Uma visão do papel da agricultura familiar no brasil roberto josé moreira, PhD em Economia resumo



Baixar 158,14 Kb.
Página1/4
Encontro28.05.2017
Tamanho158,14 Kb.
  1   2   3   4

UMA VISÃO DO PAPEL DA AGRICULTURA FAMILIAR NO BRASIL
ROBERTO JOSÉ MOREIRA, PhD em Economia
RESUMO

A compreensão das condições de possibilidades da agricultura familiar brasileira na contemporaneidade requer que estejamos atentos à complexidade do tema e da totalidade dos processos sociais que conformam e estruturam o campo de ação da agricultura familiar brasileira. Como categoria analítica, visualizo o espaço social da agricultura familiar – econômico, cultural e político – como restrito e em constante mutação. A compreensão deste espaço social - e de seus processos de mutação -, nos possibilitará refletir sobre os possíveis papéis da agricultura familiar no século XXI. Tal abordagem possibilitará nos referirmos às relações da formas sociais da agricultura familiar com o ambiente agrícola e agrário brasileiro, incluindo suas possibilidades mercantis, e às relações rural-urbanas e local-globais que configuram os espaços sociais de vida e reprodução camponesa na consolidação da democracia e na redução das assimetrias sociais e de poder da nossa sociedade, sendo estes os seus principais papéis na contemporaneidade.


Palavras Chaves: agricultura familiar; competitividade, cultura, modo de vida; sustentabilidade.


LA RECONNAISSANCE DE L'AGRICULTURE FAMILIALE AU BRÉSIL
ROBERTO JOSÉ MOREIRA, PhD en Économie

                                  

 RÉSUMÉ             

La compréhension des conditions de possibilités de l'agriculture familiale dans la contemporanéité requiert que nous soyons attentifs à la complexité du thème et à la totalité des processus sociaux qui forment et structurent le champ d'action de l'agriculture familiale brésilienne.Comme catégorie analytique, je vois l'espace social de l'agriculture familiale - économique, social, politique - comme restreint et en constante mutation. La compréhension de cet espace social - et de ses processus de mutation - nous permettra de réfléchir sur les rôles possibles de l'agriculture familiale au XXI° siècle. Un tel abordage nous permettra de nous référer aux formes sociales de l'agriculture familiale avec l'environnement agricole et agraire brésilien, en y incluant ses possibilités mercantiles, et aux relations campagne-ville et local- global qui configurent les espaces sociaux de vie  et de reproduction paysanne dans la consolidation de la démocratie et la réductions des assymétries sociales et de pouvoir dans notre société, ceux-ci étant ses principaux rôles dans notre époque.

 

Mots clés : agriculture familiale, compétitivité, culture, mode de vie, sustentabilité.

UMA VISÃO DO PAPEL DA AGRICULTURA FAMILIAR NO BRASIL1
ROBERTO JOSÉ MOREIRA, PhD em Economia

Introdução.

A compreensão das condições de possibilidades da agricultura familiar brasileira na contemporaneidade requer que estejamos atentos à complexidade do tema e da totalidade dos processos sociais que conformam e estruturam o campo de ação da agricultura familiar brasileira. Visualizo este espaço social – econômico, cultural e político – como restrito e em constante mutação. (MOREIRA, 1999a, 157-198). A compreensão deste campo de ação - e de seus processos de mutação - nos possibilitará refletir sobre os possíveis papéis e o reconhecimento social e político da agricultura familiar. A abordagem do tema se referirá às relações das formas sociais da agricultura familiar com o ambiente agrícola e agrário brasileiro, seus mercados, e às relações rural-urbanas e local-globais que configuram os espaços sociais de vida e reprodução desses agricultores na consolidação da democracia e na redução das assimetrias sociais e de poder da nossa sociedade. A meu ver são estes os seus principais papéis da agricultura familiar na contemporaneidade.


1. Problematização teórico-analítica

Nesta narrativa interpretativa visualizo a agricultura familiar como categoria teórico-analítica de uma teoria das identidades complexas e abertas a co-determinações que, creio eu, nos auxiliará a elucidar nosso tema. Nesta postura analítica, buscamos a elucidação da co-determinação local-global complexa da sociedade brasileira dos agricultores familiares; indivíduos em sociedade (ELIAS, 1994).2 Em processos estruturados e estruturantes, a sociedade e a agricultura familiar brasileira se co-determinam mutuamente. Essa é a natureza de fundo da mutualidade das co-determinações complexas da qual a teoria das identidades complexas possibilita elucidar suas dimensões restritas e amplas, locais e globais. (MOREIRA, 2006).

Nas dimensões históricas da agricultura de subsistência da Colônia e do Império podermos localizar a gênese social e psíquica3 da agricultura familiar, representada pela figura do “trabalhador livre” da morada de favor, na ordem escravocrata, vista como primeira mutação.

Nos desdobramentos da constituição do mercado de terra, em 1850, e do trabalho livre na República Velha, no Estado Novo, na ditadura varguista de 1937, podemos localizar a segunda grande mutação – do trabalho escravo ao trabalho livre sujeito às relações da morada nas plantações exportadoras, identificadas na literatura da época como semi-feudais e representadas pela figuras sociais do minifúndio e do agricultores familiar residente-parceiro da primeira metade do século XX, analisado em Parceria e os negócios do coronel: trabalho familiar residente e competição no complexo rural. (MOREIRA, 1999a, 135-156).

De seus desdobramentos podemos localizar a terceira grande mutação com a destruição da morada, a instituição do assalariamento generalizado e os processos que levaram à plena subordinação indireta dos trabalhadores familiares ao mercado, ao capital e a subordinação direta aos mercados na situação de pequenos patrimônios produtivos sem condições de lucratividade, a mercantilização da agricultura familiar. São desdobramentos dos processos de democratização do pós-segunda Grande Guerra postas pela República de 1946, com as instituições do Estatuto do trabalhador Rural e o Estatuto da Terra, respectivamente em 1963 e 1964. (MOREIRA, 1999a, 11-35)

A ruptura política da democracia desses processos com a Revolução de 1964, e seu endurecimento no pós-1968, que podemos visualizar quarta grande mutação, denominada na literatura de modernização conservadora, ou ainda, de Revolução Verde, temos a construção das ligas camponesas, dos sindicatos rurais, da pequena produção autônoma das fazendas, a constituição dos complexos agroindustriais, a transformação das fazendas em empresas rurais, a hegemonia do assalariamento temporário, a maquinação e a quimificação da agricultura e a modernização das pequenas produções, em especial às agriculturas familiares integradas ao complexo agroindustrial e às cooperativas capitalistas e dos hortifrutigranjeiras em torno dos grandes mercados metropolitanos. (MOREIRA, 1999a, 37-81)

Com a crise do anos 1980, o enfraquecimento da ordem militar, e sua opção por uma abertura lenta e gradual, os movimentos de eleição direta e redemocratização, a constituição da República Nova, dita “cidadã, em 1988, o reconhecimento das demandas por reforma agrária, com a criação do Ministério de Reforma Agrária no primeiro governo da Nova República e a presença em cena MST visualizamos a gestação da quinta mutação. As condições que se colocaram, nos governos seguintes, na conjuntura da ordenação neo-liberal anglo-saxônica no planeta, a abertura dos mercados e toda a conjuntura dos anos 1990, incluindo a questão ambiental a partir da Eco-92, produz, no Governo FHC a criação do Ministério Extraordinário de Política Fundiária (MEPF), após os massacres dos sem terra em Corumbiara (RO) e Eldorado dos Carajás (PA) transformado posteriormente em Ministério do Desenvolvimento Agrário – MDA. Um Ministério aglutinador das tensões políticas representadas pelos interesses do agricultores familiares tradicionais, dos agricultores assentados e dos movimentos dos sem-terras. Com a legitimação dos movimentos ecológicos e ambientalistas o começo do século XXI, nos coloca no meio da quinta grande mutação, que agora na crise financeira global de 2008 aponta para uma nova mutação. (MOREIRA, 1999b, 2003, 2005, 2007)

Qual foi e será o reconhecimento do campo social e político restrito da agricultura familiar nestes diferentes contextos?



1.1. Agricultura familiar como sujeito social efetivo

Em Terra, poder e território, (MOREIRA, 2007) argumento que em uma perspectiva histórica de longo prazo, a cultura agrária brasileira funda-se como a cultura hegemônica por conter a estruturação e a legitimação do domínio da terra brasileira. Nossa hipótese principal é que essa raiz autoritária da cultura, fundada no domínio colonial e imperial, está presente na moldagem das instituições e das pessoas. É fundadora da sóciogênese e da psicogênese4 da agricultura familiar. Está presente na modelação das estruturas e das mentalidades. Está presente nas formas e dinâmicas de nossos mercados internos e externos, de nossas organizações patronais e de trabalhadores, na sociedade civil e nos novos movimentos sociais, bem como no lazer e modo de vida das pessoas.

A naturalização dos direitos territoriais, os domínios sobre as terras brasileiras, seu processo de longo prazo e suas atualizações históricas poderão ser elucidadas, em algum grau, por esta minha narrativa interpretativa. Está é a minha expectativa.

Os domínios agrários podem ser visualizados nas dimensões institucionalizadas das leis jurídicas do estado e nas leis do mercado, bem como nos padrões de consumo. Esses dois conjuntos de leis – Mercado e Estado – conformam os domínios e vivências das pessoas e seus poderes assimétricos. Poderes co-determinados nas relações sociais: nem uma vontade divina e nem uma lei da natureza: uma produção sócioistórica de longo prazo, cujas mutações políticas e mercantis nos permitirão falar das mutações co-determinadas da agricultura familiar.5

A agricultura familiar representa uma identidade social construída por suas relações de co-existência com o ecossistema e por suas relações de co-determinações com a sociedade brasileira, esta reconhecida como formação social capitalista específica (MOREIRA, 2003, 2007, pp. 69-98 e pp. 319-360).

As co-determinações com o ecossistema nos permitirão refletir sobre sua sustentabilidade socioambiental. As relações da agricultura familiar na ordenação burguesa brasileira nos possibilitarão visualizar as dimensões produtivas mercantis, seus modos de vida, suas relações familiares e cooperativas, seu valores culturais, suas lutas mercantis e políticas e suas inserções no mundo globalizado, enfim suas identidades social e política.

A agricultura familiar, como categoria de análise – uma abstração concreta – representa um campo social objetivado e subjetivado històricamente em processos de mutação, que nos possibilitará falar de seu lugar no passado, no presente e suas possibilidades futuras.

Como o reconhecimento da realidade subjetiva e de sua importância nas ordenações sociais ainda é pouco reconhecida na produção científica gostaria de explicitar um pouco mais meu argumento. A constituição uma nova psique social da agricultura familiar, combativa e crítica, oriunda dos setores agrários subalternos, torna-se visível em nossa visualização da agricultura familiar como sujeito social efetivo.

Lanço mão das elaborações de ELIAS e SCOTSON (2000), as teorias de configurações sociais e de estigmatização, de BOURDIEU (1989), o mundo simbólico e as histórias objetivadas e internalizadas, e as inspirações de CASTORIADIS (1999), a instituição imaginária da sociedade, suas críticas às filosofias do positivismo e do essencialismo e o reconhecimento de um “sujeito efetivo”. Em “Paixão e conhecimento”, o autor coloca que:

“O que nos interessa aqui é o conhecimento efetivo de sujeitos efetivos (...). esses sujeitos efetivos são sempre sujeitos social-históricos. (...) são sujeitos no sentido pleno, não simplesmente produtos das condições social-histórica, mas sujeitos para si e, mais particularmente, psiquismos humanos” (CASTORIADIS,1999, 138-139)

Refletindo sobre as dimensões da autonomia biológica de Varela, em “Phusis, criação e autonomia”, CASTORIADIS ( 1999, p. 217) reconhece que “o vivente cria alguma coisa diferente, e muito importante: o nível de ser que chamamos de vida, e a infinidades de modos de seres e de leis que lhe concernem.(...): o vivente (certos viventes) cria a cor.”, por exemplo. No domínio propriamente humano, a

“humanidade se autocria como sociedade e como história – há aqui, criação da forma sociedade, irredutível a quaisquer “elementos” (aos indivíduos ... ,ou ao psiquismo humano, que é, com tal incapaz de produzir instituições e significações imaginárias sociais). Essa criação tem lugar ‘ de uma vez por todos’ – o animal humano se socializa – e também de maneira contínua: há uma pluralidade indefinida de sociedades humanas, cada uma com seu mundo próprio. Essa criação se faz, quase em toda parte, quase sempre, em um fechamento muito grande. [Tornando] impossível colocar em questão o mundo próprio da tribo. (...) porque tal questionamento é psíquica e mentalmente inconcebível para os indivíduos fabricado pela sociedade em questão. (...) o movimento democrático, a pesquisa e interrogação filosófica são, os dois questionamentos das instituições existentes da sociedade. (...) Chegamos assim, a uma idéia de autonomia que difere radicalmente da simples autoconstituição. Concebemos a autonomia como a capacidade de uma sociedade ou de um indivíduo – de agir deliberada e explicitamente para modificar sua lei, isto é sua forma. O nomos torna-se autocriação explícita de forma – o que leva, sempre, a aparecer, a uma só vez, como o oposto da phusis como uma de suas determinações. (...). Se fazemos nós mesmos, explicitamente, nossas leis, que leis devemos fazer? Esse é, evidentemente, o fundo da verdadeira questão política.” CASTORIADIS (1999; 219-221).

As duas dimensões da estigmatização e das figurações sociais que colocam os agricultores familiares na condição de subalternos – outsiders dos poderes hegemônicos estabelecidos – e a construção das imagens do eu-nós e nós-outros, revelando dois tipos de funções reguladoras; sociais e psicológicas (ELIAS e SCOTSON, 2000), nos permitirão falar das gêneses sociais e psíquicas e de suas mutações socioistóricas do sujeito social efetivo, que se constituiu como agricultura familiar na sociedade. Essa noção de sujeito efetivo, representa a capacidade dos agricultores familiares ou de um agricultor familiar de agir deliberada e explicitamente para modificar a sua lei, isto é, a sua forma, sua regulação social e psíquica.

Suas representações concretas no campo agropolítico brasileiro estão presentes em uma variedade de movimentos sociais organizados em sindicatos, confederações de trabalhadores rurais, ONGs atuantes nas lutas por acesso à terra, por demanda de políticas agrícolas e direitos sociais. Podem ser visualizadas também nas questões de gênero, na valorização das mulheres e jovens, dos alimentos e mercados orgânicos e solidários, na defesa das florestas e da biodiversidade, dentre outras. Por sua importância no cenário das disputas políticas contemporâneas cumpre destacar, o MST e as dimensões atuais dos assentamentos rurais de reforma agrária, as novas redes sociais agroecológicas, orgânicas, de mercados solidários. Suas lutas e interfaces na política nacional estão presentes na interlocução e gestões governamentais do Ministério de Desenvolvimento Agrário - MDA e no campo internacional do Fórum Social Global, em várias organizações, dentre elas a Via Campesina. São co-determinações complexas de seus lugares nas redes de mercado, nas redes políticas e nas redes sócio-culturais.

Esse campo social e analítico engloba as formas sociais diferenciadas dos pequenos patrimônios produtivos que, na ordem capitalista, são organizados pelo trabalho familiar, consistindo-se ao mesmo tempo de relações produtivas, de consumo e de socialização de hábitos e valores culturais. Regra geral são famílias de baixa renda, de capitais sociais e culturais precários, socialmente desvalorizados. Tradicionalmente são as figuras sociais regionalizadas, conhecidas e representadas como “caipira”, “caiçara”, “tabaréu”, “caboclo”, “sitiante”, “agregado”, “morador”, “colono”, “minifundista”, “sertanejo”, “pequeno arrendatário”, “parceiro”, “pele dura” em regiões diferentes do país. Tais representações sociais e seus significados estão carregados de valores culturais e ideológicos da cultura dominante e se confundem em alguns casos com o produtor familiar proprietário.

Suas representações simbólicas no campo cultural estão associadas a agricultores incultos, conservadores, iletrados, enfim, seres sociais inferiores, que só objetivam sua subsistência sem aspirações de progresso e de inovação, a realidade é posta pela dimensão do analfabetismo e das baixas permanências ou acesso ao ensino fundamental, médio e superior.

O reconhecimento analítico das co-determinações sociais das assimetrias de poderes, a meu ver, é fundamental para a elucidação das movimentações, nuances e singularidades de diferentes campos de domínios sociais agrários e de socialização das formas sociais da agricultura familiar. Na dimensão da vida das pessoas, alguns valores e éticas de comportamentos são construídos legitimados como verdadeiros e superiores enquanto outros valores e éticas são localizados como falsos e inferiores, moldando sensibilidades e individualidades como inferiores e superiores, construindo racionalidades tidas como superiores e inferiores. Culturas superiores e inferiores que se co-produzem em lógicas dialéticas múltiplas, complexas e abertas. No interior destas lógicas humanas produzimos e reproduzimos os sentidos de nossas vidas e identidades de famílias, comunidades, rincões, regiões e nações e das agriculturas familiares.

Os questionamentos dessas estruturações de poderes constroem as questões políticas e sociais, como são os casos, em nosso campo de estudo, das questões agrícola, alimentar, agrária, ambiental e, mais recentemente, da questão rural, dentro desta, a questão da agricultura familiar.



1.2. Sobre as ideologias da subsistência e do trabalho, como regulação psíquica

Dentre as relações hegemônicas regionalizadas que vigoraram em fins do século XIX e na primeira metade do século XX no entorno ou no interior do latifúndio, cumpre destacar alguns tipos de relações de trabalho rural configuradoras de formas diferenciadas da agricultura familiar do sitiante tradicional da pequena propriedade familiar, a saber: a morada da cana no nordeste brasileiro, o “seringueiro” da borracha, na agricultura da Amazônia; os “colonos do sul”, na agricultura gaucha e catarinense, o “colonato do café”,na agricultura paulista, a agricultura da “posse”, na zonas de expansão da fronteira econômica;.

A ideologia do trabalho, aqui vista como o conjunto de idéias que faz crer no progresso e na ascensão social por meio do trabalho, que certamente pode ser vista como uma “idéia fora de lugar” por estar posta no contexto de uma sociedade escravista mercantil. Ao fazer crer no progresso e na ascensão social por meio do trabalho numa sociedade escravista, ela possibilita entender os sitiantes tradicionais6, que no pós-1850 acumulam recursos e compra de pequenos lotes de terras, ou têm reconhecidas suas posses anteriores, constituindo-se como pequenos proprietários sitiantes em comunidades com redes de vizinhança em bairros rurais. Esta ideologia esteve associada à atração das imigrações internacionais do século XIX e vigorou no imaginário do “oeste paulista”, nas fazendas de café, nas aventuras da expansão da fronteira do café. Por meio do trabalho na fazenda de café - após o pagamento das dívidas contraídas na viagem de seu país de origem - e após ter acumulado dinheiro próprio para a compra de terras, ou do trabalho no desmatamento das fronteiras e no plantio das primeiras mudas do café, o imigrante se tornaria autônomo. Compraria terras, viraria agricultor familiar proprietário e depois um pequeno patrão. Essa ideologia atenderia as aspirações dos imigrantes estrangeiros, expropriados de sua condição camponesa, em seu país de origem. Esta ideologia conformou, no campo das idéias e das aspirações e de ação dos trabalhadores familiares que era alimentada pela esperança do progresso: de colono a pequeno patrão e, quiçá, fazendeiro, como na interpretação do Jeca Tatu de Monteiro Lobato, por CÂNDIDO (2001). Naquele contexto, uma particular a capacidade da agricultora familiar de agir deliberada e explicitamente para modificar a sua lei, isto é, a sua forma, sua regulação social e psíquica, como sujeito efetivo de seu agir e de se libertar da ascendência do fazendeiro. Essa libertação das redes de poderes dos fazendeiros em todo o Brasil, acompanha a saga dos posseiros da fronteira econômica em regiões e tempos histórico distintos, no rastro da lavoura branca e do trabalho livre.

A vivência histórica dos colonos do sul do Brasil, nos núcleos de colonização do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná e mesmo no Espírito Santo, indicariam os mesmos caminhos, porém com a distinção de já estarem objetivados como proprietários das terras onde trabalhavam. Desde sua origem no século XIX esses núcleos constituíram-se como produtores familiares autônomos proprietários, onde a ideologia do trabalho era vivida como expectativa e caminho de progresso social para a família e seus filhos e a possibilidade de – para os filhos e suas famílias – novas terras serem adquiridas. O direito à terra de trabalho não era favor e nem esteve fortemente associada à dívida contraída com os senhores das terras: uma particular a capacidade da agricultora familiar de agir deliberada e explicitamente para modificar a sua lei, isto é, a sua forma, sua regulação social e psíquica, como sujeito efetivo de seu agir. Se alguma diferença houver, nos diferentes processos históricos aqui apenas apontados, uma história incorporada de direito à terra de trabalho poderia ter gerado diferentes mentalidades que poderiam explicar a própria origem combativa do MST nos anos de 1980, cuja origem deu-se a partir de conflitos agrários do Rio Grande do Sul.

No norte do poder seringalista e da agricultura da Amazônia, as condições precárias dos posseiros da fronteira amazônica, sempre perdedores em conflitos como os grileiros, e as condições precárias dos seringueiros, que como trabalhadores da borracha tenham sua sujeição garantida pela falta de mobilidade e pela dívida do barracão, constituem uma lógica de dominação semi-escravista, ainda hoje descrita como situações de trabalho escrava na região, mesmo que vividas como libertação na floresta: uma particular a capacidade da agricultora familiar de agir deliberada e explicitamente para modificar a sua lei, isto é, a sua forma, sua regulação social e psíquica, como sujeito efetivo de seu agir, onde a busca da liberdade seria a vida na mata e na floresta, em redes de sociabilidades ribeirinhas, em um retorno à indigeneidade nativa originária, hoje reconhecida pela demarcação das reservas indígenas.

No nordeste açucareiro, a abolição dos escravos não desestrutura a fixação da força de trabalho nas plantações de cana. De um lado, porque a crise açucareira é anterior à abolição e muitos escravos já tinham sido vendidos ao sul cafeeiro. E, de outro, porque já ocorrera uma substituição de escravos por antigos moradores agregados livres já na ordem escravista e parte significativa dos escravos libertos permaneceu como trabalhadores residentes nessas plantações. A situação do parceiro-morador, no contexto da crise e da decadência da economia nordestina, e da figuração sócio-literária descrita na interpretação de Gilberto Freire, em Casa Grande e Senzala, sobre ao redes de poderes nordestinas, está associada à conformação originária de uma ideologia de subsistência e à morada de favor. (MOREIRA, 1996 e MOREIRA 2007, pp.57-67). Nessa ideologia construída na ordem colonial e imperial, destinava-se a orientar as relações sociais com os trabalhadores não-escravos na ordem escravocrata, a morada era uma concessão do senhor das terras, cuja manutenção dependia única e exclusivamente da vontade soberana deste senhor. Os moradores, trabalhadores familiares residentes, passavam a dever favores aos donos da terra, pagando com trabalho, produtos, serviços diversos com lealdade ao patrão e seus interesses, inclusive compondo forças paramilitares de defesa e ampliação do latifúndio; uma particular a capacidade da agricultora familiar de agir deliberada e explicitamente para modificar a sua lei, isto é, a sua forma, sua regulação social e psíquica, como sujeito efetivo de seu agir. A ideologia de subsistência, oriunda das relações de favor, associada à estagnação da região açucareira e às aspirações de antigos moradores e ex-escravos, indica como caminho e esperança de futuro a paciência, o conformismo e a expectativa de novos e melhores favores das elites, ou dos governantes. Sociabilidade e mentalidade dos poderes, posteriormente descrita por Victor Nunes Leal em Coronelismo. Enxada e voto. É este o conceito que, a meu ver, vai orientar as políticas públicas e a ação das elites nacionais e das elites agrárias do agronegócio articuladas e representadas, na atualidade no ministério da agricultura – MAPA.

Já destaquei em estudos anteriores que do ponto de vista das classes subalternas, a ordem republicana dos fins do século XIX que conforma a história social no campo brasileiro do século XX; é a ordem do autoritarismo oligárquico. É a ordem da repressão e sujeição da força de trabalho livre à estrutura econômica e social herdada do escravismo. Se não nos referirmos à sujeição originária de nossas populações indígenas e às migrações africanas forçadas do escravismo, essa seria a primeira grande mutação vivenciada pelas famílias subalternas e pelos agricultores familiares brasileiros. A gênese da história objetivada e interiorizada republicana que sedimentou o padrão de relações de trabalho que vigoraram, na primeira metade dos séc. XX e que entra em crise, nos anos 1950, com a magnitude da urbanização e da industrialização brasileira, a modernização do pós - IIª Grande Guerra e as lutas por reforma agrária, direitos trabalhistas no campo, a segunda grande mutação republicana. Essa terceira mutação, que sedimenta a hegemonia dos poderes urbanos industriais no Brasil, está associada ao deslocamento de enormes contingentes populacionais para as cidades, ficando, nos registros populações do FIBGE com mais de 50% da população. Esse indicador retrata a força dos processos de industrialização e de urbanização, colocando sobre a agricultura uma enorme tensão quanto à oferta de alimentos para o mercado interno que, em MOREIRA (1978), demonstrei estar fundamentalmente associada ao que então denominei de agricultura de subsistência.

Na mentalidade das elites políticas e sociais, regra geral, a noção de reprodução social é concebida ideologicamente como reprodução da subsistência familiar, mas associada à morada de favor e não como progresso social que estaria associada à ideologia do trabalho, ou do progresso. Essa noção de subsistência significaria a busca da manutenção da família e das condições de produção, que hoje, no contexto das questões ambientais, passam a ser interpretadas como o uso dos recursos naturais de forma sustentável. Regra geral os documentos e justificativas de políticas dirigidas aos agricultores familiares afirmam como objetivo garantir a subsistência da propriedade e da família, que ainda aparece na contemporaneidade, falando em sustentabilidade garantir também a sustentabilidade ambiental.




  1   2   3   4


©livred.info 2017
enviar mensagem

    Página principal