Trabalho feup faculdade de Engenharia da Universidade do Porto Mestrado em Gestão da Informação Fundamentos de Gestão 2001/2002 Trabalho nº Teoria Actor-Network é uma teoria? Sérgio Quintas Vieira da Silva Magalhães mgi01020



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Fundamentos de Gestão Trabalho 1


FEUP

Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto



Mestrado em Gestão da Informação

Fundamentos de Gestão

2001/2002


Trabalho nº 1

Teoria Actor-Network é uma teoria?



Sérgio Quintas Vieira da Silva Magalhães

mgi01020

15 Fevereiro 2002

Índice_____________________________________________________________



1.

Mestrado em Gestão da Informação 1

Trabalho nº 1 1

Introdução 3

1.1. Objectivo 3

1.2. A Teoria Actor-Network 3

1.3. Descrição do problema e pontos a abordar 4

1.3.1. Actor 4

1.3.2. Network 4

1.3.3. Hífen “-“ 5

1.3.4. Teoria 5



Argumento 6

2.1. O problema da “Network” 6

2.2. Então, porquê “Network” 8

2.3. A prática de Latour 9

2.3.1. Na Arquitectura 9

2.3.2. Na Comunidade Científica 11

2.4. Os outros conceitos da TAN 13

2.4.1. Visão de John Law 13

2.4.1. Pontualização, Tradução e Immutable mobiles 14

Conclusão 17

3.1. O Poder, o Conhecimento, o Humano/não-Humano e o Social/Técnico 17

3.2. Afinal o que é TAN? 18

Bibliografia 20





1
Introdução

Objectivo do trabalho, descrição do problema e principais componentes


1.1. Objectivo


Este trabalho tem como objectivo comentar a seguinte frase: “Há quatro coisas que não funcionam com a teoria actor-network1; a palavra actor, a palavra network, a palavra teoria e o hífen! Quatro pregos no caixão.” (Latour, 1999).

1.2. A Teoria Actor-Network


A teoria actor-network, é uma abordagem ou um método que permite analisar a forma como os elementos sociais, técnicos e materiais se combinam para produzir estrutura, como eles se mantêm unidos como o poder é produzido através desta combinação. Tendo as suas origens nos anos 80 e 90 no estudo da interligação e ciência, tecnologia e sociedade, tendo sido inicialmente criada em Paris (CSI), mais tarde aprofundada através de Keele, Lancaster, etc e mais recentemente através de nomes como Michel Callon, Bruno Latour, John Law. Na ideia de base da perspectiva actor-network, está uma network de interacções entre pessoas e tecnologia, sendo que as próprias interacções entre todos os elementos que constituem esta network, ao interagir entre si, sofrem transformações. Os elementos que constituem esta network, são elementos humanos e não humanos. Segundo [Bowker,1996], «A mesma forma de convergência entre os elementos humanos e não humanos, e de uma forma mais abrangente a cosntrução de um mundo onde a teoria actor-network é uma realidade, é uma questão ética e política. Alguns trabalhos efectuados por estudiosos destas matérias, tais como Joan Fujimura (1991), Valerie Singleton e Mike Michael (1993) e Leigh Star (1991b; 1995) referiram o facto de que a teoria actor-network poderia ser vista como uma exaltação do poder da ciência moderna e da tecnologia. Existem alguns excertos do Livro Science in Action ou The Pasteurization of France de Bruno Latour, que suportam esta afirmação. Através do nosso aprofundamento no trabalho de normalização e classificação – um aprofundamento totalmente em consonância com a análise de Latour e Callon – direccionamo-nos para uma zona onde a teoria actor-network poderá ser mais desenvolvida e explorada; e ao mesmo tempo para uma zona onde o seu lado político se encontra com as suas partes filosóficas». Esta visão reforça a ideia da importância da tecnologia no contexto da TAN2 (teoria actor-network ). A tecnologia expande o poder das pessoas, o corpo humano, sendo também actor. Pessoas e tecnologia existem em networks de interacções, fazendo com que não haja diferença entre o corpo humano e a sua extensão. Na TAN a organização é também uma network de interacções entre pessoas e tecnologia.

1.3. Descrição do problema e pontos a abordar

1.3.1. Actor


Uma das “coisas” que não funciona na teoria actor-network é a palavra actor. Não se trata de um Actor no sentido próprio da palavra e como tal não pode ser personificado. O facto de uma palavra como esta ser usada na definição da TAN, pode reificar um conceito que não existe, ou uma associação que não representa propriamente o objecto humano em si. Um actor também é uma network.

1.3.2. Network


O segundo problema tem a ver com a palavra network. Sendo um termo associado à tecnologia, torna demasiado específico o conceito de network (rede em português), e associa-lhe toda a dimensão técnica que o próprio termo implica: telefone, computador ligado em rede, World Wide Web, tornando-o redutor face à abrangência filosófica e sociológica que o termo pretende representar. Da mesma forma que um actor é uma network, uma network também é um actor, enquanto network de actores. Não se trata de uma network social ou técnica.

1.3.3. Hífen “-“


Um dos equívocos propiciados na utilização do hífen na ligação das duas palavras chave desta teoria, é o facto de poder indiciar a complementaridade ou associação às redes sociais, que deriva dos estudos sociológicos que têm sido efectuados a vários tipos de organizações e sociedades. Além disso, a TAN usa algumas das propriedades mais simples das redes e adiciona-lhe um actor que executa uma determinada tarefa; ao executar algo modifica o comportamento de todos os componentes dessa rede, e torna-se ele próprio uma network. É mais do que um traço de união que serve para ligação de enclíticas.

1.3.4. Teoria


TAN, não é uma teoria, não é uma coisa em si própria, é antes um efeito ou um produto. Não se pode definir de uma forma exacta, mas através de processos que vão transformando e sofrendo transformações ao longo do tempo.

2
Argumento

Discussão do problema apresentado


2.1. O problema da “Network”


Na TAN, quando se refere a palavra “network”, não se trata de uma network social ou técnica, nomeadamente não se trata de uma rede de computadores, a que tantas vezes este termo se encontra ligado. Todas as inovações tecnológicas que têm vindo a surgir (palmtops, computadores portáteis, telemóveis com UMTS)”, têm muitas vezes as características de uma rede, ou seja, das características que fazem reificar um conjunto de elementos que fazem parte dessa mesma rede e que permitem a ideia adjacente a cada um desses elementos como funcionando numa network. Na verdade, podemos afirmar que uma rede deste tipo, é uma “newtork” no sentido mais real, em que todos os elementos estão presentes, incluindo a tradução rigorosa dos trajectos que são percorridos por uma mensagem, os nós por onde essa mensagem passa, os elementos básicos da comunicação (emissor e receptor), bem como o caracter de previsibilidade que lhe está associado.
Uma rede deste tipo existe por si, podendo aumentar ou encurtar distâncias. «Nada é ligado mais intensa, mais distante, mais compulsório e organizado de forma mais estratègica do que uma rede de computador.» [LATOUR, 1997]. No entanto esta não é a metáfora básica da TAN. Uma rede tecnológica, é apenas um dos possíveis um estados finais e estabilizados de uma TAN. Num TAN podem faltar todas as características de uma rede; pode não ter nenhum trajeto obrigatório, nem nenhuns nós posicionados de forma estratégica.
O segundo problema em relação às redes que aparecem como fazendo parte da TAN é a associação que se faz com os estudos sociológicos, em relação às “redes sociais”, compostas por actores individuais. Por muito interessantes que sejam estes factores analisados pela sociologia acerca dos indivíduos que compõem essas redes - a freqüência, distribuição, homogeneidade, proximidade - não são os indivíduos em si, isolados de todo o resto, o objecto de estudo na TAN. «A TAN não deseja adicionar redes sociais à teoria social mas a reconstrução da teoria social de fora das redes. Tem tanto de ontologia ou metafísica, como de sociologia». [LATOUR, 1997]. Estas redes sociais são incluídas na descrição de uma determinada organização, mas não têm nenhum privilégio nem destaque (e muito poucas das suas ferramentas quantitativas são usadas).

2.2. Então, porquê “Network”


Denis Diderot (1713-1784) foi o mais proeminente do enciclopedista francês. A palvra “network” da TAN deriva do francês “réseau”, utilizada por Diderot para descrever a ligação entre o corpo e a matéria, contradizendo a divisão defendida por Décartes neste contexto. A palavra “réseau”, neste trabalho de Diderot, tem uma carga ontológica fortíssima, acabando por ser adoptado como fazendo parte desta teoria.
Quando pensamos em termos de rede, prescindimos imediatamente do conceito físico de distância e todos os sinónimos associados e que basicamente se referem ao espaço que medeia entre dois pontos, dois lugares ou dois objectos, ou ao lapso de tempo entre dois momentos, ou outros conceitos mais abstratos mas facilmente reificáveis, como separação, intervalo, afastamento, longitude e até diferença entre categorias sociais. Numa rede, os elementos que se encontram nas extremidades, podem estar infinitamente próximos ou infinitamente distantes, dependendo do contexto em que são analisadas. A palavra network, no contexto da TAN, é uma rede de interacções, entre pessoas e tecnologia, cujos elementos são constituídos em interacção, efeitos de uma network de relações e cuja existência só faz sentido no contexto das interacções que produzem.

A dificuldade que nós temos em definir todas as associações em termos das redes é devido à prevalência da geografia (descrição e interpretação da génese e evolução das formas físicas e de origem humana). Parece óbvio que nós podemos opôr a proximidade e as ligações, quando falamos em redes. No entanto a proximidade geográfica é o resultado de uma ciência, geografia, de uma profissão, geógrafos, de uma prática, de um sistema agindo sobre ele, traçando e medindo. A definição da proximidade e da distância nesse mesmo sistema, é inútil para a TAN - ou deve ser incluída como um tipo de ligações, um tipo de redes. Todas as definições em termos da superfície e territórios vêm da leitura que fazemos dos mapas desenhados e preenchidos por geógrafos. Fora do universo particular dos geógrafos e da geografia, no meio das próprias redes, não há nada relacionado com proximidade ou distância que não sejam definidas pelas ligações. A noção geográfica é simplesmente outra ligação a uma grelha que define medidas e uma escala. A noção da rede ajuda-nos a retirar o constrangimento dos geógrafos ao definir o espaço e oferece-nos uma noção que não é espaço social nem “real” ou “físico”, mas simplesmente associações.



2.3. A prática de Latour

2.3.1. Na Arquitectura



Latour apresentou, na Architectural Association de Londres uma palestra baseada no seu livro “Paris ville invisible”, publicado em 1998 em parceria com a fotógrafa Emilie Hermant. Segundo o artigo publicado na Internet3, explicando a forma como podemos visualizar a cidade, Latour estabeleceu dois diferentes meios de visualização, o panopticon4 e o oligopticon. Este substantivo, que em português significa prisão projectada de forma circular, com as celas em volta e ao centro as instalações dos guardas; está relacionado com a concepção de panorama, totalizante, megalomaníaco e paranóico. Por outro lado, o oligopticon seria o que vemos pouco mas muito bem, o que segue os filamentos, uma série de ligações. “Eu estou interessado no tipo de ligação estabelecida, e não numa visibilidade total”.
Latour expôs as principais características de sua pesquisa relacionada com a TAN, uma maneira de subverter divisões de actor e sociedade passando a considerar os actores numa rede de relações aberta e negociável, ou sejam a rede é estabelecida e sempre modificada pela acção dos actores envolvidos. Os actores podem ser humanos ou não-humanos, considerando que grande parte das ligações são feitas por não-humanos. Dicotomias como local e global, perto e longe, pequeno e grande são substituídas por tipos e número de ligações, “distribuindo o local, localizando o global”. O que Latour tenta traçar através do oligopticon são exactamente as ligações, as trajectórias desses actores no tempo e espaço. Ele ressalta a importância da metrologia, como ciência que trata da medição das grandezas físicas, dos sistemas de unidades, dos instrumentos de medida e dos métodos e técnicas operatórias, para traçar tais ligações, propondo que nós não vivemos numa “sociedade da informação”, mas de transformações e associações.
Segundo Latour, qualquer “transporte sem transformação seria simplesmente um duplo-click”. Através do oligopticon é possivel elaborar, traçar as inumeráveis técnicas que rendem a vida possível aos parisienses, ressaltando a importância dos objectos ordinários, do mobiliário urbano que forma a rede da nossa vida quotidiana e que, por sua acumulação, oferece aos habitantes os meios de percorrer e viver na cidade. Mais do que concepções de panopticon/oligopticon, o que a proposta de Latour traz de fresco é a revisão das noções dos papéis dos atores (humanos e não-humanos) e das relações, criando uma nova concepção de coletividade, ressaltando as potencialidades presentes nas cidades, no caso os potenciais “invisíveis” de Paris.

2.3.2. Na Comunidade Científica


Latour criou o conceito de “tecnociência” (technoscience), a partir da sua decisão inicial de estudar a actividade de fazer ciência e não na definição de ciência dada pelos cientistas ou pelos filósofos da ciência. Latour afirma que se tivesse feito o contrário teria vindo a acreditar na existência bipolar: de uma ciência, de um lado, e de uma sociedade, de outro; do laboratório desvinculado de toda uma rede de interesses e negociações. De acordo com estas teorias, este posicionamento teria levado Latour a perder de vista o essencial de toda a questão: o de que os cientistas se constituem em numa das forças impulsionadoras de iniciativas conduzidas por uma série de outros personagens (actores).

Para ser forte e actuante, a tecnociência procura a construção e expansão de redes (networks). Essas redes não são formadas só por cientistas e pelas suas instituições, mas também por consumidores, produtores agrícolas, comerciantes, agentes de extensão rural e assistência técnica, políticos, etc...

Na perspectiva da TAN, uma forma de ver a autonomia científica é através das diversas negociações que precisam de existir para que os núcleos científicos mais significativos tenham a sua existência, tornando-se em si, segundo Latour, um paradoxo aparente. «(…) quando os cientistas parecem estar totalmente independentes, rodeados apenas por colegas obsessivamente a pensar nas suas ciências, isto quer dizer que eles estão totalmente dependentes, alinhados com o interesse de muitas outras pessoas; ao contrário, quando são realmente independentes não possuem os recursos para equiparem o laboratório, para terem a sua vida ou para recrutarem outro colega que percebesse o que fazem» [Latour, 1987]. Esta forma de apresentar a questão é muito directa como argumentação convincente de que a ciência pura, ou o que aparece como tal, é apenas parte de uma rede que se funda em terreno que não é, propriamente, o científico. Falar-se aqui em “interior” e “exterior” à ciência é apenas uma condição inicial para se distinguir didacticamente o que, de facto, está bem ligado e que, sob um outro prisma, não pode ser dissociado. É este outro prisma, de dimensão abrangente, que o conceito de rede e associações ajudam a identificar e apreender.

Na TAN consideram-se as formas de legitimação do conhecimento científico através de diversos tipos de alianças. Para isto, analisa-se o problema de como se faz a passagem do conhecimento localizado – que é a origem do conhecimento científico – para as fórmulas universais. A ciência pode fazer afirmações universais porque pode ser normalizada em tecnologias e pode atingir através delas estabilidade e utilidade fora dos contextos locais nos quais é produzida.

Os cientistas actuam à distância, através de associações ou redes que possibilitam que determinados actores localizados num tempo e lugar específicos tenham condições de estabelecer vínculos com outros actores em diferentes tempos e lugares. Estas práticas à distância têm envolvido diversos tipos de relações de poder, sendo poderosos os actores que conseguem convencer outros actores no sentido de que eles os representem, que falem por eles e que lhes imponham certas identidades e papéis. O poder, se for possível localizá-lo nalgum algum lugar dentro desta rede de associações, existe nos recursos que incluem uma longa lista de elementos não sociais ou humanos, como tecnologias, textos e outras entidades naturais. Para entender como as redes são construídas e como a ciência pode actuar à distância com carácter de universalidade, a TAN identifica como se configuram e estabilizam as associações entre os actores em redes que se enquadram no conceito de “tecnociência”.

2.4. Os outros conceitos da TAN




2.4.1. Visão de John Law

Para enquadrar outros conceitos relacionados com a TAN, a visão de John Law, num “paper” publicado pelo Department of Sociology Lancaster University, reclama uma postura inconformista da TAN, seguindo-se um conjunto de narrativas, e respectivos casos de estudo, acrescentando comentários que vão alinhando um conjunto de definições e elementos sempre presentes da TAN.


«O que deveria ser falar sobre uma teoria ou uma tradição(...) Que representaria essa teoria? Seria um relatório? Um relatório autoritário acerca do seu carácter, do seu desenvolvimento, de suas forças e de suas fraquezas? Às vezes sou confrontado com esta pergunta. Pedem-me para discursar sobre a TAN. Para falar sobre ela. Para a resumir. Para oferecer um verdicto. Quando isto acontece sinto-me desconfortável. Cada pedido deste tipo coloca-me um problema. O problema acerca do que deve ser uma “exposição fiel” da TAN. E em particular no que pode significar “exposição fiel”, acerca de uma teoria que fala de exposição em termos da interpretação. Que tenta minar a ideia que pode haver uma coisa como representação fiel. Tradução fiel. Que reforça a ideia que toda a interpretação também acaba por traír o seu objeto. Talvez não haja nenhuma resposta boa para isto. Ou talvez, pelo contrário, há muitas. Mas existe uma possibilidade. Uma que possa interpretar a TAN executando em vez de descrever. Explorando alguns estudos de caso em vez de procurar descobrir as suas regras fundamentais. Falando dos exemplos, através da interpretação da TAN, que são fiéis e não fiéis. (...) Para usar este método é necessitaria contar as histórias, histórias sobre o ruído. Ruído da TAN. Os tipos dos ruídos feitos pela TAN. Ruídos acerca da TAN. Ruídos fora da TAN» [John Law, 1997].
Tudo o que existe, existe por efeitos heterogéneos da network, ou por efeito de networks heterogéneas. A sociedade, a organização, o conhecimento, pessoas, máquinas, dinheiro, edifícios, textos são efeitos de networks heterogéneas e vão participar noutros processos de networking (ex: compra, venda, etc...).

Cada um, enquanto pessoa, não é meramente pessoa. Outro exemplo pode ser dado através da definição do dinheiro; o dinheiro intrinsecamente nada vale, ou seja, só vale aquilo que o Banco Central diz que ele vale. A combinação de todos estes elementos, mesmo pertencendo ao domínio social não deixa de ser heterogéneo. O Social nunca é meramente social, é sempre heterogéneo, é sempre o produto da combinação entre o humano e o não-humano. Nós somos o que somos devido aos meios que nos possibilitam realizar isso, sendo cada um de nós um efeitos de produtos ou processos de networking. O social e o técnico estão sempre ligados um ao outro e é o que permite que sejamos o que somos e façamos aquilo que fazemos.



Neste contexto um actor é uma network. Ao contrário das abordagens tradicionais, o que esta abordagem nos permite é ultrapassar o conceiro de agência/estrutura. Não se se trata de pessoa ou tecnologia, mas ambos feitos um. Pessoas & tecnologia não são separadas. A estrutura emerge a partir da acção dos agentes, e as pessoas são efeitos de networks heterogéneas.

2.4.1. Pontualização, Tradução e Immutable mobiles


Outro dos elementos da TAN é a pontualização, que é um outro sinonimo de reificação ou “coisificação”. Em vez de networks, vemos geralmente apenas coisas separadas, como por Ex: um aparelho de TV, uma organização. Consisye em nos relacionarmos com as networks como coisas que já existem na ordem natural das coisas. Quando estamos numa network relacionamo-nos com ela enquanto parte de uma network e não com toda a network. A sociologia de Parsons[1979] é uma sociologia de pontualizações. É uma sociologia de “coisas”, mas não é de processos que estão entre essas coisas. A perspectiva dominante na Gestão das Organizações é também a Gestão de Pontualizações. As networks que dão origem aos ‘objectos separados’ são esquecidos ou perdidos de vista; as coisas separadas ganham uma aparência de unidades, como pontos isolados, ou seja são pontualizados.
Para a TAN, a tradução (translation), tem a ver com o processo de ordenamento ou estabilização de um conjunto de elementos que de outra forma iriam funcionar de uma forma deregrada entre si. Como exemplo, a organização não é uma coisa em si própria, mas um efeito ou produto; ordena e organiza os elementos de networks heterogéneas, num sistema relativamente estável. Sem o poder ordenador da tradução, os elementos podem evoluír em toda e qualquer direcção. Trata-se de uma “domesticação” de uma relação de elementos e assegura-se que essa relação se mantém estável. “Organising”, está na génese de organização. Outra palavra relacionada com estes conceitos é o alinhamento, que consiste em alinhar os elementos de uma certa forma. Nas estratégias de tradução, os elementos são ordenados através do uso de materiais duráveis, móveis e através de centros de tradução. A durabilidade é fundamental para assegurar relações. O uso de materiais móveis é importante para a estratégia de tradução. Um dos objectivos dos centros de tradução (centres of translation), é uma tentativa de planear e prever as respostas dos elementos, tentando ganhar alguma ascendência sobre os acontecimentos. Como exemplo, podemos referir que todas as universidades têm uma reitoria, cujo objectivo é tentar coordenar e alinhar as universidades entre si. Teanta-se incluir alguma previsibilidade no funcionamento das coisas.Não há organizações, mas networks; networks de diferenças. Tudo o que existe é “organising” e diferentes processos de relação entre elementos. São circuitos de transformações ou networks de diferenças.
O conceito de Immutable mobiles (Latour, 1987), define a forma como um elemento que representa uma network e que depois vai passar por outros processos de network, mantendo as suas características. São elementos móveis, que podem ser deslocados de um sítio para outro e representam uma network, produzindo efeitos noutras networks, mantendo-se imutáveis. Mantêm as suas propriedades ao longo de todo o seu trajecto; não se desintegram e mantêm a sua identidade. Elementos como astrolábio, quadrante, textos, dinheiro, dados em diskette e sensores de fibra óptica, são exemplos de Immutable mobiles. No entanto, outros elementos mais actuais como computadores e telemóveis, são exemplos de como mantendo as suas características alteraram claramente o comportamento das pessoas, pelas suas características de mobilidade.


3
Conclusão

Implicações da TAN


3.1. O Poder, o Conhecimento, o Humano/não-Humano e o Social/Técnico


Para concluir este trabalho, será importante referir que na TAN, o poder é um efeito, o conhecimento é um efeito produzido em networks e que podem ser diferentes conhecimentos em diferentes lugares [John Law, 1997]. Na TAN não há distinção entre o humano e não-humano, o social nunca é na sua essência puramente social. Nada é puramente entre pessoas. Quando se fala em algo social é necessário analisar o social em interacção com o técnico. O Engenheiro é um sociólogo por natureza, é alguém que produz impacto em termos de funcionamento das sociedades - é também um político. Não existe o social sem o técnico, habitam-se mutuamente. Na TAN tudo é um processo reversível - ex: império Português, URSS, Swiss Air.
O Poder na TAN, passa por uma estratégia de tradução: tornar-se indispensável, ou ponto obrigatório de passagem, ou constituir-se um ponto de passagem obrigatória para os outros. Os outros, para realizarem os seus interesses, vão ter que passar por “ali”. A robustez das networks, passa pela constituição de uma geografia de pontos de passagem para os próprios elementos envolvidos. Segundo Latour[1987], esta será a estratégia de tradução que consegue efeitos mais duráveis, a que em princípio se irá manter durante mais tempo e produzir mais resultados. Nesta estratégia, o tradutor (translator) coloca-se no centro, delineando um cenário, envolver outros, mostrar como os seus interesses podem ser alcançados se fizerem o que é proposto por si, distribuí papéis, assegura que sejam fiéis à nova relação (estabilizando as identidades), clarificando papeis, desligando de relações concorrentes (alinhamento da network), e tentando que todos tenham os mesmos objectivos. Nesta estratégia, o tradutor ‘translator’ não é questionado, estando a network alinhada por uma só voz. Este tradutor pode ser um elemento humano ou não humano.

3.2. Afinal o que é TAN?


Depois de tudo o que foi explicado ao longo deste trabalho, a TAN:

  • Não é uma ‘teoria’ : é um método uma abordagem mas também uma teoria

  • Não é um ‘actor’ : é actor e acção que não podem ser dissociados nem dissociados do contexto e da network que lhe dá origem e que é a sua razão de existir como actor

  • Não é uma ‘network’: não é uma network social nem uma network técnica, mas o conjunto das duas associadas, dissociadas e instanciadas no conjunto de elementos que lhe dão sigificado como

  • Não é ‘actor’ e ‘network’ : porque actor é network e network é actor

  • Não é ‘-’: porque não há nada para além de networks e não há nada no meio de networks.

  • É (réseaux), (assemblage), associações: porque tudo o que existe são networks, e toda a network é fronteira, sem lado de dentro ou lado de fora da fronteira; networking é tudo o que existe em permanente movimento, é composta por elementos que mobilizam outros elementos, e qualquer elemento se pode tornar estratégico através do nº de ligações que comanda, ou por ser um ponto obrigatório de passagem, podem ser mais ou menos robustas e todas as ligações são mutáveis e reversíveis.

A TAN coloca-se em causa. Renova-se, reinventa-se, porque ela própria é actor e é network. Ela própria é contestada e enriquecida num processo contínuo de evolução de networking. É movimento e nunca está terminada. Não pode ser totalmente reificada, mas apenas argumentada ou instaciada num determinado contexto, através duma ‘pequena estoria’, descrevendo associações (o quê, como, porquê) e porque se tornam mais fortes ou mais fracas, as trajectórias dos diferentes actores e as práticas que transformam outras práticas.


Bibliografia
LATOUR, B. Science in action – how to follow scientists and engineers through society. Cambridge: Harvard University Press, 1987.

Bruno Latour & Emilie Hermant, Paris ville invisible. La Découverte, Paris 1998, (La Découverte, 9bis, rue Abel-Hovelacque, 75013 Paris).

Boletim 31, da Associação Brasileira de Arquitectura, no URL:http://www.puccamp.br/~fau/oculum/boletim/b31/b31.htm

John Law, Notes on theory of actor-network: Ordering, Strategy, and Heterogeneity, Systems Practice, Vol5, No. 4, 1992

John Law, ‘Traduction/Trahison: Notes On ANT’ publicado pelo Department of Sociology Lancaster University at: http://www.lancaster.ac.uk/sociology/stslaw2.html

Graça Manuel, Apontamentos das Aulas de Mestrado de Gestão de Informação, FEUP 2001/2002

Geoffrey C. Bowker, “How things (actor-net)work: Classification, magic and the ubiquity of standards”, University of Illinois at Urbana-Champaign 1996



1 A palavra network será mantida no original inglês para manter a coerência com os conceitos utilizados internacionalmente.

2 Por uma questão de simplificação, a partir deste parágrafo será usada a palavra TAN como abreviatura da Teoria Actor-Network

3 Pertence ao boletim 31, da Associação de Arquitectos do Brasil, onde são discutidos e publicados diversos estudos relacionados com as cidades.


4 Embora na tradução para português seja encontrado muitas vezes o termo panóptico, conservei a palavra “panopticon” do artigo retirado da Internet, um conceito antagónico em relação à palavra oligopticon, explicada no texto.







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