Ética geral e empresarial "Difícil não é fazer o que é certo, é descobrir o que é certo fazer." Robert Henry Srour



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ÉTICA GERAL E EMPRESARIAL
"Difícil não é fazer o que é certo, é descobrir o que é certo fazer."

Robert Henry Srour

UMA QUESTÃO DE ATITUDE


A diferença entre os países pobres e os ricos não é a idade do país. Isto pode ser demonstrado por países como Índia e Egito, que tem mais de 2000 anos e são pobres.

Por outro lado, Canadá, Austrália e Nova Zelândia, que há 150 anos eram inexpressivos, hoje são países desenvolvidos e ricos.


A diferença entre países pobres e ricos também não reside nos recursos naturais disponíveis.

O Japão possui um território limitado, 80% montanhoso, inadequado para a agricultura e a criação de gado. Mas é a segunda economia mundial.


O país é como uma imensa fábrica flutuante, importando matéria–prima do mundo todo e exportando produtos manufaturados.
Outro exemplo é a Suíça, que não planta cacau, mas tem o melhor chocolate do mundo. Em seu pequeno território, cria animais e cultiva o solo durante apenas quatro meses no ano. Não obstante, fabrica laticínios da melhor qualidade. É um país pequeno que passa uma imagem de segurança, ordem e trabalho, o que o transformou no caixa forte do mundo.

Executivos de países ricos que se relacionam com seus pares de países pobres mostram que não há diferença intelectual significativa.


A raça ou a cor da pele, também não são importantes: imigrantes rotulados de preguiçosos em seus países de origem são a força produtiva de países europeus ricos.


Qual será então a diferença?


A diferença é a atitude das pessoas, moldada ao longo dos anos pela educação e pela cultura. Ao analisarmos a conduta das pessoas nos países ricos e desenvolvidos, constatamos que a grande maioria segue os seguintes princípios de vida:


A ética, como princípio básico. A integridade. A responsabilidade. O respeito às leis e regulamentos. O respeito pelo direito dos demais cidadãos. O amor ao trabalho. O esforço pela poupança e pelo investimento. O desejo de superação. A pontualidade.


Nos países pobres, apenas uma minoria segue esses princípios básicos em sua vida diária.


Não somos pobres porque nos faltam recursos naturais ou porque a natureza foi cruel conosco.
Somos pobres porque nos falta atitude. Falta-nos vontade para cumprir e ensinar esses princípios de funcionamento das sociedades ricas e desenvolvidas. Está em nossas mãos tornar o nosso país um lugar melhor para viver.

Deus já nos deu um clima tropical, belezas naturais em abundância, um solo rico e uma imensa criatividade. Basta somente que acionemos os nossos esforços para colocar em prática os itens relacionados.


Por isso, comece cumprindo todos os seus deveres, com pontualidade e zelo. Trabalhe com entusiasmo, vencendo as horas. Conheça e respeite as leis, não as utilizando para usufruir vantagens pessoais. Cuide do patrimônio público, consciente de que o que mantém o município, o estado e o país somos nós.

Quando se destroem ônibus, quando se picham monumentos públicos, quando se roubam livros nas bibliotecas públicas, lembremos que somos nós que pagamos a conta.


São os nossos impostos que mantêm a cidade limpa, as praças em condições de serem usufruídas pelos nossos filhos, as escolas e os hospitais funcionando.


Também não esqueçamos que os homens públicos, do vereador de nossa cidade ao presidente da república estão a nosso serviço.


Contudo, e muito importante, lembremos que somos exatamente nós os que devemos ter olhos e ouvidos atentos à administração pública, cobrando resultados, sim, mas colaborando, eficazmente. Porque ninguém consegue fazer nada sozinho. Mas, uma nação unida vence a fome, a guerra, as condições adversas.


Nós precisamos vencer o descaso e investir na educação individual, objetivando um cidadão consciente e atuante. E a educação inicia, em princípio, em nós mesmos.

É assim que o Brasil será melhor: quando nós quisermos!
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Com base texto do poeta Avaniel Marinho, intitulado "A riqueza e a pobreza das nações", encontrável no site: http://www.avanielmarinho.com.br/artigos/artigo2.htm


1 – A ÉTICA GERAL

1.1 – INTRODUÇÃO


Certamente não é coincidência nem modismo a demanda da sociedade por comportamentos éticos. A exigência de ética na política, no direito, na informática, na administração, na medicina, em contábeis, na agronomia, bem como a rejeição unânime da corrupção em suas diferentes modalidades, significa a busca de qualidade de vida, passando pela necessidade de formação ética dos indivíduos e, conseqüentemente, por uma sociedade regida por comportamentos éticos.
O conceito de ética e moral, embora sejam diferentes, são, com freqüência, usados como sinônimos. Aliás, a etimologia dos termos é semelhante: moral vem do latim mos (no plural moris) que significa “maneira de se comportar regulada pelo uso”, daí “costume”, e de moralis, ou morale, adjetivo referente ao que é “relativo aos costumes”. Ética vem do grego ethos, que tem o mesmo significado de “costume”.
Ética é o estudo de juízos de apreciação referente à conduta humana suscetível de qualificação do ponto de vista do bem e do mal, relativamente de uma determinada sociedade. Em sentido mais amplo, a moral é o conjunto das regras de conduta admitidas em determinada época ou por um grupo de homens. Nesse sentido, o homem moral é aquele que age bem ou mal na medida em que acata ou transgride as regras do grupo.
O homem é um ser social, pois vive em sociedade. Num sentido mais amplo, sociedade é a reunião de seres que vivem em grupo. Num sentido mais restrito, sociedade é o conjunto de pessoas que vivem em determinada faixa de tempo e de espaço – seguindo normas comuns – e que são unidas pelo sentimento de consciência de grupo.
A partir da constatação de que vivemos em sociedade, encontramos regras, leis e normas que regulam as relações entre os homens. Estas são necessárias, pois a sociabilidade humana, a convivência dos homens em sociedade, precisa acontecer dentro de uma certa ordem. A ordem humana é artificial. O homem não a recebe pronta, como herança genética. Ele tem que inventá-la, construí-la; dar-lhe uma forma satisfatória ao atendimento de suas necessidades de aspirações, que mudam ao longo da história. Por isso mesmo na sociedade atual, a ordem é tão diferente daquela vivida pelos homens na antiguidade.
Depois de inventada uma certa ordem (regra), reconhecida como justa e verdadeira para uma determinada época, são os homens que julgam seus próprios comportamentos, e os dos outros, avaliando se estão de acordo ou contra o que está estabelecido.
Falar sobre ética é falar sobre valores e virtudes. Valor e virtude por sua vez, se referem a comportamento humano. Então o campo ético é constituído, de um lado, por comportamentos e, do outro, por juízo de valor, pela apreciação sobre esses comportamentos.
A reflexão ética passa justamente por essa questão: o estabelecimento de juízos de valores para o que está conforme ou contrário às normas de convivência dos homens em sociedade. Daí serem tão comuns as expressões: ético e antiético, quando nos referimos a certas atitudes dos indivíduos em sociedade.
1.2 – MAS AFINAL, O QUE É ÉTICA?

A ética está presente em todas as raças. Ela é um conjunto de regras, princípios  ou maneira de pensar e expressar. Ética é uma palavra de origem  grega com duas traduções possíveis: costume e propriedade de caráter.

Ser ético nada mais é do que agir direito,  proceder bem, sem prejudicar os outros. É ser altruísta, é estar tranqüilo com a consciência pessoal. É cumprir com os valores da sociedade em que vive, onde mora, trabalha, estuda etc.

Ética é tudo que envolve integridade, como ser honesto em qualquer situação, ter coragem para assumir seus erros e decisões, ser tolerante e flexível, ser humilde.

          Todo ser ético reflete sobre suas ações, pensa se está fazendo o bem ou o mal para o seu próximo. É ter a “consciência limpa”.

1.3 – MORAL X ÉTICA

Define-se moral como um conjunto de normas, princípios, preceitos, costumes, valores que norteiam o comportamento do indivíduo no seu grupo social. Moral e ética não devem ser confundidos: enquanto a moral é normativa, a ética é teórica, e buscando explicar e justificar os costumes de uma determinada sociedade, bem como fornecer subsídios para a solução de seus dilemas mais comuns. Porém, deve-se deixar claro que etimologicamente "ética" e "moral" são expressões sinônimas, sendo a primeira de origem grega, enquanto a segunda é sua tradução para o latim.

A ética também não deve ser confundida com a lei, embora com certa freqüência a lei tenha como base princípios éticos. Ao contrário do que ocorre com a lei, nenhum indivíduo pode ser compelido, pelo Estado ou por outros indivíduos, a cumprir as normas éticas, nem sofrer qualquer sanção pela desobediência a estas; por outro lado, a lei pode ser omissa quanto a questões abrangidas no escopo da ética.

Modernamente, a maioria das profissões têm o seu próprio código de ética profissional, que é um conjunto de normas de cumprimento obrigatório, derivadas da ética, freqüentemente incorporados à lei pública. Nesses casos, os princípios éticos passam a ter força de lei; note-se que, mesmo nos casos em que esses códigos não estão incorporados à lei, seu estudo tem alta probabilidade de exercer influência, por exemplo, em julgamentos nos quais se discutam fatos relativos à conduta profissional. Ademais, o seu não cumprimento pode resultar em sanções executadas pela sociedade profissional, como censura pública e suspensão temporária ou definitiva do direito de exercer a profissão.

Tanto “ethos” (caráter) como “mos” (costume) indicam um tipo de comportamento propriamente humano que não é natural, o homem não nasce com ele como se fosse um instinto, mas que é “adquirido ou conquistado por hábito”. (VÁZQUEZ). Portanto, ética e moral, pela própria etimologia, diz respeito a uma realidade humana que é construída histórica e socialmente a partir das relações coletivas dos seres humanos nas sociedades onde nascem e vivem.

1.4 – A ÉTICA COMO DOUTRINA

Como Doutrina Filosófica, a Ética é essencialmente especulativa e, a não ser quanto ao seu método analítico, jamais será normativa, característica esta, exclusiva do seu objeto de estudo, a Moral. Portanto, a Ética mostra o que era moralmente aceito na Grécia Antiga possibilitando uma comparação com o que é moralmente aceito hoje na Europa, por exemplo, indicando através da comparação, mudanças no comportamento humano e nas regras sociais e suas conseqüências, podendo daí, detectar problemas e/ou indicar caminhos. Além de tudo ser Ético é fazer algo que te beneficie e, no mínimo, não prejudique o "outro".

Eugênio Bucci, em seu livro Sobre Ética e Imprensa, descreve a ética como um saber escolher entre "o bem" e "o bem" (ou entre "o mal" e “o mal"), levando em conta o interesse da maioria da sociedade. Ao contrário da moral, que delimita o que é bom e o que é ruim no comportamento dos indivíduos para uma convivência civilizada, a ética é o indicativo do que é mais justo ou menos injusto diante de possíveis escolhas que afetam terceiros.

1.5 – A VIVÊNCIA ÉTICA

A ética pode ser interpretada como um termo genérico que designa aquilo que é freqüentemente descrito como a "ciência da moralidade", seu significado derivado do grego, quer dizer 'Casa da Alma', isto é, suscetível de qualificação do ponto de vista do bem e do mal, seja relativamente a determinada sociedade, seja de modo absoluto.

Em Filosofia, o comportamento ético é aquele que é considerado bom, e, sobre a bondade, os antigos diziam que: o que é bom para a leoa, não pode ser bom à gazela. E, o que é bom à gazela, fatalmente não será bom à leoa. Este é um dilema ético típico.

Portanto, de investigação filosófica, e devidas subjetividades típicas em si, ao lado da metafísica e da lógica, não pode ser descrita de forma simplista. Desta forma, o objetivo de uma teoria da ética é determinar o que é bom, tanto para o indivíduo como para a sociedade como um todo. Os filósofos antigos adotaram diversas posições na definição do que é bom, sobre como lidar com as prioridades em conflito dos indivíduos versus o todo, sobre a universalidade dos princípios éticos versus a "ética de situação". Nesta, o que está certo depende das circunstâncias e não de uma qualquer lei geral. E sobre se a bondade é determinada pelos resultados da ação ou pelos meios pelos quais os resultados são alcançados.

O homem vive em sociedade, convive com outros homens e, portanto, cabe-lhe pensar e responder à seguinte pergunta: “Como devo agir perante os outros?”. Trata-se de uma pergunta fácil de ser formulada, mas difícil de ser respondida. Ora, esta é a questão central da Moral e da Ética. Enfim, a ética é julgamento do caráter moral de uma determinada pessoa.

1.6 – UMA VISÃO GERAL

A ética tem sido aplicada na economia, política e ciência política, conduzindo a muitos distintos e não-relacionados campos de ética aplicada, incluindo: ética nos negócios e Marxismo.

Também tem sido aplicada à estrutura da família, à sexualidade, e como a sociedade vê o papel dos indivíduos, conduzindo a campos da ética muito distintos e não-relacionados, como o feminismo e a guerra, por exemplo.

A visão descritiva da ética é moderna e, de muitas maneiras, mais empírica sob a filosofia Grega clássica, especialmente Aristóteles.

Inicialmente, é necessário definir uma sentença ética, também conhecido como uma afirmativa normativa. Trata-se de um juízo positivo ou negativo (em termos morais) de alguma coisa.

2 - ÉTICA NO RELACIONAMENTO HUMANO
2.1 – INTRODUÇÃO: [A ÉTICA E A PRODUÇÃO DO CONHECIMENTO (Mario Sergio Cortella)]

Ressaltemos desde o início: a ética é uma questão absolutamente humana! Só se pode falar em ética quando se fala em humano, porque a ética tem um pressuposto: a possibilidade de escolha. A ética pressupõe a possibilidade de decisão, ética pressupõe a possibilidade de opção.

É impossível falar em ética sem falar em liberdade. Quem não é livre não pode, evidentemente, ser julgado do ponto de vista da ética. Outros animais, ao menos nos parâmetros que utilizamos, agem de forma instintiva, não deliberada, sem uma consciência intencional. Cuidado. Há quem diga: “Eu queria ser livre como um pássaro”; lamento profundamente, pois pássaros não são livres, pássaros não podem não voar, pássaros não podem escolher para onde voam, pássaros são pássaros. Se você quiser ser livre, você tem de ser livre como um humano. Pensemos em algo que pode parecer extremamente horroroso: como disse Jean-Paul Sartre, nós somos condenados a ser livres.

Da liberdade, vêm as três grandes questões éticas que orientam (mas também atormentam, instigam, provocam e desafiam) as nossa escolhas: Quero? Devo? Posso? Retomemos o cerne: o exercício da ética pressupõe a noção de liberdade. Existe alguém sobre quem eu possa dizer que não tem ética? É possível falar que tal pessoa “não tem ética”? Não, é impossível. Você pode dizer que ele não tem uma ética como a tua, você pode dizer que ele tem uma ética com a qual você não concorda, mas é impossível dizer que alguém não tem ética, porque ética é exatamente o modo como ele compreende aquelas três grandes questões da vida: devo, posso, quero?

Tem coisa que eu devo mas não quero, tem coisa que eu quero mas não posso, tem coisa que eu posso mas não devo. Nessas questões, vivem os chamados dilemas éticos; todas e todos, sem exceção, temos dilemas éticos, sempre, o tempo todo: devo, posso, quero? Tem a ver com fidelidade na sua relação de casamento, tem a ver com a sua postura como motorista no trânsito; quando você pensa duas vezes se atravessa um sinal vermelho ou não, se você ocupa uma vaga quando vê à distância que alguém está dando sinal de que ele vai querer entrar; quando você vai fazer a sua declaração de Imposto de Renda; quando você vai corrigir provas de um aluno ou de um orientando seu; quando você vai cochilar depois do almoço, imaginando que tem uma pia de louça que talvez seja lavada por outra pessoa, e como você sabe que ela lava mesmo, e que se você não fizer o outro faz, você tem a grande questão ética que é: devo, posso, quero? Por exemplo, quando se fala em bioética: podemos lidar com clonagem? Podemos, sim. Devemos? Não sei. Queremos? Sim. Clonagem terapêutica, reprodutiva? É uma escolha. Posso eu fazer um transplante intervivos? Posso. Devo, quero? Tem coisa que eu devo, mas não quero; aliás, a área de Saúde, de Ciência e Medicina, é recheada desses dilemas éticos. Tem muita coisa que você quer, mas não pode, muita coisa que você deve, mas não quer.

Na pesquisa, já imaginou? Por que montamos comitês de pesquisa, por que a gente faz um curso sobre ética na pesquisa? Porque isso é complicado, e se fosse uma coisa simples, a gente não precisava fazer curso, não precisava estudar, não precisava se juntar. É complicadíssimo, porque estamos mexendo com coisas que têm a ver com a nossa capacidade de existir. Quando se pensa especialmente no campo da ética, a relação com a liberdade traz sempre o tema da decisão, da escolha. Por que estou dizendo isso? Porque não dá para admitir uma mera repetição do que disseram muitos dos generais responsáveis pelo holocausto e demais atrocidades emanadas do nazismo dos anos de 1940. Exceto um que assumiu a responsabilidade, todos usaram o mesmo argumento em relação à razão de terem feito o que fi zeram. Qual foi? “Eu estava apenas cumprindo ordens”. “Estava apenas cumprindo ordens”, isso me exime da responsabilidade? Estava apenas obedecendo... Essa é uma questão séria, sabe por quê? Porque “estava apenas cumprindo ordens” implica a necessidade de pensarmos se a liberdade tem lugar ou não.

Ética tem a ver com liberdade, conhecimento tem a ver com liberdade, porque conhecimento tem a ver com ética. Por isso, se há algo que também é fundamental quando se fala em ciência, ética na pesquisa e produção do conhecimento, é a noção de integridade. A integridade é o cuidado para se manter inteiro, completo, transparente, verdadeiro, sem máscaras cínicas ou fissuras. Nessa hora, um perigo se avizinha: assumir-se individual ou coletivamente uma certa “esquizofrenia ética”. Ela desponta quando as pessoas se colocam não como inteiras, mas repartidas em funções que pareceriam externas a elas. Exemplos? “Eu por mim não faria isso, mas, como eu sou o responsável, tenho de fazê-lo”. Ora, eu não sou eu e uma função, eu sou uma inteireza, eu não sou eu e um professor, eu e um pesquisador, eu e um diretor, eu e um Secretário, eu sou um inteiro. “Eu por mim não faria”, então eu não faço!

Cautela! Coloca-se um estilhaçamento da integridade: “Eu, por mim, não lhe reprovaria, mas como eu sou seu professor, eu tenho que reprovar”; “Eu, por mim, não lhe mandaria embora, mas como eu sou seu chefe...”; “Eu, por mim, não lhe suspenderia, mas como eu sou seu superior...”; “Eu, por mim, não faria isso, mas como eu sou o contador...”; “Eu, por mim, não faria isso, mas como eu sou o responsável pelo laboratório...”.: “Eu por mim não faria”, então eu não faço; “Eu por mim não lhe reprovaria”, então não reprovo. De novo: eu não sou eu e uma função, eu não sou eu e um pesquisador, eu e um chefe do laboratório, eu e um diretor de instituto, eu e um Secretário... O esboroamento da integridade pessoal e coletiva é a incapacidade de garantir que a “casa” fique inteira, e para compreender melhor a idéia de “casa íntegra”, vale fazer um breve passeio pelas palavras. Talvez as pessoas que estudaram um pouco de etimologia se lembrem que a palavra ética vem para nós do grego ethos, mas ethos, em grego, até o século VI a. C., significava morada do humano, no sentido de caráter ou modo de vida habitual, ou seja, o nosso lugar. Ethos é aquilo que nos abriga, aquilo que nos dá identidade, aquilo que nos torna o que somos, porque a sua casa é o modo como você é, onde está a sua marca. Mais tarde, esse termo para designar também o espaço físico foi substituído por oikos. Aliás, o conhecimento mais valorizado na sociedade grega era o que cuidava das regras da casa, para a gente poder viver bem e para deixar a casa em ordem. Como o vocábulo nomos significa “regra” ou “norma”, passou-se a ter a oikos nomos (a economia) como a principal ciência. No entanto, a noção original de ethos não se perdeu, pois os latinos a traduziram pela expressão more, ou mor, que acabou gerando para nós também uma dupla concepção; uma delas é “morada”, e a outra, que vai ser usada em latim, é o lugar onde você morava, o seu habitus. Olha só, a expressão “o hábito faz o monge” não tem a ver com a roupa dele, habitus; habitus é exatamente onde nós vivemos, o nosso lugar, a nossa habitação.

Quando se pensa em ética e produção do conhecimento hoje, a grande questão é: como está a nossa possibilidade de sustentar a nossa integridade; essa integridade, como se coloca? A integridade da vida individual e coletiva, a integridade daquilo que é mais importante, porque uma casa, ethos, tal como colocamos, é aquela que precisa ficar inteira, é aquela que precisa ser preservada. Como está a morada do humano? Essa morada do humano desabriga alguém? Alguém está fora da casa, alguém está sem comer dentro dessa casa? Alguém está sem proteção à sua saúde, alguém está sem lazer dentro dessa casa? Essa morada do humano é inclusiva ou é exclusiva? Essa morada do humano lida com a noção de qualidade em ciência, ou lida com a noção de privilégio? Cuidado. Duas coisas que se confundem muito em ciência são qualidade e privilégio; qualidade tem a ver com quantidade total, qualidade é uma noção social, qualidade social só é representada por quantidade total. Qualidade sem quantidade não é qualidade, é privilégio. São Paulo é uma cidade em que se come muito bem, é verdade; quem come, quem come o quê? Qualidade sem quantidade total não é qualidade, é privilégio. Todas as vezes que se discute essa temática, aparece a noção de uma qualidade restrita, e qualidade restrita, reforcemos, é privilégio. Nesse sentido, a grande questão volta: será que, na morada do humano, alguém está desabrigado? Será que essa casa está inteira, ela está em ordem nessa condição? Nessa nossa casa, quando a gente fala em cuidado, é o mesmo que falar em saúde; aliás, quando digo: “eu te saúdo”, ou, “queria fazer aqui uma saudação”, etimologicamente é a mesma coisa. Saudar é procurar espalhar a possibilidade de cuidado, de atenção, de proteção. Nossa casa, que casa é essa? Há nela saúde? A ética é a morada do humano; como essa casa é protegida? Qual é o lugar da ciência dentro dela? Qual é o papel que ela desempenha? Qual é a nossa tarefa nisso, para pensar exatamente aquelas três questões: posso, devo, quero?

É claro que essas questões e suas respostas não são absolutas, elas não são fechadas, elas são históricas, sociais e culturais. A mesma pergunta não seria feita do mesmo modo há vinte anos; a grande questão no nosso país há cento e cinqüenta anos, a grande questão ética há cento e cinqüenta anos era se eu podia açoitar um escravo e depois cuidar dele, ou só açoitá-lo e deixá-lo para ser cuidado pelos outros; se eu poderia extrair o dente de alguém, se é mais recomendável para o dentista que ele faça a extração ou que ele tente o tratamento. Há alguns anos, algumas décadas, uma discussão de natureza ética era algo que nem passaria pela cabeça de um dentista. A pessoa chegava ao seu consultório e dizia: “Eu quero que o senhor arranque todos os meus dentes”. Ele respondia: “Tá bom”; hoje, você tem outra questão. O mesmo vale em relação ao uso de contraceptivos ou à legalização do aborto consentido, ou ainda sobre a separação entre princípios religiosos e conduta científica. Quando se pensa na manutenção da integridade, do devo, posso e quero, a grande questão, junto com essa tríade, é se estamos dirigindo, como critério último, a proteção da morada do humano, da morada coletiva do humano. Afinal de contas, não somos humanos e humanas individualmente, pois só o somos coletivamente. Fala-se muito em vivência, quando referimos à vida humana; no entanto, o mais correto seria sempre dizer convivência, pois ser humano é ser junto. Desse modo, a noção de ethos, a noção de morada do humano, oferece um critério para responder ao posso, devo e quero, que é: protejo eu a morada ou desprotejo? Incluo ou excluo? Vitimo ou cuido?

Em um livro delicioso e de complexa leitura, Ética da Libertação, Enrique Dussel escreve sobre um percurso da história da ética dentro do mundo. Começa exatamente mostrando o lugar que a reflexão ética ocupa na história humana, mas conclui com algo que alguns até achariam curioso, hoje: ele não aceita a noção do termo exclusão, ou falar em excluídos, porque acha que a noção de excluído é muito pequena e insuficiente. Dussel, ao pensar a Ética e os processos sociais, econômicos e culturais, trabalha com a noção de vítimas: as vítimas do sistema, as vítimas da estrutura. Pensa ele que, quando se fala em excluído, dá-se a impressão de que é uma coisa um pouco marginal, lateral, enquanto vitimação é uma idéia mais robusta e incisiva. A principal virtude ética nos nossos tempos, para poder manter a integridade e cuidar da casa, da morada do humano, é a incapacidade de desistir, é evitar o apodrecimento da esperança, é evitar aquilo que padre Antonio Vieira apontou, no começou de um de seus Sermões, da seguinte maneira: “O peixe apodrece pela cabeça”. Já viu um peixe apodrecer? Tal como algumas pessoas, ele apodrece da cabeça para o resto do corpo... Um olhar sobre a ética em ciência e na pesquisa tem uma finalidade: manter a nossa vitalidade, manter a nossa vitalidade ética, mostrar que nós estamos preocupadas e preocupados, que a gente não se conforma com a objetividade tacanha das coisas, que a gente não acha que as coisas são como são e não podem ser de outro modo, que a gente não se rende ao que parece ser imbatível.

Ser humano é ser capaz de dizer não, ser humano é ser capaz de recusar o que parece não ter alternativa, ser humano é ser capaz de afastar o que parece sem saída. Ser humano é ser capaz de dizer não, e só quem é capaz de dizer não pode dizer sim; aí está a nossa liberdade. Tem gente que diz assim: “Ah, a minha liberdade acaba quando começa a do outro”; cuidado, a minha liberdade acaba quando acaba a do outro. Liberdade, como saúde, tem de ser um conceito coletivo, a minha liberdade não acaba quando começa a do outro, a minha liberdade acaba quando acaba a do outro. Se algum humano não for livre, ninguém é livre, se algum homem ou mulher não for livre da falta de trabalho, ninguém é livre; se algum homem ou mulher não for livre da falta de socorro, de saúde, ninguém é livre; se alguma criança não for livre da falta de escola, ninguém é livre; a minha liberdade não acaba quando começa a do outro, minha liberdade acaba quando acaba a do outro. Ser humano é ser junto, e é em relação a isso que vale pensarmos nossa capacidade de dizer não a tudo que vitima e sermos capazes de proteger o que eleva a Vida. O vínculo da Ética com a Produção do Conhecimento está relacionado à capacidade deste de cuidar daquela, isto é, manter a integridade digna da vida coletiva. Ética é a possibilidade de recusar a falência da liberdade, a ética é a nossa capacidade de recusar a idéia de que alguns cabem na nossa casa, outros não cabem; alguns comem, outros não comem; alguns têm graça, outros têm desgraça.

A ética é o exercício do nosso modo de perceber como é que nós existimos coletivamente, e então pensar com seriedade naquilo que François Rabelais vaticinou: “Conheço muitos que não puderam, quando deviam, porque não quiseram, quando podiam”.

2.2 - PERCURSO HISTÓRICO-FILOSÓFICO

Durante a antiguidade a Grécia antiga, onde se originaram as reflexões éticas, acentua o caráter público das questões relativas aos valores. Os gregos entendiam que os juízos sobre o bem, a verdade, a justiça eram ditados pela consciência moral (individual), mas decididos de maneira livre e racional em praça pública, na pólis.

Para os gregos, o mundo ético – dos valores – era o mundo da racionalidade e da liberdade, que se realizam plenamente na pólis, pela pratica política. Consideravam, ainda, que a condição para o pleno exercício da cidadania era que o diálogo fosse travado entre homens livres e iguais. Isso quer dizer que um comportamento só pode ser ético quando livre de qualquer constrangimento, necessidade ou determinação.

Na idade média, os princípios da ética antiga sofrem uma significativa mudança em função do poder exercido pela igreja, as normas de convivência social da Idade Média passam a ser reguladas pelos princípios do cristianismo. As duas virtudes capitais do cristianismo são a e a caridade, que se traduzem em sentimentos e intenções, virtudes internas, de ordem privada dos indivíduos. Desse modo, a dimensão ética já não se manifesta na ação, no comportamento, no agir social, mas nas boas intenções e no desejo de alcançar o bem para atender à vontade divina.

Se antes os valores éticos deveriam nortear as relações humanas em busca do bem comum, na ética cristã a finalidade da prática dos valores é encaminhar as relações dos indivíduos para com Deus, supremo juiz das ações humanas: é Ele que pode observar a consciência e saber as intenções dos homens. Desse modo, o que passa a ser avaliado é a interioridade, a consciência.

Para controlar a interioridade, cria-se a idéia de culpa pessoal. A culpa funcionaria como um juiz particular que sabe quando a fé foi insuficiente, a adesão não-sincera. É esse juiz, implacável na avaliação, que tira a paz dos indivíduos, fazendo com que eles paguem, desde agora, por suas faltas.

Essa mudança de finalidade marca o rompimento do vínculo entre ética e política. E a conduta ética, que era decorrente da vontade, livre e racional (crítica), apresenta-se, agora, como capacidade de obediência à lei divina, à ordem dada, à determinação da autoridade.

Com a vigência desses princípios, desvaloriza-se a autonomia e a deliberação humanas. Dá-se a decadência e a fragilização da responsabilidade pessoal. Isso porque, se acreditamos que tudo já está predeterminado por uma ordem superior, divina, limitamos nossa possibilidade de escolha, de decisão.

A Idade Média se organiza segundo o modelo de produção feudal. Nesse modelo as relações sociais caracterizavam-se por rígida hierarquia entre os senhores – proprietários das terras – e os servos – aqueles que as cultivavam. A esses últimos cabia, em troca do trabalho, apenas a parte da produção necessária à subsistência familiar. Os servos deviam obediência aos senhores, mas, diferente dos escravos, possuíam direito à vida e proteção dos senhores em caso de guerra. À Igreja, detentora do saber, competia a manutenção dos princípios de obediência que regulavam essas relações.

Na passagem da Idade Média para o período correspondente à modernidade ocorreram grandes transformações (a intensificação do comércio, o descobrimento de novas terras, importantes invenções) que introduziram mudanças radicais na ordem econômica e, conseqüentemente, na ordem das idéias e valores da sociedade.

Considera-se o tempo decorrido entre o século XIII e o século XVI como referência para indicar o período de desagregação da antiga ordem feudal.

Com a intensificação do comércio, os servos libertos saem do campo para os burgos, onde passam a dedicar-se à atividade comercial. No desenvolvimento dessa atividade, eles começam a estabelecer relações mais igualitárias fundadas nos valores do trabalho, da honestidade, da palavra empenhada. Surge então uma nova classe social – a dos burgueses – assim chamados porque viviam nos burgos.

Os burgos, na Idade Média, eram pequenas vilas fundadas à beira das estradas, por servos que escapavam do senhor feudal. Essas vilas tinham sua base econômica no comércio e muitas delas vieram a transformar-se em cidades. A burguesia, classe social nascida a partir daí, com o tempo veio a diversificar-se em alta burguesia – detentora dos meios de produção – e em média e pequena burguesia – designadas, no século XX, como classe média.

Novas relações econômicas e sociais têm origem, favorecendo a passagem da antiga ordem feudal para o capitalismo moderno. Instaura-se uma nova ética.

Capitalismo é o sistema socioeconômico centrado na propriedade privada dos meios de produção, matéria-prima, e instrumentos de trabalho. Nesse sistema, a produção está organizada entre aqueles que detêm o capital e os que, em troca de salário, empregam sua força de trabalho para impulsionar a produção.

Ao surgimento e fortalecimento de uma nova classe social – a burguesia – corresponde o desenvolvimento de uma nova ordem de valores, que passa a nortear as relações entre os homens.

Os interesses dessa nova classe, dependentes do desenvolvimento da produção e da expansão do comércio, exigiam mão-de-obra livre e dedicação ao trabalho capazes de aumentar a produtividade e de contribuir para a prosperidade dos negócios.

A nova classe em ascensão tem como característica as virtudes de laboriosidade, honradez, puritanismo, amor à pátria e à liberdade, em contraposição aos vícios da aristocracia – desprezo ao trabalho, ociosidade, liberdade e libertinagem.

O trabalho, na sociedade moderna, passa a ser reconhecido como fato social determinante da própria humanização do homem (fato que o distingue do animal) e elemento capaz de modificar as condições de existência da própria sociedade.

Antes, o trabalho sempre foi visto de forma negativa. Na sua origem, a palavra trabalho vem do latim tripalium, que significa um instrumento de tortura. Mesmo na Bíblia o trabalho é proposto como castigo pela culpa de Adão e Eva (nos termos bíblicos, o homem é condenado a trabalhar e a ganhar o pão com o suor do seu rosto, ficando a mulher condenada ao trabalho de parto). Na Grécia antiga e na Idade Média, é desvalorizando por estar reservado aos escravos e aos servos.

A sociedade moderna declara o trabalho uma expressão de liberdade, uma vez que, por meio dele (seja pela força física, pela ciência, pelas artes) o homem modifica a natureza, inventa a técnica, cria nova realidade, enfim, altera o curso das coisas, alterando a si próprio e a sociedade onde ele vive.

Identifica-se o trabalho como fator econômico, salário, poder; recurso humano voltado para a qualificação do trabalhador. Sabe-se que, em uma economia globalizada, com um processo de produção flexível, a qualificação do trabalhador não é garantia de emprego e nem o cria. No entanto, não resta dúvida de que, no atual quadro econômico, os novos empregos passarão a absorver os trabalhadores mais qualificados.



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