Uma coisa na neve



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Septimus

Heap


Magya

1

UMA COISA NA NEVE



Silas Heap apertou ainda mais a capa em volta do corpo para se proteger da neve. Tinha sido uma grande caminhada através da Floresta, e estava gelado até os os-sos. Mas nos bolsos levava as ervas que Galena, a Curan-deira, lhe tinha dado para o seu bebê, Septimus, nascido algumas horas antes.

Silas estava mais perto do Castelo, e podia ver as luzes a cintilar através das árvores à medida que as pessoas punham velas nas janelas das casas altas e estreitas que se amontoavam ao longo das muralhas exteriores. Era a noi-te mais longa do ano, e as velas iam ficar acesas até de madrugada, para manter as trevas afastadas. Silas sempre gostara daquela caminhada até o Castelo. Não tinha medo da Floresta durante o dia e desfrutava do passeio tranqüilo ao longo do caminho estreito que se estendia através de quilômetros e quilômetros de denso arvoredo. Agora es-tava mais próximo da orla da Floresta, as árvores altas ti-

nham começado a tornar-se mais escassas, e com o cami-nho a mergulhar para o fundo do vale, Silas podia ver a totalidade do Castelo a espalhar-se à sua frente. As velhas muralhas abraçavam-se ao rio largo e serpenteante e zi-guezagueavam em torno do confuso amontoado de casas. Todas as casas estavam pintadas com cores alegres, e a-quelas que se encontravam voltadas para ocidente pareci-am estar a arder com as janelas a apanhar os últimos raios daquele sol de Inverno.

O Castelo começara por ser uma pequena aldeia. Por estar tão próxima da Floresta, os aldeões ergueram paredes altas, de pedra, para se protegerem dos carcajus, bruxas e feiticeiros que não hesitavam em lhes roubar as ovelhas, galinhas e, de vez em quando, os próprios filhos. A medida que se foram construindo mais casas, as paredes alargaram-se e foi escavado um profundo fosso para que todos se sentissem seguros.

Depois de pouco tempo o Castelo já atraía artífices habilidosos que vinham de outras aldeias. Cresceu e pros-perou, tanto que os habitantes começaram a ficar sem es-paço, até que alguém decidiu construir Os Bairros. Os Bairros, que era onde Silas, Sara e os meninos viviam, e-ram um enorme edifício de pedra que se erguia ao longo da margem do rio. Estendia-se por quatro quilômetros e meio ao longo do rio e outros tantos até o Castelo, e era um lugar muito ativo e barulhento, um emaranhado de corredores e quartos, com pequenas fabriquetas, escolas e lojas misturadas com quartos familiares, minúsculos jar-dins cobertos, e até um teatro. Não havia muito espaço n’Os Bairros, mas as pessoas não se importavam. Havia sempre boa companhia e alguém para brincar com as cri-anças.

Quando o sol de Inverno desapareceu por trás das muralhas do castelo, Silas apressou o passo. Precisava chegar ao Portão Norte antes que o fechassem e levantas-sem a ponte levadiça ao cair da noite.

Foi nessa altura que Silas sentiu qualquer coisa nas proximidades. Qualquer coisa ainda viva, mas que não agüentaria muito. Estava ciente do bater de um pequeno coração humano em algum lugar ali perto. Silas parou. Como um Feiticeiro Normal era capaz de sentir algumas coisas, mas como não era um Feiticeiro Normal muito bom, precisava se concentrar muito. Ficou muito quieto, com a neve a cair rapidamente à sua volta e já cobrindo suas pegadas. E então ouviu qualquer coisa — um fungar, um lamento, um respiro? Não tinha certeza, mas era o suficiente.

Debaixo de um arbusto ao lado do caminho havia uma trouxa. Silas pegou-a e, para sua grande surpresa, deu consigo a olhar diretamente para os olhos solenes de uma bebê pequenina. Silas aninhou a bebê ao colo e interro-gou-se como ela poderia ter ido parar ali, no meio da ne-ve, no dia mais frio do ano. Alguém a tinha embrulhado cuidadosamente num pesado cobertor de lã, mas mesmo assim já estava ficando com muito frio: os lábios estavam de um azul pálido e a neve cobria-lhe as sobrancelhas co-mo se fosse pó. Com os olhos de um violeta escuro a o-lhar fixamente para ele, Silas teve a desconfortável impres-são de que a bebê, na sua curta vida, já tinha visto coisas que nenhum bebê devia ver.

Ao pensar na sua Sara em casa, quente e segura com Septimus e os rapazes, Silas decidiu que iam ter que arranjar lugar para mais uma pequenina. Acondicionou cuidadosamente a bebê no interior de sua capa azul de

Feiticeiro e apertou-a contra si, enquanto corria para o portão do Castelo. Chegou à ponte levadiça bem quando Gringe, o Guardião do Portão, estava se preparando para gritar ao Rapaz da Ponte para que começasse a levantá-la.

— Foi por um triz — rosnou Gringe. — Mas vo-cês, Feiticeiros, são esquisitos. Porqué’c querem andar a-qui fora num dia como este é qu’eu não sei.

— Oh? — Silas queria despachar Gringe o mais depressa possível, mas primeiro tinha que lhe amanteigar as mãos com algumas moedas. Silas encontrou rapidamen-te um cêntimo de prata num dos bolsos e entregou-o.

— Obrigado, Gringe. Boa noite.

Gringe olhou para o cêntimo como se fosse um es-caravelho particularmente repugnante.

— A Marcia Overstrand, ainda há pouco m’deu meia c’roa. Mas ela tem classe, ainda mais agora qu’é a Feiticeira ExtraOrdinária.

— O quê? — Silas quase se engasgou.

— Pois é. Classe, é o qu’ela tem.

Gringe afastou-se para deixá-lo passar, e Silas a-pressou-se a passar por ele. Por muito que quisesse des-cobrir por que é que Marcia Overstrand era subitamente a Feiticeira ExtraOrdinária, podia sentir a trouxa começar a agitar-se no calor de sua capa, e algo lhe dizia que era me-lhor que Gringe não soubesse sobre a bebê.

Quando Silas se preparava para desaparecer nas sombras do túnel que levava aos Bairros, um vulto alto, vestido de púrpura, entrou no caminho e impediu-lhe a passagem.

— Marcia! — exclamou Silas. — Mas o que se...

— Não diga a ninguém que a encontrou. É sua fi-lha. Entendeu?

Em choque, Silas anuiu. Antes que tivesse tempo de dizer alguma coisa, Marcia tinha desaparecido num cin-tilar de névoa purpurina. Silas percorreu o resto do longo e tortuoso caminho através d’Os Bairros com a mente em torvelinho. Quem era esta criança? O que Marcia tinha a ver com ela? E por que é que Marcia era a Feiticeira Ex-traOrdinária agora? E, à medida que se aproximava da grande porta vermelha que levava à já superlotada casa da família Heap, uma outra e mais importante pergunta lhe ocorreu: o que iria dizer a Sara por ter mais uma criança de quem cuidar?

Silas não teve muito tempo para pensar nesta últi-ma questão. Ao chegar à porta esta abriu-se de repente, e uma grande mulher de cara avermelhada, vestindo a túnica azul-escura das Matronas Parteiras, saiu correndo, quase atirando Silas ao chão. Ela também carregava uma trouxa, mas a trouxa estava embrulhada dos pés à cabeça em liga-duras, e levava-a debaixo do braço como se fosse um pa-cote e ela estivesse atrasada para os correios.

— Morto! — gritou a Matrona Parteira. Afastou Si-las para o lado com um forte empurrão e desapareceu cor-redor abaixo. No interior do quarto, Sara Heap gritou.

Silas entrou com um peso no coração. Viu Sara ro-deada por seis garotos muito pálidos, todos assustados demais para chorar.

— Ela o levou — disse Sara desesperada. — Sep-timus morreu, e ela o levou.

Nesse momento, uma umidade quente libertou-se da trouxa que Silas tinha escondida sob sua capa. Silas não encontrava palavras para aquilo que queria dizer, por isso limitou-se a tirar a bebê de sob a capa e colocou-a nos braços de Sara.

Sara Heap desfez-se em lágrimas.

2

SARA E SILAS



A trouxa inseriu-se perfeitamente no lar da família Heap e foi batizada de Jenna, como a mãe de Silas.

O menino mais novo, Nicko, tinha apenas dois a-nos quando Jenna chegou, e esqueceu-se rapidamente de seu irmão Septimus. Com o passar do tempo, os garotos mais velhos também o esqueceram. Adoravam sua nova irmãzinha e traziam-lhe todo o tipo de tesouros das suas aulas de Magya na escola.

Sara e Silas, claro, não conseguiam esquecer Septi-mus. Silas culpava-se por ter deixado Sara sozinha e ter ido buscar as ervas para o bebê com a Curandeira. E Sara culpava-se simplesmente por tudo. Embora mal conse-guisse se recordar do que se passara naquele dia tão terrí-vel, Sara sabia que tinha tentado devolver a vida ao seu bebê e não tinha conseguido. E lembrava-se de ver a Ma-trona Parteira embrulhando o seu pequeno Septimus, dos pés à cabeça, em ligaduras e depois a correr porta afora, gritando por cima do ombro: — Morto!

Sara lembrava-se muito bem disso.

Mas, depois de pouco tempo, Sara passou a amar tanto sua bebê como tinha amado seu Septimus. Durante um tempo teve medo que aparecesse alguém e levasse Jenna também, mas com o passar dos meses Jenna tor-nou-se uma bebê rechonchudinha e risonha e Sara des-contraiu-se e quase deixou de se preocupar.

Até o dia em que sua amiga Sally Mullin parou ofe-gante à sua porta. Sally Mullin era uma daquelas pessoas que sabiam sempre o que se passava no Castelo. Era uma mulher pequena e atarefada, com cabelo fino da cor de gengibre e que estava constantemente se soltando sob o seu gorduroso boné de cozinheira. Tinha um rosto redon-do e agradável, um bocado gorducho por comer muitos bolos, e tinha normalmente as roupas salpicadas de fari-nha.

Sally tinha um pequeno café no pontão junto ao ri-o. A placa por cima da porta dizia:

SALÃO DE CHÁ E CERVEJA DE SALLY MULLIN TEMOS QUARTOS LIMPOS

NÃO QUEREMOS CANALHA AQUI

No café de Sally Mullin não havia segredos. Tudo e todos que chegavam ao Castelo por água eram vistos e comentados, e a maior parte das pessoas que vinham ao Castelo preferia chegar de barco. Ninguém além de Silas gostava dos caminhos escuros através da Floresta que ro-deava o castelo. A Floresta ainda tinha um sério problema com carcajus durante a noite e estava infestada de árvores carnívoras. E depois havia as Bruxas Wendron, que anda-vam sempre sem dinheiro e costumavam estender armadi-

lhas aos viajantes distraídos, deixando-os com pouco mais do que a camisa e as meias.

O café de Sally Mullin era uma cabana quente e movimentada, empoleirada de forma precária acima da água. Barcos de todos os tamanhos e feitios ancoravam no pontão do café, despejando todo o tipo de pessoas e ani-mais. A maioria resolvia restabelecer-se da viagem pro-vando pelo menos uma das fortes cervejas de Sally e uma fatia de bolo de cevada, enquanto trocavam os mais recen-tes mexericos. E qualquer pessoa no Castelo que tivesse meia hora para perder e uma barriga dando as horas, aca-bava atravessando o desgastado caminho que levava ao Portão do Molhe, passando pela Lixeira de Detritos da Amenidade Ribeirinha, e ao longo do pontão até ao Salão de Chá e Cerveja de Sally Mullin.

E Sally encarregava-se de visitar Sara pelo menos uma vez por semana, para mantê-la a par de tudo o que se passava. Na opinião de Sally, era injusto que Sara tivesse que cuidar sozinha de sete crianças, além de Silas Heap, que, tanto quanto podia ver, não fazia grande coisa para ajudar. A maior parte das histórias de Sally eram sobre pessoas de quem Sara nunca ouvira falar e que nunca che-garia a conhecer, mas ainda assim Sara esperava ansiosa-mente as visitas de Sally e gostava de saber as coisas que se passavam à sua volta. Mas desta vez, não só era um as-sunto mais importante do que os habituais mexericos, também dizia respeito diretamente a Sara. E, pela primeira vez, Sara sabia alguma coisa que Sally desconhecia.

Sally esgueirou-se para o interior e fechou a porta atrás de si com um ar de conspiração.

— Trago notícias terríveis — sussurrou.

Sara, que estava tentando limpar os restos do desje-jum da boca de Jenna, e de todas as partes por onde a menina o tinha cuspido, e a porcaria da nova cria de cão lobo ao mesmo tempo, não estava prestando muita aten-ção.

— Olá, Sally — disse ela. — Há um espacinho lim-po aqui. Anda e sente-se aqui. Uma xícara de chá?

— Sim, por favor. Sara, não vai acreditar nisso!

— Em quê, Sally? — perguntou Sara, à espera de ouvir qualquer coisa sobre o último caso de mau compor-tamento no café.

— A Rainha. A Rainha morreu!

— O quê? — exclamou Sara. Ergueu Jenny da ca-deira e levou-a para um dos cantos da sala, onde estava o berço de vime. Sara deitou Jenny para tirar uma soneca. Sempre achara que os bebês deviam ser mantidos longe das más notícias.

— Morta — repetiu Sally tristemente.

— Não! — exclamou Sara. — Não acredito. Está só adoentada depois do nascimento do bebê. É por isso que não tem sido vista desde essa altura.

— Isso é o que os Guardiães da Custódia têm dito, não é? — perguntou Sally.

— Bem, sim — admitiu Sara, servindo o chá. — Mas eles são os guardas da Rainha, por isso devem saber. Embora não consiga compreender por que a Rainha esco-lheu de repente um tal bando de rufiões para a sua guarda pessoal.

Sally pegou a xícara de chá que Sara tinha colocado à sua frente.

— Obrigada. Hummm, uma delícia. Bem, exata-mente... — Sally baixou a voz e olhou em volta como se

esperasse encontrar um Guardião da Custódia encostado a um dos cantos, não que conseguisse vê-lo no meio da confusão da sala dos Heap. — Eles são um bando de ru-fiões. Na verdade, foram eles que a mataram.

— Mataram? A Rainha foi morta? — exclamou Sa-ra.

— Chiuuu. Bom, veja bem... — Sally aproximou a cadeira de Sara. — Corre por aí o rumor — e soube de fonte segura...

— Ah sim, e que fonte foi essa? — perguntou Sara com um sorriso provocador.

— Ninguém mais do que Madame Marcia — Sally endireitou as costas e sentou-se para trás com um ar triun-fante —, foi quem foi.

— O quê? E como é que se encontrou com a Feiti-ceira ExtraOrdinária? Passou pelo café para tomar uma xícara de chá?

— Quase. Foi Terry Tarsal quem passou por lá. Ti-nha estado na Torre dos Feiticeiros para entregar uns sa-patos muito esquisitos que tinha feito para Madame Mar-cia. Por isso, quando se cansou de se queixar do fraco gos-to para sapatos que ela tinha e do quanto odeia cobras, disse que tinha ouvido Marcia a falar com um dos outros Feiticeiros. Endor, aquele galináceo gordo, segundo pare-ce. Bom, ouviu-os dizer que tinham dado um tiro na Rai-nha! E que tinham sido os Guardiães da Custódia um dos seus Assassinos.

Sara não podia acreditar no que estava ouvindo.

— Quando? — perguntou, quase sem ar.

— Bem, essa é a parte verdadeiramente horrível — sussurrou Sally, entusiasmada. — Disseram que foi no dia em que o bebê dela nasceu. Há seis meses já, e nós sem

sabermos de nada. É terrível... terrível. E também dispara-ram sobre o Sr. Alther. Morto. Foi por isso que Marcia se tornou...

— Alther está morto? — admirou-se Sara. — Não posso acreditar. Realmente, não posso... Todos pensamos que tinha se aposentado. O Silas foi Aprendiz dele há uns anos atrás. Era encantador...

— Era? — perguntou Sally distraidamente, ansiosa para poder continuar com sua história. — E não é tudo, sabe? Porque o Terry ficou com a impressão de que Mar-cia tinha salvo a Princesa e a tinha levado para um lugar qualquer. O Endor e a Marcia estavam só conversando, interrogando-se como ela estaria. Mas claro, quando per-ceberam que o Terry estava lá com os sapatos, calaram-se. A Marcia foi muito brusca com ele, segundo Terry me disse. Depois daquilo sentiu-se um bocado estranho, e acha que devem ter lançado um Feitiço de Esquecimento nele, mas ele tinha se esquivado por trás de uma coluna quando a viu falar entre dentes e não pegou como devia ser. Está bem aborrecido com isso, porque não consegue se lembrar se chegaram a pagar os sapatos ou não.

Sally Mullin fez uma pausa para respirar e tomar um longo gole de chá.

— A pobre Princezinha. Que Deus ajude a peque-nina. Pergunto-me onde estará agora. Provavelmente de-finhando num calabouço qualquer. Não como aquele seu anjinho que está ali... Como vai ela?

— Oh, está muito bem — respondeu Sara, que normalmente teria se posto a falar sobre as fungadas de Jenna, os dentinhos novos de Jenna, e de como ela já con-seguia se sentar e segurar sua própria xícara. Mas naquele momento Sara queria desviar as atenções de Jenna —

porque Sara tinha passado os últimos seis meses a se per-guntar quem seria realmente a sua bebê, e agora já sabia.

Jenna era, pensou Sara, com certeza tinha que ser... a Princesa bebê.

Pela primeira vez Sara ficou contente por se despe-dir de Sally Mullin. Viu-a apressar-se corredor abaixo e, ao fechar a porta atrás de si, soltou um suspiro de alívio. E então correu até o berço de Jenna.

Sara pegou Jenna no colo. Jenna sorriu e estendeu as mãos para agarrar o amuleto que Sara usava no colar.

— Bem, pequena Princesa — murmurou Sara —, sempre soube que era especial, mas nunca pensei que fos-ses a nossa própria Princesa. — Os olhos violeta-escuros da bebê encontraram os de Sara e ela olhou solenemente para Sara como se dissesse, Pois bem, agora já sabe.

Sara voltou a deitar Jenna no berço, suavemente. Tinha a cabeça girando e as mãos tremiam ao servir-se de outra xícara de chá. Era difícil acreditar em tudo o que ouvira. A Rainha estava morta. E Alther também. A sua pequena Jenna era a herdeira do Castelo. A Princesa. O que estava acontecendo?

Sara passou o resto da tarde dividida entre olhar a-turdida para Jenna, para a Princesa Jenna, e preocupar-se com o que aconteceria se alguém descobrisse quem ela era. Onde estava Silas quando ela precisava dele?

Silas estava desfrutando de um dia de pesca com os meninos.

Havia uma pequena praia na dobra do rio um pou-co depois d’Os Bairros. Silas estava mostrado a Nicko e a Jo-Jo, os dois mais novos, como atar as jarras de compota ao extremo de uma vara e mergulhá-las na água. Jo-Jo já

tinha apanhado três esgana-gatos, mas Nicko deixava cair sempre a sua e começava a ficar irritado.

Silas pegou Nicko no colo e levou-o para ver Erik e Edd, os gêmeos de cinco anos. Erik estava todo satisfeito sonhando acordado e balançando um pé na água quente e límpida. Edd estava usando um ramo para mexer em qualquer coisa sob uma rocha. Era um enorme besouro d’água. Nicko soltou um queixume e agarrou-se com força ao pescoço de Silas.

Sam, que já tinha quase sete anos, era um pescador de verdade. Tinham-lhe dado uma vara de pesca de ver-dade no seu último aniversário, e já tinha dois pequenos peixes prateados estendidos numa rocha ao seu lado. Es-tava prestes a puxar um terceiro para fora d’água. Nicko gritou de entusiasmo.

— Tire-o daqui, pai. Vai assustar os peixes — disse Sam, mal-humorado.

Silas afastou-se na ponta dos pés com Nicko e foi sentar-se ao lado de seu filho mais velho, Simão. Simão tinha uma vara de pesca numa mão e um livro na outra. O sonho de Simão era tornar-se Feiticeiro ExtraOrdinário, e estava ocupado lendo todos os livros de magia antigos de Silas. Este que tinha na mão, reparou Silas, era O Encanta-dor de Peixes Completo.

Silas contava que todos os seus filhos viessem a ser algum tipo de Feiticeiro; era tradição da família. A tia de Silas era uma famosa Bruxa Branca e tanto o pai, quanto o tio de Silas tinham sido Metamorfos, que era não só um ramo muito especializado, como um que Silas esperava que seus rapazes evitassem, pois os Metamorfos de suces-so tornavam-se cada vez mais instáveis quando ficavam mais velhos, tornando-se por vezes incapazes de manter a

sua própria forma por mais do que alguns minutos de ca-da vez. O pai de Silas tinha acabado por desaparecer na Floresta sob a forma de uma árvore, mas ninguém sabia qual. Era uma das razões pelas quais Silas desfrutava das suas caminhadas pela Floresta. Não raras vezes dirigia um comentário a uma árvore mais desgrenhada na esperança de que fosse seu pai.

Sara Heap vinha de uma família de Magos e Feiti-ceiros. Quando menina, Sara tinha estudado as ervas e curas com Galena, a Curandeira da Floresta, onde um dia tinha conhecido Silas. Silas andava à procura do pai. Esta-va perdido e infeliz, e Sara levou-o com ela para ver Gale-na. Galena tinha-o ajudado a compreender que o seu pai, como Metamorfo que era, deveria ter escolhido o seu des-tino final como sendo uma árvore a muito tempo, e que agora devia estar se sentindo verdadeiramente feliz por isso. E Silas, pela primeira vez na vida, compreendeu que também se sentia imensamente feliz sentado ao lado de Sara em frente à lareira da Curandeira.

Quando Sara tinha aprendido tudo o que podia so-bre as ervas e as curas, despedira-se calorosamente de Ga-lena e juntara-se a Silas no seu quarto n’Os Bairros. E ali tinham ficado desde então, apertando-se para receber mais e mais crianças, enquanto Silas desistia alegremente do seu Aprendizado e começava a trabalhar como um Feiticeiro Normal assalariado para poder pagar as contas. Sara fazia tinturas de ervas na cozinha quando tinha um momento livre — o que não acontecia muitas vezes.

Nessa noite, quando Silas e os rapazes subiam os degraus de volta da praia aos Bairros, um enorme e amea-çador Guardião da Custódia, vestido de preto dos pés à cabeça, barrou-lhes o caminho.

— Alto! — ladrou. Nicko começou a chorar.

Silas deteve-se e disse aos rapazes que se compor-tassem.

— Documentos! — gritou o Guarda. — Onde es-tão os seus documentos?

Silas ficou olhando para ele.

— Que documentos? — perguntou calmamente, não querendo causar quaisquer problemas quando tinha consigo seis garotos cansados e mortinhos para chegar em casa e jantar.

Os seus documentos, escória de Feiticeiros. A área da praia está vedada a qualquer um que não tenha os documentos próprios — escarneceu o Guarda.

Silas estava chocado. Se não estivesse com os me-ninos, teria discutido, mas tinha reparado na pistola que o guarda levava.

— Peço desculpas — disse ele. — Não sabia.

O Guarda olhou-os de alto a baixo como se deci-dindo o que fazer, mas felizmente para Silas tinha outras pessoas para visitar e aterrorizar.

— Leve a sua ralé daqui para fora e não se atreva a voltar — cuspiu o Guarda. — Fiquem no seu lugar.

Silas apressou os chocados meninos degraus acima e de volta à segurança d’Os Bairros. Sam deixou seus pei-xes caírem e começou a soluçar.

— Pronto, pronto — disse Silas —, está tudo bem. — Mas Silas sentia que as coisas não estavam nada bem. O que estava acontecendo?

— Por que ele nos chamou de escória de Feiticei-ros, pai? — perguntou Simão. — Os Feiticeiros são os melhores, não são?

— Sim — respondeu Silas distraidamente —, os melhores.

Mas o problema era, pensou Silas, que se fosse um Feiticeiro, não havia maneira de escondê-lo. Todos os Fei-ticeiros, e só os Feiticeiros, os tinham. Silas tinha, Sara tinha e todos os meninos com exceção de Nicko e Jo-Jo os tinham. E logo que Nicko e Jo-Jo fossem para as aulas de Magya na escola, também os teriam. Lenta, mas segura-mente, até não restarem dúvidas, os olhos de uma criança Feiticeira tornar-se-iam verdes logo que fosse exposta ao ensino da Magya. Sempre fora algo de que se orgulhar. Até agora, quando subitamente parecia ser algo perigoso.

Nessa noite, quando por fim todas as crianças esta-vam dormindo, Silas e Sara ficaram conversando noite adentro. Falaram de sua Princesa e de seus meninos Feiti-ceiros e das mudanças que tinham tomado o Castelo de assalto. Discutiram a hipótese de fugirem para os Pânta-nos Marram, ou irem para a Floresta e viverem com Gale-na. Quando a madrugada por fim surgiu e eles tinham fi-nalmente adormecido, Silas e Sara tinham decidido fazer aquilo que os Heap faziam normalmente. Manter-se dis-cretos e esperar que tudo corresse bem.

E assim, pelos nove anos e meio que se seguiram, Silas e Sara mantiveram-se quietos. Fechavam e trancavam a porta, falavam apenas com os vizinhos e aqueles em quem podiam confiar e, quando puseram fim às aulas de Magya na escola, ensinaram Magya aos filhos em casa, à noite.

E foi por isso que, ao fim de nove anos e meio, com exceção de um, todos os Heap tinham penetrantes olhos verdes.

3

O SUPREMO GUARDIÃO



Eram seis da manhã e ainda estava escuro, exata-mente dez anos passados desde que Silas encontrara a trouxa.



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