Suicídio e liberdade de vontade: possibilidades de individuação na sociedade industrial



Baixar 79,13 Kb.
Encontro19.10.2017
Tamanho79,13 Kb.

Rocha, A. P. & Franciscatti, K. V. S. Suicídio e liberdade de vontade: possibilidades de individuação na sociedade industrial



Suicídio e Liberdade de Vontade: Possibilidades de Individuação na Sociedade Industrial 1
Suicide and Freedom of Will: Possibilities of Individuation in the Industrial Society

Ana Paula Rocha2


Kety Valéria Simões Franciscatti3

Resumo
Neste estudo investigam-se as possibilidades de liberdade e individuação na sociedade industrial, problematizando o suicídio como uma das conseqüências da não-realização da individuação. Atenta-se para a parcela de culpa dos homens em abrir mão de sua humanidade e suas responsabilidades. Trata-se de uma pesquisa teórica que busca, além da psicologia, auxílio no mito, na arte e nas ciências sociais, embasada na análise realizada por Horkheimer e Adorno da formação do indivíduo através da imagem de Ulisses (Odisséia, Homero). Acredita-se, de acordo com Crochík (2000), que uma entrega aos “instintos” corresponde à resignação da vontade humana: entregar-se a uma vontade indiferente às conseqüências significa ofuscar-se, encerrar-se no egoísmo, desconsiderar que o homem é fundamentalmente social. Pensando o suicídio como um produto da sociedade e a sociedade industrial como altamente repressora, torna-se relevante a produção de conhecimentos atualizados acerca das relações entre o indivíduo e a sociedade, a liberdade e o suicídio.
Palavras-chave: Teoria Crítica da Sociedade; individuação; renúncia; sacrifício; Ulisses.
Abstract
In this study, the possibilities of freedom and individuation in the industrial society are investigated, bringing suicide into question as one of the outcomes of the nonfulfillment of individuation. We draw attention to mankind’s share of guilt for giving up on humanity as well as on responsibilities. This is a theoretical research interested in going beyond psychology, by drawing its assumptions from myth, arts, and social sciences, based on the analyses carried on by Horkheimer and Adorno on individual’s development enlightened by the image of Ulisses (Odisséia, Homero). According to Crochík (2000), it is believed that surrendering to “instincts” corresponds to the resignation of the human will: one’s surrender to a desire indifferent to the consequences means to overshadow him/herself, to set him/herself apart in selfishness, to disregard the fact that men are fundamentally social. Considering suicide as a product of society and the industrial society as highly repressive, the production of updated knowledge regarding the relations between the individual, the society, freedom and suicide, becomes, then, relevant.
Key words: Critical Theory of Society; individuation; renouncing; sacrifice; Ulisses.



O presente texto problematiza os impedimentos objetivos e subjetivos que perpassam a individuação como fatores que podem levar ao suicídio. Como parte da pesquisa Psicologia e Arte: reflexões acerca da subjetividade obstada4 investigam-se, com base na Teoria Crítica da Sociedade, as possibilidades de liberdade e de individuação na sociedade atual, e as conseqüências da não-realização das potencialidades da individuação, dentre elas o suicídio como a concretização de um desejo de se retirar da sociedade.

Trata-se de uma pesquisa teórica, observando como os autores Horkheimer e Adorno (1947/1985)5 analisaram a formação do indivíduo por meio da imagem de Ulisses, narrada na Odisséia de Homero (850-750/2002). Neste texto, além do confronto e da articulação com as formulações de Marcuse sobre esta temática, recorre-se à revisão do marco temático e à reflexão relacionada ao suicídio com base na obra de Durkheim. Busca-se, além da psicologia, auxílio em outras áreas de conhecimento, especialmente o mito e as ciências sociais, com vistas à produção de conhecimento a respeito das relações diretas ou implícitas entre o indivíduo e a sociedade, a liberdade e o fenômeno do suicídio.

As tendências orientadoras deste estudo são: a sociologia de Durkheim, a psicanálise de Freud e a teoria crítica de Adorno, Horkheimer e Marcuse. O caráter que guiará a pesquisa na leitura da teoria desses autores é a impossibilidade de se desligar o indivíduo do seu aspecto social, coletivo. Não é somente o homem, em sua individualidade, que delimita as formas de organização social. Ele só o faz, e só o faz dessa maneira, pela mediação da sociedade – o que não significa que não exista a possibilidade de alguma singularidade no homem, ou que ele seja puramente determinado pelas influências externas. Assim, pretende-se pensar o homem não como produtor, nem como simples produto, mas sim como um ser ambivalente em meio a um enorme campo de forças atuantes no qual, uma vez inserido, jamais poderá se ver isolado. Por mais que traga indícios de originalidade, aquilo que fazemos de nós mesmos não consiste em uma atitude e/ou idéia engendrada unicamente por nós. Sofremos grande influência e imposição coercitiva externa. Portanto, não podemos falar de homem sem considerar todo o seu aspecto social.

O problema do suicídio sempre foi algo largamente discutido, seja por sociólogos, psicólogos ou outros profissionais da área das ciências humanas. É ainda com certo receio que se trata do assunto, uma vez que se configura para cada indivíduo como algo ameaçador, que pode ocorrer com pessoas próximas, até mesmo integrantes de sua família. Ou seja, segundo Hillman (1964/1993) o suicídio não está relegado aos hospícios; pelo contrário, onde ele mais acontece é dentro do lar, no curso de qualquer vida. Conforme este autor, frente ao fato, a sociedade se mostra alarmada e até mesmo impotente.

Foi Durkheim quem, em 1897, realizou o mais detalhado estudo de que dispomos sobre a temática – O suicídio; estudo sociológico. Sua designação “suicídio” se refere a todo caso de morte resultante de um ato praticado pela própria vítima, consciente de seu resultado. Para o autor, o suicídio é um fenômeno coletivo, um “fato social”: ainda que se tenha uma causa particular aparente para o ato, ele é bem mais que o resultado de um simples fator – pode-se assinalar a existência de uma situação social específica que predispõe o indivíduo a se matar (Durkheim, 1897/1982).

Segundo Marcuse (1964/1967), na sociedade industrial desenvolvida prevalece uma “falta de liberdade confortável, suave, razoável e democrática”, e “seu crescimento depende da repressão das possibilidades reais de amenizar a luta pela existência – individual, nacional e internacional” (p. 14). Essa sociedade é irracional, uma vez que sua incessante produtividade impede o livre desenvolvimento das necessidades e faculdades humanas.

Assim, pensando o suicídio como um produto da sociedade e pensando a sociedade industrial como altamente repressora, torna-se de extrema relevância a produção de conhecimentos mais atualizados acerca das relações entre suicídio e liberdade. Desse modo, dentro dos limites da teoria em que se fundamenta este estudo, pretende-se pensar somente o suicídio na sociedade industrial tal como analisada pelos autores que orientam a investigação.
Do Mito ao Esclarecimento: Individuação e Liberdade
Horkheimer e Adorno (1947/1985) postulam, como teses principais do livro Dialética do Esclarecimento, que o mito já era esclarecimento e que o esclarecimento acaba por se reverter ao mito6. Nesse sentido, os autores se referem – em especial, nos textos O conceito de esclarecimento e Excurso I: Ulisses ou mito e esclarecimento – à análise da figura de Ulisses, presente na Odisséia de Homero (850-750/2002), como um modo de entender a passagem do homem à cultura e o “progresso da regressão” no entrelaçamento de mito, dominação e trabalho. Segundo os próprios autores, com o propósito de desenvolver as duas teses expostas acima, o Excurso I
[...] acompanha a dialética do mito e do esclarecimento na ‘Odisséia’ como um dos mais precoces e representativos testemunhos da civilização burguesa ocidental. No centro estão os conceitos de sacrifício e renúncia, nos quais se revelam tanto a diferença quanto a unidade da natureza mítica e do domínio esclarecido da natureza. (pp. 15-16, grifos no original)
Destaca-se que Ulisses é apontado pelos autores como um modelo do indivíduo burguês, no que tange à astúcia, ao engodo, à disposição para sempre ter vantagem em todos os atos, à racionalidade e ao apego à posição de proprietário – características que os autores de Frankfurt vêem desenvolvidas na sociedade industrial. Assim, ainda que o indivíduo daquela época esteja em diversos aspectos distante do que se configurou nesta sociedade, a figura central da obra de Homero já corresponde, nesses aspectos ainda que embrionários, à época atual.

Da Odisséia (Homero, 850-750/2002), destacamos um fragmento que ilustra a crise básica do homem na sociedade: a dominação/luta contra seus impulsos, suas pulsões. Tal passagem se dá quando Ulisses e seus companheiros, entregues aos prazeres oferecidos por Circe, são tentados a esquecer para sempre a realidade e a luta pelo seu ideal. Ele só se deixa demorar ali e gozar os prazeres imediatos por ter antes estabelecido com a deusa um pacto de que ela não tramaria contra eles nenhum infortúnio. Alguns homens, desprovidos da astúcia que caracteriza Ulisses, confiam na anfitriã e são por ela enfeitiçados e transformados em porcos. De acordo com Silveira (1992), a metamorfose é um tema recorrente em muitos contos de fadas e também na mitologia, mas não implica necessariamente em um rebaixamento. Entretanto, as histórias apontam também para a metamorfose como obra de uma entidade maléfica, ou como forma de castigo normalmente decorrente de se negar algum aspecto da condição humana.

Ao se pesquisar os limites da liberdade humana, é necessário lançar o olhar sobre a parcela de culpa dos homens ao abrirem mão de sua humanidade, de suas responsabilidades e de sua vida em última instância7. O homem se diferencia do animal na medida mesma em que se “distancia” da natureza, tanto da natureza interna, os seus impulsos, quanto da externa. Assim,
[...] a fuga do homem da natureza é necessária para a construção da cultura, enquanto abrigo que substitui a natureza, mas o preço cobrado é a anulação daquilo que deveria ser preservado e em nome do que aquele sacrifício se dava. Aquilo que se perdeu, enquanto objeto de nostalgia, marca a melancolia do protótipo burguês do indivíduo. Se aquilo que foi negado não pode ser conservado ao menos na representação, o sentido da vida se perde. (Crochík, 2000, p. 21)
Crochík (2000) assinala que a felicidade daqueles que pretendem uma entrega aos “instintos”, melhor nomeado como impulsos ou pulsões8, é na realidade ilusória, uma vez que encobre o seu preço: a resignação, a destruição da vontade humana. Entregar-se à própria vontade tornando-se indiferente às conseqüências de seus atos significa ofuscar-se, não perceber a infelicidade, a dominação intrínseca no mundo dos homens. É se encerrar no egoísmo, ignorando o fato de que o homem é essencialmente social, mediado, e como tal as suas produções, o conhecimento em geral está vinculado ao interesse social da emancipação de toda a humanidade. E de acordo com Franciscatti (2002), é na auto-reflexão que o homem encontra a sua finalidade, e é aí que percebe também algo de liberdade.

Podemos considerar Freud (1917[15]/1974) como o autor que, em sua radicalidade de investigador que revela a sociedade nas entranhas dos homens, melhor nos mostra uma dupla relação entre indivíduo e sociedade. Ao mesmo tempo em que o indivíduo acredita que a civilização é um interesse humano universal, é inimigo dessa mesma civilização. A sociedade é um pesado fardo a se carregar, com todos os sacrifícios ao desejo, mas de outra forma, sozinho, o homem não sobreviveria. Ou sobreviveria, por tempo indeterminado, em um estado de grande tensão, constantemente ameaçado. Segundo Freud, a majestosidade da natureza (suas catástrofes, doenças e a morte) atemoriza de tal maneira o homem, que este se apega à idéia de um deus, algo superior e externo a ele, um pai poderoso e protetor. O deus criado por esse homem desamparado é bom e justo, ocupa-se de controlar a natureza em favor do crente, reconciliá-lo com a crueldade do destino e da morte, e ainda recompensá-lo pelos sofrimentos da vida civilizada. Pois se a justiça não se fizer nessa vida, a fé permite remetê-la para outra vida após a morte.

Se Ulisses pode ser tomado como o representante do esclarecimento, no entanto devemos considerar que, ao tentar enganar a natureza através de seus constantes ardis, ele mesmo passa a descartar aquilo por que luta, a base de seu sacrifício: sua terra e sua identidade tensionada enquanto multiplicidade alcançada pela aventura. Num tipo de fetichismo, Ulisses já exalta o próprio sacrifício: se, por um lado, seus amigos se entregam e dissolvem sua individualidade na natureza, por outro as táticas do herói representam uma fuga. O que elas objetivam – talvez por considerar este objetivo inatingível – não é o conhecimento dessa mesma natureza e das possibilidades de liberdade, o que seria o esclarecimento verdadeiro, mas sim um não-enfrentamento constante do mundo e de si mesmo.

Marcuse (1955/1975) adverte quanto a essa ilusão:


Os paraísos perdidos são os únicos verdadeiros não porque, em retrospecto, a alegria passada pareça mais bela do que realmente era, mas porque só a recordação fornece a alegria sem a ansiedade sobre a sua extinção e, dessa maneira, propicia uma duração que de outro modo seria impossível. (p. 201)
Parece haver na sociedade industrial interpretações extremamente opostas de um mesmo terror: a não-liberdade. Há os que se resignam pela situação atual de dominação imposta por esta sociedade, reconhecem sua fraqueza perante a ordem social repressora e por isso servem e sustentam a mesma ordem. Outros se revoltam, baseados em uma utopia despida de razão, e crêem ser possível voltar a um estado primitivo, numa espécie de bucolismo árcade, uma saudade melancólica de algo que não conhecem. O que se precisa é perceber que o berço do homem é a cultura, e não a natureza estrita como muito se acredita. A história como perversão da natureza traz consigo uma tensão dialética entre o progresso e a regressão, contudo não se pode dizer que esta retrocede às etapas anteriores da natureza extra-humana; o instinto já se perverteu irremediavelmente em pulsão, mas a vida não se perdeu, pois ainda há pulsão, e esta é verdadeira no que se propõe a ser. Restam ainda, como grandes desafios, a individuação e a liberdade. A pulsão não abole o prazer; instaura-o. “Não só a possibilidade objetiva – mas também a capacidade subjetiva para a felicidade é própria da liberdade” (Adorno, 1951/1992, p. 78).

Uma forma dialética de resolução da questão é apresentada por Marcuse (1955/1975), quando nos fala da função da ciência e da religião nestes tempos. Ser “científico” hoje significa repudiar, assim como defendia Freud, a religião e a noção de um paraíso terreno ou celestial. Mas existe a possibilidade de a ciência e a religião convergirem para um mesmo ponto, a partir do qual tenderão à complementaridade. Aí, nessa nova forma de organização social, estaria a esperança de sujeitos menos ou não alienados.

A liberdade da vontade é pensada por Adorno (1966/1984), em Dialética negativa, como a unidade de todos os impulsos de um sujeito, independente dos impulsos isolados. Seria como uma escolha racional em que se consideram todas as conseqüências das ações, e não simplesmente o desejo imediato. Baseado nestas considerações, Hermenau (2005) afirma que “a vontade não se dá sem consciência” (p. 64), e que esse sujeito responsável, que pondera suas escolhas e é livre à medida que lhe é permitido ser livre, por isso mesmo é o sujeito da liberdade de vontade.

Adorno (1966/1984) comenta que, na sociedade, a liberdade está estreitamente vinculada à responsabilidade, e a autoconsciência de um determinismo é tão impossível quanto à consciência da liberdade. Entretanto, é nessa negação que se pode visualizar a liberdade. Segundo o autor, nos últimos tempos, “o mundo tem se mostrado como uma única ideologia, e os homens suas partes integrantes, o protótipo e agente de uma sociedade particularista e carente de liberdade” (p. 272; tradução das autoras).

A liberdade verdadeira não pode ser particular, não é a liberdade de apenas um homem. Mas ao mesmo tempo em que ela deve ser para todos, só tem sentido se for também para cada um. Num processo de individuação verdadeiro, diferente da “individualização”9, a liberdade do indivíduo e da sociedade podem reconciliar-se, formando uma única vontade. Para Marcuse (1955/1975), isso abole qualquer justificativa de autoritarismo.

Nesse contexto, a Odisséia (Homero, 850-750/2002) pode ser pensada como a constante luta por individuação, que se faz necessária a cada homem para que mereça realmente essa condição de indivíduo. Mas o que se pretende em tantos casos é somente voltar a Ítaca, manter o que se tinha. Fora do mito, em uma sociedade que sabota a todo momento as possibilidades de liberdade e de individuação, à exceção dos monstros comedores de homens e dos outros constantes perigos, o desafio parece ainda maior. Aqui, Ítaca está ainda por ser construída.


Morte e Suicídio: Limites da Cultura
Nos moldes da dialética, ao pensar a consciência, volta-se inevitavelmente o olhar para um estado de não-consciência, a morte. Marcuse (1955/1975) mostra a grande importância do tema, já que é a morte que vem negar uma existência não-repressiva, sendo que somente a partir dessa idéia se torna possível e necessária a civilização. Horkheimer e Adorno (1947/1985) ressaltam: “o olhar fixado na desgraça tem algo de fascinação. Mas também algo de uma secreta cumplicidade” (p. 215).

Freud (1917[15]/1974) ressalta que a razão pela qual os homens não se matam mutuamente é justamente o medo do castigo, vindo sob forma divina ou das leis da civilização. Assim, se o homem acreditar poder escapar à força terrena, e se descobrir que não existe “Deus” e um “Julgamento Final”, ele provavelmente matará quando for coagido.

Todavia, quando a morte se dá por interferência do próprio sujeito, e não por motivos “naturais” ou por discórdias, o enigma torna-se ainda mais intrigante. Freud (1923/1976; 1930[29]/1974) afirma que quanto mais um homem controla suas tendências agressivas em relação a outros, mais se intensificam as tendências agressivas do seu ego-ideal contra o seu ego: a agressividade que não encontra um caminho para o exterior tende a voltar-se contra ele mesmo. Essa mesma agressividade reflexiva também é vista nos casos de melancolia, mal que, segundo Freud, é acompanhado e caracterizado por um disfarçado – mas intenso – sadismo. O ego é dominado pelo objeto a que se vinculou.
É exclusivamente esse sadismo, que soluciona o enigma da tendência ao suicídio, que torna a melancolia tão interessante – e tão perigosa. Tão imenso é o amor de si mesmo do ego (self-love), que chegamos a reconhecer como sendo o estado primevo do qual provém a vida instintual10, e tão vasta é a quantidade de libido narcisista que vemos liberada no medo surgido de uma ameaça à vida, que não podemos conceber como esse ego consente em sua própria destruição. De há muito, é verdade, sabemos que nenhum neurótico abriga pensamentos de suicídio que não consistam em impulsos assassinos contra outros, que ele volta contra si mesmo, mas jamais fomos capazes de explicar que forças interagem para levar a cabo esse propósito. (Freud, 1917[15]/1974, pp. 284-285)
Em O suicídio, Durkheim (1897/1982) vem dizer que existe para cada grupo social e para cada momento uma tendência específica para a morte auto-infligida. Essa tendência então não se explica, a despeito do que pregavam certos estudiosos – dentre eles médicos e psiquiatras –, pela constituição orgânico-psíquica ou pelo meio físico. O grande avanço do estudo de Durkheim se refere justamente ao fato de situar as causas do suicídio no coletivo.

Durkheim (1897/1982) comenta a divergência de opinião entre o clínico e o sociólogo. Para ele, enquanto o clínico tende a ver somente os casos particulares, isolados uns dos outros, o sociólogo acredita que de uma maneira geral, os indivíduos que se matam – num espaço de tempo determinado e em número definido – não o fazem simplesmente por um motivo particular como um adoecimento psíquico. O sociólogo busca a causa produtora do fenômeno, que escapa a quem só observa casos individuais. Conceitualmente,


Chama-se suicídio todo caso de morte que resulte direta ou indiretamente de um ato positivo ou negativo praticado pela própria vítima, ato que a vítima sabia produzir este resultado. A tentativa de suicídio é o ato assim definido, mas interrompido antes de resultar em morte. (Durkheim 1897/1982, p.16)
Faz-se necessário também definir aqui os diferentes tipos de suicídio classificados por Durkheim (1897/1982). Segundo o autor, quando o eu individual se afirma com excesso sobre o eu social, diz-se que está presente o “egoísmo”. Dessa forma, o tipo de suicídio denominado “egoísta” resultaria de uma individualização exagerada, quando há pouca “integração” do indivíduo à sociedade, ou seja, quando ele não sente e nem reconhece a sociedade como sendo parte de si mesmo. Em seu ideal, suas ações, sua forma de viver e de pensar, esse indivíduo tenta se afastar cada vez mais da coletividade, e não encontra mais razão de ser na vida. De forma oposta, o suicídio “altruísta” ocorre quando há uma grande integração do indivíduo à sociedade, e ele se mata pelo bem-comum. A razão de ser aí existe ainda, mas está fora do próprio eu (é o caso freqüentemente visto no heroísmo do soldado na guerra que se põe na linha de fogo para proteger um companheiro, pessoas no limiar da velhice ou doentes e mesmo mulheres por ocasião da morte do marido). É importante notar que tanto o individualismo excessivo quanto a dissolução do indivíduo na sociedade podem desencadear o suicídio.

O terceiro tipo de suicídio, chamado “anômico”, é aquele resultante de desequilíbrios sociais ocasionados pelas crises econômicas e políticas. Toda uma estrutura de mundo se desfaz; caem as referências, os pontos de apoio tradicionais ancorados nas instituições. Sob o jugo de uma crise, a moral se verga e as antigas atividades do homem se desagregam, forçando-o a uma readaptação à nova situação. Este processo é tão doloroso quanto uma grande mudança súbita, para a qual o homem não se julga suficientemente preparado. É possível visualizar certa relação entre o suicídio egoísta e o anômico, na medida em que ambos resultam do fato de a sociedade, o reconhecimento de sua mediação, não estar suficientemente presente nos indivíduos. No tipo egoísta, é a atividade, são as práticas coletivas que estão ausentes, enquanto no anômico o que acontece é que o indivíduo não sente sobre si e sobre seus desejos individuais o efeito regulador da sociedade. Vê-se, portanto, que o suicídio é fortemente influenciado, senão “determinado” pela capacidade de individuação que uma sociedade oferece aos seus membros. Uma individuação “fraca”, entre outros fatores, alicerça uma personalidade suicida.

Horkheimer e Adorno (1947/1985), em Fragmento de uma teoria do criminoso, apontam a monotonia do ritmo de trabalho na sociedade industrial como fator determinante de um sentimento de horror que se apodera do homem, levando-o muitas vezes ao isolamento, à desesperança e, finalmente, ao nada. Diante dessas circunstâncias, realiza-se um inescapável movimento de retorno a si mesmo, deparando-se inevitavelmente com o terrível vazio interior. Segundo os autores, é necessário um “quantum” de energia para se tornar indivíduo, e em certos casos, essa energia parece estar deteriorada. Daí a propensão a perder-se no meio ambiente, querer regredir à natureza, numa “moleza de caráter” a que se chamou, dentre outras denominações, “pulsão de morte”.

Para Freud, nos escritos Além do princípio de prazer (1920/1976) e O mal-estar na civilização (1930[29]/1974), por considerar a existência de uma “contradição irreconciliável” entre “Eros e Tânatos”, é a pulsão de morte que aparece como uma natureza inconquistável e a grande responsável pelo “mal-estar”. Os autores frankfurtianos mostram uma séria preocupação com tal hipótese de Freud. Horkheimer e Adorno (1947/1985) se referem a uma “obscura pulsão” (p. 160) que toma os homens insatisfeitos econômica e sexualmente. Estes desenvolvem grande ódio, já que “não admitem nenhum relaxamento, porque não conhecem nenhuma satisfação” (p. 160). Já Marcuse (1955/1975) emprega a terminologia freudiana “pulsão de morte” na análise sobre o pensamento deste autor no livro Eros e civilização.

Entretanto, diante do exposto e com base nos autores frankfurtianos, podemos indicar a barbárie das condições sociais e a violência interna contra si mesmo, tomando-as como mutuamente determinadas, como causas objetivas e subjetivas que afastam o homem de seu caráter “humano”:
O mecanismo da adaptação às endurecidas condições, é, ao mesmo tempo, um mecanismo de endurecimento do sujeito em si: quanto mais se ajusta à realidade, tanto mais se converte em coisa, menos vai vivendo, mais absurdo se torna esse seu ‘realismo’, que tudo destrói, por meio do qual intervém propriamente a razão autoconservadora, e que sucessivamente ameaça a vida pura. (Adorno, 1955/1991, p. 52 e p. 164; grifo no original; tradução das autoras)
É a culpa pelos fracassos constantes na cultura que leva o homem a essa agressividade contra o que poderia ter sido e que fora prometido pela cultura – paz e tranqüilidade (Adorno, 1968/1995). Assim, o movimento de retirar-se da cultura traz como conseqüência exatamente o embate entre cultura e indivíduo, de onde também origina a questão. Nesses termos, as desigualdades sociais dificultam e até impossibilitam a individuação, e o resultado se mostra na separação entre as vidas exterior e interior do homem, e numa frieza frente ao sofrimento, seja próprio ou alheio.

Entretanto, como ressalta Marcuse (1955/1975), a idéia do instinto (pulsão) de morte não aponta para a morte em si, como fim da vida, mas para o “Nirvana” – um estado de gratificação constante, livre de carências, de quaisquer estímulos ou tensões. A partir disso, pode-se pensar que uma vida gratificante poderia reduzir as tendências destrutivas do indivíduo, ao passo que uma vida de frustrações e contrariedades hoje estimula a pulsão e o desejo de morte. Nesse sentido e como um movimento anterior à insensibilização resultante do congelamento diante do sofrimento extremo, Marcuse (1955/1975) reconhece que:


Não os que morrem, mas os que morrem antes de querer e dever morrer, os que morrem em agonia e dor, são a grande acusação lavrada contra a civilização. Também servem de testemunho para a culpa irredimível da humanidade. A morte deles suscita a dolorosa consciência de que foi desnecessária, que poderia ter sido de outra maneira. São precisos todos os valores e instituições de uma ordem repressiva para pacificar a má consciência dessa culpa. (p. 203)
Para este autor, nesse movimento, a morte se alia à repressão. Contudo, também no entendimento de Marcuse sobre as formulações que Freud pôde apresentar, o sentimento de culpa se mostra ambíguo, em especial quando se toma como referência a hipótese, uma tanto mítica, sobre o parricídio original. Nesta, o sentimento de culpa se faz presente tanto pelo crime contra o patriarca-déspota, parricídio, como pela traição e esquecimento da promessa de liberdade que estaria contido no próprio ato.
O derrubamento do rei-pai é um crime, mas o mesmo se pode dizer da sua restauração – e ambos os atos são necessários ao progresso da civilização. O crime contra o princípio de realidade é redimido pelo crime contra o princípio de prazer: a redenção, portanto, anula-se a si mesma. O sentimento de culpa é mantido, apesar de repetida e intensificada redenção: a ansiedade persiste, porque o crime contra o princípio de prazer não foi redimido. Existe a culpa a respeito de um ato que não foi realizado: a libertação. (Marcuse 1955/1975, pp. 75-76)
Retomando a Odisséia (Homero, 850-750/2002) como metáfora da vida humana cujo tema é a individuação, pode-se pensar a atitude dos homens bestializados no palácio de Circe como uma espécie de suicídio: o que eles buscam é o não-pensar, só o que desejam é a gratificação, numa entrega à natureza que desconsidera a urgência alheia do retorno ao mundo real, à terra outrora tão buscada e agora tão facilmente esquecida. Como no suicídio, os indivíduos se valem de uma qualidade essencialmente humana, o pensamento – também chamado “livre-arbítrio”, por mais que a noção de liberdade possa aqui ser contestada, retornando ao tópico anterior – para escolherem, em suposta racionalidade, pela não-consciência, pela desumanização.

É nessa idéia que se ancora a negação de que a escolha individual pelo suicídio seja baseada em uma vontade livre. Tal ato, pelo contrário, mais parece uma entrega à dominação, que assinalaria talvez a crescente submissão do homem à sociedade que ele mesmo criou, e não obstante, não suporta mais. Ainda segundo Marcuse (1955/1975), a morte pode se tornar racional, e os homens “podem morrer sem angústia se souberem que o que eles amam está protegido contra a miséria e o esquecimento. Após uma vida bem cumprida, podem chamar a si a incumbência da morte – num momento de sua própria escolha” (p. 203).

Mas infelizmente, e nem é preciso tanto argumentar quanto a essa afirmação, o tempo de segurança e de não-repressão ainda não chegou. Escolher a morte é desistir da luta, sem que a luta termine por isso. É aumentar o fardo dos companheiros, determinar que eles continuem o trabalho que é individual ainda que consubstanciado socialmente, e que por um motivo ou outro não se pretende mais realizar. Quanto a esse ponto, as palavras de Horkheimer e Adorno (1947/1985) são enfáticas:

[...] foi sob o signo do carrasco que se realizou a evolução da cultura [...]. Sob o signo do carrasco estão o trabalho e o prazer. Querer negá-lo significa esbofetear toda a ciência e toda a lógica. Não se pode abolir o terror e conservar a civilização. (p. 202)


Por isso, seguindo a perspectiva de uma psicologia crítica, buscamos com este texto contribuir com a tarefa de desvelar o princípio bárbaro que se arrasta em nossa civilização. Ao questionar/investigar se o suicídio pode ser caracterizado como um desejo de ocultamento do mundo frente às exigências desmesuradas da sociedade industrial, como também das responsabilidades que o homem deve assumir em nome da liberdade, atenta-se para a obliteração das possibilidades de individuação em uma sociedade de massificação e individualismo, e conseqüentemente suas relações com o suicídio – mais especificamente o entrelaçamento de mito, dominação e trabalho se impondo enquanto exigências irrestritas de renúncia pulsional e do sacrifício como modo de vida na sociedade contemporânea.

Referências
Adorno, T. W. (1984). Dialectica negativa. (J. M. Ripalda, Trad. Espanhol). Madrid: Taurus. (Publicado originalmente em 1966).
Adorno, T. W. (1995). Educação contra a barbárie. In T. W. Adorno, Educação e emancipação (pp.155-168) (W. L. Maar, Trad.). São Paulo: Editora Paz e Terra. (Publicado originalmente em 1968).
Adorno, T. W. (1992). Minima moralia; reflexões a partir da vida danificada (L. E. Bicca, Trad.). São Paulo: Ática. (Publicado originalmente em 1951).
Adorno, T. W. (1991). De la relacion entre sociologia y psicologia. In T. W. Adorno, Actualidad de la filosofía (pp.135-204). (J. L. Arantegui, Trad.). Barcelona: Paidós. (Publicado originalmente em 1955).
Crochík, J. L. (2000, Dezembro). Ulisses e narciso: o abandono de si mesmo e o abandono a si mesmo. Revista Olhar, 2(4), 19-37.
Durkheim, E. (1982). O suicídio; estudo sociológico (N. C. Caixeiro, Trad.). Rio de Janeiro: Zahar. (Publicado originalmente em 1897.)
Franciscatti, K. V. S. (2002, janeiro/junho). À felicidade na liberdade ou à felicidade na ausência de liberdade. Psicologia & Sociedade. 14(1), 123-140.
Freud, S. (1976). O Ego e o Id (Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, Vol. XIX) (J. Salomão, Trad.) (pp. 11-83). Rio de Janeiro: Imago. (Publicado originalmente em 1923).
Freud, S. (1976). Além do princípio de prazer (Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, Vol. XVIII) (C. M. Oiticica, Trad.) (pp. 11-85). Rio de Janeiro: Imago. (Publicado originalmente em 1920).
Freud, S. (1974). O mal-estar na civilização (Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, Vol. XXI) (J. O. A. Abreu, Trad.) (pp. 73-171). Rio de Janeiro: Imago. (Publicado originalmente em 1930[29]).
Freud, S. (1974). Luto e melancolia (Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, Vol. XIV) (T. O. Brito, P. H. Britto & C. M. Oiticica, Trad.) (pp. 269-291). Rio de Janeiro: Imago. (Publicado originalmente em 1917[15]).
Hermenau, F. (2005, junho). Impulso e reflexão – liberdade da vontade em Adorno. Veritas. 50(2), 59-69.
Hillman, J. (1993). Suicídio e alma. (S. M. C. Labate, Trad.). Coleção Psicologia Analítica. Petrópolis: Vozes. (Publicado originalmente em 1964).
Homero (2002). Odisséia (A. P. Carvalho, Trad.). São Paulo: Nova Cultural. (Original entre 850-750 a. C.)
Horkheimer, M., & Adorno, T. W. (1985). Dialética do Esclarecimento: fragmentos filosóficos (G. A. Almeida, Trad.). Rio de Janeiro: Zahar. (Publicado originalmente em 1947.)

Laplanche & Pontalis (1991). Vocabulário da Psicanálise (P. Tamen, Trad.) (11 ed.). São Paulo: Martins Fontes. (Publicado originalmente em 1967).


Marcuse, H. (1967). A ideologia da sociedade industrial (G. Rebuá, Trad.). Rio de Janeiro: Zahar. (Publicado originalmente em 1964).
Marcuse, H. (1975). Eros e civilização; uma interpretação filosófica do pensamento de Freud (A. Cabral, Trad.) (6ª ed.). Rio de Janeiro: Zahar. (Publicado originalmente em 1955).
Silveira, N. (1992). O mundo das imagens. São Paulo: Ática.

Categoria de contribuição: Ensaio

Recebido: 29/04/09

Aceito: 10/11/09



1 Este artigo resulta da pesquisa de iniciação científica intitulada Suicídio e liberdade de vontade: possibilidades de individuação na sociedade industrial, realizada entre agosto de 2007 e julho de 2008 com o apoio financeiro do CNPq, do Departamento de Psicologia (DPSIC) e do Laboratório de Pesquisa e Intervenção Psicossocial (LAPIP) da Universidade Federal de São João Del-Rei (UFSJ). Trabalho apresentado no XIV Encontro Nacional da ABRAPSO – Rio de Janeiro, 2007, sob o mesmo título.

2 Graduanda do Curso de Psicologia da Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ), bolsista de iniciação científica – PIBIC/CNPq/UFSJ entre agosto/2007 e julho/2008. Contato: rochaufsj@yahoo.com.br. Endereço para contato: Universidade Federal de São João del-Rei, Departamento de Psicologia (DPSIC), Laboratório de Pesquisa e Intervenção Psicossocial (LAPIP). Praça Dom Helvécio, 74 - Dom Bosco. CEP: 36301-160 – São João del-Rei / MG.

3 Graduação em Psicologia pela Universidade Metodista de Piracicaba (UNIMEP), Mestrado e Doutorado em Psicologia: Psicologia Social pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP). Professora adjunta do Departamento de Psicologia (DPSIC), professora permanente do Programa de Mestrado em Psicologia (PPGPSI) e pesquisadora do Laboratório de Pesquisa e Intervenção Psicossocial (LAPIP) da Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ). Contato: kety.franciscatti@gmail.com.

4 A pesquisa Psicologia e Arte: reflexões acerca da subjetividade obstada (DPSIC/LAPIP/UFSJ) está estruturada em três eixos relacionados: 1. Formação e Criação Artística: tensão forma e conteúdo, forma e expressão; 2. Formação e Recepção: tensão estímulo e resposta; produtos e configurações psicológicas (sensíveis e intelectuais); 3. Formação e Indústria Cultural: contexto e meios; relação ideologia e preconceito. Os subprojetos desta pesquisa visam, com base nas contribuições dos autores da chamada Escola de Frankfurt, discorrer sobre a formação cultural por meio da articulação da potencialidade epistemológica da arte e da ciência psicológica, com isso, busca-se contribuir para o desvelamento das barreiras impostas pela ideologia da racionalidade tecnológica à formação do indivíduo.

5 Quando se tratar de uma obra publicada originalmente em outra data, serão citadas as duas referências: primeiro a data da publicação original e segundo a data da edição consultada.

6 Para a publicação deste livro no Brasil em 1985, em nota preliminar, o tradutor Guido Antonio de Almeida se refere ao termo esclarecimento como “o processo de ‘desencantamento do mundo’, pelo qual as pessoas se libertam do medo de uma natureza desconhecida, à qual atribuem poderes ocultos para explicar seu desamparo em face dela. Por isso mesmo, o esclarecimento de que falam não é, como o iluminismo, ou a ilustração, um movimento filosófico ou uma época histórica determinada, mas o processo pelo qual, ao longo da história, os homens se libertam das potências míticas da natureza, ou seja, o processo de racionalização que prossegue na filosofia e na ciência” (pp. 7-8; grifos no original).

7 Para Horkheimer e Adorno (1947/1985, p. 46): “(...) a adaptação ao poder do progresso envolve o progresso do poder, levando sempre de novo àquelas formações recessivas que mostram que não é o malogro do progresso, mas exatamente o progresso bem-sucedido que é culpado de seu próprio oposto. A maldição do progresso irrefreável é a irrefreável regressão”.

8 Para Freud, instinto (Instinkt) se refere ao comportamento animal fixado por hereditariedade, característico da espécie. O termo Trieb é introduzido justamente em represália à concepção de que a pulsão tenha meta e objetivo específicos, localizada no aparelho genital. Aponta, pelo contrário, para um objeto variável, que só pode ser escolhido na história pessoal. Trieb se refere à impulsão, apontando para uma orientação geral e enfatizando o caráter irreprimível da pressão (Laplanche & Pontalis, 1967/1991).

9 Individuação se refere à diferenciação, a tornar-se autônomo, capaz de pensar por si mesmo – o que parece constituir o propósito da vida humana –, e se opõe ao enorme individualismo que se presencia na sociedade industrial, situação semelhante ao “egoísmo”, em que o que interessa em primeiro plano e mais que qualquer outra coisa é o isolamento dos membros desta sociedade, o não reconhecimento das mediações sociais e o conseqüente enfraquecimento do próprio eu.

10 Como exposto anteriormente, a escolha do termo “instinto” como equivalente a Trieb é uma inexatidão da tradução inglesa que ainda se reflete na tradução que dispomos para o português (Laplanche & Pontalis, 1967/1991).



Pesquisas e Práticas Psicossociais 4(1), São João del-Rei, Dez. 2009






©livred.info 2017
enviar mensagem

    Página principal