Viagens de Gulliver artigo



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Machado, M. N. da M. & Viana, E. A. de S. Um discurso da desigualdade social em Viagens de Gulliver, de Swift





Um Discurso da Desigualdade Social em Viagens de Gulliver, de Swift
A Social Inequality Discourse in Swift’s Gulliver’s Travels


Marília Novais da Mata Machado1




Eliete Augusta de Souza Viana2




Resumo
A análise do livro Viagens de Gulliver, de Jonathan Swift, é parte de uma pesquisa maior que tem como objetivo apreender o discurso da eqüidade e da desigualdade sociais (Deds) em obras que envolvem sociedades fictícias (utopias, lendas, poemas, romances e aventuras). Nessa pesquisa, buscam-se as significações imaginárias sociais de eqüidade e de desigualdade sociais, assim como as condições de produção das narrativas. As significações são retiradas do texto, depois de lido cuidadosamente e transformado em corpus empírico de análise; as condições de produção são buscadas em biografias do autor e informações sobre o contexto e a situação em que a obra foi escrita. Viagens de Gulliver foi publicado pela primeira vez em 1726 e até hoje constitui leitura para crianças e adultos. A análise aqui apresentada, que se refere apenas à segunda parte do livro, “Viagem a Brobdingnag”, revelou um discurso da desigualdade social que advoga os méritos da aristocracia.
Palavras-chave: discurso da eqüidade e da desigualdade sociais, imaginário social, análise do discurso, Swift, Viagens de Gulliver.

Abstract

The analysis of the book Gulliver’s Travels, written by Swift, is part of a research program aiming to apprehend the Discourse of Social Equality and Inequality in literature texts describing fictional societies (utopias, legends, poems, romances and adventures). In this research, imaginary meanings of social inequality and conditions within which the discursive material was produced are searched. The social imaginary meanings are investigated directly in the text, carefully read and transformed in empirical corpus for analysis. The conditions of speech production are searched in biographies of the author and in contextual information about his time and situation of writing. Gulliver’s Travels was published in 1726 and continues to be read by children and adults. The analysis presented in this article refers only to the second part of the book, “Travel to Brobdingnag”. It reveals a social inequality discourse that advocates the aristocracy worth.


Key words: social equity and social inequality discourses, social imaginary, discourse analysis, Swift, Gulliver’s Travels.

Introdução

Este trabalho analisa “Viagem a Brobdingnag”, o país dos gigantes, parte da obra Viagens de Gulliver, de Jonathan Swift (1667-1745). Ele está inserido em um projeto mais amplo, que investiga o discurso da eqüidade e da desigualdade sociais (Deds) em obras de ficção – utopias, lendas, romances e aventuras –, envolvendo sociedades imaginárias (Machado, 2005; 2007).

A pesquisa do Deds fundamenta-se teoricamente na noção de domínio social-histórico de Castoriadis (1982; 1987; 1999; 2007), que leva ao estudo simultâneo de significações sociais imaginárias presentes nas obras e de determinações históricas, sociais, geográficas, econômicas e lingüísticas múltiplas que interferiram na escrita.

Em outras palavras, postula-se uma dimensão imaginária, formada por um “tecido imensamente complexo de significações que impregnam, orientam e dirigem toda a vida da sociedade e de todos os indivíduos concretos que, corporalmente, a constituem” (Castoriadis, 1987, p. 230) e uma outra dimensão que opera, de acordo com o pensamento herdado, segundo o esquema da determinação, mediante noções postuladas como distintas e definidas (elementos, classes, propriedades, relações, categorias, etc).

Assim, em cada obra analisada, buscam-se instâncias imaginárias de eqüidade e desigualdade sociais, focando-se situações descritas como igualitárias ou, ao contrário, passagens em que alguns tomam decisões relativas às próprias vidas e outros se sujeitam. Ao mesmo tempo, em consultas a dicionários, enciclopédias, sites de internet, biografias e outras obras de referência, buscam-se as condições de produção do texto, considerando em especial a época e o lugar de sua criação.

Para a análise do discurso, adotam-se procedimentos baseados em Pêcheux (1990a) e Foucault (1987), recorrendo-se, em especial, à noção de formação discursiva, proposta inicialmente por Foucault (1987) – para quem essa noção implica “um conjunto de regras anônimas, históricas, sempre determinadas no tempo e no espaço, que definiram, em uma dada época e para uma determinada área social, econômica, geográfica ou lingüística as condições de exercício da função enunciativa” – e modificada por Pêcheux (1990b) no âmbito da análise do discurso:


A noção de formação discursiva tomada de empréstimo a Michel Foucault começa a fazer explodir a noção de máquina estrutural fechada (...): uma formação discursiva não é um espaço estrutural fechado, pois é constitutivamente ‘invadida’ por elementos que vêm de outro lugar (isto é, de outras formações discursivas). (p. 314)
Isso quer dizer que uma palavra ou um termo, em um discurso, nunca tem uma significação unívoca, todo o seu sentido dependendo de um interdiscurso, de um espaço exterior, imaginário e determinado.

Na prática da pesquisa em pauta, a obra é considerada como texto ou enunciado. Inicialmente, constrói-se um corpus, unidade empírica a ser tratada. O corpus mantém o encadeamento da narrativa inicial, o enredo, o sentido, as menções a situações de eqüidade e desigualdade sociais e exatamente as mesmas palavras do livro trabalhado, além das respectivas indicações de páginas. É um dispositivo prático que permite múltiplas releituras em busca do discurso da eqüidade e da desigualdade sociais presente na obra. Esse discurso será apreendido e compreendido à luz de suas condições de produção.



O autor e sua época

Swift viveu nos anos de transição entre o feudalismo e os primeiros sinais da revolução industrial. Quando nasceu, em 1667, na Irlanda, a Igreja Anglicana episcopal, vinculada ao Estado e ao rei, estava consolidada. Suas bases haviam sido construídas na regência de Henrique VIII (1509-1547), que rompera com Roma e o papa. A Inglaterra já vivera o movimento puritano que desembocou em guerra civil e na república revolucionária (1649-1660), sob a liderança de Cromwell. A contra-revolução já ocorrera, com a restauração dos Stuarts no poder. Era a época de Carlos II (1660-1685), que restabeleceu o prestígio da Igreja Anglicana, o poder da Coroa inglesa e promoveu perseguições políticas e religiosas que afetaram a Irlanda, predominantemente católica.

Nessa época, consolidaram-se os dois partidos políticos oponentes que viriam a se suceder no poder: de um lado, os tories, conservadores, anglicanos, ortodoxos, defensores das prerrogativas absolutistas dos reis e dos interesses dos proprietários de terras; de outro lado, os whigs, puritanos, tolerantes aos católicos papistas e aos protestantes não submissos ao anglicanismo (presbiterianos, metodistas e quacres), parlamentaristas, republicanos e democratas, moralistas. Nesse partido incluíam-se aristocratas representantes das classes mercantis (Soares, 2001). Influenciado pelas duas ideologias, Swift serviu a uma e a outra.

Filho póstumo de um inglês, ficou sob a tutela de um tio, que o colocou, aos seis anos, na escola de Kilkenny, de onde ele passou para o Trinity College, de Dublin (1681-1686). Eram os anos da Restauração, mas com forte presença whig puritana: grassavam o espírito capitalista, a defesa do individualismo, das liberdades políticas e de consciência, e a crença nos direitos naturais das pessoas.

Em 1688, morreu o tutor de Swift. No mesmo ano, ocorreu a queda dos Stuarts, com a deposição de Jaime II (1685-1688) que, embora católico e absolutista, era aliado dos tories. Foi deposto pelo parlamento na Revolução Gloriosa (1688-1689), que instituiu definitivamente a Monarquia Constitucional Parlamentar. Assumiu Guilherme de Orange (William II, 1688-1702), holandês, membro da casa de Hanover, whig que, embora adepto da tolerância religiosa, promulgou leis opressoras para os irlandeses católicos: foi-lhes vedado o exercício de funções públicas, religiosas e de magistério, entre outras.

Aos 21 anos, desprotegido, pobre e sem alternativas, o jovem Swift mudou-se para a Inglaterra, onde vivia sua mãe. Graças a ela, obteve emprego como guarda-livros em Moor Place, propriedade rural de Sir William Temple, historiador, ensaísta, diplomata, aparentado com Swift. Trabalhou com livros de contabilidade entre 1689 e 1694. Nesse último ano, após doutorar-se em Teologia pela Universidade de Oxford, conseguiu um posto de cônego na Irlanda. Ordenado ministro anglicano, ficou ligado profissionalmente a essa igreja (tory) até o final da vida.

Mas a vida religiosa não lhe aprazia. Retornou a Moor Place. De 1696 a 1699, ano da morte de Temple, foi secretário do diplomata. Em 1696, escreveu Conto do tonel, atacando a vida religiosa e, em 1697, A batalha dos livros, satirizando whigs e tories.

A sátira, fórmula preferida de Swift, era então uma tendência marcante na literatura inglesa. Swift a aprimorou, criticando e ridicularizando vícios e defeitos.

Desempregado novamente, voltou à Irlanda em 1699. Alinhou-se, por um breve período, aos whigs (1701). Stella (Esther Johnson), sua paixão desde os primeiros anos em Moor Place, seguiu-o, fixando-se em Dublin. Consta que teriam se casado secretamente em 1716, fato não confirmado por historiadores. Swift teve outras paixões. Por Varina (Jane Waring), aproximadamente em 1694 e, em 1707, quando foi diversas vezes a Londres, por Vanessa (Esther Van Homrigh), que também o acompanhou à Irlanda e desentendeu-se com Stella. Para as três ele escreveu poemas. O Diário para Stella (1710-1713), cheio de ternura, espontaneidade e ingenuidade, valeu-lhe sucesso, seguido de prestígio político e influência no governo (Andrade, 1965).

Os amores de Swift, sempre recobertos de segredos, foram tratados em algumas de suas biografias. Orwell (2005, p. 211), por exemplo, sugere que ele “era provavelmente impotente e tinha um horror exagerado ao excremento humano: também pensava nisso sem cessar, como está claro em todas as suas obras”. Para Orwell (2005), Swift era também rancoroso, pessimista, autoritário, conservador, reverente ao passado, especialmente à idade clássica, pouco curioso, hostil à ciência, e nutria um fascínio mórbido pelo corpo humano.

Orwell (2005) se detém longamente sobre o caráter e as concepções políticas do escritor: “É um anarquista conservador, que desdenha a autoridade ao mesmo tempo que não crê na liberdade, que preserva o ponto de vista aristocrático ao mesmo tempo que percebe claramente que a aristocracia existente é degenerada e desprezível” (p. 210). E mais:
Sem sombra de dúvida ele detesta nobres, reis, bispos, generais, damas da moda, ordens, títulos e lisonjas em geral, mas não parece ter o homem comum numa estima mais elevada do que seus soberanos, ou ser favorável a uma igualdade social maior, ou ser um entusiasta das instituições representativas. (p. 207)
Ao lado das más qualidades, entretanto, Orwell reconhece nele um excelente escritor, partidário da civilização e das artes, avesso ao totalitarismo.

Em 1713, Swift foi nomeado deão da Catedral de São Patrício, da Igreja Anglicana, graças aos serviços que prestou ao gabinete dos tories durante o reinado da rainha Ana (1702-1714). Ele aspirava ao posto mais elevado, mas a rainha não aprovara alguns de seus escritos.

Em 1714, Jorge I (1714-1727) assumiu o trono, dando primazia aos whigs. Swift desistiu então da vida pública, mas continuou escrevendo sátiras e poemas. Como, em suas obras, defendeu o povo irlandês massacrado pelas leis inglesas, tornou-se muito popular em sua terra.

Viagens de Gulliver foi publicado anonimamente em Londres, em 1726. O autor estava, então, perto dos 60 anos. O livro critica a vida política e social da Inglaterra, as fraquezas e hipocrisias tanto de whigs quanto de tories. Em Lilipute, por exemplo, pouso da primeira viagem de Gulliver, uns usam saltos altos, enquanto outros usam saltos baixos; guerreiam entre si para determinar de que lado um ovo deve ser quebrado.

Foi justamente em 1726 que o filósofo francês Voltaire exilou-se na Inglaterra. Suas Cartas inglesas trazem passagens úteis para se entender as condições de produção do discurso de Swift, tais como esta em que se refere a um dos dramas vividos pelo autor de Viagens de Gulliver, a dificuldade de se obter emprego e posição na Inglaterra:


Aqui é o país das seitas. Um inglês, como homem livre, vai para o céu pelo caminho que lhe agradar. (...) Entretanto, embora cada um possa servir a Deus a sua moda, sua verdadeira religião, onde faz fortuna, é a seita dos episcopais, chamada Igreja Anglicana ou Igreja por excelência. Não se pode ter um emprego, tanto na Inglaterra como na Irlanda, sem se estar no número de fiéis anglicanos. Esta razão, excelente prova, converteu tantos não-conformistas, que hoje em dia só a vigésima parte da nação está fora do regaço da igreja dominante. (...) O clero anglicano manteve muitas cerimônias católicas, sobretudo a de receber os dízimos com uma atenção bem escrupulosa. Também têm a piedosa ambição de serem senhores. (Voltaire, 1978, p. 9)
Nessas condições, a posição de Swift era bastante delicada. Por um lado, ocupava o posto nada desprezível de deão da Igreja Anglicana, do qual não gostava. Por outro, apoiava muitas vezes os whigs, o que frustrara, na Igreja Anglicana, suas chances de promoção, dependentes de protetores e governantes.

Os aspectos positivos da situação política na Inglaterra, que Voltaire ressalta, são justamente aqueles que o conservadorismo de Swift não tolerava, como se verá:


[Na Inglaterra, o fruto das guerras civis foi] a liberdade. A nação inglesa é a única da terra que chegou a regulamentar o poder dos reis resistindo-lhes, e que de esforço em esforço chegou, enfim, a estabelecer um governo sábio, onde o príncipe, todo-poderoso para fazer o bem, tem as mãos atadas para fazer o mal; onde os senhores são grandes sem insolência e sem vassalos, e onde o povo participa do poder sem confusão. A Câmara dos Lordes e a Câmara dos Comuns são os árbitros da nação. O rei, o super-árbitro. (...) [A finalidade do governo da Inglaterra] não é a brilhante loucura das conquistas, mas impedir que sejam feitas por seus vizinhos. Seu povo zela não apenas por sua própria liberdade, mas também pela dos outros. (...) Sem dúvida, custou caro estabelecer a liberdade na Inglaterra. Nos mares o sangue afogou o ídolo do poder despótico, mas os ingleses não julgam ter pago um preço muito alto por suas leis. Outras nações não tiveram menos perturbações do que eles, nem verteram menos sangue; e, no entanto, o sangue que espalharam pela causa da liberdade apenas cimentou sua escravidão. (Voltaire, 1978, p. 13)
Em 1729, ano em que terminou o exílio do filósofo francês, Swift publicou o seu mais exaltado libelo: Modesta proposta para impedir que os filhos dos pobres da Irlanda pesem sobre seus pais ou sobre seu país, tornando-os úteis ao público, em que recomenda sarcasticamente que as crianças irlandesas sejam bem alimentadas, para que se tornem o próprio alimento dos adultos.

Swift morreu em 1745, em Dublin, surdo e completamente louco. Seu corpo está enterrado na Catedral de São Patrício.



Gulliver em Brobdingnag


Viagens de Gulliver inspira-se nos relatos de viajantes das expedições de descobrimento, em voga desde 1487: “Embarquei nas Dunas, em 20 de junho de 1702, a bordo do navio À ventura” (Swift, 1965, p. 85). A linguagem é clara, simples e precisa.

O protagonista, Lemuel Gulliver, médico cirurgião, decidiu viajar por gosto e ao ver sua clínica fracassar por falta de clientes após a morte de seu professor e protetor, Sr. Bates. A história do viajante assemelha-se à de Swift, que sempre buscava a proteção de algum nobre ou político para se estabelecer, tal como Sir William Temple, em Moor Place, e o gabinete tory na época da rainha Ana.

Na primeira viagem, Gulliver chega acidentalmente a Lilipute, o país dos anões, condição que logo remete à pequenez da humanidade, descrita como mergulhada em competições ridículas e mesquinhas.

A segunda viagem, objeto de nossa análise, levou Gulliver, também por acidente, a Brobdingnag, terra habitada por gigantes. Reaparecem miséria e mesquinhez humanas, mas agora através de caricaturas que exageram o tamanho dos habitantes para ressaltar “que não há grande nem pequeno senão por comparação” (Swift, 1965, p. 90).

O viajante se vê perdido, reduzido ao desespero diante dos seres colossais daquele país. Se em Lilipute era um gigante que amedrontara a todos, agora, na posição inversa, era a criatura mais insignificante da terra.

Gulliver foi encontrado por um lavrador que se tornou seu amo, colocou-o sob os cuidados de Glumdalclitch, sua filha de nove anos, e passou a exibi-lo publicamente.

Quando chegaram à capital do país, Gulliver estava quase morrendo de fome e cansaço de tanto trabalhar. Já tendo auferido bons lucros, o lavrador o vendeu à rainha, junto com Glumdalclitch, para lhe servir de governanta.

Gulliver passou a ser objeto de recreação da rainha e vítima do anão da corte, enciumado por perder prestígio. Nas horas vagas, o rei conversava com Gulliver sobre as instituições inglesas – parlamento, justiça, religião, administração, etc. Falavam também de uma sociedade ideal, fundada na razão, na justiça e na brandura.

Nessas conversas, o autor parece falar pela boca de seu personagem. Segundo Orwell (2005), “é difícil não sentir que, nos momentos mais perspicazes, Gulliver é simplesmente o próprio Swift” (p. 196). Vejam-se as passagens:
[O rei ficara] extremamente admirado com a narrativa que lhe fizera da nossa história do último século, que não passava, segundo ele, de um encadeamento horrível de conjurações, de rebeliões, de chacinas, de morticínios, revoluções, de exílios e dos mais horrendos defeitos que a avareza e o espírito de facção, a hipocrisia, a perfídia, a cruzada, a raiva, a loucura, o ódio, a inveja, a maldade e a ambição podiam engendrar. (Swift, 1965, p. 134)
Sua Majestade (...) tomando-me nas suas mãos, (...) exprimiu-se por estas palavras (...) :
Meu querido amiguinho Grïldrig, fizeste um panegírico bem extraordinário acerca do teu país; provaste à evidência que a ignorância, a preguiça e o vício podem ser, às vezes, as únicas qualidades de um homem de Estado; que as leis são esclarecidas, interpretadas e aplicadas o melhor possível por indivíduos cujos interesses e capacidade os levam a corrompê-las, a embrulhá-las e a iludi-las. Noto entre vós a constituição de um governo que, no seu princípio, foi talvez suportável, porém que o vício desfigurou por completo. Não me parece até, por tudo quanto me disseste, que uma única virtude seja requerida para alcançar alguma função ou algum lugar eminente. Vejo que os homens não são enobrecidos pela virtude; os sacerdotes não avançam pela piedade ou pela ciência; os soldados, pelo seu comportamento ou pelo seu valor; os juízes, pela sua integridade; os senadores, pelo amor da pátria, nem os homens de Estado pelo seu saber. Mas quanto a ti, que passaste a maior parte da vida em viagens, quero crer que não tenhas enfermado dos vícios do teu país; mas, por tudo o que me referiste a princípio, e pelas respostas que te obriguei a dar às minhas objeções, suponho que a maioria dos teus compatriotas é a mais perniciosa casta de insetos que a natureza jamais suportou que rastejasse sobre a superfície da terra. (Swift, 1965, pp. 134-135)
Gulliver permanece por dois anos em Brobdingnag, sempre pensando em escapar dali para reconquistar a “dignidade de sua natureza humana” (Swift, 1965, p. 146) e relacionar-se com os seus iguais: “Ai! quem sou eu — dizia de mim para mim — eu, que estou abaixo de nada em comparação com esses homens que se consideram tão pequenos e tão insignificantes!” (Swift, 1965, pp. 142-143)

Era, na verdade, tratado com grande bondade; era o favorito do rei e da rainha e as delícias de toda a corte; mas estava numa situação que não convinha à dignidade da minha natureza humana. (Swift, 1965, pp.145-146)

Os gigantes, assim como a sujeira que via por toda parte, o repugnavam:
Um dia, fizemos parar o coche em diversas lojas, onde os mendigos, aproveitando o ensejo, se amontoaram junto das portinholas e me patentearam os mais horrorosos espetáculos dados a ver a olhos ingleses. Como eram disformes, estropiados, sujos, cheios de chagas, de tumores que à minha vista pareciam enormes, peço ao leitor que ajuíze da impressão que essas misérias me causaram e me poupe o descrevê-las. (Swift, 1965, p. 116)
Um dia, como sua protetora Glumdalclitch adoeceu, ele foi levado à praia por um pajem, que se descuidou dele. Capturado nos rochedos à beira-mar por uma águia, foi lançado ao oceano, protegido pela caixa de madeira em que vivia. Um navio inglês o resgatou.

Quando finalmente chegou à sua casa, teve grande dificuldade em se ajustar ao tamanho do lugar e das pessoas:


Quando cheguei a minha casa, que reconheci a custo, um dos criados abriu-me a porta e eu baixei a cabeça para entrar, com receio de dar alguma cabeçada; essa porta parecia-me um postigo. Minha mulher correu logo para me beijar, mas curvei-me até a altura dos seus joelhos, temendo que não chegasse à boca. Minha filha saltou-me para os joelhos a fim de me pedir a bênção, mas só pude distinguir-lhe as feições quando se levantou, estando desde muito acostumado a estar de pé, com a cabeça e os olhos erguidos para cima. Considerei todos os meus criados e uns dois amigos que ali se encontravam como pigmeus e a mim como um gigante. Disse a minha mulher que ela tinha sido muito frugal, por­que eu achava que ela própria estava reduzida, assim como a filha, a coisa nenhuma. Numa palavra, pro­cedi de maneira tão estranha que todos formaram de mim a mesma opinião que o capitão formara quando me viu a bordo, e concluíram que eu ensandecera. Pormenorizo estas coisas para tornar conhecido o grande poder do hábito e do preconceito.

Em pouco tempo me habituei à mulher, à família e aos amigos; minha mulher opinou que eu não tornaria a embarcar; no entanto, a minha má estrela ordenou precisamente o contrário, como o leitor poderá verificar pelo seguimento. Entretanto, é aqui que finda a segunda parte das minhas mal-aventuradas viagens. (Swift, 1965, pp.157-158)


Gulliver realizou ainda duas outras viagens. A terceira o levou à Lapúcia, uma ilha flutuante, a Balinibardi, terra de cientistas malsucedidos, a Glubbdudrib, ilha de feiticeiros, e a Luggnagg, habitada por uma raça de imortais. A quarta o levou ao país dos Huyhnhnms, governado por cavalos racionais.


Análise

Analisou-se o corpus de 16 páginas, 9.472 palavras, 56.048 caracteres sem espaços, construído a partir do texto traduzido de Swift (1965, pp. 85-158) sobre a viagem a Brobdingnag.

A igualdade social é mencionada uma única vez, num segmento de discurso bastante pequeno. Gulliver, então, já estava cansado do país e de sua gente: “Desejava bastante encontrar-me entre povos com os quais pudesse entabular conversa como de igual para igual” (Swift, 1965, p. 145).

O discurso da desigualdade social, ao contrário, é bem mais extenso. Envolve estratos sociais solidamente consolidados, relações hierárquicas claramente estabelecidas, amos e escravos, patrões e criados, servos a serviço de poderosos.

Com efeito, na sociedade de Brobdingnag não há espaço para a igualdade. Ela se organiza como que em degraus.

No topo, vivendo na capital, há um rei condescendente, a rainha, a corte de nobres e sábios. No campo estão os fidalgos, proprietários de terras (uma aristocracia semelhante à inglesa dos anos anteriores à Revolução Gloriosa e à implantação do parlamentarismo). Num segundo e terceiro escalões estão os lavradores e seus criados, sobre os quais os aristocratas têm grande poder. Depois há os escravos, inteiramente subordinados a seus donos. É claro que o anão Gulliver, recém-chegado ao país, ocupa o ponto mais baixo dessa pirâmide social, embora tente, a todo custo, escalar ao topo. Comporta-se, primeiro, enquanto escravo do lavrador, como um conformista e, depois, como um cortesão lambe-botas. (De certa forma, é fácil imaginar o próprio Swift bajulando, querendo tornar-se um sábio da corte e, ao mesmo tempo, destilando ódio contra os bajulados).



As seqüências discursivas que revelam a organização social de Brobdingnag, os lugares do rei, da rainha, dos sábios, dos ministros, das aias, dos fidalgos, dos lavradores, dos criados, dos escravos, foram selecionadas a partir de palavras-pivôs (rei, amo, servo, serviço, criado, escravo, protetor):
[A rainha] perguntou-me se ficaria satisfeito em viver na corte (...); respondi humildemente ser escravo do meu amo, porém que, se isso apenas dependesse de mim, ficaria encantado em consagrar a minha vida ao serviço de Sua Majestade: em seguida, perguntou a meu amo se queria vender-me. Ele, que supunha que a minha vida não ia além de um mês, ficou radiante com a proposta e fixou o preço da minha venda em mil peças de ouro, que imediatamente lhe foram entregues. Pedi então à rainha que, visto haver-me tornado escravo de Sua Majestade, me concedesse a mercê de que Glumdalclitch, que fora sempre cheia de atenções e cuidados para comigo, fosse admitida em honra do seu serviço e continuasse a ser minha governanta. Sua Majestade concedeu-me isso e bem assim o lavrador, que bem contente se mostrou por ver a filha na corte. Quanto à pobre pequena, não podia ocultar a sua alegria. Meu amo retirou-se e disse-me, ao partir, que me deixava em um bom lugar, ao que apenas redargüi com uma cavalheiresca vênia. (Swift, 1965, p. 108)
A rainha notou a frieza com que acolhera o cumprimento e a despedida do lavrador e perguntou-me o motivo. Tomei a liberdade de responder a Sua Majestade que só devia ao meu antigo amo a obrigação de me não haver esmagado como a um pobre animal inofensivo.
(...) [Essa] boa ação estava bem paga pelo proveito que tirara, mostrando-me por dinheiro e pela importância que recebera pela minha venda; a minha saúde estava muito abalada pela minha escravatura e pela obrigação contínua de entreter e divertir a população a todas as horas do dia e que, se meu amo não me julgasse a vida em perigo, Sua Majestade não me teria adquirido. (Swift, 1965, pp. 108-109)
A rainha (...) ficou surpreendida por encontrar tanto espírito e tão bom senso em um pequeno animal; tomou-me nas mãos e levou-me imediatamente ao rei, que estava encerrado no seu escritório. Sua Majestade, príncipe muito sério e de rosto severo, não reparando bem à primeira vista na minha figura, perguntou finalmente à rainha desde quando se tornara protetora de um splacnuck (pois me tomara por este inseto). A rainha (...) ordenou-me dissesse eu próprio quem era. Fi-lo em poucas palavras e Glumdalitch, que ficara à entrada do escritório, não podendo estar muito tempo sem mim, entrou e explicou a Sua Majestade que eu fora encontrado num campo. (Swift, 1965, p. 109)
O rei, mais sábio do que ninguém dos seus Estados, fora educado no estudo das filosofias e principal­mente nas matemáticas. [Quando] notou raciocínio nos sons que [eu] emitia, não pôde ocultar o seu espanto. Mandou chamar três famosos sábios que estavam, então, a serviço na corte (segundo o admirável costume desse país). Um desses filósofos foi mais longe: disse que eu era um embrião, um aborto. (Swift, 1965, p. 110)
Certo dia, o príncipe, ao jantar, quis ter o prazer de conversar comigo, fazendo-me perguntas concernentes a costumes, religião, leis, governo e literatura da Europa, a que eu respondi o melhor que pude. O seu espírito era tão apurado e o seu juízo tão seguro que fez reflexões e observações muito sensatas sobre tudo quanto lhe disse; referindo-se a dois partidos que dividem a Inglaterra, perguntou-me se eu era whig ou tory; depois, virando-se para o seu ministro, (...) disse:

— Como a grandeza humana pouco vale, pois que vis insetos têm também ambição pelas classes e distinções entre si! Têm pequenos farrapos que envergam tocas, gaiolas, caixas, a que chamam palácios e solares; equipagens, librés, títulos, empregos, funções, paixões, como nós. Entre eles ama-se, odeia-se, engana-se, trai-se, como aqui. (Swift, 1965, p. 112-113)
Quanto a ele, resumira a ciência de governar em estreitíssimos limites, reduzindo-a ao senso comum, à razão, à justiça, à brandura, à rápida decisão dos processos civis e criminais e a outras práticas semelhantes ao alcance de toda a gente e que não merecem referência. (Swift, 1965, p. 140)
As aias da rainha pediam muitas vezes a Glumdalclitch que as visitasse nos seus aposentos e que fosse eu com ela, para terem o prazer de me ver de perto e tocar-me. (Swift, 1965, p. 116)
A própria palavra “serviço” tem, no texto, a conotação de trabalho feito pelo servo, atestando, mais uma vez, a ordem social imaginária profundamente desigual: “[Eu] ficaria encantado em consagrar a minha vida ao serviço de Sua Majestade” (Swift, 1965, p. 108). “Pedi então à rainha que (...) me concedesse a mercê de que Glumdalclitch (...) fosse admitida em honra do seu serviço e continuasse a ser minha governanta” (Swift, 1965, p. 108). “[Os] sábios (...) estavam, então, a serviço na corte” (Swift, 1965, p. 110).

Criados e uma ama de leite também estão a serviço do lavrador e de sua família. O tipo de vestimenta separa os estratos sociais. O próprio personagem Gulliver, na Inglaterra, tinha seus criados (“Quando cheguei a minha casa (...) um dos criados abriu-me a porta” (Swift, 1965, p. 158)), o que o iguala socialmente, no mínimo, ao lavrador. Vejam-se as seqüências discursivas:


Enxerguei um dos habitantes em um campo próximo do mesmo tamanho daquele que vira no mar perseguindo a chalupa. Afigurou-se-me tão alto como um campanário vulgar, e cada pernada ocupava o espaço de cinco toesas. Fui tomado de grande terror e corri a ocultar-me no trigo (...). Logo sete homens da sua estatura se encaminharam para ele (...). Estes homens não estavam tão bem vestidos como o primeiro e pareciam criados. Apenas receberam ordem, dirigiram-se para o campo em que eu estava, para ceifar o trigo. (Swift, 1965, pp. 88-89)
O lavrador (...) soprou os cabelos para melhor me ver o rosto; chamou os criados, perguntou-lhes, segundo supus, se já alguma vez tinham visto algum animal parecido comigo. Depois, colocou-me com a máxima cautela no chão com as quatro patas, mas eu me levantei logo e caminhei com gravidade, de um lado para o outro. (Swift, 1965, p. 92)
Estava próximo o meio-dia e então um criado pôs o jantar na mesa. A família compunha-se do lavrador, da mulher, de três filhos e de uma velha avó. Assim que se sentaram, o dono da casa colocou-me a pequena distância dele, em cima da mesa (...). A mulher cortou um bocado de carne, em seguida pão em um prato de madeira que pôs diante de mim. Fiz-lhe uma reverência muito humilde e (...) fazendo uso do meu garfo e da minha faca, comecei a comer, o que lhes causou grande satisfação. A dona da casa mandou a criada buscar um pequeno cálice (...); depois, encheu-o de um líquido. Ergui o cálice com grande dificuldade e, com um modo muito respeitoso, bebi à saúde dela. (Swift, 1965, pp. 93-94)
Ao fim do jantar, entrou a ama de leite, trazendo ao colo uma criança de um ano (...). A criança, olhando-me como se fora um boneco ou uma bugiganga, chorava, porque me que­ria para brinquedo. A mãe pegou em mim e entregou-me nas mãos da criança, que me levou à boca; ao ver-me em tal situação, dei tamanhos gritos que a criança, assustada, deixou-me cair, e teria infalivelmente quebrado a cabeça se a mãe não me aparasse no avental. A ama, para sossegar o pequeno, deu-lhe um guizo (...). Isso porém não o sossegou, tendo a ama de recorrer ao extremo remédio e que foi dar-lhe de mamar. (Swift, 1965, p. 96)
De resto, qualquer particular que se preze, em Brobdingnag, tem seu criado:
[O rei perguntou-me] se a casa de um particular não seria mais bem defendida por ele próprio, pelos filhos e pelos criados do que por uma cáfila de patifes e de gatunos tirados ao acaso da escória do povo. Com salário diminuto, e que pode­riam ganhar cem vezes mais. (Swift, 1965, p. 133)
Como estratégia de sobrevivência, Gulliver, escravo, tornou-se servil e dócil. Quando descobriu, pelas roupas, um amo na figura do lavrador (“meu amo (este é o nome que doravante lhe vou dar)” (Swift, 1965, p. 94)), adotou-o imediatamente, oferecendo-se como escravo. Sua história passa a ser a de alguém que não controla sua própria vida:
Sentaram-se todos em volta de mim, para melhor examinar os meus movimentos. Tirei o chapéu e, cumprimentei mui submissamente o lavrador, lancei-me a seus pés, levantei as mãos e a cabeça, e pro­feri algumas palavras o mais fortemente que pude. (Swift, 1965, p. 92)
Corria então por todo o país que o meu amo encontrara no campo um animal, do tamanho de, talvez, um splacnuck (animal da região que devia ter seis pés) e com a mesma configuração de um ente humano; que imitava o homem nas suas menores ações e parecia falar uma espécie de linguagem que lhes era própria; que já aprendera muitos vocábulos do idioma deles; que caminhava direito sobre os dois pés, era dócil e tratável, acudia logo que o chamavam, fazia tudo quanto lhe ordenavam, tinha os membros delicados e uma tez mais branca e mais fina do que a filha de um fidalgo aos três anos de idade. Um lavrador, seu vizinho e seu íntimo amigo, veio fazer-lhe uma visita para verificar a veracidade do boato que correra. (Swift, 1965, p. 100)
[Era um avarento que deu um] estúpido conselho (...) a meu amo, para que me fizesse ver por dinheiro em qualquer dia de feira, na cidade próxima. (Swift, 1965, p. 101)
Meu amo, conforme a opinião do amigo, meteu-me em um caixote e, no dia da feira, conduziu-me para a cidade próxima com a filha. (...) O meu dono apeou-se do cavalo numa estalagem (...), alugou um grultred, ou pregoeiro público, para chamar a atenção de toda a cidade para um animal raro. (Swift, 1965, p. 102)
Meu amo, tendo em vista os seus próprios interesses, não deixou que pessoa alguma me tocasse, salvo a sua filha. (Swift, 1965, p. 103)
Meu amo fez anunciar que, no dia seguinte, havia ainda de mostrar-me; entretanto, arranjaram-me um modo de condução mais cômodo, visto que ficara derreadíssimo com a primeira viagem e, com o espetáculo que dera durante oito horas consecutivas, não me podia ter nas pernas e quase estava sem voz. Para concluir, quando estava de volta, os fidalgos das vizinhanças, ouvindo falar de mim, foram ter à casa do meu amo. Houve um dia em que apareceram mais de trinta com as mulheres e os filhos, porque nesse país, assim como na Inglaterra, há muitos fidalgos ociosos e mandriões. (Swift, 1965, p. 104)
Meu amo, vendo o proveito que podia tirar de mim, resolveu deixar-me ver nas mais importantes cidades do reino. Tendo-se fornecido das coisas mais necessárias para uma viagem longa, depois de ter regulado os seus negócios particulares, e de se haver despedido da mulher, a 17 de agosto de 1703, aproximadamente dois meses depois da minha chegada, partimos em direção à capital, situada no centro deste império, a quinhentas léguas de distância da nossa moradia. Meu amo fez sentar a filha na garupa, por detrás dele. Levou-me em uma caixa presa em volta do corpo, metida no pano mais fino que ela pôde encontrar. (Swift, 1965, p. 104)
A vontade de meu amo era fazer-me ver pelo caminho em todas as cidades, vilas e aldeias um pouco importantes, e percorrer até os solares da nobreza. (Swift, 1965, p. 104-105)
Meu amo (...) distribuiu (...) programas contendo uma minuciosa e atraente descrição da minha pessoa e das minhas habilidades. (...) me exibiu dez vezes por dia, com grande espanto e satisfação de todo o povo. (Swift, 1965, p. 105)
O trabalho e o cansaço, durante alguns dias, abalaram a minha saúde, porque, quanto mais meu amo ganhava, mais se tornava insaciável. Perdera completamente o apetite e quase me tornara um esqueleto. Meu amo, dando por isso e julgando que pouco tempo teria de vida, resolveu fazer-me valer o mais possível. (Swift, 1965, p. 107)
Nas conversas com o rei de Broddingnag, Gulliver descreve o sistema político e administrativo inglês. As hipérboles conferem a essa descrição um cunho claramente irônico:
Alarguei-me deveras sobre a fertilidade do nosso território e sobre a variedade do nosso clima. Em seguida, descrevi a constituição do Parlamento inglês, composto, em parte, de uma corporação ilustre chamada Câmara dos Pares, personagens do sangue mais nobre, antigos proprietários e senhores das mais belas terras do país. Disse do extremo cuidado que havia na sua educação com relação às ciências e às armas para os tornar capazes de serem conselheiros natos do reino, de terem parte na administração do governo, de serem membros da mais elevada categoria da magistratura, de que não havia apelo, e da sua pátria, pelo seu valor, comportamento e fidelidade; que esses senhores eram o ornamento e o esteio do reino, dignos sucessores dos seus antepassados, cujas honras haviam obtido como recompensa de uma virtude insigne (...); que a esses senhores estavam agregados santos homens, que tinham o seu lugar entre os bispos, cujo cargo particular era velar pela religião (...); que se escolhiam no clero os mais santos e os mais sábios homens para serem investidos nessa eminente dignidade. (...) Acrescentei que a outra parte do Parlamento era uma assembléia respeitável denominada Câmara dos Comuns, composta de nobres escolhidos livremente e até deputados pelo povo, unicamente por causa das suas luzes, dos seus talentos e do seu amor pela pátria, a fim de representar o saber de toda a nação. Disse que esses dois corpos formavam a mais augusta assembléia do universo que, de acordo com o príncipe, dispunha de tudo e regulava, de certo modo, o destino de todos os povos da Europa. (Swift, 1965, p. 128-129)
Em seguida, desci aos arcanos da justiça, onde tinham assento veneráveis intérpretes da lei, que decidiam as diferentes contestações dos particulares, que puniam o crime e protegiam a inocência. Não deixei de falar da sábia e econômica administração das nossas finanças e de me explanar sobre o valor e as expedições dos nossos guerreiros de mar e de terra. Computei o número do povo, contando também que havia milhões de homens professando diversas religiões e diferentes partidos políticos entre nós. (Swift, 1965, p. 130)
O rei ouviu tudo com a máxima atenção, escrevendo o extrato de quase tudo o que lhe dizia e marcando, ao mesmo tempo, os pontos sobre que tencionava interrogar-me. Assim que concluí estes meus longos discursos, Sua Majestade (...), examinando os seus extratos, apresentou-me muitas dúvidas e grandes objeções acerca de cada assunto. [Perguntou-me] como [os pares] se tornavam capazes de decidir em último recurso dos direitos dos seus com­patriotas; se eram sempre isentos de avareza e preconceitos; se os santos bispos de que eu falara alcançavam sempre esse alto cargo pela sua ciência sobre matérias teológicas e pela santidade da sua vida; se nunca tiveram fraquezas; se nunca tinham intrigado enquanto padres, se não tinham sido outrora esmoleres de um par, por intermédio do qual conseguiam ser elevados a bispos e se, neste caso, não seguiam sempre, cegamente, a opinião do par e não serviam a sua paixão ou o seu preconceito na assembléia do Parlamento. Quis saber como se procedia para a eleição daqueles que chamara de comuns; se um estranho, com uma bolsa recheada de ouro, não podia, algumas vezes, ganhar o sufrágio dos eleitores à força do dinheiro. (Swift, 1965, pp. 130-131)

Considerações Finais

Não há, na segunda parte das Viagens de Gulliver – “Viagem a Brobdingnag” – um discurso da igualdade social. Mas há um da desigualdade, defensor da aristocracia, entendida como o governo dos melhores, de acordo com a etimologia da palavra. Inteligência, nascimento e riqueza determinam os que vão pertencer à elite central do poder, ao grupo privilegiado formado por reis, rainhas e nobres.

Em torno desse grupo gravitam os protegidos – sábios e fidalgos, que detêm também privilégios, desde que não ameacem o poder central. No outro extremo, criados e escravos ocupam esse lugar social por nascimento, descoberta ou conquista.

Em “Viagem a Brobdingnag”, entretanto, Swift parece defender o despotismo esclarecido, aquele em que o soberano absoluto, para governar, curva-se ao “senso comum, à razão, à justiça, à brandura, à rápida decisão dos processos civis e criminais” (Swift, 1965, p. 140). Alinhado, assim, aos conservadores tories, Swift mal menciona a burguesia operosa que então ganhava espaço. Com isso, doutrinas e idéias parlamentaristas e democráticas que vicejavam na Inglaterra no final do século XVII e início do XVIII são rechaçadas.

Parece ser essa a formação discursiva da desigualdade social na obra que, contudo, por sua polissemia e humor satírico, continua a encantar adultos e crianças depois de três séculos. O próprio personagem central é ambíguo: culto, inteligente, exímio no que faz, domina história e política, conversa com o rei e quer ser tratado por ele de igual para igual. Ao mesmo tempo, é a menor criatura em Brobdingnag, um escravo submisso, um cortesão bajulador, mas também um diferente cioso de sua liberdade, desejando sempre voltar a uma situação condizente com a dignidade humana.

Referências

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Categoria de contribuição: Relato de pesquisa


Recebido: 26/10/07

Aceito: 08/01/08



1 Psicóloga, doutora pela Universidade de Paris Norte, Paris XIII. Professora aposentada da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Professora do Mestrado Acadêmico em Administração da Faculdade Novos Horizontes, Belo Horizonte, Brasil. Contato: Rua Professor Júlio Mourão 17, apto 101 Bairro Luxemburgo - cep.: 30380-340. Belo Horizonte, MG. E-mail: marilianmm@terra.com.br

2 Psicóloga, professora, mestranda no Mestrado Acadêmico em Administração da Faculdade Novos Horizontes, Belo Horizonte, Brasil. Contato: Rua Joaquim Francisco da Silveira 447 - Bairro Ipiranga, cep.: 31160-200. Belo Horizonte, MG. E-mail: elietepsi@yahoo.com.br



Pesquisas e Práticas Psicossociais 2(2), São João del-Rei, Fev. 2008





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