Universidade de são paulo faculdade de filosofia, letras e ciências humanas



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UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO

FACULDADE DE FILOSOFIA, LETRAS E CIÊNCIAS HUMANAS

ÁREA DE CONCENTRAÇÃO: GEOGRAFIA HUMANA

NÍVEL: DOUTORADO


TESE DE DOUTORAMENTO APRESENTADA AO DEPARTAMENTO DE GEOGRAFIA DA FFLCH/USP.

ÁREA DE CONCENTRAÇÃO: GEOGRAFIA HUMANA.


PAISAGEM NO KOSMOS DE HUMBOLDT: UM DIÁLOGO ENTRE A ABSTRAÇÃO E A SENSIBILIDADE




ORIENTADOR : PROF. DR. HEINZ DIETER HEIDEMANN

ORIENTANDO: CLAUDINEI LOURENÇO

USP, VERÃO DE 2002.

SUMÁRIO

Apresentação: Paisagem, Teoria e Lembrança................................................01

Introdução: a Necessidade da Paisagem...............................................................09
Por que ler Humboldt hoje?...........................................................................11

O que ler em Humboldt?................................................................................13

Por que ler o Kosmos?...................................................................................14

Por que Paisagem?.......................................................................................16


Capítulo I - A tradição Cosmológica no Kosmos de Humboldt.......................21
O Kosmos de Humboldt.....................................................................................24

O Cosmo de Humboldt......................................................................................43

O Kosmos e a Geografia.....................................................................................47
Capítulo II - Paisagem e Ciência no Kosmos de Humboldt: a Abstração Sensível............................................................................................................51
A produção cientifica de Humboldt: entre Galileu e Darwin................................54

Paisagem e Ciência no Kosmos..........................................................................75

A Abstração Real...............................................................................................83
Capítulo III - Paisagem e Arte no Kosmos de Humboldt: a sensibilidade abstrata............................................................................................................90
A Arte na Ciência do Kosmos........................................................................91

Paisagem e Arte no Kosmos.........................................................................105

Arte e abstração: o Desvelamento da Paisagem................................................113

Considerações Finais: Paisagem e Geografia................................................123
Primeira Consideração: a Diacosmese de Humbodlt.........................................123

Segunda Consideração: Humboldt e a Paisagem..............................................124

Terceira Consideração: a Paisagem e o Empirismo......................................126

Quarta Consideração: Paisagem e Geografia....................................................128

Quinta Consideração: o Observador ou o Guardador de Rebanhos..............129

Sexta Consideração: a Presença da Paisagem...................................................131



Bibliografia específica...................................................................................134

Bibliografia Geral..........................................................................................135

Anexos...........................................................................................................149
I- Cronologia...................................................................................................149

II- Documento Ordenando o Aprisionamento de Humboldt. ............................163

III- Esboço de Tradução. .................................................................................165

IV- Documentação Pictórica. ...........................................................................186



Wie von Göttern gesandt, fesselt’ ein zauber einst

Auf die Brücke mich an, da ich vorüber ging,

Und herein in die Berge

Mir die reizende Ferne schien,

(Friedrich Hölderlin – Heidelberg)



An Dieter.

“Ele aproveita essa oportunidade para extrair uma época determinada do curso homogêneo da história; do mesmo modo, ele extrai da época uma vida determinada e, da obra composta durante essa vida, uma obra determinada. Seu método resulta em que na obra o conjunto da obra, no conjunto da obra a época e na época a totalidade do processo histórico são preservados e transcendidos.”


(Walter Benjamin – Sobre o Conceito da História)


A todos que fizeram a história desta Tese...

“Não andam muito, que no erguido cume

Se acharam, onde um campo se esmaltava

De esmeraldas, rubis, tais que se presume

A vista que divino chão pisava.

Aqui um globo vem no ar, que o lume

Claríssimo por ele penetrava,

De modo que o seu centro está evidente,

Como a sua superfície, claramente.”
(Camões – Os Lusíadas. Canto X, 77)


Para Humboldt.

APRESENTAÇÃO: Paisagem, teoria e lembrança.

“No instante, a paisagem se agita como um vento.”

(Walter Benjamin - A Imagem de Proust)

No princípio era o Liso! O resultado apresentado aqui como Tese de doutoramento insere-se, para nós, num quadro, cujo ponto de fuga aponta para dois momentos. Apontá-los ajudam a compreender o movimento que nos permitiu chegar até aqui propondo uma tese sobre geografia, paisagem e Humboldt.

O primeiro, não cronologicamente, é explícito e reporta-se à primeira semana do curso de graduação no antigo IPEA de Presidente Prudente, já então no seio da UNESP (Universidade Estadual Paulista). Prepararam-nos, naquele verão prudentino de 40º em 1985, um banquete geográfico com várias conferências. Lá, compareceram o professor Milton Santos com sua bela camisa verde, o professor Carlos Augusto de Figueiredo Monteiro com sua camisa branca de flores amarelas e vermelhas, o professor Armando Correa da Silva sem o seu incorroível paletó azul, o professor Carlos Antonio Robert de Moraes com seu “Tonico” à frente. Esse é o quadro, não sei se fiel às lembranças ou memórias dos fatos, inicial ao mundo do conhecimento geográfico.

Dois raios teóricos saltam-me no lusco fusco da lembrança desse quadro: o método e a festa. A ordem da noite (fiz o curso noturno) era o debate teórico. A aproximação da geografia ao marxismo solicitava sua própria gênese epistemológica. A justificação e firmeza das posições necessitavam da âncora do método para discernir o ego científico. Nesse reposicionamento da geografia brasileira havia a premissa da releitura crítica dos clássicos, embora, diga-se, o sentimento era o de não o fazer, tal o caráter destrutivo da crítica. Um movimento ambíguo, portanto. Postulavam-se a necessidade do rigor metodológico e o compromisso político, mas impossibilitavam-se as bases para esse salto nos fundamentos do pensar geográfico. Mas, no princípio era a festa.

A festa foi anunciada pelo professor Carlos Augusto. Disse ele: Se eu fosse vocês, estudaria menos e aproveitaria mais a vida. Para quem começava um curso universitário era um conselho estranho. Só pude imaginar que a Geografia era a madrasta e nós as cinderelas interditadas. Se havia, como se podia suspeitar naquelas palavras, uma oposição entre viver e estudar geografia, para qual Orco estávamos sendo levados? Das duas, três. Ou sairíamos correndo para o parque do povo, como um boi em legítimo estouro, ou resignar-nos-íamos, tal e qual o novilho na rampa do altar, ou vestidos á el Silverio, teríamos en el toro o sentido da vida. Só o contato com o fazer geográfico permitiu-me encontrar a possibilidade do terceiro termo da metáfora. Aí, muito contribuiu o sonho chamado AGB. Enfim, a Geografia é um convite para a festa. Em tempo, a metáfora bovina é tributária das colinas de capinzais do interior de São Paulo.

O segundo momento, mais afundado na lembrança, é um fato de paisagem. Aliás, só essa pesquisa permitiu-me identificar aquela sensação estranha da infância. Ao lado da casa onde vivi até os dez anos, havia um vale, que também, só hoje, sei tratar-se por esse nome, coberto, quase perenemente, por capitães multicoloridos e outras flores, igualmente coloridas, mas voadoras, chamadas borboletas, as quais perseguíamos implacavelmente pelo vale adentro. Havia, na vertente oriental do vale, um afloramento de arenito Bauru, cuja cor rosa não me sai da lembrança e que me servia de promontório à imaginação. Pode-se dizer que era o meu lugar, e agora sei que o é, pois o tenho, irremediavelmente. Nessa penha rosa, passava horas sentado a ver não sei o quê. Não era uma flor ou borboleta, mas o conjunto à frente que ia dos pés soltos no vazio até às nuvens do semicírculo abobadado. Esse mar de capitães era a cada dia um novo sonho. Fosse o pôr-do-Sol ainda abrasador ou o escuro barrado de relâmpagos das frentes de convergência que o Oeste parecia enviar até ali para expulsar-me daquele ócio estético. Aprendi, com Humboldt, que já existiu uma atividade, entre os estruscos, de observadores de relâmpagos e raios: os fulguratores. Imagino que fui um “fulgurator” amador na infância, tal é a impressão que aquele bailado de fogo construiu na moldura do meu vale.

Hoje, esse lugar já não existe para mim. Tornou-se um amontoado de casas com o vermelho dos blocos cerâmicos e o cinza da fibra de amianto das telhas. Mas o fato do lugar já não existir para mim, não quer dizer que o lugar não exista. Seria um conservadorismo impor ao mundo o meu estado de coisas. Que o mundo já tenha de produzir-se em museus de lugares não é novidade, afinal para onde iriam as musas? Mas fica sempre a pergunta: e as crianças, onde estão?

Procuramos, na forma aqui descrita, encontrar os nexos entre pensamento e realidade. Para tal elegemos um movimento de descrição da paisagem no Kosmos de Humboldt1. A pergunta posta questiona, não a forma da síntese ali exposta, mas a implicações históricas das possibilidades ali colocadas. Logo, a crítica não se restringe à obra de Humboldt, magistral em muitos os sentidos, mas dirige-se ao mundo que a exigiu.2.

Com esse exercício, pretende-se que a exposição contribua para a compreensão do nexo atual entre nossa forma de produção de conhecimento e sua correspondência ao mundo colocado. Implica, portanto, em questionar o papel das formas teóricas na constituição das nossas formas práticas.

Na introdução, perfilamos algumas questões que indicam a necessidade do permanente refazer do conhecimento. Pergunta-se, fundamentalmente, porque ler Humboldt. O documento que se segue procura responder a isso. Adiantamos que a resposta dada é parcial; e não poderia ser de outra forma dado caráter da obra analisada. Esperamos, e já nos daríamos por satisfeitos, contribuir para o estímulo ao estudo de Humboldt.

No capítulo I, apresentamos a obra de Humboldt, sua vida e o Kosmos. Na epígrafe dedicatória de Walter Benjamin procuramos encontrar a posição adequada nesse desenvolvimento. Interessou-nos, mas não comparece aqui, grande parte da vida privada de Humboldt. Buscamos saber, através da sua vida cotidiana, a experiência do homem e a ciência no febril período em que viveu. É isso que comparece em suas obras: pouco ou nada das agruras cotidianas abalam a missão do novo herói das luzes. A análise de sua fecunda produção epistolar mereceria um estudo aprofundado, o qual revelaria as condições do pensar do século XIX, no âmago do seu núcleo. Localizamos, resumidamente, a presença desse fazer científico no curso do próprio fazer científico e nas correspondentes ilações da forma social moderna.

No capítulo II, descrevemos a inserção do conteúdo do Kosmos no desenvolvimento científico do século XIX. Para a compreensão dessa inserção reconstruímos alguns pressupostos localizados na denominada revolução científica do século XVII. Tal percurso, presente no Kosmos, revela, em algum grau, a materialidade do fazer científico da primeira metade do século XIX: o contato pessoal e bibliográfico, a forma de acesso ao conhecimento, a institucionalização em desenvolvimento, a origem dos financiamentos, as idéias em movimento, a concretização da técnica. Na descrição procuramos encontrar, além da personalidade científica de Humboldt, os fundamentos do desenvolvimento da sociedade moderna. A existência do Kosmos, enquanto síntese, constitui registro desse processo.

No capítulo III, expomos a procura das aproximações, pistas, declarações que tangenciam a produção científica de Humboldt. Em diálogo interno com o capítulo II, demonstramos a verificação da presença de acolhimentos do conhecimento disperso nas culturas, nos registros não-hegemônicos, na encarnação material do fazer, etc. Destacamos o uso do conceito Weltanschauung, presente no Kosmos, como forma sintética para a compreensão do próprio Kosmos.

No capítulo IV, as considerações finais, condensamos alguns dos desenvolvimentos presentes no texto e consolidamos o argumento central da tese. Não se trata, porém, de estabelecer princípios de verificação, mas de trazer aproximações que permitam, ao pensar, confrontar-se consigo mesmo, o que é, aliás, a proposição inicial de qualquer percurso acadêmico.

Os anexos, compostos por quatro “documentos”, cumprem funções diferenciadas no conjunto. O primeiro apresenta uma genérica biografia de Humboldt, que pode, entre outras coisas, auxiliar na compreensão do longo percurso individual que o mesmo tracejou nas folhas da história. O segundo, mais do que uma curiosidade pátria, apresenta elementos do contexto da produção científica do período, identificando, de forma crua, a máxima de que conhecimento é poder. O terceiro anexo apresenta um esforço, em forma de esboço, de “traduzir’” o texto Humboldtiano num de seus momentos mais importantes. Por fim, o quarto anexo reúne um conjunto de imagens que são indiciadas ao longo do texto. Deve-se observar que não se trata de análises das imagens apresentadas, muito distantes do objetivo dessa pesquisa, mas de um recurso demonstrativo no percurso da análise.

Finalmente, algumas observações sobre o processo de leitura são necessárias. O Kosmos é uma obra de síntese no percurso intelectual de Humboldt. Foi gestada e desenvolvida durante toda a sua vida e comporta, por isso, diversos momentos. Desde a intuição para tal composição até a incansável atualização das descobertas científicas. Embora seja uma obra de “fácil leitura”, nosso distanciamento em relação ao contexto da produção implicou dificuldades de acompanhamento. O Kosmos apresenta, em suas páginas, uma síntese significativa do conhecimento científico da primeira metade do século XIX. Mas não só. O esforço didático de Humboldt leva-o a exercitar sua erudição a partir de seu estado atual. Logo, temos uma obra que penetra profundamente na história humana e que ajudou a definir a idéia de universalidade.

Utilizamo-nos para esse estudo, das edições que constam na bibliografia específica. Optamos por citar a tradução espanhola, de Giner, já que o documento que apresentamos encontrará no público da língua portuguesa a maioria dos leitores. Mas tal opção não está isenta de dificuldades. Embora a tradução de Giner consista num esforço dos mais admiráveis, tanto pela vitalidade quanto pela oportunidade histórica, ela representa, sempre, uma leitura datada, o que é importantíssimo para uma pesquisa como a nossa. Porém, em momentos muito específicos da nossa leitura encontramos dificuldades que poderiam sugerir uma interpretação distanciada da leitura do original, especificamente quando queríamos determinar o uso do termo Landschaft.

Na tradução de Giner aparece, por exemplo, a expressão regiones montañosas (C. T II p. 205), quando no texto original aparece Gebirgslandschaft (K. T II p. 185). Mesmo considerando a autonomia da leitura do tradutor, a opção de traduzir Landschaft por regiones não se justifica, pois o termo correspondente mais próximo, no caso, seria paisaje. Se no contexto, paisagem e região concordam no sentido, deixamos à interpretação do tradutor. Porém, a polissemia do termo paisagem poderia ser, em casos como esse, um importante elemento histórico de análise3.

Optamos por citar, ao lado da tradução de Giner, mesmo em havendo concordância, os termos e expressões originais que poderiam contribuir para o entendimento do texto em algumas passagens que necessitariam, em nosso entendimento, de maior precisão. Nesse caso, aparecem os termos e expressões do original em destaque. Nem sempre foi possível essa verificação dada a liberdade, justa, do tradutor na inserção de uma terminologia de sua própria língua. Aí, aparecem pontos de interrogação que indicam a dúvida pela presença de alguns termos.

Optamos por relacionar a bibliografia específica e geral separadamente. Como fica evidente, não tomamos contato com todas as obras de Humboldt, a não ser pelo trânsito de uma obra para outra ou pelas análises de comentadores. Nem foi possível identificar todas as possíveis edições do Kosmos e sua historicidade. No entanto, pensamos que o corpo bibliográfico apresentado é significativo para o movimento de pesquisa que apresentamos. Quanto a ele cabem algumas observações. Indicamos ao longo do texto as obras seguindo uma abreviatura. O K maiúsculo indica tratar-se da versão alemã. Optamos, nesse caso, por utilizar para os dois primeiros tomos a edição mais recente. No caso da edição traduzida de Giner, as referências aparecem com a indicação do C maiúsculo e seu correspondente tomo e paginação. Outra obras citadas de Humboldt recebem o mesmo tratamento e devem ser cotejadas com a bibliografia específica.

Pensamos que o resultado apresentado na forma desse documento participa apenas uma pequena parcela do processo vivenciado. Somos várias frentes da diacosmese moderna. O fato de não podermos “mundar” o Mundo atual na forma da ordem desejada indica o pressuposto para uma nova condição: pervius Orbis.




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