Trabalho de ensino religioso



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Trabalho de Ensino Religioso


Adriana Mion

Adriana Vieira Miranda

Beatriz Gracioli Andrade

Gláucia Cristiane Bérgamo

Paula Pinheiro Travaini

Introdução

A religiosidade é um assunto que, na era em que vivemos, tem despertado preocupações, impulsionando com isso, um volume considerável de estudos e produções teóricas, visando buscar e encontrar respostas para as questões que pautam nossa vida em relação ao Transcendente.

O ser humano, buscando responder a essas indagações existenciais e compreender situações de vida, desenvolve conhecimentos, que transforma a si próprio e a seu meio, desencadeando a produção de cultura.

Nesse sentido, o Ensino Religioso é componente curricular que trabalha a dimensão da religiosidade, presente em todas as culturas. Evidentemente o que basicamente caracteriza o Ensino Religioso é que ele é uma atividade educativa que se desenvolve na escola, buscando refletir a dimensão natural do ser humano, expressa numa cultura. Nesta atividade, ligada ao ensino-aprendizagem, é fundamental que o profissional tenha clareza dos seguintes conceitos: o Fenômeno Religioso (O Ensino Religioso, como disciplina escolar, tem como objeto o Fenômeno Religioso que se estrutura na relação bidimensional de cultura e tradições religiosas), a Religiosidade (A religiosidade busca viver a religião de uma forma espontânea, variável, ligada ao cotidiano da vida, a ritos, costumes, festas, folclore, como parte integrante da cultura tradicional), a Fé (a fé é a opção, escolha que o sujeito faz) e a Religião (a Religião acompanha o homem desde o começo de sua história. Pertence a sua essência – sua cultura –).

Assim, o Ensino Religioso escolar visa proporcionar ao educando, experiências, informações e reflexões que o ajudem a cultivar uma atitude dinâmica de abertura ao sentido mais profundo de sua existência em comunidade, e o encaminhe a uma organização responsável do seu projeto de vida. Acredita-se que esta disciplina ajuda a vivenciar práticas transformadoras, removendo eventuais obstáculos à fé. Desta forma, compreendidas as diversas expressões religiosas, é importante valorizar a própria crença, para ter condições de exercer consciência crítica, praticar diálogo e o respeito para com os outros.

O que se quer é ensinar a religiosidade e entendê-la, ter capacidade de ir além da superfície das coisas, dos acontecimentos, gestos, ritos, normas e formulações, para interpretar toda a realidade em profundidade crescente e atuar na sociedade de modo transformador e libertador. Este é todo um processo educativo que precisa ser desenvolvido com o educando na área de Ensino Religioso.

Sendo assim, este trabalho é um exercício de pesquisa para que nós alunos ponhamos em prática as técnicas formais que aprendemos nas aulas de “Psicologia, Educação e Pesquisa”. Como um exercício de iniciação científica, sabemos que não se espera de nós que sejamos originais, mas mesmo assim procuramos realizar um trabalho que traga contribuições; se não para os especialistas no assunto, que contribua pelo menos para a formação de nossos colegas e, que nossas experiências em pesquisa científica sirvam de orientação aos que ainda ingressarão neste caminho.

A partir do Artigo XVIII da Declaração Universal dos Direitos Humanos, referente à liberdade de pensamento e de religião das pessoas, e a partir de algumas discussões entre este grupo de pesquisa e o professor, decidimos fazer um trabalho que ligasse tal direito à educação, que é o nosso campo de atuação. Decidimos então observar o Ensino Religioso nas Escolas Públicas de Campinas e verificar se o referente artigo da DUDH* vem sendo respeitado pelos professores desse ensino.

Foi um trabalho iniciado do zero, pois desconhecíamos a legislação que regulamenta o ensino religioso e os parâmetros curriculares para o desenvolvimento do mesmo.

Assim, começamos por uma pesquisa bibliográfica (ver “Quadro Teórico”) e só depois disso, decidimos quais as metodologias que empregaríamos (ver “Metodologia”). Partimos finalmente, para a pesquisa em campo (ver “Apresentação e Análise dos dados coletados”), ou seja, fomos às escolas públicas estaduais para verificar como esse ensino vem sendo realizado na prática.

O problema da nossa pesquisa ficou definido na seguinte pergunta: “Os professores de Ensino Religioso (das escolas públicas) respeitam o direito à liberdade de pensamento e de religião dos seus alunos?”.

Partimos do pressuposto de que os professores não são neutros, têm as suas próprias crenças, descrenças e valores e, portanto, essas influenciariam sua atuação como professores de ensino religioso. A resposta a essa pergunta estará no final deste trabalho (ver “Considerações Finais”).

Portanto, com este trabalho de pesquisa, estamos cientes de que não se esgotou o assunto, porque informações de pesquisas que estão surgindo e surgirão sobre o referido assunto, com certeza, trarão novas informações que poderão alterar os conceitos e conclusões já obtidas até o presente momento.

Quadro teórico: A Religião e o Ensino Religioso
O termo “religião” vem do latim: “religare”, que significa “amarrar”: amarrar o homem a Deus. Toda Religião, para atender a essa finalidade, possui um conjunto de crenças e práticas: mitos, ritos, festas, símbolos, normas de conduta, instituições, elementos que exercem a função de “amarrar” o que realmente é importante na vida. Assim, a religião é parte integrante da vida de todos os povos.

Nos últimos anos, como nunca, milhares de livros foram escritos e centenas de revistas tratam das múltiplas religiões que vêm orientando os povos em sua relação com Deus e com seus irmãos de fé, contudo, ninguém consegue esgotar este assunto.

Alguns pesquisadores fazem comparações a fim de descobrir o que caracteriza o conceito de religião em si: Schleiermacher (2001) afirma que “a religião é um sentimento ou uma sensação de absoluta dependência”; já Tiele (2001) declara que “religião significa a relação entre o homem e o poder sobre-humano no qual ele acredita ou do qual se sente dependente. Essa relação se expressa em emoções especiais (confiança, medo), conceitos (crença) e ações (culto e ética)”; enquanto Glasenapp (2001) registra que “a religião é a convicção de que existem poderes transcendentes, pessoais ou impessoais, que atuam no mundo e se expressam por insight, pensamento, sentimento, intenção e ação”.

Na Antigüidade, entre os gregos, a discussão sobre o mundo e a harmonia cósmica produziu doutrinas práticas que procuravam orientar a ação dos indivíduos para uma vida voltada para o bem, a virtude e a harmonia com a natureza. Já era uma questão moral, por isto consideravam que deveria haver uma lei moral no mundo que permitisse ao homem se realizar como homem.

Sócrates, com sua preocupação moral expressa no lema “conhece-te a ti mesmo” (lema que não era teórico, mas prático, pois buscava um conhecimento puro e uma sabedoria de vida), acentuou a especificidade da moral frente à cosmologia.

Como se percebe, a religião grega, como muitas outras religiões antigas, era ainda muito naturalista, sendo os deuses geralmente apenas personificações de forças naturais, como o raio, a força, a inteligência, o amor e até a guerra.

Já o cristianismo, que surgiu na derrocada do Império romano, o conceito de religião foi adequado, o que aconteceu pelos padres da Igreja (católica), principalmente Santo Agostinho, de acordo com a idéia central do evangelho: a essência da religião cristã consiste na fé, na esperança e no amor, não se reduzindo somente a um conjunto de observações. Assim, na medida em que se convencionou chamar a Idade Média européia o período cristão do Ocidente, o conhecimento ético está, portanto, todo ligado à religião, à interpretação da Bíblia e à Teologia.

Na Idade Moderna, que coincide com os últimos quatro ou cinco séculos, apresentam-se duas tendências à busca de uma ética leiga: seja ela racional (apenas) muitas vezes baseada numa lei natural ou seja baseada numa estrutura (transcendental) da subjetividade humana que se coloca comum a todos os homens.

Foi, através destes séculos, que surgiu a Declaração Universal dos Direitos Humanos. A DUDH, aprovada em 10 de dezembro de 1948 pela Assembléia Geral das Nações Unidas, foi o mais importante e completo documento concebido em favor da humanidade até esta data. Através dos tempos, por ocasião de conclaves internacionais, continuaram sendo elaborados documentos objetivando a melhoria nas relações entre os homens e os povos.

Os princípios contidos na Declaração estão inseridos em todas as Constituições do mundo moderno e constituem parâmetros para a democracia.


Neste trabalho o enfoque recai sobre o Artigo XVIII:
Toda pessoa tem direito à liberdade de pensamento, de consciência e de religião; este direito inclui a liberdade de mudar de religião ou crença e a liberdade de manifestar essa religião ou crença pelo ensino, pela prática, pelo culto e pelos rituais, de modo isolado ou coletivo, em público ou em particular”.
Sendo assim, “ninguém pode ser força­do ou coagido a abraçar (nem a abandonar) uma modalidade es­pecífica de religiosidade, por quaisquer motivos. Inclusive, o di­reito de não ter religião deve ser igualmente respeitado. Isso porque se alguém é livre para pensar, é livre também para, no plano da consciência, recusar a afiliação a esta ou àquela doutrina religiosa.

O artigo XVIII propõe ainda que tais estratégias de difusão do ideário religioso podem se dar de forma isolada ou em comunhão com outros, podendo acontecer tanto em espaços públicos (ruas, praças etc.) como em locais reservados (igrejas, capelas). O que não se pode admitir, sob hipótese alguma, é que as religiões possam ser tomadas como justificativa para a discriminação e a intolerância: o avesso absoluto de toda e qualquer crença plausível”. (ARAÚJO E AQUINO, 2001)

A Idade Moderna, ainda, pode ser definida como um tempo de grandes realizações e, neste contexto, várias ciências tem dado sua contribuição. A área da psicoterapia, por exemplo, estuda comportamentos substitutivos da natureza, objetivando compreender melhor o pensamento humano. Jung, por exemplo, comenta que entre todos os seus pacientes de mais de trinta e cinco anos não havia nenhum cujo problema não fosse de natureza religiosa. “A raiz da enfermidade de todos está em terem perdido o que a religião deu a seus crentes em todos os tempos; e ninguém está realmente curado enquanto não tiver atingido, de novo, o seu enfoque religioso” (WILGES, 1996). Pavlov (idem) parece confirmar as considerações de Jung quando escreve: “Não considero minha falta de fé como uma vantagem, mas antes como uma desvantagem para mim pessoalmente, em comparação com os que tem fé”, sugerindo conviver com dificuldades advindas de uma eventual negação da religiosidade.

Sendo assim, a Psicologia da Religião estuda a origem e a natureza da mentalidade religiosa, da experiência religiosa, do sujeito religioso e os vários fenômenos que se verificam no indivíduo que realiza a experiência religiosa, como vemos nos estudos de Jung, Pavlov ou mesmo Freud.

No Brasil, a religião veio trazida pelos europeus no ano de 1500. Conquistado e colonizado pelos portugueses, o Brasil foi catequizado pelos missionários, os padres jesuítas tornando-se, assim, um país oficialmente católico. O Papa concedeu, na época, à Coroa portuguesa o direito de ministrar o catolicismo nas terras conquistadas, fazendo com que a evangelização se juntasse com a dominação colonial.

O rei de Portugal tinha a incumbência, dada pelo Papa, de conquistar, junto com as novas terras, novos fiéis. Tinha de construir templos e mosteiros, dotá-los de padres e religiosos e, principalmente, nomear os bispos. Os padres e bispos eram funcionários públicos e remunerados como tais. Neste período colonial, a Igreja dependia mais do Estado português do que do Vaticano. As leis e diretrizes chegavam ao Brasil por meio da administração portuguesa, cabendo ao rei português selecionar as orientações e leis vindas de Roma, antes de serem publicadas na colônias.

A educação, nesta época, era fortemente marcada pelos ensinamentos religiosos dos jesuítas (Companhia de Jesus) que se baseavam no Ratio Studiorum. O currículo, se assim podemos chamar, se baseava em: curso de Humanidades, curso de Filosofia, curso de Teologia e, por fim, viagem à Europa.

O importante a ressaltar neste instante, é que a formação intelectual oferecida pelos jesuítas, e, portanto, a formação da elite colonial, será marcada por uma intensa “rigidez” na maneira de pensar e, consequentemente, de interpretar a realidade.

A postura portuguesa, portanto, fez com que o catolicismo se tornasse a religião oficial do Estado brasileiro, o que (teoricamente) só deixou de acontecer no final do século XIX, quando o regime monárquico foi substituído pelo republicano. Diz-se teoricamente, pois até a segunda metade do século XX, o ensino caracterizava-se como evangelização, aula de religião, catequese, ensino bíblico. A lei de Diretrizes e Bases n.º 4.024/61 refletiu essa concepção.

Com o novo regime, o povo conquistou a liberdade social e de pensamento. Sendo assim houve uma grande expansão da Igreja que, até então, estava sufocada pelo controle estatal. O povo teve, assim, liberdade de associação, liberdade de reunião, liberdade expressão coletiva e livre concorrência entre as organizações religiosas.

Com a desvinculação total entre a Igreja e o Estado, portanto, a educação passou a ser vista como um fator de mobilidade social, pois o quadro do país passava por profundas transformações, sobretudo com a urbanização; fazendo com que a população sentisse a necessidade de uma maior escolarização que aparecia como meta almejada para alcançar as carreiras burocráticas e intelectuais.

Foi, a partir dos anos 80, com o advento da LDB, Lei 5692/71, que o Ensino Religioso caracterizou-se como pastoral, aula de ética e valores e o conhecimento veiculado foi o da formação antropológica da religiosidade, pelo saber em relação a si próprio, a Deus, ao mundo e à natureza.

A Constituição Federal de 1988 estabelece a obrigatoriedade do Ensino Religioso para a formação básica da criança e do adolescente no ensino fundamental, cabendo a escola garantir matrícula facultativa para o mesmo. “O Ensino Religioso de matrícula facultativa, constituirá disciplina dos horários normais das escolas públicas de ensino fundamental”.(Constituição Federal, Capítulo III, Seção I, Artigo 210 – parágrafo 1º).

Com a instalação do Fórum Nacional Permanente do Ensino Religioso (1995) e respondendo às exigências da educação para o século XXI, elege-se como objeto de estudo o fenômeno religioso, e o conhecimento veiculado é o entendimento dos fundamentos desse fenômeno que o educando constata a partir do convívio social. Neste contexto, o Ensino Religioso é entendido como área do conhecimento da Base Nacional Comum, conforme a LDB n.º 9394/96, parecer 04/98 e a resolução 02/98 da Câmara de Educação Básica. O artigo 33 da lei, orientando os currículos escolares, estabelece as áreas temáticas para capacitação dos profissionais do Ensino Religioso. Assim descreve a lei: “O Ensino Religioso, de matrícula facultativa, é parte integrante da formação básica do cidadão, constitui disciplina dos horários normais das escolas públicas de ensino fundamental, assegurado o respeito à diversidade cultural religiosa do Brasil, vedada quaisquer formas de proselitismo”.

O aspecto mais importante para o desenvolvimento de nossa pesquisa é que a LDB estabelece que são vedadas quaisquer formas de proselitismo (conforme sublinhado). “Isto significa que a Escola pública não pode impor aos alunos práticas religiosas desta ou daquela Igreja ou Religião. O termo proselitismo significa fazer adeptos ou seguidores. E conforme a lei, é proibido no Ensino Religioso fazer catequese ou práticas religiosas com o propósito de influenciar os alunos a conversão ou adesão a alguma Religião ou Igreja” (ASSINTEC-PR).

Já, de acordo com a Resolução SE-21, de 29 de Janeiro de 2002 e, a Deliberação CEE n.º 16/2001 fica explicitado que o Ensino Religioso busca enfocar a História das Religiões. O conteúdo dado fica a cargo do professor devendo ser trabalhado transversalmente. As aulas correspondem à apenas um dia na carga horária do aluno. Essa resolução fica melhor explicada à partir dos Parâmetros Curriculares Nacionais que propõem o estudo de culturas e tradições religiosas – a partir da Filosofia, História, Sociologia e Psicologia, da tradição religiosa; Escrituras Sagradas e/ou Tradições Orais – “estão ligados ao ensino, à pregação, à exortação e aos estudos eruditos” (PCN’s); a Teologia - divindades, as verdades em fé e vida além da morte; Ritos - rituais, símbolos e espiritualidade - e Ethos – alteridade, valores e limites.

“Portanto, na escola atual o Ensino Religioso tem a função de garantir a todos os educandos a possibilidade deles estabelecerem diálogo. E, como o conhecimento religioso está no substrato cultural, o Ensino Religioso contribui para a vida coletiva dos educandos, na perspectiva unificadora que a expressão religiosa tem, de modo próprio e diverso, diante dos desafios e conflitos.

E, é dessa estrutura comum que são retirados os critérios para organização e seleção dos conteúdos e objetivos do Ensino Religioso. Assim, na pluralidade da escola brasileira esses critérios são eixos organizadores para os blocos de conteúdos” (PCN’s).

Nos PCN’s procuramos verificar se os conteúdos sugeridos respeitam a diversidade de religiões e se propõe o respeito à liberdade de pensamento e de religião dos alunos. Segundo o especialista na tradução dos PCN’s, Marcos Cordiolli, professor do Curso de Pedagogia do Centro Universitário Positivo (UnicenP), de Curitiba, é difícil conciliar tantos interesses numa mesma proposta pedagógica. "Poucos professores ou currículos incorporam de fato as religiões de origem africanas. Um número um pouco maior já trata das religiões asiáticas. Mas ainda verificamos diferenças significativas quanto aos materiais didáticos, programas curriculares e encaminhamentos pedagógicos", afirma. Cordiolli vê uma dificuldade ainda maior no caminho. "O professor em sala de aula dificilmente consegue ter alteridade suficiente para respeitar as outras religiões e promover uma atuação dentro das propostas" (Fonte: Aprendiz – Gilmar Piolla – Sexta, 09 de maio de 2001).

Enfim, como pudemos perceber, o Ensino Religioso se adapta de acordo com o seu tempo e reflete os interesses que estão em jogo dentro de uma dada sociedade. Sendo assim, com essa secularização do mundo nos tempos modernos e o processo científico, o lado sagrado do sentido da existência humana, o religioso, não ficaram ocultos?

Para uma maior reflexão por parte do leitor e, esclarecendo que estes não se constituem o objeto de estudo desta pesquisa, propõe-se: Qual a função do Ensino Religioso? O Ensino Religioso na educação poderá oferecer respostas, abertura neste campo?


Processos Metodológicos na Pesquisa de Campo
Para alguns, o Ensino Religioso precisa ser encarado como parte integrante de um processo didático-pedagógico, pois sua história no contexto escolar ficou muito no autodidatismo. Outros porém, contrariamente, acreditam que este ensino não deve fazer parte da grade curricular uma vez que os conteúdos abordados não condizem com que deve ser ensinado na escola. Sentimento de solidariedade, ética, valores sociais são conceitos que se estruturam em outros ambientes das relações humanas. O que vemos, portanto, é que existem opiniões contrárias a esse ensino.

Hoje, com tantos desafios sociais, como o pluralismo religioso, a fragmentação social e religiosa, a infinidade de movimentos religiosos, de seitas, proselitismo, é papel da educação fornecer elementos que ajudem o educador a educar seu “ser religioso”. Como atividade educativa, o Ensino Religioso deve criar condições favoráveis para que cada pessoa desenvolva suas capacidades. Por isso, o Ensino Religioso está sujeito aos critérios pedagógicos da escola. Isto explica um conteúdo definido, com uma metodologia própria da escola que dê identidade e o caracterize como realmente deve ser.


Caracterização da Pesquisa

Esta pesquisa constitui um estudo de caráter multimétodos com vistas ao levantamento, análise e interpretação das respostas dadas pelos professores de Ensino Religioso de Escolas Públicas de Campinas e por um professor de Ensino Religioso da Rede Estadual de Minas Gerais à respeito do papel do professor no Ensino Religioso; ou seja, se este professor aceita a liberdade de pensamento e de religião de seus alunos, respeitando assim o artigo XVIII da Declaração Universal dos Direitos Humanos.

Evidenciamos que esta pesquisa possui um caráter multimétodos na medida em que a coleta de dados foi trabalhada à partir de entrevistas, observações e análises documentais.


Instrumentos

A entrevista foi obtida à partir de um questionário pré-elaborado pelo grupo e contava com questões abertas (onde o entrevistado tinha a liberdade de responder às perguntas) e fechadas (com alternativas passíveis de respostas sim/não), perfazendo um total de 14 questões (este número não é fixo, varia conforme o entrevistado), aplicada no mês de abril de 2003. Este método foi usado, pois a entrevista representa um dos instrumentos básicos para a coleta de dados. Como aponta Menga Lüdke, “a grande vantagem da entrevista sobre outras técnicas é que ela permite a captação imediata e corrente da informação desejada ... “ (1986, p. 34). Para a pesquisa que foi desenvolvida, ela se tornou o melhor método.

Fizemos também uma observação direta da aula de Ensino Religioso ministrada pelos professores e professoras entrevistados procurando analisar os elementos que melhor respondesse ao problema da pesquisa. A observação foi um bom método para estabelecer com os entrevistados um contato mais direto e pessoal, sendo por isso possível uma coleta dos dados mais eficaz.

Além disso, também foi feita uma busca pela Internet à respeito dos Parâmetros Curriculares Nacionais e da Lei de Diretrizes e Bases da Educação, relativos ao Ensino Religioso, buscando, portanto, avaliar se essas leis são realmente cumpridas, efetivando o propósito deste Ensino. A análise documental foi de importância fundamental, já que desconhecíamos como vinha se desenvolvendo esse tipo de ensino e o conhecimento de tais documentos embasa toda a pesquisa.
Descrição da Amostra

A amostra que integrou esta pesquisa é composta por professores e professoras de Ensino Religioso de Escolas Públicas da cidade de Campinas:



  • Escola Estadual Professor Luís Galhardo

Entrevistada: Alessandra

  • Escola Estadual Tomás Alves

Entrevistado: Beto

  • Escola Estadual Professor Adalberto Nascimento

Entrevistada: Maria do Carmo

Além disso, foi possível contar com a participação de alguns outros entrevistados e entrevistadas, conhecedores do assunto em questão:



  • Professor de Ensino Religioso da Rede Estadual de Minas Gerais

Entrevistado: Cícero Clarindo de Souza

  • Profª. Dr.ª. Maria Izabel Galvão

Contribuição: Integrante da Comissão de Direitos Humanos da USP
Caracterização da Amostra

Optou-se por professores e professoras de Escolas Públicas por entendermos que este ambiente deveria possuir uma maior “autonomia”. Isso quer dizer que, diferentes das Escolas Particulares onde o Ensino Religioso corresponde à concepção de religião da instituição, a Escola Pública possui uma maior variedade na escolha da metodologia adotada fazendo o educador, ou educadora, ter maior liberdade na exposição do conteúdo da aula.



Mas na opinião da Profª. Dr.ª Maria Izabel Galvão, “independentemente de um ensino formal de religião, o que se constata nas escolas públicas ditas leigas, desde a educação infantil, é a presença de símbolos e práticas religiosas nas situações cotidianas: por exemplo, escolas em que se faz os alunos rezarem para agradecer o alimento; outras em que se coloca a cruz da igreja católica em determinados locais destacados da escola. Nessas práticas, passa-se a naturalização de uma determinada religião, o que me parece pouco contribuir para a tolerância com as demais”.

Por fim, é de importância revelar que os dados foram colhidos pelas integrantes do grupo separadamente, cada qual com uma instituição ou entrevistado. A coleta fora também realizada em dias diferentes, sob as condições impostas pelas instituições ou de acordo com a disponibilidade dos envolvidos ou envolvidas.

Veja como ficaram a apresentação e a análise dos resultados.
Apresentação da Análise dos Dados da Pesquisa de Campo
Formação

De todos os professores entrevistados apenas o professor de Minas Gerais* é formado em Filosofia, todos os outros são formados em História.

Nesse aspecto todos os professores correspondem ao estabelecido na deliberação CEE n.º 16/2001 que estabelece em seu artigo 2º: “consideram-se habilitados para o exercício do magistério de ensino religioso, nas quatro primeiras séries do ensino fundamental: os portadores de diploma de magistério em normal médio; b) os portadores de licenciatura em Pedagogia, com habilitação no magistério de 1ª à 4ª séries do ensino fundamental” e no seu artigo 3º: “são habilitados para o exercício do magistério de ensino religioso nas séries finais – 5ª à 8ª - do ensino fundamental, os licenciados em História, Ciências Sociais ou Filosofia”.
Parâmetros Curriculares Nacionais para o Ensino Religioso e Capacitação
Apenas a professora Alessandra declarou não conhecer os PCN’s para o ER, por outro lado, ela diz que tem feito cursos de capacitação para esse ensino: “Estamos sendo inclusive ajudados por um grupo de pesquisa da UNICAMP que elaborou um projeto para ser aplicado nas escolas. É o projeto CUIDAR. Mas o problema é que só agora estamos recebendo o material; por isso o que eu fiz foi um outro projeto chamado “Sonhar para Ser” “. O fato de a professora só estar recebendo o material agora se confirma em uma matéria do jornal O Estado de S. Paulo que fala do material produzido por professores e especialistas da UNICAMP seguido do comentário “Embora elogiada por especialistas, as medidas vêm com seis meses de atraso” e mais “Muitos docentes, mal preparados, acabam passando um pouco de sua experiência pessoal e não uma visão multireligiosa”, diz o professor de história da Escola Estadual Antônio Valdemar, em Suzano, e membro de uma associação que tenta preparar profissionais para a matéria (O Estado de S. Paulo – 09/09/2002).

Os demais professores entrevistados, mesmo os que dizem não conhecer os PCN’s profundamente, declaram concordar com as idéias e temas nele sugeridos. Mais uma vez, o Professor Cícero que nos deu uma entrevista bastante informativa, diz considerá-los importante: “Melhor com eles do que sem eles. Segundo, eles são precários – frutos do esforço dos profissionais da área, visto que são extra-oficiais. Diferentemente, dos parâmetros de outras áreas, os de Ensino Religioso são frutos de esforço dos professores e não de atuação do MEC – que pagou caras consultorias para as outras áreas do conhecimento”.



Como são realizadas as aulas

Apesar dos parâmetros, cada professor escolheu sua própria forma de dar aulas e o conteúdo a ser dado. A professora Maria do Carmo propõe discutir problemas sociais como guerras, miséria, violência, confrontando-os com a visão religiosa. A professora Alessandra diz que trabalha os “Códigos da Modernidade”, ou seja, as habilidades que eles precisam desenvolver para atuar como futuros profissionais. O professor Beto diz trabalhar com os pontos negativos e positivos de cada religião apontados pelos alunos. “Eu faço com que eles falem, e não que eu ensine, porque cada um tem uma religião e não há certo e errado. Caso haja uma discordância entre algum aspecto de diferentes religiões, eu tento saber mais sobre o assunto e trago para a classe de volta depois”. O professor Cícero diz trabalhar com a história das religiões, ele acredita que se os alunos compreenderem as características principais de cada religião preconceitos com o outro e com as diferentes religiões pode ser rompido.



As religiões dos alunos


A resposta dos professores sobre a religião dos seus alunos foi quase unânime, a maioria dos alunos de ER constituem-se de católicos e evangélicos. Apenas um dos professores declarou ter uma “parcela reclusa de afro-brasileiros”.

Esses dados não nos surpreenderam uma vez que a maioria da população se constitui de católicos e evangélicos. Isso se confirma pelos dados do censo de 2000 que informa que “o País tinha 124 milhões de católicos - ainda o maior grupo religioso brasileiro - e 26 milhões de evangélicos. É nos 20 milhões restantes da população que estão os adeptos de grupos orientais e de outras religiões, como o espiritismo, as religiões afro e vários outros cultos” (O Estado de S. Paulo – 24/02/2003).



Alunos Ateus

Uma das professoras não sabe se tem alunos ateus e diz que acha que não teria problemas se algum aluno se confessasse ateu, por que ela não fala de religião em suas aulas, mas de ética e valores. Outra professora disse ter alunos que se proclamam ateus, mas que eles confundem ser ateu com não seguir a religião de batismo. Essa mesma professora afirma que “se um dia eu tiver um aluno ateu " mesmo" ... bom..realmente não sei te dizer como farei...Mas vou procurar fazer com que ele tenha esperança e vontade de vencer e que queira bem o seu próximo. Só de saber que ele tem amor no coração...pra mim já ta bom”. O professor mineiro diz que tem alunos que se dizem sem religião e que não tem nenhum problema em ter aluno ateu, o importante é que o aluno seja autêntico consigo mesmo. O professor também informa que o número de pessoas sem religião vem crescendo na população brasileira. Essa informação se confirma: “O número de ateus e sem religião cresceu 52% no Brasil na década passada, segundo o Censo. Mas eles ainda representam uma minoria, em torno de 7% da população, e muitas vezes são vistos com desconfiança como se tivessem uma falha de caráter. (O Estado de S. Paulo – 05/10/2002). Já o professor Beto pergunta a entrevistador se ateu é aquele que não acredita em Deus, a entrevistadora confirma, então ele responde que tem um aluno ateu, mas que vai ”mudar a cabeça dele até o fim do ano”.

Ensino Religioso necessário nas escolas

Todos os entrevistados declaram que o ER é necessário nas escolas. Para o professor Cícero, “o Ensino Religioso é fundamental na escola. (...) O Ensino Religioso convida a pessoa a realizar vários encontros: com ela mesma, com o outro, com a natureza (mundo) e com o transcendente. A pessoa que consegue fazer estes encontros é mais feliz, isto é, mais si-mesma, mais autêntica”. Para a professora Maria do Carmo, “Os jovens de hoje, precisam ter na escola esse tipo de educação. Pois, as famílias estão muito desestruturadas e essa falta de diálogo e afetividade causa uma carência e uma revolta muito grande, gerando esse alto índice de violência que agente vê por ai... O papel do professor tem mudado muito dentro da escola”. A professora Alessandra conta que pais de alunos a procuraram para perguntar se o ER é obrigatório e ela responde dizendo que não, mas que é necessário. O professor Beto diz que “Sim (o ER é importante), claro e deve continuar. Os alunos mudaram a cabeça, eles achavam que aula de religião a gente ia ficar lendo a Bíblia, mas não tem nada a ver”.


Religião dos professores e Grau de Interferência destas nas aulas

Todos os professores entrevistados são católicos, mas a professora Maria do Carmo diz seguir “(...) duas crenças. Fui batizada na Igreja católica, mas freqüento também um centro espírita”. Todos os professores dizem acreditar que sua religião não interfere nas aulas e que procuram respeitar o direito a liberdade de pensamento e crença dos seus alunos.

A professora Maria do Carmo fala: “Quanto ao fato de interferir nas minhas aulas, acredito que não, pois procuro respeitar a fé dos meus alunos em relação às outras religiões (...)”. A professora Alessandra: “Eu tenho religião sim! Eu sou católica e, inclusive uso adereços da religião católica. Sinceramente não acredito que isso interfira em minhas aulas, mesmo porque meus alunos não sabem que eu sou católica; a menos que me perguntem!”.

O professor Cícero diz “Procuro estar consciente de que sou religioso, de que tenho uma religião e, nesta condição, não fazer uso dela. Creio que religião é para ser vivida e não para ser “berrada” aos quatro ventos. (...) Portanto, melhor do que “puxar a brasa para a minha sardinha” é não puxar a brasa para lado nenhum é procurar a equanimidade na relação com o outro diferente”. E por fim, o professor Beto que diz que acha que sua religião não interfere em suas aulas.



Análise dos Dados da Pesquisa de Campo
Segundo Menga Ludke, “a análise de dados não deve se restringir ao que está explicitado no material, mas procure ir mais a fundo, desvelando mensagens implícitas, dimensões contraditórias e temas sistematicamente ‘silenciados’” (1986, p. 48).

À partir desta idéia, procurou-se analisar os dados coletados não só pelo que os entrevistados disseram, mas pelas impressões que nos foram causadas. Isso porque, na entrevista com a professora Alessandra e na entrevista com o professor Beto, o trabalho de busca das “mensagens implícitas” foi facilitado devido às observações das aulas por eles ministradas.

Por outro lado, na entrevista com o professor Cícero, não foi possível verificar tais mensagens uma vez que a entrevista foi concedida pela Internet, via e-mail.

Assim, partindo do artigo XVIII da DUDH, referente às concepções de religiosidade, elaboramos o seguinte problema de pesquisa: “Os professores de Ensino Religioso, das Escolas Públicas, respeitam a liberdade de pensamento e religião de seus alunos?”

À partir das respostas encontradas nas entrevistas para o referido problema, estabeleceu-se que as categorias de análise são:



  1. Respeito à liberdade de pensamento e religião;

  2. Não respeito à liberdade de pensamento e religião;

Assim, a análise dos dados se caracteriza como pós-determinadas.
Veja, a seguir, como foi classificada cada entrevista de acordo com as categorias de análise propostas:



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