Sutilezas do tratamento do Real no final do ensino lacaniano: a letra, o savoir-y-faire e l’âme à tiers



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Sutilezas do tratamento do Real no final do ensino lacaniano: a letra, o savoir-y-faire e l’âme à tiers

Andréa Máris Campos Guerra1


Introdução

Variações da mesma nota, eis como podemos compreender esse texto. O tratamento do Real no corpo teórico da psicanálise lacaniana é rico e avança com a topologia dos nós borromeanos. Lacan busca, ao final de seu ensino, mostrar com a “realidade operatória” (LACAN, 1974-75) da topologia borromeana o manejo clínico desse elemento definitivo na posição do falasser. Aqui, a cada variação, introduzimos uma diferença, uma novidade. Seguimos com rigor o raciocínio teórico-clínico de Lacan e, com ele, passeamos por diferentes paisagens, a saber: (1) a letra como escrita litoral do sujeito; (2) a introdução do Real pelo “y” no savoir-faire; (3) e, enfim, uma terceira dimensão, l’âme-à-tiers, que ele inclui na Linguagem aplainada do significante pela via da poesia. Foram estas as pistas que ousamos seguir, extraindo delas suas conseqüências mais radicais, implicadas no tratamento do impossível (Real) pelo contingente. Já que trabalhamos com seres falantes possuídores de um corpo de gozo afetado pela Linguagem, é preciso tomar em sua especificidade a experiência do humano para com ele fazermos nossa clínica operar. Saber-fazer-com isso é a arte!


A Letra e o Real: litoral, sulco, rasura

Ao tratar da escrita do sujeito ou daquilo que dele se pode escrever, Lacan forja o conceito de letra. Entre Real e Simbólico, a letra dá suporte ao que, da intangibilidade do gozo, pode ganhar traçado, litoral. Ela vivifica o gozo na escrita que singulariza a não-relação do sujeito. Da língua mãe (lalíngua) extrai o que orientará o texto do sujeito na repetição do contorno ao que não cessa de não se escrever, ou seja, ao impossível. Daí o sintoma, como resultado necessário, insistir em se escrever sobre essa marca, atualizando-a2.

Em Lituraterre (1971/1986), Lacan nos dá as indicações do que seria essa escrita. Logo de saída brinca com a etimologia do título que inventa para seu texto a ser publicado numa edição especial sobre Literatura e Psicanálise da revista Littérature. Desdobra os termos de sua invenção ao dizer que ele está antes em associação com o termo latino original Litura (em latim: risco, alteração, mancha e terra) que com Littera (referido à letra e à palavra Literatura). O que, nos parece, indica o estatuto que irá conferir à letra nesse texto.

Na década de 50, Lacan trazia em “A instância da letra” (1957b/1998, p. 498) que “designamos por letra esse suporte material que o discurso concreto toma emprestado da linguagem”, ressaltando sua materialidade em relação à Linguagem, ao significante. Na verdade, Lacan utiliza o termo lettre3 pela primeira vez em “O Seminário sobre ‘A carta roubada” (1957a/1998), associando-o à expressão “a letter, a litter”, uma carta/uma letra, um lixo. Desde já, a idéia de uma materialidade se apresenta ao lado da idéia do que faz circular o discurso. Trata-se, no conto de Edgard Allan Poe comentado por Lacan, de uma carta a ser recuperada pois colocava em risco a rainha. Ela, entretanto, é ‘disfarçada’ numa carta velha, dejeto, que os policiais investigadores pegam sem se darem conta de ser exatamente a que procuravam. Com isso, Lacan evidencia uma dimensão outra, para além da mensageira, que reside na carta. O destino da carta extrapola sua função de levar uma mensagem. Isso aparece no conto, pois é exatamente depois de cumprir seu destino que ela circula como objeto de mão em mão, como materialidade passível de ser largada, pegada, rasgada, alterada – lixo, litter (MANDIL, 2003, p. 28).

Lacan retoma o termo na década de 70 como litoral entre saber e gozo, posto que separa dois domínios que não têm nada em comum, nem uma relação recíproca. Não se trata de fazer fronteira entre dois, nos adverte ainda Lacan (1971/1986), pois a fronteira, ao separar dois territórios, indicaria que eles são da mesma natureza, posto que representável na linha demarcatória. A letra escreve a radicalidade da diferença de consistências entre saber, elucubração em torno da verdade, e gozo, desfrute do que essa verdade tem de inacessível.

A borda do furo no saber, que a psicanálise designa justamente como de abordagem da letra, não seria o que ela desenha?” (LACAN, 1971/1986, p. 23). A letra seria uma espécie de franja que avança entre as duas consistências de naturezas diversas, desenhando ou escrevendo essa borda tão pouco precisa no ser falante. Lacan é cuidadoso ao avançar e diz que tudo isso não impede o que ele disse do inconsciente enquanto efeito de Linguagem. A letra suporia sua estrutura como necessária e suficiente. A questão é, antes, como o inconsciente comandaria esta função de letra.

Pensar, pois, a relação entre letra e inconsciente nos conduz inevitavelmente a discutir a posição da letra em face do significante. E, quanto a esse aspecto, Lacan é enfático logo de saída. A letra não se confunde com o significante. “A escritura, a letra, estão no real, o significante, no simbólico” (LACAN, 1971/1986, p. 28). Além disso, não podemos atribuir uma primariedade da letra em relação ao significante. Ela simbolizaria efeitos de significantes, mas isso não exigiria que ela estivesse presente nesses mesmos efeitos, nos quais o significante não serve senão de instrumento. Seria mais importante o exame “disto que a partir da linguagem chama do litoral ao literal” (LACAN, 1971/1986, p. 23), disso que a letra, em síntese, escreve. E o que é esse literal senão a letra enquanto redução mínima do sujeito, enquanto sua escrita?

Ora, escrita não é impressão. E letra não é significante ou Wahrnehmungszeichen, Wz, traço inconsciente freudiano4, aqui considerado o que de mais próximo ao significante poderíamos encontrar em Freud. Voando sobre a Sibéria, Lacan observa sulcamentos na terra, e não o arbitrário do signo e do mapa, os códigos, as mensagens ou as fronteiras. Exigido um desvio de rota de seu avião, ele observa o que faz sulco na paisagem. “O escoar é o único traço que aparece a operar” (LACAN, 1971/1986, p. 26). Toda a elaboração de mapeamentos se faz como código sobre esses sulcos. A letra seria, então, um remate daquilo que, no seminário sobre “A identificação” (1961-62), Lacan distinguiu do traço primeiro e do que o apaga.

“Eu o disse a propósito do traço unário: é pelo apagamento do traço que se designa o sujeito. Ele é marcado, pois, em dois tempos; eis o que distingue aquilo que é rasura, litura, lituraterra. Rasura de nenhum traço que seja anterior, eis o que faz terra do litoral. Litura pura é o literal. Produzir essa rasura é reproduzir esta metade de que subsiste o sujeito. [...] Entre centro e ausência, entre saber e gozo, há rasura que vira literal” (LACAN, 1971/1986, p. 26-27).
Além da dimensão do sulco, Lacan também destaca a dimensão da rasura – rasura, porém, de nenhum traço que lhe seja anterior. A idéia de rasura nos reporta ao ato de reescrever, apagar para melhor escrever. Quando, entretanto, Lacan introduz a idéia de uma rasura sobre o que não está lá, estira ao limite do Real a noção de Linguagem. É da Linguagem da qual o significante apanha “seja o que for” na rede de significantes e disso faz escrita no exato momento em que esse elemento é promovido à função de referente essencial. Donde podemos entender por que a letra não é primária, mas antes conseqüência do advento significante, ao contrário do que se poderia supor. A letra se destaca no exato momento em que cai como literalidade que vivifica o falasser.

“É isso que modifica o estatuto dos sujeitos. É por aí que ele se apóia num céu constelado, e não apenas no traço unário, para sua identificação fundamental” (LACAN, 1971/1986, p. 31). O sulco aí produzido é receptáculo sempre pronto a acolher gozo. É rota lavrada, por onde, a partir de então, o gozo escorre e pode se alojar. Enquanto fora da cadeia significante, enquanto não reenvia à série significante e não produz significação, a letra se faz referente do sistema significante de uma maneira singular para cada ser vivente, escrevendo as vias de suas possibilidades de gozo. Na metáfora naturalista de Lacan, a chuva da Linguagem faz escrita de gozo, e o que permite ler os riachos está ligado a algo que vai além do efeito de chuva. O real, como dejeto, é aquilo que é expulso do campo do Simbólico, criando uma marca, um rastro, um sulco.

Eis o tripé que articula a noção de letra: litoral, sulco e rasura (MANDIL, 2003, p. 49). Não repetível, não generalizável, a letra é um conceito que permite a Lacan sofisticar a noção de Real e sua importância para a clínica enquanto ponto de articulação com o gozo. Fortalece a noção de que há uma língua particular para cada sujeito que fala, lalíngua afetada por uma significação pessoal a níveis inimagináveis. E orienta o método psicanalítico a buscar na singularidade dos sujeitos atendidos esses sulcos por eles lavrados.
Nuances da linguagem que fazem diferença: do savoir-faire ao savoir-y-faire

No “Seminário RSI”, Lacan (1974-75) nos evidencia que o Real é o efeito de amarração que mantém os registros atados de tal forma que rompendo-se um deles, os demais se desatam. É esse modo de amarração, denominado borromeano e que enlaça dois a dois os registros a partir de um terceiro, que Lacan, então, nomeia de Real.



Se o ponto de partida para um nó é um furo (neste caso, a não-relação sexual), já temos três, e não somente dois, elementos; e sendo três, seu efeito real de amarração já é um quarto. Em outras palavras, se dois a dois os registros se encontram livres no nó – basta observar a figura abaixo –, o fato de o terceiro fazer nó desses dois já é um efeito real, mais-um, sobre os elementos originários. O efeito real de amarração que se obtém seria, em si mesmo, um quarto elemento. É ele o Real. No seminário “O sinthoma”, Lacan (1975-76/2005) isolou esse efeito real: traçou-o na figura de maneira borromeana como quarto elemento a atar os três registros soltos e sobrepostos uns em relação aos outros. Evidenciou, assim, a função de amarração que este quarto elemento pode ter enquanto sinthoma. Observe a passagem realizada comparando as duas figuras abaixo.

Figura 01 – Nó borromeano de três elementos


Nesta figura, dois a dois os registros encontram-se sobrepostos e soltos, fazendo o terceiro a costura do nó. Já na figura 02, todos os três registros estão soltos e sobrepostos, havendo mais-um, o quarto elemento, a realizar a amarração. Ele é o efeito real de amarração da figura 01 isolado.

Figura 02 – Nó borromeano de quatro elementos com reforço no Simbólico (Σ) (LACAN, 1975-76/2005, p. 20)


Com a topologia borromeana, Lacan ensaia no final de seu ensino uma estética da clínica psicanalítica a partir do Real como vetor de orientação. O que isso quer dizer? Para concebermos essa dimensão do Real da clínica em jogo nesse período, vale a pena seguirmos um rastro, uma pista que Lacan nos oferece em uma de suas lições posteriores, a de 11 de Janeiro de 1977.

Nessa aula do Seminário XXIV, L’insu que sait de l’une bévue s’aile à mourre, ele brinca com o sentido e a homofonia – já desde o título do seminário –, evidenciando que o sentido desliza pela cadeia significante, mas também cifra gozo, já que o fonema por princípio não é lógico, mas se articula, fixando vias de prazer e de desprazer. Entretanto, resta sempre algo intocável, cifrado. Cada nova significação produzida por um sujeito deixa um traço de escrita, tanto quanto o que esse traço não alcança. Reduzido o gozo, sua parte viva continua pulsante, e o trajeto da satisfação se altera. Algo desse indizível, desse intocável ganha uma alteração real, ainda que não toquemos a coisa em si.

Esta seria uma novidade muito presente no final do ensino de Lacan que põe em questão o sentido e o saber, sobretudo a partir de uma dupla possibilidade de leitura sobre o inconsciente. Ora ele pode ser pensado como uma elucubração freudiana de saber, ora como real fora de sentido, apreendido pelo equívoco, pelo engano. Qualquer construção que se faça sobre esse tropeço, já seria uma tentativa de apreendê-lo, um semblante, já seria uma debilidade do mental. Nessa ótica, o inconsciente seria uma doença mental (LACAN, 1974-75). Ao mesmo tempo, seria o engano, o tropeço, aquilo que permitiria a produção no mental de sentidos diferentes, de novas configurações como forma de resposta ao mal-estar produzido por essa dificuldade. Daí ele priorizar o saber-fazer com isso (savoir-y-faire) mais que o saber.

A partir dos efeitos significantes, esse saber seria imposto ao homem, que não sabe muito bem o que fazer disso (“de cette affaire de savoir”). Ele não fica à vontade com ele. Ele não sabe fazer com (“faire avec”) o saber. É essa sua debilidade mental. Ele não sabe “y faire”, fazer com isso. Há uma nuance importante nessa passagem do “faire avec” para o “y faire”, resguardada pela introdução do “y” na língua francesa, que designa uma referência anteriormente identificada. “ ‘Savoir faire’ é diferente de ‘savoir y faire’. A introdução do ‘y’ quer dizer se desembaraçar, mas este ‘y faire’ indica que não pegamos verdadeiramente a coisa, em suma em conceito” (LACAN, 1976-77, lição 11/01/1977). Há algo que escapa. E é para tentar dar conta disso que escapa que o discurso vem em socorro. Tudo o que se diz a partir do inconsciente participa, portanto, do equívoco.


A poesia e o Real que escapa no ‘y

Para ilustrar essa dificuldade do pensamento, Lacan (1976-77) recorre a um estilo de linguagem escrita característico da Idade Média. Nele há pouca gramática e muita lógica. É um estilo que recorre a uma passagem da imagem à escrita, e também, sempre, ao equívoco e ao convite a que o leitor participe da construção do texto. Se ele é lido correntemente, pode não produzir sentido. Ao mesmo tempo em que do texto pode se destacar um novo e outro sentido, se lido pelas entrelinhas ou pelo que não faz linha. Trata-se, enfim, do texto “Les Bigarrures de Seigneur des Accords”, de Étienne Tabourot5, cuja versão francesa de um verso apresentamos. Destacamos com cores as colunas que podem ser lidas verticalmente também, além da leitura horizontal sequencial tradicional, de sorte que a falta de sentido e o sentido que escapa podem ser revelados e apreendidos.


« Autrefois j’ai fait ces suivants en faveur d’une de mes idoles parlantes :

Ta beauté, ta vertu, ton esprit, ton maintien

Éblouit, et défait, assoupit et renflamme

Par ses rais, par penser, par crainte, pour un rien

Mes deux yeux, mon amour, mes desseins, et mon âme. »

A questão que Lacan evoca, a partir desse texto, é a de como conseguir apreender esse tipo de delicadeza que, em última instância, é um uso do inconsciente. E mais, como precisar a maneira pela qual, nessa delicadeza, se especifica o inconsciente que é sempre individual. Se a estrutura da Linguagem é a mesma para todos, o uso de lalíngua é sempre único para cada sujeito. A articulação que o inconsciente estabelece como forma de gozo é sempre singular à maneira como o sujeito se articula na língua mãe.

O exemplo de fetichismo apresentado no artigo freudiano de mesmo título é ilustrativo da dimensão clínica desse uso. Ao discutir as circunstâncias acidentais que contribuem para a escolha de um objeto fetiche, Freud (1927/1976) trata da arbitrariedade do significante de um lado, mas revela, de outro, a dimensão de gozo presente em lalíngua e capturada como letra em seus efeitos sobre a linguagem e sobre o corpo.

Trata-se de um jovem para quem a pré-condição fetichista residia num certo tipo de ‘brilho no nariz’. A surpresa de sua explicação reside no fato de que o paciente recorrera a sua língua mãe, o inglês, para constituir o sintoma e a forma de gozo que lhe era correlata, enquanto correntemente utilizava a língua alemã do país onde passara a viver depois de sua primeira infância. “O ‘brilho do nariz’ [em alemão, ‘Glanz auf der Nase’] era na realidade um vislumbre (glance) do nariz” (FREUD, 1927/1976, p. 179), que somente o jovem experimentava como forma de satisfação sexual. A Linguagem carece, assim, de uma terceira dimensão, já que é por estrutura aplainada em duas. Essa terceira ordem, por seu turno, modifica as outras duas, produzindo um efeito real como novo elemento.


L’âme-à-tiers: a terceira dimensão da Linguagem

Essa reflexão inspirou Lacan a querer identificar o Real a esse terceiro elemento articulado à matéria de uma maneira muito singular, através do “l’âme-à-tiers” (o espírito à terceira). Interessante aqui ressaltar ao menos dois aspectos. Primeiramente, ao tratar da matéria do Real, Lacan a nomeia alma, espírito, mente – que em francês encontram em “âme” a mesma significação. Já de saída, portanto, a matéria do Real é inconsistente nela mesma.

Mas há um segundo aspecto que articula o Real e a Linguagem – e esse é o ponto central que, entendemos, levou Lacan a teorizar os nós para explicar o Real na clínica psicanalítica. Não há na Linguagem uma relação binária, do tipo “X (relação) Y”. Para Peirce, é preciso uma lógica ternária, signo, objeto e interpretante no estabelecimento e na utilização do signo linguístico. A exigência desse terceiro autoriza Lacan a falar em “tiers”, em terceiro termo, mesmo em se tratando de uma referência à Linguagem. Trata-se de um terceiro termo determinante, diferenciado em relação aos outros dois, signo e objeto, posto que ex-sistente a eles.

Se não há três dimensões na Linguagem, portanto, isso não quer dizer que dois elementos lhe sejam suficientes. É preciso uma engrenagem, um terceiro elemento lógico, para que ela funcione como tal. Esse terceiro elemento está lá, sem contar, mas sendo contado, considerado, e mais, sendo essencial na estrutura do funcionamento da própria Linguagem. Ele é o que introduz a diferença e, com ela, a singularidade no uso da Linguagem, a determinação aonde residiria a arbitrariedade. Estaria essa terceira dimensão na torção que a banda de Moebius introduz na geometria euclidiana, forjando uma nova topologia?

Para Lacan, no inconsciente, trata-se sempre do significante. Em suma, trata-se do fato de que falamos, ainda que, como falasser, falemos completamente sós. Em outras palavras, o isso dialoga, e foi isso que Lacan designou pelo nome de Grande Outro. Trata-se do fato de que há qualquer coisa de outra, o que ele denominou de “l’âme-à-tiers”, que não é somente o Real, mas qualquer coisa com a qual, expressamente, não temos relação. Trata-se do (S de A), o que quer dizer que isso não responde. É bem por isso que o eu (moi) pode se pôr a falar e mesmo a delirar. Daí nossas soluções se colocarem entre a loucura e a debilidade. É, pois, para tratar dessa materialidade intangível que os nós borroemanos se colocam e nos colocam a trabalho na psicanálise.

“Nós não cremos no objeto, mas nós constatamos o desejo, e desta constatação do desejo nós induzimos a causa como objetivada. O desejo de conhecer encontra obstáculos. É por encarnar este obstáculo que eu inventei o nó. E quanto ao nó é preciso ter desembaraço [se rompre]. Eu quero dizer que é o nó sozinho que é o suporte concebível de uma relação entre o que quer que seja e o que quer que seja. Se, de um lado, ele é abstrato, o nó deve, entretanto, ser pensado e concebido como concreto” (LACAN, 1975-76/2005, p. 36-37).



Para finalizar

Do lado do analista, portanto, saber-fazer com o Real implica na arte de tratar o impossível. Suportar o que não faz relação como ponto central para encontrar, caso a caso, a melhor maneira de fazer uso do sintoma, sempre singular ao modo de gozo de cada falasser. Como nos lembra habilmente a escritora-analista de si: “Não pense que pessoa tem tanta força assim a ponto de levar qualquer espécie de vida e continuar a mesma. Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso - nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro” (LISPECTOR, 1977, p. 17).



Referências Bibliográficas:

FREUD, S. (1976) “Carta 52 (1896)”, in Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. 3ª ed. Rio de Janeiro, Imago, V. I, p. 324-331.

FREUD, S. (1976) “O fetichismo (1927)”, in Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. 3ª ed. Rio de Janeiro, Imago, V. XXI, p. 179-188.

LACAN, Jacques. (1957a/1998) “O seminário sobre “A carta roubada”, in Escritos, Rio de Janeiro, Jorge Zahar, p. 13-66.

_____. (1957b/1998) “A instância da letra no inconsciente ou a razão desde Freud”, in Escritos, Rio de Janeiro, Jorge Zahar, p. 496-533.

_____. (1961-62) Le séminaire, livre IX: L’identification. Inédito.

_____. (1971/1987) “Lituraterre”, in Ornicar?Revue du Champ freudien, n° 41, Paris, ECF, avril-juin, p. 5-13.

_____. (1971/1986) “Lituraterra”, in Che vuoi? Psicanálise e Cultura, nº. 1, Porto Alegre, Cooperativa Cultural Jacques Lacan, ano 1, inverno, p. 17-32.

_____. (1971/2003) “Lituraterra”, in Outros escritos. Rio de Janeiro, Jorge Zahar, p. 15-25.

_____. (1974-75) Livre XXII, RSI. Disponível em .

_____. (1974-75/1975-76) Livre XXII, RSI, in Ornicar?, nº. 02-05, Paris, ECF.

_____. (1975-76/2005) Livre XXIII, Le sinthome. Texte établi par Jacques-Alain Miller. Paris, Seuil.

_____. (1976-77). Livre XXIV, L’insu qui sait de l'une bévue s'aile a mourre. Inédito.

LIMA, C. R. (1994) “Uma “brecha” no fantasma: o traço de perversão”, in Opção Lacaniana, nº 11, São Paulo, Eolia, p. 55-59.

LISPECTOR, C. (1977) A paixão segundo G.H. 5ª ed. Rio de Janeiro, José Olympio.

MANDIL, R. (2003) Os efeitos da letra: Lacan leitor de Joyce. Rio de Janeiro, Contra Capa; Belo Horizonte, UFMG.



1 Doutora em Teoria Psicanalítica (UFRJ), com Estudos Aprofundados em Rennes II, Professora do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da PUC Minas, psicanalista. Email: aguerra@uai.com.br.

2 Lacan aqui recorre à lógica aristotélica (possível, impossível, contingente e necessário) para trabalhar o sintoma e a contingência de sua solução diante do impossível de se escrever.

3 Lettre ganha na língua francesa um jogo homofônico permitindo ser interpretada seja como carta, seja como letra. E Lacan ainda lhe acrescenta a homofonia com litter, estendendo seu sentido a lixo, dejeto, resíduo.

4 Os Wz (Wahrnehmungszeichen) são os traços mnêmicos que se associam por simultaneidade e indicam uma primeira forma de registro. Unbewusstsein (Ub) é o segundo registro que sucede ao primeiro, referente às percepções que se associam por simultaneidade. Os traços de Ubtalvez correspondam a lembranças conceituais” (FREUD, 1896/1976, p. 325) ainda inconscientes. Correspondem ao que Freud posteriormente irá estabelecer como Vorstellungsrepräsentanz (representante da representação). Segundo LIMA (1994), a questão do traço em Freud se apresenta a partir de três possibilidades diferentes de tradução. Zeichen corresponde à idéia de insígnia, indicação, e está ligada à percepção, a Vorstellung. Zug corresponde ao traço unário, primário, e sua conseqüência é a Bejahung primordial. E, por fim, ligado à memória e à permanência teríamos a Spur, que aparece como Ub.


5 Étienne Tabourot, Les Bigarrures du Seigneur des Accords, Paris, Jean Richer, 1583, chapitre XIII, «Des vers rapportés », ff.130 à 134. [Gallica, N0070346_PDF_282_290]). Outros versos no livro original podem ser visualizados através do site da Bibliothèque Nationale de France (BNF) no seguinte endereço eletrônico: < http://gallica.bnf.fr/ark:/12148/bpt6k70346j>. Podemos identificar «um tipo de cruzamento simétrico e gramatical», «frases de construção gramatical aparentemente desarticuladas e recompostas», uma «invenção astuciosa» que «remontaria talvez ao fim da Antiguidade grega», um «procedimento» que «da Idade Média latina [...] ganham as poesias francesa, espanhola, inglesa e alemã dos séculos XVI e XVII», segundo Ernst Robert Curtius em La Littérature européenne et le Moyen Âge latin, também disponível via acesso eletrônico no seguinte endereço: <http://perso.orange.fr/preambule/formes/ formerapp/formrapp.html>.




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