroração do Alferes Brandão Galvão às gaivotas, no fatídico e inesquecível 10 de junho. E, curioso, Sua Majestade, embora emocionado pela história do alferes, embora interessado nos pormenores do quadro ─ que, aliás, não pode ser comparado à verdadeira arte, como a praticada nos países adiantados, e deve ser tomado por um valioso documento, nada mais ─, preferiu opinar com mais vagar sobre a explanação do Barão de Pirapuama, que qualificou de exemplarmente erudita.

─ Sua Majestade é muito generosa, ─ disse o barão, ordenando com um aceno que lhe trouxessem um refresco de cajá. Tinha o Senhor Barão chegado a palestrar com a Princesa? Muito de passagem, somente algumas palavras, pois que ela não se sentia bem-disposta com o calor e a maior parte do tempo gastou-a em seus aposentos, abanada e arejada pelas damas de companhia. Como sabe o refresco? Sabe- me bem, sabe-me muito bem, que não só à Senhora Dona Princesa incomoda este sol canicular.

Normalmente, esperaria que a caleça, escoltada por um grupo numeroso de meninos assim que mostrou a intenção de ir embora, viesse buscá-lo onde estava, mas desta vez preferiu encontrá-la a meio caminho, andando como se a pequena multidão estivesse presa a ele por um elástico. Tirou da algibeira uma sacola de camurça, deu moedas aos meninos, velhos e aleijados que o sitiaram. Uma velha recurvada e coberta por um xale preto lhe beijou a mão, disse-lhe que conheceu muito o senhor seu pai e a senhora sua mãezinha, antes que tivessem sido corridos para Portugal. Já a velha estava sendo empurrada pelo meirinho Desidério, envergonhado por haver ela mencionado assunto tão molestoso para o barão, quando Perílo Ambrósio o deteve e, com a naturalidade simples dos grandes homens e heróis, disse-lhe: deixa-a, Desidério, também eu, ai de mim, sinto falta de meus pais e da família, fortuna muito maior do que a que hoje pesa nas minhas omoplatas.

Congelou-se a paisagem, silenciaram todos. E Perilo Ambrósio, mordendo o lábio inferior, falou exatamente da maneira que havia planejado com tanta freqüência:

─ Entre a Pátria e a família, minha boa mulher, Deus há sempre de me dar forças para escolher a primeira, eis que vale mais o destino de um povo que a sina de um só.

Notou que Desidério, arrebatado, reproduzia, somente com os lábios, as palavras que ele pronunciava e que logo todos comentariam e repetiriam, na pungência de sua franqueza dolorosa, de sua coragem amarga. Afagou o ombro da velha, estendeu-lhe uma moeda e, em movimentos pausados, marchou para a caleça, sob o silêncio grávido dos que agora meditavam no muito que tinha dito em discurso tão miúdo. Apoiou-se no negro sem olhar para ele, subiu à caleça, enxugou o suor pela última vez e, cruzando as mãos por cima da barriga, acomodou-se para balançar e cochilar durante a viagem. No céu de Cachoeira, misturada à luminosidade e à vibração quente do firmamento, a almazinha do Alferes Brandão Galvão, ainda entontecida pela visão do Imperador, com as grandezas que se sucediam de roldão e com o lindo quadro em que já acreditava piamente, acompanhou os atos do barão lá de cima, estremecendo de admiração e reverência.

Vera Cruz de Itaparica, 20 de dezembro de 1647.
O caboco Capiroba apreciava comer holandeses. De início não fazia diferença entre holandeses e quaisquer outros estranhos que aparecessem em circunstâncias propícias, até porque só começou a comer carne de gente depois de uma certa idade, talvez quase trinta anos. E também nem sempre havia morado assim, no meio das brenhas mais fechadas e dos mangues mais traiçoeiros, capazes de deixar um homem preso na lama até as virilhas o tempo suficiente para a maré vir afogá-lo lentamente, entre nuvens cerradas de maruins e conchas anavalhadas de sururus. Isto só aconteceu depois dos muitos estalidos, zumbidos e assovios que sua cabeça começou a dar, no ver de alguns porque era filho de uma índia com um preto fugido que a aldeia acolheu, o qual, de medo, nunca saiu de casa a não ser pela noite para se mudar quando era preciso, tendo por esta razão desenvolvido uns certos parentescos com morcegos e bacuraus e deixado de enxergar à luz do dia.

A verdade é que desde menino o caboco sofreu um pouco, meio preto, meio índio e o pai o mais do tempo virado num bicho noturno, enxergando com os ouvidos e se escondendo do sol nas árvores folhudas. Mas os estalidos, zumbidos e assovios, bem como o grande esquentamento que lhe incinerava o juízo e provocava nele os comportamentos mais estranhos já vistos, apareceram pela primeira vez logo após a chegada dos padres, os quais vieram com a intenção de não sair e passaram a chamar todo aquele povoado e suas terras de Redução. Nada se deu de sopetão, mas a cada dia na Redução o caboco se via mais infernado pelos estalidos, zumbidos e assovios, que muitas vezes entravam em erupção a um só tempo como uma orquestra de diabos, durante a doutrina da manhã ou durante a doutrina da tarde, ou ainda qualquer ocasião em que um dos padres estivesse falando, o que era quase sempre. Até o dia em que, já desesperado por não poder ver um padre sem ter de desabalar correndo com a cabeça entrando pelo meio das pernas, aquela zoada estrondosa lhe explodindo a caixa da idéia, roubou duas mulheres e fugiu para as brenhas, nunca mais havendo regressado. Uns sustentam que continuou a saber falar perfeitamente, outros que deixou de falar e foi virar morcego tal qual o pai, podendo até voar com as asas pretas desses animais ─ coisa que o pai nunca conseguiu fazer, nem mesmo no dia em que todos o encorajaram, para que escapasse pelos ares dos portugueses a quem os padres o entregaram, por se tratar de negro fugido, coisa ilícita, nada de ilícito sendo permitido numa Redução. E que o caboco come gente, às vezes engordando um ou outro no cercado, é por demais sabido, tendo isto, contudo, principiado por acaso.

Quando os padres chegaram, declarou-se grande surto de milagres, portentos e ressurreições. Construíram a capela, fizeram a consagração e, no dia seguinte, o chão se abriu para engolir, um por um, todos os que consideraram aquela edificação uma atividade absurda e se recusaram a trabalhar nela.

Levantaram as imagens nos altares e por muito tempo ninguém mais morria definitivamente, inclusive os velhos cansados e interessados em se finar logo de uma vez, até que todos começaram a protestar e já ninguém no Reino prestava atenção às cartas e crônicas em que os padres narravam os prodígios operados e testemunhados. Deitava-se um velho morto ao pé da imagem e, depois de ela suar, sangrar ou demonstrar esforço igualmente estrênuo, o defunto, para grande aborrecimento seu e da família, principiava por ficar inquieto e terminava por voltar para casa vivo outra vez, muitíssimo desapontado. Assim, não se pode alegar que os padres só obtiveram êxitos, mas conseguiram bastante de útil e proveitoso, apesar de tudo isso haver piorado os sofrimentos da cabeça do caboco Capiroba. De manhã, assim que o sol raiava, punham as mulheres em fila para que fossem à doutrina. Depois da doutrina das mulheres, que então eram arrebanhadas para aprender a tecer e fiar para fazer os panos com que agora enrolavam os corpos, seguia-se a doutrina dos homens, sabendo-se que mulheres e homens precisam de doutrinas diferentes.

Na doutrina da manhã, contavam-se histórias loucas, envolvendo pessoas mortas de nomes exóticos. Na doutrina da tarde, às vezes se ensinava a aprisionar em desenhos intermináveis a língua até então falada na aldeia, com a conseqüência de que, pouco mais tarde, os padres mostravam como usar apropriadamente essa língua, corrigindo erros e impropriedades e causando grande consternação em muitos, alguns dos quais, confrangidos de vergonha, decidiram não dizer mais nada o resto de suas vidas, enquanto outros só falavam pedindo desculpas pelo desconhecimento das regras da boa linguagem. E, principalmente, deu-se forte atenção ao Bem e ao Mal, cujas diferenças os habitantes da Redução não compreendiam se explicadas abstratamente, e então, a cada dia, acrescentava-se um novo item a listas que todos se empenhavam em decorar com dedicação.

Matar um bicho: pôr na lista do Mal? Não. Sim. Não. Sim, sim. Não, a depender de outras coisas da lista do Mal e das coisas da lista do Bem. Sim, talvez. Poucos ─ e muito menos o caboco Capiroba ─ podiam gabar-se de conhecer essas listas a fundo e apenas dois ou três sabiam versões, que decoravam como se fossem rezas e que, cada vez que eram repetidas, mudavam um pouco e se tornavam ainda mais misteriosas. Mas a sabedoria dessas questões do Bem e do Mal foi posta em evidência e sobejamente provada quando tudo começou a acontecer conforme o previsto na doutrina. Antes da Redução, a aldeia era composta de gente muito ignorante, que nem sequer tinha uma lista pequena para o Bem e o Mal e, na realidade, nem mesmo dispunha de boas palavras para designar essas duas coisas tão importantes. Depois da Redução, viu-se que alguns eram maus e outros eram bons, apenas antes não se sabia. Mulher má não quer ir à doutrina, quer andar nua, não quer que o padre pegue na cabeça do filho e lhe besunte a testa de banha esverdeada, dizendo palavras mágicas que podem para sempre endoidecer a criança. Feio, feio, mulher má. Mulheres boas não falam com mulher má, mulher má fica sozinha, marido de mulher má também homem bom, mulher má cada vez mais sozinha, fica com gênio muito ruim, parece maluca. Cada vez maluca, castigo do céu porque é mulher má. Homens maus também se desmascaram, também acabam pagando. Homem mau diz que história do padre não tem nem pé nem cabeça, tudo besteirada, vai pescar. E também fica cada vez mais sozinho, bebe aguardente, ninguém conversa com ele, homem mau sempre pior, pior, castigo pesado por maldade, morre afogado e bêbado, vai para um lugar onde o fogo queima sem cessar e lagartos perniciosos atacam o dia inteiro. E, finalmente, teve-se notícia da Tentação, antigamente tão dissimulada que ninguém notava, mas hoje surpreendida nos locais mais insuspeitados, ao ponto de, ao saírem da doutrina, muitos jovens passarem o tempo todo querendo avaliar se tudo o que ocorre não será a Tentação em seus disfarces múltiplos e ficarem em grande apreensão, sem nem poder dormir, para não deixar que a Tentação os enrede.

Nesse longo rosário de sucessos, entre a Tentação, o Bem, o Mal, as ressurreições, os pecados, os castigos, as penitências, o inferno e todas as alvíssaras trazidas pelos padres com a Salvação e as Boas Novas, os acontecimentos da cabeça do caboco Capiroba teriam de chamar a atenção mais cedo ou mais tarde, e isto se deflagrou com grande escândalo no dia em que, depois de se enervar até ranger os dentes e andar de um lado para o outro como se quisesse costurar o chão, ele amanheceu febril e com ínguas pelo corpo todo, mastigando palavras só ouvidas no tempo em que seu pai ainda falava a língua com a qual nascera e sempre usara antes de virar bicho. Felizmente, no meio de um mundo que de súbito lhe parecia feito de sombras, cada vez mais obscurecente, ele passava momentos de luminosidade, quando conseguia conversar e até mesmo rir. Do contrário, talvez tivesse o destino dos outros e outras que se revelaram endemoninhados absolutos, permanentemente carregando todo dia uma tentação do cão, do inimigo, do belzebu, do tinhoso das profundas nas entranhas e na mente, resistindo a tudo o que os padres faziam para livrá-los da maldição. Estes, na maior parte, viviam amarrados ou encarcerados, alguns em tão triste condenação natural pela posse demoníaca que, quando os padres os visitavam para aspergir-lhes água benta e exibir-lhes cruzes, cadáveres hirtos, coroas de espinhos, corações sangrantes e demais símbolos da Nova Vida, eram atacados por convulsões, cataplexias, esgares licenciosos e vários temidos sintomas outros de danação.

O caboco Capiroba, entretanto, nos intervalos de seus cada vez mais freqüentes tormentos da cabeça, era pessoa franca, cordata e de boa paz, justificando inteiramente a confiança dos padres, que o deixavam desamarrado a maior parte do tempo e observavam com satisfação que ele normalmente não se retorcia todo à vista de cruzes, cadáveres sagrados, coroas de espinhos, corações hemorrágicos e semelhantes sinais do Amor Divino.

Foi assim desamarrado que ele e toda a coletividade da Redução escutaram a famosa história do cruel sofrimento e grandes trabalhos havidos pela boa gente cuja embarcação soçobrou às costas desta mesma terra aqui, fazia muito tempo. Ninguém se lembrava desse evento, fosse por memória ou por ouvir contar, mas os padres não mentiam e, por via de conseqüência, a história era verdadeira, o que provocou, desse dia em diante, inescapável desconfiança entre os habitantes da Redução, cada um achando que o outro era personagem secreto dessa história.

A qual era a prosopopéia de tal boa gente naufragada que veio dar à terra quando ali existiam muitos gentios em estado de brabeza e nenhuma cristandade, de forma que os ditos gentios mataram toda essa boa gente para comer, a cada manhã abatendo um a cacetadas depois de rituais malvadíssimos, não se importando com as súplicas que os padecentes lhes dirigiam, nem se dando conta do choro e clamor que se levantava dos desafortunados a serem comidos nos dias seguintes. E tanto se cevaram nessa carne humana os gentios e a ela tanto se acostumaram que nem lhes passou pelas mentes brutas a idéia de ao menos poupar o sacerdote e santo homem daquela expedição malfadada, mesmo quando ele lhes falou do grande pecado que cometiam e da ofensa mortal que, ao comê-lo, assoariam contra Deus e todo o seu rebanho. Com uma lágrima a lhe escorrer pela face pálida, o bom padre fechou os olhos diante de um selvagem altíssimo e terrificante, de dentes limados em serra para melhor rasgar a carne inocente da gente de Deus, executando uma dança monstruosa, intercalada de imprecações satânicas e invocações pagãs, antes de baixar o tacape. E assim, aos olhos de Deus, tais gentios muito se desmereceram e caíram fundo, fundíssimo, de onde talvez jamais pudessem voltar à luz.

E com essas e outras razões e enredos mostrou-se que não se devia mais comer gente, ato dos piores entre os mais pecaminosos, costume pérfido que, se antes os moradores da Redução nunca tinham ouvido falar dele, agora os fazia estremecer por haverem sido capazes de tais malfeitorias e os dispunha a para sempre arrepender-se em penitências. E, enquanto a maioria encontrou alguma dificuldade em compreender como tinham feito alguma coisa que nunca souberam que tinham feito, no caso do caboco Capiroba houve uma piora da moléstia da cabeça, a qual foi logo atacada por tamanha saraivada de estalidos, zumbidos, assovios e esquentamentos que, na madrugada posterior à narração da triste história, ele roubou as duas mulheres e desapareceu.

Seis dias depois, desalentado e faminto, assando um sagüizinho mirrado para comer na companhia das mulheres, aconteceu ter visto pelo moital um movimento de pássaros espantados. Foi espiar escondido e reconheceu um dos padres, certamente decidido a ir buscá-lo à força por amor, para amarrá-lo e respingar-lhe água benta até que o espírito imundo o abandonasse. O caboco Capiroba então pegou um porrete que vinha alisando.desde que sumira, arrodeou por trás e achatou a cabeça do padre com precisão, logo cortando um pouco da carne de primeira para churrasquear na brasa. O resto ele charqueou bem charqueado em belas mantas rosadas, que estendeu num varal para pegar sol. Dos miúdos prepararam ensopado, moqueca de miolo bem temperada na pimenta, buchada com abóbora, espetinho de coração com aipim, farofinha de tutano, passarinha no dendê, mocotó rico com todas as partes fortes do peritônio e sanguinho talhado, costela assada, culhõezinhos na brasa, rinzinho amolecido no leite de coco mais mamão, iscas de fígado no toucinho do lombo, faceira e orelhas bem salgadinhas, meninico bem dormidinho para pegar sabor, e um pouco de lingüiça, aproveitando as tripas lavadas no limão, de acordo com as receitas que aquele mesmo padre havia ensinado às mulheres da Redução, a fim de que preparassem algumas para ele.



Também usaram umas sobras para isca de siri e de peixinho de rio, sendo os bofes e as partes moles o que melhor serve, como o caboco logo descobriu.

O padre, porém, não sustentou o caboco Capiroba e suas mulheres muito tempo, por três ou quatro razões, a primeira das quais era a pequenez da carcaça e a carne nodosa que, mesmo no filé, apresentava pedaços revoltantes pela dureza e resistência a trato e tempero. A segunda foi que tanta provisão terminou por azedar, nesta atmosfera assombrosamente rica em reimas e princípios putrificadores, sobrando somente a carne-de-sol e a lingüiça. A terceira razão, a quarta e as que porventura ainda pudessem ser enumeradas estariam todas subordinadas a que eles se agradaram de carne de gente, de forma que o caboco Capiroba forcejou mais e mais em caçar um ou outro branco entre aqueles que a cada dia pareciam aumentar, em quantidade e qualidade, por toda a ilha. No primeiro ano, comeu o almoxarife Nuno Teles Figueiredo e seu ajudante Baltazar Ribeiro, o padre Serafim de Távora Azevedo, S.I., o alabardeiro Bento Lopes da Quinta, o moço de estrebaria Jerônimo Costa Peçanha, dois grumetes, quatro filhos novos de ouvidores da Sesmaria, uns agregados, um ou outro oficial espanhol por lá passando, nada de muito famoso. No segundo ano, roubou mais duas mulheres e comeu Jacob Ferreiro do Monte, cristão-novo, sempre lembrado por seu sabor exemplar da melhor galinha ali jamais provada: Gabriel da Piedade, O.S.B., que rendeu irreprochável fiambre defumado; Luiz Ventura, Diogo Barros, Custódio Rangel da Veiga, Cosme Soares da Costa, Bartolomeu Cançado e Gregório Serrão Beleza, minhotos de carnes brancas nunca superadas, raramente falhando em escaldados; Jorge Ceprón Nabarro, biscainho de laivo azedo e enérgico, tutano suculento, tripas amplas; Diogo Serrano, sua esposa Violante, seu criado Valentim do Campo e suas graciosas filhas, Teresa, Maria do Socorro e Catarina, grupo desigual mas no geral consistente, de paladar discreto e digestão desimpedida; Fradique Padilha de Êvora, algo velho e esfiapado, mas o melhor toucinho que por lá se comeu, depois de bem salgado; Carlos de Tolosa e Braga, de quem se fizeram dois troncudos pernis; seis marinheiros do Capitão Ascenso da Silva Tissão, todos de peito demais rijo e um travo de almíscar, porém de louvada excelência nos guisados e viandas de panela funda; o quartel-mestre Lourenço Rebelo Barreto, saudoso pela textura inigualável da sua alcatra, e muitos outros e outras. No terceiro ano, o caboco roubou mais duas mulheres e viu nascer umas quantas filhas, de maneira que, com muitas bocas para sustentar, passou a consumir um número maior de brancos, a ponto de, em alguns períodos, declarar-se uma certa escassez. Até que, bastante tempo depois, as frutas do verão dando em pencas e caindo pelo chão, os insetos em grande atividade e as mantas de tainhas saracoteando irrequietas por toda a costa da ilha, saiu para tentar a sorte meio sem esperança e voltou arrastando um holandês louro, louro, já esquartejado e esfolado, para livrar o peso inútil na viagem até a maloca. 0 flamengo tinha o gosto um pouco brando, a carne um tico pálida e adocicada, mas tão tenra e suave, tão leve no estômago, tão estimada pelas crianças, prestando-se tão versatilmente a todo uso culinário, que cedo todos deram de preferi-lo a qualquer outro alimento, até mesmo o caboco Capiroba, cujo paladar, antes rude, se tomou de tal sorte afeito à carne flamenga que às vezes chegava mesmo a ter engulhos, só de pensar em certos portugueses e espanhóis que em outros tempos havia comido, principalmente padres e funcionários da Coroa, os quais lhe evocavam agora uma memória oleosa, quase sebenta, de grande morrinha e invencível graveolência. Rês melhor que essa, tão pálida e translúcida, encorpada e ao mesmo tempo delicada ao tato e ao delibamento, ao mesmo tempo rija e macia, ao mesmo tempo salutar e saborosa, ao mesmo tempo rara e fácil de caçar, rês como essa não havia cá nem jamais haveria, cabendo ao homem aproveitar sem questionar o que lhe dadiva a Natureza, pois que do jeito que se dá se tira, não sendo outra a fábrica da vida.

Este ano, em cujo início o caboco e sua sempre aumentada família comeram o primeiro holandês, houve ampla fartura, sendo às vezes mais fácil pegar um ou dois deles nos matos que acertar bolo de lama em guaiamum. Mesmo assim, quando uma daquelas cabeças de espiga acenava suas melenas douradas entre as touceiras, ou quando se via o vulto lento de um deles deter a marcha para aspirar os ares como um veado incauto, a emoção da caçada subia ao peito do caboco, o coração saltava e a boca secava na antecipação do cerco, captura e abate daquele belo animal, que, com sua tenacidade, argúcia e resistência, sublinhava o que de mais transcendente e nobre existe na cinegética. Ao encurralá-lo finalmente e matá-lo com um golpe tão rápido quanto possível, às vezes tendo tempo de ouvir os sons sem sentido que emitia antes de tomar a cacetada final, o caboco Capiroba se inflava de orgulho e respeito pela sua presa, freqüentemente observando ao jantar a galanteria do comportamento dela e a honra em que consistia mastigar e engolir aquele taco do que antes fora sua perna, braço ou lombo. Desde que o caboco se entendia, esses recém-chegados de pêlos amarelos e fala diferente da dos outros brancos passavam por ali entre idas e vindas confusas, sempre em luta contra os já instalados, incendiando plantações e trovejando de barcos bojudos em direção à praia. Mas nunca houvera tantos deles quanto agora, às vezes em bandos como formigas ruças, erigindo paliçadas e defesas, escarafunchando a ilha e ocupando as fortificações como se tivessem tomado o lugar dos outros definitivamente. Tanto melhor para a família do caboco, que não sabia a quem agradecer pela abundância, pois estava claro que não era às divindades e santas figuras de que lhes falaram os padres da Redução, já que tanto detestavam que se comesse gente, embora o tivessem ensinado a todos por suas narrações.



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