Tucídides, ktema es aei: a História entre Ciência e Arte



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Bury aprecia as realizações dos historiadores gregos antigos pelo olhar da historiografia moderna, olhar firmado ao longo do século XIX a adentrar o XX, então enriquecido em seus vislumbres pela noção de progresso e pela perspectiva da cientificidade, já enriquecida pela consciência do historicismo germânico40. Os parâmetros, os princípios que constituem esta concepção moderna, dispõem os nexos de critérios com que Bury projeta sua avaliação retrospectiva da historiografia grega antiga, assim ordenando os estágios de sua evolução histórica por consoante sequência de avanços progressivos.


O senso histórico dos gregos, apenas instintivo em seus primórdios, reduzia-se a seu aspecto mais elementar de interesse pelo passado: memorização épica de tradições mítico-lendárias respeitantes a figuras heróicas e divinas, pelas quais as famílias aristocráticas fundavam genealogicamente a legitimidade de suas distinções nobiliárquicas41. Em consonância com tais determinações históricas, equacionava seu fundamento de veracidade pelo princípio de autoridade, em que as histórias são aceitas como crenças, “por crédito irrestrito”. Tempo homérico da consciência histórica grega. O primeiro avanço se dá quando os poemas épicos são organizados em ciclos, assim atendendo a princípios de sistematização dos acontecimentos míticos, de modo a articular suas conexões (eliminando inconsistências e preenchendo lacunas) e, especialmente, ordená-los em uma sequência temporal42. Tempo hesiódico da consciência histórica grega. Em seus primórdios “mitopéicos”, o incipiente espirito de crítica helênico reduzia-se a ainda apenas um certo temperamento de ceticismo, desconfiança ou incredulidade, cujo aporte de racionalismo, apenas incipiente, desacreditava as (ir)realidades de ordem sobrenatural, assim circunscrevendo a história ao domínio das possibilidades fenomênicas da experiência humana43.

É só com a emergência do espírito investigativo jônio que se tem o advento da crítica na Grécia. Em decorrência da conquista persa, amplia-se o horizonte do conhecimento histórico dos gregos, que agora fruem de um contato mais intenso e Assim propiciada uma base de conhecimento histórico “moderno” do passado44, depurado de contaminações de ordem mítica, a historiografia grega nasce com Hecateu, o primeiro a fundamentar seu discurso historiográfico, já em prosa, por uma práxis de investigação crítica, espécie de juiz que decide a verdade de fatos contenciosos45.

Com Helânico de Lesbos, outro passo no progresso historiográfico: construção de uma cronologia sistemática da história grega apoiada nos sincronismos providos pelas crônicas das monarquias orientais46.

Com Heródoto, a historiografia grega, que herda de Hecateu as associações com a geografia e a etnografia47, ganha “modernidade” pelo descortino de seu objeto, consagrando já em seu argumento – o choque de civilizações entre a Ásia e Europa, persas e gregos - um enfoque de “história universal” (“Weltgeschichte”):


And if it is a study in the history of civilisation, we may also say that it has certain features of a universal history. (...) it has the higher quality of what we mean by universal history or Weltgeschichte, in focussing under one point of view, and fitting into a connected narrative, the histories of the various peoples who came into relations with one another, within a given range; so that they are drawn out of their isolation and recognised to have a meaning, grater or less, in the common history of man. Within that range, which is determined by his theme, Herodotus is irreprochably comprehensive; and his book, though he never formulated the idea, is a lesson in the unity of history”.48


História herodoteana Universal assim “moderna” à la Niebuhr ou Ranke, o que justamente este último crítico devidamente já apontara em uma de suas últimas obras. Plena linha de continuidade, no entender de Bury, na evolução que leva de Hecateu a Heródoto. História herodoteana também “moderna” porque investigativa, como a de Hecateu, por suas viagens de propósitos informativos49. Ainda “moderna” especialmente porque moldada por espírito crítico, imbuído de certo ceticismo, igualmente derivado à semelhança do de Hecateu pela familiarização com o mundo oriental50, assim desconfiado, senão incrédulo, de relatos que envolvessem (ir)realidades míticas miraculosas, supondo interferências de entes ou figuras sobrenaturais, cujas histórias, pelo contrário, ganham melhor inteligibilidade se reduzidas em seus conteúdos a padrões de racionalidade51.

Ceticismo de ares filosóficos modernos no racionalismo historiográfico jônio de Heródoto que Bury aproxima também ao de Voltaire, assim reconhecido na apreciação herodoteana das causas das Guerras Medas, por similar espírito inventivo que traveste seu relato de teores, tradições e modos helênicos (europeus) por roupagens e aparências de figuras e falas persas (asiáticos)52. Porém, em Heródoto, a recusa do mitico em nome da história permanece ainda apenas parcial, e mesmo incipientemente limitada: elimina o sobrenatural, dispondo cenários plenamente terrenos, mas persiste o lendário e fantasioso, mesmo que assim integrado no horizonte do humano. Sua obra, que tem no maravilhoso uma fonte constitutiva do objeto, contempla todo um conjunto de histórias anedóticas e de tradições episódicas que contam (supostos) fatos históricos que, por justamente envolverem circunstâncias surpreendentes e situações inusitadas, beiram as fronteiras, assim difusas, indistintas, da (ir)realidade. O mítico então perdura em sua obra, pois assoma agora sob a forma de histórias maravilhosas. Pelo que Bury lembra o comentário de Gibbon sobre Heródoto: “Gibbon happily observed that Herodotus ‘sometimes writes for children and sometimes for philosophers’; the anecdotes he relates often appeal to both. He accepts them generally at their face value, and most of them have been taken as more or less literally true till very recent times”53. Espírito crítico herodoteano ambígüo, apenas “insatisfatório e esporádico”54, ainda imaturo, de fundamento antes instintivo em seus primórdios evolutivos, conjugando inscientemente desconfianças de ceticismo filosófico com ingenuidades de credulidade infantil55. Espírito crítico herodoteano também falho, carente de melhor zelo de imparcialidade objetiva. Sua história comporta enviezamentos tendenciosos particularmente pelo menosprezo que vota aos jônios (asiáticos) e pela admiração e simpatia que dedica aos atenienses, Alcmeônidas e Péricles em especial. A história de Heródoto é assim, diz Bury, “distorcida no interesse da política”, ainda mesmo que sincera56. Obra, pois, de “um democrata filo-ateniense”57.

Por um lado, argumenta a leitura de Bury, a história de Heródoto vislumbra o destino “moderno” da historiografia, por sua orientação de Weltgeschichte e incipiente espírito crítico. Mas, por outro, prende-se antes ao horizonte arcaico, desdobrando modos homéricos, especialmente por seu tratamento e estilo épico58. Para Bury, Heródoto, bem menos do que um verdadeiro historiador que discriminasse a veracidade de suas evidências59, é mais o Homero das Guerras Persas60. Pelo olhar da maturidade alcançada no século XIX, a historiografia moderna reconhece a ambivalência de sua gênese herodoteana, com ela guardando quer identificação quer dissociação, na medida mesma em que seu avanço final consagrado tanto desdobra quanto supera as precariedades acusadas em uma origem infantil, ainda que precoce:

We must give full credit to Herodotus for having recognised the principles of criticism which I have indicated, though his application of them is unsatisfactory and sporadic. They are maxims of permanent validity; properly qualified they lie at the basis of the modern developments of what is called historical methodology. But notwithstanding the profession of these axioms of common sense, he was in certain ways so lacking in common sense that parts of his work might seem to have been written by a precocius child”.61

Com Tucídides, assevera Bury, tem-se “o primeiro historiador verdadeiramente crítico” da história62. A historiografia antiga alcança seu clímax de “modernidade”. Impregando pelos ares “iluministas” da Sofística, essa “revolução intelectual” que fez irradiar o racionalismo pela Hélade, Tucídides formara sua mente historiográfica pelos melhores padrões de espírito crítico: “he learned to consider and criticize facts, unprejudiced by authority and tradition. He came to be at home in the ‘modern’ way of thinking, which analyzed politics and ethics, and applied logic to every thing in the world”63. Em sua história, então, não há lugar para o mítico, dela totalmente excluído. Trata-se, diz Bury, da “mais efetiva lição de ceticismo no que respeita à tradição histórica”64. Diferentemente de Heródoto, não se deixou comandar quer por preconceitos quer por predileções políticas: “He did not take up his pen to celebrate; his aim was to understand – to observe critically ...” (78). Circunstâncias privilegiadas, enquanto esteve em Atenas, mais acasos favoráveis, quando foi dela banido, ensejaram as virtuosidades de uma historiografia competente e imparcial, livre de vezos comprometedores:




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