Viva o povo brasileiro



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Chivarze Leléu, Zinique fai ter canfiança, muito canfiança! -

disse, e disse mais que não deixasse de levar a araçanga da

menina, herdada do pai. Que muitas e muitíssimas coisas iam

acontecer e que ele, Leléu, nunca pensasse que podia imaginar

o que ia acontecer, porque não ia, era muito sabido mas mais

sabida é a vida. E que - fem cá, fem cá, Zinique muitona

canfiança em Chivarzinho Leléu, mó fis, ascuta aqui, atençón

mininré, mó fis, ascuta aqui atençón - Daê estava com filho

na barriga, enxertada pelo barão, pura verdade!

Leléu procurou olhar para Inácia, mas ela continuou agarrada

a ele, puxando-lhe o ombro, com a boca encostada na mão em

concha sobre seu ouvido.

- Inácia. . . - começou a falar ele.

- Hum? - fez ela, parando de cochichar. Mó cafalo,

mó cafalo!

- Inácia é o cavalo dele - disse Honorata. Aí não é

Inácia, é ele. É Sinique, tu não já viu?

Leléu quase suspirou.

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- Está certo, está certo - disse e

vez. - Quer dizer então que Naê ...

- Zut! - Inácia arregalou muito os olhos, pôs o indicador

sobre os lábios e se levantou abruptamente. - Chi! Chissiu!

Chivarze ousado, falador, bocarrota! Zut! - e, antes que ele

pudesse fazer qualquer movimento, empurrou-o com violência e

ele caiu de costas no chão.

- Se ele cochichou, é porque era segredo - disse Honorata.

- Vai-te à merda, Honorata - respondeu Leléu, batendo a

mão na manga da burjaca para sacudir a terra que se grudara

nela e dando um salto para atacar Inácia.

Mas não prosseguiu, porque naquele instante aconteceu alguma

coisa que ninguém soube bem o que era mas fez com que a

passagem do tempo parecesse deter-se, talvez pouco, talvez muitís-

simo, havendo quem pensasse que relampejara, embora fosse

noite estrelada. Sinique, primeiro fazendo barulhos roucos n*

garganta, depois carrapeteando desembestadamente em direção aos

matos, desapareceu na escuridão, ouvindo-se somente um cocorocó

de vez em quando, um bodejo ou outro, sabendo-se que esse

caboco Sinique, quase sempre sem quê nem para quê, gosta

de fazer vozes de bichos de cercado. Leléu não foi atrás dele,

na verdade ninguém a não ser ele se mexeu durante esse tempo

impossível de medir. Talvez fosse porque, atraída para ali havia

lioras, a almazinha tenha chegado perto demais e então, de modo

tão instantâneo que nem as almazinhas saberiam descrevê-lo, en-

trou num torvelinho e se viu, agora com as lembranças apagadas

e a consciência adormecida, dentro do ovinho que nem ainda

conjeçara a rolar pelas entranhas de Naê em direção a seu ninho.

E, se a alminha quase não sentiu nada além do medo impotente

que traz a encarnação e agora nem mesmo se lembra de que não

mais ficará na brisa da ilha a sonhar, muito menos sentiu. Naê,

que naquele instante apenas inspirou um pouco mais fortemente,

como faz toda fêmea fecundada no momento em que um espí-

rito ocupa seu ovinho.

Por isso ninguém soube responder direito a Inácia, quando

ela voltou dos matos desgrenhada, os nós dos dedos ralados a

roupa dilacerada em dois ou três lugares e a peitarrama arfanáo,

e perguntou quanto tempo tinha passado sumida lá fora. Queixou-

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encarou Inácia outra



se com amargor desse caboco Sinique, que mais uma vez a tinha

levado para o matagal, arremetendo por esgalhos e garranchos

sem respeitar urtiga, iiririca, cansanção, coisa nenhuma, inves-

tindo contra todo mourão e vara de cerca que encontrasse, para

deitá-los abaixo com as mãos nuas numa pressa que parecia

que o mundo ia acabar, deixando-a novamente neste estado em

que agora a viam, quisera ela numa hora destas nunca mais ser

cavalo de nenhuns cabocos. Isto, porém, sabiam todos, era de-

sejo vão, porque tão logo se acomodou, depois de beber água,

lavar os olhos e enrolar um torço na cabeça, os ombros mais

uma vez se sacudiram, o pescoço se lançou para trás e - rrreixe!

- foi-se até quase o dia raiar por chegadas e partidas de ca-

bocos, amigos e parentes, cochichos, conversas, consultas, abraços

e preceitos, toda noite ilustrada de aparições e atos mágicos.

Casa do sítio da Armação do Bom Jesus, 15 de junho de 1827.

É possível que tanta teurgia assim lançada à atmosfera, tantos

espectros fazendo ali freqüência, tantos acontecimentos singulares

- a noite bem carregada que Inácia pressentira - houvessem

levado a que o sota-cocheiro da caleça grande, Nego Budião,

fosse nessa noite aconselhar-se com os espíritos silvestres. Ele

ia sempre à capoeira com os outros, mas nunca tivera partici-

paçao a não ser para ajudar, principalmente a Feliciano, cuja

linguagem de gestos entendia como se falada. Fora mesmo através

dele que todos souberam em pormenores como morrera Inocên-

cio no campo de Pirajá, com o sangue roubado pelo barão para

falsificar glória de guerra, e souberam como tinha sido cortada

a língua de Feliciano, mesmo ele havendo chorado e jurado por

todos os santos brancos que se o poupassem jamais diria uma

palavra sobre o assunto. Mas não adiantou - contou Feliciano

a Budião, os braços tremendo, os olhos cheios d'água -, pois

eles apertaram minhas bochechas dos dois lados até que eu

abrisse a boca, puxaram minha língua para fora corri uma tor-

quês, cortaram bem fundo com um cutilão de magarefe e depois

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queimaram o toco no ferro em brasa. Não é só falar - contou

Feliciano dando uns roncos guturais - que a falta de língua

impede, mas não se mastiga, não se engole o cuspe, não se

sente o dente, não se sente o gosto, não se pode conter a baba

e, de vez em quando, no meio da noite, é como se a língua

tivesse voltado a seu lugar, coçando e querendo mexer-se, mas

não se pode coçá-la nem movê-la, porque ela não está lá, é uma

assombração.

Desde a primeira vez em que, Budião lhe traduzindo os gestos

para os que estavam na capoeira, Feliciano deixou todos em

arrepios com sua história, ele sempre repetia sua praga contra

o barão, a qual consistia em que morreria de morte doída e

presa, sem poder confessar os pecados, levando-os embotijados

para seu inferno. Batia no ombro de Budião, fazia o gesto de

quem tira alguma coisa da boca e a joga ao chão, e Budião

já sabia: ele queria rogar a praga outra vez. Embora Budião ,~

conhecesse de cor, esperava sempre que cada palavra fosse geá~.

ticulada por Feliciano, que as escutava com o rosto pregueado,

o ódio lhe esquentando a testa.

Dessas ajudas e da repetição da praga toda vez que Feliciano

pedia, nunca porém passou Nego Budião, havendo sido com

surpresa que lhe notaram a ausência bem antes de a noite ter-

minar. A princípio, julgaram que tivesse ido para o lado do

povo de Nego Lírio ou resolvido escutar as adivinhações de

justina Bojuda, mas, quando saíram já de madrugada, ele ainda

não tinha voltado. Inácia, tonta de tanta trabalheira, disse "ele

volta, ele volta", mas nisso não existia mais que uma suposição

natural. Afinal, aonde iria ele para não voltar mais? Só se a

cob;a mordeu, o bicho comeu, o chão engoliu.

Mas nem cobra, nem bicho, nem chão, pois quem sai senão

ele de trás do milharal, trilhando pelo meio das covas de man-

dioca, espantando os pintos e levantando uma zoada de galhos

mexidos, na mão um embrulho de folhas e uns molhos de ervas,

o calção e o camisu molhados pela umidade das plantas e co,-

bertos de carrapichões. 0 dia amanhecido, Feliciano amarrando

os pés de um frango para capar, duas meninas jogando restos de

siri pilados para as galinhas, o orvalho já se evaporando da horta

e das plantas de folhas largas e Nego Budião chegando com

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aqtjeles olhos desbolados mais abertos ainda do que de costume



C o g(-)gó subindo e descendo. Não queria ser visto, parou na

curva da casa da farinha e fez sinal para Feliciano. Queria

connersal, malocado, estava impaciente. Feliciano desatou as per-

nas do frango, jogou-o de volta ao terreiro e correu para a casa

da farinha, junto da touceira de banana-d'água. Que assanho é

esse, que novidade é essa? Meio sem fôlego, Budião não sabia

por onde começar, apontou para trás com a mão cheia de fo-

lhas. Viu visagem? Vi, respondeu ele, vi. E, deixando a histo-

riação sair na ordem que ela quisesse, contou que naquelas

plantas estava a praga. Não a praga, propriamente, que esta se

encontrava na cabeça de Feliciano, mas a força da praga. Pois,

sem nem se dar por conta, ontem de noite não as achara no

meio dos matos de repente e lá, parecendo que havia uma voz

orientando-o e uma mão a guiá-lo, não colhera dessas plantas

cujas folhas agora mostrava, estando nestas folhas toda a força

da praga, mesmo, mesmo? E, também sem se dar conta, não

voltara aqui certeiro pelos ermos e agora, se lhe perguntassem

onde estivera, não poderia dizer porque não lembrava nada, nada

do caminho? Desta folha faz-se o pó, desta outra a infusão!

Feliciano espalmou as mãos, fez uma careta de incompreensão.

Nego Budião se impacientou, agitou as folhas, quase sapateou.

Será quc Feliciano não se lembrava da praga, da própria praga,

da praga que Budião repetira por ele tantas e tantas feitas? Feli-

ciano fez que sim, um meio sim, e Budião, com seu sorriso

lunático, disse: e então? E então? E pois não é por essas folhas

e tudo mais que me ensinaram muito bem ensinado que o barão

vai morrer de morte doída e presa, sem poder confessar os

pecados?


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Salvador da Bahia, 23 de agosto de 1827.

Fazia mais de um mês que o barão se adoentara e quase um

mes que, forçado pelas circunstâncias e pela confiança crescente

que sua competência e exação lhe asseguravam, Amleto Ferreira

respondia pelo expediente do escritório do Terreiro de Jesus.

Isto queria dizer que conduzia todos os negócios do barão, até

mesmo os mais pessoais, eis que Perilo Ambrósio, com a doença,

alternava sua disposição entre acessos apopléticos de cólera,

quando chegava a blasfemar e arremessar as louças contra a

parede, e estados de fundíssima melancolia, quando mal falava

e permanecia a maior parte do tempo sentado junto ao janelão

com o queixo depositado sobre a barriga, chupando a língua

interminavelmente. Se no começo ainda prestava uma atenção

impaciente aos números minuciosos que Amleto, pelas três da

tarde todos os dias, desfiava no gabinete da casa do Bângala,

remexendo livros de contas, rolos de papel amarelados, letras

e estampilhas, logo se entediou e às vezes nem recebia o guarda-

livros, que neste caso encerrava as tardes tomando chá com

sequilhos e escutando as muitas mágoas e dissabores que nunca

cessavam de afligir a baronesa - culminados, nestes dias negros

de agosto, mês do desgosto, pela roaz doença que ameaçava privá-

Ia do convívio amante de seu Perilo Ambrósio, lá com seu de-

feito ou outro, mas um homem bom. Haveria sempre o destino

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malvado de enviar-lhe uma provação atrás da outra, sempre um



novo espinho em sua fronte, uma nova chaga em seu peito?

Não lhe bastava o seu paizinho, que, ai, nem sequer podia mais

andar e não reconhecia as pessoas mais chegadas? Será que nunca

mais veria a saúde estampada no rosto rubicundo do barão - ai,

nem mesmo as notícias da política e das finanças o interessavam,

sentia que a vida lhe fugia a cada dia, que pecados, que pe-

cados são esses que se estão a pagar com tanto sofrimento, será

que Deus assim não põe em excessiva prova seus melhores filhos?

Ninguém sabia o que causava o mal do barão, descrito pelo

cirurgião Justino José como congestão visceral, agravada por

uma renitente fraqueza nervosa. 0 cirurgião tinha o hábito de

agitar o lábio inferior como quem recolhe ar em conchas,, todas

as ocasiões em que era obrigado a admitir a gravidade de alguma

situação e, por conseguinte, devotava grande parte das consultas

a bater os beiços de um lado da sala para o outro, repetind,9

seu diagnóstico e estalando os nós dos dedos. Não era bom

paciente o Senhor Barão, pois, prevendo o tratamento elegido

que fosse lancetado 26 vezes e tivesse ventosas e sanguessugas

aplicadas tão amiúde quanto demandasse a necessidade de des-

congestionamento, já à terceira lancetada ele espumava de furor

e punha todos para fora do quarto a impropérios e safanões, a

ponto de a presença de mulheres deixar de ser permitida durante

as visitas médicas. Agravou-se dessa maneira a enfermidade, pade-

cendo agora o barão de urinas e bostas presas muito dolorosas,

que o levavam a uivar lastimosamente toda noite, enquanto,

amparado nós ombros de dois negros, sem calças e com a cami-

sola. arrepanhada diante de um penico sustentado por outro

preto, espremia em vão a barriga transformada numa bolha de

fogo, pingando gotinhas de urina avermelhada e ardente, a inter-

valos que a todos pareciam eternos. Não houve o que se não

tentasse das artes e ciências iamológicas, de chazinhos e ele-

tuários recomendados pela sabedoria dos antigos a cataplasmas

ferventes, clisteres, pedilúvios, eméticos, banhos de assento, fumí-

gações, purgativos, águas mornas, emplastros, benzeduras, todos

os recursos, até mesmo o das sanguessugas e lancetas, nas horas

em que, desfalecido e incapaz de resistir ao assalto do cirurgião,

o barão se deixava retalhar como uma árvore da qual se sangra a

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~Ci~,a. Mas, talvez por haver tanto tardado o correto socorro da

'iwa Nledicini, nem sequer essas medidas lhe trouxeram alento,

tendo mesmo aporismado algumas das chagas abertas pelos gol-

i~es da lanceta, não se encontrando medicamento capaz de vencer

a virulência das postemas que a cada momento desabrochavam

em novas fístulas no corpo ensoado do doente. Agora, ao sofri-

mento dos canais escoadores entupidos, adicionava-se o da co-

niichão infernal de tantas perebas lambuzadas de vulnerários, un-

güentos, pomadas e pós, que lhe viravam a roupa da cama numa

espécie de lamaçal untuoso e enchiam o quarto de cheiros inacre-

ditáveis. Pior que isso, quando por acaso fazia efeito alguma

das puçangas que passara a beber indiscriminadamente sem nem

perguntar de que se tratava, não aguardava que lhe acudissem

ao chamado os pretos. Com medo de que, à espera de coma-

dres e penicos, deixasse passar o exato instante e de novo se

prendessem as tripas e a bexiga, soltava-se onde e como esti-

vesse. E, porque muitas vezes corria jorro copioso e irresistivel,

era quase sempre encontrado ainda a meio caminho em seu

alívio, cercado por uma poça rala de cor indefinida, por esten-

tores de peidos e por uma aura de fedor quase tangível, no

centro da qual sua expressão de beatitude pelo desenchimento

lembrava o torso de uma estátua demente.

Apesar de tudo, tais ocasiões eram invariavelmente festejadas,

bendizia-se a tisana que causara a enxurrada, acendiam-se velas,

anunciava-se o início da cura. Mas se, logo nas primeiras horas

que se seguiam, Perilo Ambrósio, abalado, enfraquecido e recean-

do novamente entalar-se em todas as saídas do corpo, passava a

chá de quebra-pedra e pouco mais, cedo sucumbia à fome e ao

despeito de saber que os outros continuavam comendo à vontade

e, ignorando o que lhe ponderavam até mesmo as negras da cozi-

nha, atafulhava-se de tudo em que podia meter as mãos, em ex-

pedições embrutecidas ao fogão e aos guarda-comidas. Inicial-

mente, punha os dedos na garganta para vomitar cada vez que

se sentia empazinado, mas depois ingurgitava o estômago defini-

tivamente, para em seguida dormir, ter pesadelos, gemer, chorar

e acordar passando mal. Buscado de volta o remédio que operara

o milagre anterior, ele não mais fazia efeito, não importava

quanto o escorassem em rezas e promessas e quanto, até com ca-

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rinho, com desvelo mesmo, a mucaminha F-merenciana, conheci-



da por Merinha, o fizesse beber gole por gole, numa paciência

sem fim, da caneca que podia conter a salvação, Tudo porém logo

voltava ao dantes e os corredores do sobradão tornavam a estre-

mecer no meio da noite, iluminados por chamazinhas tênues de

lamparinas e freqüentados por sussurros nervosos, o barão cai-

nhando pela dor de tudo que o intumescia querendo sair sem

poder. E mais uma vez temia-se pela sua vida, pois afundava em

asteriias prolongadas, por vezes dias a fio despencado como uma

fruta passada, sem mesmo esboçar qualquer protesto quando o

cirurgião, já cético quanto à cura, decidiu-se por um tratamento

heróico e o lancetou mais 14 vezes, apresentando aos parentes

o sangue escuro extraído, para demonstrar-lhes a seriedade da

condição do paciente. Prescreveu ainda reputada fórmula carmi-

nativa à base de fedegoso, que já valera a salvação de casos e

mais casos tidos por perdidos, recomendou que, ao sentir sede

o barão, dessem-lhe maná e sena como se dá água a beduínos,

explicou que, quando o barão vomitava e parecia entrar em con-

vulsões,ao ter clisteres injetados velozmente pelas tripas acin~a,

era uma reação denunciante da vitalidade persistente do organis-

mo, proibiu que o doente comesse qualquer coisa que lhe pudesse

fazer volume nos intestinos já tão infartados de matéria fecal

aprisionada, debruçou-se diante de uma folha de papel pautado

em que descreveu os órgãos abdominais e seus diversos humores

simpáticos e antipáticos, listando o que na Natureza combatia

tais antipatias e simpatias de cujo equilíbrio adviria o recobro da

saúde do barão, advertiu severamente a todos sobre a manuten-

ção dos conselhos ali meticulosamente grafados e, levantando-se

com suor e ciência misturando-se na testa molhada, afirmou que

a moléstia estava cercada, tão cercada quanto podia ser cercada,

não ! se encontrando nenhum capítulo da filosofia natural, da ana-

tomia, da própria iatroquímica, que ali não estivesse mais que

judiciosamente aplicado, cabendo apenas contar com a resposta

das vísceras do barão, presentemente mobilizadas contra a morte

de todas as formas possíveis. E, se já de muito o barão não podia

dar a mínima atenção aos negócios, de nada lhe servindo perma-

necer na cidade da Bahia, que tentasse uma mudança de ares,

talvez uma cura de águas na ilha, talvez sarasse pela alteração dos

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l~

princípios etércos da atmosfera circundante. Carregado na cama

ate o de lá transportado com todo o conforto para uma em-

~ic,,,aria à Armação do Bom Jesus em viagem amena,

já certamente estaria melhor. E assim se resolveu que na sexta,

24. dia de São Bartolomeu, o barão ia passar uma temporada

indefinida em Itaparica.

Amicto olhou para o relógio, deteve-se em observar a roda de

escape, cujos dentes se viam por trás do vidro e do pêndulo en-

feitado por miniaturas esmaltadas. Sete horas já eram, o ponteiro

comprido começava a transpor o segundo I do XII exoticamente

serifado que encimava o mostrador. Ele sabia que as horas batiam

uni pouquinho depois de marcadas pelos ponteiros, esperou im-

paciente o momento em que a roda esbarraria numa resistência

maior que a rotineira, daria um pequeno tombo e acionaria o

mecanismo do gongo. 0 funcionamento do escritório começava

oficialmente às sete, mas ele se orgulhava de estar sempre lá às

seis e meia, às seis até, se considerado o tempo em que, colocando

e retirando o pince-nez, passava em andar pompeado pelo Ter-

reiro e pelo Maciel, examinando os arredores e os circunstantes

como se os estivesse permanentemente avaliando. De vez em

quando interpelava um negro ou outro, perguntava-lhe de quem

era, queria saber se tinha bilhete, se podia estar por ali, vagabun-

deando àquela hora. Comentava o fato com outros passantes, cri-

ticava o estado de coisas a que chegava a Nação com a crescente

vadiagem e a conseqüente dissolução dos costumes, finalmente

dava um jeito de encaixar na conversa os importantíssimos negó-

cios que aguardavam seu alvitre. Negócios do Senhor Barão de

Pirapuama - esclarecia, aparentando naturalidade. Ultimamen-

te, contudo, já não conversava tanto, achava até tolice haver feito

tantos esforços para que soubessem de sua posição e atividade.

Sim, tolice, coisa desnecessária, coisa prejudicial mesmo, sob qual-

quer sentido. Continuava chegando à praça às seis, continuava a

circular pelas ruas em torno com a mesma expressão de quem

está o tempo todo prestes a indignar-se, mas gradualmente se fazia

mais distante e reticente, economizava até mesmo as saudações,

antes excessivamente efusivas, às pessoas de bem com quem de

hábito cruzava. Os negros, por seu turno, já o conheciam, temiam-

lhe a inquisição e escondiam-se durante o seu passeio empinado,

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de chapéu alto, bengala encastoada e casaco preto muito bem

passado. Às seis e meia em ponto, assim que começavam a do-

brar os sinos da Ordem Terceira, puxava da algibeira com certa

solenidade a grande chave da porta de baixo, escancarava-a até

as duas partes encostarem nas paredes do vestíbulo. Manejava com

destreza o complicado sistema de trancas e taramelas da porta

do corredor, entrava, passava as trancas novamente e, logo à

direita, subia a escada de madeira e ferro em direção ao andar

de cima. Lá o preto liberto João Benigno, que morava ao rés-do-

chão, no telheiro dos fundos, já devia ter acabado a limpeza para

esperá-lo à porta da saleta. Às vezes se ousava, queria conversar,

queixava-se dos ratos, toda noite para lá e para cá, como se aquilo

fosse deles. Amleto raramente o escutava, quase sempre lhe fazia

um sinal amuado para que calasse a boca, reclamava da poeira

que encontrara sobre a escrivaninha no dia anterior, reclamava

do sujo que vira no passeio à entrada, recusava-se a ouvir expli-

cações e, depois de repetir que o negro não se afastasse da porta

lá de baixo nem a abrisse para estranhos sem consultar alguém,

trancava-se na saletinha. Primeiro, fazia um círculo pela sala,

rente às paredes e armários, uma espécie de inspeção ritual em

que realmente não via nada, embora se detivesse aqui e ali, pas-

sasse a mão num ou noutro pacote de papéis amarrados com bar-

bante, cheirasse um par de vezes o tinteiro grande como quem

tira a tampa de uma panela para sentir o aroma da comida. Ia

à janela, ajeitava as cortinas, perdia o tempo necessário para de-



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