Tábula rasa



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RESUMO DE:

TÁBULA RASA

TÍTULO DO ORIGINAL: The blank slate: The modern denial of human nature

AUTOR: Steven Pinker

EDITORA: Companhia das Letras – 2002

Parte I

A Tabula rasa, o bom selvagem e o fantasma na máquina


Todo mundo tem uma teoria da natureza humana. Todo mundo precisa prever o comportamento dos outros... Ela nos aconselha sobre o modo de manter nosso casamento, criar nossos filhos e controlar nosso comportamento.
A concepção judaico-cristã ainda é a mais popular teoria da natureza humana nos Estados Unidos. Segundo levantamentos recentes, 76% dos americanos acreditam no relato bíblico da criação, 79% acreditam que os milagres descritos na bíblia realmente aconteceram, 76% acreditam em anjos, no diabo e em outras almas imateriais, 67% acreditam que existirão sob alguma forma depois de morrer e apenas 15% acreditam que a teoria da evolução de Darwin é a melhor explicação para a origem da vida humana na Terra. (...) Mas as ciências modernas da cosmologia, geologia, biologia e arqueologia tornaram impossível que uma pessoa com conhecimentos científicos elementares acredite que a historia bíblica da criação aconteceu de fato.
Bertran Russel: Todo homem, aonde quer que vá, está envolto por uma nuvem de convicções confortadoras, que se deslocam com ele como moscas em um dia de verão.
I. A teoria oficial
Uma máquina tem algum propósito prosaico, como moer grãos ou apontar lápis; um ser humano tem propósitos mais elevados, como amor, devoção, boas obras e criação de conhecimento e beleza.
Os jornalistas às vezes especulam sobre “transplantes de cérebro”, quando na realidade deveriam dizer “transplantes de corpo”, pois, como observou o filosofo Dan Dennett, essa é a única operação de transplante que é melhor para o doador do que para o receptor.
Russeau não acreditava exatamente numa tabula rasa, mas acreditava que o comportamento ruim era produto do aprendizado e socialização. “Os homens são maus; uma triste e constante experiência dispensa provas”, ele escreveu. Mas essa maldade provem da sociedade: “Não existe perversidade original no coração humano. Não se encontra nele um único vicio que não seja possível identificar como e quando entrou”.

Hoje em dia não se tem respeito pela filosofia. Muitos cientistas usam o termo como sinônimo de especulação estéril.


2. Silly Putty
Para o behaviorismo, os talentos e capacidades de um bebê não importavam, pois talento e capacidade eram coisas que não existiam. Watson os havia banido da psicologia, junto com outros conteúdos da mente, como idéias, crenças, desejos e sentimentos.
Pra Franz Boas, (...) as pessoas diferem porque suas culturas diferem. De fato, é assim que deveríamos nos referir a elas: a cultura esquimó ou a cultura judaica, e não a raça esquimó ou a raça judaica. A idéia de que as mentes são moldadas pela cultura servia de baluarte contra o racismo e era a teoria que se deveria preferir por rações morais.
3. A última muralha a cair
Em 1628 William Harvey mostrou que o corpo humano é uma máquina que funciona segundo a hidráulica e outros princípios mecânicos. Em 1828 Friedrich Wöhler mostrou que o material da vida não é uma geléia mágica e pulsátil, e sim compostos comuns que seguem as leis da química. Charles Darwin mostrou que a espantosa diversidade da vida e seus onipresentes sinais de ter sido projetada podiam emergir do processo físico da seleção natural entre replicadores. Grregor Mendel, depois James Watson e Francis Crick, mostraram como a própria replicação podia ser compreendida em bases físicas.
Sistemas de inteligência artificial recentes escreveram contos passáveis, compuseram convincentes sinfonias no estilo de Mozart, desenharam belas imagens de pessoas e paisagens e conceberam idéias espertas para anúncios publicitários.
Podemos todos ser equipados com um programa que reage a uma afronta (...) Mas o que é considerado afronta, (...) depende de nossa cultura. Os estímulos e respostas podem diferir, mas os estados mentais são os mesmos, sejam ou não perfeitamente rotulados por palavras em nossa língua.
Os psicólogos que estudam as emoções em diferentes culturas fizeram outra descoberta importante. As expressões faciais sinceras parecem ser as mesmas por toda parte, mas em algumas culturas as pessoas aprendem a manter o rosto impassível quando estão em companhia que requer boas maneiras. Uma explicação simples é que os programas de afeto desencadeiam expressões faciais do mesmo modo em todas as pessoas, mas quando elas podem ser mostradas é governado por um sistema distinto de “regras de exibição”.

O comportamento não é apenas emitido ou evocado, e também não provem diretamente da cultura ou da sociedade. Ele emerge de uma luta interna entre módulos mentais com diferentes destinações e objetivos.


Os humanos (...) têm as mentes dotadas de software combinatório capaz de gerar um conjunto ilimitado de pensamentos e comportamentos. O comportamento pode variar entre as culturas, mas a estrutura dos programas mentais que geram o comportamento não precisa variar.
Toda emoção e todo pensamento emitem sinais físicos, e as novas tecnologias para detectá-los são tão precisas que podem praticamente ser a mente de uma pessoa e dizer a um cientista cognitivo se a pessoa está imaginando um rosto ou um lugar.
Sigmund Freud imodestamente escreveu que “a humanidade ao longo do tempo teve de sofrer nas mãos da ciência três grandes ultrajes a seu ingênuo amor-próprio”:

  1. a descoberta de que nosso mundo não é o centro das esferas celestes, e sim um grãozinho de poeira em um vasto universo;

  2. a descoberta de que não fomos especialmente criados, e sim descendemos de animais;

  3. e a descoberta de que com freqüência nossa mente consciente não controla o modo como agimos, mas simplesmente nos conta uma historia sobre nossas ações.

A menos que se acredite em um fantasma na maquina, tudo o que uma pessoa aprende tem de afetar alguma parte do cérebro; mais precisamente: aprendizado é uma mudança em alguma parte do cérebro.


Gêmeos idênticos pensam e sentem de modos tão semelhantes que às vezes desconfiam estar ligados por telepatia. (...) Testes confirmam que os gêmeos idênticos, separados ou não ao nascer, são fantasticamente parecidos (embora longe de idênticos) em praticamente qualquer característica que se possa medir. São semelhantes em inteligência verbal, matemática e geral, no grau de satisfação com a vida e em características de personalidade como ser introvertido, aquiescente, neurótico, consciencioso e receptivo à experiência. Têm atitudes semelhantes diante de questões polemicas como pena de morte, religião e musica moderna. São parecidos não só em testes de papel e lápis, mas no comportamento consequencial como jogar, divorciar-se, cometer crimes, envolver-se em acidentes de ver televisão. E exibem dezenas de idiossincrasias como rir sem parar, dar resposta intermináveis a perguntas simples, molhar o pão com manteiga no café e – no caso de Abigail van Buren e Ann Landers – escrever textos indistinguíveis nas colunas de conselhos sentimentais.
Psicólogos descobriram que nossas personalidades diferem de 5 principais modos:

  1. somos em vários graus introvertidos ou extrovertidos

  2. neuróticos ou estáveis

  3. desinteressados ou abertos à experiência

  4. aquiescentes ou antagônicos

  5. e atentos ou dispersivos.

A maioria dos psicopatas apresentava sinais de perversidade desde criança. Maltratavam crianças menores, torturavam animais, mentiam habitualmente e eram incapazes de sentir empatia ou remorso, muitas vezes apesar de viver em um ambiente familiar normal e de árduos esforços por parte de seus consternados pais.


As crianças adquirem a linguagem falada instintivamente, mas a linguagem escrita, só com esforço, pois a linguagem falada tem sido uma característica da vida humana por dezenas ou centenas de milênios enquanto a linguagem escrita é uma invenção recente e de difusão lenta.
A distinção entre causação próxima e ultima é indispensável para a compreensão de nos mesmos, pois ela determina a resposta a toda pergunta na forma “Por que essa pessoa agiu assim?”. Para dar um exemplo simples, em ultima analise as pessoas anseiam por sexo para reproduzir-se (pois a causa ultima do sexo é a reprodução), mas, analisando de uma perspectiva mais imediata, elas talvez façam todo o possível para não se reproduzir (porque a causa próxima do sexo é o prazer).
Qualquer coisa inteiramente nobre é um produto improvável da seleção natural, já que na competição entre os genes pela representação na próxima geração quem é nobre tende a chegar por ultimo. Conflitos de interesse são ubiquos entre os seres vivos, pois 2 animais não podem comer o mesmo peixe ou monopolizar o mesmo parceiro sexual.
4. Abutres da cultura
O autismo é um distúrbio neurológico com fortes raízes genéticas. Junto com os robôs e os chimpanzés, os autistas nos lembram eu o aprendizado cultural só é possível porque pessoas neurologicamente normais possuem um equipamento inato para realizá-lo.
Experimentos mostram que bebês de um ano e meio não são associacionistas que ligam indiscriminadamente eventos coincidentes. São psicólogos intuitivos que analisam as intenções de outras pessoas antes de copiar o que elas fazem.

Em algumas sociedades, os homens vivem com sua família paterna e sustentam esposas e filhos; em outras, vivem com a família materna e sustentam irmãs, sobrinhas e sobrinhos.


[sobre rótulos]

Não existe uma boa razão para que as pessoas dirijam do lado direito da rua em vez do esquerdo, ou vice-versa, mas existe uma razão fortíssima para que as pessoas dirijam todas do mesmo lado. Assim, uma escolha arbitrária quanto ao lado para dirigir e uma ampla conformidade com essa escolha têm perfeito sentido.


Ritos de passagem e seus equivalentes modernos, pedaços de papel como a carteira de identidade e o registro de casamento, permitem a terceiros decidir como tratar casos ambíguos – como criança ou como adulto, como comprometido ou disponível – sem intermináveis discussões sobre diferenças de opinião.

Filósofo John Searle: certos fatos são objetivamente verdadeiros só porque as pessoas agem como se eles fossem verdadeiros.

Mao dizia que “o poder político nasce do cano de uma arma”. Como nenhum regime pode manter uma arma apontada para cada cidadão, o poder político nasce da capacidade de um regime para inspirar medo a um número suficiente de pessoas ao mesmo tempo.

A cultura, portanto, é um fundo comum de inovações tecnológicas e sociais que as pessoas acumulam para ajudá-las na vida, e não uma coleção de papéis e símbolos arbitrários que por acaso surgem para elas. (...) Mesmo quando dois grupos se mantêm à distância de um grito, se o relacionamento entre eles for muito hostil, eles podem adotar comportamentos indicadores de identidade que anunciem o lado a que pertencem, magnificando ainda mais as diferenças existentes.

As raízes psicológicas da cultura também ajudam a explicar por que alguns aspectos da cultura mudam e outros se mantêm. Algumas práticas coletivas têm uma inércia enorme porque impõem um custo elevadíssimo ao primeiro individuo que tentar mudá-las. Uma mudança de mão de direção do lado esquerdo para o direito não poderia começar com algum ousado dissidente ou com um movimento de origem popular (...).

As pessoas têm desejos e necessidades e, quando culturas entram em contato, fatalmente as pessoas pertencentes a uma não deixarão de notar quando seus vizinhos estão satisfazendo suas necessidades melhor do que elas próprias.

Muitas práticas “tradicionais” são surpreendentemente recentes. Os índios das Grandes Planícies americanas não andavam a cavalo antes da chegada dos europeus. Também as culinárias nacionais têm raízes pouco profundas. Batatas na Irlanda, páprica na Hungria, tomates na Itália, pimenta vermelha na ìndia e na China e mandioca na África provieram de plantas do Novo Mundo e foram levadas para seus “lares” tradicionais nos séculos seguintes à chegada de Colombo às Américas.

Sowell e Diamond argumentaram conclusivamente que os destinos das sociedades humanas não nascem do acaso nem da raça, mas do impulso humano para adotar as inovações de outros em combinação com as vicissitudes da geografia e da ecologia.

As plantas cultivadas e os animais que s domesticados em uma região podem facilmente disseminar-se para outras nas mesmas latitudes, que também possuem climas semelhantes. Mas não se disseminam com tanta facilidade por longitudes diferentes, onde algumas centenas de quilômetros podem evidenciar a diferença entre os climas temperado e tropical.

Assim a Eurásia conquistou o mundo não porque os eurasianos fossem mais inteligentes, mas porque puderam aproveitar melhor o principio de que muitas cabeças pensam melhor do que uma.

O reducionismo existe na forma boa e na ruim. O reducionismo voraz ou destrutivo (ruim) consiste em tentar explicar um fenômeno com base em seus elementos constituintes menores ou mais simples. Cientistas desta corrente, acreditam que faremos descobertas na educação, resolução de conflitos e outros temas sociais estudando a biofísica das membranas neurais ou a estrutura molecular da sinapse. Mas isto não explica como um pino quadrado não se encaixa em buraco redondo.

O reducionismo hierárquico (bom) consiste não em substituir um campo de conhecimento por outro, mas em conectá-los ou unificá-los. As unidades constitutivas usadas por um campo são postas ao microscópio por outro campo. As caixas-pretas são abertas; as notas promissórias são sacadas. Um geógrafo pode explicar por que a linha da costa africana se encaixa na das Américas dizendo que as massas de terra foram adjacentes no passado mas se situavam em placas diferentes, que se separaram pela deriva continental. A questão do motivo de as placas se moverem é passada para os geólogos, que mencionam uma efusão de magma que as empurrou as distanciou. E para explicar por que o magma esquentou tanto assim, chamam os físicos, que esclarecem as reações no núcleo e no manto terrestre.

A língua inglesa foi moldada por eventos históricos abrangentes que não ocorreram no interior de uma única cabeça. Entre eles incluem-se as invasões escandinava e normanda na época medieval, que contaminaram a língua com palavras anglo-saxãs, a grande mudança nas vogais no século XV, que embaralhou a pronuncia das vogais longas, tornando confuso e irregular seu sistema de soletração, a expansão do Império Britânico, que fez o inglês desdobrar-se em mais variações (o americano, o australiano, o cingapuriano), e o desenvolvimento da mídia eletrônica global, que pode homogeneizar novamente as línguas à medida que formos lendo as mesmas páginas da web e assistindo aos mesmos programas na televisão. (...) A língua é recriada a cada geração conforme passa pelas mentes dos humanos que a falam.

Do mesmo modo, nossa compreensão de nós mesmos e de nossas culturas só pode ser enriquecida pela descoberta de que nossa mente se compõe de intricados circuitos neurais para pensar, sentir e aprender, em vez de tabulas rasas, massas informes ou fantasmas inescrutáveis.


5. A última trincheira da tabula rasa

(...) todo o propósito de possuir um cérebro consiste em realizar certos objetivos, e o ambiente não tem idéia de que objetivos são esses.

Tudo isso por causa do numero 34 mil! O que suscita a questão: que numero de genes teria provado, ou que somos menos livres do que pensávamos, ou que a direita política está certa e a esquerda está errada? 50 mil? 150 mil? Inversamente, se houvesse sido descoberto que tínhamos só 20 mil genes, isso nos teria feito ainda mais livres, ou tornado o ambiente mais importante, ou deixado a esquerda da política ainda mais apoiada? O fato é que ninguém sabe o que esses números significam. Ninguém tem a menor idéia de quantos genes seria preciso para construir um sistema de módulos instalados, ou um programa de aprendizado multiuso, ou qualquer coisa intermediária – sem falar no pecado original ou na superioridade das classes dirigentes. Em nosso presente estado de ignorância quanto ao modo como os genes constroem um cérebro, o numero de genes no genoma humano é apenas um numero.

Hoje há rumores sobre estimativas alternativas de 57 mil, 75 mil e até 120 mil genes humanos. Ainda assim, mesmo se os humanos possuíssem seis vezes mais genes do que um verme em vez de apenas duas vezes mais, o enigma permaneceria.

Há mais duas razões para a complexidade do genoma não se refletir no núnero de genes que ele contém. Uma é que um dado gene pode produzir não só uma única proteína, mas várias. Um gene é tipicamente segmentado em trechos de DNA que codificam fragmentos de proteínas (éxons), separados por trechos de DNA não codificadores (introns), mais ou menos como um artigo de revista interrompido por anúncios. Os segmentos de um gene podem então ser emendados de numerosos modos. Um gene composto de éxons A, B, C e D poderia originar proteínas correspondentes a ABC, ABD, ACD et. – até dez proteínas diferentes por gene. Isso acontece em maior escala nos organismos complexos do que nos simples.
Segundo, os 34 mil genes compõem apenas cerca de 3% do genoma humano. O restante consiste em DNA que não codifica proteína e que antes era menosprezado como “junk” [lixo, refugo]. Mas, como afirmou recentemente um biólogo, “o termo junk DNA é um reflexo de nossa ignorância”. O tamanho, a colocação e o conteúdo do DNA não codificador têm efeitos monumentais sobre o modo como os genes próximos são ativados para produzir proteínas. As informações contidas nos bilhões de bases nas regiões não codificadoras do genoma são parte da especificação de um ser humano, em grau muito maior do que as informações existentes nos 34 mil genes.

Se pensamento e ação são produto da atividade física do cérebro, e se pensamento e ação podem ser afetados pela experiência, então a experiência tem de deixar um vestígio na estrutura física do cérebro. (...) A única questão é como o aprendizado afeta o cérebro. As memórias são armazenadas em seqüências de proteínas, em novos neurônios ou sinapses ou em mudanças na forca das sinapses existentes? Quando alguém aprende uma nova habilidade, ela é armazenada apenas em órgãos dedicados ao aprendizado de habilidades (como o cerebelo e os gânglios basais), ou também se ajusta ao córtex? Um aumento na destreza depende de usar mais centímetros quadrados do córtex, ou de usar maior concentração de sinapses no mesmo numero de centímetros quadrados?

Os mecanismos não são projetados para permitir que ambientes variáveis moldem órgãos variáveis. Fazem o oposto: asseguram que apesar dos ambientes variáveis desenvolva-se um órgão constante, que seja capaz de fazer seu trabalho.

O sistema visual desenvolve-se no útero totalmente escuro, antes de os olhos do animal se abrirem e antes que cones e bastonetes estejam sequer ligados e funcionando.

Mesmo hoje alguns grupos religiosos pressionam seus membros homossexuais a “escolher” a heterossexualidade. Muitas técnicas foram impingidas a eles: psicanálise, fazê-los sentir-se culpados, técnicas de condicionamento que usam a impecável lógica do “disparam juntos, conectam-se” (por exemplo, obrigá-los a olhar para garotas de capa da Playboy quando sexualmente excitados). Todas essas técnicas são inúteis. Com poucas exceções questionáveis (que provavelmente são casos de autocontrole consciente, e não uma mudança do desejo), a orientação sexual da maioria dos homens homossexuais não pode ser revertida pela experiência. Algumas partes da mente simplesmente não são plásticas, e nenhuma descoberta sobre como se dão as conexões no córtex sensitivo mudará esse fato.

Quem assiste ao Discovery Channel já viu filmes de crias de gnus ou zebras saindo do canal do parto, cambaleando nas pernas trêmulas, por um ou dois minutos, e então saltitando em volta da mãe com os sentidos, impulsos e controle motor em pleno funcionamento. Isso acontece rápido demais para que uma experiência padronizada tenha se organizado em seu cérebro, portanto têm de existir mecanismos genéticos capazes de moldar o cérebro antes do nascimento.

Uma menina resolvia problemas de aritmética contando nos dedos fantasmas! O psicólogo Ronald Melzack, que documentou muitos desses casos, aventou que o cérebro contém uma “neuromatriz” inata, distribuída por várias regiões corticais e subcorticais, dedicada á representação do corpo.

Quando adultos sobrem lesão no córtex visual e na base dos lobos temporais em ambos os lados do cérebro, perdem a capacidade de reconhecer rostos e também têm dificuldade de reconhecer animais, embora com freqüência consigam reconhecer palavras, utensílios, móveis e outras formas. Embora um rapaz crescesse com inteligência verbal normal, era totalmente incapaz de reconhecer rostos. Não consegui sequer reconhecer fotos do elenco de seu programa de televisão favorito, Baywatch, a que vinha assentindo durante uma hora por dia havia um ano e meio.

Se o cérebro realmente fosse homogêneo e plástico, as partes sadias deveriam ter sido moldadas pelo ambiente social normal e assumido as funções das partes lesadas. Mas não foi o que aconteceu com nenhuma dessas crianças. Uma delas, uma menina que fora atropelada por um carro aos quinze meses de vida, tornou-se uma criança intratável que não fazia caso de punições e mentia compulsivamente. Na adolescência, praticava furto em lojas, roubava dos pais, não conseguia fazer amigos, não demonstrava empatia nem remorso e perigosamente não se interessava por seu próprio bebê.

O estudo de seres humanos da perspectiva evolucionista mostrou que muitas faculdades psicológicas )como nossa avidez por comidas gordurosas, status social e relacionamentos sexuais de risco) são mais bem adaptadas às demandas evolutivas de nosso ambiente ancestral do que às demandas reais do ambiente atual.

O temperamento e a personalidade de uma pessoa emergem cedo na vida e permanecem razoavelmente constantes enquanto ela viver. E tanto a personalidade como a inteligência mostram pouco ou nenhum efeito dos ambientes específicos das crianças no âmbito de sua cultura: crianças criadas na mesma família são semelhantes principalmente em razão de seus genes em comum

Finalmente, a neurociência está mostrando que a arquitetura básica do cérebro desenvolve-se sob controle genético. Independentemente da importância do aprendizado e da plasticidade, os sistemas cerebrais têm indícios de especialização inata e não podem arbitrariamente ser substituídos uns pelos outros.

PARTE II

Medo e aversão

6. Cientistas Políticos

É um sinal da tenacidade da tábula rasa que uma probabilidade maior do que zero é igualada a uma probabilidade de 100%. Zero para o inato é a única crença aceitável, e todos os afastamentos disso são tratados como equivalentes.

Algum comportamento tem de ser afetado por alguns genes, ou nunca poderíamos explicar por que os leões agem de modo diferente das ovelhas, por que as galinhas chocam seus ovos em vez de comê-los, por que os cervos dão marradas e os gerbos não etc. (...) Ora, determinado gene pode não produzir o mesmo efeito em todos os ambientes, nem o mesmo efeito em todos os genomas, mas ele tem de ter um efeito médio. É essa média que a seleção natural seleciona (sendo tudo o mais igual), e é isso que significa o “para” em “um gene para X”.
7. A santíssima trindade

A idéia de “determinismo biológico” – de que os genes causam o comportamento com 100% de certeza – e a idéia de que toda característica comportamental tem seu próprio gene são obviamente tolas.

A questão não é se nossa espécie é “perversa e destrutiva”, mas se abrigamos motivos perversos e destrutivos juntamente com os benévolos e construtivos.

Qualquer um que não acredite na evolução decerto não acredita na evolução da mente, e qualquer um que acredite em uma alma imaterial decerto não acredita que pensamento e sentimento consistem em processamento de informações nos tecidos do cérebro.

A oposição religiosa à evolução é impulsionada por vários medos morais. O mais óbvio é o fato de que a evolução contesta a verdade literal da historia da criação encontrada na bíblia e, portanto, a autoridade que dela extrai a religião. (...) “Se a bíblia erra quanto à biologia, por que deveríamos confiar na bíblia quando ela fala sobre moralidade e salvação?”.

Os fiéis modernos podem não acreditar na verdade literal de cada milagre narrado na bíblia, mas acreditam que o homem foi criado à imagem de Deus e posto na Terra para um propósito maior – viver uma vida moral obedecendo aos mandamentos de Deus.

“No estudo do comportamento animal, ninguém sequer fala mais em sociobiologia ou genes egoístas, pois essas idéias são parte integrante da ciência.

Os oponentes das ciências da natureza humana, de esquerda e de direita, têm razão em uma coisa: essas são questões vitais. Então há mais motivo ainda para que sejam confrontadas não com medo e aversão, mas com a razão.


PARTE III

Natureza humana com rosto humano.

A preocupação em torno da natureza humana pode ser reduzida a 4 temores:


  1. se as pessoas forem inatamente diferentes, a opressão e a discriminação serão justificadas.

  2. se as pessoas forem inatamente imorais, a esperança de melhorar a condição humana será vã;

  3. se as pessoas forem produto da biologia, o livre-arbítrio será um mito, e não poderemos mais considerar as pessoas responsáveis por suas ações;

  4. se as pessoas forem produto da biologia, a vida não terá um significado e um propósito maiores.

8. O medo da desigualdade

Samuel Johnson escreveu: “Somos todos movidos pelos mesmos motivos, todos enganados pelas mesmas falácias, todos animados pela esperança, tolhidos pelo perigo, enredados pelo desejo e seduzidos pelo prazer”.

(...) Portanto, em se tratando de uma explicação para o que nos faz funcionar, somos todos farinha do mesmo saco.

As pessoas são qualitativamente iguais, mas podem diferir quantitativamente. As diferenças quantitativas são pequenas em termos biológicos, e são encontradas em um grau muito maior entre membros individuais de um grupo étnico ou raça do que entre grupos étnicos ou raças. (...) Qualquer ideologia racista que afirme que os membros de um grupo étnico são todos iguais, ou que um grupo étnico difere fundamentalmente de outro, baseia-se em falsas suposições sobre nossa biologia.

Independente do QI, da força física ou de qualquer outra característica que possa variar, podemos supor que todos os humanos possuem certas características em comum:


  • ninguém gosta de ser escravizado

  • ninguém gosta de ser humilhado

  • ninguém gosta de ser tratado injustamente, ou seja, com base em característica que a pessoa não pode controlar.

[Ele fala em “uma sociedade não racista”, isto para mim não existe.]

Depois dos ataques terroristas de 11/set, cerca de metade dos americanos entrevistados afirmou não se opor à desconfiança étnica – revistar passageiros de avião porque são árabes.


As análises de custo-benefício são usadas para (...) A possibilidade de que homens e mulheres não sejam os mesmos em todos os aspectos também apresenta escolhas aos formuladores de políticas. Seria repreensível um banco contratar um homem em detrimento de uma mulher como gerente pelo motivo de que ele tem menos probabilidade do que ela de pedir demissão depois de ter um filho. Seria também repreensível um casal contratar uma mulher em vez de um homem como babá para sua filha porque ela tem menor probabilidade de abusar sexualmente da menina? A maioria das pessoas acredita que a punição para determinado crime deveria ser a mesma independentemente de quem o comete. Mas conhecendo as emoções sexuais típicas de ambos os sexos, deveríamos aplicar a mesma punição a um homem que seduz uma garota de dezesseis anos e a uma mulher que seduz um garoto de dezesseis anos?

Existem hoje numeroso indícios de que a inteligência é uma propriedade estável do individuo, que ela pode ser associada a característica do cérebro, que é parcialmente hereditária entre indivíduos e que prediz algumas das variações nos sucessos da vida, como a renda e o status social.

A direita darwinista social não dá valor à igualdade; a esquerda totalitarista não dá valor à liberdade. A esquerda rawlsiana sacrifica alguma liberdade em favor da igualdade; a direita libertária sacrifica alguma igualdade em favor da liberdade. Embora pessoas sensatas possam discordar quanto ao melhor trade-off, não é sensato fingir que não existe um trade-off.

A reprodução seletiva é direta para genes com efeitos aditivos – isto é, genes que têm o mesmo impacto independentemente dos outros genes do genoma. Mas algumas características, como a genialidade científica, o virtuosismo atlético e o talento musical, são o que os geneticistas comportamentais denominam emergênicas: materializam-se apenas com certas combinações de genes e, portanto, “não se reproduzem sem variação”. Resposta do bioquímico George Wald ao pedido de seu sêmem para um banco de esperma: “Se vocês querem sêmem que produza ganhadores de prêmios Nobel, deveriam entrar em contato com pessoas como meu pai, um alfaiate imigrante pobre. O que meu sêmem deu ao mundo? Dois guitarristas!”.

O nazismo e o marxismo compartilharam o desejo de remodelar a humanidade. “A alteração dos homens em grande escala é necessária”, escreveu Marx; “a vontade de recriar a humanidade” é o cerne do nacional-socialismo, escreveu Hitler.

Para os nazistas, os grupos eram as raças; para os marxistas, eram as classes. Para os nazistas, o conflito era o darwinismo social; para os marxistas, a luta de classes. Para os nazistas, os vitoriosos predestinados eram os arianos; para os marxistas, o proletariado. As ideologias, quando implementadas, conduziram a atrocidades em poucos passos: a luta (com freqüência um eufemismo para violência) é inevitável e benéfica; certos grupos de pessoas (as raças não arianas ou a burguesia) são moralmente inferiores; melhoras no bem-estar humano dependem de esses grupos serem subjugados ou eliminados.


9. O medo da imperfectibilidade

(...) uma natureza humana imutável parece subverter toda esperança de reforma. (...) O filosofo John Pasmore mostrou que o anseio por um mundo melhor por meio de uma na natureza humana nova e melhorada é um motivo recorrente no pensamento ocidental, e sintetiza isso em um comentário de D. H. Lawrence: “A perfectibilidade do homem! Ah, céus, que tema desolador!”

(...) a crença romântica de que o que é natural é bom. Segundo essa preocupação, se os cientistas disserem que é “natural” – que é arte da natureza humana – ser adultero, violento, etnocêntrico e egoísta, estarão insinuando que essas características são boas, e não apenas inevitáveis.

A guerra era considerada revigorante, enobrecedora, a aspiração natural dos homens e das nações. Essa crença levou lideres mundiais a entrar como sonâmbulos na Primeira Guerra Mundial e milhões de homens a alistar-se sofregamente, sem pensar na carnificina que os esperava.


[O contra-ponto do egoísmo é a necessidade de aprovação para do grupo.]

Uma popular apresentadora de televisão declarou: “Estou levando pessoas a parar de fazer o que é errado e a começar a fazer o que é certo”. [O deputado estadual Edino Fonseca, do Rio, quer aprovar uma lei prevendo auxilio psicológico pago pelo Estado a homossexuais que optarem por se tornar heterossexuais.]

O filósofo Pter Singer mostrou que o progresso moral contínuo pode emergir de um senso moral fixo. Suponhamos que somos dotados de uma consciência que trata outras pessoas como alvos de solidariedade e nos inibe de explorá-las. Suponhamos, também, que temos um mecanismo para avaliar se um ser vivo se classifica como pessoa. (Afinal de contas, não queremos classificar vegetais como pessoas e preferir morrer de fome a comê-los.) Singer explica o progresso moral no título de seu livro: The expanding circle (sem tradução em português). As pessoas expandiram constantemente a linha pontilhada mental que abrange as entidades consideradas dignas de consideração moral. O círculo foi sendo ampliado, da família e da aldeia para o clã, a tribo, o país, a raça e, mais recentemente (como na Declaração Universal dos Direitos Humanos), para toda a humanidade. Foi se afrouxando, da realeza, aristocracia e senhores de terra até abranger todos os homens. Cresceu, passando da inclusão apenas de homens à inclusão de mulheres, crianças, e recém-nascidos. Avançou lentamente até abranger criminosos, prisioneiros de guerra, civis inimigos, os moribundos e os mentalmente deficientes.

A expansão do círculo moral não tem de ser movida por algum impulso mistérios de bondade. Pode provir da interação entre o processo egoísta da evolução e uma lei de sistemas complexos.(...) os replicadores freqüentemente se vêem em jogos de soma não-zero, nos quais estratégias específicas adotadas por dois jogadores podem beneficiar os dois (ao contrário de um jogo de soma zero, no qual o ganho de um jogador implica perda para o outro). (...) um cego carrega um coxo nos ombros, permitindo a ambos locomover-se. Durante a evolução da vida essa dinâmica levou moléculas replicadoras a agrupar-se em cromossomos, organelas a agrupar-se em células, células aglomerar-se em organismos complexos e organismos a juntar-se em sociedades.

Se defrontamos um inimigo comum, como disse Benjamin Franklin, “Temos de nos juntar, pois separados seremos trucidados”.

À medida que a tecnologia se acumula e as pessoas em mais partes do planeta se tornam interdependentes, o ódio entre elas tende a diminuir, pela simples razão de que não se pode matar alguém e fazer transações com ele ao mesmo tempo.

Atitudes egoístas, sexistas, racistas e xenófobas são logicamente incoerentes com a demanda de que todos respeitem um único código de comportamento.

Assim, a coexistência pacifica não tem de surgir porque os desejos egoístas das pessoas são arrancados delas. Pode surgir quando alguns desejos – o desejo de segurança, dos benefícios da cooperação, da capacidade de formular e reconhecer códigos universais de comportamento – são contrapostos ao desejo de ganho imediato.

O que barra o caminho da maioria das utopias não é a peste nem a seca, mas o comportamento humano. Por isso, os utopistas têm de imaginar modos de controlar o comportamento, e quando a propaganda não funciona, eles partem para técnicas mais enfáticas. (...) Filósofos e historiadores recentes, mencionaram os sonhos utópicos como causa fundamental dos pesadelos do século XX.

O marxismo do século XX foi parte de uma corrente intelectual mais ampla,m designada por alto modernismo autoritário: a presunção de que os planejadores podiam reestruturar a sociedade de cima para baixo usando princípios “científicos”.

Não ocorreu a Le Corbusier que reuniões intimas com a família e os amigos podiam ser uma necessidade humana, por isso ele propôs que grandes salões de refeições comunitários substituíssem as cozinhas.

Em um dialogo de 1975, Simone de Beauvoir afirmou: “Nenhuma mulher deveria ser autorizada a ficar em casa para cuidar dos filhos. A sociedade deveria ser totalmente diferente. As mulheres não deveriam ter essa escolha, precisamente porque se existir essa escolha um número excessivo de mulheres a fará”.

Em muitos lugares pratica-se o aborto seletivo de fetos femininos, recém-nascidas são mortas, filhas são malnutridas e impedidas de freqüentar a escola, meninas adolescentes têm os genitais cortados, mulheres jovens são cobertas por um manto dos pés à cabeça, adúlteras são apedrejadas até a morte, e as viúvas têm o dever de jogar-se sobre a pira funerária do marido. O clima relativista em muitos círculos acadêmicos não permite que tais horrores sejam criticados porque são práticas de outras culturas, e culturas são superorganismos que, como as pessoas, têm direitos inalienáveis. [De outro lado, europeus são acusados de arrogantes por quererem instruir os povos pobres do mundo sobre o que é que eles precisam.]
10. O medo do determinismo

Na concepção tradicional de um fantasma na maquina, nosso corpo é habitado por um self ou uma alma que escolhe o comportamento a ser executado pelo corpo.

[O grande temor das pessoas é que] Afinal, se não existe fantasma na máquina, alguma coisa no hardware do criminoso tem de torná-lo diferente da maioria das pessoas, as que não feririam ou matariam nas mesmas circunstâncias. Essa alguma coisa há de ser descoberta logo, e, teme-se, os assassinos estarão isentos de punição pelos crimes exatamente como hoje isentamos os loucos e as crianças.

Se as pessoas não têm alma, por que não e igualmente tolo punir as pessoas?

Quando uma equipe de geneticistas encontrou um gene raro que predispunha os homens de certa família a acessos de violência, o advogado de um réu acusado de assassinato, sem parentesco nenhum com aquela família, argumentou que seu cliente talvez tivesse o mesmo gene. Neste caso, afirmou o advogado, “suas ações podem não ter sido um produto de total livre-arbítrio”.

Se o comportamento fosse escolhido por uma vontade totalmente livre, então realmente não poderíamos considerar as pessoas responsáveis por suas ações. Essa ameaça não se deteria ante a ameaça de punição (...). Moralidade e lei não teriam utilidade. Poderíamos punir um transgressor, mas seria por pura vingança, pois a punição não teria nenhum efeito previsível sobre o comportamento futuro do transgressor ou de outras pessoas cientes da punição. [O que, na minha opinião, é o que realmente acontece. Ou seja, eu vou mais longe do que o autor.]

Cientistas defensivos às vezes tentam desviar a acusação de determinismo salientando que o comportamento nunca é perfeitamente previsível, mas sempre probabilístico, mesmo nos sonhos dos mais ferrenhos materialistas.

A previsibilidade menos que perfeita do comportamento certamente desmascara o clichê de que as ciências da natureza humana são “deterministas” no sentido matemático. Mas não é capaz de dissipar o medo de que a ciência esteja minando o conceito de livre-arbítrio e responsabilidade. Não é nenhum consolo ficar sabendo que os genes de um homem deram-lhe 99% de probabilidade de matar sua senhoria em vez de 100%. Está certo, o comportamento não foi rigorosamente preordenado, mas por que a probabilidade de 1% de ele ter agido de outro modo subitamente tornou-o “responsável”. De fato, não existe um valor de probabilidade que, em si, traga a responsabilidade de volta. Sempre se pode pensar que existe uma probabilidade de 50% de que algumas moléculas no cérebro de Raskolnikov façam assim, compelindo-o a cometer o assassinato, e uma probabilidade de 50% de que façam assado, compelindo-os a não cometer o crime. Ainda não temos nada parecido com o livre-arbítrio, e nenhum conceito de reponsabilidade que prometa reduzir atos danosos. Os filósofos chamam isso de “bifurcação de Hume”: “ou nossas ações são determinadas, e nesse caso não somos responsáveis por elas, ou são resultado de eventos aleatórios, e nesse caso [também] não somos responsáveis por elas”.

A lógica da condenação parece ser: se alguém tenta explicar um ato como efeito de alguma causa, está dizendo que o ato não foi escolhido livremente, e que o agente não pode ser responsabilizado.

“É verdade, meu marido me espancava por causa de sua infância; mas eu o matei por causa da minha”.

A maioria dos filósofos acredita que, a menos que uma pessoa seja realmente coagida, devemos considerar suas ações livremente escolhidas, mesmo se forem causadas por eventos no interior de seu crânio. [Foi deixada uma questão crucial de lado, qual seja a de todos nós o tempo todo controlamos (ou não) nossos instintos inatos em questões, digamos, menores. Uma agressão verbal à esposa ou a um filho não leva ninguém para a cadeia pelo simples motivo que o fato não foi arrolado como crime no código penal. A diferença, portanto, está em uma ação ser ou não classificada como crime e não se os genes são determinísticos do comportamento.]

Quando responsabilizamos, esperamos dissuadir outros de cometer perversidades comparáveis no futuro. (...) “Mas a lei tem de cumprir suas promessas”. [Isto significa garantir que os transgressores não terão vantagem com suas violações. Como eu já cunhei: a única recompensa esperada pelos homens honestos é a punição dos desonestos.]

[As punições (responsabilização) são necessárias apenas porque somos incapazes de evitar a causa das ações.]

A razão de algumas práticas nos parecerem bárbaras é infligirem mais danos do que o necessário para prevenir o mal no futuro. Como afirmou o escritor político Harold Laski: “Civilização significa, acima de tudo, relutância em infligir dor desnecessária”.

A menos que se acredite que atos comuns são escolhidos por um fantasma na máquina, todos os atos são produtos de sistemas cognitivos e emocionais no cérebro. Atos criminosos são relativamente raros, portanto atos hediondos com freqüência serão produto de um sistema cerebral que é de algum modo diferente do usual, e o comportamento pode ser interpretado como “um produto de doença mental ou falha mental”.

Por que as intuições das pessoas seguem direções opostas :



  • ou “se ele tem dificuldade para controlar-se, deveria ser punido mais brandamente”,

  • ou “se ele tem dificuldade para controlar-se, deveria ser punido mais severamente”?

[Menos chibatadas para não correr o risco de infringir uma punição demasiada mas se arriscar a que não sejam bastante, ou mais chibatadas para garantir a eficiência mas correr o riso de serem demasiadas?]

O medo do niilismo

O medo final das explicações biológicas da mente é que elas possam privar nossa vida de significado e propósito. Se somos apenas maquinas para permitir que nossos genes produzam cópias de si mesmos, se nossas alegrias e satisfações não passam de eventos bioquímicos que algum dia cessarão para sempre, se a vida não foi criada para um propósito superior e dirigida para um objetivo nobre, então por que continuar vivendo?

O papa reconheceu que a teoria da evolução de Darwin é “mais do que apenas uma hipótese” porque descobertas convergentes em muitos campos independentes, “não buscadas nem forjadas”, testemunham em seu favor. Mas erigiu uma barreira diante da “alma espiritual”, uma transição na evolução dos humanos equivalente a um “salto ontológico” inobservável pela ciência. O espírito não poderia ter emergido “das forças da matéria viva”, pois isso não pode “fundamentar a dignidade da pessoa”:

O homem é a única criatura na Terra que Deus quis a bem de si mesma. [...] Em outras palavras, o indivíduo humano não pode ser subordinado como um puro meio ou um puro instrumento, seja da espécie, seja da sociedade; ele tem valor por si mesmo. Ele é uma pessoa. Com seu intelecto e sua vontade, ele é capaz de formar uma relação de comunhão, solidariedade e altruísmo com seus semelhantes [...]. O homem é chamado a entrar em uma relação de conhecimento e amor com o próprio Deus, uma relação que verá sua completa consumação além do tempo, na eternidade. [...]

Em outras palavras [na interpretação do papa sobre a concepção darwinista] (...) Nada nos livraria de uma vida de desumana exploração e cínico egocentrismo.

Nem é preciso dizer que debater com o papa é o supremo exercício de inocuidade. (...) alguns biólogos afirmam que um deismo refinado, para o qual muitas religiões estão evoluindo, pode ser compatibilizado com uma compreensão evolucionista da mente e da natureza humana.

O cérebro pode ser um sistema físico feito de matéria comum, mas essa matéria é organizada de modo a originar um organismo sensível com capacidade para o prazer e a dor. E isso, por sua vez, prepara o cenário para o surgimento da moralidade.


[O altruísmo só é possível graças ao egoísmo. O altruísmo nada mais é do que uma ação que tem o objetivo de obter a angariar a aprovação do outro sobre si. Não há altruísmo se não há esta possibilidade de aprovação.]

A alternativa à teoria religiosa da fonte de valores é que a evolução nos dotou de um senso moral, cuja esfera de aplicação nós expandimos no decorrer da história por meio da razão (entendendo a permutabilidade lógica entre nossos interesses e os das outras pessoas), do conhecimento (aprendendo as vantagens da cooperação no longo prazo) e da compreensão (passando por experiências que nos permitem sentir a dor de outras pessoas).

Até Hitler pensava estar executando a vontade de Deus. (...) Uma autoridade onipotente que ninguém pode ver é um esteio útil para lideres mal-intencionados ansiosos por recrutar combatentes devotos.

A doutrina de uma alma que vive depois de morto o corpo não tem nada de justa, pois necessariamente desvaloriza nossa vida na Terra. Quando Susan Smith afogou seus dois filhos pequenos no lago, apaziguou sua consciência racionalizando que “meus filhos merecem o melhor, e agora o terão”. (...) É por isso que devemos rejeitar o argumento de que se as pessoas pararem de acreditar na retribuição divina farão o mal com impunidade. [Os não-crentes não se sentem tentados a massacrar milhares de pessoas pela promessa de passar a eternidade no paraíso.]

[Todos nós sabemos que] as pessoas podem ser publicamente generosas mas gananciosas na vida privada, publicamente piedosas mas cínicas na vida privada, publicamente platônicas mas lúbricas na vida privada.

Nosso senso moral pode ter evoluído para engrenar-se com uma lógica intrínseca da ética em vez de criá-la do nada em nossa cabeça.

PARTE IV

Conhece a ti mesmo

12. Em contato com a realidade

O cérebro pe uma rede inimaginavelmente intricada: 100 bilhões de neurônios ligados por 100 trilhões de conexões, tecidos em uma arquitetura tridimensional convoluta (como em uma bananeira!!!).

Psicólogos mostraram listas de grupos étnicos e listas de características a um grupo de pessoas e então pediram-lhes que fizessem a correspondência entre grupos e características. Não deu outra: ligaram judeus a “astutos” e “mercenários; alemães a “eficientes” e “nacionalistas”, negros a “supersticiosos” e “despreocupados” e assim por diante. (...) hoje em dia as pessoas educadas e as principais figuras públicas empenham-se em evitá-las. [!!!!!!] [rótulos]

A inteligência depende do agrupamento de coisas que possuem propriedades em comum, para que não fiquemos pasmos a cada nova coisa que encontrarmos.

Percebemos algumas características de um novo objeto, situamo-lo em uma categoria mental e inferimos que é provável que ele tenha as outras características típicas dessa categoria, aquelas que não conseguimos perceber. Se anda como um pato e grasna como um pato, provavelmente é um pato. Se é um pato e grasna como um pato, provavelmente é um pato.

Se a categorização é tão excelente quando falamos em patos e cadeiras, por que é tão terrível quando pensamos em gênero e grupo étnicos?

A idéia de que os estereótipos são inerentemente irracionais deve-se mais a um sentimento de superioridade em relação às pessoas comuns do que a pesquisas psicológicas apropriadas. [Eu vejo de uma maneira mais prática. Os estereótipos são necessários para me agrupar ou me desagrupar, para incorporar o outro ou excluí-lo. Eu preciso saber quem você é sem precisar ter com você uma conversa de horas ou dias até que consiga descobrir se seus valores fundamentais são idênticos aos meus, se eu posso confiar a você minhas opiniões ou não.]

Mesmo quando as pessoas acreditam que grupos étnicos têm características típicas, não quer dizer que estereotipam todo mundo insensatamente, acreditando que cada membro de um grupo possui exatamente aquelas características.

Durante a Segunda Guerra Mundial, quando os russos eram aliados dos Estados Unidos e os alemães eram os inimigos, os americanos achavam que os russos tinham mais características positivas que os alemães. Pouco depois, quando as alianças se inverteram, os americanos passaram a achar que eram os alemães que tinham mais características positivas que os russos.

A boa notícia, portanto, é quando os fatos mudam, os estereótipos das pessoas podem mudar também.

[generalização e particularização]

(...) muitas palavras são definidas, em parte, por sua relação com outras palavras. Por exemplo, ele é definido pelo contraste com eu, você, eles e ela, e grande só é compreensível como oposto de pequeno.

Quando nos frustramos com uma disparidade entre nossa língua e nossos pensamentos, não desistimos, derrotados e calados, mas mudamos a língua. Inventamos neologismos (quark, meme, clone, estrutura profunda), criamos gírias (spam, detonar, desmunhecar, surfar na web, enrolar), emprestamos palavras úteis de outras línguas (joie de vivre, schlemiel, angst, trade-off), ou cunhamos novas metáforas (desperdiçar tempo, lavagem de dinheiro, forçar a barra). É por isso que toda língua, longe de ser uma penitenciária imutável, está em constante renovação. Apesar das lamentações dos amantes da língua e da coerção dos patrulheiros do idioma, as línguas mudam incessantemente, conforme as pessoas precisam falar sobre coisas novas ou transmitir novas atitudes.

(...) conceitos, e não palavras, estão primordialmente na mente das pessoas.

As pessoas não são programadas com imagens sem poder se defender; são capazes de avaliar e interpretar o que vêem, usando tudo o mais que conhecem, como a credibilidade e os motivos da fonte.

Se as imagens são a doença, argumenta-se, então a arte é a cura. Os artistas podem neutralizar o poder das imagens da mídia distorcendo-as ou reproduzindo-as em contextos estrambóticos (como as charges e caricaturas).

13. Não está em nós

[Lista de faculdades cognitivas proposta pelo autor:]



  • uma física intuitiva

  • uma versão intuitiva da biologia

  • uma engenharia intuitiva

  • uma psicologia intuitiva

  • um senso espacial

  • um senso numérico

  • um senso de probabilidade

  • uma economia intuitiva

  • uma lógica e um banco de dados mentais

  • a linguagem

As crianças não precisa ir à escola para aprender a andar, falar, reconhecer objetos ou lembrar as personalidades de seus amigos, muito embora essas tarefas sejam bem mais difíceis do que ler, somar ou lembrar datas históricas. Ela têm de ir à escola para aprender a linguagem escrita, a aritmética e a ciência, pois esses conjuntos de conhecimentos e habilidades foram inventados tão recentemente que não foi possível evoluir nenhuma aptidão para eles generalizada em nossa espécie.

Mesmo quando um único espermatozóide penetra, seus genes permanecem separados dos que existem no óvulo por um dia ou mais, e é preciso maus um dia aproximadamente para que o genoma recém-fundido controle a célula. Portanto, o “momento” da concepção é, de fato, um intervalo de 24 a 48 horas.

Senador Orrin Hatch: “Não consigo de jeito nenhum equiparar uma criança viva no útero, movendo os dedos e com o coração batendo, a um embrião num congelador.

A crença de que os corpos são dotados de alma não é apenas um produto de doutrina religiosa; ela está imersa na psicologia das pessoas, e tende a emergir toda vez que elas não digerem as descobertas da biologia. [isto porque sempre precisa haver uma explicação pois nada pode ficar sem explicação]

Se não há problema em abortar um feto de 24 semanas, então por que não um feto de 24 semanas e um dia, que dificilmente se pode distinguir daquele?

Os ativistas que concedem o direito à vida a qualquer ser dotado de sensibilidade têm de concluir que um comedor de hambúrguer é cúmplice de assassinato e que um exterminador de roedores é um perpetrador de assassinato em massa. Têm de tornar ilegais as pesquisas médicas que sacrificam alguns camundongos mas salvam 1 milhão de crianças de uma morte dolorosa.

[Por outro lado] Os macacos antropóides também apresentam, como nós, os prazeres superiores da curiosidade e do amor pelos familiares e nossas dores mais profundas de tédio, solidão e luto. Por que esses interesses deveriam ser respeitados para nossa espécie mas não para outras?

Como vimos, muitos conceitos comuns têm fronteiras vagas, e a mente distingue entre uma fronteira vaga e nenhuma fronteira. “Adulto” e “criança” são categorias vagas, sendo esse o motivo por que podemos elevar para 21 anos a idade para ingerir bebidas alcoólicas ou diminuir para dezoito a idade para votar.

Um relatório da União Européia em 2001 analisou 81 projetos de pesquisa conduzidos ao longo de quinze anos e não encontrou nenhum novo risco para a saúde humana ou para o meio ambiente representados por culturas geneticamente modificadas. (...) A ancestral silvestre da cenoura era uma cenoura branca, fina e amarga; o ancestral do milho era um sabugo de menos de 3 centímetros de comprimento facilmente debulhável com grãozinhos minúsculos e duros como pedra. As plantas são criaturas darwinianas que não têm nenhum desejo de ser comidas, e por isso não se esforçam para ser saborosas, saudáveis ou fáceis de cultivar e colher. Ao contrario: elas se esforçam para nos impedir de comê-las, desenvolvendo, pela evolução, substâncias irritantes, toxinas e compostos de gosto amargo. Portanto, não há nada de especialmente seguro nos alimentos naturais. O método “natural” de reprodução seletiva para resistência a pragas simplesmente aumenta a concentração dos venenos das próprias plantas; uma variedade de batata natural teve de ser retirada do mercado porque se revelou tóxica para as pessoas. (...) Quando o aroma “natural” de amêndoa, o benzaldeido, é derivado de caroços de pêssego, vem acompanhado de vestígios de cianureto; quando é sintetizado como “aromatizante artificial”, isso não acontece.

Povos tradicionais (...) julgam que objetos de aparência semelhante têm poderes semelhantes, e assim um chifre de rinoceronte moído é a acura para a disfunção erétil. (...) e comer ou usar uma parte de um animal feroz tornará a pessoa feroz. [E comer frutas ou verduras vermelhas acaba com a anemia; e....]

A mente está mais à vontade quando calcula probabilidades com base na freqüência relativa de eventos lembrados ou imaginados. Isso pode fazer com que eventos recentes e memoráveis – um acidente aéreo, um ataque de tubarão, uma infecção por antraz – ganhem muito mais vulto em nossa lista de preocupações do que eventos mais freqüentes e maçantes, como os acidentes de automóvel e as quedas de escadas que são noticiados ao pé da página B14 do jornal.

O antropólogo Alan Fiske analisou a literatura etnográfica e constatou que praticamente todas as transações humanas enquadram-se em quatro padrões, cada qual com uma psicologia distinta:



  1. partilha comunitária: grupos de pessoas, como por exemplo membros de uma família, compartilham coisas sem acompanhar quem fica com o quê.

  2. precedência da autoridade: pessoas dominantes confiscam o que querem das hierarquicamente inferiores.

  3. troca por equiparação:duas pessoas trocam bens ou favores em momentos diferentes, e os itens trocados são idênticos ou ao menos muito semelhantes ou facilmente comparáveis. (...) a equiparação é o único mecanismo de troca na maioria das sociedades de caçadores coletores.

  4. apreçamento de mercado

Quando as pessoas têm idéias diferentes sobre qual desses 4 modos de interagir se aplica a um relacionamento em curso, o resultado pode variar de total incompreensão a grande contrariedade ou até hostilidade declarada.

14. As muitas raízes do nosso sofrimento


As demandas do altruísmo recíproco podem explicar por que evoluíram as emoções sociais e moralistas. Solidariedade e confiança impelem as pessoas a oferecer o primeiro favor. Gratidão e lealdade impelem-nas a retribuir favores. Culpa e vergonha impedem-nas de prejudicar outras ou deixar de retribuir. Raiva e desprezo impelem-nas a evitar ou punir trapaceiros. (...) Parcerias, amizades, alianças e comunidades podem emergir, consolidadas por essas emoções e preocupações.

As pessoas não se importam com seus genes; importam-se com felicidade, amor, poder, respeito e outras paixões. Os cálculos de custo-beneficio são um modo metafórico de descrever a seleção de genes alternativos ao longo de milênios, e não uma descrição exata do que se passa em um cérebro humano em tempo real.

Vários experimentos mostraram que as pessoas são mais convencidas por um discurso político se o orador apelar para seus corações e mentes com metáforas de família.

Os sistemas polígonos (entre homens e mulheres) até recentemente caracterizaram a maioria das sociedades.

As pessoas podem fazer sexo na privacidade pela mesma razão pela qual em períodos de fome coletiva comem na privacidade: para evitar causar uma inveja perigosa.

A idéia fugaz de que a burqa até que não é uma idéia assim tão má já passou pela cabeça de muito pai de garota adolescente.

Trivers chegou à conclusão de que o altruísmo puro, orientado para o publico – um desejo de beneficiar o grupo ou a espécie às custas de si mesmo -, não tende a evoluir entre não-parentes, pois é vulnerável a invasões de trapaceiros que prosperam desfrutando as boas ações de outros sem dar sua própria contribuição. [Ai está a base para a roubalheira sempre presente em programas públicos que doam/dão alguma coisa.]

Fábula de Esopo: Quem porá o sino no gato?

Jornalista Matt Ridley: “A reciprocidade pende, como uma espada de Dâmocles, sobre a cabeça de cada ser humano. Ele só está me convidando para sua festa para que eu escreva uma resenha favorável sobre seu livro. Depois de tudo o que fiz por ele, como ele pôde fazer isso comigo? Obrigação, dívida, favor, barganha, contrato, troca, acordo. Nossa língua e nossa vida são permeadas por idéias de reciprocidade.

No século XIX e nas primeiras décadas do século XX, comunas auto-suficientes baseadas em uma filosofia de partilha comunitária pipocaram pelos Estados Unidos. Todas soçobraram devido a tensões internas; as baseadas em ideologia socialista depois de dois anos em média; as orientadas por ideologia religiosa depois de vinte anos em média. A idéias dos kibutzim israelenses, foi solapada pelo desejo dos participantes de viver com suas famílias, possuir suas próprias roupas e manter pequenos luxos ou quantias em dinheiro adquiridos fora do kibutz. E os kibutzim foram tolhidos pela ineficácia devido ao problema dos caronas – eram, nas palavras de um participante, “um paraíso para os parasitas”.

Sebastian Junger escreve em “A Tormenta”: Os capitães de barcos de pesca do peixe-espada ajudam uns aos outros em alto-mar sempre que podem; [...] Cada capitão sabe que ele pode ser o próximo com o injetor congelado ou vazamento na bomba.

(...) a menos que um grupo seja geneticamente fixo e hermeticamente selado, mutantes ou imigrantes infiltram-se nele constantemente.

[Aqui minha discordância] As pessoas freqüentemente têm atos de generosidade sem a menor esperança de retribuição, desde deixar uma gorjeta em um restaurante onde nunca mais irão, a atirar-se sobre uma granada para salvar seus irmãos de armas.

Os psicopatas não possuem nenhum vestígio de consciências [mas] a maioria das pessoas encontra-se em uma faixa intermediaria, apresentando misturas de reciprocidade, generosidade pura e ganância.

Talvez [NÃOOOOO, COM CERTEZA!!!!] todos nós sejamos capazes de ser santos ou pecadores, dependendo das tentações e ameaças à mão.
Seleção dependente de freqüência – na minha opinião, toda a evolução depende da freqüência.

Sem a possibilidade do sofrimento, o que teríamos não seria uma bem-aventurada harmonia, e sim nenhuma consciência.


15. O animal santarrão

Bertrand Russel, escreveu: “Infligir crueldade com a consciência em paz é um deleite para os moralistas – foi por isso que eles inventaram o inferno”.

Ponderemos sobre a seguinte história apresentada a muitas pessoas pelo psicólogo Jonathan Haidt e seus colegas:

Julia e Marcos são irmãos. Estão viajando juntos pela França durante as férias de verão na universidade. Certa noite, a sós em uma barraca perto da praia, decidem que seria interessante e divertido se tentassem fazer amor. No mínimo, seria uma nova experiência para cada um deles. Julia já estava tomando pílula anticoncepcional, mas Marcos ainda assim usa preservativo, só para garantir. Os dois sentem prazer naquele ato, mas decidem não repeti-lo. Mantêm aquela noite como um segredo especial, o que os faz sentir-se ainda mais próximos um do outro. Qual a sua opinião: foi correto eles fazerem amor?

Apesar de não haver vitima ou danos, a maioria declara prontamente que é errado e depois fica procurando, sem encontrar, uma razão para justificar o por quê. Haidt designa essa situação como “perplexidade moral”, e a evoca juntamente com outros cenários desagradáveis mas sem vitimas:


  • uma mulher está limpando o armário e encontra sua velha bandeira americana. Ela não quer mais aquela bandeira, por isso a rasga em pedaços e usa os retalhos para limpar o banheiro.

  • O cachorro de uma família é morto por um carro na frente da casa. A família ouviu dizer que carne de cachorro é deliciosa, por isso cortam o corpo do cão em pedaços e o comem cozido no jantar.

[em termos filosóficos] atos privados entre adultos ce comum acordo e que não prejudiquem outros seres sensíveis não são imorais.

Se uma única pessoa no mundo segurasse uma menina aterrorizada, esperneando e gritando, cortasse-lhe os genitais com uma lamina séptica e costurasse o corte deixando apenas um minúsculo orifício para a passagem de urina e fluxo menstrual, a única questão seria com que severidade essa pessoa teria de ser punida e se a pena de morte seria uma sanção suficientemente severa. Mas quando milhões de pessoas fazem isso, em vez de a atrocidade ser ampliada milhões de vezes ela subitamente se torna “cultura”, e assim, por mágica, torna-se menos horrível, ao invés de mais, e chega até mesmo a ser defendida por alguns “pensadores morais” ocidentais, incluindo feministas.

Quando alguém destitui uma pessoa de sua dignidade ridicularizando seu sofrimento, dando-lhe uma aparência humilhante ou forçando-a a viver na imundície, a compaixão das pessoas comuns pode evaporar, e facilmente elas a tratam como um animal ou um objeto.



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