Viva o povo brasileiro



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Alferes este que, nem bem terminara sua alminha de assistir de longe ao enterro simples que lhe fizeram, já tinha o nome exaltado onde quer que houvesse revolucionários patriotas reunidos, já era evocado como exemplo de valentia e eloqüência, já se tornava objeto de dissertações arroubadas e pungentes.

Talvez haja também a alminha passado demasiado tempo em Amoreiras, durante suas vagâncias desencarnadas pela ilha, pois que as almas não têm muito senso de tempo. Mas talvez nem seja verdade que ela teria sido encantada pelos engodos, ardis e necromancias que se entrelaçam no ar de Amoreiras, porque, cada vez com mais assiduidade e interesse, deu para freqüentar os locais onde o alferes recebia homenagens, deu para vibrar de satisfação, com uma felicidade que jamais experimentara, quando pormenores de sua fala às gaivotas eram lembrados ao povo pelos declamadores, em alexandrinos sinfônicos, ordens inversas arrebatadoras, proparoxítonas troantes como tonéis martelados, metáforas cujos contornos jamais se dissolviam, adornando o ar de esculturas gelatinosas e frementes. Admirou-se mais e mais de si mesma, ouviu tantos relatos de prodígios obrados por homens tais como aquele que fora, que não pensava em mais nada. E assim, uma bola azul elétrico invisível suspensa pelos muitos ventos que povoam o firmamento, a almazinha adiava e ansiava o instante em que se tomaria de perdida paixão e se tornaria uma alma brasileira para todo o sempre, contribuindo para entender-se este fenômeno lembrar que, sim, as almas não aprendem nada, mas sonham desvairadamente.
Pirajá, 8 de novembro de 1822.
Sentado debaixo de uma jaqueira com as pernas esticadas e abertas, comendo um pão de milho meio seco e dando dentadas enormes num pedaço de chouriço assado, Perilo Ambrósio Góes Farinha resolveu reclamar com os dois escravos que lhe faziam companhia, embora eles não tivessem cometido falta alguma e apenas o observassem de olhos famintos. Estava irritado com a comida.

Sempre fora assim, desde pequeno, muito sensível a decepções relativas a comida. Podia ser apenas uma expectativa frustrada, podia ser qualquer coisa, até mesmo alguém que conseguisse chegar antes a um naco em que estivesse de mira feita, apesar da boca cheia e da atenção vigilantíssima que costumava dar a toda a comida sobre a mesa, enquanto devorava fragorosamente a que empilhava nas duas ou três selhas de louça da terra que lhe serviam de pratos.

Lembrou, como de hábito sentindo o peito ofender-se e doer a solidão pesada da injustiça, que o pai ameaçara pela décima ou trigésima vez expulsá-lo da vila e da fazenda, ao vê-lo atacar uma das irmãs com um chuço de assar porque ela se apossara primeiro de um pedaço de carne distante mas cobiçado. Não tinha como alcançar aquela salpresa a resplender entre maxixes e jilós na outra ponta da mesa, nem mesmo podia reservá-la para si com gritos e ameaças, porque o atrapalhava a boca ingurgitada de toras de toucinho com farinha que calcava com ânsia por todos os espaços da boca e, ao mesmo tempo, não se permitia deixar de angustiar-se por medo de furtarem de suas pilhetas abarrotadas bocados já antecipados aos fungos e suspiros, se parasse de lhes dar atenção ainda que alguns instantes. Então não cabia fazer nada, a não ser, com os olhos de uma baleia ferida, voar por cima daquele intolerável abismo entre ele e o pedaço de carne e, antes que a irmã mordesse o que era dele, transfixar-lhe a mão com o chuço preto e gorduroso.

─ Por que me perseguem? ─ pensou em gritar ainda, revoltado, mas, enquanto carregavam para dentro a irmã com o espeto atravessado da palma às costas da mão, as negras levantando uma algazarra descabida, o pai arrancou-lhe a lasca de carne de entre os dentes em meio a uma chuva de tabefes, obrigando-o a sair da mesa e não mais comer naquele dia.

Dentro do quarto em que o pai o trancou, ardeu de ódio e despeito e chorou quase o tempo todo, em soluços esganiçados tão fundos que às vezes pensava que nunca teriam fim. Entre outras vinganças com as quais sonhava de quando em quando e acordava pingando suor, jurou em voz alta que um dia obrigaria aquela irmã a passar fome enquanto ele comesse diante dela, pois jamais, agora que fora ingratamente magoado, existirá em toda a Terra carne suficiente para matar a fome por aquele pedaço usurpado e arrancado à força de seus dentes desesperados.

Expulso de casa, sim, tinha sido, muito depois. Mas isso não queria dizer mais nada agora, chegou quando todos os seus outros rancores já o envenenavam a cada momento do dia.

─ Pois dão-me água a beber! ─ falou, com a voz mais estridente e alta que o normal, como sempre acontecia quando se dirigia aos negros. ─ Água! Não basta que tenha de comer esta massamorda pestífera, há também que lavar a goela com água! Anda lá, dá-me cá esta cabaça!

Feliciano, o negro mais jovem, saiu do sol onde seu amo o obrigara a ficar junto com o outro e apanhou lentamente a cabaça para passá-la.

─ Avia-te, estafermo! ─ gritou Perilo Ambrósio.

Puxando a rolha pela cordinha que a atravessava na parte mais grossa, bebeu ruidosamente alguns goles, baixou a cabaça e deu um pontapé na perna de Feliciano, tão forte quanto lhe consentia a posição escarrapachada.

─ Ficas com esta cara de merda, sem dúvidas porque deixei-os ao sol e lá os deixo pela Eternidade, se tanto me der na telha! E porque querem botar essas bocas de estrumo cá na cabaça de onde bebo esta água imunda que me trazem! Por que me deitaram desta água imunda à cabaça? Por quê? Responde, pedaço d'asno, bosta do demônio! E, se te deixo ao sol, por isso devias ter-me em melhor conta, pois que lá te faço um grande favor, que teus miolos hão de estar acostumados a ser cozidos pelo sol das Áfricas e assim te confortas um pouco. E não me faças cá esta feição de monge silenciário, macaco deslavado, não me faças feição alguma, os negros não têm alma e têm tanto direito a expressar-se quanto o têm porcos e galinhas! O que hás de expressar é a vontade de teu amo, como o que tereis ambos de relatar sobre a minha bizarria e valentia neste combate contra as hostes do Madeira, a padecer a mais triste condição, a comer desta gafanha mortal, a beber desta água pestilencial, na companhia de dois negros sujos e fedorentos que peidam como bugres bêbedos e arrefecem-me cá o ânimo de luta, isto é o que tens de expressar e mais que te ordene!

Levantando um pouco de poeira, um grupo de cavaleiros repontou na estrada de barro que passava pela borda da mata.

Perilo Ambrósio teve um sobressalto. ─ Acode-me cá! ─ disse ao escravo, que lhe estendeu a mão para que se levantasse, o que fez penosamente, a barriga decidida a permanecer no chão, enquanto ele arfava com os joelhos dobrados em grande esforço.

─ Que tens, não mais podes com peso? Não saíste à tua mãe então, que muitas vezes a fodi deitando-lhe em cima todas estas arrobas e não me recordo que houvesse ficado amassada e, se não já se tivesse tornado numa burra pelancuda e cheia da gafa que apanhou aos cães, ainda ia eu lá muitas vezes àquele rabo preto. Mas não há de ser nada ─ acrescentou com um riso obsceno, passando a mão gorda e peluda pelo traseiro de Feliciano ─, pois destes cus da tua família ainda não tive cá o meu quinhão completo, e chegará o dia em que te chamarei a meu quarto para que te ponhas de quatro pés e te enfie toda esta chibata pelo vaso de trás, que nisto lá hás de ser bom. Mas então são milicianos que lá vêm? São os homens do Madeira em debandada? Estão a tirar uma peça de artilharia, por isso que demoram e vão tardar, ainda bem. Crês que são mesmo dos nossos? Tens vistas melhores que as minhas, olha bem. Se me mentes, se me dizes que são dos nossos e não são, será tua última velhacaria, pois que te esfolo antes que cá cheguem. Ouve lá, são mesmo dos nossos? Como passa a batalha, não posso arriscar-me, como passa a batalha?

Nem mesmo o som da batalha chegava-lhes agora como antes, embora antes tampouco houvesse o retumbo tremendo que esperavam. Perilo Ambrósio, que escolhera aquele ponto bem distante da luta para passar o dia, pois aguardava somente que vencessem os brasileiros para juntar-se a eles em seguida, temia que o combate não tivesse terminado ainda e que, por algum azar, fosse obrigado a tomar parte nele. Se queria que os brasileiros prevalecessem, não era por ser brasileiro ─ e na verdade se considerava português ─, mas porque, expulso de casa, abominado pelos pais e por todos os parentes, sob ameaça de deserdação, deliberara adquirir fama de combatente ao lado dos revoltosos. Desta maneira, seu pai, fiel à Corte, já foragido e acusado de todos os crimes e perfídias concebíveis, poderia perder tudo com a vitória brasileira, passando os bens muito justamente confiscados a pertencer ao filho varão, distinto pelo denodo empenhado na causa nacional. Preferia Perilo Ambrósio que a família fosse degredada para muito longe, talvez para Angola, entre pretos cozinhando homens para devorar e moscardos traficando moléstias fatais, mas, na impossibilidade disto, conformava-se com a idéia, que o fazia rolar horas a fio na cama a esfregar uma mecha de cabelo entre os dedos com ar estúpido, de tomar-se senhor absoluto da fazenda, dos negros, das casas e de tudo mais. O que aconteceria com a família não importava agora, era assunto para mais tarde, depois que a situação presente fosse aproveitada da melhor forma.

Eram dos nossos, não havia dúvida. Alguma coisa, pressentia-se daqui, acontecera com as rodas de uma carreta que transportava um canhão pequeno. Dois burros castanhos se esticavam junto às guias da carreta, que mal se movia, apesar da força empregada. Cinco ou seis cavaleiros paradeavam as montarias para a frente e para trás como numa cavalhada, alguns infantes se mexiam em volta da roda direita, a poeira levantada pelos cascos foscava o ar, que ao redor era muito claro, e assim tudo se via como numa pintura antiga, ouvindo-se os estalos do chicote do carreiro, as imprecações e os gritos um pouco depois de haverem acontecido.

─ Que tiram as duas mulas? ─ perguntou Perilo Ambrósio, franzindo os olhos para estudar as figuras distantes. ─ Arrastam um canhãozito de campo, um falconete, é assim que lhe chamam? Trabalho esforçadíssimo, haviam que parar e arranjar a roda, pois que se lhe despega uma, é o que de cá se percebe. Creio que devo ir ter com eles. Quem nos regulares tem os quatro galões e as agulhetas de prata ou oiro? Há uns que vão sempre com dragonas a abanar-lhes os ombros, além de outros ornamentos. A ver cá: depois do cabo-de-esquadra, segue-se o furriel, temos então os cadetes e daí por cima são todos grandes capitães, sargentos-mores e mestres-de-campo. Ouve lá, acreditas que nos dêem boa acolhida e que nos tenham por voluntários desgarrados do Barros Falcão? Como passa a batalha, isto é o que cabe saber, isto sim! Pois, se lá formos e ainda não tiver passado, é mais certo do que o Bom Senhor nos céus que nos chamarão a marchar com eles. Então conto-lhes um par de histórias, que é de mentiras e patranhas que se faz a narração da guerra. E, afinal, estávamos do outro lado do rio e bem que nos podia ter apanhado de rebate o inimigo, não podia? Mas, sim, em questões de batalhas não se leva à conta quem se mostra ansiando da lide, ela ainda continua. Não, não, se devo ter razões com aquele comandante, não hão que ser simples razões, sem nada a mostrar por elas. E então lá não vou sem antes cuidar de alguns aprestos. Anda cá, estafermo de fumo, anda! Apura-te, infeliz!

Pouco depois, somente na companhia de Feliciano, Perilo Ambrósio saudou um tenente, que, ao ver os dois se aproximando, afrouxou a brida e galopou em direção a eles, estacando no miolo de uma nuvem de barro avermelhado.

─ Ferimento à bala? ─ perguntou, pois, assim que parou, percebeu que Perilo Ambrósio trazia o braço esquerdo numa tipóia empapada de sangue, assim como o jaleco e a camisa. ─ Ainda pode andar bem? Vê-se que perde muito sangue.

─ Meu comandante, vinte almudes de sangue tivera, todos os vinte os daria gostosamente, e mais os tivera que os daria pela liberdade ─ respondeu Perilo Ambrósio, com a voz débil e cortada de ofegos lacrimosos.

─ Mas é português, não é?

─ Sim, meu comandante, foi Portugal onde primeiro vi a luz e entre portugueses fui criado, pois que o são meu pai e minha mãe, como hão de ser também os vossos maiores. Mas, se lá vi a luz, cá no Brasil foi que vi a vida e, se falo desta maneira, isto se deve ao que forcejaram desde sempre por meter-me na cabeça, eis que até aos estudos na Corte quiseram enviar-me, não houvera eu lutado para não formar-me em meio aos inimigos da liberdade e da Independência. Meu pai, sim, muito infelizmente, se alia à causa do opressor e isto me parte o coração, sendo eu brasileiro mais que por presença aqui, senão porque me sinto tão nativo a estas terras quanto as aves e os bosques. Eis por que saí da casa dos meus pais, renunciei à fazenda e ao espólio e vim cá combater até não me restar alento, ainda que de pouca valia seja. E já vínhamos desde a madrugada, sem descanso, para nos juntarmos aos homens do grande mestre-de-campo Coronel Barros Falcão, quando, ao vencermos a travessia do rio, pilhou-nos um magote deles. Não fora a bizarria do negro Inocêncio, que vinha na nossa companhia e atacou dois sabreadores inimigos, quando já sucumbia eu pelo balaço de algum escopeteiro que nos fez fogo por trás, aqui não estávamos agora. Esse negro Inocêncio, fiel e bravo, continua lá sob a árvore, malferido, talvez à morte, não pode mexer-se nem ser carregado. Mas ainda estou pronto para o combate, meu Senhor comandante, e no aguardo das ordens de Vossa Mercê.

─ Não, meu bravo, meu camarada ─ disse o tenente, com os olhos detidos de admiração, o corpo inclinado para a frente, as mãos na maçaneta da sela. ─ É necessário que descanses, que cures as tuas feridas. Aqui por este flanco, um pouquinho na direção do Sul, as forças do Madeira nos sufocam, há quem afirme que recebeu reforços de três ou quatro mil homens, porventura muitos mais. Mas também nós temos acolhido reforços de toda parte e não podemos deixar que nossos bons camaradas, os que lutam e derramam sangue pela insurreição, fiquem sem amparo e assistência. Aqueles lá, menos um, estão montados mas são praças a pé, moços de cavalariça que se engajaram. Um deles mostrará o caminho por onde irão encontrar alguma ajuda, algum lenitivo para essas feridas. Não podes perder mais sangue, já foi demais.

─ Não, meu comandante, minhas feridas já as pensou este outro negro que me acompanha e cuja bravura e dedicação são dignas de uma verdadeira pessoa, tanto assim que, a triunfar a causa brasileira como Deus há de ser servido prover, minha tenção é dar-lhe carta de alforria, para que se veja tão livre quanto seremos os brasileiros, embora seja a única propriedade que possuo no mundo.

─ Temo que seja tarde, pois esvaía-se em sangue e já desfalecia quando o deixamos em busca de ajuda, mas causa-me cuidado maior que eu aquele negro lá ao pé da árvore, que com tanta valentia se houve na defesa de sua pátria e de seu amo. Cá por mim posso arranjar-me. Um daqueles cavalicoques que me cedais para mim será um palafrém real e nele, mesmo em marcha descansada, hei de chegar a algum pouso onde me dêem abrigo, pois são muitos os amigos que tenho em toda parte e mais incontáveis ainda os corações generosos.

Com um meneio de cabeça curto e enérgico, o tenente, que lido parecia ter mais de vinte anos e ao falar via-se que fazia esforço para a voz soar mais grave do que de fato era, disse-lhe “pois muito bem" em tom marcial e, segurando o chapéu arniado que balançava um pouco frouxo no cocuruto, galopou de volta a seu grupo. Fazendo apear um dos praças depois de levá-lo até Perilo Ambrósio, passou o cavalo e uma quartinha de água, acenou como quem esboça uma saudação. Com o negro Feliciano cabisbaixo mas ligeiro à frente, Perilo Ambrósio oscilava devagar, montando o cavalo em marcha andadeira, já quase chegando aonde a estrada dobrava por trás dos matos e desaparecia em outra direção. Parou um momento, olhando de longe o tenente desmontar junto da árvore onde tinham estado, andar alguns passos, curvar-se brevemente, tirar e recolocar o chapéu e talvez benzer-se ─ a distância era grande demais para se ter certeza. O tenente montou outra vez e chouteou de volta a seu grupo emoldurado de poeira. Perilo Ambrósio ficou contente em verificar que tudo resultara muito bem até o último pormenor, embora já antes estivesse seguro de que o tenente encontraria Inocêncio morto. Afinal, quando o sangrara à faca para lambuzar-se de seu sangue e assim apresentar-se ao tenente, terminara por dar-lhe mais cuteladas do que planejara, já que os braços e as mãos lhe fugiram do controle e golpeou o negro como se estivesse tendo espasmos. Melhor que haja morrido logo e não se pode negar que de um modo ou de outro deu sangue ao Brasil, pensou Perilo Ambr6sio, voltando as costas e cutucando mansamente as ilhargas do cavalo para tomar de vez a estrada.


Cachoeira, 5 de março de 1826.
Sim, não passou o Imperador aqui mais que um par de horas e a Princesa Imperatriz no capitânea da flotilha estava, no capitânea ficou, mas este domingo cujo sol festeja em todas as casas, plantas e águas, esta manhã em que o ar respirado quase faz as pessoas flutuar, as cores da Rua da Matriz e da Praça da Vila, os vestidos e guarda-sóis de todos os matizes, os sinos dobrando como se tivessem enlouquecido, os homens que ainda saem de calções de cetim branco e sapatilhas como numa corte antiga, as barracas e bandeirolas do dia da visita, os cheiros de cozidos e coentro e pimenta fresca e peixe e frituras africanas, o céu azul-ferrete emoldurando as fortalezas falsas que construíram para agradar Sua Majestade, as pilhas de frutas junto ao rio, os pretos e pretas luzindo entre panos berrantes e falas como flautas exóticas, os meninos correndo entre as árvores em suas fatiotas de ver Deus, os telhados reverberando luz e calor, alguém cantando, alguém olhando o rio, alguém pescando, as portas e janelas abertas, as flores em vasos altos e ramalhudos, tudo isto, sentido daqui da porta da Matriz, passada a missa e começado o dia, parece mostrar que o Imperador do Brasil e seu Perpétuo Defensor ali reside e ali está, para daqui a pouco emergir de um dos três sobrados que lhe destinaram como paços, dando o braço à Imperatriz e, alto e belo como um deus, são para passear entre os cortesãos e o povo, cumprimentando-o e com ele rivalizando em esplendor. Tudo isto prova que vale a pena viver, pensou Perilo Ambrósio, Barão de Pirapuama, de pé à saída da Matriz, enxugando o suor do pescoço com um lenço de brocado inglês. Empinou a grande pança, farejou os ares, certificou-se com um olhar de que a caleça atrelada a um par de cavalos brancos, corpulentos e castrados estava de prontidão no lugar que ordenara, com os dois pretos cocheiros espigados na boléia, de roupas também pretas e colarinhos duros que lhes chegavam quase às orelhas. Considerou vagamente a idéia de repreendê-los por haverem saído do ponto preciso que lhes.havia determinado e terem preferido ficar debaixo de uma mangueira para evitar o sol. Mas logo desistiu disso. Sentia-se benevolente e, além do mais, à sombra também os cavalos e a caleça, que tantas despesas e aborrecimentos lhe causavam, ficavam protegidos do calor. Sabia que, ao subir à caleça para voltar à casa-grande do engenho, teria vontade de procurar, nas roupas dos negros, nos bancos e nas coberturas, manchas de resina pingada da mangueira e, se as encontrasse, poderia perder a cabeça novamente, como cada vez mais lhe acontecia com os pretos. Mas depois pensaria nisso, não se irritaria agora, tinha saído da missa, tinha mais uma vez dado tanto em pitanças que a mão do sacristão quase não suportou o peso das moedas, tinha sentido o coração confranger-se e os olhos úmidos ao soar do tintinábulo na hora da Eucaristia, tinha visto, nas feições de tantos que o saudavam, afeto, admiração e orgulho em serem por ele reconhecidos e, apesar de não gostar de andar e ter um certo asco de algumas das pessoas que certamente lhe falariam e até procurariam tocá-lo, decidiu caminhar pela rua da Matriz abaixo, desfrutando destes ares alegremente carregados do primeiro domingo depois da visita do Imperador e da felicidade, hoje tão completa, de se saber importante para Deus e para os homens.

Socou o lenço volumoso no bolso sem dobrá-lo, ajeitou o chapéu na cabeça e principiou uma marcha paquidérmica em direção à praça. Malditos punhos de renda, malditas mulheres que obrigam a tirar o chapéu e repetir as mesmas saudações.

O sota-cocheiro, com o gogó caroçudo saltando entre as abas do colarinho, correu da caleça, esperando ter de ajudá-lo a subir, como era sua função.

─ Leça-leça? ─ perguntou o negro.

Não sabia falar ainda a língua dos brancos, era negro novo.

Perilo Ambr6sio parou e olhou para aquela figura muito alta, grotescamente espadaúda dentro do casaco preto.

─ Leça? ─ repetiu o preto com um sorriso aparvalhado. ─ Vai-vai? Zenho, vai?

─ Negro imundo ─ disse Perilo Ambrósio, sem saber bem por quê.

─ Ngmundo ─ ecoou o preto. ─ Ngmundo leva leça, vai-vai?

─ Não, não vou para o engenho agora ─ respondeu Perilo Ambrósio, depois de algum tempo em silêncio, ouvindo o negro repetir "leça-leça" e fazer com os braços os gestos de quem carrega alguma coisa corri cuidado. ─ Volta para lá e me espera. Volta!

─ Vota ─ falou o preto, com o mesmo sorriso assustador.

─ Sim, volta.

O preto fechou o sorriso tão repentinamente quanto o havia aberto e, antes de dar meia-volta, pareceu indeciso sobre que lado escolher, meneou o tronco, finalmente correu de volta à caleça.

─ Miolo mole ─ decidiu Perilo Ambrósio.

Mas isto não foi suficiente para tranqüilizá-lo, porque se viu obrigado a reconhecer que, diante daquele negro abobalhado e seu sorriso desagradável, sentira mais uma vez uma espécie de medo. Talvez até mesmo o houvesse escolhido para servir na caleça não somente pelo porte, pela saúde e pela força que o tornavam um escravo invejado, digno de um barão. É possível que tivesse sido também para colocar aquele medo à prova, aquele medo inexplicável e quase corporal que sempre o assediava ao falar com ele. Talvez, se ele entendesse, não o chamasse de negro imundo. Não, não, é claro que chamaria, também não era assim. Seria medo? Como ter medo de uma coisa sua, mais um negro seu entre dezenas e dezenas, uma coisa com a qual podia fazer o que quisesse? Sim, mas também se tem medo de um novilho bravo, de um animal qualquer, até mesmo da bicada de um ganso, cujo pescoço se pode torcer com uma só mão. Não, não era medo, era apenas a sensação desconfortável que todos têm ao conversar com um demente, apenas isto. Contudo, melhor estaria aquele negro servindo na residência da cidade, carregando para a praia os barris de merda produzidos pela casa, bombeando e carreando água e fazendo outros serviços pesados, como pedia seu tamanho.

Bem, mas são somente coisinhas importunas, que surgem à mente para tentar estragar um dia como este, quando a praça já desponta à frente com seu povaréu domingueiro e todas as coisas estão ao alcance da mão e do desejo e nada mais inebriante do que, assim em paz com a consciência, perceber que tudo refletia seu poder. Não era corriqueira, apesar de tudo, a chegada tão natural e sem pompa de um barão a esta praça, onde as figuras do Imperador e de seu séquito ainda pareciam mover-se. Perto do barracão luxuoso em que Sua Majestade recebera as chaves da cidade e do qual até os pardos libertos puderam aproximar-se para ouvir as vozes da Corte, acentos e tons tão diversos dos daqui, que as damas finas e os homens elevados imitam, alguns com perfeição. Se não mais estavam ali o Imperador, seus almirantes, seus vasos de guerra e seus aparatos reais, toda a aura imperial se transferia para os grandes nobres da terra, os que, como Perilo Ambrósio, mesmo não tendo nascido em Cachoeira e mal a conhecendo, haviam alargado sua fama e fortuna por todas as terras do Recôncavo. Não pertencia sua figura austera e imponente um pouco a todo o povo de Cachoeira? Não era ele também, de certa forma, um nobre de Cachoeira, alguém que aquele povo podia citar com orgulho e dizer aos forasteiros “cá também temos os nossos nobres barões"?



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