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Subsídios de estudo

Filosofia e religião – 1

Prof. Selvino J. Assmann

Religião e religiosidade
Norberto Bobbio

(BOBBIO, Norberto. Religione e religiosità. Micromega. Almanacco di Filosofia. Roma, L’Espresso, n. 2, 2000. Trad. port. Selvino José Assmann


Em conversa com o diretor de Micromega, um balanço filosófico e pessoal, um testemunho situado entre reflexão teórica e fragmentos autobiográficos, sobre os grandes temas da existência e da fé: a alma e a morte, Deus e o sofrimento, o Evangelho e a Igreja.
Não sou um homem de fé; sou um homem de razão e desconfio de todas as fés, mas distingo a religião da religiosidade. Religiosidade significa para mim, simplesmente, ter o sentido dos próprios limites, saber que a razão do homem é uma pequena réstia de luz que ilumina um espaço ínfimo com respeito à grandiosidade, à imensidade do universo. A única coisa de que estou certo, continuando sempre nos limites da minha razão – pois nunca cansarei de repetir: não sou homem de fé, ter a fé é algo que pertence a um mundo que não é o meu – é, isso sim, que eu vivo o sentido do mistério, que evidentemente é comum tanto ao homem de razão quanto ao homem de fé. A diferença consiste em que o homem de fé preenche tal mistério com revelações e verdades que vêm do alto, e de que não consigo convencer-me. No entanto, continua fundamental este profundo sentido do mistério, que nos envolve, e que é o que eu denomino sentido de religiosidade.

A minha é uma religiosidade da dúvida, ao invés das respostas certas. Aceito apenas o que fica nos limites da estrita razão, e se trata de limites sem dúvida estreitas: a minha razão pára depois de alguns passos, ao passo que, ao se procurar percorrer a estrada que penetra no mistério, a estrada não tem fim. Quanto mais nós sabemos, mais sabemos que não sabemos. Qualquer cientista lhe dirá que quanto mais sabe, mais descobre que não sabe. Acreditavam que sabiam mais que os antigos, que não sabiam nada em comparação com o que nós sabemos.Ampliamos muito o espaço do nosso conhecimento, mas quanto mais o ampliamos, mais nos damos conta de que tal espaço é enorme. O que é o cosmo? O que sabemos do cosmo? Como e por que se dá a passagem do nada ao ser?

Trata-se de uma pergunta tradicional, mas não tenho a resposta: por que o ser e não o nada? Nunca me esquivei de reconhecer que não tenho resposta, e não sei quem sabe oferecer resposta a tal pergunta que não seja pela fé. Segundo Severino, o ser é infinito, o ser é. Mesmo assim, não somos capazes de saber o que havia antes. É impossível. Frente às perguntas a que é impossível responder – pois disso estou certo: não posso dar uma resposta, mesmo que pertença a uma humanidade que fez progressos enormes –sinto-me um pequeno grão de areia nesse universo. E negar que a pergunta tenha sentido, como poderia fazer uma certa filosofia analítica, me parece um jogo de palavras.

Provavelmente depende da minha incapacidade de ir além. Quando, porém, sinto que cheguei ao final da vida sem ter encontrado uma resposta às perguntas últimas, minha inteligência está humilhada. Humilhada. E aceito esta humilhação. Aceito-a. E não procuro fugir dessa humilhação com a fé, através de caminhos que não consigo percorrer. Continuo homem da minha razão limitada – e humilhada. Sei que não sei. A isso chamo “a minha religiosidade”. Não sei se é justo, mas no fundo coincide com o que pensam as pessoas religiosas frente ao mistério. Claro que certamente não se consegue resistir a esse duvidar contínuo, a esse contínuo não saber, e então a gente passa a confiar nas crenças, como aquela na imortalidade da alma. Eu, porém, continuo entendendo o fundo religioso da minha pessoa como este não saber. E se trata de um fundo religioso que me persegue, me agita, me atormenta.

Certo dia declarei ao Cardeal Martini: para mim a diferença não está entre o crente e o não-crente (o que, aliás, quer dizer, crer? Em quê?), mas entre quem leva a sério tais problemas e quem não os leva a sério: há o crente que se contenta com respostas fáceis (e também há o não-crente, diga-se, que se contenta com respostas fáceis!). Alguém pode dizer: “sou ateu”, mas eu não tenho certeza do que isso significa. Penso que a verdadeira diferença esteja entre quem, para dar sentido à própria vida, põe para si com seriedade e empenho tais perguntas, e procura a resposta, mesmo que não a encontre, e quem não dá importância alguma a isso, bastando que repita o que lhe foi dito desde a infância.

A resposta das fés é consolatória. Mas as religiões não têm apenas função consolatória. Têm também a função de “revelar” verdades sobre problemas a que o saber comum não chega: a criação, a imortalidade da alma. Respostas consolatórias, e não só isso: respostas a perguntas que cada um se coloca à beira da morte. Eu já dei a minha resposta, com as poucas “convicções” que tenho. Pois minhas convicções são as de um homem que passa constantemente da dúvida à verdade e de novo à dúvida.

Eu não creio. Tendo chegado a uma idade em que se sente que a vida está próxima, se devo escutar a mim mesmo, e dar uma resposta pessoal, o único desejo que tenho, a única necessidade, não é certamente o da imortalidade, mas o de morrer em santa paz: o repouso eterno é aquilo em que espero. Não quero despertar-me. Mas também isso, no fundo, coincide profundamente com a religião: “requiem aeternam dona eis, Domine!”, está escrito na entrada de qualquer cemitério.

Também eu cresci, como quase todos neste país, em família católica e recebi formação católica. Orações, orações, orações... Repeti-as tanto (seja em latim, como se costumava fazer, seja em italiano) que quase as esqueci. Fiz minha primeira comunhão, e tive também um casamento religioso. (contudo, também minha mulher não é crente!). Frente à pergunta sobre quando e porque perdi a fé não é fácil responder. Talvez por volta dos vinte anos. Certamente, também o estudo da filosofia. Todas essas perguntas sobre os problemas da metafísica – digamos – e o fato de dar-se conta de que as respostas da fé implicavam crenças difíceis de aceitar. A crença nos milagres, por exemplo, para um racionalista é a coisa mais absurda. Além disso, o ter que crer naquilo que a todo ser de razão aparece como mito, a começar pelo pecado original.

Sobre o pecado original, compartilho aquilo que, em vários artigos, escreveu um amigo meu católico, o professor Luigi Lombardo Vallauri (que também por isso foi expulso da Universidade católica onde lecionava), o qual faz perguntas muito simples, com os pés no chão, se quiser, mas para as quais não há resposta: uma culpa originária coletiva não é aceitável, a culpa é pessoal, não pode ser transmitida de uma geração a outra; nada há de mais primitivo. A culpa coletiva é até mesmo tribal. Crer no Antigo Testamento é difícil. Crê no Deus de Abraão que nos revela exigindo um sacrifício tão cruel. E paro por aqui. Mas continua existindo o mistério do universo.

Além disso, na minha formação talvez tenham prevalecido fatores mais banais. Com e depois da adolescência, entra-se no mundo, com todos os desejos que assaltam um rapaz, tão fortes a ponto de levarem pouco a pouco a abandonar as práticas religiosas. Por muitos anos a gente se confessa e a uma certa altura não se vai mais confessar. A gente entra em conflito com a moral confessional. Quem sabe com a idéia de posteriormente voltar a ela... Entre os problemas metafísicos, pus-me muito cedo o da imortalidade da alma: é possível que sejamos eternos? O que significa isso? A vida e a morte estão indissoluvelmente conectadas, a vida recebe um sentido da morte, e a morte, da vida? A morte, se de fato houvesse outra vida, não seria a morte. Pensemos bem: por que a morte é a morte? Porque é a morte! Importa tomar a sério a morte.

Comecei a levar a sério a morte vendo morrer jovens amigos, sem me iludir com as promessas da religião que ainda estivessem vivas. Algumas vezes, pensando na morte de uma pessoa particularmente querida – meu pai, por exemplo – sei que aquela pessoa que amei agora já não existe. E que haja algo dele noutro lugar – que não sei onde fica – não me importa absolutamente nada. A pessoa que amei era aquele modo especial de sorrir, de fazer-nos brincar, de nos visitar no interior no final de semana quando estávamos de férias, a nossa expectativa no portão de casa para recebê-lo e saudá-lo festivamente: isso eu sei, com certeza, que não existe mais.

Continuei a refletir sobre os grandes temas da existência e nenhuma resposta da religião alguma vez me convenceu. Ao mesmo tempo, porém, nem eu consegui dar respostas. Portanto, repito que tenho um sentido religioso da vida precisamente por ter esta consciência de um mistério que é impenetrável. Impenetrável!

Acredito muito mais na razão cientifica do que na razão filosófica. Rejeito na Encíclica Fides et Ratio exatamente isso, o fato de polemizar com as filosofias atuais para retornar à filosofia de Santo Tomás, enquanto o que abala o mundo, e aquilo de que o papa deveria dar-se conta, o que muda o mundo, é precisamente o progresso científico. Nesse sentido, estou de acordo com Umberto Galimberti: é o progresso técnico-científico que abalou e abala as crenças tradicionais. Iniciou-se com o número de anos da idade do cosmo... E depois o que nos dizem cosmologia e biologia, centenas e centenas de milhões de anos de evolução, a era dos dinossauros, infinitamente longa, e a sua extinção, e centenas de milhares de anos para a evolução do homem: trata-se de coisas abaladoras, a que a fé não dá resposta alguma. O progresso humano é realmente imprevisível, pois está submetido a muitas variáveis. Mas é certo que as transformações que acontecem no mundo são tais que modificam algumas crenças tradicionais.

Volto à imortalidade da alma: entendo tal crença quando o fato de morrer jovem era muito difundido; entendo uma mãe que vê o filho morrer com três, quatro, vinte anos: a imortalidade da alma é um grande consolo. Mas agora, quando já se vive até oitenta, noventa anos, a idéia da imortalidade da alma em parte acaba destruída. Quero dizer que provavelmente também essa simples transformação da duração média da vida modifica uma das crenças tradicionais mais comuns.

Ou então, tomemos o problema da super-população: ela põe terrivelmente em crise a idéia fundamental religiosa de que vê na geração – crescei e multiplicai-vos! – uma máxima essencialmente boa. Por isso, abaixo com quem põe um limite à procriação! Mas naqueles tempos pelo menos a metade das crianças morria imediatamente após o nascimento. O fato de hoje já não se morrer praticamente alterou profundamente o problema do “crescei e multiplicai-vos”, pois o próprio bom Deus cuidava um tempo com a limitação dos nascimentos através das doenças infantis e das mortes por parto. Também neste sentido, portanto, o progresso científico nos impõe uma transformação profunda de crenças e preceitos fundamentais.

Certamente a ciência realizou algum progresso. A fé não responde às perguntas; pode apenas evitá-las. Esta é sua vantagem e sua fraqueza, pelo menos frente às pessoas que consideram que a única luz legítima – por menor que seja – com que podemos dizer sim ou não, verdadeiro ou falso, é a razão. E a experiência. A razão e a experiência são as duas luzes do homem assim como ele é. A religião é uma criação humana. Arrigo Levi mandou-me um livro no qual procura os pontos de convergência entre duas fés contrapostas, a fé religiosa e a fé laica. Claro que há pontos de convergência. Contudo, a fé laica, no final das contas, aquela que pensa que somos nós que criamos o Criador, que o Criador é uma criatura do homem.

Pensando na religião dos antigos, nos deuses de Homero, os que nós mais estudamos (sempre me perguntei por que motivo estudamos em nossas escolas mais os deuses de Homero do que o Deus da Bíblia), acredito que não haja dúvida a respeito do fato de serem criaturas do homem. De resto, os antigos mesmos davam-se perfeitamente conta disso. Dizer o mesmo a respeito do cristianismo, com a mesma facilidade, certamente é mais árduo. O que há, porém, de mais antropomórfico que um Deus pai? Pai nosso, que estais nos céus...Eu tenho uma visão antropocêntrica do mundo, não teocêntrica. Deus pai... nada há de mais humano do que dizer “Pai nosso”, “meu Pai”. atribuir-lhe este nome benéfico e benevolente. Portanto, também a segurança que os cristãos têm, de que o seu Deus é radicalmente diferente dos outros, suscita dúvidas.

Uma coisa é aceitar os preceitos e a pregação de Cristo, as bem-aventuranças, o sermão da montanha, outra coisa é aceitar o seu nascimento não através de uma relação normal entre homem e mulher, e sim por intervenção do Espírito Santo. Esta primeira dúvida pode pôr em questão todo o resto. Por sua vez, quanto aos preceitos morais, não significa que os aceito todos. Por exemplo, quando Jesus diz “deixa que os mortos sepultem os seus mortos”, não me convence tal indiferença, ou quase “desprezo”, por uma prática que, pelo contrário, é tão humana, tão piedosa.

Sei que parece blasfemo tudo o que estou dizendo. Mas não consigo esquecer que, ao lado do Cristo do sermão da montanha, também existe o Cristo Pantocrator, Triunfante

No entanto, o problema mais difícil, mais espinhoso para ser superado através da fé continua sendo o do mal. Pensemos um pouco: há o mal que podemos considerar como dependente do homem, da maldade humana, e pelo qual podem ser buscadas todas as explicações possíveis – sem precisar recorrer ao pecado original, pois na minha opinião se trata de uma explicação que, por sua vez, precisa ser explicada. Além disso, há o mal que depende, para se usar uma expressão de Ceronetti, da terra inóspita na qual vivemos. Enchentes terrificantes que acabam com milhares e milhares de vidas... terremotos... Foi precisamente por causa de um terremoto, o de Lisboa, que Voltaire reformulou a pergunta sobre o porquê do mal (dado que Deus deveria ser tanto onipotente quanto infinitamente bom: o problema da teodicéia), frente ao qual os teólogos não sabem o que responder. Muitas vezes digo que o papa pode dizer não à guerra – e Wojtila o fez – mãos não pode dizer não ao terremoto. Que sentido teria se o papa em discurso dissesse: “nunca mais terremotos!”? Pareceria um bruxo.

Frente ao problema do sofrimento é fácil demais responder que o sofrimento depende do pecado. Não, a grande parte dos sofrimentos não depende de nós. O câncer, o que tem a ver com a culpa? O religioso tende a encontrar a explicação na culpa. E no final, é obrigado a considerar o mal como uma “carência de ser”. Quando colocamos o problema do mal não falamos genericamente do mal que deriva de um ato de crueldade. Falamos também do sofrimento. Que afirma que também o sofrimento é um bem pode afirmá-lo unicamente se acreditar que ao além se chega através do sofrimento (mas do próprio, e não daquele dos outros!), através do modo no qual se supera a prova do sofrimento, dizendo sim ao sofrimento. Talvez esta minha consideração dependa do fato de que sou vil frente ao sofrimento, mas não consigo imaginar uma explicação finalística do sofrimento.

O porquê finalístico não existe. Então tudo acontece por acaso? Mas não poderemos dizer igualmente “por necessidade”? De fato, temos duas explicações possíveis para qualquer acontecimento, o acaso e a necessidade. Mesmo que me aconteça freqüentemente afirmar que o acaso prova muito pouco e a necessidade prova demais. Um querido amigo meu atravessa a estrada e é investido e morre sem dizer uma só palavra. Porventura podes dar uma resposta ao porquê desta morte? E uma resposta religiosa pode parecer satisfatória? Não, e não tens outra resposta senão o acaso e a necessidade.

Pareyson, no seu livro Ontologia della libertà (Ontologia da liberdade), fala continuamente do sofrimento, mas nunca fala do sofrimento gratuito. Parece que para ele o sofrimento sempre é devido a alguma forma de contrapasso. Contudo, depois precisa chegar à solução terrível, que nos deixa sem respiração: o mal existe em Deus. Trata-se de um livro que despenca para o abismo da liberdade, a liberdade de Deus, mas tal liberdade de Deus também deve implicar o mal. Por outro lado, disse-se tudo de Deus: que é misericordioso e que é vingativo, venerando e terrível. O oposto. Vingativo é precisamente aquele que não perdoa.

Um parêntese sobre o perdão. O papa continua pedindo perdão. Mas o perdão não cancela nada. O mal que foi feito permanece, indelével. Lembro que quando éramos pequenos e íamos confessar-nos, a explicação era a seguinte: todo pecado que cometes mancha a tua alma; se vais confessar-te, lavas estas manchas, e a tua alma volta a ficar limpa. A idéia religiosa é que o arrependimento lava. Mas há uma diferença essencial entre perdoar, que é um ato subjetivo, e pedir perdão. Pedir perdão significa pedir que o outro aceite teu pedido de perdão. E se não o aceitar? Acredito que não há judeu algum que aceita este pedido da Igreja de ser perdoada por um anti-judaísmo que criou tão grandes males. Não basta pedir perdão por tudo que foi dito contra os judeus durante dois milênios, em baixo e em cima, pois o anti-judaísmo foi um sentimento popular difundido. Popularíssimo. E que se fundamentava nesta afirmação pronunciada pela Igreja como se fosse indiscutível: os judeus foram aqueles que mataram Nosso Senhor.

Não há resposta para o problema do mal e da má distribuição da justiça. Stalin morreu no próprio leito; Pinochet morrerá no próprio leito, enquanto Anne Frank morrerá num campo de extermínio. Os tiranos morrem na própria cama, e uma menina inocente, num campo de concentração: não há justificação alguma, é simplesmente terrível. E não se pode responder dizendo que o juízo de Deus é imperscrutável. Não é uma resposta, é um ato de fé. Respondi a um amigo meu: “Parece-me difícil entender como o Inexplicável possa ser princípio de explicação, o Inapreensível, um ponto fixo para dar a resposta, o Incognoscível possa ser fonte do nosso conhecimento, o Insondável possa ser uma sonda que nos permite chegar ao fundo das coisas”. Sobre o Inefável nada se pode dizer.

Paro por aqui. Não quero ir adiante. Não por reticência. Mas porque estabeleci para mim uma regra em que continuo acreditando: não se deve causar escândalo.



Florianópolis, abril 2008. Selvino José Assmann







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