Tucídides, ktema es aei: a História entre Ciência e Arte



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Palmer, não sem distilar uma leve dose de ironia para com os demais intérpretes da obra tucidideana, também afirma o aporte decisivo que a excepcional interpretação proposta por Strauss teve na consecução de seu estudo, por ele tomado como padrão de medida hermenêutica, de modo a ambiguamente apreciar (na medida em que assim redutoramente atenua) as contribuições dos demais, pois que reduzidas às suas afinidades straussianas, sejam elas reais e concretas sejam algo duvidosa ou ainda bizarramente atribuidas:

Much that has been written on Thucydides is excellent. L.E. Lord’s suggestion that this large body of outsdanding commentary reflects the qaulity of the original is perhaps sufficient explanation. But the work that has been most helpful to me in thinking about the implicit political theory of Thucydides is the long chapter on Thucydides in Leo Strauss’s The City and Man. The other work that I have found most useful is that which either anticipates Strauss’s later, more comprehensive interpretation, as do some of Werner Jaeger’s observations in his Paideia; that which has been fundamentally influenced by Strauss’s work, such as the remarkable series of articles by Christopher Bruell and Clifford Orwin, and Steven Forde’s recent book, The Ambition to Rule; or that which parallels much of Strauss’s discussion either consciously, as in the case of Lowell Edmunds excellent Chance and Intelligence in Thucydides, or unconsciously (apparently), as does W.R. Connor’s outstanding Thucydides.



It wiil be obvious to informed readers, then, that this essay is indebted in many points, both general and particular, to Struss’s interpretation of Thucydides”. (ix-x)

Da geração dos mestres (Strauss e mais especialmente Orwin) para a do discípulo partidário (palmer), o senso de confraria, por vezes algo maniqueísta em sua axiologia, se radicaliza, pois, por Palmer, tudo que há de bom e virtuoso na crítica tucidideana remete, em última instância e por algum modo (ou mais consistente ou mais suspeito), para Leo Strauss.


A questão, portanto, que inaugura a reflexão dessa hermenêutica da crítica tucidideana visa a circunscrever a identidade da obra de Tucídides relativamente aos horizontes da filosofia política, assim divergindo da orientação que antes a consagrara, ao longo da tradição ocidental, como narrativa historiográfica. Pela identidade assim (supostamente) (re)conhecida se determina o (precípuo) teor da hermenêutica tucidideana e, consequentemente, se apreende a verdadeira essência de seu pensamento.

O primeiro ítem abordado por Leo Strauss em seu capítulo tucidideano de The City and Man, justamente intitulado “Political Philosophy and Political History”, situa os parâmetros com que ele baliza tal proposta de circunscrição identificadora da práxis intelectiva manifestada por Tucídides em sua história.

Por um lado, argumenta Leo Strauss, entre a história de Tucídides e o campo da filosofia política há incompatibilidade e dissociação: ao passo que esta, a filosofia, projeta um modo de olhar que transcende a realidade concreta voltando-se para o mundo das idéias, especialmente fixando sua reflexão no tratamento do regime político ideal, aquela, a história, consagra um modo de olhar imanente sobre a vida política, imerso em suas turbulências e retratando suas vicissitudes e contingências. Por outro lado, entretanto, há afinidade e congruência entre a história de Tucídides e o horizonte da filosofia Política, já que as duas configuram teleologias suplementares, expondo ensinamentos que se completam, com Tucídides os buscando no retrato dinâmico da práxis e ação humana, enquanto Platão o faz no retrato estático do pensamento e discurso:

“However profound the difference between Plato and Thucydides may be, their teachings are not necessarily incompatible; they may suplement one another. Thucydides’ theme is the greatest war known to him, the greatest ‘motion’. The best city described in the Republic (and in the Politics) is at rest. But in the sequel to the Republic Socrates expresses the desire to see the best city ‘in motion’, i.e. at war; ‘the best city in motion’ is the necessary sequel to the speech on the best city. Socrates feels unable to praise properly, to present properly the best city in motion [Timaeus 19b3-d2, 20b3]. The philospher’s speech on the best city requires a supplement which the philosopher cannot give. The description of the best city which avoids everything accidental deals with a nameless city and nameless men living in an indeterminate place and at an indeterminate time (cf. Republic 499c8-d1). Yet a war can only be a war between this particular city and other particular cities, under these os these leaders, at this or that time. Socrates seems to call for the assistance of a man like Thucydides who could supplement political philosophy or complete it” (140).

Nem o entendimento dos modernos nem o dos antigos, por suas respectivas concepções de história, supera o impasse, arrazoa Leo Strauss.

Pelo (des)entendimento dos modernos, séculos XIX e XX (“a época do historicismo”), que assimila a história tucidideana por seu próprio estatuto de cientificidade, os equívocos se acusam por múltiplas diferenças: quer pelo enfoque do objeto (“Thucydides limits himself severely to military and diplomatic history and at most to political history; while he does not ignore the ‘economic factor’, he says amazingly little about it; he says next to nothing regarding cultural, religious, or intellectual history”); quer pela teleologia almejada (“his work is meant to be a possession for all times, whereas the works of the scientific historians do not seriously claim to be ‘definitive’”); quer ainda pelas liberdades ficcionais de sua heurística (“Thucydides does not merely narrate and explain actions and quote official documents but he inserts speeches, composed by him, of the actors”).

Pelo entendimento dos antigos - Aristóteles na Poética que dissocia a história da poesia dada a afinidade desta para com a filosofia contra a oposição daquela -, se Tucídides pode, ocasionalmente em sua obra, aparentar ser um historiador no sentido aristotélico ao consagrar uma narrativa de homogênea factualidade estruturada em ordenação cronológica linear (“I.97.2: “it is desirable and even necessary that we should have at our disposal a continuous, reliable, and clear account of men and cities did and suffered at all times, the account of each time being written by a contemporary”: p. 142), ao declarar, entretanto, por qual proposição ele estimava a razão de ser de sua obra como um todo, poderia parecer que Tucídides antes se aproximasse de um historiador-poeta (“Above all, Thucydides surely lets us see the universal in the individual event which he narrates and through it: it is for this reason that his work is meant to be a possession for all times. On the basis of the Aristotelian remark one is therefore compelled to say that Thucydides is not a historian simply but a historian-poet; he does in the element of prose what the poets do in the element of poetry”: 143). Aproximação de fundo aristotélico, entretanto, ainda deficiente, prossegue Leo Strauss, a ser também descartada (“Yet he is as little a historian-poet as he is a historian simply. While he states explicitly what he regards as his task, he does not state explicitly what he regards as the task of the historian. As a matter of fact, in contradistinction to Herodotus he never speaks of ‘history’; this fact alone could make one hesitate to call him a historian”: 143)

A solução do impasse, ao que propõe Leo Strauss, encontra-se no meio do caminho dessa trajetória histórica, justo na transição entre os antigos e os modernos, pois descortinada já por Hobbes:

At the time when the tradition stemming from Aristotle was being decisevely shaken, Hobbes turned from Aristotle to Thucydides. He too understood Thucydides as a historian as distinguished from a philosopher. But he understood the relation between the historian and the philosopher differently than did Aristotle. The philosopher’s part is ‘the open conveyance of precepts’ whereas history is ‘merely narrative’. History too then conveys precepts; to take the most important example, according to Hobbes, Thucydides’ work teaches the superiority of monarchy to any other form of government but specially to democracy. Yet at any rate in a good history ‘the narrative doth secretly instruct the reader, and more effectually than can possibly be done by precept.’ To support his assertion that Thucydides instructs his readers secretly, Hobbes adduces the judgements of Justus Lipsius and, above all, of Marcellinus: ‘Marcellinus saith, he was obscure on purpose; that the common people might not understand him. And not unlikely; for a wise man should so write (though in words understood by all men), that wise men only should be able to commend him.’ Since Thucydides is ‘the most politic historiographer that ever writ’, his reader ‘may from the narrations draw out lessons to himself: Thucydides does not draw out the lessons. Hobbes sees then the characteristic difference between the historian (or at any rate the most politic historian) and the philosopher in the fact that the historian presents the universals silently’” (143-4)
Fazer a leitura da obra de Tucídides transitar a consistência de sua interpretação do âmbito da historiografia para o campo da filosofia política constitui também a preocupação primeira da reflexão quer de Orwin quer de Palmer, ambos reiterando os mesmos passos da trama argumentativa originariamente concebida por Leo Strauss.

Orwin o faz em termos mais gerais, algo diluindo a densidade do arrazoado de Strauss. Primeiro aponta que o objeto de que trata Tucídides é natural ou obviamente identificável como o campo da vida política, assim reconhecível pela afinidade que assimila as experiências dos tempos antigos por ele retratados às suas similares do mundo contemporâneo:

Of all writers on politics, none stays closer than Thucydides to the world of the citizen and statesman. His work is surely not ‘academic’; this explains part of its attraction. In recording the emergence of the study of politics out of its practice, he shows us how the most political perspectives imply upon reflection a certain distance from political life. As an analyst, moreover, of societies, democratic and nondemocratic, subjected to the stress of a long and catastrophic war, he speaks more directly than any other ancient writer to our unquiet century” (p. 3)

O crítico, entretanto, desde logo se depara com um paradoxo, pois, apesar dessa naturalidade, ou obviedade, da natureza política da obra de Tucídides, a tradição consagrada de sua hermenêutica a situou como propriedade intelectual dos estudos clássicos, especialmente o definindo como historiador. Assim, para livrar a interpretação dos estorvos deste extravio disciplinar cristalizado pelo mundo acadêmico, Orwin vê-se compelido a solapar os fundamentos equívocos dessa expropriação, concomitantemente identificando na vertente da filosofia política a melhor tradição de leitura e entendimento da obra, assim insistindo no apelo à tradição de leitura que Hobbes lançara:

Even so, some may find it surprising that a political scientist should write about him. He is, after all, usually called a historian, and custody of him has passed to our professor of classics and ancient history.

In fact Thucydides, who predates the division of intellectual life into disciplines, never calls himself a historian or anything else, except simply Thucydides an Athenian, who ‘wrote up’ (xynegrapse) the war that we call Peloponnesian. We call him a historian because he limited himself to describing this particular series of events. As he makes clear, however, his aim is to expound their general and lasting significance (1.22.4; cf. 3,82.2). He seeks to display them sub specie aeternitatis (cf. 1.10), for the benefit of whoever might seek to understand the permanent contours of politics.

The greatest of Thucydides’ English readers, Hobbes, extolled him for his success at this ambitious task. Hobbes saw Thucydides as of all ancient writers the one most worth reading, the political historian par excellence, ‘the most politic historiographer that ever writ’. For Hobbes the difference between the political philosopher and the political historian was only that whereas the former instructed openly by means of precepts, the latter did so onlu implicitly or covertly: ‘[T]he narrative doth secretly instruct the reader, and more effectually than can possibly be done by precept’. The reader may ‘from the narration draw out lessons to himself’. What Thucydides offers, through the unsurpassed artfulness of his narrative, is a vicarous experience of the events that he describes, for which no dogmatic presentation of the truths of political life could substitute. Yet we can benefit from his achievement only to the extent that we strive to ‘draw out lessons to ourselves’, that we participate as readers of a great book must always participate.

Thucydides thus belongs, according both to his own intention and to the judgment of such men as Hobbes and Rousseau, to studentes of political life of whatever time and place. It is these whose possession for all time (1.22.4) his book was to be, and to whom I have addressed mine” (3-4)

Já Palmer enrijece mais estreitamente os contornos da argumentação, deixando transparecer apreciações algo mais ou intolerantes ou intransigentes, por vezes tingidas de retórica afeita a leves pedantismos (ou por vagas ironias ou por parcialidades orgulhosas de própria confraria), a firmar posição algo imperativa nessa verdadeira “batalha acadêmica” de apropriação intelectual da obra de Tucídides, assim por ele decidida exclusivamente em prol da filosofia política, especialmente hobbesiana, que deteria a chave hermenêutica para seu correto, porque mais profundo e aprimorado, entendimento:

“’Thucydides, an Athenian, wrote the war between the Peloponnesians and the Athenians’ (1.1.1), which occurred during his lifetime, and the narrative has been read ever since. But it has been read differently at different times by different readers. Modern Thucydidean scholars have waged a veritable battle over how to read the narrative. The poles of the debate have been whether Thucydides should be read as a historian in the modern sense of scientific history (or at least proto-scientific history) or as a kind of dramatic poet writing a prose tragedy, the ‘Tragedy of Athens’. But virtually everyone now acknowledges that Thucydides is a very strange kind of historian. I believe, however, that the reason readers found much of Thucydides’ narrative strange in the first place is that they approached his book with several insufficiently examined assumptions that created unnecessary interpretive difficulties both for those who believe he was, or aspired to be, a scientific historian, and for those who believe he was not. I belive that if we suspend these assumptions altogether, if we force ourselves to become naive again in our approach to the narrative, that we will see that our understanding is deepened and many of the traditional difficulties obviated (to be replaced, to be sure, by new, more fruitful ones) if we read him neither as a historian nor as dramatic poet, but essentially as a political philosopher.” (1)

Mimetizando, não sem alguns deslizes, os argumentos de Leo Strauss, Palmer tece seu arrazoado ancorando mais uma vez a hermenêutica de Tucídides em Hobbes:

“So much for a brief sketch of some of the basic questions of modern Thucydidean historiography. Let us journey beyond the horizon of our own time and leave our baggage behind. Let us begin to ascend from our cave with the guidance of a philosopher.

Thomas Hobbes, the great translator and surely one of the greatest students of Thucydides, found most remarkable not he historical, nor the scientific, nor the dramatic aspects of the narrative, but the political. ‘Thucydides’, writes Hobbes, ‘is one who, though he never digress to read a lecture, moral or political, upon his own text, nor enter into men’s hearts further than the acts temselves evidently guide him: is yet accounted the most politic historiographer that ever writ’. What is it, precisely, that makes Thucydides writing ‘most politic’? Hobbes continues: ‘He filleth his narration with that choice of matter, and ordereth them with that judgment, and with such perspicuity expresseth himself, that, as Plutarch saith, he maketh his auditor a spectator ... So that look now how much a man of understanding might have added to his experience, if he had then lived a beholder of their proceedings, and familiar with the men and business of the time: so much almost may he profit now, by attentive reading of the same here written. He may from the narrations draw out lessons to himself, and of himself be able to trace the drifts and counsels of the actors in their seat.’

(...) I do not necessarily mean to detract from the achievements of recent generations of Thucydidean scholars when I say that, although they seem almost universally aware of it, their work was substantially anticipated by Hobbes view of how Thucydides wrote his book, and that Hobbes’s view, combined with what he called ‘attentive reading’, has always been suffcient to reveal Thucydides’ method. I further submit that if we are ever to plumb the depths of Thucydidean wisdom, we must not only adopt Hobbes’s view of how Thucydides wrote his book as the key to understanding how to read it, but must agree with Hobbes as to why we read Thucydides: desire for greater clarity concerning the fundamental and permanent questions of political life” (5-6).
De Hobbes, que qualificara Tucídides como “the most politic historiographer that ever writ”, para Palmer, que assim também lembra justo essa citação hobbesiana para, todavia, logo em seguida esquecer uma metade de sua definição (“historiographer”), dela retendo apenas a parcialidade do “politic”115, radicaliza-se a orientação de leitura que reduz a hermenêutica da obra tucidideana a uma sua definição de filosofia política.

As argumentações então arrazoadas pelos críticos modernos ao assim resgatarem em Hobbes o patrono por que configuram a autoridade que fundamenta as teses de suas leituras tucidideanas – Leo Strauss, Clifford Orwin e Michael Palmer – não deixam, entretanto, de acusar desvios especiosos na lógica de suas tramas de inferências analíticas.

Assim, tais críticos zelam por discernir diferenças de conceituações entre antigos e modernos, então argumentando contra a figuração da identidade historiográfica de Tucídides. Dizem os críticos (Strauss116, Orwin117 e Palmer118) que ele não selara sua obra por tal firma denominadora, nem mesmo sequer nela empregando o termo historia. Dado, entretanto, que a denotação desse conceito antigo (investigação, pesquisa) não corresponde precisamente ao de sua denotação moderna (narrativa factual de linearidade cronológica), acusa-se a impropriedade da qualificação identificadora apelando para a ausência do conceito antigo, quando a aproximação de propriedade é antes estabelecida pelo teor da prática narrativa, razão mesma por que Ranke via em Tucídides um modelo.

Esse mesmo procedimento analítico que joga com a (in)conveniência de transitar confusamente a argumentação entre as apreciações dos antigos e as dos modernos, transparece também nas referenciações feitas ao conceito de historia elaborado por Aristóteles: ora os críticos, como Strauss, relevam em suas argumentações a diferença de forma narrativa (“prose” versus “poetry”) que justamente Aristóteles descartara; ora, como Palmer119, as catalisam pela consideração da antítese “ficção compositiva” contra “realidade factual”, assim abusivamente extrapolada para os procedimentos de que se valera Tucídides para a reconstituição dos “discursos”120.

Todos (Strauss, Orwin e Palmer) valem-se da argumentação hobbesiana que deteta no estilo narrativo de Tucídides, o qual apenas encoberta seus ajuizamentos e preceitos por meio de uma indutora arte silenciosa, a indiciação comprovadora de sua configuração como filosofia política. E, todavia, as referenciações antigas de que Hobbes então se vale, quer a menção feita a Marcelino quer especialmente a feita a Plutarco, situam o procedimento tucidideano propriamente no âmbito dos recursos retóricos que antes distinguem a história como gênero de arte compositiva. Também Rousseau, na passagem do Emílio posta em epígrafe por Orwin121, estabelece em sua reflexão, justo pelo recurso a essa mesma lembrança ao comentário de Plutarco122 igualmente feita por Hobbes, o reconhecimento de que Tucídides integra-se na linhagem dos historiadores, a que justamente então o filósofo intentava selecionar quais, por suas excelências de virtuosidade pedadógica, fossem recomendáveis para a educação do jovem discípulo.
Para livrar a hermenêutica da obra tucidideana do fardo opressor de sua identidade historiográfica, cristalizada do século XIX para o XX em império do historicismo como o adverte Leo Strauss, temos que submetê-la à camisa-de-força da filosofia politica, como o propõe mais rigidamente Michael Palmer, todavia, também manietadora? Afinal, se a obra de Tucídides antedata a segmentação epistemológica do saber em um mosaico de disciplinas diferenciadas, como o lembra Clifford Orwin, por que continuamos a impor-lhe uma problemática que não lhe corresponde no horizonte de sua historicidade? Não podemos compreender a obra de Tucídides sem que o seja pela mediação dessa projeção de uma identidade catalagodora?

Tucídides, do neorealismo político ao politicamente correto: uma crônica americana


Pelos anos 1970, com o declínio das tensões entre as superpotências que dominaram os conflitos da Guerra Fria, a tradição do pensamento político realista redirecionou os focos de sua abordagem, acertando-os pelos novos rumos tomados pelas relações internacionais. A atenção dos teóricos, que antes, no auge da Guerra Fria, estivera primordialmente centrada nas questões da segurança nacional, descurando a apreciação dos fatores e elementos de ordem econômica – Henry Kissinger, ao que ajuiza Robert Gilpin, por formação acadêmica mais inserção governamental, beira “a quase que total inocência no que respeita aos interesses econômicos subjacentes aos fluxos das aspirações políticas” -, agora, com a prevalência das questões comerciais, monetárias e financeiras no cenário mundial, imantava a atualidade de sua reflexão também por estas atrações.123

Os primeiros, ditos Realistas Clássicos (E.H. Carr, Hans Morgenthau, Henry Kissinger, John Herz), já buscavam apoio para suas teorias em Tucídides. Os segundos, ditos ou Neorealistas ou Estruturalistas, algo reagindo contra aleivosias que neles acusavam empobrecimentos teóricos por desenraizamento e perda das heranças do pensamento clássico, não deixaram por menos, elegendo a mesma figura de patrono por que lastreavam o prestígio da nova abordagem. Para Robert Gilpin, um olhar, desde que dotado de certa acuidade econômica contemporânea, bem pode vislumbrar na História de Tucídides as similitudes de enfoque que revelam “o primeiro economista político”:

The new realists may best be seen, I believe, as returning to the roots of the realist tradition. In all historical epochs, realist thinkers have focused on the economic dimensions of statecraft. Thus, Thucydides’ History can be read as an examination of the impact of a profound commercial revolution on a relatively static international system. The expansion of trade, the monetization of traditional agrarian economies, and the rise of new commercial powers (especially Athens and Corinth), as he tell us, transformed fifth-century Greek international politics and laid the basis for the great war that eviscerated Greek civilization. Every thing – well, almost everything – that the new realists find intriguing in the interaction of international economics and politics, can be found in the History of the Peloponnesian War: an expanding, interdependent “world” economy; the political use of economic leverage, i.e., the Megara Decree; and even colflict over energy resources, in this case the wheat to fuel men’s bodies. These and other economic factors enter into all aspects of Thucydides’ analysis of the war and its causes. In spirit and substance he may be said to have been a political economist – perhaps the first – and almost all realists have followed him in this appreciation of the intimate connection between international politics and international economics (p. 308-9; grifos meus)



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