Ética e religiões monoteístas



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Ética e religiões monoteístas
Introdução
As religiões monoteístas marcaram profundamente os costumes e o sistema de valores dos povos onde foram aceitas. Como anteriormente dito, no mundo grego, e, por extensão, entre os outros povos de crenças politeístas, na perspectiva da fé, as regras morais se associavam a prescrições rituais e não, propriamente, a princípios com alcance universal. No âmbito da filosofia, em função da especificidade das visões de mundo de cada filósofo ou escola filosófica, também nota-se uma variedade muito grande de propostas morais.
Assim, cada povo e cada escola propunham morais diferentes, com fundamentos relativos ao modo como descreviam os hábitos de seus deuses ou aos fundamentos racionais propostos pela linha de pensamento da escola moral.
A chegada das religiões monoteístas alterou este quadro. Elas introduziram um critério absoluto para a avaliação dos atos humanos: o Deus único, Criador e Providência tornou-se “a única fonte legítima da justiça e do direito” (Comparato, p. 68).

Monoteísmo judaico


A Torah1 judaica é um excelente exemplo desta novidade trazida pelo monoteísmo. Diversamente das éticas fragmentárias associadas às mitologias ou às escolas de filosofia antigas, a ética proposta nos escritos bíblicos é totalizante. Ao lado dos dogmas de fé, as religiões monoteístas também passaram a indicar as regras de comportamento a serem observadas por seus seguidores.
Jeová apresenta-se como rei e legislador e propõe um pacto a seu povo. A Aliança do Monte Sinai se assemelha a uma convenção constitucional. Por um lado, Jeová exige a aceitação dos Dez Mandamentos e, por outro, faz a promessa de fidelidade ao povo israelita.
Assim, a vida do povo judeu dever-se-ia alinhar às determinações da Aliança, na certeza de que Jeová lhe seria fiel. Ainda que não pudesse cobrar Dele o cumprimento das promessas, acabou encontrando uma referência ética bem precisa, objetivada no decálogo e nas outras normas éticas propostas na Torah.

Monoteísmo cristão


Ainda que o monoteísmo cristão tenha mantido as linhas gerais do judaísmo, acabou trazendo duas grandes novidades:


  • a primeira é o relativo afastamento do aspecto eminentemente jurídico da relação com Deus. Na perspectiva cristã, as obrigações do decálogo não são anuladas, mas renovadas e adaptadas ao novo caminho para a salvação, conforme a passagem de MT, 5, 17: “Não penseis que vim revogar a Lei e os Profetas. Não vim revogá-los, mas dar-lhes pleno cumprimento”. Tal adaptação envolveria, segundo a visão cristã posterior, o aprimoramento das normas presentes no decálogo e nas demais ordenações divinas da Torah e dos livros do Antigo Testamento. Um exemplo disso seria a condenação pelo cristianismo de todas as formas de violência, inclusive as mais sutis.

  • a segunda, talvez, a contribuição mais importante da cristandade ao pensamento ético ocidental, foi o sentido de desnacionalização presente na mensagem cristã. Se o povo israelita se considera como povo eleito e privilegiado por Jeová, o cristianismo prega a universalidade da boa nova. Todos os seres humanos fazem parte do projeto de salvação por parte de Cristo e não há um sequer que não mereça a condição de pessoa, em condições iguais de dignidade perante Deus, porque todos teriam sido criados à sua imagem e semelhança. A promessa de salvação atinge a todos.



Monoteísmo islâmico


A religião islâmica, surgida da pregação profética de Maomé2 (entre os anos 610 e 632), ensina que o homem é “vigário (representante) de Deus”.
De acordo com o Alcorão3, também a igualdade, a dignidade e a liberdade inerentes a todos os seres humanos jamais podem ser contestadas, qualquer que seja a instância.
O islamismo prescreve a fraternidade, adota a idéia da universalidade do gênero humano e de sua a origem comum; ensina a solidariedade para com os órfãos, os pobres, os viajantes, os mendigos, os homens fracos, as mulheres e as crianças; define a supremacia da justiça acima de quaisquer considerações; prega a libertação dos escravos; proclama a liberdade religiosa e o direito à educação; condena a opressão e estatui o direito de se rebelar contra ela; estabelece a inviolabilidade da casa.
Salta aos olhos a semelhança da compreensão islâmica do ser humano (homem, vigário de Deus) com a idéia cristã ensinada por Paulo (homem, templo de Deus) e com o entendimento judaico do livro do Gênesis (homem, imagem de Deus).
Baseados na história de várias sociedades islâmicas, em que a religião se constitui na religião de Estado, muitos autores insistem na impossibilidade de conciliar o islamismo com práticas laicas em qualquer esfera (ética, jurídica ou política). Segundo a mesma leitura, o Islamismo pretende regular a totalidade da vida, sem deixar lugar para o profano.
Segundo o estudioso Mohammed Chérif Ferjani4 o Islã não é fechado à idéia laica, ou seja, à separação entre o político e o religioso. Aliás, insiste Ferjani, já os primeiros discípulos faziam uma distinção bem clara entre a opinião pessoal de Maomé e a Revelação. Para fundamentar sua tese, Ferjani cita a seguinte passagem do Alcorão:
“Eu não sou senão um homem. Se eu vos ordeno qualquer coisa de vossa Religião, segui-me. Se eu vos ordeno qualquer coisa que revela minha opinião, eu sou apenas um homem, O que diz respeito à Religião cabe a mim. No que diz respeito aos negócios do mundo, nisto vocês sabem mais do que eu.”
Apesar da possível abertura do Islã para a esfera laica, isso não significa que, especialmente no âmbito da ética, seja eliminado o vínculo entre esta e os preceitos religiosos. Allah5 é o único legislador – somente ele pode declarar o que é permitido, o que é justo, em suma, o que é eticamente louvável ou não. Assim sendo, para um muçulmano, é impensável construir uma ética desconhecendo os preceitos revelados por Allah, através de seu Profeta.
As religiões monoteístas e sua mensagem ética
Segundo a Torah, é tarefa do homem imitar a Jeová. E Jeová é descrito da seguinte forma: “socorro dos oprimidos, protetor dos fracos, abrigo dos abandonados e o salvador dos desesperados” (Livro de Judite, 9, 11).
Cristo, por sua vez, pregou a necessidade de uma conversão interior, em que o respeito aos mandamentos não deve ser meramente formal. Ele recomenda a observância de dois mandamentos fundamentais: amar a Deus e amar ao próximo como a si mesmo.
Amar o próximo também faz parte das obrigações do islamita. Sem o cumprimento deste preceito, tornar-se-iam inúteis todas as outras práticas e ritos religiosos. O Profeta Maomé, faz a seguinte recomendação:
“A virtude não reside tão-somente em que orienteis vossos rostos até o levante ou ao poente. A verdadeira virtude é a de quem crê em Deus, no dia do Juízo Final, nos anjos, no Livro e nos profetas; de quem distribui seus bens em caridade por amor a Deus, entre parentes, órfãos, necessitados, viajantes, mendigos, e em resgate dos escravos [...]” (Alcorão, 2ª Surata, versículo 177).
Ainda que, do ponto de vista histórico, a prática nem sempre tenha corroborado a teoria, a grande contribuição das religiões monoteístas no âmbito da ética ocidental foi, sem dúvidas, o destaque dado ao respeito à pessoa humana, qualquer que seja a sua condição.
Fonte

HRYNIEWICZ, Severo. Ética e religiões monoteístas. Rio de Janeiro: FGV Online, 2008.



1 A Torah ou Torá, também chamada de Pentateuco, compõe-se de 5 livros: Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio. A palavra hebraica torah significa Lei (ou Instrução); já o termo grego Pentateuco significa “subdividido em cinco”. Além de serem históricos, os cinco livros da Torah também se constituem na “lei”, porque eles formam uma unidade onde a lei, dada por Deus, é o ponto principal. A tradição costuma atribuir a Moisés (cerca de 1220 a.C.) a redação da Torah, contudo, alguns estudiosos fazem remontar a sua redação final para um período bem posterior, cerca do século VI a.C.

2 Maomé (Abulqasim Mohamed ibn Abdala ibn Abd al-Mutalib ibn Hashim ou Mohammed ou Mafoma ou Mafamede) nasceu em Meca, na atual Arábia Saudita, em 570, e faleceu em Medina, em 632. É o profeta fundador da religião muçulmana e do império árabe. Segundo a tradição, depois de ter exercido a profissão de comerciante por longo tempo, aos 40 anos, recebeu a missão de pregar as revelações trazidas de Deus pelo arcanjo Gabriel. O monoteísmo por ele pregado chocava-se com as crenças tradicionais das tribos semitas e, assim, foi obrigado a fugir para Iatribe (622), atual Medina ou Madinat an Nabi, isto é, Cidade do Profeta, onde as tribos árabes viviam em permanente tensão entre si e com os judeus. Pacificou as tribos árabes e as comunidades judaicas e começou uma luta contra Meca pelo controle das rotas comerciais. Conquistou Meca (630) e, de volta a Medina, morreu dois anos depois, sem haver nomeado um sucessor. Contudo, deixou uma comunidade espiritualmente unida e politicamente organizada em torno aos preceitos do Corão (656). A nova religião foi chamada islamismo ou Islã, que significa submissão à vontade divina, e seus adeptos, muçulmanos, que significa os que se submeteram.

3 Alcorão ou Corão é o Livro Sagrado da religião islâmica. Teve sua primeira composição como resultado de uma coletânea de textos encomendada pelo califa Abu Bakr, logo após a morte de Maomé (632 d.C.), entre os anos de 632 e 634. Em função das discordâncias existentes entre os textos coletados, o califa Otmã determinou que um comitê de redação preparasse uma edição oficial do Alcorão. Assim, entre os anos 644 e 656, foi preparada a edição oficial do Alcorão e todas as demais foram destruídas. O alcorão é divido em 114 suras ou capítulos, sendo que, cada sura é sura é dividida em versículos.


4 Nascido na Tunísia (1951), Mohammed Chérif Ferjani é professor junto à Universidade de Lyon (França). É autor de uma série de trabalhos sobre o islamismo e o mundo árabe – Les Voies de l'islam, approche laïque des faits islamiques (CRDP de Franche- Comté / Ed. du Cerf, 1996) e Islamisme, laïcité et droits de l'homme (L'Harmattan, 1992).



5 Allah é o nome dado a Deus na religião islâmica. Compõe-se de duas palavras árabes: al (artigo definido o) e lâh (Deus). No Alcorão, a sura 12 atesta a intransigente unicidade de Deus: nem gerou filhos, nem ele mesmo foi gerado. Daí, a implícita crítica ao deus trino do cristianismo. Dos 99 nomes atribuídos a Allah no alcorão, um deles é “juiz soberano nesta vida e no além”.






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