Timor-leste, novamente na moda



Baixar 15,32 Kb.
Encontro18.05.2017
Tamanho15,32 Kb.



TIMOR-LESTE, NOVAMENTE NA MODA
por João Bosco Mota Amaral

Presidente da Assembleia da República

Deu gosto verificar, no decurso da recente visita de uma delegação da Assembleia da República a Timor-Leste, que o mais jovem país do mundo está seguindo bem o seu caminho.


O ponto de partida foi extremamente baixo. Duas décadas de ocupação estrangeira, sempre combatida pela heróica resistência dos nacionalistas timorenses, culminaram, após o referendo de auto-determinação, em violências e destruições intoleráveis.
A libertação de um povo gera, porém, enormes energias, traduzidas na mobilização geral para os sacrifícios necessários à construção do novo estado.
Em Timor-Leste esta tarefa fundamental decorre num enquadramento democrático, em clima de perfeita normalidade. Convém recordar que a maior parte dos países nascidos da descolonização portuguesa experimentaram regimes autoritários de partido único, tendo posteriormente evoluído, felizmente, para democracias pluripartidárias.
Timor-Leste tem a sorte de começar a viver a sua independência nacional já no século XXI, num mundo bem diferente do de há trinta anos atrás. Por outro lado, da experiência alheia também se podem aprender boas lições… E, sem desdouro da sua personalidade própria e comprovada dignidade, Timor-Leste está demonstrando ser um bom aluno.
Impressiona a austeridade do exercício do poder, em perfeita consonância aliás com a situação geral do país. O Presidente Xanana Gusmão recebeu a delegação parlamentar portuguesa nas instalações do seu gabinete de trabalho, no chamado Palácio das Cinzas, um edifício do tempo da ocupação indonésia, incendiado nos últimos dias dela e que ainda se encontra em precárias condições. Mais significativo ainda é ter mandado adiar a execução do projecto de uma residência oficial, gentilmente oferecido por entidade pública portuguesa, com o argumento, bem fundamentado, de haver outras prioridades mais urgentes, sentidas pelo Povo de Timor-Leste.
Muito importante é a sintonia que se percebe existir entre os mais altos responsáveis do jovem Estado. É natural terem surgido de início tensões, resultantes da falta de experiência na articulação dos vários poderes estabelecidos pela Constituição de Timor-Leste. Parece estar, porém, encontrado o ponto de equilíbrio entre o Presidente da República, o Parlamento Nacional e o Governo, cooperando todos activamente para a resolução dos problemas de fundo que afectam a população.
No domínio legislativo as missões a cumprir são bem complexas e os parlamentares timorenses não têm mãos a medir para dotarem o novo país com os diplomas necessários e adequados. Há poucos dias, optou-se por receber expressamente no direito interno timorense um dos códigos de processo portugueses, com adaptações, remetendo-se para mais tarde a feitura de lei própria.
O apoio dado pela Assembleia da República ao órgão parlamentar timorense, que vem já dos tempos do Conselho Nacional e, depois, da Assembleia Constituinte, tem-se revelado da maior utilidade. Há técnicos do nosso Parlamento a trabalhar nos serviços do Parlamento Nacional de Timor-Leste. Tive o prazer de assinar com o Presidente Francisco Guterres “Lu-Ólo” um protocolo de cooperação, que prolonga e amplia os programas em curso, abrindo novas frentes, nomeadamente o ensino da língua portuguesa.
Esta representa um grande desafio para Timor-Leste. A opção feita foi correctíssima, numa perspectiva estratégica e de identificação nacional. Mas a difusão da língua não foi certamente o maior sucesso da colonização portuguesa em Timor-Leste… E ainda por cima, os anos da ocupação foram marcados pela imposição da língua indonésia, que ficou a ser dominante entre os que têm menos de trinta anos. Aprender a falar português é pois um desígnio difícil e as complexidades gramáticas inibem mesmo os mais afoitos, temerosos de fazer, em público, má figura. Por isso, quando um dos mais jovens deputados, líder do seu grupo parlamentar, anunciou, em plena sessão solene de boas-vindas, no Parlamento Nacional, que iria, pela primeira vez, discursar em português — o que fez com muita correcção… — foi estrondosamente ovacionado por todos os seus pares.
A cooperação portuguesa manifesta-se em variados campos e defronta-se também com as dificuldades da língua. A nossa presença militar na UNMISET é eficientíssima e muito prestigiada, sendo-lhe reconhecidos os méritos pelas autoridades timorenses, civis e religiosas (refiro-me ao testemunho de Dom Basílio do Nascimento, Bispo de Dili e Baucau), e pela população em geral. A prorrogação do mandato da força da ONU era, ao tempo da visita da delegação parlamentar portuguesa, assunto premente da ordem do dia. Das conversas havidas com o Primeiro-Ministro Mari Alkatiri e com o Ministro dos Negócios Estrangeiros Ramos Horta pude perceber a subtileza com que o Governo de Timor-Leste pretende conduzir o problema junto do Secretário-Geral e do Conselho de Segurança.
Quanto ao desenvolvimento económico e social, vai dando os seus primeiros passos. As escolas estão cheias de crianças e jovens, que formam a maioria da população timorense. Há projectos em curso no domínio agrícola, dos quais destaco a recuperação do sândalo que foi outrora a cobiçada riqueza da ilha-crocodilo. O turismo é uma potencialidade evidente, tão bela é a paisagem, tão exótico o enquadramento, tão simpáticas e acolhedoras as pessoas. Quanto ao petróleo, o pleno aproveitamento das suas potencialidades, para financiar as infraestruturas de que Timor-Leste tanto carece, envolve delicadas negociações com a Austrália, que estão a decorrer.
Depois do grande sobressalto nacional de solidariedade com a luta do povo timorense e pela sua auto-determinação e independência, que ficou marcando a nossa vida colectiva ao longo de tantos anos, quase deixou de se falar de Timor-Leste, à medida que a vida foi lá entrando na normalidade. É preciso, porém, continuarmos atentos, interessados e apoiando o processo de consolidação democrática e de desenvolvimento de Timor-Leste, o mais longínquo país lusófono, onde há ainda tanto para fazer.
Os órgãos de comunicação social portugueses tiveram um papel decisivo no processo de emancipação timorense, mantendo-o na agenda política nacional anos e anos a fio. Convém muito que voltem a falar, frequentemente, de Timor-Leste, mesmo que seja para nos darem — oxalá seja assim sempre! — boas notícias.
Na Assembleia da República, visando eficaz projecção para o exterior, o Grupo Parlamentar de Amizade recém constituído vai trabalhar intensamente para tornar a pôr Timor-Leste na moda.



©livred.info 2017
enviar mensagem

    Página principal