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Uma teoria do significado supera essa contradição se conseguir formular um modelo capaz de integrar, em parte ou no todo, semântica e pragmática. Mas isso pressupõe que se entenda L não como um sucinto dicionário, mas como um complexo sistema de competências enciclopédicas.
1.9 Cooperação textual e enciclopédia
Que movimentos cooperativos realiza o intérprete de um texto? Ele encontra-se antes de mais nada diante do texto como manifestação linear, cadeia de enunciados. Em primeira instância, deve determinar com precisão uma língua L, por pobre que seja (charná- Ia-emos 'dicionário de base'), comum ao emissor e ao destinatário. Pode ser Suficiente, no começo, decidir se o emissor fala em italiano, francês, turco. De outro lado, D realiza imediatamente uma inspeção preliminar na situação de enunciação S1. Deve saber quem enuncia, que ato linguístico está realizando, em relação a que circunstâncias etc. É evidente que as infinitas inferências sobre a situação de enunciação não podem ser previstas por L, embora construída de modo complexo. Mas se L é construída em formato de enciclopédia, D está em condição de estabelecer com base no tom usado por E se está recebendo uma ordem ou uma súplica, porque L (como com- petência enciclopédica) deve prever um dicionário paralinguístico.

Pode ocorrer que D reconheça que E deu uma ordem porque sabe que E é seu superior hierárquico. Faz parte de uma competência enciclopédica a noção de que geralmente os superiores dão ordens aos inferiores e não vice-versa. Só por essa razão, se E tivesse usado um tom imperativo e, no entanto, fosse hierarquicamente subordinado a D, D estaria em condição de suspeitar que E tinha errado de tom porque não é convencionalmente possível que um inferior dê uma ordem a seu superior.

A maneira como a enciclopédia pode registrar hábitos com as regras hierárquicas é indubitavelmente um problema. Propõe-se hoje (cf. a bibliografia em Eco 1979) que a enciclopédia registre esses usos sob a forma de roteiros (frames ou scripts). Os roteiros seriam esquemas de ação e de comportamento preestabelecidos (como o participar de uma festa, o ir à estação para partir, servir e consumir um hambúrguer). Podem-se conceber, além dos roteiros comuns, também roteiros intertextuais, ou regras de género (por exemplo, como deveria, de maneira verossímil, terminar o duelo entre xerife e bandido num western tradicional).

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Por isso, voltando à situação descrita no § 1.7, se E fala e D

tira daí a conclusão de que E mente, porque já conhece o resultado do encontro Juve-Inter, ou porque sabe em virtude de experiência pessoal que E é um mentiroso contumaz, nesse caso se está diante de inferências idiossincráticas que não podem ser previstas pela enciclopédia. Mas se D é um jornalista que entrevista um magistrado E, e E responde a uma questão precisa mudando de assunto, D sabe convencionalmente (ou tem razões convencionais para supor) que E não quer responder a uma questão muito delicada, porque a enciclopédia deveria registrar a regra pela qual os magistrados respondem evasivamente aos jornalistas sobre questões submetidas ao segredo de justiça.

Do mesmo modo D poderia decidir que E fala de modo irónico porque conhece por convenção algumas regras retóricas (por exemplo, que, num texto, a ironia é sempre assinalada por artifí- cios de pronuntiatio). Mais difícil é explicar em termos enciclopédicos como D reconhece que um certo termo é usado em sentido figurado (metáfora, sinédoque, metonímia): de fato, D pode che- gar a essa suspeita somente se entende o texto como ato de referimento e compara-o a estados de fato. Mas as regras linguísticas permitem a D descobrir se uma expressão é usada em sentido figurado. Diante da expressão /O carro devorava a estrada/ não é necessário verificar se um automóvel 'come' de fato asfalto. Basta ter uma regra em L que estabeleça que /devorar/ é ação realizada por um sujeito orgânico sobre um objeto orgânico, para saber que não pode ser verdadeiro (se L tem razão) que um carro devore a estrada. Portanto, se se exclui que o emissor mente, deve surgir a suspeita de uso figurado: e nesse ponto a enciclopédia não só oferece instruções para a caracterização dos mecanismos metafóricos mas poderia também oferecer esquemas intertextuais de usos metafóricos análogos, reais e verdadeiros roteiros retórico-estilísticos. Enfim, quando peço um hambúrguer, presumo que o garçom possua roteiros apropriados que prevêm a dimensão média de um hambúrguer e as modalidades de um atendimento 'normal'. Esses roteiros são socialmente codificados e, na realidade, são ensinados nas escolas de hotelaria. Não se vê por que tais escolas devam ser teoricamente mais eficientes do que as escolas de filosofia da linguagem. O problema, pois, não é se se podem representar essas regras, mas quantas dessas regras se podem representar, problema a que voltaremos depois (cf. § 4.2). o significado contextual vai muito além dos significados lexicais, mas isso só é possível se a

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enciclopédia fornece a) significados lexicais em forma de instrução para a inserção contextual e b) roteiros.

Sobre essa base o destinatário poderá depois elaborar cadeias de inferências capazes de fazer 'crescer' o significado contextual para além de cada previsão enciclopédica. Mas para tornar possível esses investimentos de significado deve existir uma estrutura de L tal que esses significados contextuais sejam atualizáveis.

No romance de ficção científica The space merchants (1953), de PohI e Kornbluth, o protagonista, ao acordar, abre a torneira de água doce, de que caem poucas gotas, porque - afirma - não é capaz de barbear-se com água salgada. A enciclopédia diz apenas, ao leitor, que geralmente em casa há somente torneiras de água doce. A oposição com /salgada/ sugere que /fresh water/ não tem valor retórico-exortativo. No âmbito desse texto o leitor deve decidir que nos encontramos num mundo do futuro onde a água doce escasseia e os apartamentos são alimentados também com água do mar. O co-texto fundou uma enciclopédia idioletal.

Dever-se-ia dizer que uma teoria do significado contempla apenas os dados que a enciclopédia comum fornece e não pode ocupar- se dessas atualizações idiossincrático-contextuais. De fato, porém, o contraste com o significado convencionalmente registrado torna possível o novo significado; não só, mas se deveria dizer que desse momento em diante, registrando também esse romance entre os possíveis roteiros intertextuais, a enciclopédia enriqueceu-se de novas possibilidades. Portanto, uma semiótica do significado deve a) teorizar as possibilidades desses fenómenos não previsíveis, b) constituir as possibilidades de uma representação enciclopédica convencional que as explique.


2 O conteúdo
2.1 Significado e sinonímia

Os artifícios mais comuns para registrar de algum modo o significado de um termo são a) o termo equivalente numa outra língua (gato = chat), b) o suposto sinónimo (gato = bichano), c) a definição (gato = felino doméstico), d) a convenção barras - aspas baixas (/gato/ = «gato») em que as barras indicam que a palavra vale como expressão e as aspas indicam que a mesma palavra vale (como termo da metalinguagern teórica, e na falta de coisa melhor) como significado dessa expressão.

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A hipótese que rege o uso desses artifícios é que o signo de igualdade ou de equivalência posto entre expressão e significado tem valor bicondicional: se gato, então felino doméstico e se felino doméstico, então gato. Naturalmente é necessário admitir que o significado se possa exprimir apenas por sinonímia, isto é, mediante outras expressões que tenham o mesmo significado. Como se vê, as definições de /significado/ e de /sinonímia/ implicam-se reciprocamente e, portanto, a definição do significado como sinonímia é circular.

A circularidade pode, no máximo, ser confirmada por evidências empíricas: os usuários de uma língua L usam duas expressões chamadas sinônimas para referir-se aos mesmos objetos. Mas numa gnosiologia que não julgue o conhecimento necessariamente como reprodução especular e intuitiva da realidade, também essa prova tem caráter circular. Ela presume que se possa reconhecer mais de um complexo de dados da sensação como 'o mesmo objeto' e, portanto, como duas ocorrências físicas do mesmo tipo abstrato, ou classe ou categoria. Deve-se, pois, presumir que os processos de categorização não dependem dos processos semióticos.

Ao contrário, é lícito suspeitar que processos semióticos e processos de categorização (e no limite, portanto, processos perceptivos) sejam muito solidários. A isso conduziria em cada caso uma teoria que defina o significado não em termos sinonímicos ou em termos de referimento, mas de maneira mais formal: que descreva o significado como o resultado de uma organização categorial do mundo. A tentativa mais interessante de chegar a uma definição formal do significado é a realizada por Hjelmslev.
2.2 Significado como conteúdo
O princípio de que parte Hjelmslev ao analisar a estrutura de uma «semiótica» (sistema de signos) é que «uma totalidade não consiste de coisas mas de relações» (1943). «Postular os objetos como alguma coisa de diferente dos termos das relações é um axioma supérfluo)» (ibidem). Como é sabido, Hjelmslev propõe considerar uma semiótica (um sistema de signos) como uma função contraída por dois funtivos, o plano da expressão e o plano do conteúdo. Distingue os dois planos como sistemas analisáveis e entidades formais, tipos cuja ocorrência concreta gera substâncias. A forma de qualquer um dos dois planos resulta da organização de um continuum indiferenciado em unidades pertinentes (que se poderia definir de outra maneira como o complexo amorfo da matéria, ou do universo não ainda semiotizado) dando lugar ao seguinte diagrama (que repre- senta uma interpretação e uma reformulação das idéias hjelmslevianas):

Continuum

Substância

Forma


E Forma Substância

ou Matéria

A forma da expressão torna pertinente uma determinada porção do continuum (sons, timbres, relações espaciais etc.), construindo um sistema de tipos estruturado por oposições e cujas substâncias são cada uma das ocorrências. Do mesmo modo, a forma do conteúdo estrutura determinadas porções (idealmente, a totalidade) do continuum do exprimível (em outras palavras, o mundo como experiência possível), construindo um sistema de tipos estruturado por mútuas oposições. Enquanto à luz das modernas aquisições da linguística é fácil imaginar um sistema de expressão, por exemplo o sistema fonológico, Hjelmslev encontra certa dificuldade em fazer conceber um sistema do conteúdo, e todas as tentativas de exemplificar sua orga- nização limitam-se a reconstruir porções particulares, como sistema de cores ou de entidades vegetais. Na figura acima decidiu-se representar continuum da expressão e continuum do conteúdo como uma mesma entidade, interpretando Hjehnslev segundo critérios de coerência teórica. o continuum que se forma para exprimir-se é o mesmo de que se fala. Às vezes a língua torna pertinentes aspectos sonoros do continuum para exprimir aspectos espaciais, como acontece quando se anunciam, verbalmente teoremas geométricos; às vezes se forma som para exprimir as leis dos sons (discursos sobre as leis fonéticas); às vezes um diagrama que expressa relações espaciais torna um certo espaço pertinente de maneira expressiva para falar de espaço.

Esse modo de entender o continuum abre uma questão de grande alcance metafísico e em última análise enuncia o problema (devido apenas aparentemente à mera homonímia) do significado perceptivo e fenomenológico, do significado da experiência, da iden-


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tidade ou diferença entre conteúdo cognoscitivo e conteúdo semântico (cf. em particular Husserl 1900-1901, Sexta pesquisa), que é, além disso, o mesmo problema que se encontrará em Peirce (cf. § 4.1) a propósito das relações entre objeto dinâmico e objeto imediato. O continuum hjelmsleviano representa uma espécie de coisa- em-si, cognoscível apenas mediante as organizações que dele dá o conteúdo; estabelecer, em termos de tornar pertinente o conteúdo, que a França é o que está formalmente delimitado por não ser a Espanha, o Oceano Atlântico, a Mancha, a Bélgica, Luxemburgo, a Alemanha, a Suíça, a Itália e o Mediterrâneo, significa (diria Frege) que ela pode ser dada deste ou de outros modos. A pergunta é se o continuum mostra linhas de tendência, ou leis, que tornam certas organizações mais 'naturais' do que outras.

Que Hjelmslev pense no continuum como algo já dotado de sentido é sugerido pelo fato de que, embora a decisão possa soar estranha, se refere seja ao continuum expressivo, seja ao do conteúdo, chamando-os ambos /mening/, termo dinamarquês traduzível como /sentido/. Hjelmslev de um lado reforça que esse sentido é «uma massa amorfa» (ibidem), mas diz também que ele, embora sendo inacessível ao conhecimento, ainda que não tenha existência científica anteriormente a sua formação, todavia representa «um princípio universal de formação» (ibidem).

Perguntar-se qual é a organização ótima do conteúdo implica perguntar-se quais são as relações entre percepção, « preenchimento de sentido» (Husserl), atividade categorial. Não nos esqueçamos de que, se fosse reconhecido um sujeito transcendental que circunde o real de categorias, enquanto atividade esse sujeito seria também parte do continuum e enquanto unidade de conteúdo seria um resultado da atividade de tornar semioticamente pertinente.

Por isso, o problema semiótico da construção do conteúdo como significado é estreitamente solidário do problema da percepção e do conhecimento como atribuição de significado à experiência. E isso explica as razões da aparente sinonímia entre significado semiótico e significado perceptivo, gnosiológico, fenomenológico. O problema pode ser diferido, por razões de economia “disciplinar” mas não pode ser evitado (cf. Garroni 1977). Uma semiótica madura deverá chocar-se e amalgamar-se com a problemática filosófica da teoria do conhecimento. No momento basta manifestar a suspeita de que a abordagem semiótica do problema do significado (da maneira como é exposto por Hjelmslev e Peirce) é mais produtiva, mesmo em tal direção, do que muitas outras discussões filosóficas.

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2.3 As figuras do conteúdo


Hjelmslev traduz a noção tradicional de signo na de função sígnica como «unidade que consiste de forma do conteúdo e de forma da expressão» (1943). O paralelismo entre expressão e conteúdo exige que, se uma expressão é decomponível em figuras, assim deve ocorrer também para o conteúdo: «na prática o procedimento consiste em procurar analisar as entidades que entram em inventários ilimitados simplesmente como entidades que entram em inventários limitados. O trabalho consistirá, pois, em levar avante a análise até que todos os inventários se tornem limitados, ou melhor, quanto mais limitados possível... Nessa redução de unidades de conteúdo a "grupos", faz-se um conteúdo de um signo corresponder a uma cadeia de conteú- dos de signos que tenham certas relações recíprocas o (ibidem). Hjelmslev está aqui falando de análise em componentes semânticos.

Todavia, analisando como age uma língua natural, ele sabe que o inventário dos conteúdos das palavras é ilimitado, ou que os lemas de um léxico de uma língua natural constituem uma série aberta. Espera, porém, poder encontrar inventários limitados (selecionantes), como os conteúdos de elementos derivados e não flexionais, e outros inventários, ainda que ilimitados, como inventários de conteúdos de raízes.

Suponhamos, diz ele, que se deva registrar as entidades de conteúdo «carneiro», «ovelha» , « porco», «porca», «touro», «vaca», «garanhão», «égua», «zangão», «abelha», «homern», « mulher», «macho» e «fêmea» e «(gado) ovino», «(gado) suíno», «(gado) bovino», o (gado) «equino», «abelha», «(ser) humano». Ora, as primeiras doze entidades podem ser eliminadas do inventário dos elementos ose podem ser explicadas de maneira unívoca como unidades relacionais que compreendem apenas 'macho' e 'fêmea' de um lado, e 'ovino', 'suíno', 'bovino', 'equino', 'abelha' e 'humano' de outro» (ibidem).

Na edição inglesa Hjelmslcv faz, porém, uma observação que a tradução italiana relega para nota, porque não se adapta aos crité-


rios de tradução adotados, ou seja, que Hjelmslev não distingue entre macho e fêmea, mas entre os pronomes /he/she/ e, portanto, não fala de ovelha fêmea mas de /she-sheep/. Do ponto de vista da compreensibilidade da classificação a tradução não subtrai nada (e não podia adotar o critério inglês): salvo que no texto inglês (e imagino que ele seja coerente com o texto dinamarquês) Hjelmslev nesse ponto afirma que /he/ e /she/ como pronomes pertencem a um inventário limitado, enquanto as outras figuras do conteúdo (como ovino ou humano) per- tencem ainda a um inventário ilimitado. Não deveria haver dificuldade para admitir que «macho» e «fêmea» pertencem também eles a um inventário limitado, mas aqui estamos já no universo das oposições semânticas (e deveremos decidir quantas outras oposições basilares estão contidas nesse inventário: criança/adulto, alto/baixo etc.) enquanto no caso dos pronomes Hjelmslev tinha, por assim dizer, uma garantia morfológica da limitação do inventário. Mas é certo que sobre bases morfológicas se obtém um inventário bastante pobre. A conclusão do discurso é que Hjelmslev afirma a necessidade de encontrar inventários limitados, mas não é capaz de encontrar garantias para definir os limites de um inventário e, exceto /he/she/, todos os inventários sobre que trabalha, sejam eles palavras ou figuras de conteúdo, aparecem como ilimitados. o problema está indubitavelmente encaminhado, porque se chegou a reduzir o conteúdo de vinte palavras à combinatória de 6 x 2 figuras, mas não se pode ainda dizer que a idéia de um dicionário de componentes finitos esteja realizada.

A proposta de Hjelinslev parece conformar-se às exigências de muitas teorias semânticas posteriores. Um dicionário concerne unicamente ao conhecimento linguístico e não fornece instruções para reconhecer os referentes eventuais dos termos que ele descreve intensio- nalmente. o dicionário hjelmsleviano nos diz por que /uma ovelha é um ovino fêmea/ e /se x é uma ovelha, então não é um garanhão/ são expressões semanticamente bem formadas, embora o usuário da língua não tenha jamais visto uma ovelha e/ou um garanhão. Outras teorias dicionariais, para fornecer instruções acerca da possibilidade de reconhecimento do referente, introduzem nas representações dicionariais elementos espúrios como por exemplo os 'distinguishers' de Katz e Fodor (1963; e para uma reformulação desse princípio veja- se a 'teoria neoclássica do referimento' in Katz 1979).

Podemos, pois, estabelecer que o dicionário hjelmsleviano está em condição de explicar alguns fenómenos semânticos que, segundo a literatura corrente, fazem exatamente parte do dicionário:

I) sinonímia e paráfrase (uma ovelha é um ovino fêmea);

II) similaridade e diferença (há um componente semântico comum entre ovelha e garanhão, ou entre garanhão e égua, enquanto de outro lado se podem estabelecer com base em que outros compo- nentes essas várias entidades de conteúdo se distinguem);

III) antonímia (/homem/ é antônimo de /mulher/);

IV) hiponímia e hiperonímia (/equino/ é o hiperónimo cujo hipónimo é /garanhão/);

V) sensatez e anomalia semântica (/os garanhões são machos/ é dotado de sentido enquanto /um garanhão fêmea/ é semanticamente anómalo);

VI) redundância (infelizmente enquanto exemplo de dicionário, por causa de seu formato reduzido, a redundância coincide com a sensatez: /garanhão macho/ é sensato mas redundante);

VII) ambiguidade (um dicionário mais amplo deveria explicar a diferença entre /toro/ como animal e /toro/* como figura topológica, e resolver as ambiguidades que resultam dessa homonímia);

VIII) verdade analítica (ainda uma vez, por causa dos limites do dicionário, /os garanhões são machos/ é analiticamente verdadeiro, porque o conteúdo significado do sujeito contém o signifi- cado do predicado, mas é ao mesmo tempo redundante);

IX) contràditoriedade (não se pode dizer /as éguas são machos/);

X) concisão (o dicionário estabelece que expressões como /as ovelhas produzem lã/ dependem do conhecimento do mundo);

XI) inconsistência (/esta é uma ovelha/ e /este é um carnei- ro/ não podem ser afirmados como igualmente verdadeiros, se atri- buídos ao mesmo indivíduo);

XII) inclusão e implicitação semântica.

Este último requisito é muito importante e os dois fenómenos são estreitamente interconexos. Com base no dicionário, cada termo e contém' ou 'compreende' certas propriedades e, por força dessa relação semântica de inclusão (e independentemente de outras leis lógicas), /esta é uma ovelha/ implicita /este é um ovino/; /este não é um ovino/ implicita /esta não é uma ovelha/ enquanto /esta não é uma ovelha/ deixa aberto à discussão se este é ou não um ovino.

Foram severamente limitados os requisitos para um dicionário, ainda que alguns autores introduzam alguns outros mais controver-

* Em italiano, a palavra /toro/ significa o animal e de uma homonímia. Em português, esses significados são expressos por palavras diferentes: touro e toro. (N. do T.)

tidos (cf. por exemplo Katz 1972, p. 5-6). Em todo caso o dicionário hjelmsleviano deixa sem resolver dois importantes problemas. Primeiramente, define-se uma ovelha como um ovino fêmea, não se define o que é um ovino (nem o que é uma fêmea) e, por isso, deixa aberto o problema da interpretação das figuras de conteúdo. Em segundo lugar, como se viu, Hjelmslev aspira a restringir os inventários das figuras, mas não estabelece se e como isso é possível.

Ocuperno-nos imediatamente do segundo problema, que parece ser o mais debatido em todas as discussões posteriores sobre a possibilidade de um dicionário. o requisito que parece irrenunciável. é precisamente que o dicionário permita analisar o significado das expressões linguísticas mediante um número finito de primitivos (sejam eles componentes semânticos, marcas, propriedades, universais ou quaisquer outros).

Não é indispensável admitir que as expressões a definir sejam em número finito, ainda que a condição ideal de um dicionário é que se tenha um número finito de lemas analisável mediante um número finito de primitivos (Katz 1972, p. 59-60). Mas, não obstante seja aberto o número de lemas a definir, é indispensável que se possa manobrar um número finito de primitivos, partindo do princípio de que «cada mente humana contém como parte do próprio património um sistema semântico, isto é, um conjunto de conceitos elementares ou 'átomos lógicos' e regras segundo as quais esses átomos são combinados em entidades mais complexas» (Wierzbicka 1972, p. 25).

O problema será então como determinar os primitivos e como limitar seu número. Numa das mais agudas críticas feitas à idéia de dicionário, Haiman (1980) sugere que os primitivos podem ser caracterizados de três modos (e historicamente foram caracterizados de um desses três modos).

Primeiro modo. Os primitivos são conceitos 'simples' e possivelmente os mais simples. Infelizmente é bastante difícil definir um conceito simples. Para um falante comum é mais simples, no sentido de que é mais facilmente compreensível, o conceito de 'homem' do que o de 'mamífero', e foi observado que para um dicionário é bastante mais fácil definir termos como /infarto/ que verbos como /fazer/ (Rey-Debove 1971, p. 194 et seqs.). O risco é que os conceitos simples (definientia) sejam mais numerosos que os conceitos complexos a definir. Alguém (Fodor 1977, p. 154) observou que o requisito segundo o qual os primitivos devem ser em número menor do que os definienda não é estritamente necessário: na realidade é possível imaginar um sistema fonológico em que haja mais traços distintivos do que fonemas. Mas os fonemas de uma língua


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são, no entanto, sempre em número finito, enquanto para um sistema lexical trata-se de aceitar a idéia de uma cadeia infinitamente aberta de lemas definíveis mediante uma série indefinidamente aberta de primitivos, o que comprometeria definitivamente o requisito da controlabilidade do sistema do dicionário. Além disso, esse primeiro modo para a descoberta dos primitivos está exposto às críticas que se podem dirigir ao segundo modo.



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