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Segundo modo. Os primitivos dependem da nossa experiência do mundo, ou (como sugere Russell 1940) são 'palavras-objeto' cujo significado aprendemos por ostensão, assim como um menino aprende o significado da palavra /vermelho/ encontrando-a associada às diversas ocorrências do fenómeno 'vermelho'. Ao contrário, haveria 'palavras de dicionário' que podem ser definidas mediante outras palavras de dicionário. Russell é de resto o primeiro a caracterizar a vaguidade do critério, porque admite que /pentagrama/ seja para a maioria dos falantes uma palavra de dicionário, enquanto é uma palavra- objeto para um menino crescido num cômodo cuja tapeçaria reproduz pentagramas como motivo decorativo.

Wierzbicka (1972, p. 21) parece ser muito generosa com as palavras-objeto porque elenca «nomes para as partes do corpo e para objetos que ocorrem na natureza - como mar, rio, campo, bosque, nuvem, montanha, vento etc. -, para artefatos humanos como mesa, casa, livro, papel etc. As expressões que num certo sentido não podem ser explicadas são as palavras para as 'espécies' (no sentido lato do termo): gato, rosa, maçã, cana, ouro, sal etc. ». Afora o fato de que essa posição se refere à teoria da designação rígida (Kripke 1972, Putriam 1975), é evidente que, uma vez nesse caminho, a lista dos primitivos não pode ser finita. Mas o risco dessa posição é bem outro, e de natureza requintadamente teorética: a idéia de uma lista de primitivos nasce para explicar uma competência linguística independente do conhecimento do mundo, mas nesse segundo modo a competência linguística está radicalmente fundada num precedente conhecimento do mundo.

Terceiro modo. Os primitivos são idéias inatas de caráter platónico (Katz 1981 já se move nessa direção). A posição seria filosoficamente impecável, salvo que Platão absolutamente não teve êxito em estabelecer de modo satisfatório quais e quantas são as idéias universais inatas. Ou há uma idéia para cada género natural (a cavalinidade) e então a lista é aberta. Ou há poucas idéias muito mais abstratas (como o Uno e o Múltiplo, o Bem, os conceitos matemáticos) e então não bastam para distinguir os significados dos termos lexicais.
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Resta então apenas uma quarta possibilidade. Suponhamos que se estabeleça um sistema de primitivos tal que, em virtude da relação sistemática entre os seus termos, só possa ser finito. Se chegarmos a conceber um sistema desse género, poderemos admitir que ele reflita estruturas universais da mente (e provavelmente até do mundo). Ora, um bom exemplo desse sistema é o do encaixamento recíproco entre hipónimos e hiperónimos que nos é oferecido pelos lexicógrafos. Ele é organizado hierarquicamente como árvore de modo que a cada par (ou triplo ou duplo) de hipónimos corresponda um único hiperónimo, e que cada tipo de hiperónimos constitua por sua vez o nível hiponímico de um só hiperóninio superior, e assim por diante. No fim, por mais que sejam os termos a encaixar, a árvore só pode reduzir- se para o alto até o hiperónimo patriarca.

Por isso, poder-se-á dizer que /ovelha/ contém ou compreende “ovino” e (por propriedade transitiva da classificação) contém e compreende 'animal'. Poder-se-ia também dizer que essa árvore representa um conjunto de postulados de significado (Carnap 1947). A forma do postulado de significado

(X) (PX  OX)

nos garante na realidade que /x é urna ovelha/ postula /x é um animal/ assim como /esta é uma ovelha/ implica /este é um animal/.

Todavia um conjunto de postulados de significado é estabelecido em bases pragmáticas (cf. Lyons 1977, p. 204) sem distinguir entre propriedades sintéticas e propriedades analíticas. A fórmula do postulado de significado vale também se P está para 'ovelha' e O está para 'lanoso'. Ou melhor, se se postulou que todas as ove- lhas são lanosas, mas não se postulou que todas as ovelhas são animais, na perspectiva carnapiana /se x é uma ovelha então é lanosa/ seria uma verdade analítica enquanto /se x é uma ovelha então é um animal/ seria reduzido à condição de uma verdade sintética e factual (Carnap 1966). A série dos postulados de significado é inde-

finidamente aberta e não obedece a critérios discriminadores entre propriedades de dicionário e propriedades de enciclopédia.

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I) não diz o que significam /ovino/ ou /animal/ (isto é, não explica o significado das figuras ou dos primitivos);

II) não ajuda a distinguir entre uma ovelha e um carneiro, dado que ambos são animais ovinos;

III) explica os fenómenos da hiperonímia e sinonímia, da sensatez e da anomalia, da redundância, das verdades analíticas, da contraditoriedade, da inconsistência e da implicitação, mas não explica sinonímia, paráfrase e diferença semântica.

Como Aristóteles bem sabia, temos uma definição quando, para caracterizar a essência de alguma coisa, escolhem-se atributos tais que no fim, embora cada um desses atributos tomado isoladamente tenha uma extensão maior do que o sujeito, todos juntos têm a mesma extensão que o sujeito. (An. Sec. Il 96a 35). Em outras palavras, deve haver absoluta reciprocidade entre definiens e definiendum de modo que possam ser mutuamente substituídos em todo contexto. Numa árvore que nos permitisse afirmar que /homem/ é definível como «macho humano adulto», então /este é um homem/ implicitaria /este é um macho humano adulto/ e vice-versa; do mesmo modo /este não é um macho humano adulto/ implicitaria /este não é um homem/ e /este não é um homem/ implicitaria /este não é um macho humano adulto/. Mas com implicações já referidas isso não pode suceder: não só /este é um animal humano/ não implicita que este seja um homem, mas /x é o meu homem preferido/ não implicita de nenhum modo que /x é o meu ser humano (ou animal) pre- ferido/ e /todos os homens são bigodudos/ não implicita /todos os humanos são bigodudos/ (sem contar o fato deplorável de que a árvore não me permite usar a propriedade 'bigodudo').

É preciso, portanto, tentar um sistema de determinações lexicais que, tendo as mesmas garantias de fechamento e finitude das implicações, ao mesmo tempo permita também obter definições absolutamente permutáveis com o termo a definir.

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3 Pseudodicionário de câmara para uma língua de câmara


Naturalmente é imprudente tomar uma taxinomia das ciências naturais como modelo para um inventário do conteúdo de uma língua natural: Dupré (1981) não só demonstrou que onde o não especialista reconhece uma espécie como 'beatle' o entomólogo identifica cerca de 290000 espécies, mas também que o sistema lexical de uma língua natural e as taxinomias; científicas se sobrepõem frequentemente de modo muito impreciso. Chamamos /árvore/ tanto um olmo quanto um pinheiro, enquanto o naturalista diria que o primeiro é um angiosperma e o segundo não. Não há nesse caso um equivalente científico para /árvore/ como não há também equi- valente natural para /angiosperma/.

Todavia, partindo da proposta de Hjelmslev, procuramos conceber uma série de disjunções, que posam definir sem ambiguidade e com a máxima economia uma série de expressões linguísticas como cão, lobo, raposa, gato, tigre, lince, bachelor (no sentido de foca que fica sem parceiro na época de acasalamento, discutido por Katz e Fodor 1963), cavalo, boi, búfalo, ovelha, muflão, elefante e équidna.

Delineamos um universo linguístico em que não é possível distinguir um cavalo de um asno ou um elefante de um rinoceronte, e isso para evitar muitas disjunções inferiores da árvore.

Essa árvore fornece-nos a imagem de um universo muito limi-tado, constituído por um número reduzido de assim chamados 'géneros naturais' cujos nomes são fornecidos pelas palavras em itálico na última linha embaixo. Esse universo assemelha-se bastante pouco ao universo da nossa experiência cotidiana, onde há também peixes, aves, homens, bancos e chaves-de-fenda (para sugerir apenas alguns exemplos). Mas é que para delinear um dicionário 'forte' devemos sempre conceber um universo bastante pobre e reduzido, digamos um universo de câmara. O inconveniente é que geralmente os construtores de dicionários ideais não conseguem mais sair de seu universo de câmara, mas disso se falará mais adiante.

De outro lado, foi dito como é difícil descrever ao lado dos géneros naturais também os géneros artificiais (como cadeiras e casas), para não falar de todos os possíveis predicados (como estar frio ou quente, ser o avô de, ou encontrar-se à direita de) e todas as possíveis funções e papéis (de parentesco, políticos etc., como
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ser marido de, ser solteiro, ser presidente, piloto, médico de plantão - cf. por exemplo Schwartz 1977, p. 37-41).

I) Todos os termos em redondo são nomes de classes, de modo que cada termo hipónimo denomina uma subclasse incluída na classe mais vasta, e os termos em itálico (que são termos da linguagem objeto) denominam todos os indivíduos que podem ser membros da classe imediatamente superior. Nesse caso, ficaria em discussão com base em que instruções poderemos reconhecer os dados de experiência (os objetos) que somos autorizados a designar mediante esses nomes da linguagem objeto.

II) Os nomes em redondo são nomes de propriedades, primiti- vos semânticos, termos da metalinguagem teórica. Nesse caso, restaria estabelecer se eles são ainda por seu turno interpretáveis ou se constituem primitivos ulteriormente inanalisáveis. A totalidade do hipónimo 'contém' ou postula o próprio hiperónimo, ou que, se um x é um gato, ele tem a propriedade de ser um 'felis catus' e que todos os x que têm a propriedade de ser 'felis catus' têm a propriedade de ser 'felis', 'felídeos' e assim por diante até 'animais'.

Deixemos por enquanto em discussão essa alternativa: dizíamos que, se a árvore representa uma estrutura (finita) de postulados de significado, que devem servir ao bom funcionamento de uma língua natural, é a mesma coisa dizer que todo gato necessariamente pertence à classe dos 'felis catus', e que a subclasse dos 'felis catus' está incluída na dos 'felis', ou que, se algo é um gato, tem necessariamente a pro- priedade de ser 'felis', 'felídeo' e assim por diante.

É, explicar fenómenos como sinonímia, paráfrase e diferença semântica. Ela permite por isso formular definições permutáveis com o definiendum e, por isso, distinguir sem ambigüidade o significado de cada termo.

Em virtude da estrutura desse sistema lexical é necessariamente verdadeiro que um /gato/ é um «mamífero placentário, carnívoro, felídeo, félis, félis catus» e, se todas essas coisas não são expressas conjuntamente pela definição, não pode ser um gato. Quem nega o gato nega todo o bloco definitório, embora não negue nenhuma dessas marcas tomadas singularmente.

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Assim concebida, a árvore aparece como um bom dicionário finito. Embora a lista dos termos da linguagem objeto seja aberta e devêssemos definir também, por exemplo, o termo /truta/, basta- ria complicar a árvore opondo 'peixes' a 'mamíferos', mas no fim a árvore reduzir-se-ia sempre ao nó superior 'animais' - e assim sucederia também se se quisesse representar gêneros `artificiais' e substâncias não vivas.



Todavia nesse ponto, embora o dicionário apareça tão perfeito, deve-se adiantar uma objeção. Um gato, é um 'felis catus', mas em latim, embora em dois diferentes estágios de desen- volvimento da língua, tanto /felis/ quanto /catus/ são sinónimos de /gato/. A permutabilidade entre definiens e defliniendum reduz- se a um caso de plena sinonímia: essa árvore não define um gato, diz apenas que se pode chamá-lo /felis catus/. E se depois perguntássemos à árvore o que é um 'felis catus', a árvore nos diria que ele é um 'felis', mas nesse ponto não seríamos mais capazes de distingui-lo de um tigre. Um gato é só um felídeo que se distingue de um tigre porque os latinos o chamavam /felis catus/?

É óbvio que o zoólogo nos responderia que quando ele usa a expressão /felis catus/ não está fazendo um mero jogo de palavras. Ele usa /felis/ como nome de um género e /catus/ como nome de uma diferença, mas mediante essas expressões linguísticas ele tem a intenção de compendiar outras propriedades interessantes (e características). Ser um 'catus' significa para o zoólogo possuir as propriedades P 1, P2 ... p n e ser um 'felis' significa possuir as propriedades PI, P2 ... P n e a mesma coisa se deverá dizer em relação ao que concerne a expressões como ovino, bovino, até mamífero e mais.

O fato é que, representa uma taxinomia zoológica, ela não pretende de maneira alguma fornecer o significado da palavra /gato/ ou /ovelha/: a árvore representa uma classificação de géneros naturais, acidentalmente etiquetados por intermédio de certos nomes (que mudam de língua para língua) mediante nomes de classes ou de taxa que (acidentalmente) são expressos num esperanto naturalístico que se assemelha muito ao latim clássico. O zoólogo como tal está, no entanto, interessado em definir as propriedades dos “taxa” que registrou, mas essas propriedades, na árvore taxonômica, são simplesmente significadas pelo termo que ele usa como etiqueta taxonômica.

Se disséssemos a um zoólogo que os gorilas nascem na Irlanda, ele poderia reagir de dois modos: ou entenderia a asserção no

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sentido de que alguns gorilas podem nascer na Irlanda e então estaria pronto a admitir que fenómenos do género ocorrem nos jardins zoológicos; ou entenderia a asserção como veículo de uma proposição eterna (todos os gorilas, todos os animais dessa espécie nascem na Irlanda) e então diria que a proposição é falsa porque contradiz algumas informações acerca da natureza dos gorilas que para ele são taxativas e que, portanto, fazem parte de sua definição científica de gorila. Provavelmente, o zoólogo se exprimiria em outros termos, mas o que ele desejaria dizer seria que a proposição acima é analiticamente falsa porque dizer ao mesmo tempo e do mesmo indivíduo /este é um gorila/ e /este é um animal pertencente a uma espécie que nasce habitualmente na Irlanda/ representaria um caso de inconsistência semântica.



O mesmo zoólogo não discutiria a asserção /esta ovelha tem três patas/ porque não pode excluir a possibilidade de uma má-formação acidental, mas refutaria como cientificamente errada (e, portanto, no contexto da própria linguagem, como semanticamente inconsistente) a asserção /esta é uma ovelha e não é um quadrúpede/ porque na sua definição (não na sua taxinomia) de ovelha deve haver uma propriedade (que provavelmente depende do nó 'ungulados') que regis- traremos como 'quadrupedicidade'. Não sei se o zoólogo diria que as ovelhas são necessariamente ou analiticamente quadrúpedes, mas certamente diria que a propriedade de ter quatro membros pertence a essa espécie, em algum sentido 'forte' do verbo /pertencer/.

Os zoólogos sabem muitíssimo bem que os nomes dos géneros, das ordens, das famílias não são meros construtos teóricos inanalisáveis, mas são interpretáveis. Esses nomes são 'palavras' de sua linguagem específica. Para o zoólogo, /mamífero/ não é apenas um construto teórico que garante a anomalia de expressões como /uma pedra mamífera/: para o zoólogo, /mamífero/ é interpretável mais ou menos como «um animal vivíparo que nutre os filhotes mediante leite secretado pelas glândulas mamárias». A coisa interessante é que também os usuários de uma língua natural se comportam da mesma maneira - e os únicos seres anormais, em toda essa questão, são os defensores de uma semântica à maneira de dicionário. Quando dizemos que uma terra é rica em minerais, não queremos só dar a entender que ela é rica de objetos naturais não viventes. Usamos expressões como /mamífero/ ou /vegetal/ da mesma maneira como falamos de gatos, de lobos ou de tigres.

Se a árvore fosse o dicionário de uma língua natural (ou de uma língua de câmara homóloga a uma língua natural)

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deveríamos dizer que I) ou usamos com a mesma frequência e bom os mesmos objetivos tanto termos da língua natural quanto termos da metalinguagem semântica, II) ou que, quando, falando, dizemos /animal/ ou /vegetal/, estamos usando palavras que não têm nada a ver com os construtos teóricos 'animal' e 'vegetal'. Nesse ponto, saberíamos muitíssimo bem o que fazemos nós como falantes da língua natural, mas não conseguiríamos explicar o que fazem os defen- sores dos primitivos semânticos: tomam emprestados termos da língua natural, esvaziam-nos de seu significado e, depois, usam-nos para explicar os significados de outros termos.

É exatamente quando, no fim das contas, e também sem aderir à teoria das palavras-objeto, o falante natural tem pouca necessidade de que se lhe explique o que é um gato, mas tem muita necessidade de que se lhe explique o que é um mamífero.

Naturalmente o defensor do dicionário procura escapar desse impasse: e pode fazê-lo apenas se admitir que também os primitivos podem ser interpretados. Por exemplo, Katz (1972, p. 40) analisa o lexema /cadeira/ como

(Objeto)

(Físico)


(Não vivente)

(com pernas)

(com encosto)

(Artefato)

(com assento)

(Móvel) (Deslocável)

(para uma pessoa)

(e restaria perguntar-se se não insere na representação muitos elementos de enciclopédia) mas diz depois que cada um dos conceitos representados pelas marcas semânticas deveria ser por sua vez analisado e interpretado. E sugere que /objeto/ possa ser analisado como «toda organização de partes espaço-temporalmente contíguas que formam um todo estável que tem orientação no espaço».

Mas nesse ponto uma árvore de dicionário deveria conter outros nós como 'organização', 'parte', 'orientação' e assim por diante. Ainda admitindo que essas marcas podem ser inseridas numa árvore bidimensional (o que é impossível [cf. Eco 1975, 2.12]) e postulando que, no entanto, além do 'objeto', são definidos também 'vivente' e 'artefato' e assim por diante, é claro que se recolocam todos os problemas concernentes à finitude do sistema dos primitivos.

Na realidade, para chegar a uma representação como a de Katz que foi apenas exemplificada, é preciso tomar uma decisão; refutar o princípio de hierarquização das marcas para dotar um sis- tema de classificação cruzada, privado de relações hierárquicas definidas (cf. para uma aguda crítica desse ponto, Jane Dean Fodor


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1977, p. 153). Mas se se abandona a hierarquização , perde-se a maneira de limitar o número dos primitivos.

Por isso, ou as marcas não devem ser interpretadas e, então, não se define o significado; ou devem ser interpretadas e perde-se a maneira mais segura de limitar seu número.

Enfim, permanece em discussão um outro problema: que a interpretação das marcas (ainda quando de algum modo diverso se garantisse sua limitação) impõe a introdução de um novo elemento do jogo, isto é, a diferença específica. Na árvore a palavra, 'catus' era a diferença específica que distinguia um 'felis, que fosse gato de um 'felis' que fosse tigre. Mas, além do fato de que seria necessário interpretar também /catus/, o mesmo procedimento se deveria aplicar a qualquer outro nó da árvore. É o critério que é seguido pela mais antiga e venerável árvore de definição da história, a árvore de Porfirio. Mostraremos nos parágrafos seguintes que, assim que, numa árvore de hipónimos e hiperónimos, entendidos como gêneros e espécies, introduz-se a diferença específica, a árvore deixa de ser um exemplo de dicionário e torna-se fatalmente uma enciclopédia.


4 A árvore de Porfirio
4.1

Definição, gêneros e espécies Aristóteles estabelece que «a expressão definitória tende à essência e à substância» (Secondi Analitici, 90b, 30). Como definir uma substância significa estabelecer sua causa, para além dos acidentes por que pode estar afetada, será necessário trabalhar somente sobre determinações essenciais. Não se define o homem dizendo que corre ou que está doente, mas dizendo que é animal racional e de tal modo que o definiens seja co-extensivo do definien- dum e vice-versa, isto é, que não haja nenhum animal racional que não seja homem e nenhum homem que não seja animal racional. Para chegar a essa determinação última que é a definição «é preciso, pois, admitir determinações dessa natureza e continuar (... ) a aumentar seu número, até que se atinja o momento em que pela primeira vez apareçam estabelecidas determinações, cada uma das quais com uma esfera de predicação mais extensa do que a do objeto em questão, mas de modo a não superar em seu conjunto a extensão do objeto: aqui, na realidade, estará necessariamente a substância do objeto» (ibidem, 96a, 30-5).

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Note-se que, para Aristóteles, dar a definição de um termo significa encontrar o médio, ou seja, a causa, mas a definição não é a demonstração: não aspira a demonstrar que uma coisa é (extensão), mas que coisa uma coisa é (intensão) (ibidem, 90b, et seqs.). Tanto é verdade que no silogismo, que demonstra, os termos não são conversíveis, enquanto na definição o são. Dar uma definição é estabelecer postulados de significado e nessa operação admite-se aquilo que o silogismo, ao contrário, deveria provar (ibidem, 91a, 35). A definição postula um sistema de dependências «ainda que quem responde não dê seu assentimento» (ibidem, 91b, 18) e, na realidade, é admitida como indemonstrável como premissa para um silogismo. «Quem define não prova que um objeto é» (ibidem, 92b, 20). A definição «explica o que significa o nome de um objeto, ou de qualquer modo será um outro discurso equivalente ao nome» (ibidem, 93b, 30).

Para chegar a definir essa equivalência é necessário encontrar um método que não admita equívocos. E aqui entram em jogo o que a tradição posterior chamará predicáveis, isto é, os modos como as categorias podem ser predicadas de um sujeito. Nos Topici (I 101b 17-24) ele caracteriza somente quatro predicáveis: gênero, próprio, definição e acidente. Porfirio identificará cinco: gênero, espécie, diferença, próprio e acidente. Aristóteles tinha algumas boas razões para limitar o número a quatro: a espécie é dada pelo gênero mais a diferença, e gênero mais diferença formam a definição; por isso, se se fala de definição não é mais necessário mencionar a espécie. É verdade que então não seria absolutamente mais necessário nomear o gênero e, no fim das contas, pareceria mais lógica a solução porfiriana, ou seja, eliminar a definição e manter espécie, gênero e diferença. Mas Aristóteles excluía a espécie também porque não se predica a espécie de nada. Sendo ela o sujeito último de toda predicação não pode, portanto, ser enumerada entre os predicáveis. Há quem veja o movimento de Porfirio como inspirado numa visão mais platónica da espécie. Mas não nos detenhamos muito nesse ponto porque, como veremos no fim de nossa argumentação, uma vez esclarecido o problema da diferença, espécie e gênero tornam-se irrelevantes.

Ora, Porfirio retoma esses problemas na Isagoge (III século) e sua abordagem, mediante a exegese que dela faz Boécio, passa a constituir a melhor parte de todo o comentário medieval sobre o problema da categoria e da definição. É por isso sob a forma a nós transmitida por Porfirio que devemos examinar o problema da árvore de definição. Os predicáveis estabelecem o modo de predica-

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ção de cada uma das dez categorias. Pode haver portanto dez árvores de Porfirio, uma das substâncias que permita definir o homem como animal racional mortal, a outra (por exemplo) das qualidades, que permita definir o púrpura como uma espécie do gênero vermelho e o vermelho como uma espécie do gênero cor.

Não há uma árvore das árvores, porque o ser não é um summum genus e os gêneros generalíssimos são apenas as categorias, mas isso não exclui que possa haver um número finito de inventários finitos.

Porfirio evita a discussão sobre a natureza dos predicáveis e trata-os como artifícios lógicos. Sugere, porém, uma estrutura em árvore.

Quando Aristóteles falava de inventário finito (Secondi Analitici, 83a et seqs.), partia das substâncias primeiras e procurava defini-Ias inventando, por assim dizer, árvores quase ad hoc, enquanto Porfirio não evita a tentação neoplatônica de conceber (ainda que em sentido lógico) uma 'cascata dos seres'. O fato é que em toda teoria dos inventários finitos funciona uma forma mentis neoplatônica, embora totalmente secularizada.



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