Um Natal de muito menino Jesus



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Encontro15.07.2018
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Um Natal de muito menino Jesus

Por: Maria Clara Bingemer

            Uma vez que o Natal  chega, pareceria óbvio que a figura central fosse o Menino Jesus.  Afinal, sem ele não haveria a festa, pois Deus não se haveria encarnado na vulnerabilidade de nossa carne e não teríamos nossa salvação para celebrar. 

            É portanto em torno de uma criança, muito concretamente dessa criança que a festa mais tradicional do Ocidente cristão se organiza.  Em torno desse menino nascido nos confins da Palestina sob a ocupação do Império Romano, do ventre de Maria de Nazaré, mocinha prometida em casamento ao carpinteiro José, da casa de David.  O presépio, portanto, é – ou deveria ser -  o centro da celebração natalina.

            A palavra “presépio” significa “um lugar onde se recolhe o gado, curral, estábulo”. Contudo, esta também é a designação dada à representação artística do nascimento do Menino Jesus num estábulo, acompanhado pela Virgem Maria, S. José e uma vaca e um burrinho.  Por vezes acrescentam-se outras figuras como pastores, ovelhas, anjos, os Reis Magos, entre outros. Os presépios são expostos não só em Igrejas mas também em casas particulares e até mesmo em muitos locais públicos.

      Os primeiros presépios surgiram em Itália, no século XVI, o seu surgimento foi motivado por dois tipos de representações da Natividade (do nascimento de Cristo): a plástica e a teatral. A primeira, a representação plástica,  situa-se no final do século IV, esta surgiu com Santa Helena, mãe do Imperador Constantino; da segunda, a teatral, os registros mais antigos que se tem conhecimento são século XIII, com Francisco de Assis, este último, na mesma representação, também contribui para a representação plástica, já que fez uma mistura de personagens reais e de imagens. Embora seja indubitável a importância destas representações da Natividade para o aparecimento dos presépios, elas não constituem verdadeiros presépios.

           O nascimento de Jesus começou a ser celebrado desde o século III, data das primeiras peregrinações a Belém, para se visitar o local onde Jesus nasceu. Desde o século IV, começaram a surgir representações do nascimento de Jesus em pinturas, relevos ou frescos. Passados nove séculos, no século XIII, mais precisamente no ano de 1223, S. Francisco de Assis decidiu celebrar a missa da véspera de Natal com os cidadãos de Assis de forma diferente. Assim, esta missa, em vez de ser celebrada no interior de uma igreja, foi celebrada numa gruta, que se situava na floresta de Greccio (ou Grécio), que se situava perto da cidade. S. Francisco transportou para essa gruta um boi e um burro reais e feno, para além disto também colocou na gruta as imagens do Menino Jesus, da Virgem Maria e de S. José. Com isto, o Santo pretendeu tornar mais acessível e clara, para s cidadãos de Assis, a celebração do Natal, só assim as pessoas puderam visualizar o que verdadeiramente se passou em Belém durante o nascimento de Jesus.

       Este acontecimento faz com que muitas vezes S. Francisco seja visto como o criador dos presépios, contudo, a verdade é que os presépios tal como os conhecemos hoje só surgiram mais tarde, três séculos depois. Embora não considerado o criador dos presépios (depende do ponto de vista), é indiscutível que se a sua contribuição foi importantíssimo para o crescimento do gosto pelas recriações da Natividade e, consequentemente, para o aparecimento dos presépios.No século XV, surgem algumas representações do nascimento de Cristo, contudo, estas representações não eram modificáveis e estáticas, ao contrário dos presépios, onde as peças são independentes entre si e, desta forma, modificáveis

          É, nos finais do século XV, graças a um desejo crescente de fazer reconstruções plásticas  da Natividade, que as figuras de Natal se libertam das paredes das igrejas, surgindo em pequenas figuras. Estas figuras, devido à sua plasticidade, podem ser observadas de todos os ângulos; outra característica destas é a de serem soltas, o que permite criar cenas diferentes com os mesmas figuras. Surgem, assim, os presépios.

        A característica mais importante de um presépio e a que mais facilmente permite distingui-lo das restantes representações da Natividade, é a sua mobilidade, o presépio é modificável, neste com as mesmas peças pode recriar-se os diferentes episódios que marcam a época natalícia.

        A criação do cenário que hoje é conhecido como presépio, provavelmente, deu-se já no século XVI. Segundo o inventário do Castelo de Piccolomini em Celano, o primeiro presépio criado num lar particular surgiu em 1567, na casa da Duquesa de Amalfi, Constanza Piccolomini.No século XVIII, a recriação da cena do nascimento de Jesus estava completamente inserida nas tradições de Nápoles e da Península Ibérica e dos países latinos de tradição cristã.  Dentre os presépios mais conhecidos, é de salientar os presépios napolitanos, que surgiram no século XVIII. Nestes podiam observar-se várias cenas do quotidiano, mas o mais importante era a qualidade extraordinária das suas figuras, só a título de exemplo, os Reis Magos eram vestidos com sedas ricamente bordadas e usavam jóias muito trabalhadas.

         Todo este rápido percurso histórico sobre a tradição do presépio nos faz ver quão central é sua importância na Festa de Natal.  E como as figuras arrumadas em volta da manjedoura se dirigem diretamente a nossas emoções.  Quando contemplamos o presépio com o Menino, sua mãe e José sentimo-nos invadidos de ternura.  É toda a inocência e a pureza da infância que nos umedecem os olhos e nos enternecem.  No entanto, há muitas dimensões sérias e profundas desse menino que nos escapam, obscurecidas pelo frenesi louco em que se transformou a festa de Natal.

        Esta criança chamada Jesus teve uma infância nada tranqüila : filho de mãe solteira, adotado pelo bom S. José, foi filho de família pobre.  Já sofreu humilhações antes de nascer, quando seus pais levaram com a porta na cara ao pedir alojamento para que Maria pudesse dar à luz.  Foi parar com a família em um curral,  aquecido pelo calor de animais, calor esse  que os humanos lhes negaram 

         Recém nascido, foi ameaçado de morte pelo rei Herodes, tendo que fugir com Maria e José para o Egito, qual  imigrante clandestino sem papéis nem  autorização das autoridades competentes.  Por lá andou uns tempos, iludindo a vigilância das autoridades, até que conseguiu regressar à sua terra para  ir crescendo em graça e sabedoria , preparando-se assim para a sua Missão Messiânica.

Este é portanto o Natal, em seu mais verdadeiro e profundo sentido.  Evoca-nos este acontecimento histórico, de um Deus feito carne, feito história,  na forma de uma Criança. De acordo com sua história de vida, Jesus  bem poderia ser  considerado como o protetor dos meninos de rua e dos menores em situação de risco.  O conflito fez sombra sobre sua vida de maneira permanente e a plenitude de sua humanidade foi se desdobrando diante dos sentidos humanos ao mesmo tempo em que crescia sobre sua cabeça a sombra da cruz sobre a qual seria supliciado.

 É pena que a evocação desta data natalícia e os símbolos genuínos deste evento do Natal de Jesus se tenham “desidentificado” de tal forma que o comércio e as decorações natalícias tenham quase “eliminado” o Menino substituindo-o por um Papai Noel carregado de presentes, ídolo do consumo e cruel adulteração das cenas históricas herdadas pela tradição cristã! Naquele tempo como hoje, as crianças na sua fragilidade e inocência despertam ternura e emoção.  Mas também  incomodam muita gente.



Por tudo isso e mais ainda desejamos a nossas internautas um Natal cheio da presença conflitiva e salvadora do Menino Jesus ! Feliz Natal!



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