Tucídides, ktema es aei: a História entre Ciência e Arte



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"How can he comprehend the parties of other days, who has no clear notion of those of his own ? What sense can he have of the progress of the great contest of human affairs in its earlier stages, when it rages around him at this actual moment unnoticed, or felt to be no more than a mere indistinct hubbub of sounds and confusion of weapons ? — what cause is at issue in the combat he knows not. Whereas on the other hand, he who feels his own times keenly, to whom they are a positive reality, with a good and evil distinctly perceived in them, such a man will write a lively and impressive account of past times, even though his knowledge be insufficient, and his prejudices strong.94

Ao ensejo do elogio então dirigido a Mitford justo em razão de seu partidarismo ativo, Arnold conclui a ponderação porque recomenda por qual modo sompor a História Antiga: exercício de axiologia crítica que faça dialogar o reflexo da história passada no presente! Por diretriz básica a conduzir esse diálogo reflexivo: confrontar os relatos dos autores antigos que vivenciaram os acontecimentos contra os ajuizamentos tecidos por historiador moderno que os investigou, de modo que os juizos modernos balizem as apreciações antigas mensurando-lhes a (in)correção de valores e ideais civilizatórios consoante a dinâmica avançada da consciência histórica. Identificando os desvios intrigados por uma tal mensuração, os quais ora incidem em excessos judicantes que tomados por "veemente admiração" engrandecem os Antigos, ora atuam no sentido contrário e os malquistam porque eivados de "menosprezo por cega veneração", corrige-se "o rumo do meio" porque avance o conhecimento histórico acertando a justa medida da valia e dignidade civilizatória antiga pela moderna. Nesse tribunal civilizatório da História porque progride a consciência histórica do presente, se é impróprio e injusto arrazoar objetivamente o ufanismo moderno, pois nossos "verdadeiros rivais" contra quem devemos nos medir não são os "mortos" a quem negamos defesa e sim "os vivos" que conosco duelem, tampouco se recomenda descair por distinção subjetiva de discordância intrigando pretensa sabedoria pessoal superior no confronto com seus próprios contemporâneos, o que apenas (dis)simula vaidade95. O espírito cristão, como já para Niebuhr com quem Arnold mantinha nexos de respeito e com cuja concepção de história se alinhava, sobrepaira a ética do historiador.

Pelo encadeamento de História(s) Antiga(s) atualizada(s) de modernidade perfilam-se diante de nós os valores civilizados da Humanidade, bem discriminado os aportes de "bem" contra "mal com que cada época atuou no "drama universal da História"96. Cientes os homens a cada presente de quais persistem de um e de outro e quais pereceram, podem eles acertar o avanço para o futuro, aprendendo pela História os desígnios divinos que nos orientem. A (cons)ciência do progresso ético por discernimento de bem versus mal que o presente evolutivo da história disponibiliza, inverte a operação axiológica da historia magistra vitae: os valores do passado são ajuizados pelo crivo dos do presente de modo que assim os ideais antigos sejam corretamente concertados pelos modernos a separar quais de suas sementes são "férteis quais estéreis", de modo a cultivar aquelas aprimoradas contra descartar estas.

[calibrar e reconsiderar as análises acima por meio da análises de A. Dwight Culler,, The Victorian Mirror of History]

[prosseguir analisando as obras articuladas pela proposição de Bury acerca das duas linhagens tucidideana e tacitena referidas acima]

3. The Legacy of the Greeks
Em 1921, R.W. Livingstone, então Fellow of Corpus Christi College (Oxford), associou em um livro respeitáveis nomes do mundo acadêmico inglês para compendiarem os legados que “em vários domínios do espírito e do intelecto” os antigos gregos haviam disponibilizado para a humanidade. O momento, dizia ele, era especialmente propício para que se fizesse essa reavaliação, pois jamais antes houvera uma tal comunhão civilizatória. A consciência histórica da identidade européia do século XX, especialmente britânica, contemplando no classicismo helênico sua face de esplendor juvenil, revigoraria sua maturação espiritual.

A análise do pensamento político, a cargo de A.E. Zimmern, destacou três autores: Tucídides e Platão, a quase configurarem um par, mais Aristóteles.

Numa primeira aproximação, mais superficial, de análise comparativa, diz Zimmern, esses dois âmbitos supunham realidades díspares, especialmente pela escala minúscula que o mundo das cidades antigas adquiria face à extensão global que as interações do mundo moderno configurava. Nesses termos, o paralelismo ficava certamente prejudicado: “To a British Premier passing from a coal strike which reacts upon the trade of the entire world to an Imperial Conference engaged in tracing out an agreed line of policy on the Pacific Question, the problems of a Pericles, or even of an Alexander, would seem but child’s play” (322-3)

O mundo moderno, dada sua escala global, colocava realidades inéditas para a história, especialmente respeitantes às problemáticas das “relações exteriores” (foreign relations), que reclamavam dos homens um espírito de comunidade que superasse seus milenares descaimentos de rivalidades e competições particularistas, o que Zimmern justamente acusa, em termos bastante ácidos, nas mazelas com que os “estadistas” dele contemporâneos conduziam as tratativas da Liga das Nações, a já a desacreditarem em 1921:

Foreign policy is one of the weak spots of modern democracy; it is perhaps the element in our political technique which is most in need of thoroughgoing revision. We have yet to induce the modern citizen to pay continuous attention to issues which, although they are seemingly remote from his purview, may at any moment shake the whole fabric of his everyday existence; and, when we have done this, we have to persuade him to approach these world-problems not in the spirit of a competitive aggrandizement but with a view to discovering what is the best line of policy in the interests of the world as a whole. So long as the peoples remain self-absorbed, the governments will continue to conduct their mutual relations os a basis of individual self-interest, and the meetings of the Assembly of the League of Nations will remain what they are at present, not gatherings of statesmen solely bent, each from his own angle and upbringing, on the welfare of humanity, but barterings of politicians who (with rare exceptions) have come to the fair to do the best business they can for their own clients. Now Thucydides and Plato give us no help for the League of Nations” (327).97

Pelo que Zimmern definia enfaticamente o princípio básico de sua leitura dos textos políticos clássicos: discernir o que neles havia de universal, seus ensinamentos “verdadeiramente preciosos e permanentes” acerca da natureza humana, já depurados, pois, dos desvios de suas vicissitudes de referenciação histórica particular. Haveria, recomenda Zimmern, que desatrelar do Tucídides “historiador científico e psicologizante” o Tucídides “patriota ateniense desiludido”. Então, assevera Zimmern, “the citizen of Athens, as we see him depicted for us in the pages of Thucydides, could raise the great permanent issues of politics, and cause them to remain living for us two thousand years later, in debates which were ostensibly concerned with mere provincial trivialities” (334).

A grande virtude com que os antigos os gregos trataram as questões da política, assim corporificada na consecução dos discursos tucidideanos, respeita à racionalidade de suas abordagens. O cidadão grego concebe o discurso político como expressão “direta e sincera” de seus pensamentos, não se deixando levar por “medos ou preconceitos” nem o obscurecendo ou extraviando por “questões laterais ou inibições”. “The Greeks, in their political thinking, were essentially realists, rather than idealists” (336). Bem ao contrário, pois, diz Zimmern, dos modernos: “There is many a lesson in common honesty to be learnt by our politicians and public in the speeches of Thucydides” (336)

Pelos ensinamentos da Guerra dos Peloponésios e Atenienses98, Zimmern então “imagina” que reflexões eles atualizariam se transferidos para os problemas do mundo recém saído da guerra em 1921:

we have only to read his immortal analysis of the war-mood of Greece, and of the nervous and emotional phenomena which accompanied it, to realize that his first effort would have been to explain us to ourselves. He would not allow us to acquiesce idly in our vague disillusionement, our impatience of foreigners, our suspicion of the idealisms of the Wilson brand. He would trace our discontent ruthlessly to its sources and hold up to our eyes the strange compound of sorrow and fatigue, impatience and disappointment, aspiration and helplessness which makes us what we are (338).

O que o “Tucídides moderno” então desvendaria sobre nós, humanidade de 1921, vem exposto em um longo período por Zimmern, a contemplar que revelações então afligiam os europeus:



He would show us the English upper and middle class, shaken out of its comfort and complacency, its easy and patronizing security, by the shock of war and bereavement, facing a future of unknown and terrifying ideas and forces, with the brutal tax-gatherer administering the coup de grâce to its equanimity: the working class, called to fight for a cause which it but dimly understood, in the hope of a new world which victory was to call into being, exhorted by the nation’s leaders to be as daring in its home policies as in the trenches, and then confronted with a world of failing markets and impoverished costumers and with the full rigour of the merciless laws of supply and demand which, just because it had wished them out of existence, it had grown accustomed to believe could be ignored, oscillating, according to age, temperament or experience, between resignation and impotent fury, between old-fashioned trade-unionism and the latest fashion in extremism; France, emerging nerve-racked from a fifty years’ obsession and a five years’ nightmare, half-dead with sorrow and suspense, yet too proud in victory to own her weakness, looking round, half-defiant, half-wistful, among her allies for one who can understand her unspoken need, and longing, with all the intensity of her sensitive nature, to be able to resume, in security and quietness of mind, the arts and activities of normal life in which she has been, and will be again, the Athens of the modern world; Germany, tougher in fibre than her western neighbour yet equally shaken and exhausted: a land of sheep without a shepherd, rushing hither and thither seeking for a direction and a Weltanschauung, her amzing powers of industry and concentration and her rich and turbid life of feeling running to waste for lack of channeled guidance; Belgium, self-confident, industrious and rejuvenated; Italy, made one at last and measuring ker strength to face the tasks of a new epoch in her history; and, behind, the great new surging world of the Slav, from the disciplined enthusiasm of Prague, under her philosopher-president, to the birth-agonies of a new Russia in the grip of the rough tyrant-physicians of the Kremlin. All this a modern Thucydides would attempt to set before us, not forgetting the conservative forces and the gods of the older generation, the great Catholic and Protestant, Moslem and Socialist traditions, the power of the bankers and the merchants, the universities and the press, and all the various types of humanity produced and hall-marked by their activity. And then, and not till then, having shown us what we are, each of us in his niche and all of us together in our little corner in the vast Temple of mankind, having made us see our pettyisms and orthodoxies against a universal background of time and space, he would have broken silence and allowed himself to speak to us of remedies. Know yourself is the first, perhaps the only, message of the scientific historian to our bewildered age(339-40).
Não deixa de ser irônico que Zimmern, assim decididamente recomendando o ideal de lições universalizantes, de fundo socrático, a tirar da história de Tucídides, a leia e indague, entretanto, sob olhar predominantemente britânico, quando muito estritamente europeu, não isento de todas suas gamas de (pre)juízos e (pre)conceitos. O Tucídides moderno que então se vislumbra assim desanuvia suas inquietações pela (in)consciência histórica da Commonwealth das primeiras décadas do século XX.

[apontar nexo de tópica temática correlato a este: A Sibila Tucidideana entre Guerras]

4. Charles Norris Cochrane
Todo o empenho da leitura de Tucídides por Charles Norris Cochrane, por fins da década de 1920, consiste em afirmar a tese da cientificidade de sua história: pela abordagem de “racionalismo empírico” na constituição dos fatos estritamente observáveis, então analisados em suas conexões causais por diretrizes exclusivamente “realistas” (o complexo de condições gerais, econômicas e sociais, que conformam as “physical causes” da história), Tucídides produziu um verdadeiro texto de ciência política. Investigador decididamente científico, não desviou a atenção de sua história pelas vias da filosofia com suas teleologias de preocupações morais idealizantes ou suas universalizações de divagações metafísicas. Assim, pode perceber toda a realidade dos fenômenos políticos em sua determinação natural enquanto nexo de necessidades fundamentais inerentes à constituição humana (sua physis).

Sua obra distingue, pois, dois objetos: uma prognose do poder (enquanto instância de promoção do bem-estar social realizado quer por sua conformação em Estado quer em Império) e uma prognose da patologia da sociedade (as fraquezas, doenças e vícios humanos que arruinam suas conquistas históricas).

O Estado apresenta uma constitução natural na medida em que compõe uma figura de autoridade socialmente consentida que responde pelo equacionamento ordenado de atendimento das necessidades fundamentais impostas pela sobrevivência humana, justamente conciliando a diversidade conflitante de interesses por que elas se manifestam.99 Razão porque a forma mais evoluída de Estado seja a democracia: “in Athens there existed a system in which it was recognized that the condition of power is consent; consent itself, in turn, being conditioned by services rendered, in the first instance to the people temselves – which is democracy, and in the second to the wider Hellenism – which is the empire” (51). De modo que, argumenta a leitura tucidideana de Cochrane, a Atenas idealizada por Péricles no Discurso Fúnebre projeta sua figuração modelar, justamente porque, imbuída do espiristo humanista e naturalista do século V a.C., alcançara vislumbrar “os segredos dos princípios liberais”100: “Thus does the speaker endeavour to establish his claim that Athens stands for something entirely original in the history of Greece and of the world, and indeed worthy to serve as a model for other states. He has in fact enunciated for all time the project of a commonwealth founded on individualistic and liberal principles – the provision of well-being and satisfaction for its members” (54).

Equacionado o problema do Estado, a questão logo consequente respeitava às relações inter-estatais, que o mundo grego solucionou por meados do século V a.C., no entender de Cochrane, quando Atenas firmou primeiro com os persas a denominada Paz de Cálias, e a seguir com Esparta o Tratado de Paz de 445 a.C. Assim Cochrane pondera o sentido histórico de ambos esses episódios:

Its real significance, however, was that it marked the triumph of humanistic principles in public international law. Greeks and Persians had evidently resolved to face their problems boldly, and bring to an end a conflict that had degenerated into a senseless and wasteful expenditure of blood and treasure. Accordingly, both sides compromised there more extravagant claims, and agreed to an arrangement which secured the real interests of each, in direct relation to their power to uphold and develop those interests. Thus the humanism of the fifth century threw overboard the ancient notion that East and West were inevitably involved in eternal conflict: and this superstition, like the saw-called law of imperial expansion, ceased to dominate the minds and determine the actions of men. From the standpoint of Greek inter-state relations, the Peace of 445 B.C. constituted a similar landmark in the evolution of Hellenism, and is the real turning-point in the history of the fifth century. It marks, indeed, the death of the principle of the autonomous, self-sufficing city-sate. The vital need of inter-state co-operation, in one form or another, was now at last appreciated, and Hellenism apparently resolved to pool its resources and risk its fortunes in one of the two great existing systems – the Peloponnesian League or the Athenian Empire” (70).

O que a civilização grega, por sua consciência realista imbuída de espírito humanista, descobrira para a história fora o princípio político que deve regular as relações internacionais. Projeto de encerramento de guerras e demais conflitos cruentos, que, reconhecendo o imperativo da cooperação entre os Estados (ou as Nações), então os evitam por elevadas disposições de “mútuo entendimento e boa vontade” em acertarem compromissos, acordos e harmonizações concluídas por provisões de arbitramento de reclamos e diferenças de interesses. Assim, sentencia Cochrane: “the treaty constituted a landmark in the evolution of Greek civilization, for it appears to have embodied the first general arbitration pact in the history of Europe” (73)

Por fins da década de 1920, imerso nos dilemas do pós-guerra que desembocaram no projeto da Liga das Nações, Cochrane seleciona consoante lição a tirar da história tucidideana: “Thucydides draws no moral from the failure of the treaty to save Hellenism from the horrors of the Peloponnesian war; but, if a moral is to be drawn, it is surely this. The treaty failed to hold because of the infirmity of human wisdon and human will. On all sides, men allowed their sense of common welfare to be blinded by their own partial interests, and obscured by their fears and passions. Instead, therefore, of holding fast to the procedure which humanism had dictated, and compromising such interests as they could not reconcile, they reverted to the ancient and suicidal policy of brute force, which destroys all interests, including those which it seeks to protect, and leaves all parties to share a common fate of poverty and distress” (76).

Essa é a lição, entende Cochrane, que a ciência política dispõe, a preferir-se Tucídides, por modelo democrático ateniense, a Platão, por modelo aristocrático espartano:

With regard to the problem of government, our analysis has revealed two types of thought and two methods of approach – the one physical and scientific, the other metaphysical and philosophic. The latter, the way of Plato, starts with a vision of what man should be, and seeks to mould actuality to conform with the preconceived ideal. The former, the way of Thucydides, takes the world as it finds it, preferring experience to dogma as the guide of life. In politics, therefore, Platonism is almost inevitably ‘sectarian’, while the thought of Thucydides leads naturally to a ‘catholic’ view of the state. For Plato, profoundly distrusting human nature, is prepared to defy its instincts and crush its aspirations, in order to realize his kingdon of the saints, the effective domination of the wisest and best. On the other hand, Thucydides, moved by a deep confidence in the constitution of man and nature, sees in the sate a peaceful means of reconciling and harmonizing interests within a whole, leaving it to the initiative of individuals and groups to find their level within the community. Thus, to the aristocratic virtue of Plato, he opposes the democratic virtue which is the result of individual initiative and choice. While, therefore, to Plato the scheme of education involves a long process of discipline and training, leading, for the few who survive the tests, to a realization of Objective Being, democratic education, starting with no preconceived goal, simply aims to cultivate the talents inherent in the human constitution, and the result is a versatility which enables the democratic man to estimate situations as they arise, and a power of adaptation which enables him to meet them. In the eyes of Plato, law is the omni-competent and all-pervasive force that fits each man into his appropriate niche within the social heirarchy. To Thucydides, however, it is the formulation of the interests of individuals and groups as harmonized within a living whole. In the first case law is rigid, as little subject to alteration as the laws of the Medes and Persians. In the second it is flexible, constantly subject to modification to meet the changing needs of life; in other words, the medium through which the will of the people, or rather the politically effective elements among the people, is from time to time expressed” (104-5).

Pela leitura de Cochrane descortina-se um Tucídides bem moderno, plenamente imbuído da gama de princípios (políticos, intelectuais e educativos) que o figurino do liberalismo de prestígio científico da época então propugnava, ainda outra vez espelhando sua identidade na Atenas democrática que (supostamente) os realizara lá no século V antes de nossa era.

[desenvolver mais detida e significativamente a análise]

prosseguimentos:


Jacqueline de Romilly
Também Jacqueline de Romilly, compondo sua obra por inícios da II Grande Guerra, identifica na história de Tucídides os enquadramentos de um estudo de ciência política na medida em que a narrativa historiográfica vai concomitantemente subsumindo suas leis constitutivas.

Elaborando sua leitura nos horizontes de reflexão dispostos pela Questão Tucidideana, Jacqueline de Romilly intenta resolvê-la centrando seu enfoque no registro de uma eventual evolução histórica do pensamento do historiador que pudesse estar refletida nas concepções do imperialismo ateniense expostas ao longo da obra. Percebe assim duas representações distintas, como que compondo um díptico tucidideano do imperialismo: o primeiro retrato é figurado pelo discurso dos atenienses no debate em Esparta, a que se contrapõe o segundo, este consagrado pelas tramas do Diálogo de Melos.


Pela primeira figuração, o imperialismo ateniense é concebido sob um fundo de ótica realista, todavia não desprovida de idealismo.

O império de Atenas é, por um lado, reconhecido como “tirania”, assim atendendo ao preceito da lei natural de dominação do mais forte: “the argument that an authority which is unjust is nevertheless a normal and justifiable thing in itself: the weaker has always been kept down by the stronger” (254). O que a narrativa historiográfica de Tucídides aqui revela constitui, portanto, uma justificação política do imperialismo: “since everyone acts in his own interest, and since the interest of a people that rules must lead to empire, any other city placed in the same position as Athens would have yielded to the same necessities, and would have been led, as she was, from authority to empire” (252).

A conformação histórica por que, entretanto, Atenas a realiza, também a transcende, pois a regula por nível excepcional de moderação conjugada com ideais virtuosos de justiça: “Athens, in fact, does not give up the idea of acting morally, and, on the contrary, maintains that she differs from other states, since her empire is not merely the product of brute force. (...) represents a balance between justice and reality and it is this balance which Athens pretends to be characteristic of her behaviour. But the most important thing to note is that the whole development is in fact leading to a praise of Athenian moderation: in the passage which now follows, Athens is shown as transcending this idea of human nature which, in the first passage, served as an excuse for all human actions; she does not behave as others would easily do if they were in her place, but still takes justice into account in what she does” (256) De modo que, de fato, o império ateniense é apresentado pelos atenienses antes como o reverso do poder tirânico: “The idea of Athenian moderation is the natural conclusion of the passage which has just been considered and which was concerned with realistic considerartions. These afford a basis for the argument, and are constantly repeated. The reason for this is that the idea of absolute power drawn from the right of the strongest provides the Athenians with a foil to bring out their viewpoint. They show, in effect, that their power is distinguished from that of a tyrant precisely by its moderation, and that it is this very moderation which causes their empire to arouse criticism to which a more absolute one would not give rise” (257)



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