Universidade Federal Fluminense



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Luis Wilson
O Auge do Ideal de Supremacia Na Alemanha Nazista















Introdução
O século XX foi palco das maiores transformações já presenciadas na história da humanidade. O estabelecimento de um “mundo” instantâneo se deu devido ao imenso avanço tecnológico e intelectual, cujo impulso inicial ocorreu na virada do século XVIII/XIX. Porém, como também é muito comum na história da humanidade, muito sangue foi derramado, muitas guerras travadas em prol do domínio e uso exclusivista de tais avanços.

Assim, o século XX teve início de uma forma muito tensa, com o imperialismo e o neocolonialismo suscitando duas grandes guerras, e as seqüelas destes processos podem ser observadas até hoje – a tensão entre as Coréias, os conflitos Índia – Paquistão e Palestina – Israel, a fragmentação da Ex-Iugoslávia, a Guerra Fria, entre tantos outros.

Porém, foi a 2ª Guerra Mundial (1939-1945) o ápice deste processo. A Alemanha, depois de derrotada na I Grande Guerra (1914-1918), sofreu uma brutal retaliação, obrigada a pagar pesadas indenizações aos vencedores. O presidente estado-unidense da época afirmou, num tom beirando o profético, em 1924, sobre os encaminhamentos do pós-guerra:
Posso predizer com absoluta certeza que, dentro de apenas uma geração, haverá outra guerra mundial, se as nações não se puserem de acordo sobre os métodos para impedi-la.
Outro fator decisivo para a deflagração da 2ª Guerra Mundial foi a crise do liberalismo, tendo seu auge na crise de 1929, e a conseqüente ascensão dos partidos de extrema-direita na Europa. Segundo Eric Hobsbawn, em A Era dos Extremos (p. 116-117), três características principais podem ser observadas na direita ascendente da época:
As forças que derrubavam os regimes liberais-democráticos da época eram de três tipos [...] Todos eram contra a revolução social, [...] Todos eram autoritários e hostis às instituições políticas liberais [...] Todos tendiam a ser nacionalistas, em parte por causa do ressentimento contra Estados estrangeiros, guerras perdidas [...] e em parte porque agitar bandeiras nacionais era um caminho tanto para a legitimidade quanto para a popularidade. (Grifo meu)
Os discursos de Hitler eram recheados de ataques aos liberais tradicionais, de elogios à mãe-pátria e de absoluta aversão ao que ele considerava o grande mal do século XX: o comunismo. Aliás, foi temendo a propagação do comunismo e uma eventual revolução que diversos setores, inclusive os liberais e a igreja católica, deram apoio aos novos governos de direita na Europa – tudo para manter o poder fora das mãos da “massa proletária”.

Assim, a 2ª Guerra Mundial foi uma continuação direta da 1ª, e ambas podem ser vistas como um único processo. O período entre 1918 e 1938 não foi um período de “paz”, mas, sim, um período que se caracterizou mais por conflitos internos do que externos – como a guerra civil espanhola, a guerra civil alemã, as revoluções russas etc.



O grande diferencial do Nazismo com outros regimes de direita foi o extremismo racista. Mas será que Hitler e seus companheiros de partido realmente acreditavam nisso, ou era aquilo apenas uma máscara para ocultar os reais interesses econômicos do III Reich? Se levarmos em conta uma das mais caras instituições criadas pelo partido nazista, a primeira hipótese nos parece positiva.
Os Lebensborn
O livro Em nome da raça ,de Marc Hillel, lançado em 1975, é o fruto de mais de uma década de pesquisas sobre o assunto. A princípio, acreditava-se que os Lebensorn eram maternidades para mães solteiras (que perderam os maridos na guerra), ou ainda bordéis das tropas de choque do nazismo, as sinistras SS.

Porém, estes locais eram muito mais do que maternidades ou bordéis. Submetidos ao RuSHA (Departamento de Raça e Povoamento, criado em 1931), eles eram a parte mais importante do projeto de seleção racial Nazista e a parte principal de apoio às medidas de aumento de natalidade. Devido à queda desta após a I Grande Guerra, ocasionada pela mortandande entre os homens, em 1938 havia 5 mulheres para cada homem na Alemanha. Algumas medidas, porém, eram aplicáveis somente aos “racialmente aptos” para povoar o país. Eram algumas delas:
-Incitar os homens a terem relações fora do casamento, para dar “filhos” ao Führer. Assim, diversas crianças nascidas no Lebensborn tinham um pai “conhecido e desconhecido” – a mãe informava o pai real, e depois de averiguado se era verdade, e se o pai era racialmente puro, mantia-se a informação em sigilo para resguardar o oficial que era pai da criança.


Heinrich Himmler, chefe da SS


-Multas a todos os homens sem filhos. Por lei, até os 35 anos, um homem deveria ter, pelo menos, quatro filhos – não necessariamente com a mesma mulher. Quanto mais velho ficasse sem o número devido de filhos, maior a multa.

-Pena de morte para homossexuais da SS e da polícia (em 1941).



-Anti-feminismo. As meninas eram educadas para serem mães, e mais, para se “darem” a um “bom” homem (i.e., racialmente bom). Eliminavam-nas da vida pública, para seguir a “teoria do KKK”: Küche, Kinder, Kirche (cozinha, filhos, igreja). O mérito de uma mulher que “dava um filho ao Führer” era tão grande quanto o de um soldado. Porém, os requisitos para ser racialmente válido fazia com que duas de cada três mulheres não fossem aceitas nos Lebensborn.

-As enfermeiras recrutadas nos Lebensborn eram selecionadas de acordo com os critérios de raça, e eram instruídas para oferecerem-se aos oficiais que eventualmente passavam nos Lebensborn. Daí a idéia de “Bordel da SS”.


Uma das únicas fotos de um Lebensborn. Ao fundo, a bandeira da SS


Os Lebensborn eram, então, o grande ponto de encontro das diversas medidas de povoamento do RuSHA. Os dois responsáveis pelas instituições eram Max Sollmann (Diretor Administrativo) e Gregor Ebner (Diretor Médico), se reportavam com freqüência a Himmler sobretudo no que se relacionava com as creches. Porém, a situação de uma creche dessas era longe de ser a desejada. Maus tratos a crianças, problemas de higiene, enfermeiras despreparadas, roubo de mantimentos (pois até fins de 1944, nunca faltavam alimentos). A morte de crianças deficientes, ou “fora dos padrões”, era uma faca de dois gumes; além do desperdício de investimento naquele bebê, os pais eram proibidos de ter mais filhos, a fim de evitar novos bebês “defeituosos”.

Quatro eram as “fontes de vida” para a seleção racial nos Lebensborn:



-Procriação natural: as moças davam entrada, grávidas, num Lebensborn, e, depois de garantido o certificado de pureza racial do pai e da mãe, eram aceitas.

-Procriação Dirigida: Mulheres buscavam os Lebensborn para saber “o que era necessário para se ter um filho”. Ouviam falar que estas instituições eram encarregadas, a mando do próprio Hitler, de por em prática o Führerdienst – o serviço do Fürher. Essas mulheres, depois de consideradas “puras de raça”, eram alocadas como “enfermeiras” – na verdade, cuidar das crianças e das mães era secundário, estavam ali para esperarem a ordem de se entregar a um parceiro para dar um filho ao Führer.


Enfermeiras de um Lebensborn Segurando Bebês


-Procriação artificial: O debate sobre a inseminação artificial se deu entre Himmler e diversos médicos. A principio resistente a este método, o encaminhamento da guerra fez Himmler e seus companheiros mudarem de idéia quanto ao assunto, mas não há provas consistentes da realização efetiva de inseminação nos Lebensborn.

-Seqüestro: Durante a guerra, crianças eram seqüestradas das diversas famílias de outros países. As que se adequavam aos padrões eram encaminhadas aos Lebensborn, para receberem a devida educação nos padrões da raça ariana.

As atividades dos Lebensborn só cessaram com o fim da guerra, em 1945, e o maior problema foi devolver as crianças a suas famílias. Muitos arquivos foram destruídos na época, principalmente das empresas que patrocinavam tais atividades (firmas respeitáveis até hoje, como a Siemens, Krupp e a Bosch, estiveram envolvidas), e a pesquisa sobre o assunto tem sido feita com base em cartas e em depoimentos de ex-enfermeiras e ex-prisioneiros que trabalhavam nos Lebensborn. Assinale-se, finalmente, que os principais responsáveis pelos Lebensborn (Sollman e Ebner) nunca foram punidos:


A acusação não pode provar com certeza a participação real dos Lebensborn no programa de raptos realizados pelos nazistas. Ainda que tenha ficado provado que milhares e milhares de crianças foram raptadas por outras organizações e trazidas para a Alemanha, foi demonstrado que somente uma pequena porcentagem oi encaminhada aos Lebensborn. E, sobre este número, o Lebensborn só se ocupou de alguns casos isolados de crianças cujos pais estavam vivos. [...] O Lebensborn não selecionou nem examinou as crianças estrangeiras. (HILLEL, Marc. Em nome da Raça, p.333-334)

Cronologia
1929 – Crack da Bolsa de Nova York. O Partido Nazista ganha força com o enfraquecimento do liberalismo

1931 – Criação do RuSHA (Departamento de Raça e Povoamento)

1932 – Partido Nazista dobra o número de seus deputados no Parlamento

1933 – Hitler é chamado para organizar e chefiar o governo. Torna-se líder absoluto após plebiscito.

1933 – Criação dos primeiros Lebensborn

1936-1938 – Apoio da Alemanha ao franquismo na guerra Civil Espanhola

1939 – Início da 2ª Guerra Mundial

1945 – Rendição da Alemanha. Suicídio de Hitler, fim da 2ª Guerra Mundial com o ataque nuclear estado-unidense ao Japão.


Bibliografia
AARÃO, Daniel Reis; FERREIRA, Jorge; ZENHA, Celeste. História do Século XX, Volume II. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2000

HILLEL, Marc. Em nome da Raça. Rio de Janeiro, Otto Pierre Editores, 1980.



HOBSBAWN, Eric. A era dos extremos. São Paulo, Companhia das Letras, 1995.

LENHARO, A. Nazismo, o triunfo da vontade. São Paulo, Atica, 1990.



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