The present age is one of understanding, of reflection, devoid of passion, an age which flies into enthusiasm for a moment only to decline back into indolence



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Encontro26.05.2017
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Nossa época


Nossa época é pródiga em entendimento e reflexão, mas falta-lhe paixão. O que em um momento é puro entusiasmo, em outro é indolência.


... Se julgássemos [a nossa época] pela miríade de sinais, poderíamos supor que algo extraordinário aconteceu ou está para acontecer, o que seria um erro, porque os sinais são a única coisa de que nossa época é capaz. Sua condição assemelha-se à de um homem que só conseguiu dormir ao raiar do dia: primeiramente vieram os grandes projetos, depois a preguiça e, por fim, uma desculpa espirituosa para que possa continuar deitado.

O indivíduo, não importando quão bem intencionado possa ser ou quanta força possa ter, não tem a paixão necessária para se colocar à margem da espiral do reflexivo, nem o que está à sua volta garante o entusiasmo necessário para libertá-lo. Ao invés de socorrê-lo, o que o cerca forma em volta dele uma oposição intelectual negativa, que ao final o fará perceber que a coisa mais inteligente a fazer é não fazer nada.

...Vamos supor que alguém se esqueça de tudo o que sabe sobre essa época, e acabe de chegar, como se viesse de outro mundo: se lesse um livro ou um artigo dos jornais, ou conversasse com um passante, teria esta impressão: “Meu Deus, algo vai acontecer esta noite – ou quem sabe já tenha acontecido a noite passada.”

... Hoje vivemos a era da propaganda, ou a era da publicidade: nada acontece, mas há publicidade instantânea em torno desse nada. Uma revolução, nos dias atuais, é impensável; tamanha demonstração de força pareceria ridícula à inteligência calculada de nosso tempo. Mesmo assim, qualquer gênio da política poderia realizar uma façanha quase tão memorável: ele poderia escrever um manifesto sugerindo uma Assembleia Geral para decidir se haverá ou não uma revolução, e o faria com tanto zelo que até o Censor o aprovaria. Na Assembleia Geral, ele seria capaz de criar a impressão de que a audiência já se rebelou. Então todos iriam placidamente para suas casas – afinal, tiveram uma noite bastante agradável.

Um conhecimento profundo e prodigioso entre os jovens de hoje é quase impensável; isso seria motivo de riso. Por outro lado, um gênio da ciência seria perfeitamente capaz de redigir um prospecto que delineasse com precisão algum sistema generalíssimo, auto-explicativo e, o que é mais, o faria de modo a que o leitor se sentisse como se já tivesse lido todo o sistema.

A época dos enciclopedistas, quando os homens escreviam tratados gigantes, é passado. Essa é a época dos turistas intelectuais, pequenos enciclopedistas que, en passant, lidam com todas as ciências e com o todo da existência.


...Ação e paixão estão ausentes atualmente, assim como o perigo de se afogar inexiste quando se nada em águas rasas.

Se uma jóia de valor estivesse em um lago congelado, exatamente no ponto em que o gelo fosse perigosamente fino, onde a morte ameaçasse os que se atrevessem a ir longe o bastante para abandonar o gelo firme perto da praia, em outra época a multidão se alegraria com a coragem daquele que ousasse caminhar sobre o gelo, temeria por sua vida, lamentaria caso não fosse bem sucedido e o consideraria um deus se retornasse com o diamante.

Mas em nossa época desprovida de paixão, época reflexiva, tudo seria diferente. A multidão observaria os esquiadores de um ponto seguro e, com olhos de bom conhecedor, elogiaria a habilidade daquele que avançasse até o limite, para então retornar. Os mais ousados iriam além, arriscando-se mais, apenas para fazer a multidão gritar e dizer: “Que insano! Ele vai se matar!” Mas olhe atentamente e verá que o esquiador é ágil o bastante para se permitir retornar no instante preciso, quando o gelo ainda é seguro e sua vida ainda não corre nenhum risco.

No teatro, a multidão o aplaudiria e honraria com um lauto banquete, transformando a ação real em um truque de prestidigitação e a realidade em uma encenação. Durante o banquete a admiração chegaria às alturas.

Mas a relação entre o admirador e o objeto de admiração seria de tal modo que o admirador se sentiria gratificado com a firme convicção de ser semelhante ao herói e, ainda, mortificado por se julgar incapaz de tão grandes ações. Mesmo nos melhores momentos do banquete, quando os aplausos entusiasmados ensurdecessem, os admiradores ainda seriam extraordinariamente sagazes para perceber que a façanha do homem que homenageiam não é assim tão fantástica, e que deve-se ao acaso o fato de ter sido bem sucedido; afinal, com um pouco de prática todos poderiam ter feito o mesmo.

Em breve a multidão iria para casa com uma predisposição ainda mais séria para a mais respeitável de todas as doenças: admirar em público o que não tem importância no privado.

Nossa época, com seu entusiasmo repentino, seguido de apatia e indolência, aproxima-se do cômico. Mas aqueles que compreendem o cômico vêem muito claramente que não é o que imagina a nossa época. O cômico está em que uma época como a nossa deveria se esforçar para ser espirituosa e bem humorada, porque esta é provavelmente a única saída: escapar da inação fazendo acrobacias. O que, de fato, resta a uma época reflexiva senão o desafio do humor? Por não ter paixão, nossa época perdeu o entusiasmo e a sinceridade em política e em religião, e a compaixão e a admiração na vida cotidiana. Ser espirituoso sem a riqueza da interioridade é o mesmo que gastar todo o dinheiro em luxos e dispensar o necessário.

Ao final, dinheiro é tudo o que os homens desejam, mas o dinheiro é apenas uma representação, uma abstração. Hoje ninguém inveja os talentos dos outros, suas habilidades, seus amores ou sua fama; inveja-se o dinheiro. Dê-me dinheiro, alguém poderia dizer, e estou salvo; e morreria com a certeza de que, se tivesse tido dinheiro, poderia ter vivido realmente e ter feito algo extraordinário.

Assim como em uma época de paixão o entusiasmo é o princípio unificador positivo, em uma época reflexiva e sem paixão a inveja é o princípio unificador negativo. Mas não se deve entender a inveja em um sentido ético. O reflexivo é, por assim dizer, inveja e tem dois desdobramentos na ação: o egoísmo do indivíduo e o consequente egoísmo da sociedade à sua volta.

A inveja do reflexivo é, sob o ponto de vista moral, ressentimento. O ressentimento não apenas se defende contra todos os modos existentes de distinção, mas também contra todas as distinções que ainda possam vir a existir. O ressentimento exige o nivelamento. Este nivelamento é um processo silencioso, matemático e abstrato que impossibilita a resistência.

Uma pessoa pode conduzir uma rebelião, mas não pode comandar esse processo de nivelamento, porque isto faria dele um líder, o que o colocaria à margem do processo. Cada indivíduo pode, em seu pequeno círculo, fazer parte do processo de nivelamento, mas trata-se de um processo abstrato, de uma abstração que captura a individualidade.

O nivelamento tem um significado fundamental: fazer com que a “geração” substitua o “indivíduo”. Para que o nivelamento realmente aconteça, é preciso antes dar vida a um fantasma, a um espírito de nivelamento, a uma grande abstração, algo que abarca tudo que é nada, uma ilusão: o fantasma do público. Mesmo sendo o verdadeiro Senhor do Nivelamento, o público é um grande nada.

Quando uma sociedade faz da realidade concreta um nada, então a Imprensa cria esta abstração, “o público”, composto de indivíduos virtuais, que nunca se unirão nem poderão se unir em uma situação específica, ainda que se mantenham juntos como uma totalidade.

O público é um corpo, mais numeroso que as pessoas que o compõem, mas este corpo nunca poderá aparecer. Na realidade, ele não pode jamais ter uma única representação, porque é uma abstração, que se torna maior na mesma proporção em que nossa época se torna mais e mais desprovida de paixão. Esse todo, o público, rapidamente absorve tudo.

O público não é uma pessoa, não é uma geração, não é uma simultaneidade, não é uma comunidade, não é uma sociedade, não é uma associação; não é aquele homem que está ali, porque ele existe, é concreto e real. Nenhum homem que faça parte do público tem qualquer envolvimento real com ele.

...O público é tudo e nada; o mais perigoso de todos os poderes, e o mais insignificante. Pode-se falar a toda uma nação em nome do público, e mesmo assim o público será menos que um único homem real, mesmo que um homem real sem importância.

O adjetivo ‘público’ é criado pela mágica de palco da época reflexiva, que o faz aparecer bajulando o indivíduo, a quem a realidade concreta sempre parece pobre em comparação com ele. O público é o conto de fadas da época de reflexão, que em imaginação transforma o indivíduo em algo muito maior que um rei em relação a seus súditos.

A Imprensa é uma abstração (porque um jornal não é concreto e apenas em sentido abstrato é que pode ser considerado um individual) que, em associação com a ausência de paixão e o caráter reflexivo de nossa época, cria esse fantasma abstrato, que é na verdade um poder nivelador.

Quanto menos ideias houver em uma época, mais preguiçosa será ela. Se imaginarmos a Imprensa enfraquecendo mais e mais, porque não há acontecimentos e ideias que consigam gerar entusiasmo em nossa época, tanto mais facilmente o processo de nivelamento se tornará um prazer nocivo, que intoxica.

Mais e mais indivíduos desejarão, em razão dessa preguiçosa indiferença, se tornar um nada, a fim de ser público, esse todo abstrato, que se constrói de modo absurdo: o público só existe porque seus participantes se tornaram observadores, não partes atuantes.

...Essa massa preguiçosa, que não entende nada e não faz nada, anda à caça de algo com que se ocupar, e logo presenteia a si mesma com a ideia de que tudo o que alguém faz, ou realiza, foi feito unicamente para lhe dar algo sobre o que falar. Qualquer um que queira fazer alguma coisa, seja o rei, o funcionário público, o professor, o melhor tipo de jornalista, o poeta ou o artista, terá de arrastar o público com ele.

Se eu tentasse imaginar o público como uma pessoa particular, talvez eu devesse pensar em um dos imperadores romanos, uma figura majestosa, bem-alimentada, entediada, procurando do que rir, com um espírito mais indolente do que mau, mas com um desejo negativo de dominar. Todos os que leram os autores clássicos sabem quantas coisas um César seria capaz de fazer para matar o tempo.

...Conta-se de dois nobres ingleses que estavam cavalgando por uma estrada quando um cavalo, com seu condutor, passou por eles em disparada. O condutor, com medo de cair, gritou pedindo ajuda. Um dos ingleses disse ao colega: “Aposto mil guinéus como ele cai”, ao que o outro respondeu: “Feito!”. Então ambos esporearam seus cavalos, tomaram a dianteira do cavalo fugitivo e abriram o portão, para que nada o impedisse de continuar em disparada. Do mesmo modo, ainda que sem esse espírito heroico e milionário, nossa época reflexiva e sensível é curiosa, crítica e grande conhecedora do mundo e, o que é mais, é espirituosa o bastante para fazer apostas.

...O público tem um cãozinho de estimação, a Imprensa. Se há alguém superior à multidão, alguém que se diferencie, o público envia o animal para atacá-lo, e a diversão começa. O cachorro persegue o indivíduo, ataca-o e rasga suas roupas, até que o público fique entediado e chame seu cachorrinho. É assim que o público nivela.

O cachorro continua sendo um cachorro mesmo quando o público o despreza. O nivelamento é, portanto, o resultado da ação deste terceiro agente que, em sua insignificância, é menos que nada.

O público nunca se arrepende, porque não é ele quem age, e sim o cachorro. O público não é capaz de sentir remorso, porque nem mesmo é dono do cachorro; ele somente o apoia. O público nunca manda o cachorro atacar alguém, ou assobia para chamá-lo — abertamente. Se perguntassem quem é o dono do cachorro, o público responderia: “não é meu, é cachorro sem dono”.



Quando a atenção das pessoas não mais se volta para a interioridade, quando nada importante realmente acontece, essa é a hora da tagarelice. Mas a tagarelice é apenas o medo do silêncio que revela o vazio.
Com a fofoca, a distinção vital entre o que é público e o que é privado desaparece, e tudo se reduz a uma espécie de público/privado.

O público só tem interesse pelo que é particular.
O princípio da associação (que é inteiramente válido quando interesses materiais estão em jogo) não é positivo nem negativo; é uma fuga, uma distração e uma ilusão. ...Fortalece o indivíduo numericamente, mas o enfraquece eticamente.
O que é a superficialidade e o desejo de se mostrar? ... É a manifestação do vazio, mas em que se acredita haver algum ganho: a superficialidade tem a vantagem de confundir as pessoas, com seu brilhantismo fingido. O amor por se mostrar é o auto-apaixonamento do engano do reflexivo.


 Tradução e seleção de textos a partir da versão em língua inglesa: Soren Kierkegaard. The present age. Tradução de Alexander Dru. New York : Harper Torchbooks, 1962.





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