Ubu rei texto de Alfred Jarry (1873-1907)



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UBU REI

texto de Alfred Jarry (1873-1907)



  1. O início oficial do teatro de vanguarda deu-se em 10 de dezembro de 1896, com a estréia de Ubu Rei, de Alfred Jarry, no “Teatro de l’Oeuvre” (Teatro da Obra) em Paris. Estréia equivalente à batalha do Hernani, peça de Vitor Hugo, em 1830, pela Comédie Française, que contestava os princípios clássicos do teatro francês, instaurando o romantismo.




  1. Apesar de Ubu Rei ter estreado no “Teatro de l’Oeuvre”, que era o teatro dos simbolistas, a peça não tem nada de simbolismo. Jarry mostra uma concepção de teatro bem mais radical que os simbolistas. Os simbolistas libertaram a cena do compromisso com o realismo mas, é Jarry quem funda a estética da cena moderna.




  1. O título, lembrando vagamente “Édipo Rei”, parecia anunciar uma tragédia clássica. Realmente, ao levantar-se o pano, os espectadores viram as colunas de um templo grego, embora com a palavra École (escola) na arquitrave, e um coro de figurantes mascarados. Acostumados ao estilo declamatório do teatro francês, esperavam ver o ator principal avançar para a ribalta, pronunciando versos de Racine (um dos maiores autores clássicos francês). Mas em vez disso, o ator Firmin Gémier, que interpretava o personagem título, avançou até a ribalta, dirigindo-se à platéia, e pronunciou a palavra que nunca até então se tinha ouvido num palco: merdre!. Além do palavrão, um ‘r’ sonoro, mais um sinal de protesto contra a grafia rotineira. Foi um escândalo!




  1. Alfred Jarry nasceu em 1873 e viveu sempre pobre. Recusou todas as oportunidades, por incapacidade inata de fazer concessões aos hábitos da vida burguesa e às convenções da vida literária parisiense. Pode-se dizer que Jarry se suicidou, bebendo sistematicamente, até a idade de 34 anos, quando morreu (1907) na mesma solidão em que sempre vivera. É indiscutível a importância profunda que exerceu sobre toda a vanguarda francesa. Desde então, o antiliterato Jarry tem, paradoxalmente, garantido seu lugar na história da literatura moderna.




  1. “Da inutilidade do teatro no teatro” é o título de um artigo escrito por Jarry e publicado no “Le Mercure de France” em setembro de 1896 (três meses antes da estréia de Ubu). Este título é uma provocação ao artigo chamado “Da inutilidade absoluta da cena exata” (exata = realista), escrito pelo simbolista Pierre Quillard.




  1. Jarry compôs o texto da peça aos 15 anos de idade, como uma brincadeira escolar, destinada a ridicularizar um professor de matemática, Heber, que os garotos costumavam chamar de Père Hébé. O professor/personagem é burlesco, cruel, covarde, estúpido, infernal. Tiraniza os alunos, assim como é tirânico qualquer pequeno burguês, quando dispõe de poder sobre outros. É um símbolo social e uma profecia política. Ubu é o arquétipo dos ditadores cruéis e estúpidos do século XX. Ubu torna-se rei graças à sua tremenda estupidez, à bestialidade sem limites, desligada de qualquer vislumbre de consciência.




  1. Mas quem é esse Pai Ubu, capitão dos dragões, oficial de confiança do Rei Venceslau, condecorado com a Ordem da Águia Vermelha da Polônia e antigo rei de Aragão? Pai Ubu, instigado pela mulher, Mãe Ubu, assassina o rei da Polônia e assume o poder. Usurpado o trono, consente em que o povo deixe de pagar impostos. Sentindo-se já seguro, permite-se não cumprir a promessa feita ao amigo fiel, Capitão Bordadura, dizendo: “Agora que não preciso mais dele, ele pode bem ficar coçando a barriga, que não terá seu ducado”. E passa apenas a usufruir as vantagens do poder, liquidando a oposição. Mas apesar de todas essas características, Ubu é contagiante de simpatia, comunicativo , extremamente “popular”.




  1. A genialidade de Jarry faz com que consiga resumir em Ubu Rei toda a literatura anterior, lançando-o em direção do futuro. Encontram-se na peça, conciliadas, a epopéia e a paródia, a farsa e a tragédia, o sério e o grotesco, numa espantosa antevisão de todos os caminhos do teatro moderno.




  1. O palco moderno deve essencialmente ao espetáculo simbolista a redescoberta da teatralidade. A tendência ilusionista, que prevalecia desde o século XVIII, preocupava-se em antes de mais nada camuflar os instrumentos de produção da teatralidade, para tornar sua magia mais eficaz. Com a montagem de Ubu Rei dirigida por Lugné-Poe (1896) a encenação engaja-se numa direção diametralmente oposta.




  1. Para os simbolistas o signo teatral deveria sugerir, fazer sonhar, suscitar uma participação imaginária do espectador. Mesmo abrindo mão da precisão mimética do espetáculo naturalista, esse signo não deixava de conservar um significado. Exemplo: cenários e figurinos que evoquem a Idade Média. Jarry irá muito mais longe na ruptura com a tradição figurativa ao propor a volta da tabuleta indicadora do teatro elizabetano, o que significa levar até as últimas conseqüências a teoria sugestionista da corrente simbolista: a palavra escrita, embora não-figurativa, tem o mesmo poder de evocação que qualquer tela pintada. Dizer: “um campo coberto de neve” ou mostrar um cartaz com estas mesmas palavras escritas, corresponde a oferecer ao espectador o mesmo impulso do imaginário que ele receberia vendo, por meio de uma tela, da pintura e da iluminação, um panorama cheio de neve. Mas corresponde a algo mais quando mostra o próprio instrumento (o cartaz) gerador de seu devaneio. Ou seja, lembrar ao espectador que mesmo se na sua imaginação ele se transporta para “um campo coberto de neve”, ele não deixa de assistir a uma representação teatral e de participar dela.




  1. O cenário de Ubu Rei foi um precursor do surrealismo: cenário que “pretende representar o Lugar Algum, com árvores ao pé das camas, com neve branca no céu azul. Apresentando lareiras dotadas de pêndulos a fim de servir de portas, e palmeiras no pé das camas, para serem comidas por pequenos elefantes trepados nas estantes”. Esse cenário resulta de um desejo de provocação, de negação e de destruição do teatro. Teatro destruído pelo próprio teatro. E quando não existe mais nada no palco que tenha vestígio da figuração, da verossimilhança, da coerência, ainda assim existe algo para ser visto: a teatralidade.




  1. Jarry inaugura desse modo uma tradição fundamental na história da encenação moderna. Desde então, o teatro ousa mostrar-se nu. O que lhe garantirá uma grande flexibilidade e liberdade de movimentos. O espaço cênico vai tornar-se uma área de atuação, onde o ator é um puro instrumento da representação, renunciando à sua personalidade de ator ou à identidade do seu personagem.

Para substituir a porta da prisão, um ator ficava parado no palco, com o braço esquerdo estendido. Eu colocava a chave na sua mão, como se fosse uma fechadura. Fazia o barulho na lingüeta, crique, craque, e girava o braço como se estivesse abrindo a porta. (Firmin Gémier, intérprete de Ubu)




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