Tucídides, ktema es aei: a História entre Ciência e Arte



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A acirrar as disputas de sua diatribe com o ensaio de Richard Ashley ao qual responde, Robert Gilpin volta contra o adversário as intrigas implicantes de seu próprio arrazoado: tinham sido os antecessores, os realistas da geração anterior, melhor saudados na análise daquele crítico, e não eles, os Novos Realistas, que se extraviaram dos bons rumos do saber clássico tradicional, pois eles haviam perdido os nexos econômicos em suas abordagens, o que os Novos Realistas agora retomavam.


Outros Neorealistas, desde os inícios da nova abordagem pela década de 1970, haviam assinalado a herança tucidideana que ressoava em suas reflexões.

Kenneth Waltz, em uma primeira obra datada de 1959, identificava já em Tucídides antecipações de sua tese acerca da “terceira imagem”, pela qual ele busca localizar nas configurações das relações de equilíbrio de poder entre os estados as determinações da política mundial.124 Depois, em Theory of International Politics (1979), argumentando sua tese da permanência histórica do caráter anárquico da política internacional, busca exemplos comprovadores na projeção de atualidade com que tanto Hobbes, na primeira metade do século XVII, quanto Louis J. Halle, nos inícios da era nuclear por meados do século XX, valorizavam a obra de Tucídides. Tucídides, assim, dispõe uma consciência política aprendida na Guerra do Peloponeso que agora, no mundo contemporâneo de fins da década de 1970, os enfoques do Neorealismo ecoavam em sua plenitude assertiva, elaborando os conceitos que a estruturavam num sistema teórico (as indicações são dadas por Garst 3).

Robert Gilpin, em War and Change in Politics de 1981, primeiro lembra os alicerces de sua tese (neo)realista acerca dos deslocamentos das configurações de poderes hegemônicos no curso da história, de passagem apontando para Tucídides: “According to Realism, the fundamental cause of wars among states and changes in international states is the uneven growth of power among states. Realist writers from Thucydides and MacKinder to present day scholars have attributed the dynamics of international relations to the fact that the distribution of power in an international system shifts over a period of time; this shift results in profound changes in the relationships among the states and eventually changes in the nature of the international system itself (p. 94)”.125 Que Tucídides seja inspiração fundante para a reflexão de Gilpin, ele declaradamente o consagra em outra passagem ao consagrar a História da Guerra do Peloponeso como verdadeiro cabedal de saber político: “In honesty, one must inquire whether or not twentieth-century students of international relations know anything that Thucydides and his fifth-century compatriots did not know about the behavior of states (p. 227)”.126 Em sua polêmica com Ashley, Gilpin acresce mais outro lembrete a destacar ainda os fundamentos filosóficos clássicos do Neorealismo, por que nele se conjugavam idéias de Hobbes127 com outras similares de Tucídides, ambos a afirmarem “the primacy in all political life of power and security in human motivation. As Thucydides put it, men are motivated by honor, greed, and, above all, fear128.

Robert Keohane, em Theory of World Politics: Structural Realism and Beyond, de 1983, estabelece a tríade de proposições nucleares do Realismo político por meio de um paralelo que harmoniza seus fundadores antigo, Tucídides, com o moderno, Hans J. Morgenthau. Em ambos, o mesmo enfoque “estado-cêntrico”, para definir as unidades agentes (ou as cidades antigas ou as nações modernas) no cenário da política mundial. Em ambos, a mesma tese racionalista, enquanto premissa de inteligibilidade no que respeita aos modos e móbiles de atuação dos estados e, portanto, seu princípio metodológico de apreensão analítica.129 Em ambos a mesma hermenêutica de poder, por que se entende as práticas estatais como permanentemente orientadas pela consolidação e ampliação de seu poderio.130 Por tais fundamentos de realismo político Keohane, em texto já de 1985 (Realism, Neorealism and the Study of World Politics), firma tanto seu entendimento do relato tucidideano quanto, consequentemente, a projeção de receituário de lição política que sua história projeta: “These premises do not, by themselves, constitute the basis for a science: they do not establish propositions linking causes with effects. Yet they have furnished a usable interpretative framework for observers from Thucydides onward. Indeed, all three elements can be found in Thucydides’ discussion of the causes of the Peloponnesian War in the first chapter of his book. Having described the complaints and legal violations leading up to the war, Thucydides observes that ‘the real cause I consider to be the one which was formally most kept out of sight. The growth of the power of Athens, and the alarm which this inspired in Lecedaemon, made war inevitable’ (Thucydides I.24) That is, the Lacedaemonians rationally feared that Athens would at some point direct its growing power against their interests, and decided to act while they could still exert some influence over the course of events. One of the appeals of realist thinking is its applicability to practical problems of international relations: it provides a redily comprehensible set of steps to be followed by those seeking to understand and deal with potential threats to the security of their states. Analysis working within the realist tradition will proceed as the Lacedaemonians did. Theu will focus on states that could constitute effective threats, alone or in coalition, with one another, given the power at their disposal. They will interpret the actions of those states not on the basis simply of their announced policies or on the assumption that they will behave morally, but rather on the premise that they are seeking rationally to increase their power. And they will devise policies that would protect their own society by amassing or maintaining sufficient power, alone or in coalitions, to maintain their essential security interests”.131

Gilpin reivindica para a História da Guerra do Peloponeso o estatuto de paradigma Kuhniano no que respeita à tradição do realismo político, especialmente integrando já alguns dos princípios fundamentais de sua mais recente atualização estruturalista. [citado por Daniel Garst, Thucydides and Neorealism, 1989, p. 3].
Certamente que o resgate neorealista de Tucídides, reconhece Robert Gilpin, bem apreciava o fundamento científico por que o ateniense alicerçava sua análise:

“... as classicists point out, Thucydides was greatly influenced by Greek science and in fact took his method of analysis from it; one should not forget that he is heralded as the first scientific historian (and, I would add, the first scientific student of international relations as well)” (Gilpin, Richness, p. 306; grifos meus).

Certamente também, aduz o mesmo crítico, que um tal apego pela cientificidade impregnava fortemente os Novos Realistas, bem mais do que seus mentores clássicos precedentes, justo porque eles assim intentavam “aplicar a teoria social na compreensão das questões internacionais” (Gilpin Richness, p. 307) [aleivosia: cientificismo tecnicista] [formulação de leis gerais, projeções previsivas]. Todavia, a afirmação da cientificidade pelos Novos Realistas, assim feita à similitude de Tucídides, não viera em contrapartida de uma miopia filosófica, com perda das perspectivas mais profundas acerca da condição humana, por que cientistas, de viéses essencialmente técnicos, operacionalizam formulações de leis gerais com aspirações de cálculos previsivos. Não, reage Gilpin, o Neorealismo era essencialmente filosófico, e mesmo dotado de consciência antes pessimista, descrente das idealizações por que outros projetam progressos na moralidade humana:

“I believe that political realism must bessen as a philosophical disposition and set of assumptions about the world rather than as in any strict sense a “scientific” theory. Although a realist perspective may give rise to testable hypotheses and more systematic theories, political realism itself, as Richard Rosencrance once aptly put it, is best viwed as an attitude regarding the human condition. Unlike its polar opposite, idealism, realism is founded os a pessimism regarding moral progress and human possibilities” (Gilpin Richness 304)

As aproximações tucidideanas do Neorealismo, por consoantes afinidades filosóficas e científicas assim apontadas, também ensejam, por fim, a Robert Gilpin exorcizar o fantasma mais pernicioso por que a catilinária de Richard Ashley o assombrara: os Neorealistas são estatistas amorais! Certamente que há um “realismo vulgar”, ou amoral ou imoral, entre os homens, reconhece Gilpin, e mesmo lembrado por Tucídides, que o apresenta na postura dos atenienses no Diálogo de Melos, em que a Razão de Estado impera absoluta, indiferente a quaisquer princípios éticos. Postura ‘realista’ certamente condenável, aceita Gilpin, justamente porque “vulgar”. Já a tradição de pensamento realista de melhor formação erudita, pelo contrário, sempre aliou em suas obras consistência teórica a elevação ética:

“There is, however, another moral position associated with political realism. As Craig and George remind us, in the early modern period realist writers sought to impose some constraints on the excesses of absolute monarchs (Craig and George 1983: 5). According to this interpretation of realism, states should pursue their national interests, not those of a particular dinasty or political party. States are admonished to carry out a foreign policy in the interest of the whole nation and not just in the selfish interests of the ruling elite. Further, it was believed that there were certain rules of prudent behavior that enabled a state both to protect its interests and at the same time to minimize international violence. Certainly Morgenthau is situated in this tradition when he concludes Politics Among Nations with a set of “do’s and don’t’s” for contemporary stastemen; furthermore, basing his position on these principles, Morgentahu was among the first to condemn the Vietnam War. What Morgenthau and many other realists have in common is a belief that ethical and political behavior will fail unless it takes into account the actual practice of states and the teachings of sound theory. It is this dual commitment, to practice and to theory, that sets realism apart from both idealism and the abstract theorizing that characterizes so much of the contemporary study of international relations.

I like to think, and Ashley has yet to convince me to the contrary, that the new realists, like their classical forebears, study international practice and theorize about it in part to add to the list of “do’s and don’t’s” formulated by Thucydides, Morgenthau, and others. The new realists thus continue a tradition that political theorists call “advice to the princes” (Gilpin, Richnes, p. 320; grifos meus)

Os olhos de Robert Gilpin assim vislumbram um Tucídides renovado, agora discernivel em imagens neorealistas: “primeiro economista político”, antecipadamente já (cons)ciente das “intrigas” (atuais) emergentes no cenário mundial das interações estatais, cuja “anarquia” responde predominantemente pelo “medo” por que os estados acirram suas disputas de poder. Tucídides aparece também como um justo neorealista pelo comprometimento ético de seu estudo político que cataloga advertências e admoestações do que deve o poder fazer, e o que não! Tucídides, pois, também como ele, Robert Gilpin, mais outro “conselheiro de príncipes”. Assim, todos se fundem e confundem numa tautológica afinidade: o que é ou de Waltz ou de Morgenthau ou de Maquiavel se translada a Tucídides reverberado por Gilpin.


Daniel Garst, em artigo de 1989 (Thucydides and Neorealism), insiste em acusar os empobrecimentos que estigmatizam as apreensões neorealistas da obra de Tucídides.

As riquezas de discernimento político das concepções do ateniense perdem-se entre eles já por razões de insuficiência de leitura, pois descuram totalmente a estratégia tucidideana fundamental de operar as significações dos fatos históricos pelo recurso narrativo que imbrica a apresentação dos discursos, frequentemente emparelhados, com a dos acontecimentos. (Garst 4)

Perdem-se também por razões de deficiência de entendimento, de duas ordens. Primeiro, erram por abusos de projeções teóricas, (des)entendendo que a história de Tucídides conforme proposições de “leis causais, como aquelas usadas pelos cientistas para explicar fenômenos recorrentes no âmbito da natureza”. Em Tucídides, pondera Garst, temos apenas modos discursivos que comportam “generalizações sobre o comportamento humano”, mas não “leis gerais explicativas dos conflitos internacionais”. A identidade do saber tucidideano respeita antes aos modos da hermenêutica política tradicional do que aos procedimentos da cientificidade aplicada (Garst 31 e 33).

Segundo, erram igualmente por distorsões de apreciação conceitual, (des)entendendo quer a idéia de poder quer a de hegemonia supostas pelo pensamento de Tucídides. Para o poder, Gilpin e Watz equivocam-se ao o confundirem e subsumirem pela idéia de força, reduzindo a problemática de seus fundamentos primordialmente a questões de capacitação material de poderio, seja por bases econômicas seja militares. A concepção que Tucídides apresenta do poder em sua história melhor se espelha, pondera Garst, pelo vislumbre teórico de Hannah Arendt (exposto por Garst por meio da leitura de Habermas), que justamente apreendeu a natureza fundamental desse conceito voltando seu olhar para a experiência da polis grega: constituição de um domínio público em que se opera a “formação de uma vontade comum em um ambiente de comunicação” conformado por “convenções e instituições intersubjetivas que regulamentam a interação entre fala e ação” (Garst 10-11)

E erram também conceitualmente quanto ao conceito de hegemonia presente em Tucídides, apenas o entrevendo novamente pela miopia redutora do enfoque dos nexos materiais de seu embasamento necessário, assim descurando a dimensão quer intelectual quer moral dessa modalidade de liderança política. Não, argumenta Garst, “a História da Guerra do Peloponeso provê um entendimento mais rico sobre a hegemonia na arena internacional dos que as teorias do Neorealismo”. O paralelo teórico para a hegemonia tucidideana, Garst encontra antes em Gramsci, que justamente enfatiza tais aspectos extraviados pela leitura dos neorealistas (11 e 28-29)

Pelo que dá a entender o ensaio de Garst, a leitura apressada mais o ganho imediatista por que os neorealistas (des)apreciam o sentido dos ensinamentos tucidideanos antes entravam e obscurecem, do que promovem e iluminam, o alcance de suas contribuições para a tradição do pensamento político. As melhores leituras da tradição clássica, por um Tucídides visto aos olhares que Hannah Arendt e Gramsci descortinam para os fenômenos da política, poderiam então prover-nos a clarividência que as vicissitudes atuais do cenário mundial reclamam, a “lançar melhor luz nos papéis atualmente desempenhados pela Inglaterra e os Estados Unidos em promoverem a abertura na ordem economica internacional” (Garst 29)

Pela intriga argumentativa tecida por Garst, a fundação tucidideana do realismo político moderno reclama antes dissipar a nebulosidade de sua projeção neorealista, a qual paradoxalmente antes a encobre do que desvenda.
Um ano depois, 1990, Michael W. Doyle intenta salvar a fundação tucidideana do Neorealismo, e o faz almejando preservar o prestígio filosófico e teórico tradicional dessa conexão ancestral, então alvo de persistentes ataques críticos a desacreditar sua abordagem. Assim, assevera ele logo ao início e seu artigo: “Pensar como um realista é pensar como Tucídides, aquele historiador filosófico, primeiro pensou” (223).

Para não perder nem a fundação tucidideana nem a filosófica para o melhor prestígio da tradição do pensamento realista moderno, Doyle concede, entretanto, a necessidade de uma reformulação no interior da mesma, então a segmentando em pelo menos três vertentes diferenciadas: minimalista, fundamentalista e estruturalista.

A minimalista provê os princípios necessários, indispensáveis, para conformar a base estrita de um modo de pensamento realista sobre a política internacional: o cenário mundial é “um estado de guerra”, omnipresente (contínuo, permanente), e essencialmente anárquico, sem nem uma figura de governo que comande as interações entre as potências estatais nem ordem de preceitos (morais, sociais, culturais, econômicos ou políticos) que regulamentem e restrinjam os conflitos atinentes às suas ambições de poderio (Doyle 224)

A fundamentalista enfatiza as determinações universais do fenômeno, atribuindo tais compulsões pelo poder a modos enraizados na natureza humana, que se extravazam igualmente nos comportamentos dos estados no cenário internacional.

A estruturalista centra seu enfoque na apreciação dos jogos sistêmicos conflitantes que a distribuição das diferentes capacitações de recursos materiais de poderio enseja, conformando uma estrutura inerente a cada momento histórico no cenário mundial. Assim, “diferentemente dos fundamentalistas, os estruturalistas entendem estes aspectos não como asserções acerca da natureza humana ou da organização social, mas como derivações da estrutura mesma. O comportamento estatal é homogeneizado - tornado racional e voltado para a busca do poder – pela competição e socialização” (Doyle 226).

Se, por um lado, Doyle assim faz concessões que relativizam, e reduzem, os teores das apreciações identificadoras da tradição do realismo político, de outro, assim, também e justo por essa razão, se permite reafirmar a projeção de uma sua herança tucidideana, que, entretanto, então era questionada, quer pela linhagem dos estudiosos clássicos (Eduard Meyer, Eduard Schwartz, Arnaldo Momigliano, Donald Kagan) quer pelos críticos teóricos do neorealismo.

Ao desdobrar o horizonte histórico do pensamento político realista numa segmentação tríplice, assim acrescentando a novidade da vertente minimalista à original que era dupla (os clássicos agora são os fundamentalistas, ao passo que os neorealistas ficam como estruturalistas), Doyle dispõe do ensejo de associar-lhes uma renovada trindade de fundadores clássicos: aos estruturalistas cabe Hobbes; aos fundamentalistas, Maquiavel; e aos minimalistas, Tucídides (Doyle 226).

Assim Doyle reacerta os rumos da projeção realista de Tucídides, tanto almejando corrigir os desvios dos teóricos realistas mesmos que, todavia, pretendiam afirmá-la, quanto ambicionando superar as objeções dos acadêmicos clássicos que, entretanto, a negavam.

“Tucídides pertence aos realistas. Eles pertencem a ele” (Doyle 233)

Outras vozes, já na década de 1980, reagiram contra as assimilações mais simplistas do (neo)realismo político tucidideano, então especialmente chamando a atenção para as questões morais e os desígnios éticos (supostamente) inoculados na História da Guerra do Peloponeso.

Steven Forde investiga em que medida a análise tucidideana do imperialismo ateniense (cor)responde aos delineamentos teóricos do realismo político que projeta nas mais profundas compulsões inerentes à natureza humana o enraizamento da causalidade universal das formas históricas de realização e fruição do poder, por que estas ficassem, assim, isentadas de uma mais estrita reprimenda por responsabilização moral:

“The phenomenon of imperialism poses what is surely the threshold question concerning the place of justice in international affairs: if the unprovoked subjection and rule of weaker states by stronger cannot be unambiguously condemned, the applicability of moral categories to international politics altogether must be seriously compromised. Imperialism is ordinarily considered a grave injustice in those who practice it, but there is an argument in Thucydides, championed most vigorously by the imperial Athenians, that imperialism cannot be blamed, because it is only a reflection of certain compulsions – compulsions of power and of human nature”. (Forde 1986: 433)

A tese dos delineamentos realistas do imperialismo ateniense por fundamentação nos modos da natureza humana comparece na narrativa tucidideana especialmente em dois momentos: quando do discurso dos atenienses proferido no congresso reunido em Esparta para debater a declaração de guerra contra Atenas, e por ocasião do cerco de Melos nos arrazoados com que os enviados atenienses responderam às argumentações de seus antagonistas que recusavam-se a alinhar suas forças com as de Atenas já em meados do decurso bélico. Steven Forde assim sintetiza aquela sua primeira formulação:

“The speech of the anonymous Athenians at Sparta is a good index of this. What those Athenians say shows that they have liberated themselves in thought as well as action from the restraints that the Greeks and others had thought applied to cities in their relations among themselves. The Athenians at Sparta are the first to voice the thesis that, in establishing their empire, they were simply acting in accord with certain universal compulsions that affect nations: fear, honor, and profit (1.75-76). These Athenians, it is true, temper their argument with assertions to the effect that they hold their empire “not inappropriately” (I.73.1), that they are in some sense worthy of rule (1.76.2), and that their rule is “more just” than necessary. These things are undeniably important to the Athenians’ vision of their empire, but they do not desguise – and are not meant to desguise – the fact that the empire and their speech about it represent at bottom an unapologetic overturning of the principles of justice ordinarily supposed to apply to relations among states (cf. 1.76). They altogether refuse to submit to judgements stemming from the supposed precepts of justice. In that respect, at least, their position does not differ from that later voiced by the Athenian envoys on Melos”.132 (5.85-113)

O império ateniense, pelas análises que Forde elabora da apresentação que dele dá Tucídides ao longo de sua narrativa, aparece como produto do carater nacional de Atenas, especialmente marcado por um espírito de extrema ousadia empreendedora e expansionista. Formara-se historicamente ao ensejo de sua opção de “cidadania naval” quando da segunda invasão persa, já então “rompendo os vínculos com todas as coisas em torno das quais gira normalmente a vida de uma comunidade e que normalmente constituem sua base estável, conservadora” (Forde 1986: 436). Fora então que os atenienses “descobriram o enorme potencial de um poder puramente humano – ou seja, um poder humano que se sustenta por si mesmo, privado de seus embasamentos tradicionais, terrestres ou outros” (p. 436) O passo decisivo fora dado ao assim dinamizar os modos da natureza humana (ateniense), agora destravada das contenções e restrições das amarras de uma ordem políade tradicional, particularmente no que respeita às inibições de seus ditames de piedade religiosa. A via histórica de Atenas estava livre para o empreendimento imperial, cuja acumulação e exercício do poder se caracteriza pela amoralidade com que se irrelevam completamente os preceitos de justiça.

Desenvolve-se então historicamente, em especial fomentado pela política pericleana, o sentido “individualista do humanismo ateniense, em que os cidadãos desvencilham suas atuações de toda a miríade de restrições convencionais que regula as vidas dos homens nas cidades tradicionais” (438). “O individualismo ateniense”, pela leitura que Forde faz de Tucídides, constitui um dos fundamentos que viabilizaram a constituição do império de Atenas:

“If the city is willing to dare so much, it is in part because the Athenians individually have freed themselves from conventional inhibitions. Athenian individualism represents, in that sense, the domestic correlate to the city’s daring in relations abroad” (438)

Individualismo que então extravaza seu senso de liberdade ao ensejo dos desvios por que os atenienses responderam ao apelo que Péricles formulara em seu Discurso Fúnebre instigando os cidadãos a devotarem à sua cidade a passionalidade de um amante. Assim despertados seus desejos, os atenienses:

“proved unable to resist the imperial temptation, and embarked on a vast project to conquer the island of Sicily. They did so, according to Thucydides, under the influence of erotic passion. In what is his only explicit authorial reference to the eroticism of the city as a whole, Thucydides says that when the deliberation concerning the Sicilian expeditian finally drew to a close, an erotic passion fell upon all alike to sail for Sicily; the passion was so overwhelming that if anyone still opposed the vote, he was cowed into silence by the “excessive” desire of the city as a whole (6.24)

Pericles appealed to the eros of the Athenians in the cause of a general policy of restraint, but when that policy is finally and definitively overthrown by Athenian eros, the development, in retrospect, looks all but inevitable. When Athenian passion reaches its height, forces its way to the surface of Thucydides’ narrative, so to speak, it expresses itself as a longing for the most spectacular increase of power, the most audacious project of imperial expansion since well before the war. Nicias, in his futile speech against the expedition, pleads with the Athenians, at least the old Athenians, not to succumb to un unhealthy or perverse erotic passion (duseros, 6.13.1) for things faraway. His hope is as vain as the hope of Pericles. Indeed, it seems that erotic passion is naturally enflamed more by the splendid, the faraway, and the grand than by any vision of restraint. It powerfully resists domestication, even if a man of Pericles’ stature makes the attempt. And in the Athenian case this passion lies at the core of the city’s imperialism”. [nota: o império da leitura temática oblitera a apreciação episódica: todo o sentido da narrativa se reduz à homogeneidade temática, porque eliminadas as diferenças das singularidades] (440).

Pelo que a trama argumentativa da análise de Forde conclui o primeiro ponto de sua investigação:

“Thucydides, in tracing Athenian imperialism to human erotic passion, does indeed ground it in the deepest strata of human nature. That the Athenians, in their daring, have to an unprecedented extent unleashed this erotic impulse from traditional restrictions makes them unique, but does not alter the naturalness of their imperial impulse. What is unprecedented about the Athenian regime in general is precisely its liberation of human nature” (444)

E, todavia, tal delineamento de realismo político, assim afirmado em fundamentos naturalistas, por que Tucídides apresenta a constituição do imperialismo ateniense comporta também, entende Forde, uma sua apreciação moral reclamando preceitos e princípios de justiça, desde que o crítico amplie o campo de visão de seu ajuizamento, então considerando o desdobramento de destino histórico apontado pelo historiador para o império de Atenas:

“The only conspicuous vindication that justice or divine law receives in Thucydides, then, is the unhappy spectacle of Athens destroying herself after daring sistematically and self-consciously to deny that law in its dealings with others. That does not in retrospect alter the truth of the Athenian denial, and certainly does nothing to help cities in the position of Melos, or even to justify their resistance. It invites compassion more than condemnation for those overcome by the hubristic impulses of human nature, but also yields a counsel of prudence to future statesmen. Thucydides is best understood as an educator of statesmen (...) and statesmen who have been enlightened by Thucydides will not, to be sure, adhere foolishly to the pious hopes ands moralistic illusions of the Melians or of Nicias; neither will they heedlessly praise and advance qualities like daring and unbridled erotic passion in their states, like Pericles did. The conventions that restrain these impulses do not have the divine sanctions they were once supposed to have, and they do represent restrictions on or suppressions of powerful elements of human nature. As Diodotus say, such conventions can never be wholly effective, specially when great temptations to empire arise. We nevertheless learn from Thucydides that the integrity of political communities and the maintenance of those human values that culture or civilization does serve are in the long run dependent on those conventions. To the extent that culture or civilization represents a genuine peak of human flourishing – and Thucydides clearly thinks that it does – those conventions could even be said to have a grounding in nature themselves” (445)

A lição ética que assim, pela leitura de Forde, Tucídides supostamente inoculara em sua história transcende o horizonte apequenado de sua (des)apreciação nos quadros teóricos do realismo político. A questão da responsabilidade moral, para Tucídides, não se reduz ao fato de isentar de censura o exercício do poder imperial dada sua fundamentação nos modos da natureza humana. Se Tucídides não externa um juizo condenatório, induz, entretanto, outra reação, por sentimentos humanos de compaixão. O humanismo ético supera o realismo político. Se, por um lado, a natureza humana compele o poder, por outro, a cultura ou a civilização, fato igualmente humano, ensina sua contenção. O desafio que a ciência política tucidideana então esclarece para os estadistas que conformam os destinos da história humana consiste em controlar os ímpetos de poder pela sabedoria da prudência.
Em artigo publicado em 1988, mas cuja primeira formulação data de 1980, Hayward R. Alker Jr. propõe uma singular leitura de Tucídides, particularmente enfocada na apreciação do Diálogo de Melos, a partir de uma concepção “polimétrica neo-clássica” de abordagem das “atividades políticas e estruturas constitucionais”.

Ele assim intenta reagir contra os desvios teóricos dos enfoques realistas que “matematizaram” a interpretação do pensamento político tucidideano ao atribuir-lhe “timeless truths, or even mathematical laws, about the state’s eternal, self-interested search for power, or the need to balance against it” (805). Assim já o principiara, pelos anos 1930, Werner Jaeger, que justamente se referira à “this political necessity, the mere mathematics of power politics”, orientação depois ecoada pelos realistas clássicos, de que Alker lembra os nomes de Martin Wight (Power Politics, 1946) e de Hans Morgenthau (Politics among Nations, 1948). Os neorealistas, descontentes com as insuficiências de rigor científico das análises de seus predecessores (“imprecisão, inconsistência lógica, não-testabilidade empírica”), avançaram elaborações de ordem formal mais acentuada, sempre a “to seek timeles laws of power politics, independent of moral praise or blame, they wish these laws to be ojectively and falsifiably delineated with what Jaeger took to be mathematical precision” (806)

Equivocaram-se, entretanto, os realistas, quanto à melhor identificação da epistemologia científica que embasava a concepção de história tucidideana, a qual, entende Alker, não responde por um projeto de apreensão de leis universais, mas sim, antes por

“a morally engaged version of dialectical logic, whose closest descendant is argumentation theory (Barth and Krabbe, 1982). His historiography combines a commitment to factual accuracy with what we would now call a dramaturgical perspective on human affairs (Harré and Secord, 1972). Ignoring its dialectical origins, we seem almost to have forgotten that his scientific political history is at the same time one of the greatest morality plays ever writtn, in essence a Greek tragedy” (806)

Por tais enfoques epistemológicos, especialmente aplicando-se ao Diálogo de Melos a análise de “formalização cientificamente racionalizada” nos termos das regras descortinadas pela “versão pragmática de investigação dialética” concebida por Nicholas Rescher (808), Alker “descobre as estruturas internas determinativas, as práticas constitutivas, criticáveis e parcialmente mutáveis, da política grega”, especialmente no que respeita ao sistema imperial ateniense (806). Dai conclui que Tucídides teria embutido em seu “estudo científico da política de poder” a história de uma tragédia, como já o apontara a análise pioneira de Cornford. Mais ainda, uma tragédia de acusadas proposições morais:

“the Melian dialogue is a keu scene in a classical morality play about might and right, not simply an eternal statement of the mathematical truths of realpolitk. An increasingly blind, arrogant, lustful, imperious Athens will pay for its failings with the lives of many of its citizens and, eventually, with its independence as well. Like the most thoughtful modern realists, Thucydides joins normative, descriptive and explanatory investigations pointed toward the suffering-based ‘learning’ of moral lessons” (817)

Epistemologia de “polimétrica neoclássica” de desfechos tão paradoxais quanto enigmáticos, pois são antes os áridos e abstratos procedimentos analíticos de formalismos sistematizados em equações de grafismos lógicos que alcançam “os fundamentos da experiência humana, enfocada por padrões prático-normativos contextualmente apropriados de conduta justa e valor institucional” (817). Esoterismo epistemológico que, pela apreciação de Alker, enseja o melhor aproveitamento, de inspiração mimética, a tirar dos ensinamentos da história tucidideana, quer para os estadistas mesmos, em termos de uma “auto-consciência do que deva ser uma abordagem contemporânea da política internacional”, quer para os acadêmicos também, face aos reclamos de uma vida universitária mais engajada:

Thus we may too participate in the engaged, dramatic, but relatively objective and rigorous kind of historical political analysis that Thucydides was engaged in. Like the Athenians and their Greek friends before the war, we can scientifically appeal to dialectical judgements, relatively unconstrained argument and counterargument, ‘impartial laws ... [and] differences settled by arbitration (1.76-77). We can join different sides of the inner contradictions of ‘Greeks’ and ‘barbarians’, enlisting Thucydides’ (oe Euripides’ even more antimilitaristic) insights in our own political-scholarly debates. By dialectically engaging ourselves in the endless, passionate search for objectively accurate and motivationally superior historical accounts, we critically renew the past and help create the future” (818)


Vozes de uma outra harmonia se conjugam então às (des)orientações da hermenêutica tucidideana, agora fazendo a obra ecoar tons moralistas afins de um discurso politicamente correto. Todavia, assim o fazem, antes por projeções de suposições apenas (alegadamente) implícitas ou subentendidas nos nexos da narrativa de Tucídides, em dissonância com sua declarada profissão de fé nos discursos dos comentadores contemporâneos.
Logo após à II Guerra Mundial fora se firmando a aproximação, depois corrente e amplamente difundida senão mesma quase que banalizada, em que se espelhava a atualidade bipolarizada dos cenários mundiais da Guerra Fria em que contendiam as superpotências da era atômica, Estados Unidos versus União Soviética, pela dicotomia que similarmente caracterizara a história da Guerra do Peloponeso no século V a.C., então dilacerada pelo enfrentamento entre Atenas e Esparta, os dois grandes centros de poderío da época. Em 1963, Peter J. Fliess consagrara uma obra específica em que cristalizava os fundamentos documentais dessa aproximação, por ela entendendo o sentido histórico da obra tucidideana: Thucydides and the politics of bipolarity.

Em 1991, Robert Connor retomou a investigação dessa problemática, (re)apreciando-a pelas intrigas, de efeitos sempre algo desconcertantes, da leitura posmodernista de Tucídides, por ele já tramadas alguns anos antes, especialmente em seu livro de 1984, Thucydides.

Apreciar, na narrativa que Tucídides dera da Guerra do Peloponeso, a caracterização de que o poder no âmbito das relações interestatais estivesse então estritamente cindido entre Atenas e Esparta - uma mera descrição da realidade de um fato histórico -, ainda rescendia aos vezos de se pensar aquela obra nos quadros da antiquada epistemologia cientificista, assim a tomando como realização exemplar do lema rankeano do “wie es eigentlich gewesen”. Ledo engano, ajuiza Connor, pois tomava por fato ou dado de realidade objetiva o que, pelo contrário, era antes primordialmente construto cultural (Connor 66-67).

Certamente que o engano fora induzido pelas formulações mesmas do texto de Tucídides, pois, afinal, ele bem encorajara um tal (des)entendimento ao expressamente caracterizar o cenário da guerra em termos daquela bipolarização. Todavia, uma leitura de Tucídides assim empobrecida pela elementaridade de um ajuizamento estritamente literal de atomização dos acontecimentos históricos, acaba perdendo justo a inteligência artística da trama narrativa por que o historiador construira, por modos mais sutis e percucientes, os alcances e aportes de suas significações.

Ao aparentemente afirmar de início a bipolarização, Tucídides de fato apenas projetava para seus leitores uma expectativa factual antecipada acerca da guerra, neles inoculando uma tal percepção dos problemas da realidade do mundo grego (Connor 57-58). Todavia, à medida mesma em que a narrativa prosseguia descortinando os rumos efetivos ‘inesperados’ tomados pelos acontecimentos, a expectativa se dissolve, frustra ou mesmo se subverte, porque por eles contraditada. A Guerra do Peloponeso que Tucídides relata não atesta a bipolarização do mundo grego, antes revela uma configuração bélica complicada por outros centros de poder e núcleos de interesses diferenciados – Tebas, a Magna Grécia, Corcira – que, embora formalmente subordinados, não alinham propriamente suas atuações em consonância com as determinações estritas ditadas pelo choque entre as duas superpotências rivais, mas sim antes “voltadas para realizar seus envolvimentos em termos de suas próprias vantagens” (Connor 57). Tucídides, pois, “não entendia que a bipolarização fosse uma caracterização propriamente adequada para as relações interestatais de sua época, antes a apresentando como uma configuração multipolarizada de relações de poder” (Connor 53)

A escrita da história por Tucídides responde assim, diz Connor, por procedimentos artísticos que privilegiam uma estratégia narrativa, “consciente ou inconsciente”, de deslocamento de expectativas: apenas inicialmente ensejadas, para, entretanto, a seguir verem-se frustradas e subvertidas. (Connor 58-59)

Os leitores modernos de Tucídides, porque leram a obra desatentos à mais sútil inteligência de sua trama narrativa, acabaram por (inscientemente) ludibriar seu (des)entendimento da história da Guerra do Peloponeso: tomaram as primeiras indicações do relato por pura expressão de fatos discretos, afirmação de acontecimentos singulares autônomos, dados de realidade objetiva. Não que, arrazoa Connor, tais indicações fossem falsas ou mentirosas, meras criações tucidideanas. A bipolarização do cenário internacional helênico entre Atenas e Esparta constituia a percepção que era dada contemporaneamente da guerra mesma. Percepção factual que, então, o desdobramento da narrativa tucidideana progressivamente desfaz ao expor as sequências de acontecimentos efetivos que a desacreditam. Trata-se, pois, precisamente do que a intriga do texto nega como fato histórico objetivo, antes expondo sua inconsistência enquanto tal.

Porque a arte de sua escrita histórica é concebida como o espelhamento mimetico do desenrolar dos acontecimentos mesmos, Tucídides projeta em seus leitores uma homologia de experienciação factual, por cujas inferências de encadeamentos de reações induzidas o historiador intenta veicular uma hermenêutica de desígnio essencialmente ‘desconstrutivista’, que vai sistematicamente, por sua tecitura arquitetônica, desfazendo imagens e percepções que a realidade da guerra mesma dissolvera (Connor 58).

Em especial, Tucídides, no entender de Connor, investe contra essa visão consagrada de um mundo helênico objetivamente estruturado por polaridades duais que oporiam Atenas e Esparta, as quais são então criticadas em sua obra como apenas construtos culturais, quer em termos das relações de política inter-estatal quer em termos da caracterização contrastiva de suas identidades cívicas. Guerra e stásis constituem fenômenos análogos, ensina Tucídides: formas violentas de desintegração da comunidade e de ruína de sua identidade cívica por exacerbação das tensões, das dissidências e dos conflitos. (Connor 53-54 e 61-62) Mais ainda, guerra, em última instância, é stásis, transmuta-se nela (Connor 60: a leitura que Connor opera do célebre relato da stasis em Corcira e : p. 58-60; já no Thucydides, p, )

De modo que uma tal percepção da Guerra do Peloponeso por projeção de “um drama geopolítico bipolarizado em duas Grandes Potências, que nós modernos, se especialmente formos americanos, somos levados a fazer por projeções provincianas”, constituia o conhecimento que Tucídides antes buscara subverter do que asseverar como (ir)realidade histórica (Connor 67). Os ensinamentos inoculados em sua história eram antes de outra ordem. “A superpotência em ação é a guerra mesma: ela desmantela não apenas as convenções da vida cívica como também as categorias do historiador”. Pelo que, conclui Connor: “War is the ultimate deconstructionist” (67)


Tucídides (neo)realista, pelo que ajuiza Laurie Johnson133, constitui um engano acadêmico, por equívocos de leituras precipitadas. Ansiosos por ancorar em Tucídides a ancestralidade clássica de seus vislumbres teóricos, os realistas modernos do pós-guerra antes perderam, do que resgataram, o saber político refletido pela História da Guerra do Peloponeso.

Por esse saber tucidideano, agora (re)apreciado pela leitura de Laurie Johnson, as determinações históricas das relações de poder no cenário internacional não são nem atribuídas às compulsões pelo poder inerentes à natureza humana, como o entendem os realistas clássicos, nem a um jogo de configurações sistêmicas de estados funcionalmente indiferenciados, como o querem os neorealistas. A narrativa histórica de Tucídides antes diferencia os estados, enfatizando a apreciação do “caráter nacional” que conforma a atuação de cada um deles, como ainda põe em destaque o papel determinante que as figuras de líderes individuais têm nesse processo.

Por esse saber, as formulações de um pensamento político realista presentes na obra de Tucídides – as Teses dos Atenienses, especialmente expostas no debate em Esparta e no diálogo de Melos – não configuram suas singulares postulações teóricas, mas antes argumentos de retórica política a serem devidamente considerados e, então, ajuizados consoante à narração mesma da sequência dos acontecimentos. Justamente, o que o relato tucidideano dos fatos então mostra são antes os efeitos ruinosos para o destino de Atenas e seu império decorrentes da adoção dessa tese realista. O equívoco da leitura (neo)realista de Tucídides toma, portanto, por formulação de lei histórica objetiva o que sua obra antes dá por argumento ideológico de retórica política.

Por esse saber, finalmente, Tucídides inocula em sua obra todo um nexo de juízos morais e condizentes padrões de justiça enquanto aspectos de análise política integrantes de sua narrativa historiográfica. Assim o faz declaradamente ao condenar os atos dos trácios no massacre de Micalessos; depois, ao veladamente criticar os modos de deterioração moral desnudados pelo processo de stasis em Corcira; e ainda, ao implicitamente induzir em seus leitores uma simpatia para com as causas dos melianos e dos plateenses, que decididamente bateram-se por seus valores e ideais honroríficos de justiça contra as imposições brutais de potências superiores.

Tucídides mesmo, portanto, antes diverge de seus comentadores acadêmicos recentes, deles discordando, senão mesmo contraditando suas formulações de preceitos e princípios de ciência política (neo)realista. O arrazoado de Laurie Johnson assim aponta nesse (pretenso) resgate tucidideano desfechos de efeitos antes paradoxais: a leitura mais atenta e apurada de Tucídides desautoriza sua figuração (neo)realista!

Os (neo)realistas erraram de fundador, inscientes de que suas teorias circunscrevem-se em tempos modernos, originariamente enraizadas pela filosofia de Hobbes.

Pelos tempos da Guerra Fria, anos 1950 e 1960, comenta Laurie Johnson, os agentes das esferas estatais envolvidos com as questões da política internacional bem que buscavam, no mundo acadêmico, se bem que por viéses equivocados, orientações sapientes por que melhor guiassem suas práticas governamentais. A partir de fins da década de 1970, já não mais o fazem, desacorçoados (e, assim, desinteressados) com o linguajar impalatável ganho pela renovada literatura teorética. Pelo que Laurie Johnson lança sua contribuição a fim de que se retomem tais conexões, agora dispostas por desígnios éticamente mais aprimorados de valia da ciência política.

A imagem de Tucídides vai então ganhando novos contornos, agora revalorizada por padrões moralistas de figurino politicamente correto. No bojo desta (re)figuração, Laurie Johnson atualiza, quase cinquenta anos depois, o apelo que originariamente o General George C. Marshall fizera ecoar em Princeton por inícios da Guerra Fria, conclamando o mundo acadêmico americano a retomar os ensinamentos do saber histórico tucidideano para o melhor entendimento das realidades políticas do mundo contemporâneo. Novos tempos que então reclamam a inflexão da tradição do pensamento político realista pelo advento do “Thucydidean scholar”.


Em 1998, quando S. Sara Monoson e Michael Loriaux consideram, no horizonte acadêmico da Northwestern University (Evanston, Illinois), as contribuições do saber tucidideano para o tratamento teórico da política internacional, a hermenêutica mais tradicional de sua obra, dita “positivista”, que a apreciava como relato atomístico de acontecimentos singularizados por um historiador científico ou repórter nêutro, é dada por definitivamente morta e sepultada (285) Agora impera, irrestritamente consagrada, a percepção da obra como arte de construção narrativa, cujo enfoque privilegia a apreciação da tecitura compositiva que destaca as tramas e nexos interativos entre os relatos dos episódios, de que se depreende uma rede complexa e sutil de significações reveladora dos padrões de factualidade embutidos na História da Guerra do Peloponeso (285).

Em especial, a orientação posmodernista de Connor faz pleno sucesso. Porque Tucídides construira sua narrativa consoante uma técnica antitética de argumentação - em que a uma asserção inicial se contrapõe outra que, por similar formulação retórica, todavia a critica e contesta -, sua melhor apreciação reclama aferir as colocações tucidideanas por esse sentido de frustração e desapontamento por que ele induz qual deva ser a reação de seus leitores e, então, alcançar aquela interpretação da História que seja justamente tucidideana, precisamente reveladora de sua filosofia política (285-6). Monoson e Loriaux aplicam o princípio hermenêutico de Connor particularmente para avaliar a percepção e consoante juízo, “sutil e elaborado”, que Tucídides tecera sobre a figura de Péricles e sua política de guerra. Em particular, seguem a interpretação que este dera contrapondo Hermócrates a Péricles.

A imagem inicial que a narrativa constrói é a que figura em Péricles uma aparente excelência de liderança política, quer por suas virtudes pessoais de caráter cívico (286-7) quer pela inteligência e brilhantismo de sua atuação enquanto estadista, sempre pautada em um princípio de prudência sapiente. Imagem que, entretanto, a sequência da narrativa progressivamente desfaz, inoculando uma outra percepção, mais profunda e sutil, que antes denuncia os defeitos e erros das orientações e decisões pericleanas. Péricles, porque fomenta a guerra, é vislumbrado como fonte de convulsão em Atenas, especialmente na medida em que assim, por sua estrategia de não enfrentamento das forças espartanas que destroem as propriedades rurais da Ática, acelera a desintegração da solidariedade cívica por efeito corrosivo sobre sua ideologia democrática, antes conformada em termos de reciprocidade de benefícios (os sacrifícios individuais dedicados à pólis têm sua contrapartida nos ganhos e privilégios que a democracia confere aos cidadãos atenienses) (287). Péricles, porque sua orientação política alinha-se com os desejos das massas no sentido de uma devoção acrítica às posses imperiais, acaba propugnando modos de dominação tirânicos (uso abusivo, violento, do poder em total desconsideração ou mesmo rejeição das normas gregas de conduta legítima e digna), pelos quais solapa a autoridade das normas morais de ordenação política e no fim leva ao colapso da ordem por concomitante decadência das leis (287). Em contrapartida à negatividade da política pericleana, a narrativa de Tucídides antes recomenda os modos de liderança e coesão nacional descortinados por Hermócrates na Sicília, no que Monoson e Loriaux seguem as interpretações firmadas já por Connor.

Tucídides, então, antes critica que recomenda, antes denuncia que aprova, antes aponta a falência que firma o êxito da (apenas aparente) “sabedoria prudente” da política pericleana de guerra. Os ensinamentos da filosofia politica tucidideana assim inoculados na narrativa caminhariam, pois, no sentido contrário ao do propugnado pela tradição do realismo político. O desígnio último da exposição tucidideana fora antes a de contrapor a necessidade da ética à inconveniência da moralidade (realista) por que os estados conduzem suas politicas governamentais. O pensamento politico realista, tradicionalmente projetado em Tucídides, desvincula seus enfoques das apreciações de ordem moral, delas cético, entendendo que as ações dos Estados não se pautam por tais imperativos, na medida mesma em que sua consideração arruinaria a racionalidade eficiente de realização de seus interesses. Em Tucídides têm-se a inversão da tese realista: é antes a perda da moral, o esfacelamento das normas éticas de conduta, que inviabiliza e mesmo arruina a racionalidade de uma política de sabedoria prudente. Dai que a premissa de ceticismo de sua filosofia política não respeita à ingenuidade dos idealismos moralistas, como o sustenta o realismo político, mas antes à ilusão humana de uma condução sábia da política, mesmo quando efetuada por líder de extrema inteligência e brilhante intelecto como Péricles, que assegure o bem-estar comum, se exercida ou na ignorância ou em desafio de normas de conduta moral. A política de poder não se reduz a uma inteligência de estrategia. A ordem moral define as condições de possibilidade sábia de uma política racional, moderada e prudente (295). De modo que a imposição da moral é dever do poder! (285)

Monoson e Loriaux voltam seu olhar para Tucídides, mas sempre com o espírito preso à atualidade contemporânea que os instiga à leitura da História da Guerra do Peloponeso. Assim o declaram logo na abertura de seu texto: “Thucydides’ driving attention to both these views goes to the heart of much contemporary theorizing in international relations regarding the appropriateness of moral or strategic action. (...) Awareness of Thucydides’ use of antithesis helps us not only appreciate his style but also understand his political philosophy and use the text to engage debate in international relations theory.” (285) Pelo que, ao concluirem seu exercício de hermenêutica historiográfica, disponibilizam academicamente a lição política especialmente apropriada que dela se deve tirar, espécie de sumo receituário para um estadista “tucidideano”:

“It is for all these reasons, and because our suspicions are supported by so many other elements of the text as a whole, that we beleive the antithetical opposition between the two statesmen, Pericles and Hermocrates, contains a prescriptive lesson. We might formulate that lesson in three parts: (1) who enjoy a healthy skepticism regarding their own (and humanity’s) capacity for clever strategy, (2) who are inclined by that skepticism to be respectful of social norms, which they value for the prudent guidance they provide, and (3) who will use power to defend (or help craft) those norms, ever alert to humanity’s tendency to fall victim to the illusion that power confers freedom from moral restraint” (295)

As correções do (neo)realismo político tucidideano vão assim se moldando aos cortes e desenhos de um figurino politicamente correto.
Pela viragem do II para o III milênio, 2001, a reflexão de Richard Ned Lebow atualiza mais outra renovada imagem de Tucídides, que agora aparece sob figuração construtivista.

Extrapolação hermenêutica certamente ambiciosa que, conjugando as propostas de vários intérpretes da segunda metade do século XX, aspira a nada menos do que uma síntese integradora de suas contribuições, especialmente proclamando compor em “parceria simbiótica e produtiva” vertentes investigativas que até então operavam suas leituras em antagonismo. (1)

A hermenêutica da obra tucidideana principia, para Lebow, antes de tudo pela superação da epistemologia positivista. Primeiro, graças aos ataques do pós-guerra por meados da década de 1960, quando os cientistas sociais e os historiadores (Wallace, 1964; Bowersock, 1965; Stahl, 1966) reconheceram na história de Tucídides a presença de um escritor “passioante and politically engaged” (1).

A seguir, e sobretudo, pela proposta de leitura arquitetada por Robert Connor, que rompera mais dramaticamente com as orientações agora obsoletas do passado acadêmico tucidideano. A aproximação por que Lebow interpreta Tucídides parte, pois, da apreciação, de fundamento posmoderno, com que Connor desvendou as estrategias de estruturação narrativa de sua obra. E Lebow dá mais um passo avante, aprimorando o alcance da proposta de Connor, ao aprofundar a percepção de uma estrutura narrativa bem mais complexa do que a detetada por seu antecessor. Distingue, então, quatro camadas de estruturação textual em que operam as técnicas narrativas elucidadas por Connor: a primeira respeita às questões atinentes à natureza e relações entre poder, interesse e justiça; a segunda constrói uma percepção da história de Atenas como tragédia; a terceira compõe as relações entre nomos (convenção, costume, lei) e phusis (natureza); por fim, uma quarta camada refere as relações entre erga e logoi em termos de suas implicações para uma ordem social civilizada.

Consequentemente, a mais aprimorada, para Lebow, leitura da história de Tucídides supõe um jogo intrincado de detecção de múltiplas conexões virtuais disseminadas por uma estratigrafia narrativa orientada por desígnios de intertextualidade:

“Each layer addresses a different question, answers to which can be read back to provide deeper understanding of the questions posed by previous layers. For Connor, omissions, repetitions, inconsistencies, and subverted sentiments and arguments are intended to move reeders to deeper understanfings. I see them playing this role within levels, and argue that Thucydides offers the structure of his narrative, choice of language and implicit references to other fifth century texts – Herodotus’ history, the Hippocratic corpus and the tragedies of Aeschylus, Sophocles and Euripides – as “signs” (sêmata) to move us from one level of the text to the next” (Lebow 6)

A leitura tucidideana de Lebow, assim explorando o viés da intertextualidade, ultrapassa já as críticas que acusavam a insuficiência dos limites posmodernos de uma hermenêutica totalmente encerrada na suposição da autonomia do texto.

Aperfeiçoada a lição hermenêutica de Connor, Lebow aduz mais outras ordens gerais de contribuições interpretativas. Por um lado, integra em sua reflexão a leitura de Tucídides por James Boyd White (When Words Lose their Meaning: Constitution and Reconstitutions of Language, Character and Community, Chicago, 1984), que polariza seu enfoque pela apreciação das implicações que as mutações acarretadas pelas vicissitudes bélicas nos fatos da linguagem (perdas e reconstruções de sentidos) e nos comportamentos humanos a elas associados (processos de deliberação coletiva) tiveram na conformação perceptiva da história tucidideana (Lebow 4).

Por outro lado, Lebow apropria-se também das contribuições dispostas por leitores de herança mais clássica, Paul Rahe e Clifford Orwin, que insistiram na recomendação de Leo Strauss no sentido de depreender na história de Tucídides, tanto de consciência realista quanto humanista, a lição que concilia a construção da política por conjugação dos preceitos de justiça com os de interesses sociais. (Lebow 5). Por fim, Josiah Ober, entende Lebow, já opera sua interpretação de Tucídides mesclando as tradições acadêmicas clássicas com as das relações internacionais, o que ele então se põe a desdobrar em seu ensaio.

De tudo, assim sucessivamente embaralhado, resultam projeções de problemáticas modernizantes sobre o mundo helênico do século V por que Lebow imagina de quais, assim supostas, vicissitudes históricas emerge a figura de um “Tucídides construtivista”:

“Fifth centurt Greece experienced the first Methodenstreit. “Positivists” insisted on the unity of the physical and the social worlds and the existence of an ordered reality that could be discovered through the process of inquiry and were opposed by “constructivists” who regarded the social world as distinct and human relations as an expression of culturally determined and ever evolving conventions. (...) Given sophistic epistemology, it was probably inevitable that it would spawn a cognate to post-modernism. (...) Like contemporary constructivists, Thucydides was fascinated by convention (nomos) and the role it played in regulating human behavior. His history – and I hope, my treatment of it – make clear that he regarded conventions not only as constraints but as frames of reference that people used to understand the world and define their interests. It may be going too far to claim that Thucydides initiade the “linguistic turn” in ancient philosophy, but he certainly shared constructivists’ emphasis on the importance of language. (...) Thucydides is undeniably a constructivist and may have been the original practitioner of the “thicker” linguistic version” (Lebow 33-36)

Intentando fundamentar em alicerces históricos sua arquitetura construtivista de Tucídides, Lebow seleciona bibliograficamente alguns blocos cognitivos de apreciação sobre a civilização grega antiga que lhe confeririam apropriada historicidade.

Nos Sofistas ele encontra “o estilo complexo e sofisticado de argumentação que emprega uma retórica antilógica”, cuja estrategia finaliza justamente solapar as teses que são expostas de início e que prefere induzir o entendimento de seus arrazoados antes por teses deixadas implícitas, a serem inferidas pelo leitor. Tucídides, diz Lebow, adotara este “método sofístico de argumentação”, como o “prova o tratamento por ele dado às origens da Guerra do Peloponeso” (Lebow 5-7 e 32).

Estilo que, então, exige dos leitores dons de virtuosidade hermenêutica sofisticada, leitores que sejam afeitos a certos procedimentos de malabarismos de (des)tratamento textual por contorcionismos analíticos, únicos recursos com que se pode decifrar as codificações da escrita tucidideana: “Thucydides requires a delicated and thoughtful audience. Readers must be willing to recognize multiple levels of analysis, the questions and arguments specific to these levels and ponder the implications of any apparent contradictions. They cannot work their way through the history in a linear manner, but must move back and forth between sections of the text to grasp the contrasts and ironies embedded in structure and language and the ways in which different contexts and orders of presentation encode insights and interpretations”. A filosofia de Heráclito, assevera Lebow, responde por essa hermenêutica da ontologia historiográfica tucidideana de desvendamento dos segredos recônditos da história: “Heraclitus taught that the world was a battleground between opposing forces and that philosophers had to look beneath the surface to find the deeper unity (harmonia) that united them. Thucydides, as did Plato, thought and wrote in this binary tradition” (Lebow 8)

História tucidideana de fundamentação filosófica heracliteana, mas também, pelas aproximações operadas pela leitura de Lebow, de conformação científica, assim resgatando agora a lembrança da obra de Cochrane:

“Heraclitus maintened that “nature (phusis) tended to conceal itself, and that its seemingly contradictory manifestations had an underlying unity (harmonia) that could be discovered through reflection. Thucydides based his inquiry on this assumption and searched for some means of getting beneath the established social order and day-to-day behavior to discover what truths lay underneath. Plato would attempt something similar, and for much the same reason. Thucydides modeled his inquiry on medical research (Cochrane1929). Hippocrates and his followers had charted the course of diseases in the human body, noting the symptoms that appeared at their onset and subsequently and how they built up to a critical moment or crisis stage (kairo) that led to death or recovery. Thucydides applied this method to the social diseases of revolution and war; he described their manifestations and charted their course through the body politic to the point of social strife (stasis) and the disintegration of civil society. As physicians sought to learn something about the nature of the human body from studying the progression of illness, so Thucydides hoped to learn about the human mind” (Lebow 20-21)

Todavia, resgate de memória paradoxal, pois, por Cochrane, a epistemologia que fundamenta a concepção científica hipocrática, e correspondentemente a historiográfica tucidideana, era historicamente disposta pela filosofia da natureza formulada por Demócrito, e não pela de Heráclito, de quem, entretanto, agora a aproxima a estrategia argumentativa de Lebow! Jogo de leituras cuja (in)consistência de rigor analítico se (des)faz pelas (in)conveniências de seus arranjos.

O (des)entendimento de um Tucídides construtivista assim só se (des/con)figura ao sujeitarmos sua leitura por um (des)encadeamento de (des)composturas redutoras sobrepostas: realidade literária de comunicação escrita, de fundamento estruturalista, por avanços posmodernos e gostos construtivistas. A ambição imortalizadora da obra assim paradoxalmente se encerra antes em uma sua codificação hermenêutica esotérica: só para iniciados! (nota: ensaio sobre J.J. Keaney em Mithistória)



Navegando século XX adentro, a hermenêutica acadêmica, prisioneira de uma obsessão identificadora, (re)conheceu paragens tucidideanas ou literárias arcaizantes (Cornford), ou científicas modernas (Cochrane), de avanços estruturais (Finley Jr. e J. de Romilly), que então reviram em paragens literárias modernizantes, mesmo posmodernas (Connor), e ainda construtivistas (Lebow). Vicissitudes de (re)conhecimentos tucidideanos que transitam suas projeções aos (dis)sabores de algum tipo de efeito como o imaginado por Woddy Allen em seu filme Zelig, espécie de camaleão epistemológico em que se transmuta a identidade de Tucídides aos ensejos de suas meras aproximações de leitura. O filósofo, Friedrich Schlegel, há já uns dois séculos, não se deixava, entretanto, iludir: “Cada qual ainda encontrou nos Antigos aquilo que precisava ou desejava; sobretudo a si mesmo” (Athenäeum 151)
A intriga do desígnio tucidideano de uma valia perdurante de sua história, seu vislumbre de ktema es aiei, então descai antes em desvalias de apreciações efêmeras que (des)atualizam seu sentido. Projeções hermenêuticas de um Tucídides protéico, a sucessivamente passar por mutações de formas, mais ou menos monstruosas. A retomada da forma original, reveladora de seus segredos, não suporia, entretanto, restituir-lhe, ou permitir-lhe expressar, as proposições de sua fala mesma, antes do que intentar ecoá-la por ventríloquismos preenchedores de seus silêncios?


1 “Empecemos con Tucídides. Tiempo atrás escribí un libro con el título provocador de Thucydides Mythistoricus. No pretendi poner en duda la aserción de Tucídides de ser quizás el más digno de confianza de entre todos los historiadores. Mi tesis no deslizó necesariamente duda alguna sobre ninguna constatación separada de un hecho objetivo” (Cornford, 1921: p. 28).

2 “If this appreciation of the historian is sympathetic, I hope you will not suppose that I belong to the band of devotees who make a cult of Thucydides and can see no defects in their idol. Such devotees existed in ancient as well as in modern times, and the historian’s ancient indiscriminating admirers received a very proper rebuke from Dionysius of Halicarnassus” (146).

3 Cornford (1907: 76).

4 Cornford (1907: 79).

5 Cornford (1907: viii e 72).

6 Cornford (1907: 76).

7 Tucídides III.45.4 (tradução de Mário da Gama Kury, p. 151).

8 Cornford (1907: 134-5).

9 Cornford (1907: 79-80).

10 Cornford (1907: 79-80).

11 Cornford (1907: 189).

12 Com o incidente da subjugação e massacre da população de Melos, Atenas já figura Hybris, assim tomada em sua decisão pela crueldade violenta de soberba loucura, cegada por já desenfreada cobiça. A mente da cidade adoeceu incurável.

13 Cornford (1907: 220).

14 Murari Pires (1999: 9).

15 Cornford (1907: 221 e 236).

16 Cornford (1907: 223 e 242).

17 Cornford (1907: 233 e 242).

18 Cornford (1907: 234-6 e 242).

19 Cornford (1907: 242).

20 As reservas que esta formulação intriga devem-se ao carater precário dos comentários a seguir apenas inteirados dos dos teores críticos expressos nos comentários à obra de Cornford citados muito parcialmente por Mortimer Chambers (1991: 70).

21 The Albany n.s. 1 (1907): 467-70

22 Chambers (1991: 70).

23 “the substantial truth of his position will in the end, we think, appear not less remarkable than its novelty” (Chambers, 1991: 70).

24 Greek Thinkers I, 1901, p. 503.

25 "a perusal of Mr. Cornford's able and brilliant Thucydides Mythistoricus will lead [the reader influenced by Gomperz] to modify his opinion considerably" (Chambers, 1991: 70).

26 The Dial 43, 1907: 205.

27 “That Thucydides' sense of the moral significance and the dramatic contrasts of history was quickened by reminiscences of Aeschulean tragedy, is probable enough. But sober criticism will know how to make a light and tactful use of such suggestions without converting them into a rigid and systematic method of exegesis” (Chambers, 1991: 70).

28 Perrin (1908: 314-316).

29 Saturday Review 104 (1907).

30 Chambers (1991: 70).

31 "a cogent exposition of Thucydides' shortcomings; but the explanation which it offers hardly seems likely to commend itself" (Chambers, 1991: 70).

32 Mr Cornford has written a most brilliant essay, but cannot be said to have penetrated below the surface of his subject. His acquaintance with previous writers thereon, or with the archaeological questions that are occasionally involved, leaves a good deal to be desired. But that is a minor objection. He proceeds on the somewhat naive assumption that wars are sufficiently explained by economic motives. Whereas no questions of trade will bring two states into conflict unless the psychological conditions are lavourable ; and these conditions are adequate'y recognised by Thucydides. It is also difficult to believe that Thucydides was so dense, or so little in the confidence of the politicians of his time, as Mr. Cornford's theory presupposes. As regards the method of the book, Mr. Cornford forgets that, once it is assumed that the real meaning of an author's words is something very different from what he thinks he is saying, the critic's interpretation becomes purely subjective ; it becomes, too, interesting not because of the light which it seems to throw on his sulbject, but because of the attitude of mind which it reveals in the critic himself. From the purely literary point of view it may be justifiable to make an unoffending historian the object of a psychologicaljeu d'esprit, and to trcat his perfectly reasonable versions of a most contemporary events-such as the story of Harmnodius and Aristogeiton-as episodes in a work of the imagination. But for the sake of the advance of historical criticism, the habit is to be deprecated (JHS 27 (1907), p. 307).

33 The book has another and what at the present time is perhaps a greater merit. Those who have observed the more recent developments in the writing of history will allow that, unavoidable as these may be, they have not enhanced its attractions. The strictly scientific methods of the new history as of the new philology are not alluring to the popular taste. A diet of pulverized and deodorized facts, flavoured with distilled statistics, is apt to turn all but the most carefully whetted appetite. We owe therefore a double debt of gratitude to Mr. Cornford in that he has combined scientific analysis with literary form and that he has invested the conclusions of a rationalist with all the charm of a mythistorian (Postgate, 1907: 318).

34 Pericles and Cleon in Thucydides. The Classical Quarterly, Vol. 2, No. 1 (Jan., 1908), pp. 41-46.

35 A abordagem de Stawell opera já -- quase meio século antes de John H. Finley Jr. e Jacqueline de Romilly - a análise da narrativa tucidideana em termos de assinalar paralelismos, ecos, correspondências, repetições, similitudes, diferenças entre as exposições dos acontecimentos, modo estratégico porque o historiador inocula subrepticiamente intenções calculadas de construção do sentido porque evolue a história.

36 Stawell (1908: 46).

37 Cornford (1907: 62).

38 Hartog (1982: 29-30).

39 Bury (1909: 124).

40 Vejam-se as considerações epistemológicas de Bury em seu capítulo final, VIII: Views of the ancients concerning the use of history, p. 242-259.

41 Bury (1909: 2).

42 Bury (1909: 5).

43 Bury (1909: 9 e 34).

44 Bury (1909: 11-12).

45 “Oriental geography and history presented to the Greeks a new field of study, and this exercised, as we shall see, an important influence in bringing history to birth. Its birth is associated with the name of Heacateus of Miletus. He was, firts and foremost, a geographer. (...) Born perhaps near the middle of the sixth century, he not only travelled in Greek lands and on the shores of the Black Sea, but explored the interior parts of the Persian empire, and Egypt, which had been annexed by Cambises. Perhaps his travels extended to southern Spain. Everywhere he collected facts for a geographical work which was published under the title of a Map of the World. But this work ranged beyond the sphere of pure geography. There is no doubt that it contained, besides descriptions of countries and places, a great deal of ethnography and history, and specially it introduced the Greeks to oriental history and sketched for the first time the successive monrachies of Assyria, Media, and Persia. (...) Hecateus thus initiated the composition of ‘modern history’, though only in a work which was geographical in its title and main argument. He also wrote a work on the ancient history of Greece. It was a prose compilation from the genealogical epics. But, though its title, Genealogies, shows how potent the influence of the epics was, it was a critical investigation. The opening words are striking and might have stirred a reader to expectancy of a thoroughgoing and drastic revision of what currently passed for the ancient history of Hellas: ‘What I write here’, says Hecateus, ‘is the account which I considered to be true. For the stories of the Greeks are numerous, and in mu opinion ridiculous’. (...) But a clearer view of the attitude of Hecataeus may be derived from certain passages in Herodotus to which I shall have to draw attention in the next lecture. We shall then see that his scepticism in regard to the ancient history of the Greeks had been stimulated by the acquaintence he made in Egypt with the historical traditions of the Egiptians. There he made the discovery that in days when gods were supposed to be walking abroad on the hills and in the valleys of Hellas, Egypt at the fistance of a few days’ voyage was managed exclusively by mere human beings. It was an obvious inference that the age of the gods in Greece must be relegated to as remote a date as the age of the gods in Egypt, and that the heroic age of the not very distant ancestors of the existing Greeks must be divested of the supernatural atmosphere with which poetical fable had encompassed it” (Bury (1909: 11-14).

46 Bury (1909: 27-28).

47 Bury (1909: 41).

48 Bury (1909: 45).

49 Bury (1909: 37 e 41).

50 Bury (1909: 48).

51 Bury (1909: 46-47).

52 “Evidently we have here an invention of of Ionian spirit. The nature of the argument, dealing as it does entirely with Greek legend, shows that the Persian was a fictitious disputant; and the attribution of the theory to a Persian is in effect of literary subtlety quite in the manner of Voltaire” (54) (Bury, 1909: 54).

53 Bury (1909: 57).

54 Bury (1909: 71).

55 “Herodotus has failed to draw the line at what is physically impossible. The truth is that his faith and doubt are alike instinctive; he had never thought the problem out for himself; he had never clearly defined the border between the domains of the credible and the incredible. (...) The contrast of the naïveté of Herodotus with his scepticism imparts to his epic a very piquant quality. Credulity alternates with a cautious reserve ...” (Bury, 1909: 60).

56 “But that he did this service does not degrade his work into anything that could be described as a partisan publication in the offensive sense. It was pragmatical; it reflected the author’s political beliefs, and exhibited a stron bias in the preference given to Athenian sources. But it was the work of a historian who cannot help being partial; it was not the work of a partisan who becomes historian for the sake of his cause” (Bury, 1909: 65)

57 Bury (1909: 65).

58 Bury (1909: 44 e 72).

59 Bury (1909: 61).

60 Bury (1909: 58 e 74).

61 Bury (1909: 71).

62 Bury (1909: 76).

63 Bury (1909: 75-76).

64 Bury (1909: 82).

65 Buryy (1909: 77).

66 Bury (1909: 81).

67 Bury (1909: 90).

68 Bury (1909: 83).

69 Bury (1909: 108).

70 “It is further to be observed that when Thucydides makes occasional reflexions of his own, he never takes justice or morality into account, from which we may infer that in his estimation those conceptions did not illuminate the subject. He recognised that the ideal of justice was an actual psychological force and could not be neglected by statesmen, any more than popular religion. But he did not consider it worth while to apply the standard of justice in estimating political transactions, just as he did not ask whether an action was pleasin to the gods. (...) his interest lay in the logic of policy (...)” (Bury, 1909: 137).

71“that not justice but reason of state is the governing consideration which guides the action of cities and claims the interest of historians. We are now in a position to understand the attitude of Thucydides. His object is to examine and reveal political actions from an exclusively political point of view. He does not consider moral standards; his method is realistic and detached; he takes history as it is and examines it on its own merits” (Bury, 1909: 140-141).

72 “If, instead of a history, Thucydides had written an analytical treatise on politics, with particular reference to the Athenian empire, it is probable that he would occupy a different place from that which he holds actually in the world’s esteem; he would have forestalled the fame of Machiavelli. Thucydides simply observes facts; Machiavelli lays down maxims and prescribes methods; but the whole innuendo of the Thucydidean treatment of history agrees with the fundamental postulate of Machiavelli, the supremacy of reason of state” (Bury, 1909: 143).

73 Bury (1909: 146-148).

74 "Gibbon is one of those few writers who hold as high a place in the history of literature as in the roll of great historians. He concerns us here as an historian ; our business is to consider how far the view which he has presented of the decline and fall of the Roman Empire can be accepted as faithful to the facts, and in what respects it needs correction in the light of discoveries which have been made since he wrote. But the fact that his work, composed more than a hundred years ago, is still successful with the general circle of educated people, and has not gone the way of Hume and Robertson, whom we laud as "classics" and leave on the cold shelves, is due to the singularly happy union of the historian and the man of letters. Gibbon thus ranks with Thucydides and Tacitus, and is perhaps the clearest example that brilliance of style and accuracy of statement—in Livy's case conspicuously divorced—are perfectly compatible in an historian" (Gibbon, 1897: xxxi).

75 Bury (1897: xlii).

76 "It has been sometimes remarked that those histories are most readable which are written to prove a thesis. The indictment of the Empire by Tacitus, the defence of Caesarianism oratory by Mommsen, Grote's vindication of democracy, Droysen's advocacy of monarchy, might be cited as examples. All these writers intended to present the facts as they took place, but all wrote with prepossessions and opinions, in the light of which they interpreted the events of history. Arnold deliberately advocated such partiality on the ground that "the past is reflected to us by the present and the partyman feels the present most". Another Oxford Regius Professor remarked that " without some infusion of spite it seems as if history could not be written" (Bury, 1897: xlii).

77 "On the other side stands the formula of Ranke as to the true task of the historian : " Ich will bloss Banked view sagen wie es eigentlich gewesen ist". The Greek History of Bishop Thirlwall, the English Constitutional History of Bishop Stubbs himself, were written in this spirit. But the most striking instances perhaps, because they tread [seguir nas pegadas] with such light feet on the treacherous ashes of more recent history, are Ranke and Bishop Creighton. Thucydides is the most ancient example of this historical reserve" (Bury, 1897: xlii).

78 Bury (1897: xxxlviii)).

79 "In other words, the historical development of human societies, since the second century after Christ, was a retrogression (according to ordinary views of "progress", for which Christianity was mainly to blame. This conclusion of Gibbon tended in the same direction as the theories of Rousseau ; only, while Rousseau dated the decline from the day when men left Arcadia, Gibbon's era was the death of Marcus Aurelius. We are thus taken into a region of speculation where ever traveller must make his own chart. But to attempt to deny a general truth in Gibbon's point of view is vain ; and it is feeble to deprecate his sneer. We may spare more sympathy than he for the warriors and the churchmen ; but all that has since been added to his knowledge of facts has neither reversed nor blunted the point of the " Decline and Fall" (Bury, 1897: xxxlviii).

80 Not the least important aspect of the Decline and Fall is its lesson in the unity of history, the favourite theme of Mr. Freeman. The title displays the cardinal fact that the Empire founded by Augustus fell in 1461 ; that all the changes which transformed the Europe of Marcus Aurelius into the Europe of Erasmus had not abolished the name and memory of the Empire. And whatever names of contempt—in harmony with his thesis—Gibbon might apply to the institution in the period of its later decline, such as the "Lower Empire,11 or "Greek Empire", his title rectified any false impressions that such language might cause. On the continuity of the Roman Empire depended the unity of his work" (Bury, 1897: xliv-xlv).

81 " It cannot be said that Gibbon sat down to write with any ulterior purpose, but, as we have seen, he allowed his temperament to colour his history, and used it to prove a congenial thesis. But, while he put things in the light demanded by this thesis, he related his facts accurately. If we take into account the vast range of his work, his accuracy is amazing. He laboured under some disadvantages, which are set forth in his own Memoirs. (…) Recognizing that Gibbon was accurate, we do not acknowledge by implication that he was always right, for accuracy is relative to opportunities. The discovery of new materials, the researches of numerous scholars, in the course of a hundred years, have not only added to our knowledge of facts, but have modified and upset conclusions which Gibbon with his materials was justified in drawing (…). Having illustrated by examples the advantages open to an historian of the present day, which were not open to Gibbon, for dealing with Gibbon's theme,—improved and refined methods, a closer union of philology with history, and ampler material— we may go on to consider a general defect in his treatment of the Later Empire, and here too exhibit, by a few instances, progress made in particular departments" (Bury, 1897: xlii; xliv; liii).

82 Bury (1987: lvii).

83 " It is well to realize that the greatest history of modern times was written by one in whom a distrust of enthusiasm was deeply rooted.33 [33And who regarded history as "little more than the register of the crimes, follies and misfortunes of mankind " This cynicism was not inconsistent with partiality, with definite prepossessions, with a certain spite. In fact it supplied the antipathy which the artist infused when he mixed his most effective colours. The conviction that enthusiasm is inconsistent with intellectual balance was engrained (gravada, inculcada) in his mental constitution, and confirmed by study and experience. It might be reasonably maintained that zeal for men or causes is an historian's marring, and that "reserve sympathy"—the principle of Thucydides—is the first lesson he has to learn. But without venturing on any generalization we must consider Gibbon's zealous distrust of zeal as an essential and most suggestive characteristic of the Decline and Fall" (Bury, 1897: lvii-lviii).

84 A morte de Thomas Arnold, ocorrida em 12 de junho de 1842, as interrompeu em curso inacabado (confiram-se os informes de Henry Reed que editou as Introductiry Lectures: Arnold, 1884: 5).

85 Arnold (11884: 109).

86 Arnold (1884: 25).

87 Arnold (1884: 109-110).

88 Arnold (1884: 91).

89 Assim no caso do geógrafo que examina a realidade de um mapa: "But he who knows how to value a good map, is painfully aware of the defects of a bad one ; and he who feels these defects, would also value the opposite excellencies" (Arnold, 1884: 82).

90 Tomando por base a própria experiência pessoal como instância comprovadora da validade de seu argumento.

91 Arnold (1884: 108).

92 Arnold (1884: 109).

93 Arnold (1884: 109).

94 Arnold (1884: 109-110).

95 Arnold (1884: 111-112).

96 Arnold (1884: 112-113).

97 Em similar contexto de rescaldo dos anos de imediato pós-guerra, 1947, o General Marshall, em sua conferência de Princeton, utilizaria retórica de argumentos próximos aos empregues por Zimmern em 1921, com uma radical diferença de consciência quanto à da valiosidade sempre atualizada das lições políticas da história tucidideana.

98 Zimmern tem em mente aqui a célebre passagem da narrativa da stásis em Corcira, por ele assim traduzida: “The war-mood brought with it many and terrible symptoms such as have occurred and will always continue to occur, so long as human nature remains what it is; though in a severer or milder form, according to the variety of the particular cases”.

99 “From the standpoint of science, power normally goes hand-in-hand with welfare, in the sense that different manifestations of power arise as a rule in response to certain specific needs, and exist to safeguard certain specific interests” (79).

100 “In these burning words are recordedthe principles to which men must always turn when religious sentiment is weak, or non-existent. They reveal the arcana of the naturalistic and humanistic state” (55).

101 Similar preocupação aparece nos textos quer de Albert Thibaudet, especialmente em suas notas acrescentadas à edição de 1922, quer de A. E. Zimmer (1921) ou de Charles Norris Cochrane (1929).

102 “It is only in our own day, the day of fireside chats aimed directly at the electorate and over the heads of their representatives, of Gallup polls and multiple-signed telegrams and letters sent to administrative officers and members of Congress, that we find again so direct a pressure of the mass of the people, or organized blocs of the mass of the people, upon those who govern them” (38).

103 “The essential thing, however, is that they felt the need of explaining the brutal fact of national aggressiveness and territorial acquisition in terms of metaphysics and of justifying their conquests in terms of a morality which clearly demonstrated that it was for the good of the conquered to be subjected to their conquerors” (5)

104 Confiram-se tais dados biográficos sintéticos no estudo introdutório de Esther Barbé (Morgenthau, 2001: XIX a XLVI).

105 Uma primeira obra, Scientific Man versus Power Politics, aparece já em 1946.

106 Esther Barbé aponta esses dois âmbitos de contraposição epistemológica com que Morgenthau concebe suas primeiras obras: “En suma, sus obras capitales (Scientific Man vs. Power Politics, Politics among Nations y In Defense of National Interest) contienen ataques metodológicos y reproches morales contra el idealismo y contra el cientificismo dominantes, respectivamente, en la filosofía política y en la ciencia política de los Estados Unidos” (Morgenthau, 2001: XXVIII). Confiram-se ainda seus comentários externados às páginas XXXI-XXXII (“En efecto, el modelo realista de este último autor está pensado, en última instancia, para reformular la política exterior estadounidense. Conclusión a la que se llega una vez analizada en profundidad la teoría realista del autor de Politics among Nations en su triple dimensión: empírica, normativa y finalista. El análisis empírico de Morgenthau se presenta como alternativa a la interpretación idealista de las relaciones internacionales, dominante en el período de entreguerras y habitual entre los ideólogos de la política exterior norteamericana”).

107 Num artigo publicado em 1952 (“Another ‘Great Debate’: The National Interest of the United States”, The American Political Science Review, vol. XLVI.4), Morgentaus reitera os mesmos termos de sua reflexão original de 1948 (confira-se Morgenthau 2001: p. 100-101). Já na edição de 1978 (New York, Alfred Knopf), inclui-se, entre as referências a Lord Salisbury e Max Weber, a menção também de uma declaração de George Wahington no mesmo sentido: “Un ligero conocimeinto de la naturaleza human nos convencerá de que, para la mayor parte del género humano, el princípio rector es el interés; y que prácticamente todos los hombres en mayor o menor medida se hallan bajo su influencia” (Morgentahu, 2001: p. 51).

108 Martin Wight, A Política do Poder. Tradução de Carlos Sérgio Duarte, Brasília, Editora Universidade de Brasília, 1985, p. 16.

109 Pelos descortinos desse olhar Louis Halle memorizou, pelo ano de 1965, os passos iniciais do advento da Guerra Fria.

110 Kateb retoma a tese já formulada por John Finley Jr em 1947: “Finley concludes, surely correctly, that ‘the former alternative seems essentially what he had in mind’. In short, ‘readers at any like future period would consequently find his work useful as helping them to understand and even, in very general ways, to predict what was or would presently be happening then’. Thucydides’ History is thus ‘a manual of statecraft’. (p. 482)

111 “The lessons which Thucydides’ History of the Peloponnesian War teaches are anything but obvious. They support neither an idealistic nor a consistently realistic position. Thucydides seems to accept the general thesis of the Athenian imperialists that they had no choice but to hold on their empire; yet in specific instances he often seems to condemn their actions” (ix)

112 Na nota à guisa de Prefácio que abre a obra, Strauss informa que a mesma era o uma “versão ampliada da série de Conferências Page-Barbour, por ele ministradas na Universidade da Virgínia na primavera de 1962. A conferência referida por Kleinhaus.

113 Piety, Universality, and History: Leo Strauss on Thucydides. Humanitas XIX, n° 1 (2001): 68-95.

114 Embora a data de publicação da obra de Palmer (1992) seja anterior à da de Orwin (1994), as reflexões tucidideanas deste último antecedem, e informam, as do primeiro, já expostas em seus cursos e publicadas em uma série de artigos que vão de 1984 a 1989, todos referidos na bibliografia de Palmer.

115 ‘Thucydides’, writes Hobbes, ‘is one who, though he never digress to read a lecture, moral or political, upon his own text, nor enter into men’s hearts further than the acts temselves evidently guide him: is yet accounted the


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