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Universidade Federal da Bahia

Faculdade de Comunicação

Orientadores: Maria Carmen e Rodrigo Barreto

Nought so Queer as Folk:

Uma análise do seriado Queer as Folk

por Gustavo Bezerra, João Barreto e Tanara Régis

Julho de 2006

Salvador

“Mas também é o meu rosto.

Crio rostos quando preciso parecer normal.”

- Neil Gaiman, Sandman #20

“I just saw the face of God and his name is Brian Kinney.”

Justin a Daphne, na porta do colégio

“But I say fuck’em. They can write it in neon across the sky: FAGGOTS!”

Brian Kinney

Sinopse.

Queer as Folk é um seriado sobre o relacionamento de três amigos gays, Justin (Randy Harrison), Brian (Gale Harold) e Mike (Hal Sparks). Com muito humor, por vezes ácido, no bairro gay de Pittsburgh é onde se desenvolvem dos mais divertidos aos mais tensos acontecimentos que terão implicações diretas sobre a vida dos três. É onde os personagens principais paqueram, bebem, dançam, transam e falam sobre sexo. Participando das emoções desses amigos, está a Debbie (Sharon Gless), mãe de Mikey,e mão simbólica dos amigos de Mike.
Episódio 1 – New Boy.

Tudo começa na Babylon. Mike faz a apresentação dele, dos amigos, Ted e Emmet (Peter Paige), e posteriormente de Brian. Realçando suas principais características. Emmet, o mais afeminado, mas muito corajoso. Ted (Scott Lowell), uma pessoa de bom coração, mas por quem os outros não dão a mínima. Brian, o sedutor, que não dá a mínima pra ninguém. Ao final da noite, todos esperam por Brian do lado de fora da Babylon. Justin, um jovem garoto de 17 anos está a procura do que fazer na noite. Ele acaba conhecendo Brian, que larga os outros amigos e o leva para casa. Na cama com o inexperiente Justin, Brian recebe uma ligação informando do nascimento de seu filho. Ele segue para o hospital levando Justin e Mike. Mike acaba tendo de deixar uma transa de lado para acompanhar Brian. No hospital estão Lindsay (Thea Gill) e Mellanie (Michelle Clunie), um casal de lésbicas que decidiram ter um filho com Brian. Na cobertura do hospital Brian e Mikey se abraçam e brincam, demonstrando o profundo carinho que tem um pelo outro. Brian ingere drogas; na volta, Mikey vai deixar Brian em casa e observa pelo retrovisor Brian e Justin namorando. Justin decide ir dormir com Brian que acorda no outro dia sem se lembrar da noite anterior. O carro de Brian é pichado na porta da casa de Mike. Ele resolve levar Justin e ir ao trabalho de carro assim mesmo. Mike acha loucura, mas vai também. Ao chegar no colégio Justin é zombado e repreendido pelos colegas que o vêem chegando no carro escrito “bichas”. Brian o defende. Justin pergunta quando irá vê-lo novamente. Brian responde: “nos seus sonhos”. Brian volta dirigindo o carro com Mike, que se preocupa com os julgamentos das pessoas na rua. Brian demonstra não estar se importando com isso.



Gênero

Comédia/drama

Duração

44 a 58 minutos (cada episódio)

Criadores

Russell T. Davies, e adaptado para a televisão norte-americana por Ron Cowen e Daniel Lipman

Elenco

Gale Harold (Brian Kinney)
Randy Harrison (Justin Taylor)
Hal Sparks (Michael Novotny)

País

Co-produção EUA/Canadá

Canal de exibição

Showtime U.S. e Showcase Canada

Quando começou a ser exibido

3 de dezembro de 2000 no Showtime e 22 de janeiro de 2001 on Showcase – 7 de agosto de 2005 no Showtime e 15 de agosto de 2005 no Showcase.

Episódios

83
1. Contexto da produção

Queer as Folk é uma versão de uma série inglesa homônima de sucesso. A produção inglesa contou com apenas duas temporadas, enquanto que a sua versão americana durou cinco. O título vem de um ditado do norte da Inglaterra: “There is nought so queer as folk”, ou “Nada é tão estranho quanto pessoas”. Queer é também uma ofensa, “bicha”. Assim, é construído um trocadilho útil na produção de sentido do título. Já no Brasil, a série foi exibida com o subtítulo de Os Assumidos.
Queer as Folk foi produzida e realizada pelo canal norte-americano Showtime, de propriedade da Viacom e pela Temple Street Productions, produtora canadense menor. A Viacom, por sua vez, foi responsável ou esteve vinculada à produção de sitcoms de sucesso como: I Love Lucy (1951), parâmetro para sitcoms posteriores, que discutia a posição de uma mulher dentro de um modelo familiar conservador; All in the Family (1971), novamente trazendo à baila discussões familiares mais liberais; e ainda Barrados no Baile (Beverly Hills, 90210), sucesso da década de 90. Barrados no Baile retratava o cotidiano de um grupo de amigos ricos e em idade escolar, constituindo uma espécie de família simbólica. A Viacom ainda detém ações dos canais MTV, voltada especialmente para o público jovem e o Nickelodeon, canal direcionado ao público infanto-juvenil.
Os seriados vinculados a Viacom, hoje CBS Corporation, abordados anteriormente tratam de temas mais realistas e voltados para o ambiente familiar, mesmo o familiar simbólico. Em Queer as Folk, pode-se afirmar que há uma construção de família simbólica, com um modelo bem alternativo. Esta família simbólica implica discussões e situações inusitadas, abrindo o leque do debate acerca dos relacionamentos no século XXI e será abordada em detalhes mais adiante.
A partir de 2000, ano de estréia de QAF, o Showtime estava vivenciando um momento de expansão no mercado da televisão fechada. Nessa época, lançou uma série de canais adicionais, incluindo o Showcase e redes a cabo de tecnologia digital. Em 2000, Showtime lançou também o canal Showtime Interactive 24.7 – provendo oportunidades de interações semelhantes às oferecidas pelos menus de DVD associadas aos produtos em exibição. Pode ser percebido daí que a Showtime estava em condições de produzir e veicular um seriado de temática gay na televisão aberta de uma sociedade conservadora como a norte-americana.
As externas da série foram rodadas geralmente em locações no Canadá devido aos incentivos fiscais desse país, que tem sido locação para filmes e séries já há algum tempo, tais como a trilogia X-Men (2000, 2003 e 2006) Prenda-me se for capaz (2002), Brokeback Mountain (2005) etc. Imaginamos que a união com a canadense Temple Street Productions tenha sido no sentido de facilitar e baratear as gravações, fora dos Estados Unidos. E ainda, uma vez que gravações externas demandam muito dinheiro, supõe-se que a quantidade de verba direcionada à produção de QAF foi elevada: o seriado tem muitas externas. Tem ainda uma produção minuciosa e há apuro com figurinos, cenários e objetos de cena, iluminação e trilha sonora. Essa conta com cantores de sucesso como Madonna, ícone do mundo gay.
Queer as Folk foi criada por Russel T. Davies, natural do País de Gales, Reino Unido. Davies, que mora em Manchester, onde se passa o Queer as Folk inglês, é responsável ainda pelas controversas séries de televisão The Second Coming, que traz uma reencarnação britânica de Jesus Cristo tentando evitar o apocalipse e Doctor Who, que adentra o terreno da ficção científica com viagens no tempo-espaço. Davies foi premiado com o BAFTA (British Academy of Film and Television Arts) na categoria Melhor Drama em 1996 por um episódio escrito para a série Children’s Ward, da Granada Television. Já na versão americana, temos uma dupla de roteiristas principais: Ron Cowen e Daniel Lipman. Costumam trabalhar juntos escrevendo para a televisão como em Leap Years (2001), Sisters (1991), The Love She Sought (1990), An Early Frost (1985) e Family (1976), em geral dramas familiares ou entre grupos de amigos.
O diretor do piloto da série (e dos episódios 2, 3 e 20 da 1ª temporada), Russel Mulcahy, natural de Melbourne, Austrália, dirigiu também Highlander, além de clipes do Queen, do Duran Duran e do Elton John, bandas dos anos oitenta ligadas ao mundo gay. Russel Mulcahy está cuidando ainda da direção de Resident Evil: Extinction, com previsão de lançamento para 2007. Os dois filmes anteriores da série Resident Evil têm tradição de usarem linguagem de videoclipe. Em outros episódios foram usados diretores canadenses conhecidos por seu trabalho com cinema independente e, por vezes, ligados à cena gay ou ao cinema de comédia. A comédia é, aliás, um traço forte de Queer as Folk, provavelmente com o intuito de tornar os assuntos mais palatáveis ao público.
O trio principal de atores de QAF, Gale Harold, Hal Sparks e Randy Harrison eram ilustres desconhecidos do grande público até atuarem na série. A exceção talvez seja Hal Sparks, o Mike Novotny de QAF, que fez participações em Louis & Clark, em 1995. Durante Queer as Folk, fez pontas em filmes mais conhecidos como Cara, cadê meu carro? (2001) e Homem-Aranha 2 (2004), e participou da série CSI em 2005.
QAF na sua 1ª temporada americana seguiu a linha narrativa do original britânico, atendo-se às mesmas histórias, mas se permitindo apropriações próprias do estilo americano de narrativas para a televisão, como frases de efeito. Enquanto o britânico permitia mais inferências de motivações dos personagens, no americano temos tudo mais explícito. Pode-se especular sobre a interferência dos produtores da série nesse aspecto, que também eram os roteiristas principais: a dupla Ron Cowen e Daniel Lipman. Podemos ainda perceber mudanças na direção dos episódios da primeira temporada, porque alguns dos diretores têm um estilo mais voltado para a estética do videoclipe, o que é até interessante à temática da série. Algumas mudanças de roteiristas também permitiram aspectos inesperados em episódios, como quando Emmet (interpretação de Peter Paige), no episódio 9 da temporada 1, é auxiliado por seu alter-ego virtual, que literalmente sai do computador numa enorme concessão ao gênero fantástico, a ser mais descolado e conseguir paquerar mais desinibidamente.
A série foi premiada ainda com vários GLAAD Media Awards, ou Gay and Lesbian Alliance Against Defamation, na categoria Outstanding Drama Series. O prêmio foi criado para reconhecer e honrar os media que veiculam programas com representações acuradas e inclusivas da comunidade GLBT e os problemas que afetam a vida da comunidade. Obteve premiações técnicas menos conhecidas também da televisão americana e canadense. Ganhou também um ACTRA Award, premiação da Alliance of Canadian Cinema, Television and Radio Artists pela atuação da canadense Thea Gill, a lésbica Lindsay.
O público-alvo da série são os gays e lésbicas entre 15 a 40 anos mais ou menos. O público representado na série, entretanto tem geralmente entre 17 e 30 anos, é branco e de classe média ou classe média alta norte americana. A série obteve sucesso ainda entre mulheres heterossexuais. Existem vários clubes de fãs espalhados pelo mundo, com vários sites na Internet, inclusive brasileiros, e inúmeras comunidades no Orkut (orkut.com), que oferecem downloads da série.
2. Análise do seriado
A abertura de QAF é uma clara referência à vida noturna, a boate. Homens de corpos atléticos, dançando de tanguinha e chapéu de cowboy, estilo go go boys, que são ícones das boates GLS, sob um plano de fundo com imagens psicodélicas, coloridas em tons rosa, amarelo, lilás, e uma música eletrônica bastante animada e dançante. A abertura de QAF é um clipe da própria boate Babylon. O espectador está vendo a abertura e de repente percebe que se trata da imagem de telão de uma boate, e ali já começa o primeiro episódio, New Boy: Mike apresentando a boate Babylon, o que toca, quem freqüenta e o que os freqüentadores desejam naquele ambiente.
Para o público, não só há a expectativa do ambiente em que se desenvolverão as cenas e alguns conflitos, como também dos tipos de relacionamentos e exposições do seriado: as formas como os homens dançam evidenciam que são gays e que é possível não haver censura nas cenas do seriado. Constrói expectativas em em relação ao que irá se passar naquele espaço e indica que haverá sexo e moralismo revisitado devido ao teor de erotismo da sequência. De fato, a Babylon é um dos principais cenários onde transcorrem diversas cenas de QAF, tanto na primeira temporada como nas seguintes. Desde os diálogos cômicos até mesmo aos de grande tensão na estrutura dramática. Inclusive, nesse último caso, a sensação é da música e luzes acompanharem o crescimento dessa tensão. A expectativa permanece em cada cena quando o espectador se vê perguntando “o que irá acontecer dessa vez na Babylon?”. Quais as paqueras, piadas, cenas “proibidas” pela moral, relacionamentos e instalação de conflitos surgirão quando aquele grupo de amigos for curtir a noite na boate gay mais badalada de Pittsburgh.
A abertura é a marca do que pode ser compreendido pelos espectadores como o “universo gay”, “como os gays curtem”, enfim, como são caracterizados ou simbolizados. A surpresa se desenvolve quando no decorrer do seriado Brian, o mais badalador da noite, sente a necessidade de ter outras opções, de fulga desse mundo restrito, como um cansaço e vontade de viver outras coisas, de expandir. Para o expectador atento, a abertura passa a ser então apenas uma das possibilidades do universo gay, talvez um estilo de diversão que acabou tornando-se um estereótipo nascido das limitações estabelecidas pelo próprio relacionamento entre os diferentes meios sociais, hétero, gay e hétero novamente.
Queer as Folk é forte no que diz respeito aos recursos visuais e sonoros. O diálogo é fundamental para QAF, mas imagem e música são alguns de seus pontos fortes. As cenas na boate expõem os homens bonitos, com corpos esculpidos. Tudo com muita luz, muitas cores. Tudo para ajudar na composição do cenário do mundo gay. E dos cenários específicos, como é o caso do apartamento de Brian, visualmente composto como um lugar espaçoso, cheio de móveis caros, mostrando ostentação e riqueza. Ou da casa e do bar da mãe de Mike, lugares muito coloridos, acolhedores, onde todos serão bem-vindos. Já a escola de Justin é mostrada como um lugar mais frio, mais “quadrado”, pouco receptivo.
Os enquadramentos, os jogos de câmera e a composição com a trilha sonora (geralmente techno) ajudam a montar seqüências que importam muito da linguagem de videoclipe. A câmera por diversas vezes, percorre os cenários e os corpos dos personagens. Principalmente nas cenas de sexo, onde a câmera costuma “viajar” pelo corpo de Brian. Em “New Boy”, quando Brian leva Justin pra casa, a câmera apresenta o cenário, mostra o apartamento de Brian sob o ângulo de visão de Justin, deslumbrado com o momento e com o local. Depois percorre o corpo de Brian junto com a água com a qual ele se molha, aumentando o nível de erotismo presente na cena, assim como em vários momentos da série. A câmera se aproxima rapidamente do rosto de Justin para mostrar sua perturbação e excitação com o momento. Quando eles finalmente estão juntos a câmera dá voltas em torno deles, ressaltando o beijo. O primeiro entre eles e o primeiro beijo gay da série.
A composição entre música e imagem, tanto nesta cena como em muitas outras são muito presentes ao longo de toda a série. Serve muitas vezes, como uma pausa entre os diálogos, ou a finalização de uma idéia, onde as imagens falam por si mesmas. E ainda fala pelas imagens, em geral com letras que têm a ver com a ação em desenvolvimento. A cena, normalmente se inicia com o som ao fundo e à medida que o diálogo vai se aprofundando, a música se torna mais presente. Como se gritasse. Isso é o que acontece, por exemplo, na cena da cobertura do hospital, no diálogo entre Mike e Brian. Ou no final do segundo episódio da série, num tom mais melodramático, quando Brian rejeita Justin. Ao pronunciar a última palavra da cena, a música sobe, Justin chora e vai embora, Brian dá meia volta e vai pra casa só. Surgem os créditos.
Pudemos concluir, após assistirmos à 1ª temporada, que Queer as Folk é essencialmente um seriado dramático em sua forma, uma vez que as ações dos personagens e a suas caracterizações estão geralmente vinculadas aos diálogos e ocorrem, naturalizadas, em função deles. Ainda assim, alguns dos capítulos iniciais da temporada apresentam características não-dramáticas, próprias do épico, por conta da narração em off de Mike Novotny, que introduz o conflito inicial no 1º episódio, New Boy. Além disso, a narração também cuida das elipses entre uma cena e outra e costura a ação, tornando-a coesa. Mike faz-se assim inicialmente de narrador-personagem, embora sirva para contar a história do grupo que o contém e não exclusivamente a sua própria, o que garantiria uma dimensão lírica. Quando não há uma narração por Mike, não há narração, seja no episódio ou na 1ª temporada toda. De qualquer forma, a narração em off aparenta ter o único intuito de introduzir as situações e constituem as únicas concessões temporais, como se o fato que o público está acompanhando já estivesse encerrado. A progressão da narrativa além das narrações em off é eminentemente linear, sem flashbacks ou flashfowards. E a temporada se desenvolve sob esse mesmo esquema.
A narração de Mike é um recurso simples e direto para apresentar personagens e situação inicial, permite montagens inesperadas e permite acima de tudo criar expectativas sobre possíveis desenlaces para a problemática criada. O passo seguinte da estrutura é devolver a narração a uma câmera inquieta e com várias influências da linguagem de videoclipe. E é esse câmera, observadora, geralmente não subjetiva, que irá narrar o que há para ser narrado, apresentando inclusive ações se desenvolvendo enquanto os personagens não percebem, ações em segundo plano.
Há unidade de ação, sem grandes mudanças durante a 1ª temporada: os assuntos, as situações e temas orbitam o mesmo universo e o mesmo mundo possível, dando verossimilhança à narrativa, que é, entretanto, um pouco idealizada, recurso típico da televisão norte-americana, com muitas frases de efeito explicando situações que já foram mostradas visualmente: uma espécie de redundância narrativa. O elenco escolhido é em geral bastante competente e dá o tom certo à ação, sendo adequado ao que é caracterizado pelos diálogos.
O lugar onde se passa a ação é Pittsburgh, Pennsylvania, Estados Unidos. A ação acontece no bairro gay da cidade, principalmente na boate Babylon e no café onde Debbie Novotny, mãe de Mike, trabalha; passa-se ainda nas casas de alguns personagens, especialmente na de Mike e na de Brian e na do casal lésbico Lindsay (Thea Gill) e Melanie (Michelle Clunie); e ainda na academia, na escola de Justin e muito raramente no trabalho de Mike ou de Brian.
A ação freqüentemente enfoca os fins de semana, quando o roteiro cria fatos e eventos que permitem a interação dos personagens e acréscimo de complicações à trama e posteriores relaxamentos, trabalhando na construção do drama. Escapa-se dessa rotina quando acontece algum evento durante a semana que seja fundamental para o episódio ou para a temporada, como em um episódio da 1ª temporada em que Brian é acusado de assédio sexual por um subalterno seu no trabalho. A ação, a partir daí, adentra a semana dos personagens também.
A temática principal de QAF, relacionamento homossexual, já é por essência, dentro do contexto contemporâneo, uma questão imensamente controversa. Se antes o debate sobre o assunto era abafado pelo moralismo, agora se presencia um crescente interesse público em discutir o que antes se guardava à intimidade dos sujeitos implicados. O seriado se constrói dentro dessa disposição social e não é contido ao realizar cenas de sexo homossexual e diálogos sem eufemismos para tratar do tema. A descoberta do desejo sexual e suas preferências, a masturbação, a primeira relação sexual de um adolescente gay, enfim, como é o sexo homossexual, seja entre dois homens ou duas mulheres.
Logo no primeiro episódio vê-se Justin aos 17 anos tendo a sua iniciação sexual com Brian, um homem de 29 anos – os personagens do núcleo principal de Queer as Folk estão na mesma faixa etária -, cuja primeira experiência sexual também foi com um homem mais velho, seu professor de educação física. A cena de Justin na aula desenhando o seu colega sentado à frente, constrói o olhar de desejo pelo corpo masculino, que não se difere muito do de um adolescente heterossexual por uma mulher. Assim como a cenas em que Brian e Mike relembram quando eram adolescentes os seus símbolos sexuais e como sentiram atração um pelo outro nessa fase.
Assim, tratando de um tema tão denso e que se desdobra em níveis controversos do que hoje é tido comumente como moralmente aceitável, QAF não poderia assumir uma atitude essencialmente melodramática ou mesmo trágica. Tornaria muito difícil o acesso do público médio (mesmo dentro do público-alvo da série) à obra porque a tornaria um tanto quanto impalatável, difícil, densa. Assim, a solução encontrada pelos realizadores, especula-se, foi inclinar os roteiros ao reino dramático da comédia, com tons de farsa às vezes, geralmente na figura de Emmet. Emmet, do grupo, é o mais afetado (“camp”), aquele que eventualmente entra em crise de identidade, recebendo, como já foi dito antes, até a visita de um alter-ego virtual; Emmet é o que se converte à heterossexualidade porque lhe disseram que isso é possível e isso é levado com escracho pela série, embora de forma respeitosa para com o meio gay.
QAF assume nuances do reino dramático da tragédia também, como com Brian acertando um taco de beisebol no agressor de Justin no último episódio da 1ª temporada, ou entrando de carro pela vitrine de uma loja de automóveis cujo gerente é claramente homofóbico; ou de melodrama, como com Justin se ressentindo pelos sucessivos ataques e agressões homofóbicas no colégio onde estuda, com um pai também homofóbico, que o maltrata, e uma mãe que aparenta ter muito pouco a fazer e a dizer sobre a situação toda. Os toques melodramáticos são inclusive bem adequados à temática da série, já que o melodrama tem o intuito de explicitar uma dada ordem moral decadente e uma nova, fundamentada em aspectos esperançosos e bons.
Felizmente, nada que envolva apenas bondade poderia comportar um personagem intempestivo e com traços de anti-herói como Brian Kinney, que é quem fundamentalmente dá o toque de tragédia à comédia. O reino dramático da comédia é o que efetivamente predomina em QAF. Brian não mede conseqüências quando se volta contra situações preconceituosas contra ele. Seu personagem também atua na construção de efeitos cômicos, com um senso de humor ácido e sarcástico sempre em combate com Emmet ou com Ted, que não gostam muito dele. Brian é colocado como um anti-herói trágico ao se defrontar com dadas situações não advindas de uma ordem cósmica superior (como seria na tragédia grega), mas de problemas sociais essencialmente terrenos como a injustiça contra a minoria política a que pertence ou contra situações que atentem contra o seu conceito de liberdade individual. Mas Brian não será destruído ao fim de seus atos, como na tragédia clássica, ele será no máximo modificado. Queer as Folk obedece a uma estrutura do reino dramático da comédia, com algumas nuances trágicas e melodramáticas e mais raramente de farsa.
A construção da ação.

Se o tom predominante de QAF é o cômico e a série na sua forma é dramática, a ação é construída a partir de uma situação de equilíbrio inicial rompido. No caso do primeiro episódio, a chegada de Justin, o new boy ao grupo de amigos, é o fator que irá atrapalhar a relação platônica de Brian e Mike, causar toda uma reconfiguração nas estruturas dadas até então e ser mote de outras situações desencadeadas sucessivamente por outros personagens. A 1ª temporada toda caminhará para uma reconciliação desse equilíbrio ou uma reestruturação dele, agora com Justin associado à família simbólica1 que tínhamos inicialmente. Além disso, outro new boy chega também: Gus, filho de Brian e Lindsay, que demandará reconfigurações em Brian e no casal Lindsay e Melanie. Os personagens, a partir das suas próprias decisões e escolhas conduzem a ação. Talvez o único que se mostre mudado, no caso mais amável, com o passar dos episódios seja Brian. Inicialmente, um deus irresistível do sexo, frívolo e irresponsável, a paternidade lhe traz mais sensibilidade para lidar com os seus próprios problemas, como a sua dificuldade com os seus pais, que sequer sabem da sua orientação sexual.


A partir do núcleo temático observamos a formação de estruturas de relacionamentos com possibilidades muito mais diversas do tradicional modelo familiar, de casamento e até mesmo de amizade. Brian e Mike são amigos, dependentes emocionalmente um do outro, e revelaram durante o seriado um desejo e atração contida entre eles. O público é levado a compartilhar a dúvida dos personagens: se eles devem manter relações sexuais, namorar, ou não. Se isso afirmaria ou ameaçaria o sentimento de amor entre eles. Ou até mesmo se há amor entre Brian e Mike ou apenas dependência emocional decorrente de um desejo reprimido. O relacionamento dos dois fica mais complicado ainda, após Justin e com a entrada do Dr. David Cameron (Chris Potter) em cena, o apaixonado namorado de Mike, em eterna competição declarada com Brian.
Brian se envolve com Justin, de quem Mike morre de ciúmes, mas que inevitavelmente acaba sendo agregado à família simbólica onde Debbie Novotny é o eixo principal e atua como elo entre os membros antigos e novos, como a mãe de Justin. Ainda no quesito amigos apaixonados, durante a 1ª temporada, revela-se uma paixão secreta de Ted (Scott Lowell) por Mike, seu grande amigo. E para tornar as relações ainda mais truncadas, Brian tem um filho com Lindsay, lésbica, casada com Melanie, que detesta Brian. Por não ser uma comédia pura no sentido estrito, não é dado ao telespectador esperar um e “viveram felizes para sempre” ao fim da 1ª temporada. Ou faltariam ligações para a construção da ação na temporada subseqüente. Brian e Mike ainda não se resolveram; o segundo desiste de viajar com o namorado (Dr. Cameron) ao receber uma ligação de Brian do hospital, onde está acompanhando Justin. Justin fora agredido por um colega com um bastão de beisebol. Isso se dá quando Brian começa a se permitir gostar dele, o levando ao baile de formatura (prom).
O clímax maior do primeiro episódio é certamente as seqüências no hospital, quando nasce o filho de Brian. Nesse momento do episódio, é reiterada a personalidade de Brian e as possibilidades de mudanças com a chegada dos novos garotos, Justin e Gus, filhos de Lindsay e Brian. São adiantadas algumas tensões entre Melanie, esposa de Lindsay, e Brian e ainda o relacionamento platônico entre Mike e Brian se torna algo óbvio com a cena romântica no terraço. Esses dados que o público recebe nesse primeiro episódio irão segurar a atenção pelos vinte e um restantes e no último episódio da 1ª temporada, The Last Dance, serão lançados os ganchos para a próxima.
A série comporta uma estrutura em que a problemática instaurada nem sempre é resolvida no mesmo episódio. Os problemas são solucionados ou relaxados em intervalos a cada dois ou três episódios. Então, é um produto que pede para ser consumido em seqüência e na seqüência correta. Mas há também outros momentos mais tensos na estrutura dramática como a iniciação sexual de Justin. Um outro ponto de tensão muito grande é a chegada de Justin no colégio no carro de Brian, que dá uma dimensão breve do que está por vir e segura a tensão para o próximo capítulo.
A estrutura interna do episódio demanda isso também porque enquanto as cenas oferecem dicas para ações futuras, elas se interpõe por ações paralelas uma vez que o seriado cuida da vida de muitos personagens. Se Brian, Justin e Mike são o trio principal, os personagens vinculados a eles constituem uma rede enorme que trabalha na construção de situações que terão geralmente implicações diretas em todos. Exemplo: Justin e Brian estão fazendo sexo e alguém liga do hospital avisando que o filho de Brian nasceu. As ações são diferentes, em locais diferentes, mas têm implicações para todos e isso vincula uma seqüência a outra.
Existem dois pontos de onde não se é possível retornar no episódio New Boy. O primeiro é o nascimento do filho. A cegonha não aceita devoluções. Brian terá que lidar com isso. E Mike terá que lidar com um Brian com dois filhos: Justin, filho simbólico e Gus, filho com Lindsay.
Os relacionamentos modernos.

Enfim, QAF consegue retratar uma característica própria da sociedade contemporânea, na qual estão sendo admitidas novas possibilidades de relacionamentos. Mais ainda, onde se assumem os diferentes modos de encarar o sexo, o namoro, o casamento e até mesmo a maternidade e paternidade. Brian não acredita no namoro nem na paixão, muito menos na fidelidade. Vive do momento, da atração sexual, quebra os ideais românticos e gosta de ficar com vários homens na mesma noite, muitas vezes, simultaneamente. Mike e Ted acreditam no namoro e na vida como casal. Admitem o quanto o sexo faz parte do pensamento diário de um homem, quanto beleza física é realmente critério de escolha embora pensem que não seja o que determine o sucesso de um relacionamento.


Com todas essas discussões referentes à esfera íntima, se aborda então os confrontos entre as escolhas e vivências do indivíduo e os juízos de valor correntes da sociedade. QAF contempla assim questões como as tensões ao se assumir como homossexual para a família, o que no último caso, como a “saída do armário” pode implicar em um afastamento do ciclo familiar e a necessidade de ser independente financeiramente e por maioridade. Também se expõem as implicações da saída ou do manter-se no armário no ambiente de trabalho, a depender do ambiente de trabalho. É o caso de Mike, gerente de supermercado, que aceita a paquera de uma colega de trabalho para esconder a sua preferência sexual e não correr o risco de perder a promoção de cargo e até o emprego. É também abordada, durante a série, a questão do assédio sexual, valerá ela também entre dois homens? E de que forma? Obviamente, QAF oferecerá interpretações próprias para essas dúvidas.
Quando Justin se assume gay no colégio e sofre preconceito e ataques homofóbicos de estudantes e professores, na cena em que Brian o leva para o colégio com o carro pichado “Bichas”, todos os elementos marcam, simbolicamente, o confronto social, a luta para se assumir e a necessidade de ter poder para se sobrepor aos julgamentos sociais: Brian pode andar com o carro escrito “Bichas”, porque ele ocupa uma posição social elevada, é de classe média alta, é independente. O grito de Brian, “Mas eu digo ‘fodam-se’. Eles podem escrever com néon no céu: Bichas!”, soa como uma libertação e enfrentamento a sociedade.

Anexo 1




Uma família simbólica distante dos padrões convencionais.



1 Ver anexo 1, com diagrama da família simbólica mostrada em Queer as Folk.




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