Trajetória de luta: as associaçÕes de bairro e conselhos de moradores da cidade do recife (1955-1985) Geane Bezerra Cavalcanti



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TRAJETÓRIA DE LUTA:

AS ASSOCIAÇÕES DE BAIRRO E CONSELHOS DE MORADORES DA CIDADE DO RECIFE (1955-1985)

Geane Bezerra Cavalcanti*
Resumo: Este artigo tem como tema a trajetória dos movimentos sociais de bairro da cidade do Recife desde sua criação percorrendo os anos ditatoriais e de redemocratização. Objetivamos analisar a influência de partidos políticos e da Igreja Católica Progressista sobre estas organizações em diferentes momentos de sua história. Este trabalho justifica-se pela força, resistência e importância que estas organizações tiveram para a história recente da cidade do Recife. A metodologia baseou-se no cruzamento das fontes bibliográficas, documentais, iconográficas e orais.
Palavras-chave: Movimentos Sociais; Comunidade; Regime Militar; Igreja Progressista.
Abstract: This article focuses on the history of social movements in Recife City neighborhood since its creation through the dictatorial and democratization years. We aimed to analyze the influence of political parties and the Progressive Catholic Church on these organizations at different times in its history. This work is justified by the strength, endurance and importance that these organizations have had in the recent history of the city of Recife. The methodology was based on the intersection of bibliographical, documentary, iconographic and oral sources.
Keywords: Social movements; Community; Military Regime; Progressive Church.

As associações de bairro surgem em Recife no período de redemocratização do pós-45, incentivadas principalmente por correntes político-partidárias de esquerda, como o Partido Comunista Brasileiro- PCB, e pela prefeitura do Recife. Foi durante a administração de Pelópidas Silveira, a partir de 1955, que surgiram à maioria das associações de bairro da cidade, incentivadas pelo prefeito. Estas associações possuíam um objetivo bastante claro: ajudar a prefeitura na administração da cidade, canalizando melhor as necessidades da população, como diz Jaccoud (1990):


“Inspiradas na experiência que se consolidava em São Paulo e sentindo a necessidade da organização popular como forma mais adequada para canalizar as reivindicações e aspirações da população com relação às ações da prefeitura, as forças políticas que atuaram na campanha de Pelópidas procuraram incentivar sua formação.” (JACCOUD, 1990: 85)
As associações se proliferaram principalmente nos bairros carentes, incentivadas pela prefeitura populista de Pelópidas Silveira, elas serviam de ligação entre o povo e a prefeitura. Pelópidas levava as reivindicações dos populares para a prefeitura em forma de abaixo-assinados, memorandos, organizando comissões de moradores ou colocando-as nos debates ou audiências (JACCOUD, 1990: 26). As associações serviam também de comitês para Pelópidas, elas se expandiram rapidamente no Recife, principalmente nos bairros carentes da zona norte, estas associações tinham o papel de organizar suas reivindicações e encaminhá-las para a prefeitura. Além dos comitês de bairros também formarem-se comitês femininos e de estudantes Pró-Pelópidas Silveira.

As associações de moradores sempre estiveram ligadas a política, também não poderia ser diferente já que era através deste canal que suas reivindicações poderiam ser ouvidas e atendidas. Comumente as associações apoiavam determinados políticos e os ajudavam a se eleger, como a eleição de Miguel Arraes em 1959 para a prefeitura do Recife. A eleição de Arraes representou a continuidade do governo de Pelópidas para as associações, tanto na parte política local como nas relações entre ambas. (JACCOUD, 1990: 27)

Porém, as associações não surgem apenas com o incentivo político, mas sim das reais necessidades que os moradores dos bairros suburbanos possuíam. As suas reivindicações eram principalmente melhorias na infraestrutura urbana, como saneamento básico, iluminação pública, escolas, creches, postos de saúde, etc. Porém a maior luta era a posse da terra invadida, causadora de tensões entre os populares e a prefeitura.

As associações não reivindicavam apenas melhorias urbanas, queriam também uma participação maior na vida política do Estado.


“Participando cada vez mais das lutas populares que se apresentavam na cena política de Pernambuco, as associações de bairro ultrapassaram os limites da representação dos moradores por melhores condições de vida e procuraram inserir-se num contexto maior de busca de ampliações do espaço político de atuação das populações carentes do Recife.” (JACCOUD, 1990:91)
Em todo Recife o que se via eram associações bastante atuantes, mesmo algumas recém-formadas já realizavam reuniões com os moradores para discutir os problemas do bairro e fazer suas reivindicações junto à prefeitura, através de abaixo-assinados e reuniões com o prefeito. A maioria das reivindicações, principalmente das comunidades de Casa Amarela: Vasco da Gama, Brejo, Alto Santa Isabel, Córrego da areia, eram transporte público, iluminação urbana e fornecimento de água.

Em muitos casos as associações tiveram suas reivindicações atendidas, o que mostra a força popular quando organizada, unida e bem estruturada, como no bairro do Pina. O jornal Folha do Povo de 21-02-1958 destaca as obras estruturais realizadas no bairro e a inauguração de uma escola, reivindicação dos moradores. A sua inauguração contou com a presença do prefeito do Recife Pelópidas Silveira e dos deputados estaduais Miguel Arras e Francisco Julião, estes considerados comunistas pela polícia.

Outras associações também conseguiram êxito, em alguns casos a população do bairro, através da associação de moradores, trabalhava em parceria com a prefeitura do Recife. O governo municipal disponibilizava material e equipamentos para a população fazer as melhorias no bairro com as suas próprias mãos. O jornal Diário de Pernambuco de 23 de fevereiro de 1964 noticia que práticas como estas estavam ocorrendo no bairro da Estância e na comunidade da Ilha Santa Terezinha.

Em janeiro de 1963, com a influência do PCB, é criada a Federação das Associações de Bairros do Estado de Pernambuco- FABEP. Fundada inicialmente por 34 associações, representava o papel político destas organizações, servindo como órgão de articulação política, estando presente nos momentos de mobilização política de Pernambuco nos anos de 1963 e 1964. Os objetivos dessa federação eram muito mais amplos que melhorias estruturais nos bairros, reivindicavam também ações de interesse nacional, como reforma agrária e urbana, a defesa da indústria nacional, saúde, educação e habitação (JACCOUD, 1990:31).

A FABEP desempenhou um papel importante na organização e mobilização das associações de bairros. Sempre buscando a ampliação da participação popular na política do Estado, articulava-se com movimentos e partidos políticos, como o projeto democrático-reformista elaborado pelo PCB e pela Frente do Recife1, reivindicava maior participação e defesa desse projeto. Em 28 de novembro de 1963, organiza no Recife o 1° Encontro das Associações de Bairro do Estado de Pernambuco, com o intuito de discutir ação de interesse popular como melhorias na infraestrutura urbana (JACCOUD, 1990:35). A FABEP também representava a legitimação da democracia em Pernambuco por promover a participação popular na vida política do Estado.

Vigilância e repressão contra as Associações de Moradores

As associações já eram vistas como grupos de cunho comunista e subversivo pelo Departamento de Ordem Política e Social - DOPS desde 1956. Apesar de políticos como Miguel Arraes e Jarbas Maranhão afirmarem que elas não possuíam um caráter político-partidário e elogiarem suas ações por incentivar a participação popular nas causas públicas, ainda sim as associações foram consideradas de cunho comunistas, remanescentes das extintas células, isto porque também havia políticos que acusavam as associações de serem político-partidárias e ligadas ao socialismo. Encontramos assim duas divergências políticas sobre as associações, sendo que várias delas foram rotuladas de comunistas, como a Sociedade dos Amigos do Alto do Pascoal acusada de ser um antro comunista.

Por serem consideradas de cunho extremista e subversivo eram acusadas de serem ilegais e por isso os vereadores de oposição a Pelópidas e da Frente do Recife pediam o seu fim ainda em 1956 através dos jornais de linha mais tradicional da cidade, como o Diário de Pernambuco e Jornal do Comércio. Já o jornal Folha do povo, ligado ao PCB e aos trabalhadores, defende o fortalecimento das associações2. Os dois discursos promovidos pelos jornais Folha Do Povo, Diário de Pernambuco e Jornal do Comercio revelam a polémica entorno das associações. Cada jornal disponibiliza seu espaço para dar voz a opiniões e interesses políticos distintos, cada qual procurando influenciar a opinião pública.

A crescente participação das associações na esfera municipal também foi outro fator para que a oposição pedisse sua extinção. Alguns vereadores defendiam limitar suas atividades, como colocar um número máximo de associações e exigirem que seus presidentes fossem os vereadores dos bairros. Porém, a prefeitura continuou não interferindo nas eleições dos presidentes das associações e estas continuaram trabalhando democraticamente. Mas, o governo do Estado, que não enxergava com bons olhos estas organizações de cunho popular, exerceu uma forte repressão sobre as associações, “com invasões de suas sedes, detenções de lideranças populares e cerceamento de suas manifestações” (JACCOUD, 1990: 91).

Várias solicitações de investigação contra as associações são expeditos, relatórios de agentes do DOPS relatam não terem dúvidas do caráter subversivo das mesmas, apontando ligações com o PCB e de sua ilegalidade.

Com o intuito de desmontar as organizações sociais de cunho reivindicatórios, a ação dos militares foi rápida contra as associações de bairro. Com isso o Regime Militar se livrava das pressões populares e da oposição por participação política e no planejamento econômico e social do Estado. Além disso:


“O processo de desmobilização visava” atingir a capacidade de organização dos movimentos sociais no que diz respeito as suas reivindicações econômicas, possibilitando a consolidação do novo modelo econômico que se instaurou junto com o governo “revolucionário”. (JACCOUD, 1990:144)
A ação militar contra os movimentos populares não ocorreu de forma homogênea, apesar de o regime extinguir as ligas camponesas e as associações de moradores. Os dois movimentos seguiam linhas diferentes, porém, ambos não faziam parte do projeto que o regime queria implantar no país. No caso das associações de moradores, estas tinham por objetivo reivindicar uma maior participação popular na vida política, suas ações estavam fundadas na participação democrática, diferentemente das ligas camponesas que procurava seguir um caminho do socialismo (JACCOUD, 1990:41).

O que chama mais atenção é o conflito entre as associações de bairro e a polícia no que diz respeito à posse da terra. Com inúmeras famílias sendo expulsas de seu lugar de origem, na maioria favelas, e várias vindas do interior do estado em busca de melhores condições de vida, sem planejamento urbano e programas públicos habitacionais, famílias inteiras passam a invadir terrenos e formar pequenas comunidades. Estas comunidades contam com a associação dos seus bairros para reivindicar a prefeitura melhorias estruturais e a permanência no local.

Com o golpe de 1964 as associações de moradores foram fortemente combatidas pelo regime que se implantava, muitos líderes comunitários foram presos e espancados, sedes das associações foram invadidas, metralhadas, tiveram seus materiais apreendidos e foram fechadas. A ação rápida e violenta dos militares fez com que as associações de moradores praticamente desaparecessem, restando apenas aquelas organizações que demonstraram apoio ao Golpe Militar (FREIRE, ?)3.
A Igreja Progressista e os Conselhos de Moradores
“Trabalhar com o povo e não para o povo”.

(Lema do grupo Encontro de Irmãos)


Com as associações praticamente extintas, a igreja Católica Progressista, através da Teologia da Libertação4, irá possuir um papel fundamental no que diz respeito ao ressurgimento dos movimentos populares de bairro. A Operação Esperança Urbana, a criação das Comunidades Eclesiais de Base - CEB’s e conselhos de moradores em diversos bairros do Recife conseguem mobilizar novamente a população com o intuito de reivindicar melhores condições de vida. Como afirmou em entrevista o ex-padre Reginaldo Veloso5

“Muitas associações se acabaram com a repressão devido ao clima de medo instaurado, todos de organização popular estavam sob suspeita como ação comunista, subversiva, e realmente haviam pessoas do partido comunista, partido de esquerda, que atuavam nessas organizações também. Eu sei que... de chegada, um tempo, eu diria assim, de recessão da organização popular e nós da igreja através do trabalho das Comunidades Eclesiais de Base das paróquias de Olinda e Recife, nós realmente durante o tempo da ditadura fomos um movimento de igreja que se identificou com os movimentos sociais, com o que restou dos movimentos sociais, das pessoas que não mais participavam abertamente de uma organização por medo da repressão, mas que procuravam nos espaços da igreja se abrigarem, vamos dizer assim, esse movimento de igreja sustentou o mínimo de organização popular que havia naqueles anos de chumbo.” (Reginaldo Veloso)

Ainda em 1964, Dom Helder Câmara é eleito arcebispo de Recife e Olinda. Simpatizante da teologia da libertação, Dom Helder irá atuar na defesa dos mais carentes e oprimidos, além de ser um combatente das atrocidades da ditadura militar. É sob a proteção da igreja progressista que os movimentos de bairro e outras organizações populares, como a Ação Católica Operária (ACO) e Juventude Operária Católica (JUC) irão se reorganizar e burlar a vigilância militar.

Após as fortes chuvas e a cheia do rio Capibaribe, no qual famílias inteiras ficaram desabrigadas, em junho de 1965, D. Hélder irá organizar a Operação Esperança Urbana no Recife. Lançado em setembro de 1965, tinha por objetivo mobilizar a sociedade e o governo para realizar melhorias nas comunidades atingidas pelas cheias, para isso D. Hélder contou com a participação da Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste (SUDENE) e da iniciativa privada. Os esforços resultaram na recuperação de 6.676 casas6 (CEZAR, p. 7, ?).

Para que a iniciativa nos bairros desse certo foi preciso organizar os conselhos e associações de moradores, estes tinham por finalidade identificar as lideranças locais e estimular o processo de conscientização dos moradores em relação a sua comunidade. Assim surgiram inúmeros conselhos de moradores nos altos, córregos e em outras áreas pobres do Recife. Estes movimentos estavam ligados à igreja, contavam com o apoio de padres e freiras estimulados por D. Hélder a trabalharem com a população carente. Os líderes comunitários se reunião em assembleias para discutirem as necessidades das comunidades, reivindicavam melhorias para seus bairros através de abaixo assinados e pequenas manifestações e protestos. Os conselhos de moradores também possuíam um papel assistencialista, alguns ofereciam cursos profissionalizantes e lá também eram realizadas vacinações, atividades culturais e de educação.

Outro movimento também criado por D. Hélder que teve atuação nos bairros foi o Encontro de Irmãos, iniciado em 1969. Eram realizados encontros de religiosos com a população local com o intuito de discutirem os problemas do bairro sob “à Luz do evangelho”. Seus lemas eram “pobre evangelizando pobre” e “trabalhar com o povo e não para o povo”.

Para a melhor compreensão dos populares sobre a importância da união e de refletirem sobre a sua realidade social, os religiosos utilizavam em seus discursos passagens bíblica da vida de Jesus e as comparavam com a vida do povo.

Este era um movimento que partia de dentro da igreja, assim como as Comunidades Eclesiais de Base – CEB’s. Estas comunidades surgem em diversos bairros da zona norte de Recife, principalmente nas periferias, como: Morro da Conceição, Alto José Bonifácio, Córrego José Grande, Macaxeira, Mangabeira, etc. A partir do trabalho das CEB’s foi possível o surgimento de conselhos de moradores, estes vinham substituir as antigas associações de moradores. O apoio da igreja para sua criação fica a mostra em um documento pertencente ao DOPS-PE, que relata a criação do conselho de moradores no Bairro do Vasco da Gama com o apoio de D. Helder Câmara.

No Bairro de Casa Amarela o apoio da igreja católica foi importante, principalmente, para a conquista dos moradores do bairro pela posse da terra, através do movimento “Terra de Ninguém” (FREIRE, ?). Este movimento tinha por objetivo garantir a posse da terra para os moradores dos morros de Casa Amarela, que eram obrigados a pagarem o “aluguel de chão” para seus supostos proprietários, pessoas que se diziam donos daquela terra, porém nunca apresentaram um documento oficial que comprovasse que as mesmas lhe pertenciam por direito. Este movimento revela um problema histórico do Brasil: a concentração de terras. Muitas terras estavam nas mãos de poucas famílias, isso ocorria não apenas nas zonas rurais, mas também na zona urbana.

Na década de 1970, em casa amarela, o padre Reginaldo Veloso organiza uma Comunidade Eclesial de Base - CEB’s que contará com a participação efetiva da comunidade.

Estas CBS’s eram “pequenos grupos organizados em torno da paróquia (urbana) ou capela (rural), por iniciativa de leigos padres ou bispos” (BETTO, p 16. 1985). São os leigos que organizam as missas e as atividades das paróquias. Possuíam como missão lutar a favor dos mais carentes, “libertando” o povo da opressão. Em suas reuniões, além de orações e cantigas, eram comuns debates sobre os problemas enfrentados pela comunidade e discutiam-se os meios para reivindicar melhorias para o bairro. Elas se estendiam por todo Brasil, tanto nas áreas urbanas como nas rurais, cada CEB’s possuía a sua própria organização. (BETTO, 1985)

As CEB´s dará origem a vários conselhos de moradores, isto porque o objetivo destas comunidades de base não eram apenas refletir a palavra de Deus, ela também incentivava os cristãos a refletirem sobre sua condição social e a buscarem melhorias para suas vidas e comunidade.

Para despistar o olhar rigoroso do regime militar as novas organizações serão chamadas de conselho de moradores, procurando se distinguir das antigas associações de moradores. Juntos igreja e comunidade vão reivindicar melhorias para o bairro e assim obtêm vitórias. Eliana Freire explica muito bem a importância das CEB’s e o suporte que ela fornece as manifestações organizadas pelos populares do bairro de Casa Amarela na luta por uma vida digna.
“Com o apoio da população o movimento das CEB’s progrediu bastante, contribuindo assim para estimular a formação de um movimento que lutasse diante dos poderes públicos pelos interesses da população e, ao mesmo tempo, não fosse contra o poder do Estado – os conselhos de moradores. Nos anos de 1970, o conselho de moradores de Casa Amarela empreendeu importantes lutas de resistência, organizando diversas manifestações, reivindicando qualidade de vida e protestando contra as políticas públicas do governo local. Dessa forma, conseguiram mudar projetos de urbanização e boicotar as estratégias dos poderes públicos de controlar os movimentos.” (FREIRE, ?)
Ao que parece a única diferença existente entre as associações de bairros e os conselhos de moradores é a nomenclatura, pois ambos possuem os mesmos objetivos de participação popular na administração pública da cidade do Recife e reivindicação por melhorias estruturais nos bairros e, até mesmo, a posse da terra nas áreas consideradas irregulares. Mas outro ponto que nos chama atenção é que por trás das associações de moradores normalmente existia alguns partidos políticos, como o PCB e a Frente do Recife. Já nos conselhos de moradores identificamos, a princípio, apenas a igreja Católica Progressista promovendo a organização e o funcionamento destas entidades. São os conselhos de moradores que irão trabalhar nos anos ditatoriais, principalmente nas décadas de 1970 e 1980, elas irão conviver com o rigor da ditadura tanto no auge quanto na derrocada do regime.

Estes conselhos de moradores vão obter muitas vitórias sociais para sua comunidade, principalmente o conselho dos moradores do Morro da Conceição, um dos mais atuantes da época, ligado diretamente à igreja e à Reginaldo Veloso. Através de reuniões, manifestações e abaixo-assinados os moradores do Morro conseguiram ter acesso à água, energia elétrica, pavimentação de suas ruas, escolas, creches, coleta de lixo e um projeto piloto de saúde da família. Todo isso acarretou em um significante aumento da qualidade de vida de seus moradores.


As associações e conselhos de moradores no pós-redemocratização
Os conselhos de moradores voltam a possuir bastante força e influência política nos anos 1980, os do Morro da Conceição e de Brasília Teimosa eram os mais atuantes da época. Os conselhos se distribuíam em vários bairros do Recife, principalmente nas comunidades de Casa Amarela, em sua maioria estava ligada à igreja, eles de fato representavam a população e conseguiam que suas reivindicações, de melhorias como saneamento, água, iluminação pública, escolas, creches, postos de saúde, escadarias, contenção de barreiras, transporte e outros, fossem atendidas.

É inegável que estes movimentos de bairro perderam sua força principalmente após o processo de redemocratização. Afinal, o que aconteceu ou o que contribuiu para este enfraquecimento? O que podemos constatar é que foi na realidade um conjunto de fatores que contribuíram para o enfraquecimento dos conselhos de moradores.

Segundo Padre Reginaldo, quando questionado sobre o enfraquecimento dos movimentos populares de bairro, um dos principais fatores para que isto ocorresse teria sido a inserção de lideranças dos bairros na política.
“Houve um enfraquecimento porque a liderança popular autentica que surgiam desses movimentos, dessa organização popular e que tinham, assim, uma autonomia maior frente às autoridades políticas, legislativas, ao executivo, essas lideranças quase todas receberam cargos e como é... pessoas que faziam parte das gestões perderam seu poder de barganha. Já não tinham o mesmo tipo de... reunir, mobilizar a população para contestar, para protestar, para reivindicar, porque estavam ligados ao sistema, aquilo que o povo chama de “rabo preso” né? e é essa situação que estamos no momento.” (Reginaldo Veloso)
Além da partidarização dos líderes comunitários há o fato que durante o regime ditatorial a igreja progressista era mais envolvida politicamente e sensível às causas sociais, trabalhava diretamente com o povo e estimulava os movimentos populares, entre eles os de bairro. Após a redemocratização, correntes tradicionais da igreja ganharam força, sufocando a Igreja Progressista e seu trabalho.

Hoje ainda há muitas associações de bairro espalhadas pelo Recife, inclusive em Casa Amarela, porém em número bem menor que anteriormente. Elas ainda servem de apoio para a população da comunidade, desenvolvem trabalhos gratuitos ligados a saúde e educação, também buscam reivindicações junto à prefeitura para a solução de seus problemas, porém, não encontramos a mobilização de outrora, é como se o povo tivesse perdido o sentimento de coletividade, de comunidade e a identidade de pertencerem a um bairro de periferia que necessita de melhorias. Apesar das assembleias a comunidade não participa da maneira esperada, poucas pessoas prestigiam as reuniões.

Para o senhor João da Silva (ex-presidente do Conselho de Moradores do Alto José Bonifácio) os conselhos e associações hoje servem apenas como “trampolim político”, o que corrobora com o pensamento do Padre Reginaldo.

Estes fatos nos fazem indagar se as associações fortes e independentes teriam ficado para trás ou como as associações de bairros podem voltar a serem entidades fortes e representativas na vida política da cidade. Para Reginaldo Veloso não precisa, necessariamente, aparecer alguma situação nova para que os movimentos sociais, inclusive os conselhos e associações de moradores, voltem a serem entidades fortes. Para ele é preciso retomar a consciência de que só um órgão autônomo, não ligado a partidos políticos, possuirá um poder de barganha para dialogar com as autoridades públicas e assim conseguir suas reivindicações.


“Estamos precisando de novo de descobrir que a pressão popular, a organização autônoma e independente do povo, seja em nível sindical, seja em nível de organização de bairro e nos sítios da zona rural, dos camponeses, operários e etc, que essas organizações autônomas é que vão poder ter o poder de barganha que tinham na Ditadura, agora no regime de democracia, mas que necessita dessa pressão popular pra poder funcionar realmente a favor dos interesses da população”. (Reginaldo Veloso)
Esta é uma análise não só interessante como também verdadeira. Temos exemplos que associações independentes politicamente possuem mais credibilidade e são mais atuantes, como as colônias de pescadores que existem em Pernambuco. Porém, neste momento não foi encontrado nenhum vestígio de mudança, o que nos leva a crê que a situação de pouca atuação e conivência política das associações e conselhos de moradores ainda permanecerá por muito tempo.
Conclusão
As associações de bairro que surgem no Recife com o estimulo dos partidos de esquerda a partir de 1955 apresentam grande importância para a consciência política, comunitária e cidadã da população carente da cidade. Pela primeira fez pessoas de áreas pobres do Recife se organizavam para reivindicar melhorias para as suas comunidades e com isto também estavam adquirindo e exercendo a cidadania.

Com a conscientização política estas pessoas saem da marginalidade e passam a serem vistas como sujeitos ativos da história da cidade e de suas próprias vidas. As lutas não eram apenas individuais eram coletivas, as pessoas percebem que não estão sozinhas, pois fazem parte de uma comunidade, percebem que sozinhas não conseguem muita coisa, mas com a comunidade envolvida este povo ganha voz e força. Nem mesmo a repressão policial e política ocorridas antes e durante os anos duros do Regime Militar impedem a organização popular, que com a ajuda fundamental da Igreja Progressista, conseguem driblar a repressão.

O que preocupa atualmente é que com a redemocratização esta consciência política, comunitária e cidadã parece ter se perdido em algum momento da história. Hoje vemos poucas organizações comunitárias e as que existem não são tão atuantes, elas também perderam seu poder de mobilizar o povo. As pessoas parecem imobilizadas, conformadas, alienadas em relação à vida política da cidade, como se a luta pela democracia e justiça social tivessem perdido o sentido após 1985. É preciso retomar aquela identidade de pertencer a uma comunidade, hoje perdida, pois apesar dos avanços sociais ocorrido nos últimos anos ainda temos muito em que melhorar se quisermos ter de fato justiça social e cidadania para todos.
Referências

BETTO, Frei. O que é Comunidade Eclesial de Base. Coleção primeiros passos, Ed: Brasiliense. São Paulo – SP, 1985.

BOFF, Leonardo. Ecologia Mundialização Espiritualidade. Ed: Ática. São Paulo, 1996.

CEZAR, Maria do Céu do E. S. Rearticulação dos Movimentos: Operação Esperança e Terras de Ninguém. Série Movimentos de Bairro. FASE, Recife – PE.

CIRANO, Marcos. Os Caminhos de D. Hélder: perseguição e censura (1964-1980). Editora Guararapes. Recife – PE, 1983.

FREIRE, Eliana Oliveira de Lima. UMA HISTÓRIA SOCIAL DO MOVIMENTO DE RESISTÊNCIA À DITADURA MILITAR DE CASA AMARELA - RECIFE-PE 1964-1985. Disponível em: http://www.docstoc.com/docs/21288045/Uma-Histria-Social-do-Movimento-de-Resistncia-Ditadura-Militar. Acesso em: 22/10/2011.

GONH, Maria da Glória. Movimentos Sociais e Luta Pela Moradia. Ed: Loyola. São Paulo, 1991.

GOHN, Maria da Glória. Teorias Dos Movimentos Sociais: Paradigmas Clássicos e Contemporâneos. 4°edição. São Paulo: Ed: Edições Loyola, 2004.

JACCOUD, Luciana de Barros. Movimentos Sociais e Crise Política em Pernambuco 1955-1968. Ed: Mssangana. Recife, 1990.

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REGINALDO VELOSO. Entrevista realizada em 14/05/2012, Recife-PE.

SCHERER-WARREN Ilse. Redes de Movimentos Sociais. 2° edição. Ed: Edições Loyola. São Paulo, 1996.

SILVA, Marcília Gama. Informação, Repressão e Memória: A construção do estado de exceção no Brasil na perspectiva do DOPS-PE (1964-1985). 2007. 264 f. Tese (doutorado em história) – Centro de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Federal de Pernambuco, UFPE.



* Mestranda do programa de Pós Graduação em História Social da Cultura Regional, pala Universidade Federal Rural de Pernambuco – UFRPE. E-mail: geane17@yahoo.com.br.

1 Coligação formada pelo PCB, PSB e PTB para enfrentar as eleições que sucederam em Pernambuco a partir de 1955, formava a esquerda de Pernambuco (JACCOUD, 1990, p. 86).

2 Folha do Povo 19-03-1956. Fundo: SSP/DOPS/APEJE. Prontuário nº. 29.595.

3 FREIRE, Eliana Oliveira de Lima. Uma história social do movimento de resistência à ditadura militar de casa amarela – Recife - PE 1964-1985. Artigo; não consta o ano da obra.

4 Esta teoria procura obter uma sociedade justa e igualitária, proporciona um novo papel para a igreja católica e para a prática cristã.

5 Entrevista realizada em 14/05/2012, Recife-PE. O ex-padre Reginaldo Veloso começou seu trabalho de evangelização em casa Amarela no ano de 1968 com a criação de uma CEB´s na comunidade da Macaxeira, depois desenvolveu o mesmo trabalho em outras comunidades do bairro, foi um dos fundadores do conselho de moradores do Morro da Conceição em 1980. Vive em Casa Amarela até hoje.

6 Cartilha elaborada pela FASE, Recife – PE. Autoria de Maria do Céu do E. S. Cezar. Localizada no Instituto D. Hélder Câmara, no Recife. A obra não consta o ano em que foi feita.




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