Tucídides, ktema es aei: a História entre Ciência e Arte



Baixar 0,61 Mb.
Página3/13
Encontro03.05.2017
Tamanho0,61 Mb.
1   2   3   4   5   6   7   8   9   ...   13

His family connexion at Athens providedo him, perhaps, with exceptional facilities for obtaining authentic information, while his military training and experience qualified him to be the historian of a war. His second home in Thrace gave him an interest independent of Athens, and helped him to regard the Athenian empire with a certain detachment which would have been less ease for one who was a pure-blooded citizen and had no home outside Attica. His banishment operated in the same direction, and afforded him opportunities for intercourse with the antagonists of his country”.65


Assim favorecida por tal conjugação de condições favoráveis - tempos de aprimorado racionalismo mais qualidades de dotes individuais -, resultou uma história pautada pelos melhores padrões de criteriosidade narrativa. Por análises tão precisas quanto pertinentes, Tucídides firmou para a escrita histórica o imperativo crítico de veracidade factual como ideal absoluto, da mais estrita severidade, que não admite quaisquer concessões levianas:

In his Introduction Thucydides announces a new conception of historical writing. He sets up a new standard of truth or accurate reproduction of facts, and a new ideal of historical research; judeged by which, he finds Herodotus and the Ionian historians wanting. He condemns them expressly for aiming at providing ‘good reading’, as we should say, rather than facts, and for narrating stories, the truth of which cannot possibly be tested. He does not seek himself to furnish entertainment or to win a popular success, but to construct a record which shall be permanently valuable because it is true”.66

A essa metodologia crítica acurada Tucídides conjugou uma narração artística, nos moldes então vigentes entre os historiadores antigos, afins aos do poeta trágico67: “his literary art required that he should present the final conclusions of his research without indicating divergences of evidence”68. O que ele nos oferece como história revela apenas os acontecimentos depurados por sua análise crítica, então narrados em moldes dramaticamente objetivos, de modo que, elidindo a consciência de seus ajuizamentos pessoais, o historiador, como um autor dramático, permaneça oculto, por trás das cenas apresentadas:

“Thucydides has concealed this inevitable subjective element by his dramatic method. The persons who play leading parts in the public affairs which he relates reveal their characters and personalities, so far as is required, by their actions and speeches. The author, like a dramatist, remains in the background (...) His rule is to commit himself to no personal judgements”.69

Assim tão “antigo”, pelos modos “artísticos” de sua narrativa, quão “moderno”, pelos princípios de sua metodologia crítica, Tucídides, pela perspectiva do objeto contemplado, foi, afirma Bury, “o fundador da história política”. Não perde, portanto, os horizontes de sua visão da realidade política em os subordinando à perspectiva de uma apreciação ética redutora que prejudique sua inteligibilidade histórica.70 Sua visão da política, e consoante concepção de história, é, pois, estritamente realista.71 Tucídides, portanto, também assim é moderno, a lembrar Maquiavel72. Afinidade intelectiva entre Tucídides e Maquiavel ainda corroborada por similitudes de concepções históricas em que a figura do indivíduo é valorizada em termos de arte política. Tal concepção que em Tucídides se expressa pela noção de areté, em Maquiavel tem seu equivalente na idéia de virtú: “The only appropriate equivalent by which we can render in a modern language this Thucydidean a)reth/ is a key-word of Machiavelli system, virtú, a quality possessed by men like Franceso Sforza and Cesare Borgia”

Tucídides, então, para Bury, representa o paroxismo de modernidade alcançado pela historiografia antiga. Apreciação superlativa do célebre historiador ateniense por Bury que ele, logo, cuida por desviar de descaimentos de cultos apologéticos. Pois, história tucidideana de modernidade ainda não científica, que o progresso historiográfico reservara apenas para o século XIX:

“If this appreciation of the historian is sympathetic, I hope you will not suppose that I belong to the band of devotees who make a cult of Thucydides and can see no defects in their idol. Such devotees existed in ancient as well as in modern times, and the historian’s ancient indiscriminating admirers received a very proper rebuke from Dionysius of Halicarnassus (...). The work of Thucydides has limitations which we must beware of underrating; but it marks the longest and most decisive step that has ever been taken by a single man towards making history what it is to-day (...). With the Greeks historical study never acquired the scientific character which it was reserved for the nineteenth century to impress upon. But within the limits of the task he attempted Thucydides was a master in the craft of investigating contemporary events, and it may be doubted whether within those limits the nineteenth century would have much to teach him. If he had admitted his readers into the secrets of his wrokshop, if he had more clearly displayed his raw material and shown how he arrived at his conclusion, if he had argued and discussed, he might have exercised a greater influence than he did on the methods of subsequent Greek historians”.73
Introduction to Gibbon's Decline and Fall, 1897

Pelo mesmo nexo de categorias conceituais - história, ciência versus literatura, progresso, razão, método crítico, fato histórico, causalidade - com que Bury ajuizou em 1909 o aporte tucidideano para a evolução da escrita da história, também apreciara, uma década antes, a valia persistente da contribuição de Eduard Gibbon, razão porque editou o Decline and Fall of the Roman Empire entre 1897 e 1900. Justamente porque em Gibbon concorriam os dois parâmetros balizadores da práxis historiográfica, em sua obra conjugando-se a figura do historiador com a do literato, Bury se propunha discriminar o aporte porque na obra respondesse a virtuosidade própria da história, tanto mais recomendável porque compatível com o brilhantismo da arte literária. Tal é a questão porque ajuizou a obra de Gibbon na Introduction de sua edição.

Ensejando as diretrizes de sua reflexão argumentativa, Bury evoca a fama de dois historiadores antigos porque melhor situasse a companhia de modelos célebres que consagravam justo tal concorrência virtuosa de "precisão de fidelidade factual" com "brilhantismo de estilo": Tucídides e Tácito.74 Porém, um outro aspecto da escrita da história é então também destacado por Bury identificando a diferença intrigada por essa configuração de exemplaridade dual. Há audácia em Tácito, pois faz avançar a articulação narrativa pelas luzes de uma idéia de modo a revelar o sentido inteligível de uma história una, tão mais valiosa e recomendável pelo ensinamento universalizante que ela inocula no tempo histórico. Já Tucídides é "reservado", discreto, pois guarda distanciamento impersonalizado na composição de sua história. A proclamação do ktema es aei catalisa a consideração tucidideana de Bury: avoca, por dever imperativo do historiador, tecer o relato que diz estritamente a verdade dos acontecimentos, assim preferindo não enveredar pela via arriscada de modo narrativo que, não obstante torne agradável e fluente a leitura da história, comprometa a fidelidade factual enviesada por desígnios de concepções e opiniões pessoais.

Bury concebe a propriedade histórica dessa dualidade modelar taciteana versus tucidideana assimilando-a por correspondente dicotomia historiográfica moderna porque ele alinha as vertentes atuantes no século XIX consoante os efeitos catalisadores dos modelos antigos. Por um lado, há historiadores que provam uma tese: "Tácito a acusar o Império, Mommsen a defender a oratória do Cesarismo, Grote a justificar a democracia, Droysen a advogar a monarquia"75. Thomas Arnold mais o Bispo Stubbs teorizaram o fundamento epistemológico de uma tal "parcialidade" historiográfica. O primeiro afirmando, ao que assevera Bury: "the past is reflected to us by the present; and the partyman feels the present most". O segundo ponderando: "without some infusion of spite it seems as if history could not be written"76. Por outro lado, há historiadores contidos, reservados que não se expõem em suas histórias, de que "Tucídides é o mais antigo exemplo". Modernos o seguiram. Ranke a ditar "a fórmula" emblemática "da verdadeira tarefa do historiador": "Ich will bloss sagen wie es eigentlich gewesen ist". Bishop Thirwall por The Greek History mais Bishop Stubbs por The English Constitutional History. E, especialmente o Bishop Creighton, por obra "a mais impressionante", de historiador cuidadoso em caminhar sobrepairando "ose pés leves" a não os empoeirar pelas "trilhas de cinzas traiçoeiras da história mais recente"77.

Gibbon, entende Bury, perfilava-se entre os audazes, a fazer valer "apropriadas teses" (políticas) expondo-as por meio da escrita da história. "The guiding idea or moral of his history is briefly stated in his epigram: I have described the triumph of barbarism and religion". História, então, assevera Bury, justo valiosa porque tomada por "intenso interesse pela humanidade, portentosa representante de certas tendência de sua época"78. O "temperamento" de Gibbon percebia a História da Civilização Humana instruído pelo olhar da coloração iluminista do XVIII porque avançara o espírito evoluído da Razão. A dinãmica do progresso civilizatório ensejava a Gibbon compor sua obra selando a condenação imputada à instituição do Cristianismo que fizera a humanidade regredir afundando a história pelos abismos da "barbárie e da religião". Por essa ideía Bury recomendava a valia permanente do Decline and Fall of the Roman Empire, o legado historiográfico de Gibbon aos homens vindouros79 porque melhor compreendessem a articulação dos acontecimentos que conformam a unidade da história da humanidade por esse perído que se estende dos fins da Antiguidade aos iníccios da época Moderna80.

História tão mais primorosa porque conduzida por inteligência apurada na apreensão "precisa" dos fatos consoante a circunscrição histórica limitada de seus horizontes cognitivos. Quais erros ou desacertos de fatos, quais desvios ou falhas de compreensão interpretativa, a História de Gibbon intrigasse, apenas se conscientiza graças aos posteriores avanços científicos do método histórico e sua conexa ampliação cumulativa do saber humano, tornando os histriadores mais capazes de os detetar justo porque por eles mesmos instigados a superá-los81. Assim devem caminhar os passos historiográficos da razão humana na história.

Pelo que Bury não tem dúvidas em reconhecer para a obra de Gibbon o apanágio que Tucídides originalmente augurara para a sua própria, por este nexo de virtudes configurando os fundamentos da perenidade do moderno ktema es aei porque o Decline and Fall avançara a práxis historiográfica:

"But in the main things he is still our master, above and beyond " date ". It is needless to dwell on the obvious qualities which secure to him immunity from the common lot of historical writers,—such as the bold and certain measure of his progress through the ages; his accurate vision, and his tact in managing perspective; his discreet reserves of judgment and timely scepticism; the immortal affectation of his unique manner. By virtue of these superiorities he can defy the danger with which the activity of successors must always threaten the worthies of the past".82



Ktema es aei moderno por Gibbon assim tão mais paradoxal porque parcialmente divergente do que o antigo por Tucídides firmara como mandamento primeiro do ofício do historiador: qual seja a imparcialidade no tratamento de sua história, sempre atento por preservar o delicado "distanciamento" (porém não alheiamento) contra "entusiasmo" (porém não comprometimento) de afeição pessoal a conformar por sutil inteligência atitude de apenas "reserve sympathy" em sua narrativa. Ora, a via historiográfica que Gibbon trilhara, ao que conclui o argumento de Bury, era tão mais virtuosa por ambiguamente (des)respeitar o preceito primeiro do ktema tucidideano, pois "zelosamente desconfiado de tal zelo historiográfico. O "enraizado entusiasmo" de Gibbon pela sorte dos homens na história, porque (des)caracterizado em "cinismo", certamente conformava a parcialidade do olhar que pintava seu retrato historiográfico. Entretanto, era justo essa perspectiva "prévia" de "certa malevolência" extravazada em "cinismo" que "de fato supria a antipatia que o artista infundia ao misturar suas mais eficazes cores"83.

the partyman historian

"The past is reflected to us by the present; and the partyman feels the present most". Por essa equação conformada em conjugação de duas assertivas, John Bagnell Bury condensa a tese cognitiva porque fundamentava-se a concepção arnoldiana da escrita da história, como tal alinhada à vertente caracterizada pela ordenação da narrativa consoante determinada idéia reflexiva reveladora da inteligibilidade de certa história enquanto práxis humana. A intereferência do olhar do historiador marca, mesmo estigmatiza, sua história.

A frase, entretanto, que Bury atribui a Arnold é apenas parcialmente correta enquanto citação literal. Ela comparece elaborada na primeira de suas Introductory Lectures to Modern History ministradas entre dezembro de 1841 a fevereiro de 184284. Ali consta exarada nestes termos, de que apenas a parte inicial corresponde exatamente ao que Bury cita: "But the past is reflected to us by the present; so far as we see and understand the present, so far we can see and understand the past; so far but no farther"85.

A citação conjugada por Bury, operando por elipses da exposição argumentativa, formula o que no seu entender fosse a síntese do sentido emblemático da concepção arnoldiana de história formulada, especialmente formulada nas Introductory Lectures. De fato, propondo--se entusiasmar seus alunos porque bem estimassem o estudo da história, Arnold encaminhara, já na Conferência Inaugural de seu Curso, a idéia diretriz que inspirava sua reflexão. Por evocativa imagem metafórica, Arnold acusa que a impressão dominante em seu tempo acerca do estudo da história era análoga à impressão ordinária que decepciona quem galga, ascende uma montanha que de baixo lhe parecia enorme, tão elevada a quase tocar o céu: o que lá em cima então ele depara dista muito do que de baixo imaginara. O equívoco em que incide tal decepção tem por causa não a falta de grandeza do objeto mesmo que fora contemplado, mais sim a figuração ilusória do que fora apenas superficialmente apreciado numa observação aparente, devendo, pois, ser atribuida a "a want of comprehensiveness in ourselves to grasp it. What we saw was not all that existed ; but all that our untaught glance could master".86

Pelo que desdobra o argumento desenvolvido por Arnold nessa Inaugural Lecture tem-se concepção de história articulando nível de conhecimento que entrelaça, mas também diferencia, presente e passado por condizente contraposição de percepção de ponto alto contra baixo porque se contemple a História da Humanidade consoante a dinâmica temporal porque o avanço civilizatório eleva a percepção e conhecimento dos homens, de inferior no passado a superior no presente. Pelo espelho reflexivo que desse ponto elevado da história presente o historiador faz refletir a história passada porque dialoguem modernos com antigos, melhor, superiormente em termos civilizatórios, se discernem e ajuizam as questões que afligem a Humanidade. A autópsia, erigida por Tucídides em instância fundante da heurística factual, ganha suplementar dimensão historiográfica de alcance hermenêutico judicante. Assim como relatam e informam os acontecimentos ocorridos quem os presenciou e, portanto, vivenciou e observou, também o justo juízo que discerne e avalia o sentido e aporte civilizatório intrigado pelo encadeamento histórico dos acontecimentos requer historiador experiente de aguda percepção observante por correlata vivência que atualiza seu discernimento histórico pelo presente.

Tal percepção conexa à experiência história presente situa para Arnold os atualizados alfa e ômega porque avança a especular axiologia judicante da história passada. Assim precisamente o diz o complemento da frase arnoldiana na First Lecture, entretanto elidida elidida pela citação de Bury: "so far as we see and understand the present, so far we can see and understand the past; so far but no farther". Avançando em salto analítico a compreensão do que fosse o entendimento arnoldiano acerca da escrita da história, Bury aponta já seu desfecho conclusivo: "and the partyman feels the present most". Estratégia elíptica de formulação sintética e emblemática da idéia arnoldiana de história bem condizente com o primeiro dos exemplos com que o próprio Arnold ilustrava as proposições de sua tese na sequência do argumento por ele desenvolvido na First Lecture:



Whereas on the other hand, he who feels his own times keenly, to whom they are a positive reality, with a good and evil distinctly perceived in them, such a man will write a lively and impressive account of past times, even though his knowledge be insufficient, and his prejudices strong. This I think is the merit of Mitford, and it is a great one. His very antijacobin partialities, much as they have interfered with the fairness of his history, have yet completely saved it from being dull. He took an interest in the parties of Greece because he was alive to the parties of his own time : he described the popular party in Athens just as he would have described the whigs of England ; he was unjust to Demosthenes because he would have been unjust to Mr. Fox. His knowledge of the Greek language was limited, and so was his learning altogether ; but because he was an English gentleman who felt and understood the state of things around him, and entered warmly into its parties, therefore he was able to write a history of Greece, which has the great charm of reality ; and which, if I may judge by my own experience, is read at first with interest and retains its hold firmly on the memory.87

Por insuficiente informe erudito mais deficiente domínio do grego clássico que delimitassem os defeitos na percepção histórica de Mitford sobre a Grécia Antiga, foi paradoxalmente justo seu arraigado partidarismmo político de preconceituoso furor anti-jacobino que ensejou a aura ou encanto de perceptiva realidade que sua História comporta, conferindo-lhe, pois, interesse histórico e valia política. Bem espelhou o retrato negativo do partido popular de Atenas pela figura e modelo infenso que sua visão dos whiggs conformava. Correspondentement malquistou injustamente a figura de Demóstenes porque similarmente injustiçava a política de Fox. A empolgação de seu interesse pela vida partidária dele contemporânea enriqueceu o retrato vivido, assim entusiasmante, da ateniense clássica perturbada por congênere vida partidária conflituosa. Analogamente, e trata-se do segundo exemplo com que Arnold ilumina sua tese, também Walter Raleigh, não obstante dispusesse de conhecimentos ainda mais precários do que os de Mitford consoante quer ao estágio histórico menos evoluído de sua época quer à mais reduzida disponibilidade de tempo ocioso porque se dedicasse ao laborioso empenho reclamado pela investigação histórica, foi capaz de bem captar por sua História os aspectos atinentes à vida cortesã mais quais outras mazelas e tribulações enraizavam-se em sua própria convivência, assim ensejando-lhe competência historiográfica precipuamente conexa a tais horizontes dos modos humanos de atuação no mundo. Cada História comporta nexo avançado de virtudes contra defeitos conforme o discernimento do olhar de seu historiador consoante a perspectiva civilizatória de sua época. O progresso da civilização enseje que a cada presente a escrita da história avance acumulação de vasta quantidade de conhecimentos: "our standard of excellence in history will be continually rising", comportando "a lively consciousness of the exact limits of our knowledge and our ignorance".88 O conhecimento mais acurado, evoluído funda e propicia a justa axiologia em sua atualidade de discernimento judicante89.

Justo porque a estima da obra historiográfica reclama de sua narrativa que ela seja um retrato em cores vivas dos acontecimentos, ordena-se a apreensão da história passada pelo reflexo na do presente, a qual melhor enseja consciência cognitiva judicante bem discriminando acertos, a consolidar, contra erros, a superar. Em harmonia com o ideário da historiografia romântica do XIX, também no entender de Arnold o vigor da realidade histórica presente (re)vivifica a imagem em retrato narrativo da passada A axiologia judicante da experiência humana ensejada pelo progresso histórico então recomenda o interesse para com uma História, como a de Mitford, que embora comprometida por preconceitos de ideologia política, ainda assim era bem digna de consideração. Por qual condição ou vantagem diferenciada de situação do olhar perscrutante a experiência política integrada ao partidarismo ensejasse virtuosidade de percepção e discernimento historiográfico a dotar a História escrita por Mitford do "encanto de realidade", Arnold90 aponta localizando a vantagem pela conjugação dual de certa nacionalidade mais distinção social: because he was an English gentleman!

Pois, ao que intriga o argumento desenvolvido por Arnold, há que diferenciar história, como bem a concebe o século XIX, de antiquarismo, ainda vigente por fins do XVIII! O antiquarismo responde pelo mero conhecimento positivo das realidades passadas em todos seus aspectos e detalhes - acontecimentos, indivíduos, instituições, costumes, pensamentos" - consoante acertada ordenação cronológica. Por indispensável que seja tal conteúdo de conhecimentos criticament alicerçados dispondo mesmo sua base fundante de realidade, a "verdadeira história" requer atos de razão judicante que, alcançando "a compreensão" dos fatos, "ensine" os homens, ministre "sabedoria". Pelo contrário, se reduzido o conhecimento histórico a nivel de mero antiquarismo, "poucas coisas" mais o teriam prejudicado a "contrair e enfraquecer a mente"91.

Certamente que para constituir criticamente tal base de realidade factual recomenda-se ao historiador situar-se em ponto de observação que "contemple o passado a distância, mas também isento das contaminações enviesadoras do presente, como se "não pertencesse a nenhum dos tempos". Pelo que, entende Arnold, "antiquarianism, then, is the knowledge of the past enjoyed by one who has no lively knowledge of the present". O que o torna, se consideradas as grandes questões que importam à Humanidade de preferência a "pequenos detalhes tais como "the shape and color of a dress, or the style of a building", nada menoss do que "a dull knowledge"92. Já a história, por almejar ajuizamento reflexivo de compreensão da realidade passada, requer, pelo contrário, a plena integração do historiador na vivência de seu tempo, pois "the past is reflected to us by the present ; so far as we see and understand the present, so far we can see and understand the past: so far but no farther"93. Tal o pecado das nomeadas História Antiga compostas moldes de antiquarismo, tão pouco instrutivas na medida mesma em que "não compreendem o mundo ao seu redor":



1   2   3   4   5   6   7   8   9   ...   13


©livred.info 2017
enviar mensagem

    Página principal