Transmutação na obra de arte



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Transmutação na obra de arte

Francisco Palma


“…a questão está em saber que tipos de objectos trans-estéticos podem suceder a esta ruptura introduzida por Duchamp, sem voltar a cair na nostalgia do objecto perdido da pintura”.


Jean Baudrillard

Marchel Duchamp deu os seus primeiros passos de artista, como pintor, nos inícios do século XX em Paris. Viveu e acompanhou com intensidade, uma época e um ambiente que foi marcada pela afirmação dos impressionistas, dos fauves e dos simbolistas e o inicio dos cubistas, por todos eles Duchamp se interessou e se aproximou, vindo no entanto a integrar mais tarde o grupo dos dadaistas. Revelou desde muito cedo ser uma personagem incómoda e irreverente, sendo ainda difícil classificar a sua obra artística. De forma enigmática deixou-nos a dúvida se a sua intenção foi provocar, divertir-se, criar rupturas, incomodar, ser irónico, jogador ou se pretendia realmente, como veio a ser, um premonitor consciente do percurso e preocupações que a arte levantou durante todo o século XX até aos nossos dias, ou seja o autor de um programa artístico que ainda está por cumprir. Talvez as duas coisas. Depois de lermos algumas das entrevistas, intervenções ou textos que nos deixou, fica-se com a sensação que pouca coisa aconteceu nas artes depois dele, pelo menos em termos de grandes paradigmas, principalmente se tivermos como referência a arte actual.


Marchel Duchamp antecipa em 1913, um dos movimentos mais importantes do inicio do seculo XX - o movimento DADA (que teve inicio em 1916), com alguns projectos e trabalhos onde introduz novos “processos” de criação artística, reduzindo a obra de arte a objecto e a conceito. Estabelece a relação de objectos com a experiência da vida de todos os dias, a que chama de readymadesi[1], os quais Duchamp re-utiliza, através de uma escolha e confere-lhes a possibilidade de provocar uma experiência estética. Os novos processos criativos passam por novos conceitos de criação artística, o acasoii[2], a escolhaiii[3] e a ironia criam novos efeitos e maior ambiguidade na arte, provocando desambientação, banalidade e casualidade. Estes novos conceitos, influenciaram muita da arte que se fez no decorrer do século XX, mas de uma forma mais marcante nos movimentos artísticos que eclodiram a partir da década de 60, como a Optical Art, New Dada, Arte Conceptual, a Arte Pobre, a Minimal Art e a Pop Art, entre outros.
A ruptura com a arte retiniana e as novas reflexões sobre uma arte diferente da que se fazia até então, são uma constante, na actividade sua artística, através das suas obras e principalmente com as suas ideias e atitudes. Introduz novos conceitos, o nonsense e o acaso passam a ser algumas das linhas mestras do acto criativo em Duchamp. No entanto Duchamp também questiona algumas das ideias consideradas como verdades absolutas da arte, e uma delas é a ideia que se tinha até então, da preponderância do papel do artista na criação artística. Marchel Duchamp demarca-se desta ideia e tenta formular uma resposta diferente para esta questão, que é a de saber, qual o papel que o espectador e o artista desempenham no processo criativo.
Marchel Duchamp considera o julgamento, que em última instância, é realizada pelo espectador na obra de arte como obra-prima é aleatória e frágil, e é fruto de “uma moda baseada num gosto momentâneo iv[4]. Se por um lado, Marchel Duchamp, não concorda que o espectador através de uma apreciação de acaso ou de uma paixão passageira, acabe por conferir a posteridade à obra de arte, ele também não ignora a importância cada vez maior que o espectador tem em descobrir, revelar, validar e legitimar a obra de arte no meio artístico onde ela se insere. É neste contexto que o autor afirmou, de uma forma polémica, dar “tanta importância àquele que a olha como àquele que a faz”.v[5]
Marchel Duchamp defende que o artista não controla o processo criativovi[6], afirmando mesmo não acreditar “na função criativa do artista…”. Diz que o artista“…é um homem como qualquer outro. A sua ocupação é fazer certas coisas...”, acrescentando ironicamente que “…o homem de negócios também faz certas coisas…vii[7]. O espectador ao decifrar e interpretar a obra enriquece o acto criativo. O acto criativo adquire um outro aspecto, quando o espectador experiencia o fenómeno, a que Duchamp chama de transmutação. A obra de arte é um aparato de signos que só o observador pode por em movimentoviii[8], portanto“é o espectador quem faz a obra”. O significado de uma obra de arte reside não na sua origem, mas na sua destinação.ix[9]
Duchamp sempre aceitou todas as interpretações que fizeram da sua obra, “mesmo as mais fantasiosas, pois interessavam-lhe como criações das pessoas que as formulavam”x[10]. A importância que Duchamp conferia ao espectador, não é a de o convidar apenas a interpretar as obras de arte mas também a completá-las e sobretudo a aceitá-las como arte. A importância deste elemento no processo criativo, é importante não só a Duchamp como teórico mas também ao Duchamp enquanto artista.

No fundo o que Duchamp pretende é colocar, como refere António Rodrigues, “a obra à procura do seu autor”xi[11]. E ao propor esta nova formulação sobre o papel do espectador, Duchamp parece estar interessado, por um lado na distanciação em relação à obra de arte, e por outro lado na atitude que o espectador deve ter em relação a ela.


Duchamp ao considerar a importância do acaso factual na atitude do espectador, liberta a obra de arte da obrigatoriedade da construção de um sentido lógico, ou seja um anti-sentido, um nonsense, que muito interessava a Duchamp, podendo assim ser compreendido como um convite à participação do espectador, escolhendo a leitura que lhe interessar, de forma que as obras de arte se constituam como verdadeiras “obras abertas”xii[12].


i[1] José A. Bragança de Miranda, O design como problema, “…a estratégia de Duchamp acerca do ready-made… Duchamp faz circular uma… forma de ligação, a da vida na sua totalidade. Esta é a razão porque, para ele, «Eros c’est la vie». A arte… permite o «maravilhamento» da vida, sem a chegar a tocar”. http://www.interact.com.pt/interact10/ensaio/ensaio3.html.

ii[2] O maior expoente da utilização deste processo de criação foi Hans Arp, com uma obra datada de 1916 e chamada de ”Colagem de recortes dispostos segundo a lei do acaso”, in História de Arte Contemporânea, Renato deFusco, Estampa, 1983, p.304.

iii[3] Processo utilizado por Duchamp na conhecida obra Fontaine em 1917, e que ficou conhecido por Ready made, termo utilizado para designar, objectos fabricados ligeiramente alterados, como obras de arte.

iv[4] Marchel Duchamp, Engenheiro do Templo Perdido-Entrevistas com Pierre Cabanne, Ed.A.Alvim, p.p.110-111

v[5] ibidem

vi[6] “Durante o acto da criação, o artista vai da criação à realização, passando por um meandro de reacções totalmente subjectivas. A luta em direcção á realização é uma série de esforços, de angústias, de satisfações, de rejeições, de decisões que não podem nem devem ser tomadas conscientes, pelo menos no plano estético. O resultado dessa luta é uma diferença entre a intenção e a realização, diferença da qual o artista não é de modo nenhum consciente” Citado por (Processo criativo, intervenção de Marchel Duchamp, (Intervenção na FAAH, 1957, in Duchamp du Signe, p.188), Prosfácio in Marchel Duchamp, Engenheiro do Templo Perdido-Entrevistas com Pierre Cabanne, A.Alvim, p.212 .

vii[7] Marchel Duchamp, Engenheiro do Templo Perdido-Entrevistas com Pierre Cabanne, Ed.A.Alvim, p.22

viii[8] ibidem

ix[9] Sherry Levine, in G.Celant, inexpressionism.

x[10] Duchamp, Edições Taschen, 1996, p.8

xi[11] Prosfácio in Marchel Duchamp, Engenheiro do Templo Perdido-Entrevistas com Pierre Cabanne, A.Alvim,

xii[12] Conceito utilizado mais tarde por Umberto Eco no livro “Obra Aberta”.




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