Série Fundamentos



Baixar 1,18 Mb.
Página7/27
Encontro11.09.2017
Tamanho1,18 Mb.
1   2   3   4   5   6   7   8   9   10   ...   27
67
referência fora de algum modo enunciada. Não só, já com Platão e Aristóteles se sabia que as expressões simples não podiam ser usadas para fazer referência: a palavra /gato/ ou o nome /Dião/ não podem ser usados para fazer asserções a respeito de um estado do mundo. As referências podem ser realizadas apenas por expressões compostas que assumem a forma de juizos (/Dião caminha/, /Há um gato no telhado/, /Os gatos são mortais/).
Naturalmente na linguagem infantil chamada holofrástica, a expressão /gato/ pode ser usada em tom exclamativo para dizer que há um gato no telhado. A palavra isolada está no lugar de um enunciado e, por essa razão, de um juízo verdadeiro ou falso. De fato, está‑se aqui em presença de um enunciado que combina expressões de diversos sistemas semióticos: a palavra é acompanhada por fonemas (sistema paralinguístico) e por gestos (sistema cinésico). Que o gato está no telhado é 'dito' por um indicador apontado e que o gato está aqui é expresso pelo fonema exclamativo.

A semiótica grega (veja‑se a distinção estóica entre (lektá) completos e incompletos) sabia que uma referência pode ser realizada por expressões complexas (enunciados), mas somente empregando expressões simples (termos) cujo significado já fosse estipulado.

Em outras palavras, dada uma linguagem L (verbal ou não verbal), ela, com base em postulados de significado, associa a uma classe de expressões y algumas propriedades (a, b, c) que delimitam o significado x de y. Quando em um processo de comunicação um emissor transmite a um destinatário a expressão /Há um y no telhado/, o destinatário deve compreender que se afirma que no mundo de referência, no telhado, é um z que possui as propriedades a, b, c que L postulou como caracterizando aquele x associado a todas as ocorrências de y.

O problema do significado diz respeito então às convenções de significação essenciais à realização dos processos de referência. Se se decide chamar intensão de y as propriedades que circunscrevem x e extensão a classe de todos os z a que o par y/z pode referir‑se, dir‑se‑á que a determinação das intensões precede e funda a possibilidade de uso extensional, embora de um ponto de vista empírico um linguísta que não conheça os significados das palavras de uma certa língua proceda de modo oposto e procure ver a que objetos as palavras se referem.

Que a extensão seja função da intensão poderia ser rebatido pela eficácia empírica de comportamentos como expressões do tipo /Dê‑me aquela coisa que está em cima da coisa/ ou de procedimentos como o appellatio a respeito do qual Anselmo d'Aosta teoriza

no De grammatico. Apesar da significatio de um termo, pode‑se decidir usá‑lo apelativamente para indicar objetos diferentes dos descritos por seu significado. Mussolini no discurso do bagnasciuga chamava /bagnasciuga/ (linha de flutuação) aquela parte da praia que, ao invés, chama‑se /battigia/ (arrebentação); (o bagnasciuga é, ao invés, uma parte da quilha de uma embarcação) *. Mas seus destinatários, deduzindo do contexto, entendiam que ela estava indiretamente postulando uma nova intensão para o termo battigia (ainda que com total desprezo pela tradição linguística).

A distinção entre significado e referência é esclarecida muito bem por Wittgenstein (1941‑49). «É importante deixar estabelecido que, se com a palavra "significado" (Bedeutung) se designa o objeto que 'corresponde' à palavra, então a palavra é empregada de modo contrário ao uso linguístico. Isso quer dizer trocar o significado de um nome com o portador do nome. Se o senhor N. N.** morre se diz que morreu o portador do nome, não o significado do nome. E seria insensato falar desse modo, porque, se o nome deixasse de ter um significado, não teria sentido dizer: "O senhor N. N. morreu" ».
1.4 o equívoco da Bedeutung
A distinção entre referência e significado tornou‑se possível pelo fato, de que, num estudo destinado a ter muita importância no pensamento lógico e semântico, Frege (1892a) tinha delineado uma espécie de triângulo semiótico aparentemente apenas similar ao da figura do parágrafo 1.3:
Sínn
Zeichen
Bedeutung
A língua alemã autoriza uma tradução de IBedeutungl por /signifi­cado/ ou pelo ambíguo termo inglês /reference/, e parece que o
* bagnasciuga (de bagnare/molhar + asciugare/enxugar) é a parte externa do casco do navio, situada acima da linha de flutuação, que, de acordo com o carregamento do navio, às vezes está enxuta e às vezes molhada. O termo, usado erroneamente por Mussolini, é empregado ainda hoje no italiano popular para indicar a battigia, ou seja, a linha da praia onde as ondas quebram e que ora está molhada, ora enxuta. (N. do T.)
** Sigla usada em italiano para indicar pessoa cujo nome se desconhece. É abreviação da expressão latina "nescio nomen". (N. do T.)

69
próprio Frege autorizara Peano a usar o termo /significação/. Mas, além do fato de que nada garante que um autor seja o melhor juiz das próprias traduções, o uso de /Bedeutung/ foi acusado, com razão, de 'bizarria' (Cohen 1962, ed. 1966, p. 174; cf. também Hus­serl 1900‑1901).

Frege diz que a Bedeutung é o objeto (Gegenstand) a que o signo se refere. Mas antes de mais nada distingue o objeto de um signo simples do objeto de uma proposição. A Bedeutung de uma proposição é um valor de verdade. Hoje se diria que é sua extensão. Na realidade, para Frege uma proposição pode ter apenas dois obje­tos, o verdadeiro ou o falso, e paradoxalmente "todas as proposi­ções verdadeiras terão a mesma Bedeutung" (mas, na tradução ita­liana (1892b), a afirmação soa ainda mais paradoxal, porque se diz que todas as proposições verdadeiras terão o mesmo significado). Por conseguinte, não será com base na Bedeutung que se poderá distinguir os diversos significados das duas proposições.

Diferente é o problema dos nomes próprios de objetos indivi­duais. O fato de que Frege use o termo /objeto/ induz a pensar que a Bedeutung seja o objeto concreto a que o nome se refere.

O Sinn seria, ao contrário, o sentido, ou «o modo como esse objeto nos é dado» (ibidem). A um objeto físico concreto x corresponde­riam os dois sentidos 'estrela da tarde' e 'estrela da manhã' e poder­se‑ia dizer que os dois sentidos são duas descrições precisas que se podem referir ao mesmo objeto.

Mas a noção de objeto em Frege é muito mais ampla do que a de objeto concreto ou classe de objetos concretos. Frege (1892a) tinha estabelecido que o objeto em sentido lógico é tudo o que, por relações não invertíveis, cai sob um conceito. Mas também um con­ceito pode tornar‑se um objeto quando o tornamos sujeito de predi­cação, como no caso de /O conceito 'homem' não é vazio/, em que «as primeiras três palavras são concebidas como constituindo um nome próprio ». o objeto de Frege é pois qualquer sujeito de juízo. A distinção objeto/conceito não tem relevância ontológica como poderia ter a distinção indivíduo concreto/propriedade: é uma dis­tinção lógico‑gramatical.

Perguntamo‑nos, dada essa noção bastante ampla de objeto, que é então a Bedeutung de um nome próprio. Para Frege, o ponto de encontro das três medianas de um triângulo é um objeto: ele pode ser dado sob, a forma de dois sentidos diferentes, isto é, como o ponto de encontro entre a primeira e a segunda mediana, ou entre a segunda e a terceira. Mas o que é que distingue esse objeto (que
70

seria a Bedeutung do nome correspondente) dos dois sentidos sob .os quais é dado? Esse misterioso ponto de encontro não existe na ordem natural, mas aparece construível e compreensível apenas sob as duas descrições que Frege chama sentidos (e provavelmente sob outras descrições complementares).

Surge evidentemente um problema quando nos perguntamos a que objeto corresponde o nome /corpo celeste mais distante da Terra/: Frege julga que tem um sentido, mas duvida que tenha uma Bedeutung. Provavelmente, ele quer dizer que essa expressão remete a um sentido compreensível por força dos significados lexicais com que por sua vez é expresso, mas que esse sentido-descrição não circunscreve suficientemente as propriedades de um indivíduo correspondente em algum mundo possível (exatamente como acontecia com o círculo quadrado). Por isso, a Bedeutung da expressão fica indeterminada. Que Frege pense na Bedeutung como num objeto suscetível de localização num mundo possível fica evidente a partir da maneira como trata a expressão Misses foi desembar- cado em ítaca enquanto dormia profundamente/: ele aventa a hipótese de que a expressão não tem Bedeutung (e por isso não é nem verdadeira nem falsa) porque não há uma Bedeutung do nome próprio /Ulisses/; mas admite que ose alguém julga seriamente verdadeira ou falsa a proposição, admitirá que o nome "Ulisses" tenha não apenas um sentido, mas verdadeiramente um significado (Bedeutung)» (1892b). Basta portanto que para alguém (poder-se-ia dizer: em algum mundo doxástico) Ulisses

seja considerado como um objeto, dado por algum sentido, e poder-se-á atribuir-lhe uma Bedeutung. Basta então, para falar de Bedeutung, que se possa descrever um objeto qualquer (indivíduo real, entidade fictícia, conceito matemático) por meio de uma série concomitante de sentidos. Desse modo, então, a Bedeutung de Frege teria curiosamente mais relação com o que até esse momento é chamado /significado/ do que com aquilo que é chamado /referência/.

A Bedeutung é o objeto construível de uma referência possível.

Um último esclarecimento é feito sobre o uso equivocado do termo /denotação/ com que a tradição anglo-saxã traduz frequente- mente seja IIBedeutung/ seja a relação de referência em geral, enquanto na tradição linguístico-estrutural ele designa frequentemente a relação entre um termo e seu significado. Lyons propõe usar /denotação/ em sentido neutro entre intensão e extensão: «Diremos normalmente, por exemplo, que 'cão' denota a classe dos cães (ou talvez algum membro típico, ou exemplar, da classe), enquanto 'canino' denota a propriedade, se tal propriedade existe,


71
cuja posse é condição para a correta aplicação da expressão» (1977). Convirá usar com prudência o termo, visto que seu sentido extensional é expresso igualmente bem por/designação/. Mas nesse caso, atualmente, o uso alemão corrente impõe o termo /Bezeichnung/, enquanto /Bedeutung/ fica à disposição para falar do significado como conteúdo. Em contextos intensionais convém usá-lo apenas quando se queira distinguir a relação entre uma expressão e a propriedade que ela imediatamente significa e a relação entre essa relação e uma nova propriedade cuja significação depende da relação de significação precedente. /Porco/ denota «suíno macho », mas exatamente por isso pode conotar o indivíduo que tem hábitos de suíno . De outro lado, o conflito entre uso extensional e uso intensional de /denotação/ atenua-se se se considera a intensão como condição de denotação em pelo menos um mundo possível.
1.5 Significação e comunicação
Dizer que a intensão determina a possibilidade da extensão equivale a dizer que se podem empregar processos de comunicação apenas com base em sistemas de significação (cf. Hjelmslev 1943).

É óbvio que uma referência pode ser realizada apenas num processo de comunicação em que um emissor produz uma expressão para um destinatário numa situação específica. Todavia não é necessário identificar comunicação e referência porque, como já sabiam também os sofistas, não se comunica apenas para fazer asserções (ou declarações a respeito de um mundo de referência), mas também para realizar outros atos de comunicação, como pedidos, ordens, perguntas. Comunica-se enfim para manifestar uma grande variedade de atitudes proposicionais, de que as asserções ou referimentos são apenas uma espécie. Pode-se entender a expressão de alguma atitude proposicional. como um referimento, mas somente enquanto a expressão de uma crença ou de uma ordem se referem a mundos possíveis. «A teoria do referimento é [ ... ] a teoria do significado para certos tipos simples de língua» (Hintikka 1969b). Hoje as lógicas modais usam o conceito de mundo possível para tratar extensionalmente também os fenómenos intensionais. Mas deveria ficar evidente que desse modo se podem tratar intensionalmente também os fenómenos extensionais (cf. § 1.2).

1.6 Significado lexical e significado textual
Comunica-se por enunciados e, geralmente, por textos. Entende-se por 'texto' seja uma cadeia de enunciados ligados por

72
vínculos de coerência, seja grupos de enunciados emitidos ao mesmo tempo com base em mais de um sistema semiótico. Nesse sentido, a expressão holofrástica do menino (cf. § 1.3) já é um texto. Característica dos textos é o exprimir não só significados diretos (função do significado das expressões simples) mas também significados indiretos. O menino diz /gato!/ também para exprimir indiretamente que está alegre de assistir a esse admirável evento.

É, pois, necessário estabelecer a diferença entre o significado das expressões simples (significado lexical) e o significado textual; e a diferença entre significado direto e indireto. Pode-se falar de significados em todos esses casos?

Alguém sugeriu que para 'compreender' o significado de um texto, especialmente se indireto, o destinatário deve empregar processos de cooperação interpretativa, enquanto o significado lexical é compreensível automaticamente com base no conhecimento de uma língua L.

O problema, porém, não é tão simples. o significado da expressão /A rainha é mulher/ é função dos significados lexicais de /rainha/ ou de /mulher/ apenas em teoria. De fato, não só o intérprete deve cooperar para selecionar a língua L de referimento mas de algum modo deve decidir acerca das alternativas que a língua L lhe oferece, dado que /rainha/ pode significar seja monarca humano do sexo feminino, seja abelha-mestra, seja figura das cartas de baralho. Ao fazer essas operações o destinatário geralmente confronta a expressão em questão com um co-texto determinado, dado que raramente se comunica por enunciados isolados, ou com as circunstâncias extraverbais que acompanham a enunciação.

Pode-se falar de significado lexical como de uma série de regras convencionadas independentemente dos contextos? Admitir essa hipótese não implicará que o significado textual não seja função dos significados lexicais? E então que sentido terá falar ainda de significados lexicais?


1.7 Significado convencional e significado situacional
Reelaborando livremente algumas sugestões de Grice (1957; 1968), distinguir-se-á entre o que uma expressão 'diz' convencionalmente e o que alguém 'quer dizer' (ou entender) usando essa expressão. Definir-se-ão esses dois tipos de significado como convencional e situacional. Considere-se:

I) um emissor E que produz um enunciado y para um destinatário D ;

73

II) uma classe Y de enunciados-tipo cuja ocorrência concreta é y;



III) uma língua L sobre a qual D e E estão de acordo;

IV) uma situação S1 em que E produz y para D;

V) um ato de enunciação e que não é o enunciado y mas o gesto situado em S1 com que E produz y para D;

VI) um significado x que L associa convencionalmente a y;

VII) uma série de significados situacionais que D atribui a y segundo as presumidas intenções de E (sejam eles a, b, c, .... z). Suponha-se agora que E produza em S1 um y (que é um ato de fala) que pode ser transcrito alfabeticamente como:

/O centroavante da Inter deu uma bela lição no zagueiro da Juve 1 *

Admita-se que com base em L se possa atribuir convencionalmente à classe Y um significado x que se poderia traduzir como segue (nesse caso, a 'tradução' é indubitavelmente um artifício que por enquanto mantém função intuitiva): « o centroavante da Inter meteu a bola no alvo de modo tão magistral que humilhou o zagueiro adversário».

Surgem logo algumas dúvidas sobre o que se entende quando se admite que L atribui a /dar uma boa lição/ (que se entende como expressão simples ou como sintagma cristalizado) o significado «vencer magistralmente humilhando o adversário». Se E tivesse falado de um pai e de seu filho que tinha feito uma travessura, a expressão seria interpretada como «aplicar uma severa punição corporal». É necessário então considerar como hipótese que L preveja para /dar uma boa lição/ uma série de contextos. Um contexto é uma classe de ocorrências de cadeias ou grupos de expressões (pertencentes a um ou vários sistemas semióticos ao mesmo tempo); define-se ao contrário como contexto a ocorrência atual e específica de um membro dessa classe. L prevê contextos, enquanto no ato de comunicação se produzem e interpretam expressões num contexto. L preverá, pois, que em contextos esportivos /dar uma boa lição/ significa «vencer magistralmente humilhando o adversário». O destinatário D, identificando no contexto de y termos como /centroa - vante/ e /zagueiro/, decidirá, com base nas regras de L para esses termos, que ele tem relação com um dos contextos esportivos, e interpretará de modo conseqüente. Portanto, o significado lexical


* Inter (nazionale) juv(entus) são times italianos de futebol. (N. do.A)

74
deve ser mais complexo do que a associação de uma expressão com algumas propriedades excepcionais e deve ser entendido como a associação de uma expressão com uma série de instruções para o uso em contextos diferentes. Como se verá (§ 1.9), essa noção de L implica uma semântica com formato de enciclopédia.

Admitindo provisoriamente que L seja constituída como enciclopédia, pode-se todavia ainda dizer que ela associa significados a expressões convencionalmente.

Entretanto, pode ocorrer que o que E diz convencionalmente não seja o que pretendia dizer. Exclua-se o caso de que E minta. Nesse caso está referindo-se de maneira falsa a um estado de coisas e dependerá de D, depois de ter entendido o significado convencional de y, decidir que a proposição expressa por y não corresponde ao que convém. Considere-se, ao contrário, que E enuncie y e queira que D se dê conta de que ele não pretendia dizer (unicamente) x, mas também a escolha:

a) que o centroavante não deu uma boa lição (E é propenso à ironia);

b) que E crê que o centroavante tenha dado uma boa lição (E quer que D o julgue um não conhecedor de futebol; na realidade o centroavante jogou muitíssimo mal);

c) que não se devem fazer certas perguntas (D tinha perguntado a E se ele tivera uma relação sentimental com uma certa senhora e E ostensivamente muda de assunto);

d) que E teve uma relação sentimental com uma certa senhora (D lhe fez a pergunta supramencionada e E sabe que mudando de assunto fará D crer que ele se sente embaraçado de responder afirmativamente);

e) que E é torcedor fanático da Inter (e por isso se aprofunda em apreciações sobre a bela ação do centroavante);

f) que D não deveria mostrar-se muito prepotente (D desafiou E no futebol e E recorda-lhe que outros antes dele sofreram severas lições);

g) que amanhã chegará uma partida de cocaína (E está falando em código);

h) que E está a par dos negócios de D (E cita y para D, porque sabe que y em código significa g e sabe que D recebeu ontem uma mensagem dessa espécie e E quer que D saiba que ele sabe tudo).

Em todos esses casos E está procurando fazer D entender alguma coisa que vai além do significado convencional de y. Pode fazê-lo (sugere Grice) seja por razões mostrativas (para fazer D crer

75
que ele, E, tem uma certa atitude proposicional) ou por razões persuasivas (para provocar, por meio do efeito mostrativo, uma atitude proposicional correspondente em D), mas essa distinção introduziria complicações excessivas nesse discurso. o fato é que, em todos esses casos, se D 'compreende' o que E queria fazê-lo entender, compreende alguma coisa que vai além dos referimentos a que y podia estar orientado no caso de que significasse convencionalmente somente x. Em outras palavras, D não se pergunta mais se E diz ou não a verdade, mas 'compreende' qual é a atitude proposicional de E e o tipo de atitude proposicional que E quer suscitar nele. Naturalmente se D traduzir o resultado das próprias ilações num novo enunciado y, como /Você queria fazer-me acreditar que p/, E terá o direito de responder a D que ele está dizendo uma inverdade. Mas nesse caso o problema do referimento diria respeito ao novo enunciado de D, não ao enunciado de E (isto é, D se teria referido, parece que inveridica- mente, a um estado do mundo, vale dizer, ao fato de que uma dada atitude proposicional de E fosse o caso).

1.8 Semântica e pragmática

Considerando agora todos os casos de significado compreendidos de a a h, damo-nos conta de por que se tem definido esse tipo de significado como situacional. Para poder atribuí-lo a y, D deve comparar o significado convencional x com uma série de dados que constituem a situação de enunciação S1 , como por exemplo o modo como E pronuncia y, aquilo que D sabe sobre a personalidade de E (E é por exemplo um notório elaborador de sutis sarcasmos, ou E é homem fingido e falso que diz sempre uma coisa para dar-nos a entender outra, ou E é tão falso que quando finge dar a entender uma coisa é porque, na realidade, ele entende ainda outra coisa a respeito dela), ou aquilo que sabe sobre outras circunstâncias que acompanham S1 (por exemplo, que y é enunciado em resposta a uma pergunta indiscreta, ou como resposta a um desafio no futebol). Essa indispensável atenção à situação S1 levaria a pensar que, em tais casos, a compreensão do significado situacional não tem muito a ver com o problema do significado, do âmbito da semântica, mas com o problema da pragmática.

Todavia, se se admite que a pragmática é o « estudo da dependência essencial da comunicação, em linguagem natural, do falante e do ouvinte, do contexto linguístico e do contexto extralinguístico » e da «disponibilidade dos conhecimentos fundamentais, da pronti- dão em obter esse conhecimento fundamental e da boa vontade dos participantes do ato de comunicação» (Bar-Hillel 1968, p. 270-1)

76
indubitavelmente todos os modos como D compreende que E abarcava a, b, ..., h dependem exatamente dos fatores elencados.

Nesse ponto há duas opções: a) uma semântica, como representação sistemática de L, concerne somente aos significados convencionais, que são função do significado lexical do enunciado mas não de todos os significados situacionais ou indiretos que dele se podem inferir, pelos quais a semântica de L será construída como dicionário e explicará apenas um “significado literal”, enquanto os outros significados dependem de um complexo de conhecimentos do mundo que nenhuma teoria pode representar e prever; ou b) não existe um significado literal dos termos, de que são função os significados complexos das expressões, e o presumido significado literal de um enunciado depende sempre dos contextos e das assunções fundamentais que não são nem codificáveis nem semanticamente representáveis (cf. Searle 1978). Num divertido exemplo, Searle se pergunta por que, com base em que garantias 'literais', quando peço ao garçom um hambúrguer com mostarda não pretendo (nem ninguém deveria pretender, e deixar-nos-ia estupefatos se alguém o pretendesse) que me tragam um hambúrguer de uma milha de comprimento ou fechado num cubo de plástico para quebrar com o martelo. É óbvio que, para tornar compreensível a minha ordem, jogam assunções fundamentais que de algum modo são comuns a mim, ao garçom e a Searle. Mas Searle não julga que elas possam ser semanticamente representadas.

A hipótese que move estas páginas é, ao contrário, que se deva postular uma língua L que de algum modo contenha entre as próprias regras de significação instruções pragmaticamente orientadas.

Mas como conceber uma L capaz de prever infinitos contextos, circunstâncias e situações? Se isso não fosse possível se teria no máximo, de um lado, um dicionário de L, muito rigoroso, mas insuficiente para explicar os significados situacionais; e de outro, a riqueza inapreensível das condições de uso comunicacional dos termos, a que alude provocativamente Wittgenstein quando diz que o significado de uma palavra é seu uso na linguagem, que entender uma palavra quer dizer saber como ela é usada e ser capaz de empregá-la. «Se "compreender o significado de uma palavra" significa conhecer os possíveis procedimentos gramaticais de empregá-la, então pergunto eu: como posso conhecer o que eu quero dizer com uma palavra no momento em que a enuncio? Ao final não posso ter todos os modos de aplicação juntos na minha cabeça» (1932, p. 49). Mas pouco depois o mesmo Wittgenstein se contradiz admitindo que «a explicação do significado explica o uso da palavra» (ibidem, p. 59).



1   2   3   4   5   6   7   8   9   10   ...   27


©livred.info 2017
enviar mensagem

    Página principal