Surpresos ou incrédulos, membros da elite intelectual de Paris assistem à exibição de uma estranha máquina, criado por um jovem de 21 anos. Ninguém percebe o seu alcance: para que um mecanismo capaz de fazer tantos cálculos?



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Encontro21.07.2017
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Pascal

Surpresos ou incrédulos, membros da elite intelectual de Paris assistem à exibição de uma estranha máquina, criado por um jovem de 21 anos. Ninguém percebe o seu alcance: para que um mecanismo capaz de fazer tantos cálculos? Séculos mais tarde, o engenho seria considerado o percursor das modernas calculadoras.

Blaise Pascal, o inventor da máquina calculadora, também desenvolveria importantes estudos de Matemática e Física, além de deixar profundas meditações sobre Filosofia e Religião Cristã.

Nascido em 1623, Blaise Pascal interiorizou os dilemas de sua época: o choque entre a velha ordem medieval, em que prevalecia a influência da doutrina cristã, e uma nova visão do mundo, própria da sociedade capitalista emergente, baseada no desenvolvimento das ciências ( matemática, física, etc. ) e da sua aplicação na tecnologia. De um lado, a Igreja tentava preservar sua autoridade sobre os homens, reafirmando a necessidade da fé; de outro, a humanidade descobria que podia caminhar sem a ajuda divina, guiando-se pela força de sua razão.


O Cientista
O aspecto científico e racionalista de Pascal revelou-se desde a infância. Instigado pelo pai, que, recusando-se a enviar o filho à escola, encarregou-se da sua educação, o jovem Pascal lançou-se à investigação de qualquer problema com que se deparasse. Inquieto e curioso, já aos 11 anos, realizou experiências sobre os sons, que resultaram num pequeno tratado.
Conta-se também que, não satisfeito com a promessa paterna de que mais tarde receberia lições sobre matemática, desenvolveu por iniciativa própria , o estudo de figuras geométricas. Assim, aos 12 anos, chegou a deduzir sozinho as primeiras 32 posições da geometria estabelecidas por Euclides.
Os processos no estudo da Matemática foram rápidos: já não se tratava de reproduzir o que os estudiosos antigos haviam feito, mas de fazer novas descobertas. Aos 16 anos, escreveu o “Ensaio sobre as Cônicas”, publicado em 1640, uma obra sobre a geometria projetiva em que investigou as cônicas – figuras geométricas cujas propriedades não se alteram mesmo quando projetadas de várias maneiras de um plano sobre um outro.
Após a construção da “La Pascaline” – a máquina de calcular -, a atenção de Pascal voltou-se para as experiências sobre a pressão atmosférica realizadas por Torricelli. Segundo este cientista, o espaço que permanecia sobre a coluna de mercúrio de um barômetro correspondia ao vácuo; Pascal demonstrou que o pretenso “vácuo” não passava de ar rarefeito. Nesse estudo, ele também analisou as propriedades da pressão hidráulica, enunciando uma proposição que seria conhecida como “lei de Pascal” ; a pressão exercida sobre o líquido num recipiente fechado transmite-se inalteradamente por todas as direções.

A Crise Religiosa
Durante todo esse período, Pascal, como os seus contemporâneos, pautou sua conduta de acordo com as prescrições da Igreja Católica. Esta parecia conformar-se aos novos tempos, mostrando-se tolerante com as investigações científicas que, direta ou indiretamente, refutavam os dogmas extraídos da Bíblia. Nessa medida, o catolicismo da geração de Pascal tendia a ser muito mais um simples hábito do que uma verdadeira fé: a crença em Deus não tinha conseqüências na vida diária.
A corrente teológica fundada pelo holandês Cornelio Jansenio, porém, considerava tal atitude uma verdadeira corrupção do cristianismo. Jansenio afirmava que a razão filosófica era a “mãe de todas as heresias” ; em outras palavras, condenava qualquer pensamento livre, não sujeito ao controle da Igreja. Segundo ele, o homem não era guiado por sua livre vontade; era predestinado, e a salvação não dependia de suas ações, mas, unicamente, da graça divina.
Na França, tal corrente – conhecida como Jansenismo - , apesar de oficialmente condenada pelo Papa, propagou-se com rapidez, tendo com principal centro difusor o convento de Port-Royal. Dali. Os jansenistas franceses passavam a pregar o retiro solitário e o desprezo pela vida material e social.
Pascal tomaria contato com o jansenismo em 1646, quando o pai, doente, passou a ser assistido por dois médicos seguidores da doutrina. Nas discussões com estes, Pascal foi sendo tomado pelo sentimento de que havia algo superior, mais profundo do que a razão humana.
Se esta resolvia os problemas da Natureza, de ordem matemática ou física, mostrava-se impotente para resolver outros problemas, como o pecado e a salvação.
Isto, porém, não o levou a abandonar as pesquisas científicas. A partir de 1652, Pascal começou a investigar as questões matemáticas suscitadas pelos “Jogos de Dados”, elaborando o cálculo das probabilidades. Desses estudos, que chamou-se de “Geometria de Pascal”, tabela numérica que permite calcular várias combinações possíveis de determinado número de objetos agrupados entre si.
Entretanto, já não se sentia mais à vontade no que ele mesmo denominava como “vida mundana”. Assim, como relata sua irmã, aos 30 anos, Pascal “resolveu desistir dos compromissos sociais”. Começou mudando de bairro e, para melhor romper com seus hábitos, foi morar no campo, onde tanto fez para abandonar o mundo que o mundo afinal o abandonou.
O Homem e o Infinito
Na verdade ele não abandonou o mundo. Apesar de ter-se confinado no convento de Port-Royal a partir de 1655, passou a desenvolver intensa atividade literária e filosófico-religiosa para divulgar e defender perante o mundo as idéias do Jansenismo. Dessa atividade resultaram, entre outras obras, as “Provinciais”, uma série de artigos escritos a partir de 1656, e , “Pensamentos”, publicada em 1670, oito anos após a morte do autor.
Além disso, Pascal não se afastou totalmente da atividade científica: retomando os estudos anteriores sobre a questão dos “infinitamente pequenos”; desenvolveu em 1658 um trabalho sobre a área da ciclóide, curva descrita por um ponto da circunferência que rola sobre uma reta. Esse estudo seria o percursor do cálculo integral, elaborado mais tarde por Leibniz e Newton.
Mas mesmo esse trabalho científico esteve ligado a problemas fisiológicos-religiosos. De fato, o seu interesse pelos “infinitamente pequenos” estava associado a uma questão maior. “ O que é o homem diante do infinito?” Pois o homem, segundo Pascal, está situado entre dois infinitos : o “infinitamente grande” ( o Universo ) e o “infinitamente pequeno”( partículas, átomos ).
Diante dessa imensidão, o homem encontra-se perdido: “Ardemos no desejo de encontrar uma plataforma firme e uma base última e permanente para sobre ela edificar uma torre que se erga até o infinito; porém, os alicerces ruem e a terra se abre até o abismo”.
Se o homem, através de sua razão, consegue desvendar vários segredos do mundo, ele jamais conseguirá conhecer tudo, o infinito. Só há, portanto, um ponto fixo onde o homem pode se apoiar: Deus. Mas a existência de Deus estabelece no homem a confiança em si mesmo. O homem continua perdido, atormentado, enquanto não vier a graça de Deus. Não é o homem que deve revelar a existência de Deus, pois a razão é incapaz disso; a revelação depende somente de Deus. Enquanto este não conceder a graça ao homem, Deus estará sempre oculto.



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