Susan ronald o diamante



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SUSAN RONALD
O DIAMANTE MALDITO
Tradução de ALEXANDRE MARTINS
EDITORA RECORD

2006


À memória de meu pai, 'Appah", que ensinou os diamantes a brilhar


Sumário
Prefácio

Agradecimentos

  1. Golconda

  2. Valentina e os duques

  3. A vingança de Valentina

  4. Os últimos grandes duques da Borgonha

  5. Dando vantagem aos ladrões

  6. O diamante desaparece

  7. Os reis e as casas comerciais

  8. A cobiçada pedra de toque do poder

  9. No coração da luta pelo poder

  10. O peão no xadrez dos gigantes

  11. Três homens determinados de caráter duvidoso

  12. O homem que "transpirava mentiras por todos os poros"

  13. A maldição da ambição cega

  14. Inalienável em mãos indignas de confiança

  15. Cortejando a infanta espanhola

  16. Na coroa de Henriqueta Maria, rainha francesa da Inglaterra

17. Resgatado e amaldiçoado como símbolo máximo de poder

18. A rainha exilada e o cardeal ladrão

19. Mazarin: corrompido pelo poder absoluto

20. Uma mera bagatela na coroa do Rei Sol

21. Apenas outro símbolo no coração do poder

22. O diamante odiado

23. Escorregando das mãos hábeis de ladrões

24. O legado Bonaparte

25. A Espanha e Sua Mais Católica Majestade José

26. Nas mãos dos Demidoff

27. Uma jóia de curiosidade histórica

28. Os últimos donos particulares: a nova "realeza"

29. Epílogo ou epitáfio?


Prefácio
O diamante Sancy, embora pouco conhecido fora dos círculos especializados, tem uma das mais fascinantes histórias que se pode imaginar. O fascínio não vem de seu tamanho — meros 55.232 quilates pelos padrões modernos — mas de quem o possuiu, quem o ambicionou, e de como ele ajudou a mudar o curso da história da Europa. Desde o final do século XIV até 1661, ele foi o maior diamante branco da cristandade, sempre provendo seu proprietário com a forma de riqueza mais segura e concentrada.

Ele nem sempre foi chamado "Sancy", e, embora eu cite seus outros nomes quando apropriado, eu o chamo de Sancy ao longo de todo este livro. Acredita-se que o nome "Sancy" venha de seu proprietário original, Nicolas Harlay de Sancy (na época grafado "Sauncy"), embora até mesmo esse pe­queno fato seja objeto de algum mistério. Alguns especialistas dizem que o diamante era chamado sans-si — diminutivo de sans similitude (sem igual). Outros ainda alegam que o diamante era chamado cent six — que significa 106 e se pronuncia "sancy" — em função de seu peso original em quilates. Só o que se pode dizer com certeza em relação ao nome é que sua origem desapareceu nas brumas do tempo.

Sendo uma pedra praticamente perfeita e a maior do seu tipo, o Sancy de fato era um prêmio especial. Tendo originalmente pertencido a Valentina Visconti, filha do duque de Milão e duquesa de Orleans, o Sancy passou para seu inimigo mortal João Sem Medo, que o engastou em um diadema cha­mado La Belle Fleur de Lys, ou A Bela Flor-de-lis. O grande diamante ogival lapidado descrito em diversos documentos como sendo "maior que uma pepita de carvão" foi engastado cercado por quatro grandes pérolas. No meio da pétala central, acima do diamante, havia um longo rubi-balache (um espinélio de cor rosa-pálido, vermelho ou laranja) chamado La Balais de Flandres, reputadamente o maior da França. As pétalas externas do diadema eram decoradas com outros oito grandes rubis-balache, oito safiras, cinco esmeraldas e 38 pérolas grandes. O conjunto pesava 2 marcos, 7 onças e 2 grãos — ou impressionantes 23,2 onças, 646 gramas.

Mas, apesar do fato de que o Sancy aparece em pelo menos seis inventá­rios oficiais a partir de 1389, começando com o dote de Valentina Visconti, os historiadores não conseguiram identificar a origem do diamante. Eu aqui tento registrar a primeira história real do Sancy da forma mais escrupulosa possível. Em minhas pesquisas, sempre utilizei pelo menos duas, e freqüentemente quatro, fontes diferentes para sustentar as conclusões que esbocei em relação ao passado do Sancy. Sempre que possível baseei minha pesquisa em descrições de testemunhas oculares registradas em documen­tos oficiais que também incluem o peso do Sancy ou, alternativamente, da jóia em que ele tinha sido colocado.

Quando o Sancy desapareceu da história—primeiramente por um perío­do de aproximadamente 120 anos após ter sido perdido em batalha pelo úl­timo grande duque da Borgonha, e depois uma segunda vez durante a era napoleônica — eu me perguntei quem poderia ser o "ladrão" mais provável da pedra, em função de quem acabou ficando com o diamante a seguir, e então fiz a suposição mais lógica. Também abordei a história do Sancy de trás para a frente, utilizando sua origem como registrada pelo Louvre, de cujo acervo ele hoje faz parte.

Em relação ao primeiro período do mais longo desaparecimento do Sancy, há documentos disponíveis que confirmam minha premissa, enquanto no caso do segundo período, quando acredito que José Bonaparte tenha tomado o dia­mante, tenho boas provas em passagens históricas, mas nenhum único docu­mento que afirme "aqui está". O Louvre não fez nenhuma tentativa de explicar os dois desaparecimentos, nem realizou qualquer pesquisa sobre esses períodos.

Minha técnica de pesquisa lança, pela primeira vez, uma luz sobre os perío­dos mais enigmáticos da vida cheia de altos e baixos do Sancy. Espero ter esclarecido muito de sua história, que foi repleta de vendas e barganhas ilícitas, completas mentiras, boatos não consubstanciados e pesquisa incompleta.

Converti importantes transações financeiras para valores de hoje com a assistência especializada do Centro de Informações do Banco da Inglaterra, comparada com minha própria pesquisa sobre os comerciantes que negocia­vam em nível internacional na época das vendas. Como todos sabemos, as taxas de câmbio flutuam constantemente; logo, estas foram baseadas no Retail Price Index (RPI), índice de preços no varejo. A taxa de conversão de dólar para libras foi estabelecida com base na média dos 12 meses anteriores (na época em que o livro estava sendo escrito) de 1,60 dólar para 1 libra, e as conversões resultantes foram arredondadas.

O quilate, forma pela qual as pedras preciosas são pesadas, tem ele mes­mo uma história interessante. Como sucessor de uma série de pesos exóti­cos para pedras preciosas, tais como ratis, mangelin, tandulas, sarsapas, masas e surkhs, o quilate passou por uma evolução do velho quilate para o quilate métrico no início do século XX. Os pesos no antigo quilate podiam variar de 188,5 miligramas na Itália para 206,1 miligramas na Áustria, e foi apenas em 1907 que os franceses decidiram racionalizar o peso das gemas introduzindo o quilate métrico, que é exatamente um quinto de um grama (0,2 grama). Em 1914 o quilate métrico foi adotado mundialmente, e por essa razão mui­tos autores confundiram os pesos das pedras.

O Sancy normalmente era vendido quando seu proprietário opulento precisava levantar caixa rapidamente, e essas vendas — legítimas ou não — só podem ser compreendidas em seu adequado contexto histórico. Este con­texto não diz respeito à história de governos impessoais, datas e estatutos, mas à relação entre os próprios atores e donos do poder. O interessante é o que o rei de Portugal fez a Jacob Fugger — e a reação de Jacob —, não o fato de que Jacob conseguiu da coroa portuguesa, em 1504, um contrato exclusi­vo para comércio de pimenta. Na história, como na vida, o contexto é tudo.

Hoje, praticamente todas as nações têm uma história de banhos de san­gue, conquista e massacres que todos deploramos. Esta história precisa ser lembrada pelo que ela é, não diluída pelo tempo, eufemismos ou correção política. Muitos dos proprietários ou usurpadores do Sancy eram — embora personagens pitorescos — pessoas cruéis e poderosas, que usavam e abusa­vam da lei em nome de seus próprios objetivos gananciosos. Espero que vocês concordem que retratei os proprietários de forma justa e verdadeira utili­zando fontes originais, suas próprias palavras e relatos de testemunhas.

Como o Sancy cruzou fronteiras diversas vezes, foi extremamente im­portante para mim pesquisar pessoalmente suas viagens através dessas fron­teiras, pois apenas estudando fontes primárias do maior número possível de países foi criado um quadro completo e romance e ficção foram separados dos fatos. A história do Sancy é fundamentalmente de poder e cobiça. Para contar pela primeira vez sua história na íntegra, segui a pista do diamante e conduzi pesquisas na Bélgica, Holanda, França, Itália, Alemanha, Espanha, Portugal e Inglaterra.

Acima de tudo, eu me diverti imensamente pesquisando e escrevendo esta história, que algumas vezes parecia mais um trabalho de ficção policial do que a história real de um dos dez diamantes mais famosos do mundo, e posso apenas desejar que vocês se divirtam lendo.
Agradecimentos
Escrever um livro é algo freqüentemente descrito como uma arte solitária. Embora o ato de escrever seja realizado em solidão, só se chega a esse estágio com um grande número de colaboradores. Este livro nunca teria, sido escrito sem meu agente, Alex Hoyt, e minha editora, Hana Lane, que acreditaram em mim e compreenderam imediatamente que a história do Sancy era incrí­vel. Aos dois, o meu obrigado mais sincero por me darem a oportunidade fabulosa de tecer a história do Sancy.

A pesquisa para o livro foi tanto trabalho de detetive quanto pura pesqui­sa — distinguindo fato de romance e tentando compreender cientificamente e com base em provas o caminho mais provável que o Sancy seguiu em suas viagens desconhecidas ao longo de centenas de anos. Foi necessária uma miríade de disciplinas para compilar essa história, e eu tive muita sorte de conseguir acesso a especialistas em diamantes e arquivistas especializados nessa tarefa. Sem o falecido Willy Goldberg, ex-presidente do Diamond Club de Nova York, eu poderia nunca ter conseguido livre acesso ao lendário Gabi Tolkowsky, cuja análise do Sancy foi verdadeiramente mágica e cativante, fazendo-me perceber que a lapidação de diamantes é uma das mais antigas artes e que os próprios diamantes são uma forma de arte holística. Ele tam­bém me forneceu um texto italiano sobre a história dos comerciantes e lapidadores venezianos de diamantes, bem como a tese de seu tio Mareei Tolkowsky sobre a lapidação de diamantes, que pavimentou o caminho para todos os cálculos matemáticos necessários para a lapidação em 57 ou 58 facetas criada por ele. Gabi, por sua vez, abriu para mim todas as portas possíveis na de Beers, junto a outros historiadores de diamantes em Antuérpia e na Garrard & Co, em Londres. Sem Gabi, muitos dos mistérios acerca do Sancy pode­riam ter permanecido sem solução, e eu devo muito a Gabi e sua esposa, Lydia, por seu apoio, sua gentileza e sua hospitalidade.

Por intermédio de Gabi, conheci Sabine Denissen, do Diamond Museum de Antuérpia, e um ex-lapidador e historiador de diamantes, Hans Wins, ambos colaboradores entusiasmados. Hans me apresentou a Ludo van Damme, da biblioteca municipal de Bruges, cuja determinação me levou aos documentos sobre Carlos, o Temerário, nos Archives Départementales du Nord, em Lille. A Hervé Passot, dos Archives, meu mais sincero obrigado. Também foram muito úteis na Bélgica o Staatsarchief Antwerp e a biblioteca real de Bruxelas, que abriga a biblioteca da Borgonha.

Na Holanda eu preciso agradecer a Kees Zandvliet, do Rijksmuseum, por me ajudar a localizar o dr. Guido Jansen e Bram Meij, do Boijmans Museum de Roterdã; sua interpretação do famoso Cletscher Sketchbookfoi esclarecedora. O dr. Woelderink, da biblioteca real do Paleis Noordeinde Den Haag, também me deu muito apoio, bem como a equipe do arquivo iconográfico de Haia, e o sr. Van Doorn, do Hague Staatsarchief

Em seguida, meu trabalho de detetive me levou à Suíça, onde Gabriele Keck, do Berner Historisches Museum, abriu-me os olhos para o Burgundebeute. Isso me colocou na pista de documentos no Bern Staatsarchiv, no Basle Staatsarchiv e no Basel Historisches Museum, onde o dr. Berke Meier foi muito prestativo em relação ao Butim Borgonhês que foi guarda­do naquela cidade. O sr. Silvio Margadant, do Staatsarchiv, em Graubuenden in Chur, trabalhou incansavelmente comigo, ajudando-me a esclarecer um mistério posterior nas viagens do Sancy.

Na França, Marine Chauney-Bouillot, bibliotecária dos Fonds Bourgogne na biblioteca municipal de Dijon, foi um sopro de ar fresco e ficou clara­mente encantada por estar hoje a história do Sancy sendo pesquisada na ín­tegra. Ela gentilmente me ajudou no Musée de Beaux-Arts de Dijon, bem como nos Archives Régionales de Bourgogne. Outras instituições e pessoas na França merecedoras de minha gratidão são os Archives Départementales du Nord, a Bibliothèque National e (especialmente Hossein Tengour), os Archives Nationales, a Fundação Napoleão e especialmente Peter Hicks, por vasculhar minuciosamente a biblioteca comigo; e, claro, o Département d'objets d'art do Louvre.

Na Alemanha, a sra. Weiss, do Fugger Privatbank de Augsburg, ajudou-me a entrar em contato com as pessoas certas nos Arquivos Dillingen e no Staatsarchiv de Munique para ampliar a pesquisa.

Na Itália, os arquivos municipais de Mântua e Roma foram úteis forne­cendo informações sobre o Sancy que não estavam ali, como tinha sido su­posto por outros autores. Os arquivos florentinos continham um relatório fascinante sobre os Demidoff e o sentimento político italiano em relação aos estrangeiros na época do Risorgimento, ou Unificação Italiana.

O dr. Miguel, dos Arquivos Nacionais da Torre do Tombo, em Lisboa, foi absolutamente inestimável, não apenas localizando o inventário que in­clui o Sancy, mas também obrigando um de seus colegas a traduzir para o inglês o português antigo, dessa forma reduzindo de semanas para dias mi­nha pesquisa em Lisboa. Ele também me ajudou pacientemente a traduzir outros documentos portugueses que tive dificuldade para ler ou entender, e me encaminhou à diretora do Palácio da Ajuda, em Lisboa, a dra. Isabel Jiordano, que por sua vez envolveu o dr. Ruy Galopim em minha busca pela verdade sobre a estadia do Sancy em Portugal.

Matilde Glaston, do Instituto Cervantes de Londres, me forneceu no­mes, arquivos e bibliotecas de toda a Espanha. Cristina Emperador, sub-diretora de Los Archivos Generales de Simanca, em Valladolid, passou por tremendas dificuldades para me ajudar, e conseguiu o apoio de Juan José Alonso, subdiretor dos arquivos do Palácio Real de Madri. Para Amélia Aranda, curadora do patrimônio nacional no Palácio Real, meu agradecimento muito especial. Sem a ajuda de Amélia e seu especial conhecimento da cole­ção de jóias da coroa espanhola, eu poderia continuar folheando fontes pri­márias pelos próximos vinte anos.

Tempo, recursos e geopolítica me impediram de ir à Índia para descobrir pessoalmente tudo sobre as minas de Golconda ou sobre a importância do Segundo Baronete Sir Jamsetjee Jejeebhoy, e também ao Instituto Demidoff, em Iekaterinburgo, Rússia, mas as informações disponíveis tanto na Bodleian Library de Oxford quanto na Oriental and India Reading Room da British Library foram extremamente esclarecedoras. Um obrigado especial também a Jane Rosen, então na SRCSS, que entrou em contato com o Instituto Demidoff e o museu de Iekaterinburgo em meu benefício.

Na Inglaterra, tive a felicidade de obter constante acesso a uma das me­lhores bibliotecas do mundo na British Library; a toda a sua equipe, em par­ticular Pat Kuomi, meu sincero reconhecimento por seu profissionalismo, assistência e bom humor. Ao meu velho amigo John Barnes, do Historie Royal Palaces, obrigada por me colocar em contato com a encantadora e culta Anna Keay, agora na English Heritage, e curadora das jóias da coroa na Torre de Londres. Leslie Coldham, Tim Strofton e Chris Alderman, da de Beers, tam­bém merecem minha gratidão por me concederem acesso ao material de consulta especial da empresa em sua biblioteca, suportarem minha intermi­nável torrente de perguntas com tanta paciência e fornecerem fotografias. Corinna Pike, curadora dos arquivos da Garrard & Co, também tem meu agradecimento por esclarecer o envolvimento histórico da empresa na venda do Sancy em 1865. Também agradeço a Mike Bott, da Biblioteca e Arquivos da Universidade de Reading, por me conceder acesso aos Documentos Astor. Tenho uma grande dívida para com o Centro de Informações do Banco da Inglaterra, e particularmente para com Chris Thomas, por me fornecer a avalanche de taxas de câmbio e índices de inflação que me permitiu conver­ter importantes transações monetárias, da melhor forma possível, para valo­res atuais. Outras instituições na Inglaterra que merecem minha gratidão são o Public Records Office, o Victoria and Albert Museum e a National Portrait Gallery.

Entre os que me ajudaram pessoalmente estão Sue Pfunder, por suas fa­bulosas e perspicazes traduções do espanhol em minha mesa de jantar em meio a inúmeras xícaras de chá; Ika Hibbert, por suas meticulosas traduções para o alemão do antigo alemão-suíço e por encaminhar o Burgundgebeute aos peritos de Oxford inumeráveis vezes; Dominique van Setten, por suas tra­duções do antigo holandês e do flamengo; e Tim Head por sua ajuda com "dinheiro antigo" e por, juntamente com seu irmão Giles Head, cuidar de minha casa e meus cães durante minhas viagens. Sem o apoio profissional de Peter Morris, Agostino von Hassel, dr. John Uden, dra. Sally Edmonds e professor Andrew Carr, este livro não teria sido possível. Rosie Rowland tem meu obrigado mais profundo por seu infinito apoio e por me ajudar a man­ter meu corpo e minha mente unidos. Aos meus grandes, amigos Pam e John Head, meu agradecimento eterno por lerem as provas do original. A minha mãe e meu pai, que me deram um curso concentrado sobre diamantes, co­mércio de diamantes e histórias infindáveis sobre o "mundo do diamante", e a meus filhos Matt, Zandy e Andrew, por seu apoio e ajuda especiais, só pos­so dar meu amor.

Finalmente, e o mais importante, a meu marido, Douglas Ronald, sem cuja paciência, lealdade, fé em mim como escritora e historiadora, inteligên­cia, senso de humor, traduções do italiano, pesquisa, intelecto, habilidade ao volante e boa vontade de fornecer constantemente as melhores xícaras de chá e o melhor macarrão do mundo, nada disso teria sido remotamente possível. Você me fez sentir verdadeiramente abençoada.



1

Golconda
A história do diamante sancy e, de fato, a história do poder e da cobiça por trás de todos os grandes diamantes, começa nas famosas minas de Golconda, na Índia. Essas histórias estão mergulhadas no folclore místico e na superstição que são a pedra fundamental da história espiritual, econômi­ca, política e social das gemas. Os primeiros rumores sobre Golconda e seus enormes diamantes foram levados rumo oeste para a Europa por intermédio das histórias do impressionado viajante veneziano Marco Polo, após sua vi­sita a vários reinos indianos em 1292. Ele escreveu na época em seu As via­gens de Marco Polo:
Assim, percorrerei os países da Índia onde eu, Marco Polo, permaneci por longo tempo; e embora as coisas que irei declarar pareçam não ser acredita­das por aqueles que as ouvem, tenham como certeza e verdade, pois eu vi com meus próprios olhos. (...) Nas montanhas deste país são encontrados Adamantinos [diamantes]. E depois de muita chuva, os homens vão procurar por eles nas águas que correm das montanhas, e assim de fato encontram os Adamantinos, que são trazidos das montanhas no verão, quando os dias são longos. Também há serpentes fortes e grandes, muito venenosas, parecendo que elas foram colocadas lá para cuidar dos Adamantinos, para que eles não sejam levados embora, e em nenhuma outra parte do mundo são encontra­dos belos Adamantinos, a não ser lá. (...) Nenhum país a não ser este produz diamantes. Aqueles que são trazidos para nossa parte do mundo são apenas o refugo das melhores e maiores pedras. Pois a nata dos diamantes e de outras grandes gemas, bem como as maiores pérolas, são todas levadas para o Gran­de Khan e outros reis e príncipes daquelas regiões [o subcontinente indiano]. De fato eles possuem todos os tesouros do mundo.
No século XVI, quando os portugueses superaram os venezianos no co­mércio com a índia em virtude da nova rota marítima aberta por Vasco da Gama, dois mercadores portugueses, Fernão Nunes e Domingos Paes, rei­teraram a alegação de Marco Polo quando, ao voltar, relataram que todos os diamantes pesando de dez a 15 quilates, ou mais, eram destinados ao tesouro do Grão Mogol. Eles também destacaram que o governante local cobrava uma taxa sobre todo o comércio de diamantes — desde licenças de mineração até vendas particulares entre mercadores. Um século mais tarde, o grande co­merciante francês de diamantes e aventureiro Jean-Baptiste Tavernier afir­mou: "O comércio é livre e fielmente realizado lá. Dois por cento de todas as compras são pagos ao rei, que também cobra taxas dos comerciantes por suas licenças de mineração."

Dois séculos mais tarde, as observações originais de Marco Polo foram mais uma vez confirmadas por outro italiano, Niccolo de Conti, que relatou como todos os distritos das montanhas estavam infestados de cobras e dia­mantes. De Conti escreveu: "Em certas épocas do ano os homens trazem bois e os dirigem para o alto da montanha, e, após cortá-los em pedaços, jo­gam os nacos quentes e sangrentos no cume de outra montanha. Os diamantes aderem a esses pedaços. Então chegam os urubus e as águias que, tomando a carne para sua alimentação, voam com ela para locais onde estão a salvo das serpentes. Depois, os homens vão a esses locais e recolhem os diamantes."

Mas esses não são os primeiros relatos escritos acerca de diamantes. Na época em que Alexandre, o Grande (356-323 a.C.), conquistou a Ásia, os gre­gos escreveram sobre uma lenda do Vale dos Diamantes que guardava uma fortuna em diamantes à vista de todos — um tesouro fabuloso que era pro­tegido por serpentes. Esta história foi contada e recontada ao longo dos sé­culos e formou as bases para os contos lendários de Simbad, o Marujo, nas Mil e uma noites, escritas por um autor anônimo, hoje descrito como um pseudo-Aristóteles, que explicou:
Além de meu pupilo Alexandre, ninguém mais chegou ao vale onde os diamantes são encontrados. Ele fica no Leste, ao longo da grande fronteira de Khurasan, e é tão profundo que um olho humano não pode ver o fundo. Quando Alexandre chegou ao vale, uma multidão de serpentes o impediu de seguir em frente, pois seu olhar se provou mortal para os homens. Então ele recorreu ao uso de espelhos: as serpentes foram apanhadas no reflexo de seus próprios olhos e pereceram. Alexandre então adotou outro estratagema. Ove­lhas foram abatidas, então esfoladas, e sua carne jogada nas profundezas. Aves de rapina das montanhas próximas mergulharam e levaram em suas garras a carne, à qual incontáveis diamantes tinham aderido. Os guerreiros de Ale­xandre caçaram as aves, que deixaram cair seu butim, e os homens precisa­ram apenas recolhê-lo onde caiu.

Ao longo dos séculos essa história lendária foi freqüentemente recontada por mercadores árabes e persas que adotaram várias versões dela para ajudá-los a proteger as fontes extraordinariamente valiosas de seu comércio de es­peciarias; esta foi a principal motivação por trás da expansão colonial para a Índia durante a Idade Média.

As fontes de diamantes eram zelosamente protegidas, e lendas como a do Vale dos Diamantes proliferavam. Mercadores de diamantes nunca diziam a ninguém onde compravam seus diamantes, ou como poderiam ter chega­do a eles. Esses mercadores arriscavam suas vidas para exercer seu negócio, já que eram presa fácil de bandidos e piratas quando transportavam sua carga inestimável. Antes do estabelecimento das rotas marítimas comerciais por­tuguesas, em 1502, mercadores de diamantes embarcavam suas gemas india­nas através do mar Vermelho ou do golfo Pérsico rumo aos principais portos do Mediterrâneo ou do mar Negro. A rota por terra seguia uma antiga estra­da que saía do sudeste da índia para o norte através do Afeganistão. Da cida­de de Taxila (hoje chamada Takshasila), a rota de comércio encontrava a Rota da Seda entre a China e a Pérsia (atual Irã).

Poucos diamantes escoavam da Índia para a Europa até a época romana, e mesmo então a maioria era de pequenas pedras decorativas. No entanto, para os romanos, de acordo com o escritor e filósofo romano Plínio, o Velho (23-79 d.C.), o diamante era "apenas um grão de pedra, todavia mais precio­so que o ouro, conhecido apenas por reis, e por muito poucos deles". Ao que parece, os romanos acreditavam nas propriedades místicas dos diamantes tão ardentemente quanto os indianos, e certamente os pretensos poderes do diamante seriam parte da trama utilizada para vender as pedras na Europa por preços extraordinários. Plínio, que talvez nunca tenha visto ele mesmo um diamante, foi o primeiro europeu a registrar a utilidade da gema como outra coisa que não uma pedra preciosa: "Quando um adamantino é ade­quadamente partido, [ele é] muito procurado por gravadores e inserido em ferramentas de ferro para fazer furos no material mais duro sem dificuldade." Na época de Plínio, os chineses, porém, usavam diamantes industriais havia séculos; eles normalmente eram utilizados como brocas para dar acabamen­to e polir jade e para perfurar pérolas para colocá-las em fios.

Com a queda do império romano, a utilidade dos diamantes diminuiu rapidamente, e no século XIV a popularidade e os supostos poderes místicos do diamante estavam bem abaixo daqueles do rubi, dos espinélios verme­lhos (rubi-balache), das pérolas e safiras.

Contudo, no Oriente o diamante continuava a ser o rei das pedras precio­sas, altamente valorizado desde a pré-história por sua importância econômi­ca e social, bem como por seus poderes místicos. OArtha Shastra (A Ciência do Lucro), escrito em sânscrito antigo por Kautilya no século IV a.C., abor­dava detalhes do sistema econômico, político e legal da Índia. No capítulo "Exame dos artigos preciosos a serem recebidos pelo Tesouro", Kautilya descreveu os diamantes mais valiosos como "grandes, cristalinos e brilhan­tes". Os diamantes menos valiosos são destituídos de ângulos e irregulares, assim como fragmentos de diamantes e aqueles de várias cores "como o olho de um gato ou a urina ou bile de uma vaca". Ele também destacou a importân­cia de um rígido controle sobre o comércio de todas as pedras preciosas.

Mas a espiritualidade do diamante é mais bem captada no mais antigo texto impresso do mundo escrito em sânscrito, o Diamond Sutra, o sutra mais profundo em ensinamentos budistas. Em sânscrito, sutra significa literalmente "o fio no qual as jóias são colocadas", e o Diamond Sutra é a perfeição da sabedoria, que "corta como o raio de diamante e assim é capaz de cortar através das ilusões terrenas". Grande sabedoria, no pensamento budista, é caracteri­zada por sua natureza indestrutível e verdade duradoura. O diamante, e particularmente todos os grandes diamantes, eram considerados sagrados pelos budistas.

A palavra diamante, do grego adamas, significa invencível. Diamantes pre­ciosos foram as mais valorizadas de todas as pedras preciosas desde o mo­mento em que foram descobertas, por sua raridade, cor pura, brilho, transparência e aparente indestrutibilidade.

Acreditava-se que os diamantes eram jóias adequadas aos deuses, e ape­nas os representantes terrenos mais privilegiados e nobres poderiam possuí-los. Essa mensagem foi transmitida por intermédio das lapidárias — ou textos sobre gemas escritos por mercadores reais e filósofos desde o começo da his­tória — em sânscrito, persa, chinês, grego, latim e árabe, nas quais o diaman­te recebia a posição de maior prestígio entre as gemas.

O poder que o diamante simboliza transcende fronteiras nacionais e cren­ças, como um fio de ouro transpassando o tecido de antigas civilizações. De modo interessante, a palavra em sânscrito para diamante é vajra, e vajra tam­bém descreve o raio da deusa hindu Indra. O deus grego Zeus brandia um raio que tinha sido inspirado pelo cristal de diamante. Em uma antiga obra, o Agastimaa, escrito no século VI, o texto classifica e hierarquiza os diaman­tes de acordo com sua forma, lapidação, peso, claridade, brilho, cor e beleza. Diferentes cores eram atribuídas a várias divindades, bem como à casta social que tinha o direito de possuí-los:


[O] diamante tem quatro cores, correspondendo a suas castas. O diamante com um brilho aveludado, como o de uma concha, um cristal de rocha ou a lua, é um Brahmin. Aquele avermelhado, ou marrom como um macaco, belo e puro, é chamado Kshatriya [de nobres e guerreiros], Vaisya [fazendeiros e mercadores] tem uma cor amarelo-pálido brilhante. Sudra [servos] brilha como uma espada bem polida: por causa de sua cintilação, os especialistas o atribuíram à quarta casta. Tais são os sinais que caracterizam as castas de um diamante.

Os textos lapidários sagrados hindus também se referem ao diamante, fornecendo argumentos não apenas espirituais, mas também comerciais, para os diamantes serem as mais valiosas de todas as gemas. Esses textos estabele­cem critérios de qualidade para o diamante broto e atribuem poderes bené­ficos aos diamantes; hoje, tais textos seriam considerados argumentos de venda. Esses textos sagrados trazem ricas descrições do poder do diamante de proteger contra envenenamento, cobras, doença e até mesmo comporta­mento pecaminoso. De acordo com um deles, o Ratnaparisksha, "um rei que deseje felicidade precisa, acumular e usar jóias que tenham sido inteiramente autenticadas. Uma boa jóia é fonte de riqueza para os reis, e uma ruim é fon­te de desgraça". De acordo com o Brhatsamhita, texto lapidário de autoria de Varahamihira, diamantes imperfeitos atraem riscos de perda de família, for­tuna e vida.

O Brhatsamhita afirma que as gemas mais puras e impecáveis, abençoadas com perfeitas formas octaédricas e apresentando certas marcas na superfície, chamadas lakshana, eram consideradas benéficas. Buddhabhatta, um autor de lapidárias do século VI, igualmente considera isso verdade quando escreve: "Àquele que tem um corpo puro e que carrega com sua pessoa um diamante em ponta, imaculado e inteiramente impecável, irá diariamente aumentar seu valor em felicidade, prosperidade, filhos, riqueza, colheitas, vacas e gado até o final de sua vida."

O diamante Sancy se ajusta perfeitamente a essa descrição. Caso se acre­dite no poder místico do diamante descrito nesse antigo texto, o Sancy iria se transformar em uma fonte de mal para aqueles proprietários que não autenticassem plenamente a sua procedência. Para aqueles que chegassem ao dia­mante honestamente, ele seria um lakshana, diariamente aumentando a prosperidade e o poder do proprietário. Esta é a base da maldição do Sancy, e explica por que alguns de seus proprietários encontraram um fim cruel e sangrento, enquanto outros permaneceram ricos e saudáveis. Embora eu pessoalmente não acredite em maldições, esta explicação corresponde à ver­dade ao longo de toda a história do Sancy.

O Sancy é um puro diamante branco e transparente. Seu peso, estimado por avaliadores de gemas no século XV como sendo de 106 quilates, e sua cor o destinaram a ser propriedade do rei indiano. Ele foi encontrado na mais antiga área de extração de diamantes perto de Golconda, mas a data de sua lapidação é desconhecida. De alguma forma ele chegou à Europa no final do século XIV, transformando-se no maior diamante branco da cristandade por bem mais de duzentos anos.

De acordo com o lendário lapidador de diamantes Gabi Tolkowsky, a lapidação é definitivamente indiana, um antecedente da lapidação briolette, em forma de pêra. Ele é capaz de dizer isto simplesmente pelo fato de que, como em muitas das antigas pedras lapidadas indianas, o tamanho do Sancy foi mais importante do que o seu brilho: há poucas facetas no antigo estilo indiano, em vez de muitas facetas, como nas lapidações européias mais recentes. Ade­mais, um dos lados é mais plano, e o outro, convexo. No século XV, o lapidador teria suas mãos cortadas se fizesse algo de qualquer outra forma. Tolkowsky diz que o Sancy foi "lapidado há muito tempo, e mais provavel­mente na índia, e bem possivelmente por um lapidador e mercador veneziano que sabia de seu valor na Europa".

Tolkowsky explica que foi muito por acaso que o Sancy foi poupado de ser esmagado com um martelo, já que este era o costume para evitar entregar grandes pedras para o governante mogol no século XIV. O lapidador tinha um alto grau de perícia, e o tornou límpido e transparente como água quan­do lapidou o Sancy. Tolkowsky acredita que, para preservar o peso e o tama­nho da pedra, o lapidador veneziano poliu um dos lados plano, e outro como uma briolette. Todo o processo teria sido conduzido sob o maior sigilo, e a pedra contrabandeada para fora da Índia, já que as grandes pedras rapida­mente se tornavam lenda.

O Sancy teria sido transportado para Veneza pelo mercador e vendido para o governante mais rico e poderoso ao qual ele pudesse ter acesso. No final do século XIV, Florença estava em guerra contra Milão e Lucca. Às ve­zes Veneza se aliava a Florença, outras a Milão e Lucca, dependendo de que ameaça expansionista escolhesse refrear. Precisamente quando ou como o diamante chegou ao extraordinariamente rico e poderoso Gian Galeazzo di Visconti, duque de Milão, é algo que se perdeu na névoa da história. Mas, quando Gian conseguiu ampliar sua esfera de influência até a França por intermédio do casamento de sua impressionantemente bela e perspicaz filha Valentina Visconti com o libertino e trapaceiro Luís, duque de Orleans, ir­mão de Carlos VI, rei da França, ele deu a ela um dote inacreditável.

Valentina estava acostumada à corte milanesa, que era reputada a maior e mais luxuosa da Itália. Quando chegou à França, ela deu início a uma nova era, diferente da corte francesa, mais pobre, tendo chegado com jóias incomparáveis e objetos de arte de valor inimaginável. Ela também levou consigo um dote em dinheiro de 450 mil florins milaneses (218,3 milhões de dólares ou 136,4 milhões de libras esterlinas em valores de hoje) e soberania sobre a cidade e a província de Asti.

Escondido entre o enorme volume de jóias de Valentina estava uma jóia (item 6195) descrita em seu inventário Blois datado de 1398 como: "Uma cinta cercada por um halo de ouro no qual estão colocados, dos dois lados, quatro grandes rubis-balache e no meio destes um rubi maior acima do qual pende um broche com quatro pérolas extremamente grandes e no meio de­las um diamante excepcionalmente grande, e deste broche pende um porco-espinho, e de oito pontos da dita cinta pendem 88 grandes pérolas brancas, e essa cinta é também adornada com relevos em ouro e em esmalte branco e vermelho."

Este "diamante excepcionalmente grande" é a primeira referência na Europa ao diamante Sancy.
2

Valentina e os duques



1389-1409
O primeiro proprietário europeu do sancy, o ardiloso e nada confiável Gian Galeazzo di Visconti, era um déspota esclarecido. Sua oligarquia de Milão baseava-se no comércio, como as de Florença e Veneza. A Milão de Valentina estava chegando ao auge de sua Renascença, quando as guildas de artesãos foram mais poderosas do que em qualquer outro momento da his­tória. No verão, os banqueiros se sentavam a mesas cobertas de toalhas ver­des nas piazzas banhadas de sol para mostrar que estavam abertos a negócios. Barracas com toldos coloridos protegiam peixeiros, padeiros e comerciantes de frutas e legumes do calor abrasador, enquanto animais de fazenda e pes­soas de todas as classes se misturavam nos becos. Os odores freqüentemente desagradáveis flutuavam no ar do verão, escapando apenas por uma passa­gem estreita ocupada por mercadores de plumas, seda, tapeçarias e jóias — a Rodeo Drive da época.

Se o mercador veneziano que carregava o Sancy trilhou esses caminhos nós nunca saberemos, mas ele certamente vendeu o diamante para o trai­çoeiro pai de Valentina. O brasão da família Visconti, com uma cobra abrin­do a boca para devorar uma criança, conta bem a sua história, acredito eu. A partir do século XIII — descontando breves períodos de exílio —, os Visconti foram duques de Milão e governantes absolutos. A partir da sucessão de Gian Gaieazzo di Visconti em 1378, a família ampliou o seu poder: entre 1378 e 1395 o duque tomou Siena e Bolonha pela força, Pisa por aquisição direta.

Gian Gaieazzo tinha, acima de tudo, uma bela mente política, além de um pendor para a intriga, e ele tramou incessantemente para esmagar Florença, felizmente sem sucesso. Seu reinado foi marcado por conflitos san­grentos e, paradoxalmente, pelos altos ideais e beleza da Itália renascentista. Sua esposa Isabelle, filha do rei francês João, o Bom, e irmã de Carlos V, foi efetivamente comprada por 600 mil florins milaneses (291,1 milhões de dó­lares ou 181,9 milhões de libras em valores de hoje) para resgatar o rei fran­cês das garras dos ingleses. Os próprios franceses não tinham dinheiro disponível para libertar seu rei, então, quando o pai de Gian se ofereceu para ajudar em troca do casamento entre o rico ducado milanês e a empobrecida coroa francesa, a corte francesa aproveitou a oportunidade. O fato de o povo de Milão ter sido violentamente taxado para pagar por isso não tinha impor­tância para o pai de Gian Gaieazzo.

Valentina era sua segunda herdeira, nascida em 1370 no castelo de Pavia, Dois anos depois, porém, sua mãe morreu no parto. Embora Valentina nun­ca fosse governar Milão, ela era um grande prêmio de casamento para qual­quer príncipe. Era considerada de grande beleza, inteligente e, segundo todos os relatos, uma musicista de talento, como se pode deduzir das harpas dou­radas que ela depois levaria consigo da corte milanesa para a França. Ela fala­va italiano, francês e alemão, e tinha agudo interesse nos assuntos da corte. Milão já era um importante centro comercial que atraía muitos estrangeiros, particularmente soldados de língua alemã a soldo de seu pai onipotente. Como a corte de Veneza, a de Milão era rica, e Valentina era uma de suas maiores beneficiárias, com uma coleção de jóias inacreditável.

Os palácios do ducado eram distintos de quaisquer outros no mundo medieval. Enquanto a maioria dos castelos era construída como fortalezas de modo a conter invasores, os castelos em que Valentina cresceu eram cheios de luz, esplendor, arte e idéias. A vida era pontuada por diversão suntuosa, com malabaristas, poetas, músicos, artistas e festas magníficas. O castelo de Pavia era cercado por um enorme parque e várias aldeias em que a caça, o tiro e a equitação eram norma. Era um mundo de conto de fadas, um oásis repleto de cisnes, faisões, avestruzes, pavões e javalis. Havia mobiliário fino, tapeçarias, banheiros de mármore branco — e, claro, jóias.

Mas uma tempestade se avizinhava. Gian Gaieazzo era extremamente invejoso de seu tio Bernabo, e já tinha arrebatado o ducado dele pela força. De modo a consolidar sua esfera de influência, porém, ele precisava de alia­dos poderosos, e a melhor forma de garantir sua fidelidade era por intermé­dio do casamento. Assim, Valentina foi colocada no mercado de noivados.

Embora inicialmente tivesse sido procurado um príncipe alemão, Gian Gaieazzo se decidiu pelo irmão de Carlos VI, Luís, duque de Touraine (mais tarde duque de Orleans). Luís tinha 13 anos de idade, Valentina, 15. No dia 26 de agosto de 1386, os termos foram acertados, com Luís assinando o con­trato de casamento no dia 27 de janeiro de 1387, e Gian Gaieazzo o ratifican­do em 8 de abril. O casal foi unido oficialmente no mesmo dia, por procuração, no palácio da mãe de Gian, Blanche de Sabóia, na Lombardia.

Afora o pagamento de 450 mil florins, dois terços dos quais no dia 9 de abril de 1387, os tesouros pessoais de Valentina precisavam ser inventariados, embalados e preparados para a viagem para seu novo lar. Entre seus bens pessoais, além de suas roupas de veludo e seda e de vestidos adornados de pedras preciosas, havia baixelas de ouro e prata e um tesouro repleto de jóias de marfim, jaspe, madrepérola, âmbar, coral, cristal, diamantes, rubis, péro­las, safiras, broches de esmalte e camafeus. No conjunto, ela tinha mais de 150 jóias de diamante, 28 peças de esmeralda e 310 de safira, 425 rubis em diferentes conjuntos e 7 mil pérolas. Era um enorme inventário a compilar. Foi apenas no verão de 1389 que ela chegou a Paris e finalmente ficou cara a cara com seu marido, por quem, segundo relatos, teria se apaixonado à pri­meira vista.

Mas por que houve tal atraso no encontro dos dois? A resposta não-oficial é simples: Gian Gaieazzo tinha levado um tempo considerável para arre­cadar o dinheiro para o dote da filha por intermédio de impostos. A desculpa oficial aos franceses foi a de que as províncias do noroeste da Itália e as regiões da França pelas quais Valentina teria de passar estavam repletas de saqueadores e mercenários em busca de pilhagem. Como Valentina estaria levando dois terços de seu enorme dote em dinheiro e todos os seus tesouros e jóias pes­soais, garantir sua segurança era de suprema importância. Ela seria um alvo tentador e sua vida não podia ser assegurada — nem mesmo com o conside­rável exército de seu pai para protegê-la.

Sua viagem no verão de 1389 foi como uma expedição real, realizada com enorme pompa e circunstância. Precisavam ser feitas homenagens quando ela passava por diversas províncias governadas por outros pequenos autocratas; embaixadores precisavam ser recepcionados e festas suntuosas organiza­das. Qualquer um que era alguém queria ter um vislumbre da jovem beleza e suas riquezas, e eles freqüentemente faziam dívidas com agiotas judeus para comprar mantos ou vestidos, ou mesmo para alugar jóias e ter o prazer de sua companhia, mesmo que por um momento efêmero.

As primeiras festas da viagem aconteceram ainda em Milão. Os venezianos enviaram seus embaixadores, que receberam, cada um, de acordo com um decreto de 7 de junho de 1389, 50 ducados (7 mil dólares ou 4,4 mil libras, em valores de hoje) para encomendar roupas de seda, bem como 150 ducados (21 mil dólares ou 13,1 mil libras em valores de hoje) para presentes e gorjetas. Esses valores foram considerados pelos doges "suficientes", significando mesquinhos, de acordo com os padrões venezianos normais.

A França na qual Valentina se casou não era o país que conhecemos hoje. Ela tinha sido devastada por gerações de guerras bárbaras entre seus peque­nos feudos, e mais especialmente contra os ingleses, que tinham reivindica­do o próprio trono da França. A França era uma terra rude, com um povo inculto e acostumado a modos vulgares. Pouco maior do que a região da Île de Paris que cerca Paris e o Loire, a França era dominada por seus poderosos Estados vassalos, cujos duques integravam, todos, a linhagem de príncipes de Valois. Estes duques rivais eventualmente lançariam a França em uma guerra civil com a ajuda involuntária de Valentina e do Sancy.

O tio mais traiçoeiro, Felipe, o Audaz, tinha recebido a Borgonha e Franche-Comté com a morte de seu pai, Carlos V Os três irmãos mais ve­lhos de Felipe, os duques de Berry, Armagnac e Anjou, eram os regentes de Carlos VT, e saquearam a França conforme seus próprios objetivos.

Embora Felipe parecesse contente com seu status inferior, já que sua pri­meira prioridade era unir seus dois ducados e expandir seus territórios para Flandres, seu poder e cobiça eram inicialmente imperceptíveis. Como es­creveu o autor contemporâneo Bonet: "Quando eu era jovem, você era cha­mado de Felipe Sem Terra: agora Deus generosamente outorgou a você um grande nome, e o colocou ao lado dos maiores da Terra." Na época em que Felipe desposou Marguerite de Flandres, herdeira das ricas províncias que incluíam a agitada capital comercial de Bruges, no norte, e a cidade próxima Antuérpia, ele tinha se tornado uma força poderosa a enfrentar. O fato de ele ter permitido que seus irmãos se ocupassem com os negócios de Estado da França não significava que ele iria permitir que eles o apagassem do cenário político ou econômico.

Os duques de Berry e Anjou sem dúvida estavam malbaratando as ri­quezas e os recursos da França para seu lucro pessoal. Quando o rei Carlos VI herdou a coroa em 1380, aos 12 anos de idade, seus tios despóticos, os duques de Berry e Anjou, governaram não apenas seus próprios territórios mas também a França, como regentes de Carlos. Chamados pela história de "os velhos", eles adoravam extravagâncias palacianas e gastaram vastas somas em diversão para a corte, jóias e prataria. Dada a extrema pobreza fora da corte — a França tinha estado em guerra com a Inglaterra por décadas no que passou a ser conhecido como a Guerra dos Cem Anos —, sua cobiça só poderia levar a mais banhos de sangue. A população tinha sido pesadamente sacrificada em vidas e recursos, e o governo insensível dos duques inevita­velmente levou a uma série de revoltas em Paris contra os impostos, conhe­cidas como les maillotins. "Os velhos" eram odiados pelo homem comum, adorados por seus camaradas por seus gastos pródigos e roubavam da coroa francesa.

Então, com rapidez alarmante, a situação mudou. O rei Carlos afastou seus tios regentes em uma cerimônia pública em Reims em 1390. Felipe, o Audaz, apaziguou seus irmãos mais velhos dizendo: "Irmãos, nós precisa­mos suportar a situação. O rei é jovem (...) chegará o tempo em que aqueles que o aconselharão irão lamentar."

Este golpe surpreendente tinha sido arquitetado pelo irmão de Carlos e marido de Valentina, Luís, pouco antes elevado ao título de duque de Orleans. O adolescente Luís assumiu as cerimônias da corte e organizou as festivida­des e a pompa de todos os assuntos externos, deixando a seus lacaios o traba­lho aborrecido de cuidar dos livros, arrecadar impostos e administrar. Seu tio, o duque de Anjou, tinha morrido, e o duque de Armagnac estava agitado em seus domínios. O duque de Berry fugiu para suas próprias terras em Languedoc. Isso deixou Felipe só para confrontar Luís no Conselho de Estado.

Tudo piorou quando Carlos VI começou a sofrer surtos intermitentes de loucura, sendo que o primeiro episódio foi percebido em 1392. Na época, Luís já tivera vários anos para provar do poder e da cobiça, e, graças a seu casamento com Valentina, sentiu a excitação da expansão territorial quando Asti passou para seu comando como parte do dote dela. Durante seu primei­ro período de loucura Carlos VI tinha, febril e sentimentalmente, outorgado vastos territórios e riquezas a Luís, que agora tinha seus próprios desígnios para o ducado de Milão, Ardenas e Luxemburgo. O tio de Luís, Felipe da Borgonha, sentiu que seu sobrinho estava indo longe demais, já que Ardenas e Luxemburgo faziam fronteira com suas próprias províncias.

Todavia, foi acertada uma trégua desconfortável entre tio e sobrinho, com ambos se voltando para seus próprios negócios e consolidando seus próprios domínios até a morte de Felipe em 1404. No último testamento de Felipe, ele deixou metade de todos os seus bens terrenos para sua amada esposa Marguerite, e a outra metade para o filho, João. Embora Felipe estivesse pobre em dinheiro vivo, devendo centenas de milhares de livres, ele ainda assim transferiu para esposa e filho uma fabulosa biblioteca ilustrada, tapeçarias, pinturas e jóias além da imaginação. A mais preciosa dessas jóias, La Belle Balais de Flandres (O Belo Rubi-balache de Flandres), estava na família do duque de Flandres desde "tempos antigos", de acordo com o testamento. Em­bora a gema tivesse chegado a Felipe por intermédio de sua esposa, ele a dei­xou para João, o novo duque de Borgonha e Flandres, determinando que permaneceria perpetuamente com os duques de Flandres. Todas as suas ou­tras jóias, objetos de valor e prataria seriam divididos igualmente entre sua esposa e seu filho, cada um deles assumindo a responsabilidade por metade de suas dívidas.

O novo duque ficou conhecido como João Sem Medo, duque de Borgonha e Flandres, que introduziu uma nova era de antagonismo com a França, e mais particularmente com o marido de Valentina, Luís, duque de Orleans. As hostilidades iriam resultar em uma rivalidade familiar e em perda de vidas que culminariam em uma sangrenta guerra civil. E o Sancy iria se tornar um dos reféns.


3

A Vingança de Valentina



1407-1419
O Sancy se tornou o principal instrumento na luta familiar e o símbolo do poder desejado pelo novo duque da Borgonha, João Sem Medo. João era um homem feio, deselegante e vulgar, dotado do queixo proeminente de seu pai -— uma característica que se tornaria marca registrada dos príncipes Habsburgo. Ele tinha uma mente ágil e uma habilidade inata para extrair pra­zer em inspirar terror nos outros. Ele normalmente não tinha qualquer pro­blema com sua aparência ou vestuário. Mas quando queria causar impacto, limpava a sujeira de sob as unhas das mãos; talvez se lavasse; vestia seu man­to carmesim, verde e dourado adornado de jóias; e se transformava em uma figura impressionante. Ele era ciumento, esperto, traiçoeiro, militarmente destemido e de uma espantosa astúcia política.

João abominava o rei e o marido namorador de Valentina, Luís, conside­rando que nenhum dos dois merecia ocupar altos postos. A luta pelo poder que começara entre Luís e o pai de João, Felipe, tinha chegado ao auge quan­do Luís comprou o ducado de Luxemburgo em 1401, dessa forma ameaçan­do "coração e alma" da Borgonha.

Depois da morte de Felipe em 1404, Luís sentiu o êxtase do poder de­senfreado, e promoveu um reinicio das hostilidades contra a Inglaterra. Luís chegou mesmo a cometer a tolice de desafiar o rei Henrique IV da Inglaterra para um duelo — uma tolice que felizmente não foi levada em consideração pelo monarca inglês. O marido de Valentina sabia que pondo fim à trégua iria prejudicar o comércio lucrativo que tinha sido estabelecido entre Flandres e a Inglaterra, dessa forma interrompendo o suprimento de riqueza de João.

O plano era maquiavélico. O objetivo de João era reduzir impostos e aumentar o comércio com a França, como seu pai tinha feito com tanto su­cesso com a Inglaterra. Como João tinha assinado um tratado com a Ingla­terra em abril de 1407, estava apto a se apresentar como um defensor do povo, conquistando corações e mentes dos franceses, defendendo com veemência uma redução na carga de impostos, que seria possível se o rei não levasse em consideração a tentativa de Luís de insuflar a guerra contra a Inglaterra. Quando Luís replicou propondo novos impostos para financiar sua guerra, João se recusou a cobrar impostos dos borgonheses, dizendo que se isso não fosse prova bastante de sua sinceridade, ele iria pagar todos os impostos em benefício de todo o seu povo para pôr fim à loucura.

Foi uma manobra populista inédita na França medieval, e funcionou. A popularidade de João aumentou, enquanto a de Luís se esfacelou. Ambos estavam em rota de colisão, e seria uma luta mortal. As idéias de João certamente ganhariam apoio popular, ao passo que as de Luís representavam o status quo da corte. Em um panfleto, João acusou Luís de difundir a corrupção generaliza­da, desperdiçar um precioso capital público e de malversação da coroa.

A segurança da França estava em perigo. A esposa de Carlos VI, a rainha Isabel, renovou o "relacionamento especial" com a Borgonha, ao mesmo tempo permanecendo devotada a Luís de Orleans na esperança de que os dois primos em guerra fossem sensatos e declarassem uma trégua. João fin­giu fazer isso, mas apenas até conseguir a vantagem. Mas ele primeiramente precisaria remover a atenta e virtuosa Valentina.

Embora Valentina fosse vista por seus inimigos como uma mulher sedu­tora e voluptuosa, ela não era. Ela certamente era uma beleza sensual com seus olhos de pálpebras pesadas, cabelos sedosos e corpo gracioso, mas aci­ma de tudo ela era perspicaz, inteligente e leal. Sua devoção a Luís e à sua família era absoluta, mas essa fidelidade seria a sua ruína. Ela tinha tido vári­os filhos com Luís, e ignorava os rumores acerca dos casos amorosos dele, incluindo o persistente boato de seu envolvimento com a rainha da França. Luís estava sempre na companhia da rainha Isabel, mas a história hesita em afirmar se haveria um enlace romântico entre eles.

Quando Valentina administrou plantas medicinais para tentar curar o convalescente e insano rei Carlos VI, isso foi interpretado por seus inimigos como magia negra. Seu mais importante detrator, João Sem Medo, alegou que ela era uma bruxa. Quando sua filha recém-nascida Maria morreu repentinamente em 1407, provavelmente de síndrome da morte súbita infan­til, Valentina foi indiretamente acusada pelo duque João de envenenar a própria filha. Essa acusação ridícula funcionou. Até mesmo Luís acreditou nela, e acabou exilando Valentina em Neufchâtel.

Assim que Valentina foi afastada, João escolheu o momento para atacar. Foi no dia 25 de novembro de 1407, no Chateau de St.-Pol, em Paris. Um bando de matadores a soldo de João, liderados pelo próprio valet de chambre do rei, foi aos aposentos de Luís dizendo que o rei queria vê-lo imediata­mente. Luís não suspeitou de nada, e seguiu o valete até a armadilha de João. Luís estava acompanhado de cinco ou seis de seus próprios criados quando foi confrontado pelos 18 ou vinte homens de João. Luís se identificou e exi­giu que eles abrissem caminho. O líder dos assassinos respondeu: "Ah, você é o homem que nós queremos!" Dois dos criados de Luís foram mortos an­tes que os outros fugissem. A cabeça do duque foi esmagada, seu corpo mu­tilado, e seus restos deixados na lama, enquanto os assassinos escapavam.

Na manhã seguinte ao assassinato, João assumiu seu lugar na cerimônia fúnebre junto ao rei e à rainha, prestando o respeito devido a seu primo as­sassinado, apesar de rumores que o ligavam ao assassinato de Luís. Dois dias mais tarde João confessou a seus tios, os duques de Anjou e Berry, que tinha instigado o crime. Na manhã seguinte ele trocou Paris por Flandres.

Quando Valentina soube do assassinato de seu amado esposo em seu exílio no castelo de Château-Thierry em Neufchâtel, imediatamente temeu o pior por seus filhos. Ela ordenou a seus servos mais leais que os levassem para Blois, no coração de Orleans, para protegê-los de João. Assim que soube que eles tinham chegado em segurança a seu castelo lá, começou a pensar em vingança.

Na gelada manhã de inverno de 10 de dezembro de 1407, a bela viúva, vestindo seu traje de luto de veludo negro, chegou ao castelo de Paris em que seu marido tinha sido assassinado. Os 'Velhos", os duques de Anjou e Berry, estavam presentes, e para ela o rei parecia perfeitamente são. Valentina se jogou aos pés do rei e, em meio a uma torrente de lágrimas, exigiu justiça pelo assassinato do marido. O rei chorou ao ouvir seu apelo emocionado, ajoelhou-se e a ergueu, prometendo a vingança a que ela tinha direito. Foi feita uma petição ao conselho para que João fosse punido, e parecia que Valentina teria a sua vingança.

Mas João Sem Medo era um mestre da invencionice. Ele conseguiu com sucesso fazer circular boatos obscenos de que Valentina era a bruxa tentado­ra que tinha enlouquecido o rei; que seu marido tinha sido um tirano; e que ele, João, estava apenas cumprindo seu. dever patriótico para com a França de livrá-la do homem que queria mergulhar o país em outra guerra bárbara contra a Inglaterra, e extorquir seu povo até a miséria. Com um golpe, ele tinha se transformado no porta-voz dos excluídos, e o rei não se colocaria contra ele. Carlos jogou fora a petição para punir João e o abraçou por salvar a França da iniqüidade. Valentina ficou estupefata com o resultado final, mudando seu lema para "Nada mais para mim, pois eu não sou mais nada".

Ela se retirou para Blois, aparentemente uma mulher arrasada. Mas quan­do uma revolta em Liège obrigou João a voltar para Flandres, Valentina cos­turou uma forte aliança orleanista que persuadiu Carlos a revogar sua posição anterior favorável ao duque da Borgonha, e Valentina retomou à capital A rainha e Valentina se tornaram firmes aliadas e parecia que finalmente João tinha perdido.

Quando João retornou de Liège, o povo de Paris se amontoou nas ruas em apoio a ele, mais uma vez virando a maré a seu favor. Valentina sabia que tinha sido derrotada, e retornou a Blois, definhando rapidamente até a mor­te. Quando sentiu que seu fim estava próximo, ela reuniu os filhos a seu redor e os fez jurar que vingariam a morte do pai. Depois que eles juraram levar a cabo sua vingança, Valentina Visconti, duquesa de Orleans, morreu de coração partido, com apenas 38 anos de idade.

João saiu vitorioso, mas não tinha avaliado o legado de Valentina. As gran­des jóias e a fortuna dela tinham sido colocadas à disposição de seus filhos, e o filho mais velho, Carlos de Orleans, que recentemente havia se casado e ingressado na família Armagnac, tornou-se aliado de um homem de poder comparável ao do duque da Borgonha. O sogro de Carlos, Bernardo VII, duque de Armagnac, transformou a causa orleanista em uma que interessava aos Armagnac. No dia 15 de abril de 1410, em Gien, foi fechado um tratado entre os duques de Orleans, Armagnac, Bourbon, Berry, Clermont e Anjou para montar um exército e retirar João de Paris, "pelo bem, a honra e o pro­gresso do rei, do reino e do bem público". O grande diamante de Valentina (o Sancy) e uma miríade de outras jóias foram utilizados como garantia jun­to a prestamistas parisienses para financiar esse exército e opô-lo ao poder absoluto de João. A primeira guerra civil conhecida a ser parcialmente finan­ciada pelo Sancy era iminente.

A máquina de desinformação de João funcionou dia e noite, garantindo a seu público apaixonado que a facção Orleans/Armagnac estava interessada ape­nas em pilhar o interior, e para sustentar sua afirmação utilizou exemplos de suas transgressões. Em resposta, em julho de 1411 Carlos de Orleans lançou o desafio, emitindo cartas patentes (um decreto real) em que declarava João o responsável pelo assassinato de seu pai. A reação do duque foi imediata. "Você e seus irmãos mentiram, e você está mentindo agora, como traidores que são." João se preparou para a guerra, e para assumir controle total da França.

Dessa vez João se superou em astúcia. Ele esperou... e esperou. A facção Armagnac pilhou Paris com sua horda mercenária saqueadora, e o povo se defendeu sem ajuda o melhor que pôde. Finalmente o rei implorou a João que entrasse na capital para salvar seu reino. Assim, no dia 28 de outubro — três meses depois do início da guerra civil —, João marchou com seu exérci­to para Paris e a "libertou". Seu primeiro decreto foi aplicar o édito papal contra salteadores ao exército saqueador Armagnac. Enquanto isso, os pró­prios lugares-tenentes de João pilharam em seu nome, e jóias e bens de valor foram espalhados aos pés de João. A reação de João ao pôr os olhos sobre as grandes jóias de Valentina, incluindo o Sancy, não foi registrada, mas certa­mente deve ter tornado sua vitória ainda mais doce.

Talvez tenha sido na esperança de que ele ou seus herdeiros se sentassem no trono da França que João mandou engastar o diamante Sancy em uma jóia maior chamada La Belle Fleur de Lys de Flandres, ou A Bela Flor-de-lis de Flandres. Essa jóia reunia sua maior gema, o belo rubi-balache de Flandres, com o maior diamante branco da cristandade, agora chamado La Baile de Flandres.

O Sancy, como parte de La Belle Fleur de Lys de Flandres, foi empenhado por João no dia 2 de julho de 1412, como garantia, juntamente com outras jóias, a Laurens Caignel, um mercador de Lucca, por 2 mil livres (65,5 mil dólares ou 41 mil libras, em valores de hoje), mais juros de 270 livres (24 mil dólares ou 15 mil libras). Pela segunda vez em apenas cinco anos, o Sancy foi usado para financiar a guerra civil.

A bela flor-de-lis era efetivamente a coroa de João Sem Medo. Tinha três grandes pétalas no meio e duas menores em cada extremidade. No meio da pétala central, acima do diamante, estava o grande rubi-balache La Balais de Flandres, de Felipe, o Audaz, considerado o maior da França. As pétalas externas da jóia foram decoradas com outros oito grandes rubis-balache, oito safiras, cinco esmeraldas e 38 grandes pérolas. O conjunto pesava 2 marcos, 7 onças e 2 grãos — impressionantes 23,2 onças, ou 646 gramas. Sem ter idéia de quanto ouro havia na jóia, é impossível avaliar o peso das várias pedras, mas os 646 gramas eqüivalem a astronômicos 3.230 quilates!

Como na Guerra Civil americana, a guerra civil entre Borgonha e os Armagnac colocou irmão contra irmão, com as linhas de batalha sendo estabelecidas mais de acordo com princípios e crenças que com base em lo­calização geográfica familiar. A bruma da guerra fez vítimas de ambos os la­dos, com os Armagnac, o populacho parisiense e João controlando a capital alternadamente entre 1411 e 1413. No final os Armagnac conseguiram van­tagem e se apossaram de Paris.

Uma vez expulso da capital, João cometeu o mais hediondo dos crimes para um francês medieval — um tratado secreto com o novo rei inglês, Henrique V Quando Henrique então reivindicou o trono francês em fun­ção de seus ancestrais Capeto, João foi o único grande poderoso a não tomar parte da guerra que se seguiu. Os Armagnac se encarregaram da defesa da França, resultando na derrota desastrosa em Agincourt em 1415 que abriu o caminho para Henrique ser coroado rei da França. Com Carlos de Orleans capturado em Agincourt (ele passaria 25 anos na Inglaterra como prisionei­ro) e com a morte do delfim pouco depois, a sucessão da dinastia Valois pas­sou para seu irmão de 15 anos de idade, Carlos.

Ao amanhecer de 18 de maio de 1418, as tropas borgonhesas de João entraram em Paris — pela primeira vez desde 1413 —-, iniciando um banho de sangue. Bernardo VII, duque de Armagnac, foi assassinado; bancos e agiotas foram pilhados de todos os seus bens; e qualquer um que tenha se colocado no caminho de João foi massacrado. Menos de um ano depois, em 10 de setembro de 1419, João concordou em se encontrar com o delfim Carlos na ponte de Yonne, em Montereau, para debater os termos de um renovado juramento de amizade e aliança entre eles. Há dezenas de diferentes relatos do que aconteceu nesse dia, mas só uma coisa é certa: João Sem Medo foi assassinado com um golpe de machado.


4

Os últimos grandes duques da Borgonha



1420-1476
No inventário feito em 1423, por ocasião da morte de João, o enorme diamante da Bela Flor-de-lis de Flandres aparece, porém não mais como parte da jóia. Ele é descrito como "um grande diamante simetricamente facetado com um vértice, arrematado por um círculo de ouro, e tão grande quanto uma pepita de carvão". O filho de João, Felipe, o Bom, remontou o diaman­te Sancy em um agrafe, ou grande broche, que podia ser usado como alfinete de chapéu ou broche de manto, ou colocado em um colar.

Georges Chastellain, o melhor dos historiadores borgonheses, refere-se ao diamante como "o maior e mais puro da cristandade". A utilização da pa­lavra puro significava que o diamante era branco, mais do que inteiramente sem imperfeições. Diamantes coloridos ainda não eram valorizados, e na época nunca seriam descritos como sendo puros. O filho e herdeiro de Felipe, Carlos, usava o grande diamante branco como ornamento de chapéu, algu­mas vezes com uma grande pérola oriental pendendo dele. Esse conjunto se repetiu diversas vezes durante a longa história do Sancy.

O novo duque da Borgonha era bastante diferente de seu pai. Ao receber a notícia do assassinato do pai, Felipe emitiu um grito de gelar o sangue. Uma sombra passou por seu rosto, e os olhos reviraram nas órbitas. Felipe estava em choque, e sua corte lamentou e chorou tanto por sua reação quanto pela perda do poderoso duque João.

Felipe era um príncipe sensível, vivaz, extremamente belo e bem formado, e de porte nobre. Ele também tinha um amor profundo por pedras preciosas. Como escreveu seu cronista da corte Chastellain, "ele sabia como tirar o má­ximo de jóias, belos cavalos, armaduras esplêndidas (...) as massas engasgavam com a exibição deslumbrante (...) ele ofuscou todos os seus antecessores. Seus convidados ficavam perplexos com seu acervo de jóias, tapeçarias, prataria e louças, e com seus cofres cheios de ouro". Ele também era conhecido por ser "lascivo" ou devasso, com trinta amantes conhecidas e 15 filhos biológicos.

Felipe combateu a França de forma brilhante, alíando-se ao rei da Ingla­terra. Um ano depois do assassinato de João, Carlos VI foi forçado a assinar um tratado que transferia para Felipe vastos territórios entre Borgonha e Paris, bem como as cidades de Somme, Ponthieu e Boulogne, que só poderiam ser resgatadas por 4 milhões de ducados (970 milhões de dólares ou 606,2 milhões de libras, em valores de hoje). Mais importante ainda, Felipe e seus herdeiros estavam dispensados de prestar a homenagem devida por seus feudos fran­ceses enquanto o rei vivesse.

Felipe, como seu pai, passou anos tomando possível ao rei da Inglaterra, Henrique V, conquistar territórios franceses. Ele combateu em nome de Henrique V, e foi o lugar-tenente de Felipe, João de Luxemburgo, encarregado das tropas da Borgonha, que aceitou a espada de Joana d'Arc em maio de 1430. Foi Felipe quem concordou que Joana fosse entregue aos ingleses por 10 mil coroas de ouro (7,3 milhões de dólares ou 4,5 milhões de libras, em valores de hoje), sendo, assim, o responsável por sua traição.

Felipe foi o mais amado dos duques da Borgonha e consolidou o impé­rio de João, transferindo a corte principal para Bruges por ser ela o principal centro comercial. Ali Felipe transformou a corte da Borgonha em uma gran­de "indústria do luxo" para seus integrantes e fornecedores. A corte organi­zou um sistema de patrocínio generoso e variado e os mercadores tiravam seu ganha-pão de seu notável esplendor.

Com a morte de Felipe, Carlos, então Carlos, o Temerário, herdou uma riqueza fabulosa, composta de ducados, condados, châteaux, tapeçarias precio­sas, manuscritos ilustrados, pinturas, objets d'art e jóias excepcionais. Sua bi­blioteca era considerada por seus contemporâneos como a mais rica de todas, com mais de novecentos manuscritos e livros com iluminuras. Sua Borgonha do século XV tinha se transformado na "nação" mais rica da cristandade gra­ças à crueldade e ao intelecto de seus primeiros três duques, e se não fosse pela absoluta convicção de Carlos, o Temerário, de sua invencibilidade e ambição cega ao se tornar duque, ele teria com sucesso transformado o mapa da Europa como é conhecido hoje.

Este último grande duque, como muitos tiranos, tinha uma noção de destino histórico que foi bem documentada por vários cronistas da corte a soldo dele. Philip de Commines o descreve como sendo:
[Um] príncipe não tão alto quanto seu pai, mas forte, de boa constituição e robusto; forte de braços e dorso; ombros estreitos; com um centro de gravi­dade baixo; boas pernas e coxas poderosas, dedos longos e pés pequenos, não muito pesado, nem muito magro, com um corpo ágil adequado a todos os trabalhos e forças. Ele tem (...) olhos azuis claros alegres e sinceros, angelicamente límpidos, e é possível ver neles seu pai redivivo. Tem uma barba escura com uma saudável pele de brilho oliváceo. (...) Quando caminha, olha para o chão. (...) É inteligente, afável, mas assim que decide falar, é bastante eloqüente. Sua voz é aveludada e clara. O duque adora música, literatura e arte, é sábio e discreto, e freqüentemente fala de um destino grandioso. Ele é (...) algumas vezes amargo quando não obtém o que deseja, e cáustico com as palavras nessas ocasiões (...) e guarda ressentimento. (...) Contrariá-lo é cor­tejar o perigo. Ele adora arte e o jogo de damas, e outros jogos de azar, bem como dinheiro.
Carlos — como todos os homens medievais — também era altamente supersticioso, em parte em função da generalizada falta de compreensão científica dos fenômenos naturais, em parte instilada nele, como nos outros, pela onipresente Igreja. Sendo um homem supersticioso, para ele os diamantes — as jóias indestrutíveis e invencíveis dos deuses — adquiriam uma impor­tância quase religiosa em sua missão de conquistar a Europa. Ávido estudio­so de história antiga, Carlos devorava histórias de conquista e estudava cuidadosamente as histórias sobre seu ídolo Alexandre, o Grande. Carlos acreditava nas lendas sobre o descobrimento do Vale dos Diamantes por Alexandre e suas tropas, e como tantos antes e depois dele, atribuía poderes místicos aos diamantes.

Essa lenda deve ter fortalecido suas fantasias acerca de diamantes como uma força irresistível. Adotando-os como símbolos de seu próprio poder, ele iria projetar sobre os outros a aura de invencibilidade do diamante. Os diamantes também favoreciam seu grande desígnio por serem talismãs pre­ciosos de boa sorte. Ele cuidava muito bem de suas jóias, já que seu valor comercial era apenas uma fração de seu real valor. Sua detalhada contabili­dade de 1467 afirma: "Meu Seigneur tem repositório de jóias com um criado principal como seu valet de chambre, que responde apenas a meu Senhor. Este valete tem um guarda assistente para as jóias, que obedece a ele. Um sommelier de corps [guarda-costas] o escolta constantemente, assim como um segundo sommelier de corps. Um terceiro sommelier monta guarda das muitas jóias de meu Seigneur como descrito nas contas. Outro valete está sempre presente em frente às jóias."

Carlos empregava esses seis homens não apenas para proteger as jóias, mas para que vigiassem uns aos outros. Seu camareiro e cronista Olivier de la Marche, que tinha a chave dos aposentos de Carlos, descreveu as detalha­das disposições de segurança do duque. Os salários do círculo interno de quarenta servidores do duque custavam impressionantes 800 livres diários (65 mil dólares ou 40 mil libras, em valores de hoje).

Entre os manuscritos com iluminuras há um retrato de um grande dia­mante isolado colocado em um chapéu, em um trabalho de Guillaume Fillastre intitulado Histoire de l'Ordre de la Toison d'Or [História da Ordem do Velo de Ouro]; o retrato aparece nos volumes um e dois, que foram concluí­dos por volta de 1473. Um trabalho ilustrado anterior, The History of Charles Martel [A História de Carlos Magno], escrito por David Aubert entre 1463 e 1465, também mostra Carlos, o Temerário, usando seu famoso diamante. Carlos mantinha o diamante como seu pai o deixara, montado em um en­gaste de ouro como uma única pedra isolada, para ser usado como um agrafe.

De acordo com o historiógrafo suíço Diebold Schilling, o diamante era sans similitude, ou sans-si (sem igual). Um registro de arquivo de Basiléia da­tado de 1477 afirma que ele pesava cent six (pronunciado "sancy") quilates (106 quilates). O diamante foi descrito como sendo "aproximadamente do tamanho de uma noz".

A fabulosa coleção de jóias de Carlos, a maior de todas as coleções reais da Europa na época, tinha sido acumulada desde a época de seu bisavô Felipe, o Audaz, que, como muitos dos benevolentes tiranos de sua época, tinha percepção da beleza e amor pelas pedras. Mas esse amor nunca transcendeu o valor monetário. Quando as pedras precisaram ser utilizadas como garan­tia para lutar uma nova guerra ou fazer uma nova conquista, Carlos, como os três duques anteriores, usou suas gemas para conquistar e manter o poder.

Na época em que Carlos se tornou duque, em 1467, Bruges era uma grande cidade com um porto esplêndido e 45 mil habitantes. Mercadores migravam para lá de iodas as partes do mundo para vender seus produtos no norte da Europa. Acordos comerciais permanentes foram firmados com Veneza, Gênova, Lucca, Castela, Navarra, Portugal, Inglaterra e a Hansa ale­mã. O mercado mundial de Bruges era sustentado por um mercado finan­ceiro bem desenvolvido, com banqueiros italianos oferecendo os mais novos instrumentos financeiros e amplo capital. A rica cultura da corte iniciada pelo pai de Carlos, Felipe, o Bom, floresceu, com centenas de artesãos habilido­sos e especialistas produzindo bens de alta qualidade. Commines explica a riqueza do povo de Bruges: "Os súditos da Casa da Borgonha eram muito prósperos devido à paz duradoura e à bondade de seu príncipe, que não co­brava impostos pesados de seus súditos." Para os mercadores, burlar Carlos era cometer suicídio financeiro.

O mais antigo registro de venda de diamantes em Bruges data aproximadamente de 1370, e está relacionado a importações de Veneza. O embaixa­dor veneziano na corte borgonhesa escreveu para o palácio dos doges no fi­nal do século XIV:

Eu vi laranjas e limões de Castela frescos como se tivessem acabado de ser colhidos, comida e vinho da Grécia tão abundante quanto em seu próprio país. Também vi cortes de tecido e especiarias de Alexandria e de todos os cantos do Levante como se realmente estivesse lá. Ademais, havia tantas peles das regiões do mar Negro como se fossem produzidas em Flandres. Consegui encontrar tudo o que imaginei da Itália — brocados, sedas, armas e pedras preciosas. Em síntese, em Bruges é possível encontrar todos os bens produzi­dos em qualquer parte do mundo.
Este retrato de Bruges contrasta de forma marcante com aquele de ou­tras capitais européias da época. A Europa estava apenas começando a se re­cuperar das devastações da Peste Negra, que tinha dizimado mais de um terço da população do continente um século antes. A maioria das pessoas no sécu­lo XV trabalhava a terra sob o domínio de uma poderosa aristocracia, e de uma todo-poderosa Igreja católica.

Ademais, em 1467 os princípios básicos da hierarquia e das instituições sociais e financeiras e a organização de estradas e cidades seriam prontamen­te reconhecidos por uma pessoa do século XXI. O comércio se desenvolvera entre regiões, mas o Estado-nação estava em sua infância, com apenas Ingla­terra, Gales, Escócia, Portugal e Suíça tendo basicamente as mesmas frontei­ras de hoje. A Itália estava dividida em cidades-Estado e Estados Papais, com a Alemanha (a Liga Hanseática) e a Espanha divididas em regiões.

As economias de Inglaterra e Flandres eram interdependentes, com um co­mércio vigoroso bem estabelecido em itens de luxo como jóias, lã e tecidos fi­nos. As trocas monetárias com base em diferentes moedas européias já tinham se desenvolvido. Simplificando, o mundo econômico como o conhecemos hoje é baseado em fundações estabelecidas antes da época de Carlos, o Temerário.

O mundo de Carlos era, sem dúvida, traiçoeiro, embora todas as cortes da Europa tentassem seguir o modelo da Borgonha. A corte inglesa de Eduar­do IV se espelhava na de Felipe da Borgonha, que foi descrita como "sendo uma corte real merecedora de liderar um reino, plena de riquezas e homens de todas as nações". A renda total do duque era estimada em 900 mil ducados (218,2 milhões de dólares ou 136,4 milhões de libras, em valores de hoje). Essa vasta soma era equivalente à renda total da República de Veneza. A Re­pública de Florença possuía apenas um quarto dessa quantia, e o papa, metade.

Quando Carlos herdou seus domínios com a morte de seu pai em 1467, ele imediatamente começou a colocar suas finanças em ordem, exatamente como outro guerreiro francês, Napoleão Bonaparte, faria 333 anos mais tar­de, e sua primeira prioridade era avaliar o valor de suas jóias e pratarias. O papel das jóias, e mais especialmente das pedras preciosas, ia muito além de dar prazer e garantir status. Jóias eram, acima de tudo. um patrimônio nego­ciável valorizado por casas bancárias e prestamisías, e freqüentemente eram a única garantia aceitável. João tinha empenhado o Sancy para formar um exército, e Carlos pretendia fazer o mesmo caso fosse necessário.

Assim como no caso de seus antecessores, o arqui-inimigo de Carlos era o rei da França — dessa vez Luís XI, apelidado "A Aranha Universal". A des­confiança de Luís por Carlos era igualmente profunda, e sua maior ambição era conquistar o emergente duque da Borgonha e reincorporar os ducados ao reino da França. Ele ao mesmo tempo invejava e temia o poder da Borgonha, e não confiava em Carlos. Luís era um homem de aparência vul­gar, com um grande nariz adunco, uma boca que exibia uma perpétua ex­pressão cie desdém, queixo duplo e olhos desconfiados de pálpebras pesadas. Ele estava determinado a conquistar seu vassalo renegado e iria enredar toda a Europa em sua teia de intrigas em dez anos após a ascensão de Carlos.

Carlos, por sua vez, estava obcecado com conquista, portanto precisava que sua riqueza o ajudasse a atingir seu objetivo. Commines, em defesa de Carlos, escreveu: "Como o dinheiro é o mecanismo pelo qual uma pessoa é capaz de se armar e se garantir contra os caprichos da vida (...) a necessidade de nosso príncipe de dinheiro e de guardá-lo bem não é apenas para ele, mas também para o fruto que poderá ser produzido em um momento mais oportuno."

As gemas de Carlos eram fundamentais para o seu futuro. Governante dinâmico, sempre pensando, planejando com antecedência como atingir seu objetivo de restabelecer o Reino Médio da Lotaríngia, como pretendido por Carlos Magno quando dividiu o Sacro Império Romano entre seus três fi­lhos, Carlos era obstinado nesse propósito. Quando se tornou duque da Borgonha. tinha 34 anos de idade e já havia se casado duas vezes. Sua pri­meira esposa, Catarina da França, filha de Carlos VII e irmã de Luís XI, morreu sem dar um herdeiro a Carlos. Sua segunda esposa, Isabel de Bourbon, deu a ele uma filha, Maria, antes de morrer precocemente.

Desde o princípio parecia haver uma urgência, uma imprudência nas ações de Carlos, como se ele soubesse que estava ficando sem tempo para atingir seus objetivos. Essa urgência acabou sendo sua ruína. Carlos nunca teve nem mesmo a superficial cordialidade de seu pai, que o tinha tornado tão estima­do por seus súditos. Carlos era passional mas reservado, e se mantinha dis­tante de sua corte, sem amigos ou confidentes. Olivier de la Marche certa vez escreveu que o duque tinha "uma indefinível expressão bárbara que se ajustava perfeitamente à sua paixão por tempestades e mares encapelados.

Mas, acima de tudo, Carlos era irresponsavelmente ambicioso e teimo­so, e era conhecido por não aceitar qualquer conselho de seus assessores. Ele era freqüentemente visto vociferando pelos castelos em que vivia, sua capa negra se agitando como velames, gritando ordens, marchando como um urso enjaulado quando não conseguia o que queria imediatamente. Commines afirmou que "nem mesmo metade da Europa o teria satisfeito". Essas carac­terísticas, combinadas com a natureza desconfiada que ele herdara de sua mãe, Isabel de Portugal, chamada de "a dama mais desconfiada que já viveu" pelo pai de Carlos, tornava tumultuosa a vida na corte da Borgonha.

Em 1470, com Bruges florescendo, a extraordinariamente rica Borgonha estava quase que inteiramente desligada de sua suserana, a França. Isso levou Carlos a acreditar que a Borgonha poderia custear seu próprio caminho. No entanto, ele também sentia que seu sucesso dependia do fracasso da França. Para incomodar e desorientar seu inimigo, Carlos afirmou ser inglês, já que era descendente de John de Gaunt. Em outros momentos ele alegou ser por­tuguês, em função de sua mãe. Quanto à França, ele freqüentemente afir­mou: "Desejo que ela tenha seis reis." Uma França menor e mais fraca seria mais fácil de conquistar caso se voltasse contra si mesma em uma guerra ci­vil, raciocinava ele. Seu sonho era estabelecer o reino da Borgonha sobre as ruínas da França real, e em 1474 ele fez um discurso em Dijon definindo como isso seria atingido.

Embora talvez não fosse claro para as outras pessoas, o plano de Carlos foi posto em marcha desde o início de seu reinado. Utilizando o casamento para atingir seus objetivos, em 1467 ele colocou sua filha Maria, de dez anos de idade, à venda, de modo a conseguir alianças políticas confiáveis. De fato, a questão do casamento de Maria constitui um dos casos mais curiosos da história da Europa do século XV Acompanhando a longa e tortuosa procis­são de noivos franceses, austríacos, ingleses e italianos, é fácil acompanhar o raciocínio ousado, as aventuras arriscadas e as coalizões efêmeras de Carlos.

Incapaz de decidir qual candidato potencial seria o melhor aliado no ca­samento com sua filha, Carlos se casou pela terceira vez, em 1470, com Margarida de York, irmã do rei Eduardo IV da Inglaterra, da Casa de York, em uma cerimônia que pecou pela mais proeminente ostentação. A cerimô­nia durou dez dias, com banquetes de trinta pratos duas vezes por dia. Os vestidos cobertos de jóias, os homens elegantemente vestidos e os cavalos cobertos de diamantes foram descritos detalhadamente pelos historiógrafos borgonheses Molinet e La Marche.

Carlos usou seu chapéu com o "maior e mais puro diamante da cristandade" em um engaste de ouro com uma grande pérola oriental pendente dele, preso no centro, acima da sua testa. Georges Chastellain não apenas se refe­riu ao diamante como o mais puro e maior da cristandade, mas também cla­ramente o descreveu como uma pedra em forma de pêra. No século XIX, alguns autores lapidários alegaram que este diamante era o Florentino de cor cítrica, não levando em consideração que um diamante amarelo nunca teria sido descrito como "puro".

Acredita-se que Carlos também usou o Sancy em sua coroação em 1468, embora ele provavelmente tenha sido colocado sob o manto de coroação, e não como ornamento de chapéu. De acordo com vários inventários, Carlos tinha três diamantes com mais de quarenta quilates, e teria usado todos eles no importante momento de seu casamento — simbolizando os laços indestrutíveis com sua poderosa aliada, a Inglaterra.

A Inglaterra e a França tinham encerrado sua Guerra dos Cem Anos ape­nas três anos antes, e durante quase toda uma geração a Inglaterra agonizou em sua Guerra das Rosas, basicamente uma guerra civil estimulada pela ri­validade feudal pessoal entre as Casas de York e Lancaster pelo trono inglês. Unindo-se ao rei inglês de York, Carlos estava lançando um desafio a Luís, aliado do rei inglês de Lancaster, Henrique VI.

Mas a tempestade que se formava sobre a França tinha apenas começado a ganhar força. Luís XI também tinha incorrido na Ira de João II de Aragão ao apoiar a Casa de Anjou contra João. Em outubro de 1469, o filho de João, Fernando, casou-se com a poderosa Isabel, de Castela, que durante seu pró­prio reinado iria ver o apogeu da Inquisição espanhola e financiar a primeira viagem de Colombo ao Novo Mundo. Agora, parecia que a França se en­contraria sob um ataque simultâneo da Borgonha a leste, da Inglaterra ao norte e das duas primeiras províncias unidas de uma nova Espanha ao sul.

A tensa situação na França foi temporariamente amenizada quando Luís desferiu um golpe de mestre em Carlos ao estimular a perfídia do conde de Warwick, chamado na Inglaterra "o Fazedor de Reis", em apoio a Henrique VI de Lancaster. Eduardo IV foi forçado a deixar o país, e recebeu abrigo se­guro na capital comercial de Carlos, Bruges. Com um único golpe, Luís ti­nha não apenas frustrado o plano de Carlos de conquistar a França, mas também prolongado a Guerra das Rosas inglesa.

Carlos retaliou utilizando sua enorme riqueza. Ele deu a Eduardo IV 50 mil coroas (1,8 milhão de dólares ou 1,1 milhão de libras, em valores de hoje) e um exército que permitiu a ele reconquistar a Inglaterra, colocando Luís diretamente nos planos de vingança do rei inglês. Em quatro anos, o pêndu­lo oscilou contra e a favor do duque Carlos.

Carlos, embora menos desonesto que Luís, retratava-se como poderoso defensor de Eduardo IV e de João II de Aragão unicamente para atender a seus próprios objetivos. Uma carta de Carlos para João, datada de 28 de março de 1473, mostra claramente como Carlos foi capaz de dirigir a situação em benefício próprio:


Tendo em diversas oportunidades recebido de meu muito querido irmão e primo o duque da Bretanha o apelo de agir em benefício do rei da França, nosso inimigo comum (...) para acertar uma trégua com ele até 1o de abril de 1473 (...) eu concordei em fazê-lo, mas com a condição expressa de que o nome de Vossa Majestade seja incluído, com vosso consentimento, como um de meus confederados e aliados. (...) Soube também que o dito rei da França estivera propondo enviar contra vós o exército que ficou disponível com a rendição de Lectoure.

Ao tomar conhecimento disso, eu imediatamente enviei mil lanceiros re­crutados na Itália. (...) É minha intenção que essas tropas cooperem com os contingentes borgonheses contra nosso inimigo comum, se ele romper a tré­gua atacando Vossa Majestade.

Eu estarei à frente de minhas tropas para garantir que ele não tenha des­canso. (...) Mandei cartas e mensageiros convocando-os [o rei da Inglaterra e o duque da Bretanha] a uma pressão conjunta. (...)

Espero que nosso inimigo comum saiba que a causa de Vossa Majestade e a minha estão tão fortemente ligadas e nossas políticas tão unificadas que nin­guém pode atacar nenhum de nós sem que o outro intervenha imediatamente.

Com essa carta, Carlos estabeleceu a primeira aliança européia ao estilo Otan. Ele sem dúvida tinha um raciocínio militar, e montara seu exército cuidadosamente, mas não tinha paciência e sutileza para a diplomacia, nem a determinação para liderar um grande exército em combate, o que acabou reduzindo a pó essa máquina militar extraordinariamente poderosa.

Qualquer que fosse a renda de Carlos, ela nunca poderia financiar uma guerra pan-européia. O déficit da Borgonha aumentava ano após ano, da mesma forma alarmante que acontece hoje com os déficits nacionais em cir­cunstâncias semelhantes. Mas, diferentemente de muitos reinos, a Borgonha podia recorrer a fontes de capital externas — adiantamentos de mercadores ou prestamistas que aceitassem apólices e outras formas de garantia, como jóias, em troca de ouro. Devemos ver essas operações paralelas como o mes­mo tipo de manipulação de reservas de ouro utilizadas pelas nações até meados do século XX. Os mercadores de Bruges e Antuérpia eram, simplificando, as reservas de ouro de Carlos.

Entre os mercadores prestamistas — ou banqueiros mercantis, como eles preferiam ser conhecidos — sediados em Bruges estavam vários italianos de Florença, Lucca e Veneza. Eles também tinham aberto lojas em Antuérpia quando o rio Schelt começou a assorear, dessa forma dificultando o comér­cio marítimo a partir de Bruges. Famílias portuguesas como os Rodrigues d'Évora, originalmente judias, foram obrigadas a emigrar durante a Inquisição, e encontraram abrigo em Antuérpia. A grande casa bancária comercial alemã de Fugger também estava estabelecida em Antuérpia. Os Países Baixos — atuais Bélgica e Holanda — eram considerados milagres econômicos de cres­cimento acelerado. Esses mercadores e suas cidades iriam desempenhar um papel crucial no financiamento das guerras do duque Carlos, e depois a maioria deles iria se beneficiar do espólio.

Quando o duque de Lorena morreu em 1473, os objetivos de guerra de Carlos repentinamente se tornaram mais sucintos: anexar o ducado de Lorena. Isso faria dele o governante da antiga Lotaríngia e Burgúndia, estendendo-se rumo ao sul, esperava ele, até a Provença. Manobras clandestinas foram ini­ciadas para obter a herança de René, o duque de Anjou, que era pai da rainha Margarida da Inglaterra, esposa do indeciso Henrique VI de Lancaster, que no momento definhava na Torre de Londres.

Carlos sonhava com Marselha como o porto da Borgonha no Mediter­râneo, como fora no século V E o sonho de reinado, uma vez oferecido como suborno a seu pai Felipe, parecia poder finalmente tornar-se realidade. Como no caso de muitos outros tiranos posteriores, aqueles que conheceram Carlos diziam que ele tinha se perdido em seus delírios de glória e na busca parado­xal de seu destino.

Um tratado de agressão voltado contra a França foi assinado entre Carlos e o rei Eduardo VI de York. A única peça que faltava no quebra-cabeça geopolítico do duque era uma aliança com o Sacro Imperador Romano Frederico III. E, como Napoleão e Hitler, ele equivocadamente se voltou para o Leste antes de consolidar o império no Oeste.

Carlos marcou um encontro com Frederico no dia 20 de setembro de 1473 em Trèves, sob o pretexto de discutir o casamento de Maria com o filho do imperador, Maximiliano. Enquanto contemplava seu próprio cortejo deslumbrante e ostentatório, Carlos confortou-se no fato de que o Sacro Imperador Romano chegou com um séqüito humilde. Os cavalos do duque usavam ador­nos de cabeça e armaduras cravejados de diamantes e selas estofadas de velu- do, enquanto que os do imperador eram selados apenas com fardas de couro. Carlos apeou e saudou o Sacro Imperador Romano de joelhos, iniciando em segredo as negociações para elevar seu Estado ducal a um reino.

Mas o duque dificilmente esperava que Luís XI já houvesse envenenado Frederico contra ele. Após dois meses suportando as exigências exorbitantes de Carlos e os boatos de Luís de que o belicoso duque pretendia se apossar do Sacro Império Romano, Frederico III entrou em pânico e fugiu ao cair da noite de 25 de novembro. Seus barqueiros o transportaram através das águas escuras e geladas do Reno, dando a partida para o próximo movimento de Carlos e Luís.

Inacreditavelmente, Carlos não percebeu a saída indigna do imperador como um mau presságio. Ele estava preocupado com seu próprio desígnio de se tornar rei. Afinal, tudo estava pronto: os tronos, as vestes de coroação, toda a pompa e circunstância adequada a uma ocasião tão importante. Reso­luto, ele se aproximava com vigor renovado do objetivo, segundo La Marche, de "criar um reino para si mesmo". O lema de Carlos — "Eu deitei minhas mãos" — gravado em seu elmo, seus escudos e uniforme, mostrava sua de­terminação.

Assim, quando Carlos fez sua primeira viagem oficial a sua capital, Dijon, no dia 23 de janeiro de 1474, cerca de dois meses depois de Frederico ter fugido para salvar a vida, o discurso que fez nos degraus de pedra do Hôtel de Ville lembrou a seus súditos fiéis que "o antigo reino da Borgonha tinha sido durante muito tempo usurpado pelos franceses e reduzido a um ducado da França, o que deve dar a todos os seus súditos motivos para lamentar".

Era nada menos que uma declaração de guerra. Nas palavras de Commines, "suas idéias eram grandiosas, mas nenhum homem saberia como torná-las realidade".
5

Dando vantagem aos ladrões



1474-1477
Embora Carlos preferisse jóias em sua própria pessoa revestida de se­das e veludos, dessa forma exibindo seu poder, com freqüência suas riquezas foram utilizadas como instrumentos financeiros na compra de armas, ho­mens e alimentos rapidamente, para construir um reino. Supersticioso, ti­nha um medo mortal de ser retratado em pinturas usando suas preciosas jóias e ornamentos, por medo de atrair ladrões ou, mais provavelmente, por medo de que seus inimigos compreendessem a fonte de seu poder.

Suas guerras para se tornar rei do Reino Médio da Lotaríngia (como originalmente pretendido por Carlos Magno) começaram com a assinatura, em 1474, do Tratado de Londres, com seu cunhado Eduardo IV Ele estabelecia a invasão da França por Eduardo, até o verão de 1475, com uma força de dez mil homens. Carlos forneceria outros dez mil para ajudar Eduardo na con­quista da França. O duque também reconhecia Eduardo como rei da França, um título vazio que todos os reis ingleses continuaram usando até Carlos II em 1660.

Enquanto Eduardo preparava seu exército em Calais, última possessão da Inglaterra na França, Luís IX não tinha dúvidas de que Carlos e Eduardo pretendiam destruí-lo. Luís, que nunca conseguiria formar um exército adequa­do para defender a França contra Inglaterra e Borgonha, retaliou, fazendo com que os inquietos vizinhos de Carlos se distraíssem em preocupações com o próximo movimento do instável e temperamental duque. As insinuações e indiretas de Luís funcionaram. O duque de Lorena foi o primeiro a ser incita­do contra o duque da Borgonha, cujaambição, como Luís XI insinuara, era de se tornar o eleitor de Colônia. Em seguida, a Suíça se aliou à Áustria — sua inimiga mortal. Então Luís emprestou à Áustria dinheiro suficiente para que ela pagasse a Carlos as dívidas pelos territórios austríacos na Alsácia. Mas, em vez de devolver essas terras à Áustria, Carlos rapidamente se mobilizou para defender o que ele sentia ser seu por direito, e atacou a cidade de Neuss, na Lorena. Enquanto isso, França e Áustria incitaram os alsacianos a se revolta­rem contra o cruel e tirânico bailio de Carlos, Peter de Hagenbach. Quando de Hagenbach foi brutalmente executado por uma multidão descontrolada, isso provocou uma das fúrias mais incendiárias de Carlos.

Com. suas maquinações, Luís tinha ludibriado Carlos e o levado a desviar os olhos da França. O imprudente duque saiu em disparada para a Alsácia e para a armadilha de Luís, levando consigo para a guerra a maior parte de sua enorme riqueza por quatro motivos: para se proteger da derrota mantendo junto a si seus diamantes "invencíveis"; para exibir seu poder e opulência aos rebeldes empobrecidos; para proteger seus tesouros de roubo; e, mais im­portante, para utilizar sua riqueza, se repentinamente necessário, para finan­ciar sua guerra.

Carlos foi informado por um mensageiro de que o rei inglês estava pre­parando sua invasão para o verão de 1475, como planejado no Tratado de Londres. Em vez de se reunir a Eduardo em Calais, como tinha sido acerta­do, Carlos seguiu combatendo na Alsácia, obcecado com o medo de derrota ou retirada. Commines exprimiu sucintamente o estado de espírito do du­que quando disse: "Deus tinha permitido que seu bom senso e seu raciocí­nio se desordenassem, pois por toda a sua vida ele se esforçou para abrir para os ingleses um caminho até a França, e nesse momento, quando os ingleses estavam prontos, ele permaneceu obstinadamente determinado a embarcar em uma empreitada impossível."

Quando Eduardo e o "melhor exército que já cruzara o Canal" (de acordo com o Calendar of State Papers of England, a relação de documentos oficiais da Inglaterra) desembarcaram, Carlos finalmente suspendeu o cerco de Neuss para se juntar a seu cunhado, deixando seus melhores homens de armas na Alsácia. Durante a maratona de três dias de discussões que se seguiu, o duque amedrontou seu cunhado real, levando-o a acreditar que uma mudança nos planos de batalha seria mutuamente vantajosa, e retornou rapidamente ao encontro de suas batalhas no leste. Assim, enquanto Eduardo avançava suas tropas para o sul, como acordado, Carlos se atolava em Lorena. Nesse ponto, Eduardo IV observava o comportamento de seu cunhado com inequívoca suspeita. Afinal, ele já estava na França havia dois meses sem a ajuda de Carlos. A campanha breve e vitoriosa prometida por Carlos estava se transformando em um pesadelo para Eduardo: os franceses resistiam resolutamente, enquanto as baixas por ferimentos e doenças nas tropas eram numerosas. Carlos, por sua vez, permanecia inteiramente absorto em suas batalhas encarniçadas contra o duque de Lorena, ignorando seu principal aliado.

Eduardo decidiu que não tinha outra escolha a não ser agir no melhor interesse da Inglaterra, e mandou dizer a Luís que gostaria de abrir negocia­ções sobre um tratado entre seus dois países. Luís estava em seu elemento, e deu início às negociações clandestinas. Eduardo colocou seus termos na mesa imediatamente: se, em duas semanas, Luís pagasse a ele 75 mil coroas — a quantia gasta na guerra até aquele momento — e garantisse a Eduardo uma pensão anual vitalícia de 50 mil coroas, o rei inglês ficaria feliz em fazer a paz. Luís concordou, desde que seu filho pudesse desposar uma das prince­sas inglesas, à qual seria concedido um dote de 60 mil coroas. Eles apertaram as mãos no ato para selar o acordo, e a Guerra dos Cem Anos entre a França e a Inglaterra finalmente chegava ao fim.

Quando Carlos tomou conhecimento do acontecido, ficou furioso e par­tiu na direção do acampamento de Eduardo, censurando seu cunhado por ser um vira-casaca. Eduardo replicou no mesmo tom, criticando Carlos por não honrar o Tratado de Londres. Carlos partiu em cólera, afirmando que não precisava dos ingleses para atingir seus objetivos, e que não faria a paz com a França antes de pelo menos três meses após a retirada do exército inglês. Eduardo deixou Carlos com seu acesso de raiva e voltou para a Inglaterra.

Tomando o lugar da Inglaterra contra a França juntamente com seus outros aliados, como o rei de Nápoles e João de Aragão, Carlos batalhou. Contudo, continuava obcecado com as insurreições na Lorena e na Suíça, e determinado a seguir lutando até que a vitória fosse sua.

Sem a ajuda financeira de seus aliados, as jóias de Carlos precisavam ser­vir a seu objetivo primordial: comprar exércitos mercenários. Mas, por ser o símbolo máximo do poder, o Sancy permaneceu em posse de Carlos. Carlos submeteu Lorena com mão sanguinária e vingativa, tornando inevitável uma guerra em grande escala entre a Suíça e a Borgonha. O duque não tomou nenhuma iniciativa diplomática, e na verdade apreciava a perspectiva de uma batalha encarniçada.

Em janeiro de 1476, Carlos iniciou sua primeira campanha nos cantões suíços com 15 mil homens cuja lealdade fora comprada com seu ouro e suas jóias. O duque fez seu primeiro ataque cruel e impiedoso em Grandson, onde suas forças vitoriosas executaram por enforcamento quatrocentos de­fensores da cidade e jogaram centenas de outras vítimas no lago para que se afogassem. Estimulado por essa cruel vitória, ele então marchou para Neufchâtel.

Os cartões suíços, que por séculos haviam acordado em sair em auxílio uns dos outros, tinham criado um exército confederado e marcharam juntos ao encontro cio tirano borgonhês em Neufchâtel. Eles expulsaram as desba­ratadas forças de Carlos de volta a Grandson em 2 de março. Segundo todos os relatos, na manhã seguinte uma pesada neblina cobria o lago, que acom­panhava toda a extensão direita da planície que se tornaria o campo de bata­lha. As forças de Carlos foram apanhadas de surpresa pelos suíços, que chegaram por uma ravina e partiram para o ataque soando suas trombetas, que reverberavam contra as encostas das montanhas. O alarido era ensurde­cedor e desorientou os borgonheses. Carlos, fatalmente, ordenou que seus homens cedessem terreno, alegando mais tarde que suas ordens foram mal compreendidas, e provocou um pânico geral. Os borgonheses foram empur­rados para trás — alguns para o rio, outros para dentro do lago e dos pânta­nos próximos. O ataque suíço em uma passagem na montanha implicara não permitir liberdade de manobra, e isso fez dos borgonheses presas fáceis. De acordo com o cronista Paradin (1510-1567), "todos pareciam fugir em uma maravilhosa desordem, como se eles estivessem sendo escorraçados do local por alguma força invisível. Os borgonheses fugiam mais rápido do que os suíços eram capazes de perseguir".

Os exultantes suíços infestaram o acampamento de Carlos e passaram os três dias seguintes em uma orgia de saque e violação dos maiores tesouros da época. De acordo com o cronista de Carlos, Molinet, que foi feito prisionei­ro pelos suíços em Grandson, "e o duque René de Lorena, extremamente contente e orgulhoso de seu povo, passou a noite no acampamento do du­que Carlos da Borgonha, que ele descobriu ser bem servido de provisões, anéis, jóias, prataria e utensílios. E em retribuição por seus serviços presta­dos aos suíços, estes deram a ele um parque e os despojos de guerra dos borgonheses, como os que ele encontrou no campo de batalha".

O cronista suíço Jean de Troyes relatou: "Foi aqui que ele perdeu toda a sua riqueza — ouro, prata, jóias, tapeçarias, toda a sua artilharia, barracas, pavilhões e tudo o que tinha levado para Grandson."

Olivier de la Marche, que foi um servo leal de Carlos até o amargo fim, escreveu pouco depois de se reunir a seu derrotado mestre de volta do cam­po de batalha: "O duque está terrivelmente triste e bastante melancólico por ter perdido neste dia, em que seus ricos anéis e jóias foram arrancados de seu exército destruído. Os suíços ganharam, neste dia de batalha, jóias, o palácio arborizado do duque com sua prataria mui rica, todos os seus pavilhões, as tapeçarias e riquezas do duque Carlos."

Mas talvez tenha sido Commines, que raramente escreveu em detalhe sobre as jóias ou a fortuna de Carlos, e que já tinha deserdado seu mestre borgonhês pela proteção de Luís XI, quem resumiu melhor a situação quando escreveu: "Agora podemos ver como o mundo mudou depois des­ta batalha."

É, porém, Paradin que nos revela o destino do Sancy naquele dia, quan­do conta a história do que se passou com ele. Ele interpreta para a posterida­de a exata importância da perda de poder de Carlos quando escreve:
Como, nesta viagem específica, ele [Carlos] teve de levar consigo tudo o que tinha, de modo a demonstrar sua excessiva grandeza para os estrangeiros. (...) A perda em que o duque incorreu neste dia foi estimada em termos monetá­rios em trinta vezes cem mil écus [2,2 bilhões de dólares ou 1,4 bilhão de li­bras, em valores de hoje], que tornaram os suíços ricos, já que eles nunca antes haviam tido conhecimento deste tipo de riqueza e do valor do butim: ao separarem o butim, eles dividiram em pedaços os mais belos e suntuosos pavilhões que o mundo já vira e que eles poderiam revender bem caro para seu lucro pessoal. (...) Entre eles havia um soldado suíço que pegou o porta-jóias particular em que estava o grande diamante do duque, com uma grande pérola pendendo dele. Ele tirou o diamante da caixa, olhou para ele, então recolocou-o na caixa, jogou-a sob as rodas de uma carroça que passava e de­pois foi pegá-la. Ele a vendeu para um padre por um florim, e o padre o deu a seus mestres, que pagaram a ele três francos pelo objeto. Há um enorme mercado para isso, o mais belo dos diamantes da cristandade. É um de três jóias de tamanho inacreditável. O primeiro é chamado Os Três Irmãos, o se­guinte, uma jóia chamada La Hotte, e o terceiro um rubi-balache chamado La Balle de Flandres [o Sancy], que são as mais belas pedras que alguém pode sonhar encontrar.
O relato de Paradin produziu séculos de confusão acerca da perda do Sancy em Grandson. Ele se refere corretamente pelo nome às três maiores jóias pertencentes a Carlos, mas se equivoca — sem dúvida não intencional­mente — em sua descrição. O Três Irmãos era uma grande jóia de rubi e diamante, reputada principalmente pelos rubis. La Hotte era um enorme rubi, não um diamante. Ao se referir ao "rubi-balache chamado La Balle de Flandres" ele confundiu o Belle balais de Flandres [o belo rubi-balache de Flandres] com o diamante La Balle de Flandres. Os mais belos diamantes da cristandade sem dúvida foram perdidos naquele dia em Grandson — juntamente com os mais belos rubis —, mas Paradin, infelizmente, não legou à posteridade uma des­crição sólida na qual confiar. É certo que Carlos mandou criar um novo ar­ranjo para La Belle Fleurde Lys de Flandres, o diadema originalmente produzido para João Sem Medo, do qual ele poderia extrair La Balle de Flandres (o Sancy) para usá-lo isoladamente. Mas isso não é motivo para descartar inteiramente o relato de Paradin.

Enquanto Carlos fugia em um estado quase catatônico, os cantões con­cordaram entre si em compilar uma lista completa do butim, conhecido como Burgunderbeute, ou Butim da Borgonha, que descreve em minúcias quem pegou o quê de quem e quanto do que tinha sido pego foi entregue. Os sol­dados suíços seriam condenados à morte se não entregassem sua parte no saque. Centenas de páginas descrevem a fortuna que Carlos levou consigo para Grandson e perdeu de forma tão despropositada naquele dia.

No butim levado a Lucerna, onde seria dividido igualmente entre os suíços, estavam potes, baixelas, tigelas, canecas e outros utensílios de prata, talheres de ouro e castiçais que foram pesados e avaliados em quatro quintais (o que corresponde a cerca de 240 quilos em prata ou ouro). Mas para cada item contabilizado em Lucerna estima-se que 99 outros itens de valor ines­timável foram desviados pelos soldados suíços vitoriosos. Mesmo pela avaliação suíça mais conservadora, apenas um centésimo do butim foi docu­mentado. O butim de Lucerna continha alguns mantos de prata e ouro, ou­tras roupas e tecidos de seda e ouro e muitas iguarias que os empobrecidos suíços nunca tinham visto antes e que tiveram dificuldade de descrever em um registro escrito. Havia também muitas grandes tapeçarias, uma das quais era inteiramente feita de fios de ouro, com seis belas pérolas e seis grandes rubis costurados, juntamente com uma relíquia religiosa.

Alista do Burgunderbeute é impressionante, descrevendo com eficiência suíça quem adquiriu quais peças, a qual contingente suíço elas pertenciam, o núme­ro de homens naquele contingente e por fim as próprias peças, da melhor for­ma possível. Previsivelmente, embora haja mais de cem jóias mencionadas no Burgunderbeute, há poucos diamantes grandes. Há, porém, referência a um dos diamantes do duque da Borgonha e seus acompanhamentos, descritos como "inestimáveis". Diz-se do diamante que é como a "metade de uma noz", engastado em ouro com duas grandes pérolas pendendo dele, como um pingente que poderia ser separado do diamante por um fecho. Ele estava inserido em um conjunto com sete grandes diamantes, sete grandes rubis e 15 grandes pérolas, e foi descrito como "algo maravilhoso e inestimável".

Poderia este ser o Sancy, anteriormente descrito como "uma noz"? Não há registro de Carlos haver cortado o grande diamante, nem teria ele motivo para fazê-lo. Embora haja diamantes e outras jóias inestimáveis nesta lista, nenhuma das grandes jóias de Carlos aparece, e certamente as três grandes jóias descritas por Paradin não estão nesta abrangente e impressionante litania da fenomenal riqueza do duque. Não consta a jóia da Ordem do Velo de Ouro. A jóia Rosa Branca, presenteada a ele por seu cunhado, não está em parte alguma. O Federlin, ou pequena pluma, que sabidamente esteve em posse dele, não aparece. La Hotte e La Balle de Flandres, ou o diadema La Belle Fleur de Lys de Flandres, não são mencionados. Se a precisão suíça determinava que todo o butim precisava ser registrado sob pena de morte, então certamente todo o saque estaria na lista.

Portanto, parece provável, tomando como ponto de partida Paradin, Schilling e outros cronistas suíços, e considerando onde o Sancy reapareceu depois, que o "padre" citado era um padre do bispado de Basiléia. Embora Basiléia tenha contribuído com seu próprio contingente de homens para a batalha como um parceiro menor na empreitada suíça, era amplamente sabi­do que não iria receber uma parcela "integral" do butim. O padre, tendo confirmado que o diamante era real quando ele não se despedaçou ao ser jogado sob as rodas da carroça (já que a "indestrutibilidade" dos diamantes não era questionada na época), teria procurado o bispo ou seu camareiro para dar a ele as boas novas de seu achado. O padre se sentia plenamente recom­pensado, já que não tinha idéia de seu valor. O bispo, porém, diante do ex­traordinário butim dos Três Irmãos, La Hotte e La Balle de Flandres (o Sancy), sabia precisamente o que fazer. Os termos da divisão do espólio estabele­ciam que tudo precisava ser transportado para Lucerna, e lá dividido igual­mente entre todos os participantes da batalha, do mesmo modo que em quaisquer outras batalhas por vir. A escolha do bispo de Basiléia era simples; ele ficou quieto, não fez nada, e esperou.

Nove meses depois de perder seus preciosos tesouros em Grandson, Carlos travou sua última batalha, em Nancy, onde foi irremediavelmente derrotado e golpeado até a morte pelo povo da cidade quando jazia, mortal­mente ferido, no campo de batalha.

A notícia correu de boca em boca pela Europa como relâmpago. O pode­roso duque Carlos perdera seus diamantes indestrutíveis, sua riqueza e um reino como o qual outro não havia. Ele certamente devia ter sido amaldi­çoado para chegar a tal fim.

Enquanto isso, o Sancy e as outras gemas encontradas no porta-jóias es­magado de Carlos, o Temerário, permaneceriam trancadas em segredo por outros 14 anos.
6

O diamante desaparece



1476-1507
Bem escondida nos arquivos de Basiléia há uma nota de venda secreta, datada de 1504, para Jacob Fugger, dono de uma grande casa bancária co­mercial sediada em Augsburg, Alemanha, pela compra de quatro jóias do bispado de Basiléia. A forma de pagamento, o momento em que a venda deveria ser concluída e as condições pelas quais Jacob teria acesso às jóias estão todos determinados neste documento secreto.

O Ehrenspiegel (inventário) de Fugger de 1508 descreve essa transação e nos dá a primeira pista do paradeiro do Sancy:

Os suíços o [Carlos] derrotaram inteiramente, dispersaram seu exército, to­maram todos os seus valores, armas e bens valendo bem mais de dez vezes cem mil gulden, ou florins. O valor da prataria passou despercebido, pois os suíços acreditaram que era peltre. Os esplêndidos pavilhões de seda e outros itens domésticos magníficos fizeram parte do butim suíço. Qualquer que te­nha sido a forma de distribuição do saque, ele de alguma forma incluiu o gran­de diamante ogival, o que era conhecido em toda a cristandade [o Sancy]. A jóia Três Irmãos, desse modo chamada por seus três grandes rubis de mesmo tamanho, espessura e peso, também estava no butim. Ela é ornada com três das maiores pérolas orientais, de acordo com o antigo costume. O primeiro diamante [o Sancy] não foi vendido imediatamente, mas em segredo, alguns anos mais tarde. A jóia seguinte foi oferecida a Jacob Fugger, conhecido em toda parte por sua enorme fortuna. Embora esta jóia, com suas pedras puras, tão grandes e magníficas, tenha também pertencido ao duque da Borgonha, o mesmo Jacob Fugger comprou, como descrito a seguir, a gema, mais um rubi e uma gema embutida, por 47 mil florins [34,2 milhões de dólares ou 21,4 milhões de libras] do cidadão suíço Kauffweiss e a manteve por alguns anos.
O Ehrenspiegel de Fugger, como todas as crônicas da época, retrata os suíços como desinteressados do butim tomado nas batalhas em Grandson, Morat e Nancy. Em verdade, o fato de que eles dividiram fisicamente as inestimáveis tapeçarias que caíram em suas mãos em vários pedaços comprova isso. Em­bora o bispo de Basiléia soubesse que o Sancy era precioso, ele provavelmente não tinha consciência do verdadeiro valor de mercado de tal gema, ou das outras jóias em seu poder. Sabiamente, o bispo esperou... e esperou. O Butim da Borgonha foi calculado, registrado e partilhado em Lucerna, enquanto cada vez mais "soldados" suíços vestiam blusões de ouro e seda, comiam em pra­tos de ouro, montavam belos cavalos e ostentavam outras formas de riqueza bem acima de suas possibilidades.

À medida que a riqueza acumulada no país começou a desaparecer com os anos, o bispo supôs que as jóias em seu poder eventualmente seriam es­quecidas, assim como os cantões se "esqueceram" de perseguir aqueles que tinham escancaradamente roubado o Butim da Borgonha. O sagaz e caute­loso bispo sabia que, quando chegasse o momento de vender sua reserva pre­ciosa, deveria fazê-lo por intermédio de um colega suíço. Isso daria a ele mais poder ao ameaçar o comprador com o fogo do inferno e a danação, para não falar na pena de morte como lavrado no Édito de Lucerna de 21 de março de 1477, que estabelecia as punições para todos aqueles que roubaram do Butim da Borgonha.

E foi assim, em 1491, 15 anos após a derrota de Carlos, como mostram os registros de Basiléia, que o Sancy, descrito como "um enorme diamante branco do tamanho de uma noz", foi vendido para a família Hertenstein, mercadores de Lucerna, por pouco mais de 5 mil florins (606 mil dólares ou 379 mil libras, em valores de hoje). Os Hertenstein não eram uma das gran­des famílias de banqueiros mercantis que dominavam o comércio europeu na época, e nunca teriam acesso a tal capital. Eles podem ser mais bem des­critos como intermediários atuando como agentes na obtenção de pequenos lucros do que como mercadores internacionais agindo em benefício de gran­des famílias como os Fugger.

Hertenstein, embora não fosse um especialista em jóias finas ou diaman­tes, certamente sabia como conseguir um elevado lucro com aquela oportu­nidade. Ele nunca cogitaria ser um vira-casaca e receber uma recompensa insignificante por notificar os cantões da falha do bispo. Ele saberia exata­mente quem o compraria dele fora da Suíça pelo maior valor — e pode muito bem ter sido o intermediário do comprador eventual. Com o idioma sendo uma barreira, e os relacionamentos comerciais, outra, Hertenstein teria uma preferência natural por um colega mercador de língua alemã. E o maior de­les era Jacob Fugger.

Jacob era a estrela mais brilhante do negócio da família, que levou ao auge no início do século XVI. Os Fugger não eram uma das antigas e bem rela­cionadas famílias comerciantes de Augsburg como os Welser, os Herwart ou os Lagenmantel. De acordo com seu testamento de 1409, o mercador de te­cidos Hans Fugger deixou uma considerável fortuna de 3 mil florins, mas ainda bem menos do que era necessário para criar um grande império ban­cário mercantil. O filho mais novo de Hans, Jacob (o Velho), um homem modesto e trabalhador, casou-se com a filha do tesoureiro de Augsburg, que, de acordo com o biógrafo de Fugger, Victor von Klarwill, "tinha ótimas rela­ções e ligações comerciais com todos os tipos de mercadores". O sogro de Jacob acabou no Tirol, para onde Jacob e sua esposa seguiram, fazendo a primeira fortuna da família minerando prata.

Com sua morte em 1469, seus três filhos mais velhos — Ulrich, Georg e Peter — continuaram no negócio da família. Os dois mais novos, Marcus e Jacob, destinavam-se a ingressar na Igreja. Mas quando Peter morreu su­bitamente em 1473, o atormentado Jacob abandonou a perspectiva de se tor­nar padre para ingressar nos negócios da família. Aos 14 anos de idade, Jacob freqüentava a Fondaco dei Tedeschi (a Fundação Alemã) em Veneza, estu­dando administração, como faziam tantos jovens alemães, com a vantagem extra de observar os negócios da família em ação em seu escritório e depósi­to de Veneza. À época de sua maioridade, Jacob demonstrou uma aptidão para os negócios muito superior à de seus irmãos mais velhos. Ele era como um mestre de xadrez, sempre pensando três movimentos à frente de seus oponentes e sempre vencendo. Dizia-se que não ocorria nenhuma grande transação na Europa sem o conhecimento de Jacob Fugger, e que se ele pu­desse cavar um papel para a Casa de Fugger em qualquer transação com lu­cro financeiro ou político, ele o faria.

Quando Georg morreu em 1506, seguido pouco depois por Ulrich, Jacob se descobriu o único encarregado pelo império da família. Quieto, altamen­te inteligente, e ponderado, Jacob conseguiu capitalizar com o relacionamento que Ulrich primeiramente cimentara com o Sacro Imperador Romano Habsburgo Frederico III em 1473, quando Jacob forneceu o traje de seda fina para a audiência de Frederico com Carlos, o Temerário, em Trèves. Não há dúvida de que Jacob acompanhou a derrota de Carlos com um olho na oportunidade, especialmente já que o genro de Carlos, Maximiliano I, era o monarca reinante com quem ele tinha de negociar a questão das minas de prata e cobre do Tirol.

Em 1496, Jacob abriu mão de seus prudentes acordos de financiamento usuais e concordou em adiantar 121.600 florins (14,7 milhões de dólares ou 9,2 milhões de libras, em valores de hoje) para sustentar a tolice de Maximiliano de ser coroado Sacro Imperador Romano em Roma. O único motivo para o sábio financista se envolver em um episódio tão custoso teria sido ganhar vantagens políticas. No final, Jacob precisou adiantar apenas 40 mil florins no total, o que teria sido um perfeito investimento na expansão de seu império financeiro na Itália.

Então, quando um diamante descrito como "do tamanho de uma noz" foi vendido para Hertenstein, há pouca dúvida de que Jacob Fugger sabia da transação e era um dos poucos comerciantes da Europa com meios políticos e financeiros de comprá-lo, Como freqüentemente era o caso, não sobrevi­veu nenhuma nota de venda, se é que houve alguma. A transação pode facil­mente ter sido parte em dinheiro, parte em favores, ou um acerto por muitas contas não pagas, e talvez nunca saibamos como foi.

Em 1502, Jacob foi abordado por "homens de confiança" e abriu nego­ciações diretamente com o bispado de Basiléia para comprar outras quatro jóias que tinham sido escondidas juntamente com o Sancy. Isto é em si uma outra prova de que o bispo acreditava que Jacob seria o comprador final do Sancy, e um dos pouquíssimos homens com uma fortuna suficiente para adquirir em segredo suas jóias remanescentes. Jacob estabeleceu um flores­cente comércio com o papa a partir de 1500, e já era conhecido como o "ban­queiro do papa". Ele também era banqueiro dos Habsburgo e de Maximiliano.

Tendo inicialmente sido treinado para a Igreja, Jacob falava a língua do prelado, e foi recomendado a todos os outros opulentos curas como "um homem com quem é possível fazer negócios". O bispo não poderia desejar uma recomendação melhor do que a fortuna ou a discrição de Jacob. Em 16 de setembro de 1504, a nota de venda secreta entre Basiléia e Jacob Fugger foi assinada, dando a Jacob direito às outras quatro jóias "do tesouro de Carlos, o Temerário", especificamente:


  1. A Ordem da Jarreteira, um colar da ordem criada por Eduardo III que em 10 de janeiro de 1459 Eduardo IV rei da Inglaterra, conferiu a seu futuro cunhado Carlos da Borgonha;

  2. A Rosa Branca, que representa o brasão de armas da família real de York, reis da Inglaterra, feita de pedras preciosas; provavelmente também um presente de Eduardo IV rei da Inglaterra;

  3. O Federlin (ou Pequena Pluma), um pequeno alfinete de chapéu compos­to de pedras preciosas e mais de setenta pérolas, também proveniente de Eduardo IV rei da Inglaterra;

  4. Os Três Irmãos, com rubis adquiridos por João Sem Medo; a jóia, criada por Felipe, o Bom, foi herdada por Carlos, o Temerário, duque da Borgonha.

O preço de compra destas jóias foi de 40.200 florins renanos (10,7 mi­lhões de dólares ou 6,7 milhões de libras, em valores de hoje), dos quais 19 mil florins seriam pagos em ouro e o restante em moedas de prata cunhadas em Milão, Zurique, Lucerna, Friburgo, Saint Gallen ou no distrito suíço de Vaiais. Até que toda a quantia fosse paga, as jóias permaneceriam com o ven­dedor, e os Fugger teriam autorização para ver as gemas, mas não para alterá-las de modo algum. Seriam cobrados juros sobre os extraordinários valores a pagar, e a venda deveria ser concluída dentro de cinco anos.

As negociações, assim como o acordo, foram mantidas inteiramente em segredo. A maior parte do dinheiro de Jacob Fugger foi utilizada especial­mente para pagar dívidas da cidade de Basiléia com Estrasburgo, por servi­ços que Estrasburgo tinha prestado à cidade suíça fronteiriça. Uma parcela dos pagamentos foi feita em ouro, e foram cobrados juros de 3% sobre os pagamentos em moedas de prata feitos ao longo do tempo. No dia 15 de outubro de 1506, três "homens de confiança" da Casa de Fugger chegaram com a prestação final de prata e tomaram posse das jóias.

Mas por que motivo Jacob colecionaria tantas gemas valiosas da herança do último grande duque da Borgonha? Certamente Jacob era conhecido por sua aversão a bens de luxo pessoais e por sua tradicional prudência. Ele che­gou mesmo a ignorar o título de "Conde" quando lhe foi oferecido mais tar­de. Um motivo pode ter sido criar, por intermédio das gemas, uma "reserva de capital" facilmente transportável nos tempos tumultuosos em que vivia. Contudo, há pouca dúvida de que Jacob Fugger vira naquelas gemas fabulosas o valor de instrumentos de poder político e financeiro, a serem empunhados para ampliar seu próprio império financeiro e a Casa de Fugger.

Em janeiro de 1502 surgiu um provável "comprador" para o grande dia­mante de Flandres. Dom Manuel I, rei de Portugal, que nos sete anos ante­riores consolidara um tremendo tesouro real para a emergente talassocracia de Portugal, tornou-se o próximo alvo financeiro de Jacob.
7

Os reis e as casas comerciais



1507-1522
O mundo cristão estava mudando rapidamente desde a morte de Carlos, o Temerário, em 1477. O genro de Carlos, Maximiliano I, consolidou o império borgonhês e o acrescentou ao seu próprio, que se estendia do rei­no de Nápoles até a Áustria, no leste, com os principados de Milão, Floren­ça, Gênova e Veneza permanecendo independentes. Os franceses expulsaram os ingleses de suas costas, mas permaneciam fracos e divididos por senhores da guerra provinciais. Henrique VII, o primeiro rei Tudor, usurpara o trono inglês, pondo fim a todas as esperanças de uma ressurreição da Guerra das Rosas entre as casas de Lancaster e York. Fernando de Aragão e Isabel de Castela unificaram suas coroas por uma Espanha unida, e puseram seu zelo religioso em prática intensificando a infame Inquisição espanhola em 1492. Os portugueses, sob os auspícios do papa e da onipresente Igreja católica, desde a época de João II (1481-1495), antecessor do então monarca dom Manuel (1495-1521), escravizavam ou expulsavam os mouros de suas ter­ras. E o diamante Sancy desempenhou seu próprio importante papel no co­ração do poder, nas areias movediças que mudaram a civilização ocidental.

Como condição contratual para que dom Manuel I desposasse a filha mais velha de Fernando e Isabel (também chamada Isabel), ele também teria de instituir a primeira Inquisição oficial, e ela foi decretada em 1497 contra os judeus. Alguns foram afortunados o bastante de escapar para Flandres, en­quanto outros foram convertidos à força ao cristianismo e passaram a ser conhecidos como "marranos" por seus irmãos.

Essa conversão forçada em massa e a expulsão do que era a classe mer­cantil de Portugal combinaram-se com outros fatores para precipitar mudan­ças comerciais que estavam em marcha por toda a Europa. Bruges lentamente perdia sua proeminência para Antuérpia, à medida que o progressivo assoreamento de seu rio, o Shelt, dificultava o acesso a ela por mar. Os venezianos, que por séculos tinham mantido o monopólio da importação da maioria dos artigos de luxo do Oriente e da índia, foram eclipsados pela mais importante mudança de poder — o surgimento da Era das Navegações e o domínio de Portugal.

O tio materno de Carlos, o Temerário, o príncipe Henrique, o Navega­dor, iniciou a sede portuguesa de exploração. O simples desejo de descober­ta científica freqüentemente atribuído a Henrique na verdade estava inextricavelmente relacionado a sua compulsão de combater os muçulma­nos em sua própria terra em uma Santa Cruzada não-oficial. Imperativos comerciais que surgiram com o crescimento do Estado português e do orgu­lho nacional sob o reinado de João II foram transmutados em uma busca insaciável por uma rota alternativa para o rico comércio de especiarias da índia, e na formação de um mercado de escravos na África. Grande parte dessa expansão comercial foi racionalizada pela necessidade de converter os povos "não iluminados" da África e da Ásia ao cristianismo.

O rei Fernando e a rainha Isabel de Aragão e Castela financiaram a via­gem do genovês Cristóvão Colombo às Índias Ocidentais em 1492. Dom Manuel I de Portugal financiou as viagens de Vasco da Gama à Índia em 1497 e 1500, abrindo pela primeira vez uma rota de comércio marítima que amea­çava o monopólio veneziano.

Mas o financiamento dessa fenomenal Era das Navegações não saiu, como normalmente se acredita, dos tesouros reais dos reinos da Espanha e de Por­tugal, mas de banqueiros mercantis chamados Fugger, Affaitadi, Rodrigues d'Évora, Schetz, Hochstetter, Médici, Strozzi e Balbani, entre muitos ou­tros. E o viveiro para essas transações financeiras não era Madri, Lisboa, Veneza ou Nápoles. Era Antuérpia — o novo centro comercial de Flandres.

Quando a Era das Navegações ainda estava em sua infância, na última década do século XV e na primeira década do século XVI, o mapa da Europa e as poderosas dinastias governantes foram redesenhados e transformados por intermédio de casamentos e guerras. Apesar de todos os esforços de Luís XI para usurpar a herança de Maria da Borgonha após a morte do duque Carlos, Maria desposou o filho do Sacro Imperador Romano Maximiliano como Carlos tinha planejado, e juntos governaram Flandres, Holanda, Zelândia e outras regiões do antigo império borgonhês. Com a morte pre­matura de Maria, suas terras na Borgonha e seus títulos foram incorporados ao Sacro Império Romano de Maximiliano, outorgando-lhe direito, por in­termédio de sua herança real, à Áustria e a regiões da Alemanha e de Nápoles.

O filho de Maximiliano e Maria, Felipe, o Justo, assumiu o título de rei da Holanda, e a partir de 1504, com a morte da rainha Isabel de Castela, her­dou a coroa de Castela através de seu casamento com Joana, a Louca (outra filha de Fernando e Isabel) e tornou-se Felipe I da Espanha. Por intermédio do casamento, e sem derramamento de sangue, Maximiliano alcançou uma herança com a qual muito sonhara o avô de Felipe, Carlos, duque da Borgonha.

Enquanto Maximiliano consolidava seu novo império terrestre através da guerra no leste contra a Hungria, dom Manuel I de Portugal criava um domínio nos mares que tornaria seu país mais rico do que qualquer outro da Europa durante trinta anos. Em 1517, dom Manuel presidia um império comercial no Brasil, na costa ocidental da África, conhecida como costa da Guiné, em Moçambique, Congo, Angola, Málaga, Molucas, Goa e Hormuz, e tinha descoberto as ilhas de Madagascar, Tristão da Cunha, Cabo Verde e Santa Helena (onde morreu Napoleão). Postos comerciais foram estabeleci­dos através de uma brutal cruzada messiânica contra os muçulmanos, que eram os principais parceiros comerciais da Ásia. Ouro, pedras preciosas, prata, seda e especiarias eram empilhados em navios portugueses e levados para a pátria. A supremacia portuguesa era inteiramente atribuída a seus lendários comandantes, como Albuquerque, Cabral, da Gama e Magalhães, bem como aos desconhecidos heróis portugueses fabricantes de navios e armas que equi­pavam barcos ágeis com armas e canhões superiores à capacidade do inimigo.

Contudo, o próximo dono do Sancy, dom Manuel I, continuava a ser uma figura obscura, eclipsada pelos familiares nomes dos navegadores e co­merciantes aventureiros da época. O historiógrafo humanista Damião de Góis descreveu dom Manuel em 1567 como:


[Um] homem de boa estatura, com um corpo mais delicado e refinado que largo, com uma agradável cabeça redonda e cabelos castanhos. Seu cenho se projeta, lançando uma sombra sobre seus vivos olhos castanhos. Ele tem um sorriso branco e belos lábios, braços fortes, tão belos e longos quanto os dos cavalheiros mais fidalgos. Suas pernas são ricamente adornadas e bem forma­das, bem proporcionadas em relação ao corpo, e nenhum homem poderia ser mais belo que ele.
Os livros ilustrados e as crônicas de Rui da Pina descrevem o rei mais como pessoa que em seus atributos físicos.
Este rei dos homens trabalha muito e duro, e continua a escrever seus despa­chos nas primeiras horas da manhã. Come pouco, e bebe apenas água. De início importava pouco a ele se era rico ou pobre, e foi apenas muito mais tarde que passou a acordar antes do amanhecer e que seu mau humor surgiu. Foi quando ele caiu no vício do luxo e da ostentação, e passou a ignorar os riscos da Índia. A única coisa que ele obviamente apreciava era música e dan­ça. Ele freqüentemente reclamava que gostaria de viajar para a Ásia, mas quan­do seus conselheiros o convenceram da necessidade de permanecer em Portugal, seus navios trouxeram para ele cinco elefantes e um rinoceronte da África e cavalos persas da Ásia.
Manuel tinha uma colossal corte de cinco mil pessoas. Ele tinha agudo interesse pessoal na vida comercial, tendo estabelecido a Casa das Índias em Antuérpia para a segunda viagem de Vasco da Gama. A Casa das índias era efetivamente o monopólio estatal para a venda e distribuição de todos os bens e produtos importados pelo império português em expansão. Freqüentemente ouvia-se dom Manuel referir-se a "seus lugares por lá" com um floreio de mãos e olhando para o mar. Esses "lugares" eram basicamente igrejas, palácios, postos comerciais e fortalezas em seus domínios além-mar. Para dom Ma­nuel importava pouco se esses locais eram edifícios completos ou não, já que, a partir do momento em que estavam em construção, eles representavam uma extensa fonte de renda — um subsídio pessoal — para seu bolso real.

De acordo com o historiógrafo contemporâneo Virgílio Correia, "a Era Manuelina criou mais que romance". No entanto, como acontece com tan­tos governantes desligados do espírito do país e de suas necessidades, foi no reinado de dom Manuel que se lançaram as sementes da rápida destruição do breve império de Portugal.

Em seu Origens da Inquisição portuguesa, Alexandre Herculano retrata o Portugal de dom Manuel como uma terra corrompida:
Os abusos administrativos e judiciais praticados em todos os casos eram mais que menos, e principalmente no mundo secular, embora o mundo eclesiás­tico fosse quase tão ruim quanto. Nosso reino se tornou índolente e vivia opulentamente, desconhecendo a arte de fazê-lo. Nosso predominante erro de avaliação em todas as classes, com conseqüências fatais, roubou de nós o respeito próprio, produziu desarmonia e miséria interna. Nosso gosto pela luxúria se tornou feroz e não conhecia limites. Nossos fígados reclamavam dos excessos, da mesma forma que o braço de uma pessoa sofre com o esfor­ço de trabalhar duro na terra. A cada viagem, este rei iria buscar sua próxima vítima entre nosso pobre povo para descobrir quem ele poderia usar para rea­lizar seu último capricho.
Dom Manuel sem dúvida era um rei de gastos pródigos. Apelidado "o Aventureiro" pela posteridade e "o Venturoso" em vida, ele estava determina­do a não ser ofuscado por nenhum outro monarca. Egoísta, poderoso e obsti­nado, dom Manuel criou uma corte sem paralelo na história européia por sua riqueza e desperdício frívolo, e o jovem rei via apenas os prazeres que a rique­za oferecia a ele pessoalmente, não como ela podia beneficiar seu povo.

O sonho mais docemente acalentado de dom Manuel era unir os reinos da Península Ibérica sob seu comando — um sonho que ele esteve perto de realizar. Tendo testemunhado como Maximiliano consolidara sua base de po­der desposando Maria, duquesa da Borgonha, Manuel negociou com Fernando e Isabel um contrato de casamento para a mão de sua filha mais velha, colocando seus filhos na linha sucessória do trono espanhol.

Nas disposições para a instituição da Inquisição em Portugal, onde mui­tos dos judeus da Espanha tinham se refugiado, foi concedido aos judeus um prazo de dez meses para se converterem ao catolicismo. Eles seriam caçados se tentassem se esconder, e qualquer não-judeu flagrado protegendo-os tam­bém estaria sujeito à pena de morte.

Muitos compraram sua liberdade e "venderam" todo o seu patrimônio — negócios e bens, já que não podiam possuir terras — por uma nova vida em Flandres. Crianças judias com idades abaixo de 14 anos eram tiradas das casas dos pais e "reassentadas" em outras cidades e aldeias, para serem cria­das por estranhos como bons católicos. Mais de vinte mil judeus se conver­teram ao longo de dois anos, e milhares mais emigraram ou foram mortos.

Os mouros "livres" que permaneceram em Portugal também foram víti­mas e tiveram o mesmo destino dos judeus. Poucos muçulmanos pratican­tes permaneciam no país, exceto se convertidos, e, mesmo assim, freqüentemente eram alvo de ódio e preconceito racial, comuns em todo o mundo cristão da época.

Aqueles que escaparam para Antuérpia com suas fortunas intactas, senti­ram-se gratos porque podiam, de uma distância segura, manter boas rela­ções com a coroa portuguesa. Outros, com menos sorte, perderam tudo. Esse pogrom indizível garantiu a Manuel um rápido influxo de capital, jóias, ouro e prata que ajudariam a financiar a primeira viagem de Vasco da Gama em 1497, dessa forma reduzindo o risco financeiro do próprio Manuel. Como a maioria dos monarcas antes e depois dele, dom Manuel estava aprendendo a dominar a arte de gastar o dinheiro dos outros.

Bens e jóias seriam fundamentais para o poder e o objetivo de Manuel, e ele acreditava que a única forma de consegui-los era através do comércio in­diano. O rei e sua nova fortuna, com a indispensável assistência financeira de grandes famílias de banqueiros mercantis portugueses em Antuérpia, como Ximenes, Lopes, Rodrigues d'Évora e Nunes — muitos dos quais também eram judeus marranos expulsos —, financiaram a primeira viagem de Vasco da Gama à Índia, em 1497. Quando as velas de Vasco da Gama assomaram no horizonte aproximadamente dois anos depois, em setembro de 1499, ele se lançou em uma nova era de comércio marítimo.

Curiosamente, Vasco da Gama inicialmente não disse nada sobre a re­cepção fria dos asiáticos à sua tripulação esfomeada, miserável, recendendo a suor e sujeira e mar após dez meses a bordo. Aqueles europeus deveriam ter parecido aos asiáticos verdadeiros extraterrestres, e parecem ter inspirado neles um medo semelhante ao que um alienígena de outro mundo provocaria em nós hoje. Vasco da Gama também não mencionou que as quinquilharias e tecidos com os quais os portugueses negociavam na África não passavam de curiosidades para os asiáticos, e sem qualquer valor para eles.

Um monarca inteligente e perspicaz, mas ainda não rico, dom Manuel sabia que, para realizar seus sonhos de dominação ibérica e de riqueza além de sua própria imaginação fértil, precisava negociar em Antuérpia os bens indianos trazidos por Vasco da Gama. O rei convocou ao palácio o confiável secretário particular, o nobre Thomé Lopes, parente da família de banquei­ros mercantis de Antuérpia, para dar início ao jogo. Lopes contratou Lucas Rem, um mercador alemão, como agente do rei em Antuérpia para fechar um acordo com os comerciantes locais.

Dom Manuel não podia sustentar, literalmente, uma inimizade com o sedento de poder e belicoso Maximiliano, que governava Antuérpia, nem permitir que ele soubesse de seus planos de expansão como nação navegadora. O envolvimento em uma luta européia pelo poder seria algo dispendioso, e iria apenas impedir Portugal de se tornar a grande talassocracia imaginada por Vasco da Gama. Por isso foi uma decisão simples para o rei português sabiamente escolher uma postura de não-compromisso quando recebeu um pedido de ajuda dos opositores de Maximiliano. A França, em particular, queria uma aliança portuguesa, mas o rei permaneceu inflexível.

Herdeiro por direito do Sancy, Maximiliano tinha seu próprio sonho, ou melhor, delírio: ser coroado Sacro Imperador Romano em Roma à frente de seu poderoso exército imperial. Naturalmente, a maior resistência a essa idéia ridícula vinha dos duques de Gênova, Milão e Florença, dos venezianos, dos franceses (que sob Luís XII se sentiam quase tão ameaçados quanto no tem­po do sogro de Maximiliano) e de Fernando de Aragão, que já tinha assumi­do o título de Sua Mais Católica Majestade. Maximiliano se recusava a entender que efeito a marcha de seu exército imperial para Roma teria nas várias cidades-Estado que ele precisaria cruzar para chegar lá.

Mesmo assim, o rei dos romanos, como Maximiliano gostava de ser cha­mado, continuava teimosamente aferrado à idéia. Ele foi descrito pelo em­baixador veneziano Quirini como um homem "que encontra soluções para seus problemas. Mas todas as soluções que ele encontra o confundem, ele não sabe qual é a melhor, e como tem uma imaginação fértil, executa todas perfeitamente e ao mesmo tempo". O rei Fernando teria dito de Maximiliano que "quando ele pensa em algo, acredita que já o fez". Mas o príncipe Maquiavel foi o mais mordaz quando disse que Maximiliano "é um esbanjador de seus bens acima de qualquer um em nossa época ou em épo­cas anteriores. (...) Se todas as folhas de todas as árvores da Itália se transfor­massem em ducados, elas não seriam suficientes para satisfazer suas necessidades".

As riquezas pessoais desses dois reis eram a melhor forma de exibir po­der e prestígio, e a aquisição de bens invariavelmente os levava a Jacob Fugger. Jacob, por sua vez, ficava feliz de fazer um favor real. Afinal, Maximiliano era o monarca com a maior influência sobre a política européia, enquanto dom Manuel representava a promessa de um futuro financeiro mais brilhante. Jacob Fugger acalentava seu próprio sonho — ter o monopólio do comércio de pimenta da índia.

A pimenta era e é a mais importante de todas as especiarias. Ela hoje re­presenta um quarto de todas as importações mundiais de especiarias, sendo os Estados Unidos o maior importador. Na época de Jacob Fugger, ela era conhecida como a rainha das especiarias. Como o sal, era uma especiaria preciosa que valia seu peso em ouro. Comerciantes e mercadores árabes en­riqueceram fornecendo pimenta aos romanos, por um valor tão alto que os merceeiros romanos eram conhecidos por freqüentemente misturar semen­tes de junípero na pimenta para aumentar o volume do produto e aumentar o lucro. O próprio dom Manuel chamava a pimenta "a luz do comércio de especiarias português". E se a pimenta era a luz, Jacob Fugger queria ser sua estrela brilhante.

Em 1506, Fugger adquiriu o Sancy e as outras quatro grandes jóias de Carlos, o Temerário. Fugger também vendeu um dos diamantes de Carlos para Maximiliano em 1504 por 10 mil florins e um outro para o papa Júlio II por 20 mil florins. As compras de gemas por Fugger, porém, não eram para ostentação. Fugger, o primeiro ivorkaholic modelo, tinha uma mente de ne­gócios afiada e sabia, para começar, que uma riqueza tão facilmente transportável permitia a ele uma fuga rápida, e, ainda mais importante, as gemas davam a ele a vantagem competitiva de que precisava para investir em con­tratos lucrativos que mais cedo ou mais tarde seriam colocados à venda por monarcas ambiciosos e poderosos. O fato de que os monarcas precisavam dessas gemas como parte de seu poder visível se adequava perfeitamente bem a ele. Era a relação simbiótica perfeita.

No início do século XVI, Jacob Fugger também havia montado um sis­tema de informações que rivalizava com o de qualquer governo bem admi­nistrado. Como os ducados veneziano e milanês, Fugger tinha os seus próprios "embaixadores", que eram seus agentes comerciais em cidades importantes e capitais por todo o mundo cristão. Suas missivas continham importantes informações sociais, políticas e comerciais que permitiam a ele se manter à frente da concorrência. Fugger administrava uma empresa multinacional da qual dependiam centenas de empregados e suas famílias, e qualquer conhe­cimento que ele conseguisse angariar para obter vantagem era recolhido. Ele era freqüentemente acusado pelas costas, por competidores invejosos, de espionagem, mas na Europa medieval é seguro dizer que a espionagem de um homem era a iniciativa e visão de outro.

Há poucas dúvidas de que Fugger organizou um enorme trabalho de inteligência sobre os planos de dom Manuel de construir um império marí­timo para a importação de bens de luxo e especiarias das várias incursões portuguesas ao redor do globo. Jacob conhecia a extravagância de dom Ma­nuel em relação a jóias e roupas finas, e sabia que o Sancy seria um grande prêmio para o ambicioso rei.

Em 1502, os primeiros contratos para a expansão do comércio de especia­rias foram apresentados aos principais mercadores da Europa pelo agente de dom Manuel, Lucas Rem. Naquele momento, dom Manuel já havia decidi­do expandir seus horizontes para além dos mercadores portugueses de An­tuérpia, e Thomé Lopes estava a caminho da Índia com Vasco da Gama em sua segunda viagem de conquista, como escrivão do explorador.

Fugger sabia que a família Affaitadi de Cremona e outros mercadores genoveses de Antuérpia seriam avaliados, juntamente com ele, para receber os contratos. Reunindo seus relatórios de informações, não apenas sobre dom Manuel, mas também sobre os rivais, Fugger trabalhou incansavelmente para descobrir como melhor seduzir dom Manuel com o Sancy para conseguir o lucrativo primeiro contrato de pimenta. A pimenta, mais valiosa para Fugger que qualquer diamante, era o futuro. Ao lado do açúcar, era uma das especia­rias que melhor preservava alimentos. A pimenta era mais que um artigo de luxo, era a única especiaria importada que tinha apelo de consumo de massa.

É provável que a família Affaitadi de Cremona, atuando agora em Antuér­pia, tenha dado a Fugger a solução. Eles eram amigos íntimos de Fugger. Jacob valorizava a amizade e respeitava a sábia perspicácia empresarial acima de tudo, e notavelmente possuía uma mercadoria tão rara hoje quanto na época: ética empresarial. Os Affaitadi, por sua vez, comerciavam com dom Manuel havia anos, e eram mercadores especializados em açúcar, empréstimos e gemas. De fato, os Affaitadi tinham seu próprio lapidador, um alemão chamado Franz Mesingh que trabalhava para eles em tempo integral. A família Affaitadi tam­bém era dos poucos mercadores de Antuérpia que em seus inventários distinguia diamantes brutos de diamantes lapidados e de outras jóias finaliza­das, ouro, prata, rubis e âmbar, E, como Fugger, os Affaitadi faziam relatóri­os comerciais, mas no caso deles os documentos eram enviados para os doges (o senado), em Veneza. Outros mercadores que não dedicavam os mesmos recursos à pesquisa de mercado como Fugger e Affaitadi chamavam a ambos de mercadores espiões que enviavam "relatórios de espionagem" para governantes estrangeiros. Esses relatórios, como os boletins de Fugger, são ainda impressionantes fontes de informação sobre a história social da época.

A vantagem competitiva de Fugger para conquistar o contrato de pimen­ta dependia de três coisas: primeiramente, apelar ao poder e à cobiça de dom Manuel; depois, neutralizar a competição tanto quanto possível; finalmente, propor um acordo que tornasse Fugger e seus sócios desimpedidos. O pri­meiro passo era abordar e persuadir os Affaitadi, que identificaram boas ge­mas com seu perito lapidador de diamantes Mesingh, a ajudar Fugger a minimizar suas perdas relapidando a grande Balle de Flandres (o Sancy). Fugger precisava manejar essas delicadas operações em total segredo, ou Maximiliano tomaria conhecimento de que ele tinha o maior e mais poderoso diamante branco da cristandade de Carlos, o Temerário — uma herança que Maxi­miliano poderia muito bem acreditar ser sua. Cortando o diamante, com sorte ao meio, Fugger seria capaz de repassar metade da valiosa gema, mantendo a outra metade — fosse como uma grande jóia ou como várias menores — e não ficar inteiramente sem reservas. Como Hertenstein de Lucerna tinha adquirido a gema por 5 mil florins, é provável que, em uma venda rápida para Fugger, ele tenha obtido 8 mil florins (970 mil dólares ou 606 mil libras, em valores de hoje) — ou a quitação de uma dívida que de outra forma fosse incapaz de pagar ao poderoso comerciante de Augsburg. Em termos simples­mente matemáticos, Fugger poderia esperar um lucro mínimo de 100% em um artigo como aquele, e o teria avaliado em 16 mil florins (1,9 milhão de dólares ou 1,2 milhão de libras).

Partindo ou serrando o diamante ao meio a partir de seu peso original de 106 quilates (21,2 gramas), mesmo que uma das metades precisasse ser ven­dida com o pedras menores em função da perda pela quebra, a metade maior, com sorte acima de 50 quilates, ainda seria o maior diamante da cristandade, com a vantagem adicional de ser inteiramente não-rastreável. Assim que o lapidador tivesse polido a pedra recém-cortada, ninguém saberia que ela ti­nha sido o grande diamante de Carlos, então envolto em mistério. Jacob Fugger poderia oferecê-lo a dom Manuel como um "adoçante" para levá-lo a aceitar sua proposta para o contrato de pimenta.

Enquanto os Affaitadi e seu lapidador de diamantes trabalhavam na pe­dra, Fugger começou a preparar o segundo passo: neutralizar a competição. Seus agentes rondaram de perto os mercadores portugueses, e relataram que contratos de especiarias os interessavam. Os homens de Fugger fizeram seu trabalho desencorajando esses mercadores de fazerem lances pelo contrato de pimenta, argumentando que eles estariam se insurgindo contra o podero­so Fugger e outros mercadores alemães que eram, afinal, os banqueiros de Maximiliano. A ameaça implícita não passaria desapercebida pelos merca­dores imigrados.

Jacob Fugger formou seu consórcio da pimenta com os Welser de Nuremburg, bem como com um seleto grupo de mercadores italianos que incluía os Affaitadi, e negociou sigilosamente termos satisfatórios entre eles. Este, sem dúvida, era um acordo fundamental para Fugger, e como ele tinha um presente super-especial para o rei de Portugal, queria abrir as negociações pessoalmente.

Fugger se encontrou com dom Manuel em janeiro de 1502 e arrancou, ou pensou ter arrancado, um acordo bastante favorável para ele mesmo, as­sim como para seus parceiros. O recém-lapidado diamante facetado de 54 quilates (quilates antigos) não deixou de impressionar o rei, cujos olhos cobiçosos só viam a promessa de muitas outras jóias tais que chegariam das viagens que ele planejara à índia. Em fevereiro, os "privilégios" concedidos por dom Manuel ao consórcio alemão ergueram as bases de um futuro rela­cionamento lucrativo entre o Estado português e seus excepcionais merca­dores alemães e italianos.

No entanto, apesar de o negócio ter sido definitivamente fechado, dom Manuel hesitava em cumprir sua parte do acordo — os navios e soldados para proteger as embarcações comerciais. Piratas saqueadores de outras na­ções representavam ameaça constante — e piratas ingleses, ou mercadores aventureiros, eram notoriamente ativos. Seguiram-se dois anos frustrantes até que finalmente o agente do rei, Lucas Rem, assinou em 1o de abril de 1504 um contrato com os Welser e os Fugger para preparar três embarcações comerciais para a viagem à Índia. Curiosamente, os registros mostram que os Welser contribuíram com 20 mil cruzados para a empreitada, enquanto seu parceiro de 50% Fugger entrou com apenas 4 mil cruzados — sendo a diferença o suposto valor aproximado do diamante em 16 mil cruzados. Quando exatamente o Sancy foi entregue ao rei português jamais podere­mos saber com certeza.

A flotilha de três navios mercantes com vários soldados a bordo, acom­panhada por barcos de guerra, partiu finalmente em 1505, retornando a An­tuérpia em 1506 carregada com 13.800 toneladas de especiarias. Mas, ao chegar ao "Cais da Índia", todas as especiarias a bordo foram confiscadas pela Casa da Índia da coroa portuguesa para revenda aos mercadores "segundo desejo de Sua Mais Católica Majestade". Fugger e seus parceiros ficaram ultrajados com tal grotesca transgressão de seu acerto com dom Manuel. Contudo, a carga continuou protegida pelos homens do rei, e não havia muito a fazer para remediar suas perdas a não ser continuar no jogo.

Lucas Rem sem dúvida alguma conspirou com o rei para tentar lucrar o máximo de sua primeira grande empreitada comercial na índia, sem pensar por um momento sequer nas repercussões a longo prazo que isso traria a Portugal. De acordo com um despacho de Rem para a coroa, seus parceiros comerciais "não obstante lucraram 175%".

Fugger recusou-se peremptoriamente a voltar a negociar diretamente com dom Manuel, apesar das súplicas de Rem, e, mais tarde, de Thomé Lopes e Rui Fernandes. Para Jacob Fugger, seu aperto de mão era seu compromisso, e um contrato era um contrato. Era normal tentar arrancar um duro acordo, mas estava além da compreensão planejar o roubo de seus próprios parcei­ros. Fugger sabia que iria conseguir justiça de seu próprio jeito, e iria esperar por ela.

Contudo, o trabalho de Fugger para conseguir vantagens no contrato de pimenta através da venda do Sancy — apesar das ações de dom Manuel — foi amplamente recompensado. Tendo consolidado sua posição política e econômica com o papa, a Igreja católica, Maximiliano e depois Portugal, Jacob Fugger começou a bancar várias expedições comerciais espanholas ao Novo Mundo. Ele providenciou financiamento para diversas expedições à Colômbia e ao Peru para os espanhóis, então governados pelo filho de Maximiliano, Felipe I da Espanha. Fugger realizou facilmente a transição em acordos ban­cários de Maximiliano para Felipe, e a casa de Fugger continuou a financiar as cortes imperiais da Áustria pelo restante do século XVI.

À medida que Portugal criava estabelecimentos comerciais por toda a África e na costa ocidental da Índia, dom Manuel justificava o tratamento bárbaro dispensado aos habitantes daquelas terras, com aprovação papal, como uma forma de levar aos gentios o cristianismo e a salvação. Quando, em 1517, Martinho Lutero afixou na porta da igreja de Wittenburg suas 95 teses con­tra a venda de indulgências (pelas quais pecadores eram absolvidos pagando uma taxa), dessa forma mudando para sempre a face da Europa, dom Manuel estava ocupado revendo suas Ordenações Manuelinas, para centralizar o poder dando ao rei uma autoridade absoluta neo-romana. Dom Manuel tinha en­tão pouco interesse pelos assuntos europeus, e voltou sua atenção para a melhoria do judiciário e de suas contas para com a coroa. Com exceção do estabelecimento de laços comerciais com a China, a talassocracia portuguesa estava completa.

No entanto, lenta e quase imperceptivelmente, a influência que Portugal exercia na Europa se desgastava. Antuérpia floresceu com, e brevemente sem, o comércio português quando dom Manuel tentou transferir todo o seu ne­gócio para Lisboa. Os mercadores de Antuérpia se recusaram a pagar pelo transporte por terra de Lisboa para o norte, e passaram novamente a com­prar dos venezianos e genoveses, que haviam restabelecido suas ligações com o Egito. Dom Manuel permaneceu em sua torre de marfim em Lisboa, sem compreender o significado de sua perda de influência comercial. Ele tinha riquezas incomparáveis, e nenhum outro monarca era mais rico.

Mas Rui Fernandes compreendia a força da posição comercial de Fugger na Europa, e principalmente a profunda desconfiança de Fugger em relação a dom Manuel. Rui Fernandes sabia bastante bem como os mercadores ti­nham sido prejudicados ao longo dos anos por continuados acordos injus­tos. Ele também sabia que, apesar de continuamente conceder a Fugger os contratos de pimenta da índia, dom Manuel talvez tivesse irremediavelmente mudado a sorte de Portugal. De Antuérpia, ele tentou comunicar isso ao monarca português no dia 11 de fevereiro de 1521, quando escreveu: "Nas negociações com os Fugger, esta é a época daquele homem poderoso da Ale­manha, e todos os príncipes já encontraram tempo para serem seus amigos. Esta era afetou muito o dito cavalheiro, e ele por sua parte ficará muito satis­feito por eu comunicar isso ao senhor."

Cerca de 14 anos depois da traição inicial, Fugger ainda sustentava uma vigorosa aversão pelo monarca português, e, como pode ser visto na carta, dom Manuel sabia disso. Mas ele se achava suficientemente poderoso para não precisar dele.

No dia de Natal de 1521, dom Manuel morreu em Lisboa. Seu secretá­rio de confiança Thomé Lopes, então guardião das jóias, fez um inventário de todos os bens do rei. O inventário tem mais de cem páginas, detalhando não apenas gemas fabulosas — especialmente esmeraldas — mas também manuscritos ilustrados, baixelas de prata e ouro e outros bens. O primeiro item na lista é o Espelho de Portugal, um fabuloso diamante em lapidação mesa com um rubi e uma grande pérola oriental pendendo dele. O diamante estava engastado em esmalte branco, verde e azul, sendo cinza-escuro no verso. Essa jóia pesa, juntamente com seu engaste, 1 onça, 5 oitavos e 37 grãos.

O segundo item é: "Um grande broche de manto com um grande dia­mante pontiagudo com um grande rubi-balache pendurado dele como um pingente e o peso desse diamante e do rubi em conjunto com seu engaste de ouro na forma de uma bandeira é de 2 onças e 11 grãos."

Essa jóia pesava mais de 56 gramas. Apenas o Sancy, com 55,232 quilates métricos, pesa 11,06 gramas, e é o único possível diamante conhecido hoje que poderia ter composto essa jóia.

As duas grandes jóias de Portugal, o Espelho de Portugal e o diamante "sem nome" que Jacob Fugger repassou ao extravagante rei, ambos engastados com rubis pendendo deles, encontravam-se então em arranjos elaborados no topo do inventário.


8

A cobiçada pedra de toque do poder




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