Tudo é sertão, se o violeiro toca: a modernização do campo na moderna canção caipira (1929 – 1982). Marcela Telles Elian de Lima



Baixar 7,79 Kb.
Encontro10.07.2018
Tamanho7,79 Kb.

Tudo é sertão, se o violeiro toca: a modernização do campo na moderna canção caipira (1929 – 1982).
Marcela Telles Elian de Lima
O estudo propõe a análise do moderno cancioneiro caipira sistematizado, em 1929, pelo escritor e compositor Cornélio Pires que adaptou ao formato fonográfico os ritmos rurais do interior dos estados de São Paulo, Mato Grosso e Minas Gerais. Acompanhará a consolidação desse cancioneiro no cenário musical nacional, durante as décadas de 1940 e 1950, que se deu, em grande parte, por sua difusão nos programas de rádio, assim como, na década seguinte, sua gradual proscrição com o início da Bossa Nova, em 1958, e da Jovem Guarda, em 1965. Por fim, ao longo dos anos 1970, seguirá os novos rumos inaugurados por alguns artistas que iniciaram um movimento de retorno as suas características sonoras e temáticas iniciais, como Renato Teixeira e Rolando Boldrin. Nesse período, Léo Canhoto e Robertinho, por sua vez, aproximam a linguagem musical caipira à “canção cafona”, em voga durante essa mesma década. Essas adaptações acabaram por culminar, em 1982, no sucesso da guarânia Fio de Cabelo, na interpretação de Chitãozinho e Xororó.

Buscara perceber nas canções, a visão de mundo que orientou os projetos, desejos e utopias desses atores, numa realidade histórica específica a partir de seus próprios códigos culturais1. Ou seja, no caso da moderna canção caipira, considerar como a particular leitura do passado e das transformações da cultura caipira, realizadas pelos tributários dessa linhagem, irão dotar de significado político um vocabulário centrado em torno de termos chaves como sertão e cidade. Por meio de uma forma peculiar de narrativa – a canção – esses termos, e os ritmos próprios dessa cultura, serão evocados sempre que, ao compositor popular, for necessário narrar a experiência de exclusão de grande parte da população rural exposta ao processo de modernização do campo.

O estudo tem por objetivo geral investigar a moderna canção caipira considerando-a como depositária de uma memória aonde é produzida uma reflexão, histórica e política, peculiar sobre os processos de modernização agrária do país, com ênfase nas situações de perda do lugar de origem e de configuração de uma paisagem imaginária, por vezes utópica: o sertão. Termo mobilizado sempre que ao compositor for preciso narrar esse processo a partir das margens, do que lhe escapou. São objetivos específicos:

Identificar como o moderno compositor caipira mobilizou o termo sertão para tratar da perda de seu lugar origem em meio aos processos de modernização levados à frente, principalmente, em três momentos históricos: a era Vargas, o governo JK e o período de ditadura militar.

Perceber como os compositores e intérpretes caipiras, através de suas canções, projetaram uma comunidade política na qual o homem do campo fosse reconhecido, assim como o citadino, como sujeito ativo e pleno de direitos e deveres.

Identificar o modo como os artistas ligados à moderna canção caipira valeram-se de uma paisagem inventada para, de um lado, recompor esse lugar de origem, de outro, indicar os valores e princípios capazes de orientar a construção de um mundo comum, no qual o homem do campo pudesse ser inserido sem perda de identidade.



Analisar como os compositores e intérpretes dessa linhagem, ao adaptarem os ritmos rurais próprios ao universo caipira a um formato moderno, foram capazes de transmitir as experiências dos tempos passados às novas gerações, configurando esse cancioneiro como um lugar privilegiado de memória.


1 Sobre a importância da cultura política na história ver: GOMES, Ângela C. História, historiografia e cultura política. In: SOIHET, R; BICALHO, Mª Fernanda; GOUVÊA, Mª de Fátima S. (org) Culturas políticas: ensaios de história cultural, história política e ensino de história, 2005; DUTRA, Eliana F. História e culturas políticas: definições, usos, genealogias. Varia História, nº 28, 2001; entre outros.




©livred.info 2017
enviar mensagem

    Página principal