Tucídides entre os Philosophes em tempos de Revolução



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Tucídides entre os Philosophes em tempos de Revolução

(de Hobbes a Levesque)

Francisco Murari Pires


Prólogo:

Tucídides Parlamentar
A 5 de setembro de 1774 reunia-se na Filadelfia (Pensilvânia) o (assim posteriormente nomeado) First Continental Congress que respondesse pelo debate das diretrizes a ordenar os desígnios de autonomia das colônias americanas. Por resultado de suas deliberações que se extenderam por mais de um mês (até 26 de outubro), um Comitê composto por três delegados1 redigiu os documentos e memoriais fixando a definição do programa político almejado: A Declaration of Rights and Grievances, Petition to the King's Most Excellent Majesty, Address to the People of Great Britain, Memorial to the Inhabitants of the British Colonies, Addres to the Inhabitants of Quebec.

Pouco mais de dois meses depois, a 20 de janeiro de 1775 em pronunciamento na House of Lords, William Pitt (Lord Chatham) reconhecia cabalmente nos debates travados no "General Congress at Philadelphia" competência de retórica deliberativa tal que os equiparava, senão superava, ao nível de excelência de Tucídides: " When your Lordships look at the papers transmitted us from America; when you consider their decency, firmness, and wisdom, you cannot but respect their cause, and wish to make it your own — for myself I must declare and avow that, in all my reading and observation, and it has been my favourite study — I have read Thucidydes, and have studied and admired the master states of the world — that for solidity of reasoning, force of sagacity, and wisdom of conclusion, under such a complication of difficult circumstances, no Nation or body of men can stand in preference to the General Congress at Philadelphia. I trust it is obvious to your lordships, that all atempts to impose servitude upon such men, to establish despotism over such a mighty continental nation, must be vain, must be fatal."2.

Nas vésperas, pois, da Revolução Americana, alude-se à figura do Tucídides parlementar que Pierre-Charles Levesque, já nos estertores da Revolução imediatamente seguinte (a Francesa de 1789), especialmente consagra ao declarar em sua tradução da Guerra dos Peloponésios e Atenienses composta em 1795: “Thucydide est, de tous les historiens, celui qui doit être le plus étudié dans les pays où tous les citoyens ont quelque part au gouvernement. Un membre très-éclairé du parlement d'Angleterre disait qu'il ne pouvait s'agiter dans les chambres aucune question sur laquelle on ne trouvait des lumières dans Thucydide"3.

Mas tal zelo e vocação de domínio parlamentar intrigava também, ao que expressamente foi advertido a primeiro de abril de 1775 pelos próceres da metrópole (Address of the People of Great Britain to the Inhabitants of America), (soberba) lição de (in)competência deliberativa nestes termos dirigida à similar pretensão avançada pela colônia: "for if you are permitted to throw off these badges of supremacy, as madmen may call them, you are that instant independent States; you will form yourselves into independent Principalities, Republicks, and we fear Anarchies. A new political system will arise, not in Europe alone, but in the world. Foreign Nations will intrigue in your Assemblies; you will engage in wars with them, with us, and with your sister Provinces. This is not all. In Governments formed suddenly, and which, therefore, must be imperfect, you will fall into dissensions among yourselves, so that all the miseries of foreign, of civil, and of domestick war, will be accumulated on your heads. We wish that your Congress, which is so learned in the principles of the great Montesquieu, were equally learned in the condition of the Greek States, during the Peloponnesian war, a condition exactly similar to what yours would be, as described by the great Thucydides. The individuals of it would there learn, that those demagogues, who, from restlessness of temper, or ambition of making themselves conspicuous above others, plunged their countries into disorders and calamities, were often the first to fall by the hands of their countrymen"4.

A fama porque, pois, se fazia decantar a figura parlamentar de Tucídides no último quarto do XVIII tinha por agente catalisador o espírito (burguês) da Revolução, não sem, entretanto, acusar sua contrapartida de espectro popular, mais especialmente acentuada nos dias de Levesque que conhecera os anos do Terror.
O pânico da fantasmagoria vislumbrada na revolução popular (dita virtuosamente democracia, viciosamente anarquia), tinha por princípio moderno dos debates filosóficos Hobbes.

Hobbes


1. the most politic historiographer

Em uma célebre passagem do Leviathan (part II, chapter 21)5, Hobbes atribui as malfadadas mazelas e cruentos infortúnios da Guerra Civil no mundo ocidental ao mimetismo com que os modernos encareciam as doutrinas civis que os antigos gregos e romanos haviam consagrado assumindo-as como suas concepções e teses de ordenação política. A autoridade prestigiosa de Aristóteles e Cícero os induzira ao erro, verdadeiro equívoco e ilusão, de acreditar no logro firmado em nome de um falso ideal de Liberdade, verdadeiro estopim de tumultos instigando sedições por (in)consequentes deposições de soberanos. Assim os modernos reiteravam apenas os preconceitos dos antigos regimes populares, democracia entre os gregos e república entre os romanos, que em nome desse especioso ideal propugnavam arraigados ódios contra a monarquia, regime que, pelo contrário, fora por eles marcado com o estigma da escravidão.


Ecoam, ao que dizem os críticos, vozes tucididianas na formulação do realismo político de Thomas Hobbes porque a semântica conceitual de seus axiomas e teorias responda pela repercussão de congêneres categorias já concebidas pelo historiador antigo. Uns reconhecem nessas ressonâncias de vozes entre historiador antigo e filósofo moderno, harmonias de árias de realimo político clássico (Schlatter, 1945). Já outros, por já aguçada sensibilidade algo avessa aos cantos dos (neo)realismos modernos, acusam dissonâncias porque se exima Tucídides das cacofonias da power politics (Ahrensdorf, 2000).
No ano de 1620 publicou-se em Londres um volume intitulado "Horae Subsecivae. Observations and Discourses", de que não se identificava o autor. Quando de sua republicação dezessete anos depois, em 1637, vinha agora selado com o nome (identificável6 com o) de William Cavendish, segundo Conde de Devonshire, morto em 1628. Porque o Conde tivera por tutor e também, em seguida, secretário e conselheiro até sua morte, ninguém menos que Thomas Hobbes, já Leo Strauss, que examinou os manuscritos de Chatsworth em 1934, suspeitava a mão e as concepções de Hobbes na composição dos textos que integravam a obra.7 Mais recentemente, num artigo datado de 1993, Noel B. Reynolds e John L. Hilton8, da Brigham Young University, submeteram a obra à análise estatística dos indícios linguísticos de redação que identifiquem padrão compositivo de uma autoria específica, concluindo pela hobbesiana. A tese tanto, por um lado, ganhou aceitação entre os comentadores de Hobbes (uns sob reservas algo hesitantes ou desconfiadas9, outros mais decididos e convictos10), quanto, por outro, também deparou-se com recusa senão rejeição (por uns, antes cética e questionante11, por outros, já mais contundente porque se avente a estupidez do método estatístico de (i)reconhecimento de autoria12).

Quer porque seja identificado como o autor mesmo de um dos ensaios nela inseridos - Discourse upon the Beginning of Tacitus -, quer porque se reconheça apenas sua contribuição como mentor intelectual, o percurso reflexivo do jovem Hobbes cruzava as trilhas do tacitismo13, as quais haviam avançado também pelas domínios da corte inglesa nos anos da realeza Tudor a Stuart, de Elizabeth a James I e seus filhos, mais seus circundantes círculos intelectuais, de Ben Jonson a Francis Bacon.14

Na década que se segue ao longo dos anos 1620, o envolvimento de Hobbes com os historiadores antigos inflete, entretanto, sua atenção, afastando-se de Tácito15 e voltando-se para Tucídides: em 1628 [1629]16 o filósofo traduz Eight Bookes of the Peloponnesian Warre.
Ao apresentar sua obra, a atenção de Hobbes se volta para duas ordens de destinatários, cuidoso de com eles dialogar no intuito de esclarecer e orientar seus respectivos olhares de leitura. Pelo primeiro diálogo, ele compõe a Epístola dedicatória da obra To the Right Honourable Sir William Cavendish, Knight of the Bath, Baron of Hardwick, and Earl of Devonshire: assim a consagra à memória do pai, o segundo Conde, recém falecido, dirigindo-se à pessoa do filho, o terceiro Conde, ainda menino, dez anos de idade. Pelo segundo diálogo, ele compõe outro texto introdutório, a discorrer agora suas justificações em advertências To the Readers. Por aquele primeiro texto Hobbes firma a gratidão e lealdade de seus deveres de servidor humanista na casa dos nobres senhores, a assim reconhecer-lhes a “bondade” e a “indulgência” porque sempre lhe renovem seus favores17. Já pelo segundo texto ele se preocupa, pelo contrário, em desarmar o desfavor do público leitor, antes afeito à “censura” em desconsiderar o trabalho de uma assim ingrata obra de tradução, bem ciente de que “as traduções têm por característica própria poder causar muita desgraça, se não forem bem feitas, mas, caso o sejam, pouco recomendarem quem a fez”18.

Quer a um quer a outro destinatário, o mesmo desígnio que expõe a razão de sua escolha, disponibilizando-lhes a História de Tucídides em boa fala inglesa: historia magistra vitae19. Ao nobre Senhor, Hobbes recomenda a valiosidade própria do conhecimento da história enquanto capacitação de discernimento consciente das eternas lições com que dialogam passado e presente: “Pois na história, as ações honrosas e desonrosas aparecem direta e distintamente, qual é qual; todavia, em nossos tempos elas estão tão escamoteadas que são poucos, apenas os mais são atentos, que não sejam assim grosseiramente ludibriados”20. Ao Público leitor, Hobbes adverte correspondente benefício sapiente da história, fonte provedora de previdência prudente: “Dado que o propósito principal e próprio da história é instruir e capacitar os homens, por meio do conhecimento das ações passadas, a guardar prudência no presente e previdência face ao futuro, não existe nenhum outro que, humano, o realize com maior naturalidade e plenitude do que este meu autor”21.


Pela Carta dedicatória ao Conde Hobbes zela, pois, por seus deveres de tutor, dispondo os preceitos com que instrui a educação do jovem herdeiro.

Primeiro, dispõe diante de seus olhos o retrato espiritual do pai, o velho conde, compondo-o como verdadeiro panegírico à sua nobreza virtuosa. A figura paterna realizava, por índole natural da melhor dignidade contenciosa, ou seja, que não descai em afetações de exibicionismos egoístas, o ideal humanista que propugna afeição ao estudo das artes que cultivam a liberdade, especialmente história e ciência política, apanágio próprio de “grandes pessoas” por duplo proveito, a tanto bem governar sua própria vida quanto zelar pelo bem público22. Justo assim fora sua vida, fulgor de virtudes: espírito público de trajetória impoluta, livre de ambições e facciosismos, a perseverar apenas reta justiça; excelência de distinção humana intelectiva por capacidade ajuizante de perfeito conselho, assim completado por conseqüente expressão e respaldado por imperativo de exemplo pessoal no seguir seus preceitos; excelência também de caráter humano, primoroso de amizade, franqueza, integridade e lhanura, a bem observar as dignidades apropriadas às distintas relações sociais, porque superiores, entre si, tratam-se por iguais e, com inferiores, conjugam familiaridade com respeito23. “Em suma”, diz Hobbes, o velho conde era o espelho da nobreza enquanto virtude: “em quem plenamente se podia perceber que honra e honestidade são o mesmo por distintos níveis de pessoas”. Pelos teores do saber retórico de Hobbes ressoam na figuração do conde de Devonshire ecos amplificados da areté pericleana celebrada por Tucídides.

Então, da parte do senhor, que o filho se espelhasse pelo pai, mimese própria de sua herança. Razão porque, da parte do servidor, Hobbes figurava a mimese própria da oferenda antiga, devidamente secularizada: “E então, imitemos nisto a veneração piedosa dos gentios que, em suas oferendas aos deuses, traziam e davam outra igual a suas estátuas. Trago-vos e vos dou este meu presente, A HISTÓRIA DE TUCÍDIDES, traduzida para o inglês com tanto mais diligência do que elegância, a Vossa Senhoria; que sois a imagem de vosso pai (pois, jamais se viu cópia tão exata de um homem do que a dele em vós), e que tendes em vós as sementes de suas virtudes já brotando: humildemente suplicando Vossa Senhoria que a aprecie dentre os bens que vos alcançam e a leia oportunamente”24. Nobreza na (con)formação do jovem conde, pois, de dupla herança: por natureza e por cultura, quer pela vida da figura paterna quer pela história de Tucídides, ambas sementeiras de virtudes.

Tucídides, pelo imaginário discursivo hobbesiano, dispõe então o duplo antigo do pai moderno, similarmente a como a figura da estátua corporifica a presença terrena do deus. Também ele, o historiador antigo, distinguido por sangue régio a correr-lhe nas veias: “Poderia vos recomendar este autor sem impertinência, pois, em suas veias corre sangue de reis”. Condição de nobreza bem (re)afirmada por condizente excelência de obra virtuosa: “Mas prefiro recomendá-lo por suas obras, que trazem proveitosas instruções aos nobres, tais que propiciem a condução de grandes e portentosas ações. Pois posso confiantemente dizer que, não obstante os excelentes exemplos e preceitos de virtude heróica que tendes em casa, este livro não contribuirá pouco para vossa formação; especialmente porque chegas àqueles anos em que se modela a vida pela própria observação”.25 Quem é nobre ensina nobreza a nobres, extravazando grandiosidade.

Por Tucídides e sua História, o jovem conde de Devonshire complementaria sua formação a ganhar autonomia de discernimento ajuizante. Complemento educacional que assim prolongava e desdobrava, agora graças a este dom público que Tucídides legara aos pósteros, as lições e ensinamentos que ele já privilegiadamente usufruira em sua própria casa, pela graça da virtuosa herança heróica da figura paterna, o velho conde, de similar identidade onomástica, o qual, pelo estudo da história moldara sempre a retidão de suas condutas cívicas: “Pois ele aplicou a maior parte de seu estudo ao aprendizado daqueles conhecimentos que mais merecem os esforços e tempo dos grandes, a história e a ciência cívica, tendo por finalidade não ostentar seu saber, mas sim tomá-lo como orientação de vida e para o bem público. Pois ele entregava-se à leitura de modo que o aprendizado tirado desse estudo fosse elaborado pelo discernimento e convertido em sabedoria e talento em benefício de seu país, ao qual se dedicava pessoalmente com zelo, todavia isento de qualquer ardor de partidarismo ou de ambição. Porque era dotado de imensa capacidade, pela integridade de seus conselhos e clareza de manifestação, no trato de questões tão difíceis quanto relevantes, sejam públicas sejam privadas, que assim ninguém conseguia removê-lo para cá ou para lá da reta via da justiça”.26

Porque se assimila a figura do historiador antigo à imagem do pai por consonância de similares virtuosidades e excelências, tanto mais se reforçam as projeções miméticas por que o aristocrata inglês deve estudar a história27. Então, que tanto do pai quanto do historiador antigo o jovem tire os modelos de conduta quer por reverente filho quer para bom cidadão, assim reclamados pela nobreza de suas origens cavalheirescas de honorífico destino público grandioso augurado para sua casa aristocrática. Pelo espelho paterno já vivera na casa dos Cavendish a figura virtuosa de Hércules. Na produção dessas imagens de heroicidade, Hobbes integra a glória de Tucídides, por sangue régio mais história virtuosa.


Pela "Notícia aos Leitores" Hobbes ressalva as razões que projetam essa especial valia que a História de Tucídides comporta perante seus contemporâneos, especialmente recomendável aos nobres e aristocratas integrados à corte régia dos Tudor.

Principia seu argumento referendando a tese do primado dos antigos na proposição dos conhecimentos que compõem os studia humanitatis, assim definindo, para cada domínio intelectivo, uma singular excelência: Homero para a poesia, Aristóteles para a filosofia, Demóstenes para a eloqüência, além de outros.28 Plêiade de heróis que tripulam a Argos da ciência antiga alcançando os modernos em sua viagem sapiente pelo tempo. Em meio a todos eles Hobbes reconhece também a fama de Tucídides, ali figurando em nome da história. Por sua obra a ars historica alcançara a altura de perfeição a que a condição humana pudesse aspirar29.

Duas ordens de parâmetros compositivos respondem pela perfeição da história: verdade e expressão. Pela afirmação da verdade o historiador provê a alma da história30, fundamento de princípio formal ou espírito reflexivo que lhe assegura realidade factual, pois, sem veracidade sua escrita não passaria de representação artificial, apenas imagem figurativa, como num retrato desprovido de vida. Pela conformação da expressão o historiador dispõe em texto o corpo da história por modo narrativo que provê instrução, princípio teleológico que comanda o desígnio e razão de sua proposição mesma.31
Por quais condições, circunstâncias e disposições respeitantes a um e outro domínio (veracidade e expressão), pode Tucídides, pergunta-se Hobbes, conjugar excepcional complexo de fundamentos e virtudes porque compusesse história assim primorosa, a alcançar a perfeição?

Que sua história fosse perfeita o corroboram, antes de tudo, quer a fortuna irreprochável da confiabilidade de sua história, jamais questionada, quer a reputação indubitável da fidedignidade verídica de sua pessoa, insuspeita de quaisquer desvios mentirosos, fossem por desígnios pessoais fossem por desleixos ignorantes.32 A fama mesma do nome de Tucídides assevera já figura de autoridade.

De desleixos ignorantes da verdade jamais foi vítima. Primeiro porque afastou de sua história o passado remoto, alternativa de tempo histórico que inviabiliza autonomia historiográfica, ficando a veracidade do relato na dependência de eventual contaminação por outrem, e não assegurada por conhecimentos constituídos pelo próprio historiador. E então, assim restringindo sua história aos acontecimentos do presente por ele próprio experienciado, pode coletar, por diligência primorosa e inteligência criteriosa, os informes autênticos dos fatos ocorridos, registrando-os de imediato quando ainda frescos na lembrança, graças a duas ordens de primazias que o distinguiam pessoalmente: honorabilidade conjugada com riqueza.33

Sua honorabilidade conjugada com riqueza respondia por origem nobre, condição de berço.

[retomar de Bodin: as fontes de que retira os informes / nexos Hobbes/Bodin, especialmente Methodos ... artigo específico]
O nome de Tucídides designa, pois, conceito de excelência de historia magistra vitae, compêndio luminar de ensinamentos de prudência previdente: “Dado que o propósito principal e próprio da história é instruir e capacitar os homens, por meio do conhecimento das ações passadas, a guardar prudência no presente e previdência face ao futuro, não existe nenhum outro que, humano, o realize com maior naturalidade e plenitude do que este meu autor”34.
Tucídides dispõe primor de historia magistra vitae porque, diz Hobbes, primeiro de tudo as lições provêm da história mesma, fato de sua natureza própria enquanto narrativa, e não produto artificial incorporado intelectivamente pelo historiador. Tucídides realiza em sua obra a essência mesma que define a história: narrativa dos acontecimentos. O historiador, assim, nem se sobrepõe aos fatos de fora e ao alto da história, inserindo-lhe reflexões discursivas que nela refletem antes o saber de sua própria filosofia moral35; nem, tampouco, se impõe aos fatos, intrometido dentro e no fundo da história, especulando, ao sabor dos caprichos dos movimentos de sua pena, “sutilezas de conjecturas à guisa de perscrutar no silêncio dos agentes os segredos recônditos de suas motivações e desígnios36. O historiador, pois, não obra posicionado nem acima nem sob a história, nem depois e além nem antes e aquém dela, pelo contrário, a narrativa que dela ele dá a revela em si mesma, a re(a)presenta, dispondo o equivalente discursivo da manifestação inerente de seus próprios fatos.
Por essas razões, e não pelo (des)entendimento das que convencionalmente se imputa aos propugnadores de filosofia moral, a fama de Tucídides é plenamente justa: “the most politic historiographer that ever writ”. Tal é precisamente o princípio de excelência porque prima a arte de escrita da história, que não contamina a narrativa com a presença do historiador, quer exposta em preleções digressivas quer dissimulada nos corações dos personagens37. Arte, pois, que dele reclama as virtudes da inteligência no discernimento seletivo que ordena a concatenação dos acontecimentos com a mestria perspicaz e consequente de sua formulação expressiva38. O olhar de Plutarco que ajuíza a fama de Tucídides assim alcança e (con)funde-se com e no de Hobbes: “ele torna seu ouvinte um espectador, pois ele situa seu leitor nas assembléias populares e no senado, em meio a seus debates; nas ruas, em meio a suas dissenções; e nos campos, em meio a suas batlhas”39.

A valia da história de Tucídides atravessa o tempo porque o proveito das lições experientes do passado atualize-se pelos dilemas (re)vividos no presente.40 Os traços historiográficos tucidideanos, assim delineados pelo olhar de Hobbes, dizem sua História como excelência de historia magistra vitae, inscrição histórica da prudência e, pois, ciência humanista da política. A Clio tucidideana entre meados do XVI a meados do XVII transitava, pois, sua identidade das diretrizes retóricas da ars historica (re)tomada aos Antigos para constituir os fundamentos modernos da ciência política.


2. The three principal causes of Quarrell

Reconhecem-se ecos tucididianos na formulação do axioma com que Hobbes define as causas naturais dos conflitos humanos que mobilizam o advento histórico do poder: "So that in the nature of man, we find three principal causes of quarrel. First, competition; secondly, diffidence; thirdly, glory"41. A similar declaração tucididiana diz dos móbiles humanos que promovem o poderio (ou império: arché), nestes termos traduzida por Hobbes: " So that at first we were forced to advance our dominion to what it is, out of the nature of the thing itself; as chiefly for fear, next for honour, and lastly for profit"42.

Uns, em tempos de recém finda II Guerra Mundial, distinguem nessas ressonâncias de vozes entre historiador antigo e filósofo moderno harmonias de árias de realimo político clássico43. Já outros, pelos anos 1990 em que aguça-se certa sensibilidade algo avessa aos cantos dos (neo)realismos modernos, acusam dissonâncias porque se exima Tucídides das cacofonias da power politics.44 Se Gabriela Slomp marca decididamente o débito tucididiano em Hobbes, no mesmo Companion do Leviathan hobbesiano Hoekstra sequer o aponta.

[investigar mais detida e profundamente as abordagens da bibliografia]

[diferença de natureza por si, ou de força ou de inteligência, não assegura-define diferença de condição de vida por vantagem-benefício: todos aspiram igualmente sua condição de vida > ninguém concede a outro tal diferença de condição de vida beneficiada-vantajosa em termos de reconhecer a própria inferioridade versus superioridade mesma: superioridade versus inferioridade de natureza humana por si e em si não se define como questão de benefício a que se aspira-pretende e correspondentemente se concede]

[igualdade configura o humano por natureza: areté (excelência por condição-fato natural] não funda dominação: distintas excelências se contrabalançam e neutralizam; negação de aristocracia fosse por areté-heroicidade de força fosse de prudência, ou porque Hércules ou porque Nestor] [a igualdade suposta por Hobbes é a igualdade enquanto categoria aristocrática: iguais entre pares / nada a ver com igualdade democrática, da massa; requisito, pois, do indivíduo, não do coletivo] [a igualdade por capacidade natural]

3. Tucídides: os móbiles do império

No Discurso dos Atenienses em Esparta, Tucídides apresenta qual fosse a razão deliberativa dada por fundamento do império (ateniense), particularmente concebida para as circunstâncias do momento e lugar em que (supostamente) fora pronunciado, qual seja, a reunião da Liga do Peloponeso em Esparta porque debatesse seu envolvimento no conflito já então parcialmente desencadeado entre Corinto e Atenas. A razão do império é apreciada pela perspectiva dada ao olhar de Atenas, (supostamente) manifesta pela fala do ateniense lá presente enquanto instância participante dos debates45. Pelas elaborações da consciência histórica memorizadas pela narrativa tucididiana que conceitua o poderio, dispõem-se as razões discursivas que o fundamentam. Nesses termos o historiador provê a competência deliberativa, ou arte retórica, que estrutura os tópoi da hermenêutica historiográfica porque ganha inteligibilidade a percepção factual da dialética agonística intrigada pela questão do poderio em jogo na Guerra dos Peloponésios e Atenienses.

Por centro argumentativo que articula o discurso a narrativa dispõe um axioma respeitante ao avanço ou dinâmica do poderio que, iniciando por hegemonia ou comando, culmina em império ou domínio, assim configurado como fato imperativo (katanagkázo) de realiidade histórica, fenômeno conexo aos móbiles da natureza humana (o que os impele em ações e empreendimentos):

"Aussi bien, cete empire même, nous ne le devons pas à la violence: simplement vous n'avez pas voulu poursuivre la lutte contre le reste des forces barbares, et les alliés sont alors venus nous trouver, pour nous demander spontanémment de nous mettre à leur tête. Puis, rien qu'à l'exercer, nous avons d'abord étés obligés de l'amener au point où il est: principalement par crainte, puis aussi pour l'honneur, et plus tard par intérêt"46.

Pois, ao que dita correlato axioma também memorizado pelo historiador47, por dominação contra sujeição (hypò kateírgo) se move a história humana (apò tou anthropeíou trópou), configurando uma sua lei (nómos) ordenadora, com os inferiores ou fracos (hésson) sob o domínio dos fortes ou poderosos (dunatós).

Três ordens de móbiles então promovem e operacionalizam a dinâmica do poderio ordenando seu avanço (proágo) em império (arché) por nexos de precedência e finalidade: primordialmente (primeiro ... principalmente: prõton ... málista) por medo (déos); depois (em seguida: épeita), por honra (timé); enfim (posteriormente: hysteron), por interesse (ophelía).48

Assim é, prossegue o discurso dos atenienses, porque a natureza humana o dita articulando reativas afecções:

"dès lors, au nom de notre sécurité, commme nous étions em butte aux haines de la plupart, et que même certains déjà, après avoir fait défection, avaient été réduits, comme, em plus, auprès de vous, nous ne rencontrions plus la même amitié, mais le soupçon et le désaccord, il ne nous semblait plus possible de prendre des risques en laissant aller (les défections se seraient faites vers vous)".49

Defrontados com ameaça de eminente subjugação (pelos medos), os helênicos organizam defesa aliando forças e, consequentemente, instituindo hegemonia porque assim reconhecem princípio de primazia que define comando ou liderança. Todavia, afastada a ameaça de subjugação e, pois, passada a urgência bélica porque hegemonia é admitida, logo afloram transmutados (des)afetos contra ela, com os temores, uma vez dissipados, dando lugar a ressentimentos hostís (apechtheménous) contra (agora acusada) opressiva chefia, de alguns mesmo se revoltam em defecção (apostánton), abandonando a (deteriorada) Aliança, pelo que são chamados de volta à razão do poder, agora subjugados (katestraménon).

As defecções têm que ser subjugadas, prossegue a argumentação do olhar imperial ateniense, porque persisite sempre a dialética do poderio, de modo a prever que fracos ou inferiores, situados perante fortes ou superiores, apenas discriminam configurações de poderosos, assim conflitantes, elegendo o resguardo de uns contra rejeitando a agressão de outros. Concomitante ao abandono da hegemonia helência por Esparta e sua posse por Atenas, desfaz-se, a amizade (phílos) entre ambos, restaurando a agonística do conflito entre os poderosos, assim reavivada por suspeitas (hypoptos) e discórdias (diáphoros). Então, (ex)aliados revoltosos não finalizam liberdade, apenas transferem ou deslocam sujeição a outros poderíos, de Atenas para Esparta. Por tais descortinos previsivos da lógica imperial, antecipa-se subjugação a não arriscar (kindyneuo) que outros a aproveitem.

Pelas implicâncias arrazoadas por tais axiomas decorre que mesmo o exercício (ex autou dè tou érgou) da hegemonia, porque reconhecida primazia de liderança ou comando (hegémon, instituída não impositivamente por violência de quem lidera, biázo, mas porque os liderados reconhecem sua carência, deethénton hegemónas katastenai), implica conformação também de interesse. Assim se constata, ao que argumenta a perspectiva ateniense, também e já no âmbito do domínio espartano instaurado no Peloponeso: "After all, you Spartans led the cities of the Peloponnese after organizing them to your advantage"50. Mais ainda, prossegue a argumentação ateniense, coubesse o atual império de Atenas a Esparta, teria ela forçosamente (anagkázo) conformado a hegemonia pelos mesmos princípios de dominação: "And we know perfectly well that if you had persevered against the Persians, and your leadership, like ours, had come to be hated, you, nos less than we, would have been compelled either to rule your grudging allies by force or to put yourselves in danger". Supremacia, poder (arché), portanto, mesmo que nomeado hegemonia, implica comando por exercício de força (archein egkratós), fundamento de poderio. Assim se configura a dinâmica do império operada pela hegemonia acarretando inerentes mazelas, qual a hostilidade conexa ao uso da força por causa de interesse. Tal, pois, a face do destino (fatum, fado) imperial por atributos constitutivos. Ao abandonar a hegemônia helênica quando do encerramento das Guerras Medas, a opção histórica de Esparta situou-a aquém do império, justo então assumido por Atenas.

Por tais articulações conceituais porque Tucídides narra retoricamente a perspectiva ateniense, o historiador apresenta as figurações de caráter do poderio que correspondentemente dimensionam sua potência (dunamis) agonística: primordial, que responde por medo, prevenido contra eventual inferioridade; heróico, que responde por honra, em proclamação de excelência que reconhece igualdade; tirânico, que responde por interesse, porque assegure (asphalés) superioridade.


A finalizar o discurso ateniense, o orador (historiador) constroi desfechos argumentativos que refiguram a face conceitual do império, desenhando-a agora por implicância de traços todavia algo paradoxais porque entremeada de imagens irônicas de intrigantes antíteses: "Did justice ever deter any one from taking by force whatever he could? Men who indulge the natural ambition of empire deserve credit if they are in any degree more careful of justice than they need be. How moderate we are would speedily appear if others took our place; indeed our very moderation, which should be our glory, has been unjustly converted into a reproach"51. Jogos de paradoxos por retórica discursiva estruturada em tramas antitéticas porque se caracterisa a diferença e especial singularidade que o império de Atenas realiza, assim ainda dita logo a seguir: "For because in our suits with our allies, regulated by treaty, we do not even stand upon our rights, but have instituted the practice of deciding them at Athens and by Athenian2 law, we are supposed to be litigious. None of our opponents observe why others, who exercise dominion elsewhere and are less moderate than we are in their dealings with their subjects, escape this reproach. Why is it? Because men who practise violence have no longer any need of law"52.

Pela refiguração deliberativa da sintaxe definidora do império, a perspectiva ateniense ativa especial formulação retórica que opera singular dialética que transmuta conceitos opostos dissolvendo seu fundamento conflitante: força, ou violência, é assimilada por justiça, e interesse, ou proveito de uma parte, o é por moderação, ou contemplação do valor de ambas consoante igualdade por correspondente dignidade. A valia da força dispensa a da justiça justo porque a nega, e vice-versa. Contra a força, então, não há discurso, lógos, nem proclamação de valores morais ou éticos como honra ou indignação: os fortes, assim superiores, dominam a seu arbítrio, impõem domínio puro e simples. Qualquer justificativa pelo lógos é então dispensável, ociosa, porque o fundamento fica aquém da razão em sendo constituido pela efetivação da força mesma, assim auto-fundante de dominação. Pelo que, tampouco os inferiores, porque fracos, desprovidos de força, igualmente emudecem palavras e discursos despropositados, porque então reduzidos ao fato bruto da subjugação, a que (cor)responde a passividade por carência de força.



Império por Atenas conceitua então modalidade de poderio que é fundado na força mas conjugado por justiça de medida tão mais acertada quão ditada por moderação. Pensamento imperialista que remete, por paradigma primordial (recessivo) de sua representação, à figuração mítica da Soberania (nomeada) Zeus tyrannos, especialmente temperada de Piedade (nomeada) Apolínea como cabe aos humanos. Em suma, projeção por lógos (dominante) em confusão com mythos (recessivo) que diz a glória do império, proeza na Hélade consumada por Atenas.

Obra imperialista de Atenas, pois, heróica, a realizar feito que, mesmo sujeito e integrado à condição humana (apò tou anthropeíou trópou, te anthropéiia physei) - pelo que império como tal é algo em si nada extraordinário (thaumastós), antes comum, ditado por imposições (nikethéntes) que têm no cálculo de interesse (tà xymphéronta logizómenoi) seu móbile e razão última53 - não obstante a supera porque assim conjuga em império razão de justiça (dikaíos lógos) moderada sem ser divina. Modalidade de exercício de império excelente (diakióteroi árchein) que implica conceitualmente a figuração do herói em que se (con)funde uma e outra dimensão, humana por divina. Império que, pois, merece antes louvor (épainos), e não censura (adoxía). Então, pelo que argumenta a retórica do discurso ateniense, império por Atenas alcança dignidade (áxios) heróica porque olimpicamente tirânico, assim confundindo as categorias caracterizadoras subsumidas na heróica justo porque as sintetiza todas, atendendo e realizando o complexo pleno de seus móbiles promotores.


Retórica imperial ateniense a proclamar dignidade heróica justo condizente com a pronunciada pela voz (tucidideana) de Péricles memorizada pela narrativa da Guerra dos Peloponésios e Atenienses.

Por ocasião da assembléia de Atenas que debateu e aprovou a decisão de guerra contra Esparta54, a razão argumentativa com que Péricles a fundamenta é ditada em termos da figuração do caráter heróico de firmeza e constância (apischyrízomai55). Péricles assim diz de sua resolução (gnóme56) guerreira, a mesma de antes, em não atender às exigências (epitásso57) reclamadas pela Liga Peloponésia, as quais ressoam imposições ditadas como ordens (keleuo58) por poderio que se arvora superior. Ceder (eíko59, sygchoréo60) a elas, acatar o ultimatum bélico espartano, seria admitir tal superioridade do adversário em ato de submissão (hypakouo61), assim dando clara manifestação de pavor (phóbos62). Naquela decisão, Atenas jogava o destino de sua dignidade: não admitir inferioridade, pelo contrário, firmar igualdade (apò tou ísos63, homoíos64, épì íse kaì homoía65) em confronto com Esparta.

Agonística heróica de poderio ateniense contra espartano que responde por antagônica natureza, marítimo daquele versus terrestre deste. Fundamento material de força e potência correspondente de um e outro: em Atenas, riqueza e finanças (chréma66) por recursos capitalizados (hypárcho67) ensejando maleabilidade de ação guerreira prolongada, contra, em Esparta, pobreza (penía68) e carência (spánis69), assim reduzida a contingente humano, impondo dificuldades e impasses



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