Vacas frescas



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Encontro30.07.2018
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Vacas frescas
Animais precisam de temperatura agradável para produzir bem
As vacas são funcionárias exemplares, mas exigentes. Para renderem o máximo, precisam de sombra e boa ventilação, que espantam o calor, além de água em abundância e uma alimentação adequada. Em países tropicais, como o Brasil, o estresse térmico é um problema comum, que pode provocar queda de produção de até 30%. “O mesmo índice negativo pode ser observado na eficiência reprodutiva do rebanho, em razão da queda da taxa de concepção”, afirma a pesquisadora Maria de Fátima Ávila Pires, da Embrapa Gado de Leite (CNPGL). O engenheiro agrônomo e professor aposentado da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq/ USP), Vidal Pedroso de Faria, observa, no entanto, que não é apenas a temperatura ambiente a responsável pelo estresse térmico, mas um conjunto de fatores, que vão desde o fornecimento de água até a declividade do terreno onde estão localizados os animais. “Ainda falta a difusão da real concepção de estresse térmico entre os produtores brasileiros”, afirma Faria.

Assim como os humanos, as vacas liberam calor para o meio ambiente, a fim de manter sua temperatura corporal na normalidade, ou seja, entre 38ºC e 19ºC. Quando expostas a climas muito quentes e úmidos, a troca com o ambiente é prejudicada, levando a vaca a um estado febril. A temperatura ideal do ambiente para o conforto de uma vaca especializada na produção de leite varia entre 20ºC e 30ºC, segundo Faria. Pesquisadores americanos criaram uma outra escala de medida, a Temperature- humidity index (Índice de temperatura e umidade- ITU), que, como diz o nome, avalia as duas variáveis climáticas. Um estudo da Embrapa Gado de Leite, feito em parceria com a Universidade Federal de Viçosa, estabeleceu, com base na classificação do ITU (menor ou igual a 72 é o mais adequado, enquanto que, de 72 a 78, representa motivo de alerta e pode reduzir o desempenho do rebanho; acima disso, já significa perigo para os produtores que desejam manter níveis zootécnicos satisfatórios) áreas de Região Sudeste mais propícias à produção de leite.

Quando as condições de temperatura e umidade são desfavoráveis, sinais como respiração ofegante, perda de apetite e mudança de comportamento começam a aparecer, indicando a condição de estresse da vaca. No entanto, o primeiro sintoma percebido pelo produtor é, sem dúvida, a queda na produção e na reprodução.

Consumo

A queda na produção, em razão do estresse térmico, é reflexo principalmente da redução de consumo da vaca ao sentir desconforto. “Assim como acontece com a gente, os animais, quando estão com hipertemia ( aumento de temperatura corporal), sofrem uma perda de apetite e passam a ingerir menos alimento, o que, no caso delas, significa também diminuir a produção de leite, já que a quantidade de nutrientes absorvidos cai”, diz Faria. A vaca come menos em razão da liberação de calor provocada pelo alimento no rúmen. Os volumosos, por possuírem mais fibras e levarem mais tempo para serem digeridos, são os que elevam mais a temperatura corporal das vacas. “Por isso, diminuição de columosos na dieta das vacas em regiões de muito calor pode ser uma boa alternativa”, afirma Vidal. Segundo Maria de Fátima pode-se aumentar o fornecimento de concentrados, mas de forma moderada, mantendo a relação volumoso/concentrado compatível com os mecanismos fisiológicos da vaca. A oferta excessiva de concentrados pode causar problemas, como a acidose, provocada pela queda do PH ruminal. “Os concentrados, além de exigirem uma ingestão de quantidades menores, para manter as vacas bem nutridas, têm digestão mais fácil”, diz Faria.

Animais especializados na produção de leite são mais sensíveis aos efeitos da temperatura por não estarem geneticamente adaptados às condições tropicais. “Mas é preciso frisar, sempre, que há regiões de muito calor em que, mesmo para os animais especializados, é possível amenizar os efeitos da temperatura com o manejo correto do rebanho. O metabolismo dessas vacas é diferente; elas são mais sensíveis, não estão geneticamente adaptadas ao calor, porém não é a raça que determina se haverá, ou não, queda de produtividade”, explica o professor Faria.
Simplicidade

Criar um ambiente de conforto para os animais é obrigação do bom produtor. Existem medidas simples a serem adotadas para garanti-lo. A primeira é estabelecer uma área sombreada para o repouso das vacas. “Pode ser um espaço arborizado ou um sombrite em que os animais tenham como se abrigar dos raios solares, pois eles também favorecem o estresse térmico”, segundo Faria. É importante avaliar as necessidades de sombra, de forma a garantir uma projeção suficiente para proteger todo o rebanho ao longo do dia. Recomenda-se o plantio de árvores de grande porte, como eucaliptos, por exemplo. Se o produtor preferir a sombra artificial- que pode ser feita com cobertura de bambu, folhas de palmeiras, telhas, etc., privilegiando-se, sempre, materiais que não retenham calor- a regra básica é erguer um pé direito alto, com pelo menos três metros de altura, pois, quanto maior e mais alto for, maior a área sombreada e o resfriamento da cobertura pela ação dos ventos. “Em muitas propriedades acontece de as árvores serem plantadas- ou os sombrites construídos- em locais ou posição equivocados, onde as vacas não tem acesso à sombra e há pouco vento”, explica Faria. A orientação norte/sul é a mais recomendada nas regiões de clima tropical úmido.

A segunda medida que pode ser adotada para reduzir o estresse térmico é proporcionar sombra em local próximo à água em abundância. “As vacas devem ter água limpa sempre, porque ela ajuda no controle da temperatura e na manutenção da produtividade”, esclarece Faria. Segundo o professor, alguns produtores acreditam que misturando-se água com concentrados obtêm-se produção maior, mas, na verdade, o volume do leite cresce porque os animais estavam sentindo falta do líquido. A proximidade da água também evita o desgaste físico da vaca. “Esforço e velocidade de deslocamento do animal podem acentuar o problema do estresse”. Por isso, terrenos com declive acentuado não são recomendados. “Não dá para botar uma vaca holandesa a subir os morros de Minas Geris”, brinca Farias.

Outra indicação dele é que as vacas criadas no sistema de pastejo devem se alimentar nas horas do dia em que o sol e a temperatura são mais brandos, pois o calor inibe o consumo. “Vacas não precisam e não devem pastar nos horários de sol quente, sendo as primeiras horas do dia e o final da tarde os momentos mais adequados para levá-las a campo”, afirma.

O material utilizado na cobertura de instalações em que os animais ficam devem repelir o calor. Prática simples e eficiente é pintar as paredes com tintas de cores que refletem a luz do sol, como o branco.

Outra boa alternativa para garantir o conforto térmico é a utilização de equipamentos mecânicos, como ventiladores, promovendo a climatização artificial dos ambientes. “Os equipamentos podem até ter um preço um pouco elevado, mas, se bem implementados, dão retorno rápido em produtividade”, diz Faria. De acordo com o professor, é preciso seguir as orientações técnicas de instalação dos equipamentos para melhor aproveitá-los. “Há produtores que colocam os ventiladores contra o vento predominante, o que acaba com o benefício que o aparelho pode trazer”. Se há condições financeiras, recomenda-se a instalação de aspersores de água, combinados com os ventiladores. Pode-se substituir esse equipamento por mangueiras, resfriando as vacas nos momentos mais quentes do dia. A preferência de local para instalação dos aparelhos, deve levar em conta o tempo de permanência dos animais no ambiente. “Normalmente, colocam-se ventiladores próximos dos cochos, já que a temperatura interfere na quantidade de alimento ingerido”, diz o professor.


Pesquisa



A Embrapa Gado de Leite inaugurou, em março, uma câmara climática para avaliar os efeitos do calor sobre os animais, principalmente os de raças especializadas na produção leiteira. Eles serão submetidos a diferentes condições de temperatura, para que entrem em processo de estresse calórico. “Vamos partir de uma temperatura de 21ºC, com umidade perto de 50% e, depois, elevar a temperatura até 40ºC”, explica Maria de Fátima. A observação de alterações em algumas variáveis fisiológicas dos animais testados (serão mais de 400), vai permitir identificar os mais resistentes e as regiões genômicas associadas às características de resistência ao estresse calórico desses animais. A partir os resultados, será possível reunir condições para se dar o primeiro passo na implementação de um programa de melhoramento genético e no desenvolvimento de uma raça mais adaptada ao clima brasileiro.
Revista Produtor Parmalat, Ano 6, Nº 65, Jul 2002.



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