Vitorino Nem sio uma figura dificilm



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Nemésio, o humanista ponte entre as "duas culturas"

uma revisitação de Era do Átomo / Crise do Homem


Vitorino Nemésio é uma figura dificilmente catalogável. Não se desdobrou em personnae como Fernando Pessoa, antes em facetas variadas, todas inconfundivelmente reconhecíveis por idêntico estilo e assinadas pelo mesmo nome.

Os voos poéticos de Nemésio nunca o desprenderam da terra. As plantas e as pedras tinham para ele nome. Observador curioso e atento (malgré as suas proverbiais e professorais distracções) possuía um saber de experiência feito. A poesia e ficção começavam na sua Praia da Vitória, e tudo o mais nele parecia emergir do chão onde tinha profundas raízes. Do chão de Nemésio, para além do provérbio e a quadra popular, o termo ou a expressão idiomática, a história, uma figura ou um mito da sua ilha, faziam parte ainda tanto a cabrinha como a concha, o ovo e o carro de bois, o guizo e o milhafre. Sobre tudo ele deixava incidir uma insaciável curiosidade, dando largas ao genuíno e cândido prazer de esmiuçar as peças do mundo à sua volta. Não o conheci pessoalmente, mas vejo mover-se-lhe o espírito irrequieto nas páginas por ele legadas. Tudo relacionava, tudo ligava, passando facilmente de um dado empírico a uma consideração teórica. Não admira por isso que, a juntar-se à poesia, ao conto, ao romance, à crónica, à escrita de viagens, à crítica literária, à história, ao ensaio de ideias, Nemésio tivesse alargado os seus interesses ao campo das ciências.

O seu livrinho Era do Átomo / Crise do Homem1 é uma colectânea de vinte e três palestras radiofónicas em que se propunha tentar versar o tema crucial do nosso tempo: as dúvidas que se levantam  em certos espíritos, pelo menos  acerca do caminho por onde a civilização conduz o homem moderno.2

O título, explica-nos Nemésio, permite-lhe ganhar um símbolo para exprimir o lado alarmante da crise contemporânea: a despersonalização massificada - e portanto atomística – do tipo de homem que vive ou nele é gerado.

Esse símbolo – o Átomo – tem pois duas funções (...): a de figurar a partícula estrutural da matéria que a terrível bomba tornou célebre (...), e a de afectar de temor de desagregação espiritual o componente da sociedade empenhada nos prodígios do átomo e derivados.3

Nemésio tem a consciência de penetrar um campo que não é o seu e acoberta-se sob o guarda-chuva da poesia para usar simbolicamente uma realidade do domínio da física ("não me esqueço que sou poeta" 4), mas considera-se igualmente um homem das ciências humanas: é caso para perguntar se um homem de ciências humanas, que por acaso sou, pode tratar sofrivelmente dessa premissa inegável da crise histórica actual.5

A resposta que ele próprio dá à antecipada interrogação sobre "a legitimidade do orador para se ocupar do assunto6" é sintomática e reveladora:

Tranquilizaremos os cépticos lembrando-lhes: primeiro, que a epistemologia ou filosofia das ciências7 não é apanágio de matemáticos e de físicos - os quais, embora avantajados para fazê-la se logram preparação teórica do conhecimento para tal, lhes não é lícito exprimirem-se na linguagem cerrada dos seus ramos; segundo, que a revolução e o sentido da ciência positiva actual estão, como objectos de cultura, ao alcance do historiador, e até do culto homem médio, através de excelentes sínteses e exposições especiais.8

Em Era do Átomo / Crise do Homem Nemésio está no seu elemento de manuseador de palavras sempre agarradas a conceitos e a realidades, com o espírito inquiridor em acção, continuamente a espreitar por todas as janelas por onde passa , muitas vezes sem resistir à tentação de dar um salto lá fora e regressar por outra porta a fim de retomar o fio à meada. É Nemésio, o homem da comunicação do impagável Se bem me lembro televisivo, sem barreiras nem capítulos, mas com uma ideia central e uma coerência teórica notáveis a ressaltar da aparente viagem de divagação pelo centro do homem e do universo. E sempre um domínio exemplar do vernáculo, a fazer naturais na língua portuguesa conceitos científicos a que ela parece avessa há mais de quatrocentos anos.9

Crise, Vitorino Nemésio explica na V palestra, não é "uma bancarrota", "mas uma surpresa, uma viragem problemática"10. Trata-se portanto de um termo científico, não de carácter moral. (Thomas Kuhn popularizara já a sua substituição por "revolução científica", mas a obra de Kuhn, hoje clássica, ainda não estava divulgada nos mundos francófono e lusófono.) Nemésio passeia-se por entre Newton e Max Plank, Einstein, Neils Bohr Heisenberg e Oppenheimer, os quanta, a teoria da informação, a indeterminação. Depois, um pouco na peugada de Ortega e Gasset, que conheceu e admirava (recorde-se que Gasset advogava para a Espanha uma ciência romântica11), mas seguindo também Karl Jaspers, entre outros, tece considerações sobre a crise da humanidade na geração pós-bomba atómica. Na penúltima palestra cita mesmo Einstein no seu manifesto aos sábios italianos em 1950:

A potência desencadeada do átomo mudou tudo, menos a nossa maneira de pensar. Precisamos de um modo de pensar essencialmente novo, se quisermos que a humanidade sobreviva. É preciso que os homens transformem radicalmente a sua atitude uns para com os outros e a concepção que têm do futuro.12

Não são no entanto as considerações éticas que pretendo aqui sublinhar, por não ser nelas que reside a faceta singular de Nemésio. Além disso, crises éticas parece que temos vivido constantemente em toda a história e, se assim é, o estado de crise deve ser mais um estado natural da humanidade do que um período de transição. O que cativa no pequeno volume de Nemésio é o escritor, poeta e humanista, revelando-se tão do seu tempo e tão compenetrado da importância do que se passava no mundo das ciências. Numa cultura tradicionalmente letrada, e displicente em relação a tudo o que é empírico (ainda hoje o termo tem sentido depreciativo na linguagem corrente e não só, pois surge também negativamente conotado em contextos académicos), numa mundividência onde ser-se culto não implica ter-se conhecimentos das ciências naturais, e onde os cientistas das ciências naturais têm dificuldade em ser reconhecidos fora dos seus campos de especialidade por não serem "cultos", Nemésio estabelece quase sozinho uma ponte que cruza com naturalidade e num vaivém constante. Como se tivesse querido seguir o apelo de C. P. Snow a deixarmo-nos de viver em duas culturas separadas - a humanista e a científica - e a criarmos uma terceira.13 Snow falava de dois grupos polares: num polo, os intelectuais literatos; no outro, os cientistas, e o mais representativo grupo deles, os físicos. A história é por demais conhecida. Lord Snow perguntava a grupos de literatos se conheciam a Segunda Lei da Termodinâmica14. O resultado era um desencorajador "ninguém", ou "quase ninguém". E isso na inglesa Cambridge, em país de uma cultura creditada como berço da ciência moderna onde o empirismo tem foros de tradição e raízes nacionais.

Entretanto, porque na cultura portuguesa se situa, por outro lado, o perigo do diletantismo, não queria vir aqui sugerir a sua defesa quando não falta quem pense que em Portugal não criámos ainda suficiente especialização. Além disso, cada vez mais se torna impossível, em qualquer parte do mundo, ser-se um homem da Renascença. Russel Jacoby fez uma contagem significativa: em 1987, publicaram-se 215 estudos académicos sobre John Milton, 132 sobre Henry James e 554 sobre William Shakespeare.15 (E suspeito que Jacoby tenha contado apenas publicações em inglês).

Quando pertenci ao Conselho Científico da universidade onde lecciono, recordo-me de uma vez, ao analisarmos as credenciais para promoção de um Professor associado a Catedrático, nos termos apercebido de que o Director do Departamento de Matemática não se comprometera pessoalmente em apoio inequívoco do candidato que apresentava em proposta do seu Departamento. Instado pelo Provost (uma espécie de Super-Vice-Reitor) a esclarecer a sua posição, o matemático, autoridade mundial na sua área específica, confessou ter votado a favor da promoção apenas com base na recomendação do Comité do Departamento que preparara o processo, mas - explicou - essa era uma posição perfeitamente normal e honesta, pois não se tratava de alguém na sua área de investigação. O Provost perguntou-lhe então se os compartimentos eram assim tão estanques no seu Departamento e se não era costume os colegas oferecerem uns aos outros separatas das suas publicações. A resposta foi desconcertante: "Sim, mas de muitas dessas publicações eu não entendo nada. Tratam de áreas muito específicas que só os matemáticos daquela área entendem. E isso é uma situação comum, normal, compreensível e aceitável entre matemáticos."

Mediante isto, perguntar-me-ão: que sentido faz vir então defender as incursões nemesianas em matéria de física atómica, quando elas não passarão nunca de aproximações laicas e superficiais, hoje muito mais superficiais ainda do que na década em que Nemésio escreveu?

A interrogação é legítima. Apesar disso, continua a inspirar-me simpatia a atitude de Nemésio de espreitar pelo buraco da fechadura das ciências a tentar perceber o que de novo se ia passando no outro lado. Mais ainda, apraz-me o ter ele consciência da importância de vir falar disso ao público da rádio, que não é propriamente um auditório de académicos.

Nemésio, o maverick, o sui generis, o pensador por conta própria, o fazedor da moda de si mesmo, era simultaneamente um agarrado ao passado e um moderno do seu tempo. Isoladamente quase, atreveu-se a fazer uma ponte, consciente da importância do conhecimento do que se passa no mundo das ciências naturais para se perceber melhor muitas questões das ciências sociais e das humanidades. Cada vez mais, como afirma John Brockman na introdução ao seu livro Third Culture, um título de referência directa a Lord Snow, embora não exactamente na linha advogada por ele,

/o/s intelectuais literatos não estão a comunicar com os cientistas. Os cientistas estão a comunicar directamente com o grande público. Os media intelectuais tradicionais jogaram um jogo vertical: os jornalistas escreveram para cima e os professores escreveram para baixo. Hoje, os pensadores da terceira-cultura tendem a evitar o intermediário e aventuram-se a expressar os seus mais profundos pensamentos de um modo acessível ao público leitor inteligente.16

O paleontólogo Stephen Jay Gould, um dos mais lidos cientistas do mundo anglo-americano, lamentava-se recentemente nestes termos:

Infelizmente, há pessoas nas artes e humanidades - possivelmente, algumas mesmo nas ciências sociais - que se sentem orgulhosas de saberem muito pouco sobre ciência e tecnologia, ou sobre matemática. O fenómeno oposto é muito raro. Ocasionalmente é possível encontrar um cientista ignorante de Shakespeare, mas nunca se encontrará um cientista que tenha orgulho em ser ignorante sobre Shakespeare. 17

Há semanas, numa conversa longa com José Enes, o filósofo queixava-se de a filosofia contemporânea dominante entre nós ter deixado de se interessar pela ciência com perda grave para a filosofia. Mencionava especialmente a gravidade da situação no caso da cosmologia, que se ficou por meras conjecturas teóricas sem fundamentação rigorosa. Em apoio da sua crítica, remeti há dia a José Enes o programa de uma cadeira de Cosmologia leccionada na minha universidade. Os temas vão da relatividade aos buracos negros e da radiação gravitacional ao universo inflaccionário. Curiosamente a cadeira é leccionada não no Departamento de Filosofia, mas de Física.18

Não se trata de advogar aqui a substituição do conhecimento literário e humanístico pelo científico. Mais do que nunca as ciências naturais têm hoje a consciência dos seus limites19. Veja-se, por exemplo, uma obra como The End of Science, de John Horgan, cujo subtítulo é por si bem elucidativo: Facing the Limits of Knowledge in the Twilight of the Scientific Age20. E cientistas como Stuart Kaufman, do vanguardíssimo Santa Fe Institute, advogam até o retorno do sagrado, agora que "a ciência nos fez perder o nosso paraíso ocidental, o nosso lugar no centro do mundo"21.

Ao ler Nemésio, apetece-nos repetir o que Lord Snow dizia de Ibsen: "there wasn’t much that old man didn’t understand".22 Era do Átomo / Crise do Homem é um livro do final da vida, de um espírito amargurado e preocupado com o ambiente difícil que em Portugal se vivia, onde até o socialismo se declarava científico. Esse pano de fundo é fundamental para se compreender o tom excessivamente moralizante das palestras finais:

O homem é senhor do seu destino, mas dentro das calhas dele. A mentalidade científico-positiva, o tecnicismo moderno, o espírito fáustico, a crença no progresso indefinido, a euforia saída da revolução industrial, a fé na "construção do socialismo" revolucionário, enfim, qualquer dos infinitos nomes que se dão e podem dar à mentalidade do nosso tempo corresponde a uma realidade civilizada e cultural de séculos, a um caminho ou vereda por onde o homem enfiou com toda a energia da história e que não pode arrepiar por uma súbita opção do tipo do voto de Einstein.23

Muito mudou neste cenário. Por sinal, afastando-se exactamente do paradigma criticado por Nemésio. Hoje, rodeá-lo-ia um ambiente muito mais propício, interessado em ouvi-lo e em dialogar com ele. Teria muito mais acesso a livros que debatem questões científicas, em linguagem inteligente e directa como a dele. Teria assim muito mais aonde ir beber e aprender, com o seu espírito omnívoro, para depois vir, à sua maneira e estilo inconfundíveis, em crónicas, ensaios, palestras radiofónicas ou charlas da televisão, dizer-nos o que pensava e o que o preocupava de tudo isso.

E quedo-me por aqui, a ver se bem me lembro do exemplo deste sábio Mateus Queimado.

Onésimo Teotónio Almeida, em Vitorino Nemésio. Vinte Anos Depois – Actas do Colóquio Internacional, Ponta Delgada – Lisboa, Edições Cosmos, 1998, pp. 535-541.


1 (Lisboa: Livraria Bertrand, 1976)

2 Id., p. 9.

3 Id., p. 10.

4 Id., p. 9.

5 Id., p.13.

6 Ibidem.

7 Vitorino Nemésio é de tradição francófona e por isso utiliza indiferentemente "epistemologia" e "filosofia das ciências". Na tradição anglo-americana esses são dois campos especializados: o primeiro, lidando com as questões teóricas do problema do conhecimento; o segundo, com as questões teóricas da investigação científica.

8 Id., p. 13

9 A afirmação fica aqui simplesmente assim, mas documentei-a no ensaio "Sant’Anna Dionísio e A Não Cooperação da Inteligência Ibérica na Criação da Ciência - uma revisitação", in J. Pinto Peixoto et al., História e Desenvolvimento da Ciência em Portugal no Séc. XX (Lisboa: Academia das Ciências, 1992), pp. 1707-1731.

10 Op. cit., p. 33.

11 "Nuestra ciencia será, pues, siempre indisciplinada y como tal fanfarrona, atrevida, irá ganando la certidumbre a brincos y no paso a paso, acordará en un momento sus andares con la ciencia universal y luego quedará rezagada siglos. Ciencia bárbara, mística y errabunda ha sido siempre y presumo que lo será, la ciencia española.

(...)


Que la ciencia alemana es una ciencia clásica? Convenido: la ciencia española será una ciencia romántica." José Ortega y Gasset, in La Polémica dela Ciencia Espanõla. Introducción, selección y notas de Ernesto y Enrique García Camarero (Madrid: Alianza Editorial, 1970), pp. 418s.

12 Op. cit., p. 138.

13 Ver C. P. Snow, The Two Cultures: and a Second Look. An expanded version of the two cultures and the scientific revolution (Cambridge: Cambridge University Press, 1959.

14 Id., pp. 14s.

15 Russel Jacoby, "A New Intellectual History", American Historical Review, vol. 97 (April, 1992), p. 403.

16 John Brockman, The Third Culture ((New York: Simon & Schuster, 1995), p.18. Tradução minha.

17 Afirmação transcrita em John Brockman, op. cit., p. 22. (Tradução minha).O livro é uma original e bem sucedida montagem de entrevistas a um grupo de cientistas entrevistados separadamente, mas que falam de, e comentam, os trabalhos uns dos outros.

18 Physics 210, "General Relativity and Cosmology", leccionada por R. Brandenberger, no Departamento de Física da Brown University, 2º semestre de 1997-98.

19 Daniel Dannett, um dos filósofos anglo-americanos mais respeitados pelos cientistas, por entrar em diálogo com eles e possuir um conhecimento prodigioso de alguns dos grandes problemas das ciências contemporâneas, conta a "visão romântica" de outro cientista, Nick Humphrey. Em artigo publicado no London Observer a comemorar o quarto centenário do nascimento de Isaac Newton, Humphrey referia-se à afirmação de C. P. Snow de que Newton era um Shakespeare científico. "Nick disse que isso estava errado: se Newton não tivesse feito o que fez, mais cedo ou mais tarde alguém o faria, provavelmente bem cedo. Todavia, se Shakespeare não tivesse feito o que fez, nunca ninguém o teria feito. Newton fez coisas à maneira de Deus; Shakespeare fez coisas à sua maneira". Afirmação transcrita em John Brockman, Op. cit., p. 206. Aqui inverteram-se os papéis: o cientista é que tem a visão romântica da ciência; o filósofo é um cientista da linha dura.

20 (New York: Random House, 1997).

21 Stuart Kauffman, At Home in the Universe. The Search for the Laws of Self-Organization and Complexity (New York: Oxford University Press, 1995), p. 303.

22 C. P. Snow, op. cit., p. 25.

23 Op. cit., p. 139.





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