Sumário Apresentação6 Os Bronzes Nilton Pacheco de Oliveira 10



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Sumário

Apresentação6



Os Bronzes

Nilton Pacheco de Oliveira 10

Edvaldo Valério 21

Adriana Araújo33



As Pratas

Formiga45

Fabiana55

O Ouro

Ricardo66

Referências 76

Apresentação

A cada quatro anos, brasileiros se reúnem em frente a televisões para assistir e torcer pelos seus atletas através da televisão. Não, não se trata de Copa do Mundo. Os Jogos Olímpicos nem de perto têm a mesma capacidade de mobilização que o torneio de futebol possui no Brasil, mas sua simbologia e abrangência são insuperáveis entre todos os eventos esportivos.

Pense na chama olímpica, que desde a antiguidade está presente na tradição do evento. Em homenagem à deusa Hera, ela permanecia acesa durante toda a competição na Grécia Antiga. Nos jogos da era moderna, o fogo ressurgiu a partir de 1928, e desde 1936 percorre um revezamento de proporções globais entre as ruínas da cidade grega de Olímpia e a cidade-sede dos jogos, representando um dos elementos mais emblemáticos de cada edição. Quantos outros rituais de quase 3 mil anos de idade costumamos presenciar atualmente?

Em cada Olimpíada, no espaço de menos de um mês, é realizada a Copa do Mundo das modalidades mais importantes do planeta – exceto o futebol masculino. Na edição de Londres, em 2012, representantes de 204 países estavam em campos e quadras para disputar medalhas. A título de parâmetro, nem a Organização das Nações Unidas reúne tantos membros: são apenas 193.

Estar entre os três melhores de suas modalidades em um determinado período significa colocar o seu nome na história do esporte. A medalha é o símbolo que faz o atleta lembrar da sua participação vitoriosa nos Jogos Olímpicos, que na maioria dos casos representa o momento mais glorioso da carreira dele.

Apenas dez pessoas que nasceram na Bahia subiram em pódio olímpico na história. Bebeto, Aldair e Dida no futebol masculino; Elaine, Fabiana e Formiga no futebol feminino; Ricardo no vôlei de praia; Nilton Pacheco de Oliveira no basquete; Adriana Araújo no Boxe; e Edvaldo Valério na natação tiveram a honra de ter medalhas desejadas pelo mundo inteiro penduradas no seu pescoço. Seis deles são retratados neste trabalho, representando a realidade dos baianos que alcançaram o topo em suas modalidades.

Idealizador dos Jogos Olímpicos da Era Moderna, o barão Pierre de Coubertin já viu o seu filho contrariar algumas das regras estabelecidas ainda em 1896, quando o evento aconteceu pela primeira vez. A princípio apenas atletas amadores poderiam competir, pois sem receber dinheiro de clubes ou patrocinadores eles preservariam o espírito do amor ao esporte. Mas as necessidades econômicas prevaleceram e além de contar com a participação de atletas profissionais, o evento custou 14,4 bilhões de dólares.

A outra desobediência serviu para corrigir um erro histórico. Nem na antiguidade nem em 1896, as mulheres eram permitidas nos Jogos Olímpicos, para Pierre de Coubertin, a ausência delas fazia parte do ideal olímpico. Mas as atletas conseguiram seu espaço já a partir da segunda edição, justamente em Paris, cidade natal do barão. Desde então, sua parcela de importância cresceu vertiginosamente e atualmente elas representam praticamente metade dos competidores.

A baiana Adriana Araújo faz parte dessa história ao participar da primeira edição em que o boxe feminino integrou o programa olímpico. Em 2012 ela foi muito além da participação ao ganhar a medalha de bronze, a primeira do Brasil na modalidade desde 1968, com o pugilista Servílio de Oliveira.

Entre os atletas nascidos na Bahia que tiveram a honra de subir em um pódio olímpico, o que tem a história mais rica é também uma mulher. Formiga é a única jogadora a participar de todas as edições dos jogos em que foi disputado o futebol feminino. Em 2004 e 2008 ela ficou com a medalha de prata. Nesta última, já veterana, ela teve como companheira de equipe a conterrânea e ainda promissora Fabiana.

A história de vitórias de atletas baianos no maior palco do esporte começou ainda em 1948. Nilton Pacheco de Oliveira fez parte da delegação brasileira de basquete que visitou uma Londres arrasada pela Segunda Guerra Mundial e saiu de lá com um valioso terceiro lugar, dando início a era mais gloriosa da modalidade no Brasil. Pacheco morreu em 2013, mas sua história segue preservada entre álbuns e recortes de jornal no bairro do Leblon, no Rio de Janeiro.

O capítulo mais vitorioso aconteceu em 2004, no vôlei de praia. Em parceria com Emanuel, Ricardo teve a chance de subir no lugar mais alto do pódio e ouvir o hino nacional no país que foi berço dos Jogos Olímpicos. Ao longo de suas quatro participações, ele também se tornou o atleta nascido na Bahia com mais medalhas na coleção. Em 2000, a medalha conquistada foi prateada e oito anos depois veio o bronze.

Adriana, Ricardo, Fabiana, Formiga, Edvaldo e Pacheco compartilham o sentimento de receber uma medalha olímpica, algo restrito a tão poucos atletas. Eles também têm em comum o fato de terem Salvador como cidade natal, apesar da maioria ter criado suas raízes no esporte fora da Bahia. O ex-jogador de basquete passou a maior parte da vida no Rio de Janeiro, enquanto o único medalhista de ouro da lista já se considera metade paraibano.

Tendo a Bahia como ponto de partida, eles inspiraram jovens atletas em todo o Brasil, graças às suas braçadas, arremessos, socos, cortadas e chutes. Cada um guarda histórias incríveis sobre como cresceram e alcançaram o pódio olímpico. E enquanto esses momentos são relatados aqui, aguardamos novas gerações aumentarem a lista de baianos que poderão contar que um dia estiveram entre os melhores do mundo no esporte que amam.



Os Bronzes

Nilton Pacheco de Oliveira

☆ 20/07/1920
✞ 26/06/2013

Participação em Jogos Olímpicos: 1948 (bronze)

A história de um dos capítulos mais antigos da história olímpica baiana está guardada em um prédio no Rio de Janeiro, no bairro de Ipanema. Por mais de meio século, Nilton Pacheco de Oliveira morou em um apartamento distante apenas alguns metros de um dos pontos mais glamourosos da orla carioca. Por isso o vento sopra forte – e frio – a partir do final da tarde, no caminho entre a praia e a residência do ex-jogador de basquete.

O prédio onde Pacheco morou durante a maior parte da sua vida mantém os traços de uma antiga arquitetura, característicos da vizinhança em Ipanema. As grades sanfonadas que ajudam a fechar as portas do elevador e as paredes desgastadas não escondem a idade do imóvel, localizado em um espaço nobre da capital fluminense, onde predominam a classe média alta e a classe alta.

Pacheco, no entanto, não mora ali desde junho de 2013. Debilitado e passando a maior parte dos seus últimos anos deitado em uma cama, ele se despediu da vida aos 92 anos, e teve suas cinzas deixadas no Memorial do Carmo, também no Rio de Janeiro. Mas o seu legado como jogador de basquete segue imortalizado nas páginas de álbuns que ele próprio organizou sobre sua carreira esportiva.

"Ele era muito organizado, muito metódico", lembra Flávio Roberto Morgado, marido de uma sobrinha de Pacheco. A característica ficava evidente ao ver como estavam arrumadas as recordações dos 12 anos como jogador profissional de basquete. Um álbum traz fotos dele e dos times dos quais ele fez parte como atleta. Todas as imagens organizadas em ordem cronológica e com a devida legenda escrita de branco nas páginas escuras. Outro tem recortes de jornais com entrevistas e notícias dos seus momentos mais marcantes dentro das quadras, sempre com o cuidado em destacar na cor rosa cada linha ou texto em que ele aparece como o personagem principal. Além dos dois livros com imagens, alguns pedaços de revista e jornal soltos dentro de uma pasta completam a memória registrada em papel do ex-jogador.

As fotos evidenciam uma pessoa magra, de rosto retangular e que quase sempre portava um bigode muito bem cuidado. Apesar do seu gosto por festas, os retratos da época pediam posturas sérias de quem se apresentava em frente a uma câmera. Por isso a maioria dos seus registros são marcados por poses frias ao lado de companheiros de equipe.

As paredes do apartamento em Ipanema também estão cheias de boas recordações. Há um quadro que é decorado apenas com medalhas conquistadas ao longo da carreira, mas a mais especial de todas tem uma moldura só pra ela. O bronze olímpico de 1948 é mais adorado do que qualquer ouro ali: “Aquilo representa uma época", avalia Lygia de Oliveira, viúva de Pacheco.





Primeiro em pé da direita para esquerda, Pacheco posa com jogadores da seleção nacional (Arquivo/CBB)

Uma época que para o basquete brasileiro marca o momento em que a seleção nacional começou a competir de igual para igual com as maiores potências do mundo. E para Pacheco, representa o ponto mais alto da sua vida esportiva. O terceiro lugar dos Jogos Olímpicos de Londres, em 1948, era a maior conquista do esporte no País até então e quebrou um jejum de três edições sem que o Brasil conquistasse um lugar no pódio em qualquer modalidade.

Também debilitada por conta da idade, Lygia de Oliveira vive acompanhada de duas enfermeiras que a ajudam nas tarefas do dia a dia. Sua vontade de contar a rica história de mais de 90 anos costuma ser traída pela sua garganta, que trava a fala e permite poucas frases extensas, e pela sua memória, que faz ela titubear até se lembrar de detalhes do passado.

Nos jornais antigos, o seu marido era tratado pelo nome de Pacheco, mas para Lygia era o seu Nilton. E quando o assunto da conversa é ele, o encanto toma conta do seu rosto: “Era uma pessoa maravilhosa!”. Os dois formavam um casal boêmio, que gostava de frequentar festas desde a década de 40, quando eles se conheceram em um baile do Fluminense Football Club, onde ela jogava tênis e ele já fazia parte da equipe de basquete. Após cinco anos de namoro, os dois se casaram e seguiram com a alegre rotina das boates.

Os familiares lembram bem de como era agitada a vida do casal. "Era boate e viajar o mundo", recorda Fernanda Guedes, sobrinha de Lygia e Nilton. "E carnaval!", completa Morgado, o marido dela." Os dois eram amantes das escolas de samba e desfilar no Sambódromo da Marquês de Sapucaí era um dos passatempos favoritos na festa. Um porta-retratos que enfeita a sala de jantar do apartamento mostra Lygia com uma fantasia exuberante, digna de um destaque em carro alegórico, posição que ela ocupou em desfiles ainda nos anos 80.

“Ele não gostava muito de carnaval, mas aí quando eu fui desfilar ele resolveu ir também. Eu desfilei três anos seguidos. O primeiro ano ele não foi, mas nos dois outros ele foi comigo. Ele dizia 'só vou desfilar por sua causa!'. Ele gostou, encheu a cara e fez um desfile muito bom", brinca Lygia. A festa era assunto sério para ela, que forçava o marido a decorar as músicas das escolas: “Era um exercício quase diário. Ele dizia que não aguentava mais gravar aquelas letras. E ela, 'não faltou o 'o'!'", ri a sobrinha.

A carreira como jogador de basquete já havia proporcionado diversas visitas a países da Europa e América do Sul, mas mesmo depois de aposentado, conhecer novos lugares seguia como um hobby do casal. Apesar de um dos destinos favoritos de Nilton ser o Japão, o estado natal dele também costumava entrar no roteiro de viagens.

Nilton saiu cedo de casa, ainda antes dos 20 anos, e escolheu o Rio de Janeiro como novo lar para dar sequência aos estudos e à carreira como atleta. Os pais dele ficaram desapontados ao ver que o filho não seria um advogado e que no final o basquete falaria mais alto. Mas foi no esporte que ele ganhou notoriedade dentro do País – inclusive no estado onde nasceu – e deixou o nome da família marcado na história da modalidade no Brasil.

Apesar de morar a mais de mil quilômetros de Salvador em uma época que o avião era um meio de transporte restrito, Nilton não deixou de visitar seu estado natal para ver sua família e permitir que eles conhecessem sua esposa. No Rio de Janeiro a distância era encurtada através da culinária. Sua felicidade em ter uma empregada doméstica baiana era explicada pelo seu desejo por comidas típicas baianas, que faziam ele se lembrar de sua origem.

Estar no apartamento de Lygia e Nilton é quase como viver a realidade de décadas atrás. Em meio às paredes preenchidas com quadros de pinturas, os móveis de madeira se destacam pelos detalhes em seu desenho e até mesmo a televisão de tubo da sala foge dos padrões atuais com suas 20 polegadas, aproximadamente. Além disso, os cômodos amplos e o pé-direito alto indicam ele preserva características de imóveis antigos, da mesma forma que o prédio como um todo.

A viagem até o passado continua ao ouvir Lygia narrar que seu marido viajou para o “estrangeiro” e que ele era um “olímpico”. Os álbuns onde seguem guardadas as recordações da carreira esportiva de Pacheco também estão repletos de palavras que ou caíram em desuso ou que a longo dos anos passaram a ser escritas de uma maneira diferente. Algo como “O scratch brasileiro de basketball venceu pelo placard de 64 a 42”, seria escrito em um jornal do século XXI com as palavras time, basquete e placar. E se o escore da peleja foi decidido pelo crack do Brasil, melhor dizer que o resultado da partida foi decidido por um craque.

Pacheco começou sua carreira esportiva aos 16 anos, no Clube Bahiano de Tênis. Em 1939, o clube fechou seu departamento de basquete e o jogador se transferiu para o Clube de Regatas Itapagipe, como narra uma reportagem do Diário da Bahia de 1942, conservada em um delicado papel de jornal antigo. Naquela oportunidade, ele estava em seu estado natal a convite do Botafogo de Regatas, do Rio de Janeiro, para disputar um jogo justamente contra o Itapagipe.

Entre 1936 e 1939, o adolescente fez parte do scratchman baiano, ou melhor, da seleção baiana de basquete. Com 1,80 metro de altura, ele jogava como armador, mas publicações da época se referiam a ele como guarda, da mesma forma que pivôs e alas eram chamados de centros e pontas, respectivamente. Nomenclaturas para as posições de basquete que se transformaram para chegar ao modo que as conhecemos hoje.

Pacheco se mudou para o Rio de Janeiro e começou a jogar pelo Fluminense em 1940 e foi convocado pela seleção brasileira no ano seguinte, para disputar sua primeira competição representando o País. Ainda sem conquistar nenhum título pelo time nacional, ele já era tratado como um dos orgulhos da Bahia. “Muito jovem ainda, Pacheco tem boa altura e está ainda fadado a alcançar grandes sucessos na sua vitoriosa carreira esportiva”, conclui a matéria do Diário da Bahia de 1942.

Enquanto a Europa era o campo de batalha para a Segunda Guerra Mundial na primeira metade da década de 40, restavam as competições continentais para Pacheco e a seleção brasileira disputarem. Depois da edição de 1936, em Berlim, os Jogos Olímpicos tiveram um hiato de 12 anos enquanto a paz não era restabelecida, por isso o torneio mais importante a ser disputado na época era o Campeonato Sul-Americano.

Convocado para o time nacional já em 1941, em abril do mesmo ano ele disputou o torneio continental na cidade de Mendoza, na Argentina. O pôster da competição ainda está guardado entre as suas relíquias no apartamento onde morava, em Ipanema, assim como as fotos tiradas de dentro do navio no embarque para a cidade argentina. O desempenho de uma vitória e quatro derrotas rendeu apenas a quinta colocação para o Brasil entre seis seleções. Em quatro jogos disputados, Pacheco marcou 13 pontos.

No ano seguinte, ele não estava na equipe que conseguiu um modesto entre cinco equipes no Campeonato Sul-Americano disputado em Santiago, no Chile. Em 1943 o torneio passou a ser disputado a cada dois anos e a seleção brasileira nem mesmo enviou sua delegação para Lima, no Peru, algo que nunca mais voltaria a se repetir.

Sem dúvidas um dos capítulos mais registrados da vida esportiva do baiano radicado no Rio de Janeiro é o Campeonato Sul-Americano seguinte, jogado em Guyaquil, no Equador. Banhada pelo Oceano Pacífico e tendo o porto como o pilar de sua economia, a cidade escapa da altitude dos Andes que marca o centro do país.

O Brasil chegou ao Equador com apenas um título do torneio em sua história, vencido no Rio de Janeiro, em 1939, quando Pacheco ainda começava a se destacar nas quadras da Bahia. Para conquista-lo pela segunda vez, foi organizada uma preparação de dois meses, com o objetivo de deixar os atletas em seu auge. “Ao começar o campeonato o nosso físico estava tão preparado, que jogar somente 40 minutos era para nós brincadeira. Ao término de cada jogo não sentíamos o menor sinal de cansaço”, revela o armador em entrevista concedida na Bahia à revista da Radio-Esportes, poucos dias depois do torneio.

Argentina e Uruguai foram as seleções que ficaram mais próximas do Brasil no placar final e segundo as palavras de Pacheco à Radio-Esportes foram também os adversários mais duros. Mas após cinco jogos disputados por cada país em Guayaquil, veio o título invicto. A seleção brasileira foi a única a vencer todos os oponentes e levantou seu segundo troféu na história.

Em quadra nas cinco partidas, Pacheco marcou 34 pontos e se emocionou ao agradecer o carinho do público presente no ginásio: “Tivemos que percorrer a quadra para que os espectadores aplaudissem os campeões. Toda aquela massa em pé aplaudindo, gritava: ‘Bravo Brasil!’. Senti um tremendo nó na garganta que felizmente desapareceu ao primeiro gole de champanhe que nos esperava no vestiário”, brinca o jogador na entrevista para a publicação baiana.

A ausência de fotos de Pacheco representando a seleção brasileira entre 1942 e 1944, foi compensada pelos fartos registros proporcionados pelo título do Campeonato Sul-Americano de 1945. Das fotos posadas com o restante da delegação em Guayaquil até o retorno ao Brasil, o torneio continental é o que está mais bem guardado em seu álbum. A chegada com festa no aeroporto Santos Dumont, no Rio de Janeiro, e as homenagens prestadas pelo Fluminense e pela Confederação e Conselho Nacional dos Esportes dão o tom de como foi tratada a conquista no País, a maior do basquete brasileiro até então.

O campeonato terminou em agosto de 1945, quando a Segunda Guerra Mundial também tinha em desenvolvimento seus capítulos finais. A essa altura ainda não se sabia quando seria disputada a edição seguinte dos Jogos Olímpicos, mas Pacheco já desejava uma oportunidade na maior competição esportiva do planeta: “Disputar uma Olimpíada é a minha última aspiração, e devido a isso é que ainda continuo correndo atrás da bola”, revelou à revista Radio-Esportes. “E se não demorar muito, sou capaz de conseguir”. Para sorte dele, a espera foi de apenas três anos.

Em 1948, Londres provavelmente se tornou a sede menos preparada para receber os Jogos Olímpicos. A capital inglesa já havia sido escolhida para receber as competições no ano de 1944, mas elas não foram realizadas por conta da Segunda Guerra Mundial. No final da década a cidade ainda lutava para se reconstruir depois de receber bombardeios e ser palco de batalhas. Não à toa o evento foi apelidado de jogos da austeridade e precisou de doações de outros países para ser viável.

A seleção brasileira saiu da capital carioca sob olhares de desconfiança. Após o título do Campeonato Sul-Americano de 1945, a equipe ficou em segundo lugar dois anos depois, perdendo o torneio no Rio de Janeiro para o Uruguai. Pacheco estava entre os convocados daquela delegação e marcou 14 pontos em quatro jogos disputados. “Alguns jornalistas achavam que nós íamos fazer turismo em Londres”, explica o jogador baiano em entrevista ao programa ‘A Aventura Brasileira nas Olimpíadas’, exibido na emissora GloboNews. “Então isso nos favoreceu, porque a turma ficou muito unida e queriam demonstrar que não éramos turistas, que nós íamos disputar as Olimpíadas e ganhar alguma coisa”.

Em um grupo com seis equipes na primeira fase, apenas os dois primeiros para se classificavam para as quartas de final. E a equipe de Pacheco não teve dificuldades para cumprir esse primeiro objetivo. Os dois primeiros jogos foram os mais apertados dessa fase. Na estreia, contra a Hungria, a partida foi decidida apenas na prorrogação: 45 a 41. Em seguida, o adversário era bem familiar. Brasileiros e uruguaios se alternaram na primeira e segunda posições das duas últimas edições do Campeonato Sul-Americano e agora se encontravam em um palco ainda maior. Em Londres, o Brasil venceu por 36 a 32 e deixou a classificação praticamente encaminhada.

Entre a capital inglesa e o Rio de Janeiro, as boas novas chegavam aos familiares através de cartas. "Dava pra eu escrever sempre e ele gostava porque recebia várias cartas minhas", lembra Lygia de Oliveira. A esposa de Pacheco acompanhava com alegria a saga do time de seu marido. A seleção brasileira encerrou a primeira fase com três vitórias fáceis sobre Canadá, Itália e Reino Unido.

Apesar do sucesso em terras britânicas, o Brasil ainda sentia as consequências por estar jogando em um país que havia acabado de sair de uma guerra. Com poucos lugares com estrutura para jogar basquete, os treinamentos costumavam passar por improvisos. “Nós estávamos em uma concentração muito distante de Londres, então nós tivemos que improvisar em um gramado”, explica Pacheco ao ‘A Aventura Brasileira nas Olimpíadas’. “Fazíamos uma quadra de basquete e treinávamos a parte tática. Agora não dava para terminar a jogada porque não havia cesta. Fazíamos só as correrias, os bloqueios”.

A preparação não era a ideal, mas o Brasil alcançou as quartas de final da competição. O próximo adversário era a Tchecoslováquia, que impôs muitas dificuldades. Contra eles, a seleção brasileira alcançou sua menor pontuação no torneio, mas suficiente para conseguir a vaga na semifinal: 28 a 23. A essa altura, os veículos de comunicação daqui já se empolgavam com os resultados vindos de Londres. “A nosso respeito, embora a sobriedade da imprensa londrina, diz um de seus órgãos mais classificados: ‘Para se aprender a jogar basket, é preciso ver os brasileiros jogarem”, publicava o carioca Jornal dos Sports, na sua edição do dia 4 de agosto daquele ano.

A cada jogo, o ônibus da equipe brasileira festejava com música. A preferida do grupo era o samba ‘Quem Parte Leva Saudades’, de Emilinha Borba. Com seis vitórias em seis jogos até então, a cada trajeto a caminho do ginásio ou de volta para os alojamentos a delegação explodia em alegria: “Ai, ai, ai, ai, está chegando a hora!”. Prenúncio de um pódio ou não, o certo era que a medalha olímpica parecia mesmo estar chegando.

Mas ao chegar até a semifinal, o Brasil sentiu o peso de ter um elenco pequeno. Cada seleção podia levar até 12 atletas para Londres, mas o Brasil contava apenas com dez, permitindo um revezamento menor dos jogadores ao longo das partidas. “Houve um grande erro da confederação. Se fosse com 12 jogadores havia uma possibilidade de ter uma medalha de prata talvez”, argumenta Pacheco ao programa da GloboNews. Contra a França, a derrota por 43 a 33 interrompeu o sonho do ouro nos Jogos Olímpicos.





Elenco brasileiro celebra vitória contra Tchecoslováquia e vaga na semifinal olímpica (Arquivo/CBB)

A campanha perfeita até então causou euforia no Brasil. Torcedores puderam acompanha a transmissão da sacada da redação do Jornal dos Sports, que instalou caixas de som no local para levar ao público a transmissão da Radio Globo. “Faltou unicamente a vitória dos nossos patrícios”, lamenta a publicação, que no mesmo dia desenha um cenário de desolação dentro do vestiário em uma de suas matérias sobre o jogo: “Recolheram-se os nossos bravos rapazes em prantos”.

Na saída do ginásio, os jogadores mal conseguiram terminar a canção que os embalou durante todo o torneio. Antes mesmo de chegar no verso “eu tenho que ir embora”, todos estavam entre lágrimas e soluços. Eles nunca tinham feito uma viagem tão triste pela Inglaterra.

Mas não havia muito tempo para recuperação. A medalha de bronze ainda estava em jogo e a partida conta o México não ia demorar para chegar. Para o último jogo, no entanto, o elenco já enxuto sofreu outras duas baixas. Évora e Pacheco não tiveram condições físicas para entrar em quadra na disputa do terceiro lugar e assistiram ao jogo do banco de reservas. Com isso, o treinador Moacyr Daiuto tinha a sua disposição cinco jogadores titulares e apenas três para entrar durante a partida.

Os mexicanos começaram melhor a partida decisiva e abriram dez pontos de vantagem nos primeiros minutos. No intervalo da partida, eles ainda lideravam por 25 a 17. O Brasil deu grandes passos rumo a medalha logo no retorno do vestiário, quando marcou 12 dos primeiros 13 pontos do segundo tempo. O México ainda retomou a ponta quando o placar era de 47 a 45, mas os últimos sete pontos do duelo foram marcados por brasileiros, que ficaram em êxtase com o final do jogo.

“Não há palavras para descrever o que foi essa luta hoje realizada, palavras para expressar o extraordinário esforço desenvolvido pelos rapazes brasileiros contra um adversário incontestavelmente mais forte e mais eficiente do que a França”, celebra o texto de Ari Silva, enviado da Agência Meridional de notícias. “Só mesmo a fibra e o desejo de ver a bandeira brasileira tremular no mastro de Wembley poderiam conduzir nossos denotados atletas a tão excepcional feito”.

Para premiar os atletas, toda a delegação ganhou viagens para Paris e Lisboa antes de retornarem para o Rio de Janeiro. Eles foram recebidos sob palmas por torcedores no aeroporto Santos Dumont e desfilaram pelas ruas da capital carioca até a sede do Fluminense. Aqueles que seriam turistas em Londres, voltaram como heróis.

Era a primeira medalha do Brasil em esportes coletivos na história dos Jogos Olímpicos. Era também a primeira do País em qualquer modalidade desde 1920, na Antuérpia. E mais importante: era a única da vida da maioria daqueles jogadores, inclusive de Pacheco, que depois de contribuir com 36 pontos naquele torneio ainda tem o prêmio guardado em uma moldura especial do seu apartamento.

O terceiro lugar em Londres serviu ainda de inspiração para a geração mais vencedora da história do basquete brasileiro. Nas décadas seguintes o Brasil seguiu entre os melhores do mundo, vencendo duas vezes a Copa do Mundo da modalidade – que começou a ser disputada em 1950 –, em 1959 e 1963, esta última disputada no Rio de Janeiro. A seleção nacional ainda foi vice-campeã da competição em 1954 e 1970. Em Jogos Olímpicos, vieram outras duas medalhas de bronze, em 1960 e 1964, antes do esporte passar por um momento de decadência marcado pela não classificação em três edições seguidas do torneio olímpico: 1996, 2000 e 2004.

Não foram poucas as homenagens que o pódio de 1948 rendeu a Pacheco. No seu acervo de relíquias entre o Arpoador e o morro Dois Irmãos, ainda estão guardados um diploma emoldurado que foi recebido pelos jogadores da delegação em 1948, além de uma placa entregue pelo Comitê Olímpico Brasileiro em 2001, parabenizando-o pela conquista. Mas nada consegue superar o valor sentimental da medalha de bronze que ele um dia pendurou em seu peito e se tornou a peça mais querida de sua coleção: "Todas as pessoas que vinham aqui em casa ele mostrava logo”, recorda Lygia de Oliveira. “Alguns retratos ele nem lembrava, mas essa era a número um”.

A medalha olímpica era o encerramento ideal para a carreira de Pacheco. Mesmo ainda com 28 anos ele optou por deixar a carreira de atleta profissional, mas não deixou de viver de bolas arremessadas na cesta. Logo depois ele se tornou treinador de basquete do Fluminense e por anos os jogos entre ex-jogadores do clube era um de seus passatempos. “A vida dele era basquete”, garante sua esposa.

Mas também havia espaço no coração de Pacheco para outras atividades. Ele chegou a praticar vôlei, e quando as pernas já não eram mais tão fortes para impulsioná-lo, adotou o tênis como diversão já nos anos 90. O ex-jogador de basquete só foi separado dos esportes, quando não teve mais condições físicas para se manter correndo. Em 2008 ele fez uma cirurgia no joelho e pouco antes de iniciar a fisioterapia sofreu um acidente vascular cerebral que comprometeu seus movimentos dali em diante.

Entre recortes de jornal e fotografias, ainda é possível desenhar a vida esportiva de Pacheco através dos álbuns cuidadosamente elaborados pelo ex-jogador. Uma história que já está distante no tempo, mas representa um dos capítulos mais importantes da história do basquete nacional. Em uma época que as notícias demoravam para cruzar o Atlântico, ele foi recebido no Brasil como herói e pelo resto da vida carregou esse orgulho.




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