Utilização da suplementação com concentrado para vacas em lactação mantidas em pastagens tropicais



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Produção intensiva de leite em pasto e suplementação de vacas leiteiras
Flávio Augusto Portela Santos

Depto. De Zootecnia – ESALQ/USP


  1. Introdução

Em relatório recente sobre a situação da pecuária leiteira no estado de Minas Gerais (FAEMG, 2006), maior produtor de leite do país, foi relatado o crescimento expressivo da produção de leite no Brasil nas últimas décadas, colocando o país como exportador de produtos lácteos no cenário mundial. Entretanto, no mesmo relatório ficou claro que problemas estruturais sérios ainda estão presentes na grande maioria das fazendas produtoras de leite. Dentre esses problemas destacam-se o uso de rebanho não especializado, com baixa produção de leite por vaca, baixa proporção de vacas em lactação no rebanho e baixa lotação animal nas áreas de pastagem. O resultado final é a baixa produção de leite por unidade de área utilizada e consequentemente, um valor muito alto de capital imobilizado em terra, rebanho, instalações, máquinas e equipamentos.

Nesse mesmo relatório (FAEMG, 2006), foi mostrado que a grande maioria do leite produzido no Brasil, é proveniente de sistemas extensivos que exploram pastagens tropicais mal manejadas. Apesar das profundas transformações ocorridas no sistema agroindustrial do leite no país a partir da década de 90 (Jank et al., 1999), a intensificação dos sistemas de produção tem ocorrido de forma localizada e incapaz de alterar de forma significativa os baixos índices zootécnicos nacionais (FAEMG, 2006). Entretanto, resultados extremamente animadores que comprovam a grande competitividade de sistemas intensivos de produção de leite em pastagens tropicais têm sido apresentados (Camargo, 2005; Santos et al., 2005). Elevadas produções de leite por área, investimentos moderados em instalações e custos de produção competitivos, têm sido fatores determinantes na opção por sistemas intensivos em pastagens (Corsi, 1986; Camargo, 1996; Camargo, 2005; Santos et al., 2005).

Sistemas intensivos em pastagens requerem a aplicação de técnicas adequadas de manejo das pastagens visando otimizar tanto a produção e a colheita quanto a eficiência de utilização dessa forragem pelo animal (Deresz et al., 1992; da Silva & Pedreira, 1996; Corsi e Martha Jr, 1997). Essa utilização eficiente da forragem colhida pelo animal depende do atendimento de requisitos básicos como sanidade, conforto animal e suplementação de nutrientes deficientes na forragem para atender as exigências nutricionais do animal para determinado nível de produção (Camargo, 2005; Santos et al., 2005).

O fornecimento exclusivo de pastagens tropicais não atende as exigências nutricionais de vacas leiteiras com produções diárias superiores a 10 – 14 kg de leite (Santos et al., 2003). O comprometimento das reservas corporais para garantir a produção de leite nessas condições tem sido uma preocupação constante dos nutricionistas. Esta preocupação tem sido crescente em função principalmente do avanço no potencial genético dos rebanhos atuais (Bargo, 2003). Desta forma, a suplementação com concentrado para suprir as deficiências nutricionais de ordem qualitativa e quantitativa dos animais, pode ser uma prática importante para aumentar a produtividade dos sistemas de produção de leite em pastagens tropicais manejadas intensivamente, (Davison et al., 1990; Santos et al., 2005).

Em sistemas bem conduzidos em diferentes regiões do Brasil, a combinação de pastos manejados com altas lotações e vacas especializadas suplementadas com concentrado, tem permitido produções entre 4.000 a 7.000 kg de leite vaca-1 ano-1 e 10 a 26.000 kg de leite por hectare ano-1. Estes índices variam em função do potencial genético do rebanho e do manejo adotado, principalmente no que diz respeito à quantidade fornecida de concentrado e qualidade das pastagens e do volumoso suplementar de inverno (Camargo, 2003; Santos et al., 2003; Santos et al., 2005).
2. Valor nutricional das plantas forrageiras tropicais

Ainda existe entre muitos técnicos o conceito generalizado que pastagens tropicais, apesar do seu grande potencial de produção, apresentam valor nutricional baixo. Entretanto, o conhecimento tecnológico atual tem permitido o aprimoramento das práticas de manejo de pastagens, permitindo a produção de forragem tropical de boa qualidade (Santos et al., 2005).



Dados de composição bromatológica de amostras de pastejo simulado de forrageiras tropicais bem manejadas, obtidos de trabalhos de pesquisa e de sistemas comerciais de produção de leite são mostrados nas Tabelas 1 e 2 respecitvamente.
Tabela 1 – Composições bromatológicas (%MS) de amostras de pastejo simulado de forragens tropicais relatadas em trabalhos de pesquisa

Forragem

PB, %

FDN, %

FDA, %

Referência

Brachiaria brizantha cv. Marandu

12,6

57,4

34,5

CORREIA, 2006

Brachiaria brizantha cv. Marandu

13,6

56,2

31,5

CORREIA, 2006

Brachiaria brizantha cv. Marandu

15,3

65,0

32,0

COSTA (2007)

Panicum maximum cv. Colonião

16,3

66

32,4

RAMALHO, 2006

Pennisetum purpureum cv. Cameroon

14,6

65,1

35,9

VOLTOLINI, 2006

Pennisetum purpureum cv. Cameroon

20,6

63,2

33,3

CARARETO, 2007

Pennisetum purpureum cv. Cameroon

13,7

62,9

33,3

MARTINEZ, 2004

Pennisetum purpureum cv. Napier

20,6

64,7

32,5

FONTANELLI, 2005

Quicuio

21,4

66,4

26,0

FONTANELLI, 2005

Tifton – 68

22,1

65,5

25,4

FONTANELLI, 2005

Tabela 2. Concentrações PB e de NDT em amostras de pastejo simulado de forrageiras tropicais em pastagens comerciais.



Local

Gramínea

Idade (dias)

PB (%MS)

NDT (%MS)

MG

Tifton-85

21

18,9

63,9

MG

Tangola

25

17,9

62,4

MG

Setária

22

17,5

60,3

SP

Tanzânia

30

18,2

61,2

SP

Elefante

35

13,7

60,2

RS

Tifton-68

21

14,3

64,9

Adaptado de Santos et al. (2003) e Martinez (2004)
Conforme apresentado nas Tabelas 1 e 2, pastagens tropicais quando bem manejadas produzem forragem com bons teores protéicos e energéticos.

Os teores de PB das plantas forrageiras são altamente influenciados pelas doses de N aplicados após cada corte ou pastejo. Os teores de PB (%MS) da gramínea Tifton 85 cortada a 5 cm do nível do solo a cada 28 dias, foram de 9,81%, 10,84%, 13,81%, 15,75% e 18,12% para as doses de 0kg, 39kg, 78kg, 118kg e 157kg de N. ha-1 por corte (Johnson et al., 2001). Os teores elevados de PB em amostras de pastejo simulado das forragens apresentadas nas Tabelas 1 e 2 se devem à combinação entre forma de amostragem (pastejo simulado), adubação nitrogenada para alta produção e idade jovem da planta. Consequentemente, em sistemas de produção intensiva de leite em pastagens tropicais, onde doses elevadas de N são aplicadas visando lotações altas dos pastos, estes desde que colhidos no ponto certo, conterão teores elevados de proteína bruta.

Plantas forrageiras tropicais que apresentem 56 a 65% de FDN, 13 a 22% de PB, 2% de extrato etéreo e 8% de cinzas, contêm apenas 3 a 21 % de carboidratos não fibrosos (CNF). Estes teores baixos de CNF certamente limitam o uso de boa parte da fração degradável no rúmen da PB (PDR) dessas forragens (NRC, 2001).

Na Tabela 3 são apresentados os balanços de PDR e as quantidades de milho moído para zerar esses balanços no rúmen de vacas consumindo 12 kg de MS de pasto tropical (63,3% de NDT) com teores crescentes de PB. A simulação foi feita utilizando o NRC (2001), e os dados de degradabilidade da proteína do pasto foram os do feno de tifton 85 da biblioteca do NRC (2001).


Tabela 3. Teores de proteína bruta (PB) em pastos tropicais, balanços de PDR e necesidade de milho moído para zerar esses balanços e produção de leite predita.

Variáveis

14% PB

16% PB

18% PB

20% PB

CMS de pasto, kg

12

12

12

12

Balanço de PDR, g

+ 35

+ 202

+ 370

+ 537

Milho moído, kg

0,52

3,2

6,1

9,4

Produção de leite predita, kg

11,2

17,5

23,6

29,2

De acordo com o NRC (2001) o consumo exclusivo de 12 kg de MS de pasto gerou energia líquida para produções de 10 a 11 kg de leite (3,8% de gordura e 3,2% de proteína bruta), porém gerou proteína metabolizável para produções de 12 a 15 kg de leite, com variação nos teores de PB de 14 a 20% respectivamente. De acordo com estes dados, vacas mantidas em pastos tropicais bem manejados, têm sua produção de leite limitada primeiramente por energia e não por proteína.

Na simulação apresentada na Tabela 3, a suplementação com 6,1 kg de milho para as vacas mantidas em pastagens com 18% de PB, resultou em produção teórica de 23,6 kg de leite. No trabalho de Fontaneli (2005), com capim elefante, quicuio e tifton 68, contendo entre 20,6 a 22,1% de PB, as vacas produziram entre 20,4 a 26,72 kg de leite dia-1, quando suplementadas diariamente com 5,5 a 7,2 kg de concentrado. O concentrado continha apenas milho moído e mistura mineral, conforme recomendado pelo NRC (2001).
3. Influência do manejo na utilização da forragem

A partir do momento que a produção alta da pastagem é estabelecida, impõe-se um dos maiores desafios no manejo da pastagem, que é aperfeiçoar a sua colheita, pois falhas no manejo podem resultar em perdas da ordem de 20 a 80% da forragem produzida (Corsi, 1994).

Penati et al. (2002), compararam o desempenho de garrotes mantidos em pastagem irrigada de capim Tanzânia, com resíduos pós pastejo e lotações diferentes. Foi observado que a maior taxa de lotação, aliada ao resíduo mais baixo (1000 kg.ha-1 de MS) proporcionou melhor aproveitamento da forragem devido à diminuição de perdas quando comparado a resíduos mais elevados (3000 kg.ha-1 de MS).

A combinação da adubação nitrogenada e a variação na freqüência de pastejo também influenciam na produção e qualidade da pastagem assim como na eficiência de colheita da pastagem pelos animais. Invariavelmente, doses maiores de N devem exigir intervalos menores entre pastejos, com o objetivo de garantir alta produção de forragem com bom valor nutritivo e alta eficiência de pastejo (Da Silva, 1997).

A diminuição da freqüência de pastejo pode resultar em queda na produção animal em decorrência da queda da qualidade da forragem e alterações na estrutura da planta que afetam negativamente o consumo de pasto (Da Silva, 1997). A associação negativa, frequentemente observada entre produção de matéria seca, qualidade de forragem e seu grau de utilização, são responsáveis pela falta de correspondência entre produção de matéria seca e produção animal em diversos trabalhos ou experiências práticas (Corsi et al.,1994).

Em sistemas intensivos de produção de bovinos em pasto, a adoção de períodos fixos de intervalo entre pastejos tem sido criticada por Da Silva e Corsi (2003). Da Silva & Nascimento Jr (2006) tem conduzido uma série de trabalhos de pesquisa, propondo que a entrada dos animais no pasto seja determinada pelo momento em que o dossel forrageiro atingir 95% de interceptação luminosa (IL). Este valor está correlacionado com uma determinada faixa de altura do dossel forrageiro.

Em trabalhos realizados com diversas espécies de plantas forrageiras, tem sido demonstrado que as alturas em que o dossel atinge 95% de IL durante a rebrotação variam conforme a planta considerada. Com base no valor de 95% de IL, as alturas de entrada recomendadas têm sido de 90 cm para o capim-mombaça (Carnevalli et al., 2006), 70 cm para o capim-tanzânia (Difante, 2005; Barbosa et al., 2007), 30 cm para o capim-xaraés (Pedreira, 2006); 100 cm para o capim-cameroon (Voltolini, 2006) e 25 cm para o capim-marandu (Zeferino, 2006; Sarmento, 2007; Souza Júnior, 2007; Trindade, 2007).

A composição morfológica de plantas forrageiras manejadas com intervalo entre pastejos (IEP) determinado pelo critério da IL de 95% tem apresentado prorpoção de folhas significativamente maior e proporção de colmos e material senescido menor que plantas manejadas com IEP fixos (Tabela 4).


Tabela 4. Composição morfológica de plantas forrageiras tropicais conforme o critério para determinação do intervalo entre pastejos (IEP).

Fonte

Forragem

Critério para IEP

folhas

% MS


colmos

% MS


Senescido

% MS


Martinez (2004)

Elefante

35 dias fixos

33,7

56,1

10,2

Voltolini (2006)

Elefante

37 dias fixos

33,93

63,55

2,53

Voltolini (2006)

Elefante

27 dias fixos

48,0

46,0

6,0

Voltolini (2006)

Elefante

95% de IL (1m)

53,0

42,0

5,0

Carareto (2007)

Elefante

27 dias fixos

47,9

45,7

6,4

Carareto (2007)

Elefante

95% de IL (1m)

54,3

40,9

4,8

Correia (2006)

Marandu

30 dias fixos

40

36

24

Correia (2006)

Marandu

21 dias fixos

34

32,7

33,3

Costa (2007)

Marandu

95% de IL (25cm)

56

32

12

Voltolini (2006) e Carareto (2007) relataram maior produção de leite das vacas, maior lotação dos pastos e conseqüente maior produção de leite por área, quando capim Elefante, cv Cameroon foi manejado com critério de entrada nos pastos com base na IL de 95% (1,03 m) em comparação com IEP fixos de 27 dias.

A melhora na composição bromatológica e morfológica das pastagens manejadas corretamente pode tanto aumentar a produção de leite das vacas sem alteração nas doses de concentrado como relatado por Voltolini (2006) e Carareto (2007) quanto manter a produção de leite das vacas com doses menores de concentrado.

Portanto, práticas de manejo como a adubação nitrogenada, altura de entrada e saída do pasto e estrutura da planta, são parâmetros essenciais a serem observados no manejo de pastagens tropicais, com o objetivo de otimizar a colheita de grande quantidade de forragem de boa qualidade, que resulte em elevada produção animal por área.


4. Potencial de produção de leite de vacas mantidas exclusivamente em pastagens

Segundo Muller & Falles (1998), o potencial de produção de leite de vacas pastejando exclusivamente gramíneas temperadas é de 25 a 30 kg leite vaca-1 dia-1, enquanto que em pastagens tropicais os resultados obtidos têm sido bem mais modestos. A utilização de modelo de simulação de produção de leite para sistemas baseados em forrageiras tropicais foi avaliado por Assis et al. (2001) que observaram produção de leite da ordem de 7 a 10 Kg leite vaca-1 dia-1 em pastagens de capim elefante sem a utilização de concentrado.

Santos et al. (2003), revisaram a literatura sobre a produção e composição do leite de vacas mantidas em sistemas de produção baseados exclusivamente em gramíneas forrageiras tropicais. O valor de produção de leite médio obtido foi de 9,10 kg de leite dia-1, com uma variação de 5,0 a 13,7 kg de leite dia-1. Os teores médios de gordura, proteína e sólidos totais foram 3,9, 3,2 e 12,38, respectivamente.

O fator determinante que limita a produção de leite de vacas mantidas exclusivamente em pastagens tropicais não é o teor de energia ou proteína dessas plantas. Limitação na capacidade de ingestão de MS de forragem parece ser o fator preponderante (Santos et al, 2005). O consumo de MS de forragem de vacas mantidas exclusivamente em pastagens tropicais foi em média 2,34% do peso, com valores máximos de 2,8% de acordo com os dados revisados por Santos et al. (2003).

De acordo com o NRC (2001) para uma vaca com 520 kg de PV, produzindo leite com 3,8% de gordura e 3,2% de PB, o consumo de 12,2 kg de MS de pasto (2,34% do PV) com 16% de PB e 63% de NDT, supre energia líquida e proteína metabolizável para a produção de 11 kg de leite. A ingestão de 17 kg de MS dessa mesma forragem supriria energia e proteína para a produção de 20 kg de leite. A não ocorrência de consumos de forragens tropiciais nessa magnitude impõe desafios aos pesquisadores, consultores e produtores de leite, no sentido de aperfeiçoar práticas de manejo da pastagem e do animal visando maximizar o consumo de forragem e a produção de leite.

Indiscutivelmente, maximizar o consumo de forragem de animais em pastejo é o grande desafio que se apresenta em sistemas de produção em pastagens tropicais. O consumo de forragem é determinado por fatores intrínsecos do animal, como sua capacidade de ingestão, e fatores intrínsecos do pasto como a concentração de nutrientes, taxa de degradação e de passagem ruminal, composição morfológica e estrutura do pasto pré e pós pastejo (Gomide, 2001; Da Silva & Nascimento Jr, 2007). Além desses aspectos mencionados, o consumo de forragem também é afetado por aspectos de manejo, como conforto térmico, competição entre animais, distância percorrida pelo animal, etc (Santos et al., 2005).

Atingido o potencial máximo de produção de leite exclusivo em pastagem, a suplementação com concentrado torna-se então ferramenta fundamental quando se objetiva aumentar a produção de leite por vaca, com impacto positivo também na lotação dos pastos e conseqüentemente na produção de leite por área. Segundo Da Silva et al. (1996), sistemas que utilizam vacas de bom potencial genético, mantidas em pastagens tropicais manejadas intensivamente com suplementação de concentrado, podem atingir produções superiores a 30.000 kg de leite ha-1 ano-1. Produtividades entre 10 a 26.000 kg de leite ha-1 ano-1 em sistemas comerciais foram relatados por Santos et al. (2005).

5. Suplementação com concentrado para vacas em lactação

5.1 Efeitos de substituição da forragem pelo concentrado

Um efeito pronunciado e de curto prazo resultante do fornecimento do concentrado, é o efeito de substituição do consumo de MS da pastagem pela MS do concentrado, o qual por definição, refere-se ao decréscimo de ingestão de forragem devido a suplementação em relação a quantidade de suplemento consumida (Minson, 1990; Boin et al. 1997).

De modo geral, o CMS (consumo de matéria seca) de pasto diminui (Spõrndly, 1991; Robaina et al., 1998; Sayers, 1999; Reis & Combs, 2000b; Walker et al., 2001; Bargo et al., 2002a) e o CMS total aumenta com o fornecimento de concentrado (Spõrndly, 1991; Dillon et al., 1997; Robaina et al., 1998; Sayers, 1999; Reis & Combs, 2000b; Walker et al., 2001; Bargo et al., 2002a). Bargo et al., (2003) em sua revisão relataram redução de 1,9 kg dia-1 (0,1 a 4,4 kg dia-1) ou 13% do CMS de pastagem temperada com suplementação em comparação com animais consumindo apenas pasto (CMS=14,8 kg dia-1). O CMS total aumentou 3,6 kg dia-1 (1,0 a 7,5 kg dia-1) ou 24% com o fornecimento de concentrado em comparação com fornecimento apenas de pasto.

A taxa de substituição é variável em função da quantidade e composição do suplemento fornecido, bem como do valor nutritivo da forragem. As forragens de baixo valor nutritivo sofrem menor efeito de substituição em comparação com forragens de alto valor nutritivo (Minson, 1990). Minson (1990) e Paterson (1994) em sua revisão observaram valores de coeficientes de substituição de 0,25 a 1,67, com média de 0,69. Boin et al. (1997) relataram valores entre 1,0 e 0,65 para forragens de alto e baixo (50% de digestibilidade) valor nutritivo, respectivamente. Hillesheim (1987) encontrou taxa de substituição de 0,409 utilizando novilhas da raça holandesa pastejando capim-elefante.

Na revisão de Bargo et al. (2003), em pastagens de clima temperado a taxa de substituição (TS) observada foi de 0,40 kg MS de pastagem para cada kg MS de concentrado (0,02 a 0,71 kg MS de pastagem por kg MS de concentrado).

Em pastagens tropicais, os dados compilados por Santos et al. (2003) indicaram TS de 0,32, havendo entretanto grande variação entre esses dados.

As respostas a suplementação com concentrado dependem diretamente da taxa de substituição, existindo uma relação negativa entre a taxa de substituição e a produção de leite. De acordo com Deresz et al., (1994) a TS foi o principal motivo da baixa resposta a suplementação com concentrado, variando de 0,3 a 0,6 kg de leite para cada kg de concentrado fornecido em trabalhos de curta duração. Segundo Lucci (1997) uma maior taxa de substituição é obtida no estágio incial da lactação comparativamente aos estágios mais avançados, devido a um menor potencial de consumo de MS das vacas no início da lactação.

Para vacas em lactação mantidas em pastagens de clima temperado, a oferta de forragem tem sido apontada como um dos principais fatores influenciando a taxa de substituição, a qual aumenta com o aumento na oferta de forragem. As altas taxas de substituição observadas em pastagens com alta oferta de forragem podem ser parcialmente explicadas pela excelente qualidade da forragem consumida, devido à maior oportunidade em selecionar e colher uma forragem de melhor digestibilidade (Mayne & Wright, 1988).

A quantidade de concentrado fornecida não tem apresentado dados consistentes com relação a taxa de substituição, onde maiores quantidades de concentrado não tem afetado consistentemente a taxa de substituição (Peyraud & Delaby, 2001). Contudo, Kellaway e Porta (1993) sugeriram que a TS aumenta com o aumento do concentrado.

Apesar de taxas altas de substituição reduzirem a resposta em produção extra de leite por kg de suplemento fornecido, a produção de leite por área pode ser aumentada de forma expressiva em função do aumento na taxa de lotação dos pastos.


5.2. Efeito da Suplementação com Concentrado na Produção de Leite

Os sistemas de produção animal baseados apenas na utilização de pastagens não atendem a demanda de nutrientes para altas produções individuais (Muller & Fales, 1998; Santos et al., 2005). Neste sentido, suplementos concentrados podem ser utilizados para corrigirem as deficiências específicas de nutrientes dos animais em pastejo, sendo estas de ordem qualitativa e quantitativa (Santos & Juchem, 2001).

Quantidades diversas de concentrado têm sido estudadas para sistemas de produção de leite em pastagens tropicais, variando de 1 a 11 Kg de concentrado, com produções da ordem de 8,3 a 30,6 Kg de leite vaca-1 dia-1 (Vilela et al., 1996; Alvim et al., 1997; Aroeira et al., 1999; Fonseca et al., 1998; Teixeira et al., 1999). A utilização correta de concentrado é um instrumento potente para aumentar a produtividade do sistema, devido ao impacto na produção individual da vaca e ao aumento na lotação da pastagem e conseqüente aumento na produção de leite por área. (Santos et al., 2005).

O fornecimento de concentrado promove efeitos de longo e de curto prazo em sistemas de produção de leite baseado em plantas forrageiras tropicais. Os efeitos de curto prazo são: aumento no consumo de MS total, diminuição no consumo de MS de forragens (efeito de substituição), aumento na produção individual de leite e aumento no peso vivo. Em contrapartida, os efeitos de longo prazo são: aumento na taxa de lotação das pastagens, aumento na fertilidade, aumento no consumo de MS por área, aumento no tempo de duração da lactação e aumento na produção de leite por área. Em síntese, a curto e longo prazo, a suplementação com concentrado promove aumento na produção de leite individual e por área e melhoria nos índices de fertilidade do rebanho (Holmes & Mathews, 2001).

Santos et al. (2003) compilaram diversos trabalhos de pesquisa sobre suplementação com concentrado para vacas mantidas em pastagens tropicais. O resultado dessa compilação de dados mostrou que a produção média de leite foi de 13,80 kg vaca-1dia-1 com o fornecimento de 3,45 kg de MS de concentrado ao dia, para um consumo de 9,83 kg de MS de forragens e consumo total de 13,28 kg de MS dia-1. Quando se considerou apenas os trabalhos com produção de leite acima de 20 kg por vaca dia-1, a produção média de leite foi de 22,78 kg vaca-1dia-1 com o fornecimento de 6,45 kg de MS de concentrado ao dia. O consumo de MS de pasto foi de 11,70 kg e o consumo total foi de 18,15 kg de MS dia-1.

O fator econômico da utilização da suplementação tem sido questionado e esta proposta tem sido fundamentada com base em trabalhos de curta duração onde as respostas em Kg de leite extra por Kg de concentrado têm normalmente sido baixas. Respostas de apenas de 0,5 a 1,0 Kg de leite por Kg de concentrado fornecido foram reportadas por diversos autores (Valle et al.,1987; Deresz et al., 1994; Alvim et al., 1996; Vilela et al., 1996). Entretanto, ao se comparar os dados médios de todos os experimentos revisados por Santos et al., (2003) com vacas sem e com suplementação, compilados na Tabela 5, pode-se inferir que as respostas ao concentrado foram superiores a 1,3 kg de leite por kg de concentrado fornecido.


Tabela 5. Comparação entre produção e composição de leite de vacas mantidas em pastagens de clima tropical recebendo ou não suplementação com concentrado

Prod. de leite (kg vaca-1dia-1)

CMS de

Pasto

(kg vaca-1dia-1)

CMS

Concentrado (kg vaca-1dia-1)

CMS

total

(kg vaca-1dia-1)

Gord (%)

Prot. (%)

Sólidos Totais (%)

Gord. (kg dia-1)

Sem suplementação

9,33

10,95

0,00

10,95

3,90

3,20

12,38

0,382

Com suplementação

13,80

9,83

3,45

13,28

3,80

3,06

12,37

0,554

> 20,001

11,70

6,45

18,15

4,05

-

13,00

0,958

1- O valor médio dos trabalhos apresentando produção de leite superior a 20,00 kg de leite vaca-1dia-1 foi de 22,78 kg de leite vaca-1dia-1.
Davison & Elliot (1993) revisaram a literatura australiana sobre suplementação de vacas em lactação mantidas em regime de pasto e constataram um aumento de 40% na produção de leite por ha em um período de quatro anos, com respostas de 1,1 a 1,6 Kg de leite por Kg de concentrado em propriedades comerciais.

As respostas da suplementação com concentrado em sistemas de produção de leite no Brasil têm sido prejudicadas por diversos fatores, dentre eles, a tentativa de compensar via concentrado a falta de forragem tanto quantitativa quanto qualitativamente, assim como o uso de vacas não especializadas para a produção de leite, com baixo potencial de resposta, e as mais diversas falhas no manejo dos animais. Não obstante, estas respostas são maiores em pastagens tropicais comparativamente a pastagens de clima temperado, devido principalmente ao menor valor nutritivo e menor efeito de substituição. A resposta em produção (kg de leite por kg de concentrado) é maior no início da lactação e para menores quantidades de concentrado fornecido (Santos & Juchem, 2001).

Com base nos dados da Tabela 5, observa-se que o fornecimento de 3,45 kg de MS de concentrado vaca-1dia-1 aumentou o consumo total de matéria seca em 21% em comparação com vacas não suplementadas (10,95 e 13,28 kg MS vaca-1dia-1), mas reduziu em 10% o consumo de forragem (10,95 e 9,83 kg vaca-1dia-1). Quando se considera apenas os trabalhos para os quais a produção de leite foi superior a 20 kg dia-1, o consumo total de MS aumentou em 66% (18,15 e 10,95 kg MS vaca-1dia-1) com fornecimento de 6,45 kg de MS de concentrado.
5.3. Efeito da suplementação com concentrado na composição do leite

A composição do leite é um parâmetro importante a ser avaliado, tanto do ponto de vista do fornecimento de um produto de qualidade para o consumidor quanto do ponto de vista econômico, uma vez que o pagamento por sólidos totais (gordura e proteína) vem recentemente sendo implementado pela indústria nacional.

As pastagens são teoricamente, excelentes fontes para manter teores elevados de gordura no leite (Stockdale et al., 1990). Entretanto, baixos teores de gordura no leite de vacas mantidas em pastagens tropicais ou temperadas não são raros de encontrar na literatura. Por outro lado, o fornecimento de concentrado tem promovido aumento nos teores de proteína do leite em vacas mantidas em pastagens (Stockdale et al., 1990).

Na compilação de diversos dados obtidos em pastagens de clima temperado, a suplementação com concentrado reduziu o teor de gordura do leite em 6%. Foram observados valores de 4,04 e 3,80% para vacas mantidas em dieta exclusiva de pasto e suplementadas, respectivamente. Entretanto, o teor de proteína aumentou em 4%. Foram observados valores de 3,06 e 3,19% para vacas sem e com suplementação, respectivamente (Bargo et al., 2003).


6. Limitações nutricionais em sistemas de produção de leite em pastagens tropicais

Segundo Muller & Falles (1998), um número limitado de estudos têm sido conduzidos para se determinar os nutrientes mais limitantes para a produção de leite de vacas mantidas em pastagens. Tanto para gramíneas temperadas (Muller & Falles, 1998) como para tropicais bem manejadas (Davison & Elliott, 1993; Davison et al, 1982; Reeves et al. 1996; Santos et al., 2005), a ingestão de energia metabolizável constituiu-se na maior limitação para vacas leiteiras mantidas em pastagens.

As dietas formuladas para vacas produzindo acima de 30 kg de leite dia-1 devem conter de 30 a 45% de CNF (NRC, 2001), os quais se constituem na principal fonte de energia para o animal. Entretanto, gramíneas temperadas e tropicais apresentam valores bem inferiores aos requeridos, da ordem de 15 a 22% nas temperadas (Muller & Falles, 1998) e valores similares ou inferiores nas tropicais (Tedeschi et al., 2002).

Trabalhos tanto com gramíneas tropicais como com temperadas, têm mostrado respostas superiores quando a suplementação energética é feita via fontes ricas em CNF (cereais) comparadas com fontes ricas em gordura (caroço de algodão) (Ehrlich et al., 1993). Entretanto, a combinação de fontes ricas em CNF com fontes ricas em gordura, tem mostrado resultados superiores ao fornecimento exclusivo de fontes ricas em CNF, principalmente em termos de produção de leite corrigido para gordura (King et al, 1990).

É difícil isolar quanto do aumento em produção de leite quando se fornece fontes ricas em CNF, deve-se exclusivamente a um aumento na energia metabolizável para o animal ou se parte da resposta advém de um provável aumento no fluxo de proteína metabolizável para o intestino, devido a uma maior síntese de proteína microbiana no rúmen. Fontes de energia ricas em CNF suprem energia primeiramente para os microrganismos ruminais estimulando a fermentação ruminal, com maior produção de ácidos graxos voláteis (AGV), ou seja, maior absorção de energia, ao mesmo tempo em que estimulam a síntese de proteína microbiana de animais mantidos em pastagens (Carruthers & Neil, 1997). A eficiência de utilização do N amoniacal proveniente da degradação ruminal da proteína contida na forragem, também é aumentada com um maior suprimento de CNF (Van Vuuren et al., 1986).

Devido a alta degradabilidade ruminal da proteína contida nas forragens tropicais e temperadas, é possível que uma limitação no fluxo de proteína metabolizável para o intestino ocorra, principalmente para animais de alta produção suplementados ou não com concentrado. Esta limitação parece ser mais acentuada quanto maior o teor de proteína bruta da forragem, ou seja, a proteína proveniente desta forragem participa em larga escala da proteína total da dieta do animal. Entretanto, a suplementação de animais em pastagem com concentrado contendo fontes ricas em PNDR (proteína não degradável no rúmen) em comparação com fontes convencionais como o farelo de soja e de algodão tem resultado em dados inconsistentes e pouco promissores (Santos & Jüchen, 2001).


7. Suplementação Protéica

A versão mais recente do NRC para gado leiteiro (NRC, 2001) calcula as exigências em proteína do animal não mais em proteína bruta, mas em proteína metabolizável. Proteína metabolizável corresponde ao total de AA absorvidos no intestino delgado, provenientes da digestão intestinal da proteína endógena, da proteína microbiana e da PNDR.

Dentre as fontes protéicas, as mais utilizadas na formulação de concentrados para vacas em lactação mantidas em pastagens tropicais no Brasil são o farelo de soja, soja grão, farelo de algodão, caroço de algodão, resíduo de cervejaria, refinasil ou promill e a uréia (nitrogênio não protéico). Vale ressaltar que as fontes protéicas de origem animal estão proibidas em nosso país.

O farelo de soja tem uma proteína de boa qualidade, adequada em lisina, porém deficiente em metionina (Santos et al, 1998) e caracteriza-se como uma proteína de alta degradabilidade ruminal. Soja grão, caroço de algodão, refinasil e promill são fontes protéicas também de alta degradabilidade ruminal. A proteína do farelo de algodão apresenta média degradabilidade ruminal, enquanto que a proteína do resíduo de cervejaria apresenta baixa degradabilidade ruminal. A uréia é um composto orgânico rico em NNP, com 45% de N, e potencial equivalente a 281% de PB, totalmente degradável no rúmen (NRC, 2001).

É importante um balanceamento adequado da dieta em proteína, pois além do impacto no fator produtivo, os suplementos protéicos representam parcela considerável do custo das dietas para vacas em lactação. De acordo com o NRC (2001), para vacas confinadas com produções acima de 30 kg d-1, a produção de leite sofre efeito quadrático com relação aos teores de PB nas dietas, com incrementos na produção de leite de 0,75 kg dia-1 aumentando a concentração dietética de proteína de 15 para 16% e 0,35 Kg dia-1 com aumento de 19 para 20% de PB na dieta. Entretanto, vacas mantidas em pastagens tropicais raramente atingem produções de leite superiores a 30 kg d-1, exceto no pico de lactação. Produções entre 6 a 7.000 kg de leite em 305 dias de lactação são provavelmente valores máximos relatados na literatura, para vacas de alto mérito genético mantidas em pastagens tropicais e suplementadas com concentrado (Santos et al., 2005).

Comercialmente no Brasil, os concentrados fornecidos para vacas em lactação mantidas em pastagens tropicais variam de 16 a 24% de PB na matéria natural. Estes valores de proteína bruta justificam-se apenas em condições de pastagens mal manejadas, com teores baixos de PB ou no caso de vacas no início de lactação, com produções de leite superiores a 30 kg d-1. Conforme a simulação apresentada na Tabela 3, dependendo do teor de PB da pastagem, produções de até 29,2 kg d-1, podem ser obtidas com suplemetação exclusiva de fonte energética como o milho (NRC, 2001).

Van Der Grinten et al. (1992) avaliaram a suplementação protéica em quatro sistemas de produção baseados em pastagens tropicais com a utilização de concentrados, e observaram que em todos os sistemas, as dietas apresentavam excesso de PB. Isto provavelmente vem ocorrendo em grande número de sistemas de produção de leite no Brasil que utilizam pastagens tropicais adubadas com doses altas de N e vacas com produções médias entre 12 a 20 kg d-1.

Vacas mantidas em pastagens de capim elefante com apenas 12% de PB na MS, com produções diárias ao redor de 18,5 kg de leite, não responderam a teores de PB na matéria natural do concentrado superiores a 15,8% (Voltolini, 2006).

No trabalho de Fontaneli (2005), com capim elefante, quicuio e tifton 68, contendo entre 20,6 a 22,1% de PB, as vacas produziram em média entre 20,4 a 26,72 kg de leite dia-1, quando suplementadas diariamente com 5,5 a 7,2 kg de concentrado. O concentrado continha apenas milho moído e mistura mineral, conforme recomendado pelo NRC (2001). Produções individuais de até 43,4 kg de leite dia-1 foram relatadas por Fontaneli (2005).

A utilização de concentrado com teores excessivos de PB resulta em teores altos de N-uréico no plasma e no leite. Isto pode prejudicar o desempenho reprodutivo das vacas e aumentar as exigências em energia uma vez que são necessárias 13,3 kcal de energia digestível para excretar um grama de N. Ainda, os concentrados protéicos são caros e a grande quantidade de N excretado pode gerar impacto ambiental negativo. Mulligan et al. (2004), utilizaram vacas de alta produção em pastagens e observaram que suplementos com baixa concentração protéica foram mais efecientes na utilização do N dietético, diminuindo sua excreção no ambiente, sem alterar a produção de leite. O monitoramento de valores de N-uréico no leite é uma das ferramentas que permitem avaliar a adequação protéica da dieta consumida pelas vacas. Os valores recomendáveis variam em função do estágio de lactação e produção de leite (Broderik & Clayton, 1997).

O uso de fontes protéicas de baixa degradabilidade ruminal para vacas em início de lactação com alta produção de leite, quando mantidas em pastagens tropicais com teores altos de PB é assunto ainda pouco estudado (Santos et al., 2005).

No caso de vacas mantidas em confinamento, com produções entre 30 a 46 kg de leite dia-1, Santos et al. (1998) revisaram a literatura sobre suplementação com fontes ricas em PNDR. Em substituição parcial ou total ao farelo de soja convencional, a suplementação com PNDR teve sucesso somente quando se utilizou fontes ricas e bem balanceadas em lisina e metionina (farinha de peixes) ou fontes com perfil de AAE similar ao do farelo de soja, porém com menor degradabilidade ruminal (farelo de soja tratado a alta temperatura ou quimicamente). Atualmente, a combinação de fontes ricas em PNDR e aminoácidos, principalmente lisina e metionina, protegidos da degradação ruminal tem apresentado os melhores resultados (NRC, 2001).

Hongerholt e Muller (1998), não observaram resposta em vacas com produção ao redor de 35 kg de leite/d, mantidas em pastagens temperadas, quando fontes ricas em PNDR foram suplementadas em comparação com o farelo de soja convencional. A simulação feita pelos autores usando o modelo dinâmico de Cornell (CNCPS), mostrou que o principal nutriente limitante para o desempenho das vacas ainda era energia metabolizáve e não PNDR.

Reeves et al. (1996) conduziram um estudo bastante interessante com o objetivo de determinar se vacas mantidas em pastagens tropicais bem manejadas seriam mais responsivas à suplementação com fontes ricas em energia ou em PNDR. Quatro doses de concentrado foram fornecidas: 0, 3, 6 e 9 kg/vaca.dia-1. O concentrado continha grão de cevada e farelo de canola tratado com formoldeído (rico em PNDR). Dentro de cada dose de concentrado foram formulados 4 concentrados contendo teores crescentes de farelo de canola a partir do nível zero. Os resultados obtidos mostraram que a produção de leite (17 a 23 kg/vaca.dia-1) foi influenciada pelo suprimento de energia metabolizável e não pelo aumento de PNDR na dieta. Estes dados indicam que em pastagens tropicais bem manejadas, mesmo para vacas recebendo até 9 kg de concentrado por dia, energia ainda é o fator mais limitante para a produção.

Kellaway & Porta (1993) revisaram a literatura Australiana sobre suplementação protéica e concluíram que para vacas de baixa produção, em pastagens de alta qualidade, a suplementação com fontes ricas em PNDR é desnecessária. Delgado & Randel (1989), trabalharam com sistema rotacionado com grama estrela e não observaram resposta de vacas produzindo em média 17,3 kg de leite dia-1, ao aumento de PB do concentrado de 15 para 18%, assim como do aumento do teor de PNDR no concentrado.

Apesar dos dados de pesquisa indicarem ausência de resposta à suplementação com fontes ricas em PNDR para vacas mantidas em pastagens temperadas ou tropicais, Davison & Elliott (1993) relataram resposta em produção de leite com a suplementação de fontes ricas em PNDR em observações feitas em fazendas comerciais australianas. Entretanto, os autores não esclarecem se estas respostas foram obtidas em comparação com fontes da alta degradabilidade ruminal ou se referem à simples adição extra de uma fonte rica em PNDR.


8. Suplementação energética

A suplementação energética para animais em pastagens pode ser feita através do fornecimento de fontes ricas em carboidratos ou em gordura ou a combinação de ambas as fontes. No caso da suplementação com fontes ricas em carboidratos esta pode ser feita com o uso de fontes ricas em amido, como os grãos de cereais (milho, sorgo, milheto, cevada, aveia, trigo, etc) ou tubérculos (mandioca), através de fontes ricas em açúcares (melaço, polpa cítrica) e através de fontes ricas em pectina e fibra de alta digestiblidade (polpa cítrica, casca de soja, farelo de trigo, farelo de glutem de milho (refinasil ou promill), etc). No caso de fontes ricas em gordura, destacame-se as oleaginosas como o caroço de algodão e o grão de soja.


8.1. Fontes ricas em amido

8.1.1. Milho

O milho é o principal cereal utilizado nos concentrados para vacas leiteiras no Brasil. O principal componente do milho é o amido, em torno de 65 a 72% da MS. Portanto, a utilização eficiente desta fonte energética depende em grande parte da digestibilidade do amido. O grão de milho inteiro apresenta baixa digestibilidade do amido, com grande perda deste nutriente nas fezes de vacas leiteiras. Com o objetivo de otimizar a utilzação deste nutriente em rações para bovinos, várias formas de processamento de grãos têm sido estudadas.

Para vacas em confinamento, o processamento do milho através da floculação e silagem de grãos úmidos tem se mostrado superior à moagem grosseira ou laminação a seco ou com vapor (Huntington, 1997; Theurer et al., 1999). A ensilagem de grãos úmidos é vantajosa em relação ao precessamento seco como a moagem ou laminação, pois resulta em maior digestibilidade do amido e maior NDT do cereal. Isto se deve principalmente ao processo de proteólise durante a ensilagem. A floculação destrói de forma efetiva a matriz protéica que envolve os granulos de amido e que limitam sua digestão. Também ocorre gelatinização do amido e aumento da área superficial do grão.

Estudos com vacas em pastagens foram conduzidos para comparar diferentes formas de processamento de grãos, tais como milho de alta umidade (Soriano et al., 2000; Alvarez et al., 2001; Reis et al., 2001; Wu et al., 2001), milho floculado com densidade de 290 (Bargo et al., 1998) ou 360 g/L (Delahoy et al., 2003), laminado a vapor com densidade de 591 g/L (Reis & Combs, 2000a). A maioria dos estudos não relatou diferenças no CMS de pasto ou CMS total quando estas formas de processamento foram comparados com milho laminado ou moído. Em apenas um trabalho a produção de leite foi maior para a fonte de alta degradabilidade (Wu et al., 2001). A ausência de resposta ao processamento de milho para vacas em pastagens difere dos dados consistentes revisados por Theurer et al. (1999) com vacas mantidas em confinamento. Na maioria dos trabalhos em pastagens citados acima, as quantidades altas de milho, entre 8 a 10 kg vaca-1 dia-1, podem ter resultado em excesso de amido degradável no rúmen nos tratamentos com grãos processados mais intensamente e afetado o desempenho das vacas.


8.1.2. Sorgo

Assim como o milho o sorgo é um cereal rico em amido (65 a 72% da MS), com teor de PB (11,6%) e de FDN (10,9%) pouco superiores ao do milho (Santos, 1998; NRC, 2001). Os valores de NDT do sorgo são inferiores ao do milho, em geral em torno 90% do valor do milho (NRC, 2001). O menor valor energético do sorgo em relação ao milho se deve à menor digestibilidade do amido deste cereal. Em comparação ao milho, cevada, trigo e aveia, o sorgo é o cereal que apresenta o amido menos digestível. Isto se deve a uma maior presença de matrizes e corpos protéicos revestindo os grânulos de amido do sorgo em comparação aos demais cereais. Devido à menor digestibildade do amido do sorgo, este cereal é o que mais se beneficia de processamentos mais intensos como a floculação e ensilagem do grão úmido (Theurer et al., 1999).

Os dados revisados por Huntington (1997), Santos (1998) e Theurer et al., (1999), indicam que o sorgo processado na forma seca (moagem ou laminação) é realmente inferior ao milho para vacas leiteiras. A produção de leite é inferior para o sorgo moído ou laminado quando o consumo da dieta não é alterado por este cereal em comparação ao milho processado da mesma forma. Produções similares têm sido relatadas, porém neste caso o consumo de MS das dietas com sorgo tem sido superior ao das dietas com milho, o que resulta em pior eficiência alimentar. Quando processado de forma mais intensa, no caso através da floculação, o sorgo tem se mostrado superior ao milho moído ou laminado e igual ao milho floculado para vacas confinadas com produções diáiras superiores a 25 kg de leite (Theurer et al, 1999). Para vacas em pastagens, não foram encotrados trabalhos com processamento de sorgo.

No Brasil, a principal forma de processamento é a moagem. Apesar da ausência de dados com vacas em pastagens, com base nos dados com vacas confinadas, a moagem fina é indicada em relação a moagem mais grosseira (Santos, 1998).





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