Uma Viagem só de Chegada



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Encontro21.07.2017
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Uma Viagem só de Chegada

Msc. Marcelo Steil
A história da poesia em idioma alemão produzida nas zonas de colonização de Santa Catarina ainda está por ser analisada com maior profundidade.

Títulos como Introdução à História da Literatura Catarinense, de Oswaldo Ferreira de Melo, ou A Literatura de Santa Catarina de Celestino Sachet, se restringem a citar poucos autores e obras em língua alemã, não oferecendo informações sobre os processos sociais, no qual esta literatura se desenvolveu. Já em A Literatura em Santa Catarina, de Janete Gaspar Machado nem ao menos a existência de tais expressões é considerada.

Portanto há uma lacuna crítica quanto à literatura produzida nas zonas de colonização no sentido de identificá-la e compreendê-la concomitantemente aos momentos históricos que a região atravessou e em paralelo a produzida então no Brasil.

Inicialmente, para a caracterização de um corpus desta poesia em língua alemã, procurou-se pelos principais veículos de expressão desta literatura: os jornais, as revistas e os anuários. Entre eles, destacam-se sobremaneira os anuários (almanaques), denominados "Kalender".

Vários autores sugerem que a produção poética das regiões de colonização alemã no sul do Brasil esteja quase que totalmente registrada nos "Kalender", entre eles Valburga Huber, Imgard Grützmann e Erich Fausel, de modo que priorizamos em nosso estudo os poemas publicados nesses anuários.

Após pesquisa se optou em trabalhar com um universo de vinte e cinco coleções dos “Kalender”, cinco publicadas em Blumenau, quatro em Brusque, quatro em Florianópolis, uma em Joinville, três em Porto Alegre, duas em São Leopoldo, uma em Ijuí, duas em Curitiba, uma em São Paulo, uma no Rio de Janeiro e, por fim, uma em Buenos Aires.

Porém ainda estávamos diante de um universo muito amplo, que abrigava comunidades heterogêneas como um imigrante residente no Rio de Janeiro, então capital imperial, e um outro desbravando a mata no sul do Brasil. Buscou-se então restringir o foco de estudo para a literatura produzida nas regiões de imigração de Santa Catarina, com ênfase ao Vale do Itajaí.

A operação destes critérios de delimitação - os poemas publicados nas coleções dos "Kalender"; destes, os números disponíveis para a pesquisa; e por fim, os poemas de autores que estabeleceram vínculos com a região de colonização - redunda numa lista de 390 poemas, que para nosso levantamento compõe o corpus desta literatura.

Restou-nos, finalmente, dentre as obras recolhidas, resgatar alguns poemas para efetivamente se proceder à análise. Na escolha desses poemas optou-se por selecionar aqueles onde se pudesse observar as seguintes características:

a) Reflexões sobre a identidade do imigrante, através dos textos: “ALTE UND NEUE HEIMAT” (Velha e nova pátria), de Victor Schleiff; “TEUTO-BRASILIANER” (Teuto-brasileiro), de Georg Knoll; “DIE ERSTEN EINWANDERER” (Os primeiros imigrantes), de Victor Schleiff ; e “WANDERER” (Os migrantes) de Ernest Niemeyer.

b) A saudade e as lembranças da terra natal foram observados nos poemas “HEIMWEH” (Saudade), de Victor Schleiff e “ERINNERUNG” (Recordação), de Georg Knoll.

c) A exaltação de símbolos referentes à velha pátria: “DEUTSCHE WORTE, DEUTSCHE WEISEN” (Palavras Alemãs, Canções Alemãs), de Rudolf Damm e “MUTTERSPRACHE” (Língua Materna), de Maria Kahle.

d) E, por fim, a nova realidade que os cerca em: “MEIN VATERHAUS” (Minha casa paterna), de Rudolf Damm; “BLUMENAU”, de Victor Schleiff e “VERLASSENES LANDE” (Terra abandonada), de Georg Knoll.
Depois de se proceder a análise detida desses onze poemas passo a citar algumas conclusões sobre esta literatura.

A principal observação que emerge à leitura desses poemas é a maneira com que praticamente todos os autores tratam as razões que os levaram a imigração abstraindo de seu universo poético os motivos pelos quais deixaram suas comunidades.


Vários poemas iniciam já em terras catarinenses, como em “MINHA CASA PATERNA”, de Rudolf Damm: “De azuis vagas uma terra emerge”. Do verso se intui que o imigrante chegou a nova terra de barco pelo mar, mas atendo-se somente ao descrito pelo texto parece uma viagem só de chegada. Como, e por que razões o “filho louro do norte” teria abandonado sua terra, preterindo-a por outra, os autores de modo geral evitam descrever.


Também em “OS PRIMEIROS IMIGRANTES”, Schleiff inicia o poema já em continente americano, avistando a nova terra: “"Terra! Terra!" - Assim ressoa de boca em boca,/ "Terra! Terra! Lá no Poente.” Novamente a viagem é somente de chegada, não há partida nem véspera. E quando ousa olhar ao passado, o limite que alcança, ou se permite, é a viagem e as dificuldades da travessia transatlântica, porém nada diz sobre sua situação pretérita.

E mesmo quando o imigrante cita em seus poemas as supostas razões pelas quais deixou sua comunidade, estas se apresentam metaforizadas, e nunca expostas claramente, ou com a mesma acuidade das descrições que faz da nova terra. Em “PALAVRAS ALEMÃS, CANÇÕES ALEMÃS”, de Rudolf Damm, por exemplo, as razões da imigração são atribuídas à má sorte ou ao destino: “Novamente à terra natal atraem,/Ah! Da qual há longos anos/A má sorte me apartou”. Também Ernest Niemeyer em “OS MIGRANTES” prefere atribuir o complexo processo da imigração a fatores imaginários: “À nova terra a estrela nos atraiu”.

Observando esses exemplos é possível perceber a dificuldade que os imigrantes e seus descendentes tiveram no trato com as razões que os impulsionaram à emigração.

Esse silêncio a que os autores relegam sua vida antes da imigração parece demonstrar, a certeza do imigrante de não mais voltar ao velho mundo. A partir dessa premissa e ao contato com a nova realidade, foi se desenvolvendo no imigrante e descendentes relações crescentes pela nova terra. Esse processo se deu porém sem que o grupo abandonasse as tradições culturais que trouxeram da velha pátria, fruto de uma série de fatores, geográficos e ideológicos. Desta maneira, por várias décadas os imigrantes alemães transitaram entre duas nacionalidades, a alemã que trouxeram, e a brasileira que progressivamente foram adquirindo.

Porém, com o passar das décadas e das gerações, essas duas categorias foram sofrendo variações, onde cada qual alterou a intensidade de sua exposição no imigrante e principalmente nos seus descendentes. Observa-se, com o passar do tempo, um certo predomínio do brasileiro em detrimento de um arrefecimento da parcela teuta, aspecto que pode se perceber nos poemas mais recentes, que evidenciam uma certa preocupação por parte dos autores pela perda da germanidade.

Esse desequilíbrio parece provocar uma reação por parte dos interessados na parcela teuta, identificada nos poemas pelo uso de instrumentos de manutenção da germanidade e de identidade, que se sustinham principalmente através da manutenção da língua materna e da cultura, bem como através da exaltação do trabalho, conjunto que parece representar o que Schleiff chamou de espírito alemão.

A manutenção da língua alemã é cantada, por exemplo, em “PALAVRAS ALEMÃS, CANÇÕES ALEMÃS”, de Rudolf Damm, que entende a língua como um dos pilares do “espírito alemão”, conclamando-as para que: “Enalteçam a fonte do alemão espírito,/Que nos borbulha luminoso e cristalino:/Palavras alemãs, canções alemãs/Soem sempre fortemente!”.

As referências à capacidade do trabalho e eficiência alemã são encontradas nos poemas sob dois aspectos, inicialmente de maneira absoluta, estando o grupo diante das dificuldades de desbravamento frente à floresta, e seu esforço é medido através de sua imposição sobre as forças da natureza. Há ainda poemas que sugerem um diferencial de trabalho em relação a “outro” grupo que supostamente os cerca e que fatalmente assumem, na leitura destes textos, o estereótipo do trabalhador indolente quando não preguiçoso, avesso ao trabalho.


O trabalho é visto às vezes como vicissitude opressiva, como dificuldade a ser superada, mas a maioria dos poemas o exaltam. Se observarmos que as dificuldades de obtenção de trabalho na terra natal foram uma das grandes motivações da onda emigratória podemos compreender o porquê deste apego às possibilidades de realização mediante esforço próprio, sobre sua propriedade.

Em “OS PRIMEIROS IMIGRANTES” Victor Schleiff enfatiza seus aconselhamentos quanto à postura em relação ao trabalho às próximas gerações, sobretudo a terceira.


O neto do imigrante parece ter importância decisiva para os poetas, quanto à propagação e manutenção de seus ideais, pois os filhos dos primeiros aparentemente continuaram e consolidaram a obra inicial, de instalação e construção da cidade. Já para os netos a realidade era diferente, pois já estavam inseridos no processo de atenuação da germanidade frente aos contatos com outras etnias.

A atenuação progressiva da germanidade pode ser observada através de alguns dados apontados por Willems quanto à utilização da língua alemã frente à portuguesa, pois, por exemplo, em 1882, 71% dos habitantes de Blumenau falavam o idioma alemão, enquanto apenas 8,6% utilizavam o português. Em 1927 os que falavam alemão perfaziam 40%, mesma porcentagem dos que declararam o português como língua materna. Para João Klug: “Estes dados revelam um rápido processo de assimilação cultural...”1.

Porém esse processo de assimilação é pouco explorado pelos poetas das zonas de colonização em Santa Catarina, e aparentemente no intuito de negá-lo, tratam de maneira extremamente superficial as relações interétnicas a que estavam sujeitos. Em “BLUMENAU”, por exemplo, Victor Schleiff vê a cidade isolada do contexto catarinense: “Qual ilha situa-se esta Blumenau/Em mar de belos jardins.” Nas primeiras décadas do século XX, como se viu, em relação ao grupo que declarava o alemão como língua materna, havia pelo menos o mesmo número de habitantes que utilizavam o português, sem contar os italianos, porém os poemas insistem em uma representação homogênea da cidade germanizada.

Sobre os grupos indígenas que habitavam as zonas de colonização, os poetas normalmente os excluem da “sua” história, e das poucas vezes que são mencionados, apenas são lembrados como pertencentes ao universo do exótico que a selva lhes oferece, geralmente enumerado-os entre animais perigosos. Novamente, como na maior parte dos poemas aqui recolhidos, parece estarmos diante de uma representação da cidade ideal, habitada por um grupo homogêneo, sem rivais nem dificuldades que os preocupe.

Sobre os aspectos cotidianos que circundavam o dia-a-dia do imigrante e seus familiares os poemas evidenciam desde sua forma de produção, baseada na agricultura familiar, a diversidade das atividades decorrentes de tal estrutura de trabalho, bem como o engajamento de todos os membros da família nos afazeres diários.

Sob o aspecto formal, se verifica que esta produção poética assume um único estilo de época, a de um romantismo alemão tardio, que pelos seus próprios pressupostos estéticos acentua ainda mais os laços de nacionalidade estimulados pelo processo imigratório.

Dentre as tendências nada homogêneas que o romantismo abrigou, a produção no Vale do Itajaí aproxima-se da segunda fase do movimento alemão, conhecida como Romantismo de Heidelberg. Enquanto na primeira fase, conhecida como Romantismo de Jena, havia forte influência da livre fantasia, da reflexão filosófica e da crítica, a segunda fase redireciona seus interesses, movida pelas transformações sociais a que está sujeita. "Após 1806, ano em que Napoleão efetua novas conquistas, a Literatura (alemã) assume claramente um papel de oposição à política expansionista do imperador francês. Essa oposição adquire traços ambivalentes. De um lado, o despertar da consciência nacional apresenta um caráter positivo, como forma de participação política; de outro, a retomada de valores tradicionais pode ser vista como uma atitude quase reacionária, por possibilitar o irromper de forças conservadoras."2

Na expressão poética, tais forças conservadoras foram manifestadas pela adoção da forma clássica, fundamentada na utilização de pés fixos.

Esse estilo poético, que trazido pelos imigrantes “engessou-se” em terras brasileiras, perpetuando-se como forma canônica da literatura produzida nas zonas de colonização, sequer assumira os preceitos filosóficos de Höelderlin e Nietschze nem parece ter logrado conhecimento da ou contato com as vanguardas européias do início do século.

A tendência política desta literatura, “mesmo e justamente quando pretende ser apolítica3, tendo como objetivo principal a afirmação desta nova identidade, preconizando assim o conteúdo dos poemas enquanto instrumento ideológico, em detrimento da utilização de uma forma estabelecida, levou os poetas teuto-brasileiros a um certo isolamento da reflexão artístico-literária que o mundo observava na época. Assim, apesar de conter bons versejadores, como Schleiff, Knoll e Damm, a poesia teuto-brasileira em geral não alcançou o plano existencial com que a literatura alemã se diferencia das demais.

A literatura dita teuto-brasileira parece ocupar, portanto, um entrelugar entre as literaturas brasileira e alemã. Ela não se articula com a literatura brasileira que se fazia à mesma época, uma transição entre o parnasiano e o moderno, não sendo considerada brasileira pela totalidade dos críticos. O próprio uso da língua alemã em solo brasileiro coloca o grupo em uma situação de marginalidade e isolamento, que se observa pela ausência de referências nos estudos sobre literatura brasileira e mesmo catarinense. Igualmente difere da literatura produzida então na Alemanha, tematicamente por ter absorvido o pathos da imigração e sua conseqüências na identidade, além de utilizar os esquemas de composição de Goethe, apesar de não alcançar sua inspiração filosófica.

A literatura teuto-brasileira se volta, tamanho o seu isolamento para com as outras expressões literárias, para a construção de seu próprio lugar, como se não houvesse “retorno” a uma situação anterior, e somente a partir da nova realidade necessitassem reconstruir sua identidade.



A leitura dos poemas em idioma alemão produzidos nas zonas de colonização de Santa Catarina nos permitiram portanto uma incursão tanto ao dia-a-dia do imigrante, bem como ao seu próprio imaginário e de seus descendentes, que através da expressão poética exprimiam sua sensibilidade, mas principalmente, como instrumento ideológico, a representação de seus interesses na manutenção da germanidade, que aos poucos esmorecia ante o próprio desenvolvimento da cidade e suas crescentes relações nas tramas comerciais e sociais com o país que os abrigou.
Muito Obrigado!

1 KLUG, João. Imigração e Luteranismo em Santa Catarina. Florianópolis: Papa-Livro, 1994, p. 47.

2 HEISE, RÖHL, Eloá e Ruth. História da Literatura Alemã. São Paulo: Ática. 1986, p. 47.

3 CARPEAUX, Otto Maria. História da Literatuira Ocidental. Rio de Janeiro: O Cruzeiro, 1962, p. 1651.





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